Panace@ | vol. XXI, n.º 52. Segundo semestre, 2020 68 <http://tremedica.org/panacea.html> Tribuna A Arte de Enfermeiros (1741): aspetos do léxico relativo a doenças e remédios no século XVIII Maria Filomena Gonçalves * * Universidade de Évora - ecs/dll. cidehus-ué/fct - uidb/00057/2020. Dirección para correspondencia:
[email protected]. Resumo: Em Portugal, a publicação de manuais de enfermagem é bem mais tardia do que a de tratados de medicina. A primeira obra desse género é a Postilla Religiosa, e Arte de Enfermeiros (1741), escrita pelo Padre Diogo de Santiago. Na Parte ii desta obra, o autor descreve não só os tratamentos e as mezinhas que costumava administrar aos enfermos, mas também os cuidados a ter, em função da doença, com a alimentação e a higiene. O objetivo deste trabalho é analisar uma amostra constituída por nomes e expressões relativos a enfermidades e remédios. Testemunho da linguagem de um enfermeiro do século xviii, a Arte de Enfermeiros é uma fonte relevante quer para o estudo da língua desse século, quer para o conhecimento das terminologias então usadas no domínio dos cuidados de saúde. Palavras-chave: doenças, enfermagem, léxico, português, remédios, século xviii. Arte de Enfermeiros (1741): notes on the 18th-century lexicon of diseases and treatments Abstract: In Portugal, nursing manuals began to be published much later than medical treatises. The first manual of this kind was Postilla Religiosa, e Arte de Enfermeiros (1741) by Father Diogo de Santiago. In Partii of the volume, the author describes the treatments and medicines administered to the sick, as well as the care provided in terms of food and hygiene, depending on the disease in question. The aim of this study is to analyse a sample of names and expressions used to describe diseases and medicines. Arte de Enfermeiros is representative of the lexicon used by nurses in 18th-century Portugal and offers a relevant source for the study of the Portuguese language and the terminology used in healthcare at that time. Key words: 18th century, diseases, lexicon, nursing, Portuguese, treatments. Panace@ 2020; xxi (52): 68-85 Recibido: 15.ix.2020. Aceptado: 5.xi.2020. 1. Introdução Desde o século xvi, o cuidado dos corpos e das almas era missão dos religiosos, motivo por que os primeiros tratados do que hoje se conhece como enfermagem (Nogueira, 1990; Santos, 2012), ademais de instruções para o cuidado físico dos enfermos —aplicação de remédios e outros tratamentos, cuidados de alimentação e higiene—, incluíam orientações para o conforto espiritual dos que padeciam de alguma enfermidade ou estavam agonizantes. Em Espanha, a publicação de obras desse género remonta ao século xvi. Em Portugal, os manuais destinados a orientar a atividade dos enfermeiros são bem mais tardios do que os tratados de medicina, muito embora estes auxiliassem, ao menos em parte, a prática do cuidado dos enfermos. A primeira obra daquele género intitula-se Postilla Religiosa, e Arte de Enfermeiros (1741) e foi escrita por Diogo de Santiago (f. 1747), padre da ordem de São João de Deus (1495-1550), que desenvolveu a sua atividade no hospital militar da cidade de Elvas, onde escreveu a obra cuja Parte ii é o objeto deste trabalho. Natural de Montemor-o-Novo (Alentejo, Portugal), João Cidade, que ficou conhecido como João de Deus, dedicou-se a dar assistência aos pobres e doentes, missão que o levou a fundar um hospital em Granada, onde está sepultado. Beatificado em 1630 e canonizado em 1690, João de Deus inspirou a criação da Ordem dos Irmãos Hospitaleiros (Sampaio, 2019; «Província Portuguesa da Ordem») com a vocação de cuidar dos enfermos, estando a sua ação ligada sobretudo aos hospitais militares (Borges, 2009), quer em Portugal quer em Espanha, mas também em territórios fora da Península (Índia, Brasil e África). O exercício como enfermeiro no convento-hospital de Elvas, onde veio a morrer em 1747, fica plasmado num manual destinado a instruir os noviços da ordem hospitaleira, em cuja portada se anuncia o contexto de produção e o escopo da obra —«Com que educou, e praticou aos seus Noviços, sendo Mestre delles no Convento de Elvas, para perfeição da vida Religiosa, e voto da Hospitalidade»—, e a figura a quem o autor dedica a Postila: «Fr. Jozé de Jesus Maria, Dignissimo Provincial Apostolico da mesma Província». Obra pioneira, por ser a primeira escrita em português para orientar os enfermeiros (religiosos) nos cuidados a prestar aos enfermos, nela se descrevem as práticas relativas à atividade hoje conhecida como «enfermagem» (Gameiro, 2005), palavra que é bastante recente, já que na lexicografia portuguesa dela se tem atestação em 1913, data da 2.ª edição do Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Cândido Figueiredo (1846-1925). Tal como muitas outras atividades (técnicas, científicas, humanís-
Panace@ | vol. XXI, n.º 52. Segundo semestre, 2020 69 <http://tremedica.org/panacea.html> Tribuna ticas) e ofícios «mecânicos» (manuais), cuidar dos enfermos era, no século xviii, objeto de uma «arte», vale dizer, de um acervo de conhecimentos e preceitos específicos que, vertidos em forma de tratado ou manual, recebia esse nome (arte da gramática, arte química, etc.). Registado desde o século xiii, de acordo com a lexicografia contemporânea define-se o termo da seguinte maneira (Houaiss, 2001): «[…] segundo tradição que remonta ao aristotelismo, conjunto de meios e procedimentos através dos quais é possível a obtenção de finalidades práticas ou a produção de objetos; técnica. O uso dessa habilidade nos diversos campos do pensamento e do conhecimento humano; acervo de normas e conhecimentos indispensáveis ao exercício correto de uma atividade; tratado que encerra tais normas, procedimentos» (Houaiss, 2001). As obras destinadas a orientar, de maneira específica, a atividade dos enfermeiros, quer como «arte» quer com outros títulos, surgem no século xviii para responder a necessidades práticas da assistência aos enfermos, conforme pode inferir-se do facto de em apenas seis anos virem a lume duas obras. Com efeito, depois da «Postila» (1741), em 1747 sai do prelo a segunda obra portuguesa desse género —«Instrucçaõ de enfermeiros, e consolaçam para os affligidos enfermos: e verdadeira pratica de como se devem applicar os remedios, que os Medicos ordenaõ, muito necessaria para que os enfermos sejaõ bem curados, e proveitosa aos praticantes de Medicina»—, embora não seja, na verdade, uma produção original, porquanto se trata da tradução da Instrucción de enfermeros (1617), de Andrés Fernández (f. 1625), médico castelhano que pertencia aos «Hermanos Obregones», congregação hospitaleira cujo fundador, Bernardino Obregón (1540-1599), exerceu em hospitais portugueses. Por isso, em bom rigor, a de Fr. Santiago é a única obra setecentista escrita por um enfermeiro português para orientar a assistência aos enfermos. É de salientar que aquilo que hoje se conhece genericamente como cuidados de saúde, no século xviii abrangia a observação do estado do paciente, a preparação e aplicação de remédios ou mezinhas, em casa ou em enfermarias de hospitais, sendo que nesses cuidados intervinham vários profissionais (Abreu, 2010): o médico —«aquele que sabe & professa a arte da Medicina» (Bluteau, 1716: 289)—, o «cirurgião», que exercia a «arte da Medicina, que com as operacoens da maõ cura chagas, feridas, & outras doenças do corpo» (Bluteau, 1712: 328), o «barbeiro»1 (Bluteau, 1712: 47) ou «sangrador»2 (Bluteau, 1720: 469), isto é, aquele que «sangra» ou «dà sangria»3 ao doente para deste modo «evacuar sangue & os mais humores que andavaõ em as veas misturados com o sangue» (Bluteau, 1720: 470) e, ainda, o enfermeiro a quem, por ser um religioso, nas enfermarias (hospitais) estava confiada não só a assistência física como também o conforto espiritual dos pacientes. Todas estas atividades devem entender-se no contexto de uma medicina pautada essencialmente pelos ensinamentos de médicos da Antiguidade e do período medieval (Dias, 2007: passim; Alves, 2014: passim): Hipócrates (circa a. C. 460-circa 377 a. C.), que explica as doenças como desequilíbrios entre os quatro humores existentes no organismo humano; Dioscórides (f. 40-70), cuja obra (De materia medica) legou um acervo informativo sobre as propriedades curativas de plantas, animais e minerais; Galeno (129 d.c-199), que foi a figura dominante na medicina medieval e influenciou a prática médica posterior, e, ainda, Avicena (980-1037), filósofo e médico persa que escreveu vários tratados sobre a «arte de curar», sendo por isso considerado o pai da medicina moderna. Até ao século xviii, imperava ainda a doutrina hipocrática segundo a qual as doenças acometiam o corpo humano em virtude de um desequilíbrio entre os quatro «humores» —quente, frio, seco e húmido— relacionados com os quatro elementos do universo (fogo, água, terra e ar), o que explica a preocupação de alguns médicos em identificar a natureza dos medicamentos «simples», ou seja, os produtos que, «tal qual a natureza os criou» (Pita e Pereira, 2012: 249), tinham propriedades terapêuticas. É o que se observa, com efeito, na Recopilaçam de Cirurgia (61661[1601), de António Cruz (fl. xvii), cirurgião do Rei e do Hospital Real de Todos os Santos, em cujo «Tratado Quinto» o autor indica quais, dentre aqueles, são quentes, frios, secos ou húmidos, e quais os graus destas «virtudes»4. O exercício da medicina assentava então mais na adivinhação do que propriamente na observação do corpo humano e, por conseguinte, as práticas curativas envolviam animais, excrementos e outros produtos insólitos que são, aos olhos do leitor atual, estranhas, senão mesmo repugnantes, assemelhando-se mais às práticas de feitiçaria do que às de uma ciência, situação que, em Portugal, deve analisar-se à luz do espírito da Contra-Reforma que, para impedir a livre circulação de ideias, impunha a censura dos livros de qualquer matéria, entre eles os que, na área da medicina (Baudry, 2017), pusessem em causa não só os dogmas do catolicismo como também muitas crenças enraizadas na sociedade daquela época. Os tratados médicos publicados entre finais do século xvii e as primeiras décadas da centúria seguinte —por exemplo, a Polyanthea medicinal (1695) e as Observaçoens medicas doutrinaes (1707), ambas de João Curvo Semedo (1635-1719)5— denotam que à herança da Antiguidade se haviam acrescentado, de facto, práticas medievais cuja longevidade se estende ao período barroco. É de admitir que Fr. Santiago conhecesse as obras de Curvo Semedo, já que estas tiveram grande receção no século xvii e na centúria seguinte, e que talvez conhecesse igualmente o tratado intitulado Luz da Medicina prática racional e metódica: guia de infermeiros, directório de principiantes (1753[1664]), de Francisco Morato Roma (1588-1668), médico de câmara do rei, que foi o primeiro a mencionar os enfermeiros no título de uma «arte médica» que teve várias reimpressões acrescentadas até 17536. A Luz da medicina visava certamente uma abordagem integral do cuidado aos enfermos, abrangendo, pois, quer a prescrição de remédios e mezinhas, quer a farmacopeia (incluindo a posologia7), e, ainda, a administração daqueles aos enfermos, porquanto se destinava a auxiliar «Professores da Arte de Medicina, e Cirurgia, mas tambem para todo o Pay de familias; de q se poderáõ aproveitar pobres, e ricos na falta de Medico doutor», conforme consta do subtítulo da obra que nos
Panace@ | vol. XXI, n.º 52. Segundo semestre, 2020 70 <http://tremedica.org/panacea.html> Tribuna proporciona um retrato da situação dos cuidados de saúde no século xvii. É de realçar que, salvo estudos na área da história da medicina (Lemos, 1899), nenhuma das obras atrás mencionadas foi até agora analisada numa perspetiva lexicológica ou terminológica, e nenhuma delas integra os corpora do português (Finatto, 2018). 2. A Postilla Religiosa, e Arte de Enfermeiros A Postilla religiosa, e Arte de enfermeiros: guarnecida com eruditos conceitos de diversos authores, facundos, moraes, e escriturários é uma obra com 300 páginas que se divide em três tratados, a saber: Tratado i (páginas 1 a 70), com cinco capítulos nos quais Fr. Diogo de Santiago expõe algumas «Advertências para a perfeição Religiosa do estado de Noviço atè ao de Prelado Superior»; o Tratado ii (pp. 72-172), o mais extenso, com 59 capítulos nos quais se descrevem os remédios e tratamentos a aplicar aos enfermos, incluindo cuidados higiénicos e de alimentação; o Tratado iii (pp. 172-250), com sete capítulos que tratam do «modo para o enfermo examinar a sua consciencia, exhortações para a sua salvaçaõ, fórma de fazer testamento, e para ajudar a bem morrer». De acordo com a norma naquele tempo, a obra averba as licenças emitidas pela Ordem, pelo Santo Ofício, pelo Ordinário e pelo Paço, sendo que esta última é assinada pelo doutor Cipriano de Pina Pestana, médico de câmara do rei e físico-mor do reino. «[…] he obra muito agradavel a quem a ler, e muito util para quem desejar assistir com caridade de bom Enfermeiro aos doentes; porque ensina os melhores termos, e circunstancias medicas para a tal assistencia, fundamento à caridade, e baze ao zelo espiritual, como legitimo Filho do mayor Pay da Hospitalidade e como contenha o tal livro, e ensine taõ necessaria doutrina para os miserandos afflictos, se faz digno da licença, que pede. V. Magestade mandará o que for servido. Lisboa Oriental 27. de Março de 1741. Doutor Cypriano de Pinna Pestana» (Santiago, 1741: licenças). A concessão de licença pelo médico pessoal do rei e físico- -mor do reino, que reconhece a utilidade da obra, deixava entrever um êxito que levasse à reimpressão da obra, o que não veio a acontecer, já que a Postilla apenas voltou a ser reeditada no nosso século, primeiro numa edição fac-similada (Sant-Iago, 2005), acompanhada de textos introdutórios (Graça, 2005; Gameiro, 2005), e, mais recentemente, em edição modernizada (Franco e Fiolhais, 2019), integrada na galeria de obras pioneiras nas áreas da medicina, farmácia e enfermagem. Aos olhos de hoje, é surpreendente que uma obra pioneira tenha permanecido esquecida durante tanto tempo; porém, essa é a condição a que foram votadas muitas obras relevantes não só para a história da ciência como também para a história da língua e, em especial, para a diacronia das linguagens especiais e terminologias científicas (Verdelho, 1998; Murakawa, 2005). Ressalvada a contribuição de Gameiro (2005), no âmbito da história da medicina, tanto quanto se sabe, a Postilla nunca foi alvo de estudos de cariz linguístico, o que justifica, só por si, uma incursão na Parte ii intitulada «Arte de Enfermeiros» (páginas 52 a 172), da qual se extraiu a amostra relativa a doenças e seus tratamentos que a seguir se analisa. 2.1. A Arte de Enfermeiros e a língua portuguesa A Arte de Enfermeiros descreve não só as práticas a seguir pelos noviços (enfermeiros), no hospital de São João de Deus de Elvas, como também os tratamentos (remédios ou mezinhas) que, segundo a prescrição de um médico ou cirurgião, aqueles deviam ministrar aos doentes ali internados. É de notar que «doença» (lat. dolentia) e «enfermidade» (Bluteau, 1713: 279-280) são palavras que, estando embora atestadas na língua desde o século xiii8 (Houaiss, 2001; Cunha, 1994: 275, 298; Machado Filho, 2013: 1749, 191), não ocorrem nesta «Arte», onde também o paciente (subst.) é invariavelmente referido como «enfermo»10, palavra igualmente documentada no século xiii (Machado, 1977; Cunha, 1994; Cunha, 2006). Na obra em apreço, esta é a única denominação para quem padece de uma doença ou achaque 11, não havendo, portanto, ocorrências da palavra «doente». Além de «enfermeiro», presente no título, também se regista «enfermaria», ambas atestadas, segundo a lexicografia, desde o século xiii (Machado, 1977: 402; Cunha, 1994: 298; Houaiss, 2001; Cunha, 2006). Do mesmo modo, «remédio» é, na Arte de Enfermeiros, o nome que recebe qualquer forma de tratar doenças ou aliviar os seus sintomas (Murakawa, 2014; Domladovac-Silva, 2017), indistintamente do tipo de substância ou produto (vegetal, animal, mineral ou outro) que entre na sua composição. Documentada desde o século xiii, a forma popular «mezinha»12 tem a mesma raiz etimológica de «medicina» (lat. medicina), sendo evidente, portanto, a relação semântica entre ambas as palavras. É de notar que a forma culta, que em português conheceu a aceção de «forma de tratamento, remédio», entretanto desusada, logo, um diacronismo, em espanhol conserva essa aceção 13. Por sua vez, a palavra «medicamento», que consta da nomenclatura lexicográfica de Bento Pereira (1697), segundo Houaiss (2001), já estaria atestada desde 1692. Equivalente de «anotação», «postila», por sua vez, tem atestação desde 1597 (Houaiss, 2001) que, no título da obra de Fr. Santiago, traduz a modéstia habitual inerente ao código retórico do século xviii, a mesma que o faz considerar a obra um «ramilhete» (Santiago, 1741: Ao leitor, v) escrito para facultar aos noviços «claras luzes em breves periodos». Na dedicatória a Fr. José de Jesus Maria, Fr. Santiago explica a motivação para entregar ao prelo os cadernos de manuscritos em que compilara instruções para uso próprio: «V. P. Reverendissima foy fervido remediasse eu a falta, que nesta Casa havia de Mestre de Noviços, em cuja occupaçaõ desejando que os meus discipulos ficassem com alguma utilidade no limitado do meu ensino, lhes ditey esta Postilla Religiosa, e pratiquey esta Arte de Enfermeiros para melhor Intelligencia na applicaçaõ dos remedios, em que consiste a vida dos enfermos, que
Panace@ | vol. XXI, n.º 52. Segundo semestre, 2020 71 <http://tremedica.org/panacea.html> Tribuna huma, e outra cousa dedica, e offerece o meu affecto nas Religiosas aras da protecção de V. P. Reverendissima, para que com o seu decoroso amparo tenhaõ algum luzimento as minhas sombras, que expolas à censura de imperfeitas, achará V. P. Reverendissima naõ he mais o meu empenho, que a perfeição Religiosa, e a acertada, e perfeita assistencia dos enfermos, de que Deos tanto se agrada» (Santiago, 1741: Dedicatoria, iii-iv). Importa sublinhar que, naquele tempo, para se exercer como enfermeiro não era exigida a autorização do físico-mor ou do cirurgião-mor do Reino, conforme esclarece Graça (2005) —«contrariamente à medicina, à cirurgia e à farmácia, a enfermagem não constituía propriamente um ofício de arte aprovada»—, motivo por que a experiência acumulada por Fr. Santiago ao longo de quatro décadas de exercício era muiro útil para quantos nele se iniciavam. Com efeito, se a medicina era ensinada nas escolas médicas e era significativo o número de tratados dessa «arte», para o cuidado dos enfermos não havia ensino formal, pelo que as práticas inerentes ao ofício de enfermeiro (Santos, 2012) se adquiriam no contacto direto com os doentes, situação que justifica as palavras de Fr. Diogo de Santiago a respeito das enfermarias: «As nossas aulas saõ as enfermarias, onde os livros saõ os enfermos e quanto mais cheyas estaõ de volumes, mais cheyas estaõ de merecimentos» (Santiago, 1741: 271). Escrita por um religioso que tinha a formação proporcionada pela Ordem Hospitaleira, a Postilla plasma a variedade linguística de um português das primeiras décadas do século xviii, incluindo não só terminologias médicas e farmacopeicas (Verdelho, 1998: passim) como também formas antigas do léxico comum que, depois, vieram a ser substituídas por outras, motivo por que esta obra, ademais de ser uma fonte interessante para o estudo de uma linguagem de especialidade (Baudet, 1988; Verdelho, 1998) ou tecnolecto em Setecentos, também o é para o do léxico geral usado naquele período. Entre os muitos exemplos extraídos da Arte de Enfermeiros, salientem-se os seguintes: Embigo é forma antiga, atestada desde o século xiii (Cunha, 1994: 80214; Houaiss, 2001) que, na chamada língua comum, vale dizer na língua estandardizada, acabou por ser substituída por umbigo. Ora, de acordo com os dados do Corpus Lexicográfico do Português, a primeira está dicionarizada desde Jerónimo Cardoso (1562, 1569-70), ao passo que a segunda entra na nomenclatura a partir de 1697 (na Prosódia de Bento Pereira). Com a variante embigo, atualmente marcada como forma popular ou regional, concorria, pelo menos desde o século xvi, a variante umbigo, mais alatinada, que ocorre em textos científicos, como os Colóquios dos Simples, e drogas e cousas medicinais da India (1563), de Garcia de Orta, ou a Luz da Medicina (Roma, 1753[1664]). É nesta última que se ampara Bluteau (1713: 34; 1721: 545) quando atenta nesta variação, considerando que o «primeiro [umbigo] parece mais próprio pela analogia, que tem com Umbilicus, que em Latim significa o mesmo. Porèm o uso he por Embigo». Diferente é o caso de estomago 15, palavra culta, que é a única forma a integrar a variedade linguística plasmada na obra do Pe. Santiago («boca do estômago», «untura do estomago», «reparo ao estomago» «deitar-lhe huma ventosa no estomago», Santiago, 1741: 90, 92, 93, 126), conquanto estamago, variante popular, documentada desde o século xiv (Cunha, 1994: 332), ainda então ocorresse. Não menos interessante é o caso de esperdiçar (Santiago, 1741: 128), variante de desperdiçar, que está atestada desde 1561 ( Houaiss, 1561), sendo que este verbo, por sua vez, tem registo desde 1517. Refira-se, por último, a palavra lançol (der. de lenço), única forma usada por Fr. Santiago para denominar a peça retangular de tecido que se põe na cama. Tem atestação, no mínimo, desde o século xv (Houaiss, 2001); porém, no uso atual, tem estatuto de variante popular de lençol, forma que está documentada desde o século xiv. No entanto, da nomenclatura de Bluteau (1716: 36), lexicógrafo que compilou inúmeras variantes lexicais, consta apenas lançol, sem qualquer remissão para lençol. Ainda no que diz respeito à língua corrente do século xviii, presente na Arte de Enfermeiros, note-se que venta (*ventana ʻlugar por onde passa ventoʾ, pelo arc. ventãa ou ventaã), atestada na língua pelo menos desde o século xiv (Machado, 1977: 384; Cunha, 1994: 81516), era a única denominação anatómica para a abertura do nariz ou para este; mais recente, a palavra narina terá entrado na nomenclatura lexicográfica do português em 1873 (Cunha, 1994: 544; Houaiss, 2001). 3. Léxico relativo a doenças e remédios À entrada do doente na enfermaria, uma das primeiras tarefas do enfermeiro é apurar se aquele «tinha obrado», condição necessária ao tratamento com «sangria», evitando atraso na intervenção do médico: «Depois que o enfermo estiver na cama, lhe procuray se tem obrado bem no dia antecedente e se o naõ tiver feito, lhe mandareis lançar huma ajuda commua, para que quando vier o Medico naõ haja dilaçaõ na sangria; e se naõ fallar, procuray a quem o trouxer se tem feito esta diligencia, e que dias ha, que está enfermo, examinando os remedios, que lhe fizeraõ, para dares ao Medico a informaçaõ de tudo» (Santiago, 1741: 74-75). Uma das primeiras intervenções do enfermeiro é, pois, a ajuda, nome de «uma injeção de água ou líquido medicamentoso no reto» ou clister 17 (Houaiss, 2001), palavra marcada em Houaiss (2001) como «diacronismo». As ajudas eram de vários tipos («ajudas de varias castas como se fazem»), cuja receita e preparação o Pe. Santiago descreve (1741:113). Assim, a «ajuda lavativa» consistia num «quartilho de cozimento de cevada, ou caldo de galinha simples, assucar mascavado, gema de ovo, de forma, que va tibia, para que melhor a conserve o tempo, que for necessario», podendo ser lançadas —lançar é o verbo que designa a aplicação do clister— a toda a hora, de dia ou de noite (Santiago, 1741: 113). As chamadas «ajudas commuas» compunham-se de «cozimento de cevada, ameixas passadas, malvas, e violetas, cujo cozimento ha de minguar a terça parte, quando
Panace@ | vol. XXI, n.º 52. Segundo semestre, 2020 72 <http://tremedica.org/panacea.html> Tribuna se fizer; e em hum quartilho delle se lançará assucar, e sal, quanto baste, duas onças de azeite comum; e lançada, a conservará quanto puder» (Santiago, 1741: 113-114). Neste caso, a administração deve ser feita da seguinte maneira: «O tempo mais conveniente de lançar essas ajudas, he pela manhã, estando o enfermo em jejum, ou cinco horas depois de ter comido; e fóra desse tempo naõ saõ convenientes, excepto se houver algum caso, em que sejaõ precisas. Se o enfermo houver de ser sangrado, seja meya hora depois de lançar fóra a ajuda; e por nenhum caso se lancem ajudas aos enfermos no principio de cezaõ, ou crescimento, que lhe fará grande dano» (Santiago, 1741: 114). Ajuda lavativa e lavático (Luz, 1661[1601]; Semedo 1707: 554; Bluteau, 1716: 53; Vieira, 1873: 1272); Houaiss, 2001) eram termos equivalentes, sendo que ambos são marcados por Bluteau como termos de Medicina. A ajuda para «os duros de ventre» consiste, por sua vez, em administrar «azeite comum, ourina fresca, bocado de formento, juripiga» (Santiago, 1741: 114); outra ajuda «muito boa» consiste em que «Em hum quartilho de ourina fresca se desfaça hum bocado de formento com azeite, e juripiga, quanto baste, he muy boa» (Santiago, 1741: 114). Outras ajudas mencionadas por Fr. Santiago na Arte de Enfermeiros são a «composta», a «temperante», a «emoliente» e «adstringente», cuja composição é a seguinte: «Ajuda composta»: «A composta se faz com o cozimento da commua, ajuntando-lhe meya onça de juripiga, ou diacatalicaõ, azeite, e sal, quanto baste» (Santiago, 115 :1741). O cozimento referido na receita acima remete para o «estado de um alimento ou de uma substância, um material etc. que passou pelo processo de cozimento; cozedura»; por sua vez, juripiga é variante da palavra de jeropiga (Bluteau, 1713: 40; Houaiss, 2001), vale dizer, «bebida preparada com mosto, aguardente e açúcar» (Houaiss, 2001) e o diacatalicão, variante de diacatoDescanso
Panace@ | vol. XXI, n.º 52. Segundo semestre, 2020 73 <http://tremedica.org/panacea.html> Tribuna licão (Bluteau, 1713: 201), é termo farmacopaico de um medicamento do grupo dos chamados electuários, isto é, para «uso interno constituído de pós finos, xarope, mel ou resinas líquidas, empregado especialmente como calmante e purgativo» (Houaiss, 2001). «Ajuda temperante – A temperante se faz com o mesmo cozimento sem sal, e com azeite violado em lugar do commum; e algumas vezes se faz com polpa de canafistola, ou com diacatalicaõ». Termo de farmacopeia, temperante qualifica um medicamento «capaz de moderar a atividade circulatória» (Houaiss, 2001), feito à base de azeite extraído de «violas» (i.e. violetas) ou de outras substâncias, como a canafístula (Bluteau, 1712: 90) ou o já mencionado catalicão. «Ajuda emolliente – A emolliente se faz com o mesmo cozimento sem sal, e em lugar de azeite, manteiga de porco, ou de vaca. Em todas estas ajudas he regra geral, que acabando o enfermo de recebellas, se volte de barriga para baixo, atè que a ajuda o precise a levantarse» (Santiago, 1741: 115). Ao contrário das anteriores, que costumavam ser preparadas pelo enfermeiro, a ajuda adstringente devia ser pedida a uma botica. «Ajuda adstringente – As ajudas adstringentes, e outras muitas costumaõ os Médicos mandar fazer na botica. Vindo o cozimento feito, se lançará somente a quantidade de meyo quartilho, recomendando ao enfermo, que a sustenha todo o tempo, que puder, para cujo effeito se lançará tibia, para que naõ irrite ao enfermo» (Santiago, 1741: 115-116). Ora, como se observa acima, a receita destes remédios contempla medidas vulgarizadas na época (Barros, 2017), como o quartilho e a onça (e meia onça), sendo que na sua preparação entravam ingredientes de várias naturezas, como plantas (malvas, violetas, canafístula), frutos (ameixas), cereais (cevada), produtos de origem animal em estado natural ou sujeitos a cocção (gema de ovo, galinha, porco, vaca), e outros produtos (sal, açúcar, azeite). Alguns remédios e mezinhas incluíam ingredientes de origem animal – a manteiga de porco ou de vaca, por exemplo – mas também os animais mortos – «pombos, ou cachorros» (Santiago, 1741: 81) – eram usados em práticas curativas da época, sendo esventrados junto à cama do paciente, sobre cuja cabeça, durante as denominadas «emborcações», prática corrente entre os médicos daquele tempo – veja-se Semedo (1707: 160) –, colocavam o sangue e as vísceras daqueles, conforme descreve o autor da Arte de Enfermeiros: «Pombos, ou cachorros como se haõ de applicar. Depois de tosquiada toda a cabeça do enfermo, e posto hum lenço ao redor della na fórma referida no Capitulo acima das emborcações, tirareis ao pombo as pennas do lombo, e junto da cama do enfermo se abrirá pelo mesmo sitio com faca bem amolada, e o poreis no mesmo instante com sangue, e tripas na cabeça do enfermo, de fórma, que fiquem debaixo as quatro comissuras. O mesmo se fará com o cachorro; e hum, e outro naõ ha de ser grande, mas de hum mez, pouco mais, ou menos» (Santiago, 1741: 81). Consistia a referida «emborcação» (Santiago, 1741: 79) no «ato ou efeito de banhar com medicamento líquido a parte doente de um corpo» (Houaiss, 2001), sendo que esse termo, por extensão metonímica, referia igualmente o próprio líquido usado nesse banho. «Emborcaçaõ como se faz. Cortareis ao enfermo todo o cabello da cabeça à ponta da tisoura, o mais rente, que puder ser. Para melhor lhe applicares o remedio, lhe mudareis a cabeceira para os pés, pondo-lhe ao redor da cabeça hum lenço torcido, e bem apertado, em fórma de capella, para que o cozimento naõ corra pelo rosto do enfermo, o qual mandareis pôr de costas; com a cabeça fóra da cama. Estando jà desta fórma, tendo debaixo huma bacia, lhe hireis lançando o cozimento muy devagar por hum jarro de bico, com moderada quentura, tornando a encher o jarro do mesmo, que cahir na bacia. Durará esta applicaçaõ em quanto durar o calor no cozimento, o qual ha de cahir no meyo da cabeça do enfermo, e da altura de dous palmos. Acabada esta applicaçaõ, se naõ esfregue a cabeça do enfermo, nem em quanto se lhe faz, que seria augmentar-lhe a queixa; só sim se lhe ha de enxugar a cabeça brandamente, e tirando-lhe o lenço, se lhe porá hum toucador» (Santiago, 1741: 79-80). Nesta descrição, além dos termos relacionados com a prática da emborcação, ocorrem nomes e verbos, então correntes na língua comum, como tosquiar, que hoje corresponde ao ato de cortar o pelo a certos animais, não se aplicando habitualmente a humanos; cozimento (i.e. «o ato ou processo de cozer ou cozedura»), nome deverbal construído com o sufixo -mento; quentura («estado do que é quente; calor; alta temperatura», Houaiss, 2001), exemplo de um processo derivacional com o sufixo nominal -ura (Correia, 2004: 325-328; Rio-Torto et al., 2013: 131), que permite precisamente construir nomes sufixados (Rio-Torto et al., 2013: 131) que expressam qualidade ou estado (Correia, 2004: 325), e que, pese embora ser produtivo no português antigo (por ex. tristura, friura, etc.), depois cedeu perante outras formas de nominalização (tristeza, frialdade), ainda que algumas daquelas formações tenham persistido (abertura, fartura) (Correia, 2004: 326; Villalva e Silvestre, 2013: 107; Rio- -Torto et al. 130); toucador, nome de uma «espécie de touca ou lenço com que, ao deitar, se compõe e prende o cabelo» (Bluteau, 1721: 223; Houaiss, 2001). À prática da emborcação podia ainda seguir-se, desde que o médico a prescrevesse, uma untura —o ato ou processo de untar com alguma substância— para alívio do enfermo, nome que constitui mais um exemplo da já mencionada nominalização com -ura.
Panace@ | vol. XXI, n.º 52. Segundo semestre, 2020 74 <http://tremedica.org/panacea.html> Tribuna «Se o Medico mandar fazer alguma untura, seja tibia, e se fará depois que a cabeça estiver enxuta; e feita a untura, se lhe porá hum papel pardo, e em sima o toucador; advertindo, que se o tempo for frio, se fechem as janellas em quanto se fazem estes remedios» (Santiago, 1741: 80). Com efeito, a aplicação de unguentos, como tratamento externo (cutâneo) era também indicada para tratar ou aliviar os sintomas de vários achaques, entre eles a insónia, para cujo tratamento se recorria a amendoadas, dormideiras e unguento populeão (Santiago, 1741: 82-83). Termo da farmacopeia, este último ocorre em tratados médicos pelo menos desde 1668 (Houaiss, 2001), sendo a denominação de um unguento que se obtinha, segundo Bluteau (1720: 608), principalmente a partir dos «olhos, ou gomos do Alemo negro, que sahem na Primavera, e tem bom cheyro», composição corroborada por Vieira (1878: 844). «Untura de unguento Populiaõ para os enfermos, que naõ podem dormir, lha fareis nas fontes da cabeça, em cujas partes pulsa a vea arteria: na testa, no nariz pela parte interior, e em todos estes sitios fareis a untura com hum só dedo muy brandamente, atè que se encorpore o unguento. Muitas vezes se untaõ as palmas das mãos, e plantas dos pés com a mesma brandura. O tempo de fazer esta untura, he quando o enfermo quizer dormir: se for de dia, se fará meya hora depois de jantar e sendo de noite, se ha de fazer entre as dez, e as onze, que he a hora mais própria» (Santiago, 1741: 83). Para o mesmo efeito, aplicavam-se igualmente xaropes, em particular o que se extraía da dormideira, planta com propriedades terapêuticas cujo nome tem registo lexicográfico desde 1562 (Cardoso, 1562), e as amendoadas, nome da bebida sedativa que se fazia com a emulsão de amêndoas esmagadas, água e açúcar. Para evitar que estes remédios fossem contraproducentes, além da receita Fr. Santiago indicava igualmente o horário e as condições da sua administração aos enfermos: «Os xaropes de dormideiras, e amendoadas se haõ de dar quatro horas depois de cear o enfermo que sendo antes, lhe naõ fará nenhum proveito. Estes remedios se mandaõ applicar ao enfermo para dormir; e naõ tendo esta falta, se lhe naõ devem fazer» (Santiago, 1741: 83). As amendoadas também eram recomendadas para outros achaques, servindo tanto de refresco como de fortificante, caso em que, à receita básica – amêndoas, água e açúcar –, se acrescentava uma gema de ovo. O Pe. Santiago descreve a preparação com todo o detalhe, desde a quantidade de amêndoa até ao modo de executar a receita, para que o remédio surtisse o efeito desejado, consoante se lê abaixo: «De duas fórmas se fazem as amendoadas: humas mandão dar os Medicos para somente refrescar ao enfermo e outras por causa de fraqueza para o alimentar. Aque se dá por fraqueza, se póde fazer nesta fôrma: Duas onças de amêndoas pilladas, muito bem pizadas, para que larguem a substancia, e desfeitas em agoa, que baste, se ha de coar por hum pano delgado, e se porá ao fogo brando de sorte que levante fervura, mechendo-se sempre com colher. Se o enfermo tiver vomitos, se lhe dará fria; quando naõ, se lhe dará quente, lançando-lhe assucar, e huma gema de ovo, tudo bem encorporado fóra do lume» (Santiago, 1741: 152-153). No entanto, quando a amendoada se destinava a «refrescar» (i.e. diminuir a sensação de desconforto ou sofrimento, aliviar) o enfermo, além de uma quantidade menor de amêndoas, acrescentavam-se pevides (i.e «sementes de plantas da família das cucurbitáceas», Houaiss, 2001) de melão e abóbora, ou, ainda, xarope de dormideiras, havendo porém o cuidado de o incorporar após a fervura, fora do lume. «A que o Medico applica para refrescar, se fará desta fórma: Onça e meya de pevides de melaõ, e abobora, e meya onça de amendoas pilladas, tudo bem pizado, e desfeito em agoa, que baste, e coado como está dito, se porá ao fogo brando atè que pareça que quer levantar fervura, mechendo-se sempre, (e naõ ferva, porque se naõ corte) se lhe deitará o assucar em quanto estiver ao lume e se levar xarope de dormideiras, se lhe lançará fóra do lume bem incorporado» (Santiago, 1741: 153). Qualquer destes dois remédios só devia ser administrado aos enfermos quatro horas após o jantar (ceia). Para os achaques oculares (conjuntivite ou simples alívio dos olhos), nas enfermarias usa-se o colírio, palavra atestada pelo menos desde 1563 (Houaiss, 2001), ou a camoeza, nome de uma variedade de maçã (Vieira, 1873: 67), sendo que tanto um como a outra deviam ser aplicados com o enfermo de costas e de olhos abertos: no primeiro caso, deitavam-se «dentro delles trez, ou quatro gotas de collyrio tépido e se for de Inverno, seja morno, e se applicará de duas em duas horas», e no segundo, apenas por indicação do médico, a camoeza devia ser «assada, e aparada, e pouco quente, subjugada com hum lenço, ou atadura para naõ cahir» (Santiago, 1741: 83). Os fluxos de sangue, designação corrente que então se dava às hemorragias, termo que, contudo, já ocorre em algumas obras médicas, como se observa no Portugal médico (Abreu, 1726; Houaiss, 2001), são objeto de grande cuidado por parte do enfermeiro, motivo por que Fr. Santigo se detém na descrição dos remédios a dar aos doentes que, na ausência de um cirurgião, delas padecessem. Contudo, a administração desses remédios devia atender, antes de mais, à condição do paciente (gordo ou fraco): se o enfermo fosse obeso e, além disso, «naõ estiver evacuado por sangrias, comer, e dormir bem, e o fluxo de sangue naõ for demasiadamente grande» poderia passar sem tratamento, se, pelo contrário, «o enfermo for fraco, naõ dormir, e estiver evacuado», o enfermeiro deveria fazer-lhe alguns remédios, mas apenas «depois de ter lançado quase huma tigela de sangue, sendo pelo nariz» (Santiago, 1741: 84).
Panace@ | vol. XXI, n.º 52. Segundo semestre, 2020 75 <http://tremedica.org/panacea.html> Tribuna O remédio —se assim se pode chamar— consistia em atirar com a violência possível um púcaro de água ao rosto do enfermo, sem que este antes se apercebesse, prática que deveria repetir-se três ou quatro vezes; porém, se o fluxo não estancasse, tentar-se-ia então outro remédio que consistia em mandar «meter os testículos em agoa bem fria, ou pannos molhados nelles varias vezes repetidos». Para o mesmo efeito, além dos anteriores aplicavam-se ligaduras nos braços e nas pernas e, continuando o fluxo, em função a narina (venta) pela qual este ocorresse, assim passaria o enfermeiro a aplicar as ventosas: havendo fluxo pela direita, lançava «huma ventosa grande em sima do figado, o qual está hum dedo por baixo das costellas mendozas da parte direita»; pela «venta esquerda», lançaria a «ventosa em sima do baço, o qual está da parte esquerda, hum dedo por baixo das mesmas costellas.» (Santiago, 1740: 85). Termo anatómico da época, as costelas mendozas —denominação que provém de mendoso que significa, segundo Bluteau (1716: 420), «falta, ou defeito corporal»— são, segundo este lexicógrafo, cuja fonte é a Recopilaçam cirurgica (Cruz, 61661[1601): 31), as «cinco costelas mais baixas de cada banda, as quaes chegaõ até os ossos do meyo do peito, mas como se a natureza só tomara o trabalho de as principiar, ficaõ imperfeitas, & acabaõ em humas cartilagens, com que se conglutinaõ». Para estancar a hemorragia nasal, Fr. Santiago recorre a outro remédio em cuja composição entram produtos que, por incluírem gesso e teias de aranha, causam repugnância ao leitor atual. Na farmacopeia do século xviii, os pós extraídos de várias substâncias eram um ingrediente frequente na posologia de vários remédios, sendo que os pós mais comuns e usados nas oficinas farmacêuticas da época eram os seguintes, entre eles os pós restritivos: «pós de murtinhos, & pós de rosas, para estancar o sangue, & para misturar com a trementina nos emplastos18, pós restrictivos, para comer a carne sobeja nas feridas, & para encourar pós de pedra hume19 queimada; para ajudar a encourar, & também para estancar sangue pós de incenso, de myrrha, de Azevre20, sarcocola21, & de sangue de drago22, misturados com bolo Armenio; para recourar a chaga de túnica do olho, pós de pedra Hematitis preparada; para alimpar as chagas çujas pós de João de Vigo» (Bluteau, 1720: 555-556). Extraído do Vocabulario Portuguez, e Latino (artigo pó) de Bluteau, o trecho acima ilustra bem não só a terminologia médica e farmacopeica da época como também a linguagem corrente. Veja-se o verbo encourar que remete para o processo de «criar cicatriz(es) ou cicatrizar-se» (Houaiss, 2001) e a expressão túnica, nome de uma das três membranas do olho. Mas ali se encontram compilados nomes de remédios e ingredientes mencionados na Arte de Enfermeiros, com destaque para aqueles de que adiante se tratará: emplastos, pós restrictivos, pedra hume, pós de incenso, sangue de drago e bolo Armenio. É claro que o Vocabulario de Bluteau reflete a terminologia usada em tratados médicos como os de Cruz (61661[1601]) e Roma (1753[1664]) e obras farmacopeicas, sendo de salientar que a primeira deste género, escrita em português, por um boticário português (Dias, 2007; Pita e Pereira, 2012) —D. Caetano de Santo António— foi impressa em 1704: Pharmacopeia Lusitana reformada, methodo pratico de preparar medicamentos na forma Galénica, e Chimica (Santo António, 1721[1704]). É, pois, possível que Fr. Diogo de Santiago conhecesse esta obra, na qual se encontra a posologia dos pos restrictivos obtidos a partir de almecega, incenso, mirra, murtinhos, cascas de romã, maçãs de cipreste, raiz de tormentilha, pedra hematista, bolo armenio (Santo António, 1721[1704]): 349). Usados pelo autor da Postilla Religiosa, e Arte de Enfermeiros, os pós restrictivos, termo de farmacopeia para denomina algumas substâncias que, reduzidas a pó, têm propriedades restringentes de que resulta o aperto de «uma parte frouxa» (Vieira, 1874: 263) ou fortalecimento e união de «partes relaxadas» (Houaiss, 2001). Atente-se na receita de Fr. Santiago: «duas claras de ovos com duas onças de pós restrictivos, e meya onça de gesso, com algumas teias de aranha; e depois de bem batido tudo isto, de fórma, que fique em cataplasma, nem grossa, nem delgada, mas de boa subsistencia, lha poreis na testa, e fontes em humas planxetas de estopas finas, e das mesmas fareis humas mechas, que molhadas na mesma cataplasma, metereis pela venta, ou ventas, donde sahir o sangue, recomendando ao enfermo lhe naõ bula, nem se disponha a tussir» (Santiago, 1741: 86). A planxeta, variante de prancheta, era uma «espécie de gaze usada em feridas» (Houaiss, 2001), produzida, neste caso, com fios de linho (estopas finas), sendo que esta palavra está atestada pelo menos desde 1601, data da Recopilação de Cirurgia, de António da Cruz. Por sua vez, a mecha, que é termo médico, atestado em obras desse âmbito desde 1665, denomina «fios torcidos e tesos para se embeberem em feridas pequenas» (Vieira, 1873: 174) ou «fita de gaze que se coloca em uma ferida para impedir que a cicatrização se faça da superfície para o interior, ou para facilitar a drenagem de líquidos patológicos» (Houaiss, 2001). Difere do lexino (Santiago, 1740: 86; Bluteau, 1716: 380, lichino), termo de cirurgia, também usado por Fr. Santiago como denominação de uns «fios feitos em mecha, que se metem nas feridas, para não cerrarem logo», porque, ao invés deste, a mecha é torcida (Vieira, 1873: 1311). Para estancar a hemorragia pela boca ou hemoptise («expectoração de sangue proveniente dos pulmões, traquéia e brônquios, mais comumente observável na tuberculose pulmonar», Houaiss, 2001), o enfermeiro recorria ao tratamento com ventosas, nome do instrumento cirúrgico com formato cónico (Bluteau, 1721: 408), «geralmente de vidro ou metal, que se aplica sobre a pele para produzir hemospasia» (Houaiss, 2001), administrando-se a seguir outros remédios orais, em concreto, o xarope de rosas no qual se misturavam pós de terra sigilada, obtidos de uma substância argilosa, antigamente originária do Egito, e que tinha propriedades adstringentes (Vieira, 1874: 520), de bolo arménio, isto é, pós extraídos de uma varie-
Panace@ | vol. XXI, n.º 52. Segundo semestre, 2020 76 <http://tremedica.org/panacea.html> Tribuna dade de argila (Vieira, 1871: 558) que, no passado, era utilizada como medicamento de uso interno, com função adstringente, e externo, como absorvente» (Houaiss, 2001) e de coral 23: «lhe lançareis as ventosas na fôrma jà referida; e naõ parando, dareis ao enfermo de quarto a quarto de hora huma colher de xarope de rosas secas, ajuntandolhe pós de terra sigillada, e bolo armenio, e alguns de coral preparado; e aos que lançaõ sangue pelos narizes, se lhe pôde dar este mesmo remedio» (Santiago, 1741: 125). No tocante à hemorragia causada por feridas, o enfermeiro deveria intervir para tentar estancar o fluxo antes mesmo de o cirurgião atender o enfermo, aplicando um tratamento que consistia em ensopar mechas adequadas (lichinos) numa mistura de claras de ovos, com pós de bolo arménio, de rosas e de sangue de Drago e, ainda, alguns pós de incenso, conforme descrição abaixo: «Se o fluxo de sangue for em ferida, que tenha algum enfermo, antevendo a dilaçaõ, que pode haver em vir o Cirurgião, fareis com grande diligencia lexinos de estopas, e ao mesmo tempo mandareis bater claras de ovos, com pós de bolo armenio, de rosas, e de sangue de Drago, meya onça de cada cousa, e alguns pós de incenso, e depois de estar tudo bem batido, molhareis hum lexino, e com elle tapareis a vea, e ò apertareis com o dedo mostrador, e lhe hireis pondo os mais lexinos molhados na cataplasma, apertando-os sempre, e em sima lhe poreis humas planxetas, molhadas no mesmo, e apertareis a ferida muito bem com huma atadura» (Santiago, 1741: 86-87). Caso este tratamento não surtisse efeito, o enfermeiro administraria outro, cuja composição se assemelha, aos olhos de hoje, a uma prática de feitiçaria ou a uma receita de culinária (Barros, 2017), consoante se observa no trecho respetivo: «carregareis a ferida com pós de pedra hume queimada, com teas de aranha, e em sima huma estopada de claras de ovos. Tambem saõ boas as raspas de Cortidores, e pós de alecrim; e depois de lhe fazeres todos estes remedios, lhe poreis panos de vinagre aguado bem frio em sima da ferida» (Santiago, 1741: 87). Afora as variedades anteriormente mencionadas, também do alúmen (queimado) e do alecrim se extraíam pós que entravam na composição deste remédio, de cuja receita constavam igualmente raspas de Cortidores, isto é, as sobras da raspadura de curtumes. Por sua vez, a estopada, que era palavra antiga, atestada pelo menos desde o século xiv (Houaiss, 2001), denominava uma «estopa embebida em qualquer líquido ou medicamento, usada em ferimentos, lesões, etc.» (Houaiss, 2001), sendo que, neste caso, a estopa era molhada em claras de ovos. Como se viu atrás, para estancar as hemorragias aplicavam- -se ventosas que podiam ser de dois tipos —secas e sarjadas (Santiago, 1741: 157)—, ambos descritos pelo autor da Postilla religiosa, e Arte de Enfermeiros que, pese embora aquele tratamento ser da esfera do cirurgião ou barbeiro, ainda assim considerava vantajoso que o enfermeiro o soubesse praticar, quando o enfermo dele precisasse e o barbeiro não pudesse acorrer. A este propósito, veja-se a recomendação de Fr. Santiago: «Inda que naõ seja obrigaçaõ dos Enfermeiros lançar ventosas secas, ou sarjadas, será bom que saibaõ esta doutrina, naõ só para verem se os Barbeiros fazem a sua obrigaçaõ bem feita, mas porque muitas vezes os nossos Enfermeiros querem lançar principalmente as ventosas secas naquella hora, que he mais conveniente ao enfermo, em a qual he dificultoso que o Barbeiro esteja prompto» (Santiago, 1741: 157). Ora, é precisamente a experiência de Fr. Santiago nas enfermarias, onde não raro tinha de suprir o barbeiro, que o impele a descrever as condições em que os enfermeiros poderiam aplicar «ventosas», sublinhando, porém, que a aplicação destas deveria obedecer sempre ao critério do médico. «Nunca o Enfermeiro deve lançar, ou mandar lançar ventosas secas aos enfermos, sem parecer do Medico; porque costumaõ naõ as mandar lançar, sem primeiro estar o enfermo evacuado de sangrias; que estando o corpo por evacuar, em lugar de proveito causaõ muito grave dano ao enfermo; de cuja pratica póde ficar advertido, para que se o fizer, seja depois de evacuado o enfermo» (Santiago, 1741: 161). Por ser um dos tratamentos mais delicados, vale a pena atentar na longa descrição da aplicação quer das ventosas secas, quer das sarjadas, a seguir transcrita, e que mostra todo o procedimento em causa, ilustrando a relação entre o enfermeiro, além de exemplificar a linguagem inerente à prática do enfermeiro. «Para se lançarem bem as ventosas secas, estaraõ promptas boas estopas secas, e sem arestas, tendo juntamente promptas todas as que o Medico mandar lançar, as quaes se haõ de preparar com as estopas necessarias, nem poucas, nem muitas. He de advertir, que se levaõ muitas estopas, o fogo abraza a parte, em que se lançaõ, e fica denegrida; por cuja razaõ, quando essas denegridas se sarjaõ, por mais que as profundem, deitaõ muito pouco sangue. »Se as ventosas levaõ poucas estopas, naõ fazem a attracçaõ, que o Medico pertende, cujo defeito se conhece quando a carne fica branca; e assim para que aproveitem, naò haõ de levar nem muitas, nem poucas estopas, salvo se for em algum accidente de apoplexia, que entaõ he necessario que vaõ mais carregadas, mas de fórma, que naõ queime o enfermo, o que fica na prudencia de quem as lançar. »Se o enfermo for fraco, ou rapaz, sejaõ as ventosas
Panace@ | vol. XXI, n.º 52. Segundo semestre, 2020 83 <http://tremedica.org/panacea.html> Tribuna riques, 1708, 1710, 1715, 1721, 1726), tanto em latim como em português, algumas delas com reimpressões. Em 1726, o mesmo ano de um dos tratados de Henriques, sai o Portugal Medico, ou Monarchia medico-lusitana (1726), de Brás Luís de Abreu (1692-1756), sinal de que o exercício da medicina e dos cuidados de saúde demandavam este género de obras, necessidade à qual o mercado editorial procurava responder. 7. No «Livro Sexto» indica a composição (receita) de medicamentos então usados (Roma, 1753[1664]: 113-114) e no «Compendio de muitos, e varios remedios de Cirurgia» (Roma, 1753[1664]: 357-407) apresenta um rol de remédios para vários achaques. 8. As fontes lexicográficas apontam também o século xiv (Machado, 1977: 352; Cunha, 2006). 9. Tanto para esta unidade lexical como para doente, Machado Filho (2013) fornece abonação do século xiv. 10. Vejam-se duas ocorrências da página 76: «Os remedios, que applicares aos enfermos, sejaõ só pela vossa maõ, e a tempo», «Nunca deis remedio bebido sem primeiro ser mechido, e agoa ao enfermo para lavar a boca, por evitar o perjuizo de o lançar fora», «Naõ deis de comer ao enfermo sem terem passado duas horas depois de ter tomado algum medicamento». E outras três, se encontram na página 81: «Depois de tosquiada toda a cabeça do enfermo», «junto da cama do enfermo», «poreis no mesmo instante com sangue, e tripas na cabeça do enfermo» (Santiago, 1741: 76, 81). 11. Palavra de origem árabe, está documentada pelo menos desde o século xiv (Machado, 1977: 71; Houaiss, 2001). 12. Tem registo lexicográfico em Barbosa (1611: 732): «mezinha. Medicina […]. Medicamentum […]». Na mesma obra (Barbosa, 1611: 717) também se encontra «Medicinal cousa. Medicinalis […]. Herba medicinalis», sendo que medicina denomina apenas a ars medica. 13. De acordo com os dados do Corpus del Nuevo Diccionario Histórico del Español (rae, cdh, on-line), esta aceção está documentada desde 1200. 14. Cunha (1994: 802) regista as variantes gráficas ynbiigo e embijgo, ambas atestadas no século xiv. 15. De acordo com Houaiss (2001) está atestada desde o século xv. 16. Segundo Cunha (2006), a primeira atestação seria do século xv. 17. Clistel é a forma usada na Luz da medicina (Roma, 1753 [1664]: 103). 18. Segundo Bluteau (1713: 64), al como emprasto, é uma variante de emplastro que, como denominação de um «medicamento de uso externo que, sob a ação de calor suave, amolece levemente, aderindo à pele», está atestada desde o século xiv. 19. Era o nome corrente do alúmen (Vieira, 1871: 342), isto é, os «sulfatos duplos de alumínio e metais alcalinos, com propriedades adstringentes, usados na fabricação de corantes, papel, porcelana, purificação de água, clarificação de açúcar, etc.» (Houaiss, 2001). 20. Variante antiga de azebre, palavra de origem árabe que denomina o aloé (Vieira, 1871: 692). 21. Nome de uma «goma extraída da sarcocoleira (Penaea sarcocolla), com sabor de alcaçuz e usos medicinais» (Houaiss, 2001). 22. Segundo Bluteau (1720: 474): «He hũa especie de goma, que por incisaõ destila em licor, & logo em se levantãdo o sol, se endurece, & se congela em hũas pequenas lagrimas friáveis, & vermelhas como sangue. O sangue de Drago com estas qualidades he o melhor dos tres, que se vendem nas boticas». Tem propriedades «anti-hemorrágicas, antidiarréicas e antiblenorrágicas» (Houaiss, 2001). 23. Eram três os tipos de coral usados na preparação de remédios: vermelho, branco e negro (Vieira, 1872: 513). 24. Era o nome do estado de «delírio violento provocado por afecção cerebral aguda» (Houaiss, 2001). 25. Segundo Bluteau (17--: 36), era termo médico que designava o «remedio que applicado na parte alta do membro, prohibe, que não acuda o humor à parte lesa.» 26. O médico italiano Giovanni Maria Lancisi, em 1717, relacionou esta febre com a picada de um mosquito (Botta, 2013: 225). 27. Era o nome dado à diarreia (Houaiss, 2001). 28. Em Bluteau (1712: 547), que não alude a quaisquer efeitos purgativos, é o nome de um remedio para o coração. 29. O termo deriva do nome do herói (Syphillus) de um poema escrito por Girolamo Fracastoro (1483-1553), médico, poeta e astrónomo veronês. O personagem foi castigado com a doença. Na nomenclatura lexicográfica terá entrado em 1844 (Houaiss, 2001). 30. Esta origem explica que a doença também fosse conhecida como mal francês. 31. É a inflamação da pleura ou pleuriz, termo médico que Bluteau (1720: 550) regista. São os nomes antigos da pleurisia. 32. Nome de uma liana com a qual se «prepara um tônico de propriedades estomáquicas, antidisentéricas e sudoríficas» (Houaiss, 2001). 33. Denominação de plantas da família das menispermáceas, cultivadas algumas pelos usos medicinais. 34. Denominação de um «pequeno saco estreito e comprido, usado antigamente como medida padrão de dois alqueires» (Houaiss, 2001). Referências bibliográficas Abreu, Brás Luís de (1726): Portugal medico, ou monarchia medico-lusitana. Coimbra: Officina de Joam Antunes. Abreu, Laurinda (2010): «A organização e regulação das profissões médicas no Portugal Moderno: entre as orientações da Coroa e os interesses privados», em Adelino Cardoso, António Oliveira e Manuel Marques (coord.): Arte médica e imagem do corpo: de Hipócrates ao final do século xviii. Lisboa: Biblioteca Nacional, pp. 97-122. Alves, Manuel Valente (2014): História da medicina em Portugal: origens, ligações e contextos. Porto: Porto Editora. Barbosa, Agostinho (1611): Dictionarium lusitanicolatinum in
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