Eleições e meios de comunicaçaõ no Brasil : análise do fenômeno Collor de Mello
Abstract
Melo, José Marques de
Full text
Eleiçoes e meios de comunicaçao no Brasil. Análise do fenômeno Collor de Mello José MARQUES DE MELO Universidade da São Paulo Working Paper n.56 Barcelona 1992
As eleiçoes presidenciais brasileiras de 1989 revelaram facetas surpreendentes, causando grande perplexidade. Depois de um longo período autoritário, marcado por 20 anos de governos militares e 5 anos de um governo civil tutelado pelas forças armadas, todos os prognósticos conduziam a um desfeicho político com matizes de esquerda, elevando à chefia do governo um daqueles líderes consagrados pela oposiçao ao golpe militar de 1964. A vitória de Fernando Collor de Mello, candidato sem projeçao nacional e sem tradiçao oposicionista ao regime militar, causou enorme espanto e até hoje nao foi assimilada pelas elites e pela intelectualidade. Sua fulminante ascensao nas preferências populares foi simplisticamente atribuída a um efeito de manipulaçao dos mass media, que se esperava esvasiado no climax eleitoral. Essa hipótese pareceu consistente, pois a anuanciada consagraçao já no primeiro turno nao aconteceu e suas chances de vitória pareciam estancadas na última semana antes do segundo turno. Apesar disso, ele venceu com 35 milhoes de votos, apoiado por um pequeno partido sem qualquer sustentaçao na engrenagem eleitoral brasileira. A surpresa da eleiçao de um novato, procedente de um Estado pobre e politicamente inexpressivo, sem dispor de base parlamentar, ainda mais detentor de uma bibliografia ambígua e obscura, justificou a configuraçao daquilo que se convencionou chamar de FENOMENO COLLOR. A expressao engloba nao apenas sua trajetória fulminante no cenário eleitoral, mas também seu estilo de governo, marcado por gestos grandiloquentes, causando sempre grande impacto sóciopolítico. O denominador comum do comportamento público do Presidente brasileiro é a sua enorme capacidade de utilizar símbolos para se comunicar com a sociedade, valendo-se do potencial multiplicador da mídia eletrônica, produzindo uma espécie de amortizaçao da cidadania, que se mantem atônita e quase imobilizada diante do que vem acontecendo no pais. Em relaçao ao FENOMENO COLLOR há uma grande polarizaçao comportamental. De um lado, estao os que o consideram um político biônico, protótipo do marketing eleitoral gestado nos países do Primeiro Mundo, cuja imagem pública foi construída pelos meios de comunicaçao para anestesiar massas incultas, famintas, messiânicas. Assim sendo, seria alguém desprovido de qualquer essência, vazio, mistificador, incapaz de cumprir sua tarefa como estadista. De outro lado, estao os que reconhecem na sua figura carismática habilidade necessária para gerenciar a crise institucional que dificulta a transiçao brasileira do autoritarismo à democracia. E também a capacidade de mobilizar a opiniao pública para superar as distorçoes do estatismo, do corporativismo e do clientelismo, conduzindo o país à modernidade. O domínio dos processos de motivaçao popular e de persuasao política, através dos mass media, constituiria um trunfo importante na sua missao para lograr que o embate entre interesses conflitantes nos setores da economia e da política seja substituído por um pacto nacional destinado a superar a crise.
No meio dessas duas posiçoes, encontra-se um expressivo, mas nao tao numeroso contingente, que continua perplexo diante dos desdobramentos dos fatos que culminaram com a eleiçao de Collor de Mello e o seu estilo rocambolesco de governar. Se, numa perspectiva construtiva, confiam na validade das intençoes de mudanças estruturais, contidas no programa de governo apresentado aos eleitores; num outro aspecto, chocam-se com as excentricidades do candidato e do governante, sobretudo com as suas demonstraçoes de contundência retórica, que tanto podem refletir a impaciência ante os ataques constantes de uma mídia preocupada em denunciar sistematicamente tudo e todos, quanto a frustraçao docorrente da falta de apoio parlamentar para a aprovaçao de medidas consideradas indispensáveis à superaçao dos impasses institucionais. Para melhor entender o FENOMENO COLLOR torna-se necessário esboçar o quadro histórico em que se dá sua eleiçao e que determina em grande parte sua postura insólita como mandatário nacional. Desde a proclamaçao da República, em 1889, o Brasil tem vivido momentos de grande turbulência. Depois de quase meio século de estabilidade política, propiciada pela monarquia parlamentar, o regime republicano inaugurou a intervençao castrense no cenário nacional. Sucessivos golpes militares, ostensivos ou dissimulados, interromperam os esforços dos governantes civis para solucionar os graves problemas nacionais, inclusive aqueles decorrentes da formaçao e expansao de um exército de párias, constituído pelos ex-escravos e pelos miseráveis expulsos do campo, que migram para as cidades em busca de trabalho e de melhores condiçoes de subsistência. A última façanha da corporaçao militar foi o golpe de 1964, cujas raízes estao fincadas na movimentaçao anti-populista durante o segundo Governo Vargas, que este frusta dramaticamente com o ato extremo do suicídio, em 1954. A posse do novo presidente eleito, Juscelino Kubitschek, foi garantida somente depois de negociaçoes feitas com o poder militar. Mesmo assim ele enfrentou várias rebelioes castrenses. Seu sucessor, Janio Quadros, permaneceu no cargo menos de um ano, apesar de eleito com votaçao estrondosa, graças ao estilo populista, histriônico, escudado na bandeira da moralizaçao pública. Sua renúncia foi atribuída às "forças ocultas" que coibiam sua autoridade constitucional. Na verdade, Quadros nao possuia maioria parlamentar, havendo fortes indícios de que a renúncia fora pensada como um "golpe branco" capaz de mobilizar a opiniao pública para o fechamento do Congresso e a restauraçao dos poderes presidenciais plenos, naturalmente com o apoio militar. A manobra nao deu certo. Depois de um momento conturbado, e da hesitaçao das forças armadas, divididas entre facçoes legalistas e golpistas, assume o vice-presidente Joao Goulart, seguidor do nacionalismopopulista de Getúlio Vargas. Seu breve governo, marcado pela exacerbaçao dos ânimos políticos, em decorrência do programa das "reformas de base", propiciou a
aglutinaçao do poder militar, que desencadeou o golpe de 31 de março de 1964, contando com o apoio da classe média, da imprensa, da igreja e do empresariado, todos temerosos do "caos" instaurado pela chamada "república sindicalista". Inicia-se um ciclo heterogêneo mas duradouro, em que a atividade política foi reduzida à condiçao de anteparo do protagonismo castrense, eliminando-se as eleiçoes para os cargos executivos. O cargo de Presidente da República converteu-se em privilégio dos Generais de Exército, por estes escolhido e referendando, enquanto os de Governadores dos Estados passaram a ser exercidos por civis nomeados pelo General-Presidente. Nao obstante os governos militares tenham conseguido desenvolver uma ampla infra-estrutura de transportes, comunicaçoes, energia e abastecimento, modernizando a produçao industrial brasileira, sua atuaçao a frente do governo agravou as condiçoes sociais da populaçao. Além de expandir o contingente dos miseráveis, os governos militares foram responsáveis pelo recrudescimento da corrupçao, que aliás constituira a razao principal do golpe de 1964. A pressao popular pela democracia e a resistência política tecida pelas instituiçoes da sociedade civil -igreja, imprensa, sindicatos e universidadesdeterminou o recuo estratégico dos anos 70. Primeiro foram convocadas eleiçoes para os governos estaduais (com vitórias significativas das forças oposicionistas); depois foi decretada a anistia aos presos políticos e aos exilados; finalmente foi convocada uma Assembléia Constituinte, sem que se obtivesse permissao para eleger um Presidente civil, pelo voto direto. O primeriro governo pós-militar foi escolhido por um colégio eleitoral representativo das forças políticas dominantes, culminando com a indicaçao de um político tradicional, considerado confiável pelas forças armadas, que militara na oposiçao ao regime durante o período autoritário. Todas as esperanças nacionais estavam simbolizadas na figura de Tancredo Neves, um homem conciliador, mas bastante firme na defensa dos postulados da democracia representativa. Sua morte, causada por uma ironia histórica, produziu enorme frustraçao junto ao povo, que presenciou a posse do vice-presidente, um homem comprometido com o regime militar do qual se distanciara estrategicamente pouco tempo antes. Assim sendo, a transiçao civil transcorreu como se fora um prolongamento do governo castrense, garantindo certas conquistas democráticas, mas retardando a escolha do primeiro mandatário pela via do plebiscito popular. O único feito do governo Sarney foi o Plano Cruzado, uma tentativa inicialmente bem sucedida para estancar a inflaçao, que foi manipulada politicamente para garantir a vitória governamental nas eleiçoes de 1986. Fraudado nas suas expectativas, porque vítima do descontrole da economia depois do descongelamento dos preços e salários, o eleitorado reagiu violentamente, inclinando-se para a esquerda radical na escolha dos prefeitos das principais cidades brasileiras. A maior parcela da vontade nacional orientou-se para soluçoes nao convencionais, consagrando candidatos vinculados a legendas patrocinadas pelo PDT -Partido Democrático Trabalhistade Brizola e pelo PT de
Lula -Partido dos Trabalhadores. Perigavam, portanto, esperanças daqueles políticos, vinculados aos partidos que apoiaram a Nova República, especialmente o PMDB -Partido do Movimento Democrático Brasileiroe o PFL -Partido de Frente Liberal. O ano de 1988 termina sob o signo da ingovernabililade, conduzida impassivamente por Sarney, que assistiu a uma corrente de greves e conflitos sociais, além de denúncias sucessivas de corrupçao governamental. A nova Constituiçao nascia contraditória, marcada por um perfil conservador na economia (garantindo os privilégios das elites empresariais) e extremamente liberal nos direitos sociais (assegurando vantagens trabalhistas, especialmente para os funcionários públicos, cujo onus recaia sobre o Estado, já fraco e combalido). A voz das urnas era uma indício de que a populaçao consagraria nas eleiçoes de 1989 um candidato à esquerda, figurando Brizola e Lula como os preferidos pela populaçao. Brizola tinha uma bibiografia política marcada pela oposiçao histórica ao regime militar, determinada pela sua filiaçao ao trabalhísmo de Vargas e Goulart, e confirmada pelo longo exílio sofrido. Beneficiado pela anistia, regressa ao país, consagrando-se nas urnas como Governador do Rio de Janeiro, numa comprovaçao cabal de que seu carisma de "caudilho" continuava a catalizar o elitorado. Lula, por sua vez, emergira como a principal liderança do "novo sindicalismo", que se forja na resistência ostensiva ao sistema autoritário, liderando greves, protestos e manifestaçoes populares, de que resoltou a organizaçao de um partido dos trabalhadores, marxista nas suas diretrizes, mas apartado dos tradicionais correntes do comunismo ortodoxo, de matiz stalisnista, sendo, por isso mesmo, apoiado e fortalecido por segmentos eclesiais vinculados à teologia da libertaçao. Havia a convicçao de que um dos dois candidatos potenciais seria o futuro Presidente do Brasil. É nesta conjuntura de quase pânico entre as elites dirigentes do país, temerosas da repetiçao daqueles episódios marcantes da eleiçao e deposiçao de Allende no Chile, que comença o ano de 1989, quando os brasileiros iriam às urnas pela primeira vez, depois de 29 anos, para escolher o próximo Presidente. Essa situaçao era agravada pelo fato de que a nova Constituiçao garantia o direito de voto também aos analfabetos e aos jovens maiores de 16 anos, ampliando significativamente o colégio eleitoral. Essa escolha seria feita por 82 milhoes de pessoas, ou seja 55% da populaçao, sítuaçao bem distinta daquela ocorrida em 1960, quando o eleitorado era composto de 16 milhoes de indivíduos, representando apenas 22% da populaçao nacional. Mas eis que surge o FENOMENO COLLOR, alterando radicalmente as tendências da eleiçao e tornando improvável qualquer prognóstico sobre os resultados finais do pleito. A candidatura Collor foi projetada com impacto pelos meios de comunicaçao de massa, revelando a extrema habilidade do postulante para se comunicar com o eleitorado potencial, galvanizando a simpatia e a adesao
de contingentes bastante expressivos. De acordo com a tradiçao política brasileira, a biografia de Collor nao revelava evidências de suas possibilidades de vitória. Além de ser desconhecido no cenário nacional, provinha de uma regiao eleitoralmente inexpressiva, pois o grande contingente dos votantes está situado no eixo Centro-Sul. Lançava-se na arena política com o apoio de um partido insignificante, enfrentando as poderosas maquinas das agremiaçoes governistas e as bem estruturadas bases oposicionistas (sustentadas pelos sindicatos, pelas igrejas e pela intelectualidade). Nao contava também com o respaldo do empresariado, cujo apoio era estrategicamente repartido entre vários candidatos: à direita, ao centro e à esquerda. Sua candidatura parecia a princípio um gesto aventureiro, de alguém que se lançava na cena eleitoral para contabilizar adesoes a longo prazo. Quem era Fernando Collor de Mello? Pertenecia a uma família de políticos. Seu avô materno havia sido Ministro do Trabalho de Getúlio Vargas na década de 30 e seu pai fora Governador eleito do Estado de Alagoas, no Nordeste brasileiro, na dêcada de 50. Era também um homem vinculado ao negócio da comunicaçao de massa, participando da gestao e do controle acionário da organizaçao Arnon de Mello, grupo multimídia local, integrado por jornal diário, rádio e televisao. Foi educado no Rio de Janeiro e em Brasília, onde residiu seu pai, desempenhando mandatos como deputado federal e senador da República. Logo após a morte de Arnon de Mello, a viúva Leda e seus filhos assumem o controle da empresa de comunicaçao e buscam um sucessor eleitoral dentro da família. A primeira tentativa é feita pela própria matriarca, que se candidata ao Congresso Nacional, nao conseguindo votaçao suficiente para se eleger. Afastada durante muito tempo do Estado que conferira sucessivos mandatos parlamentares a seu marido, ela nao logra sensibilizar o eleitorado fiel à legenda familiar. Trata, portanto, de incentivar um dos filhos para seguir a carreira do pai. Fernando é o depositário das esperanças da família. Ele regressa a Alagoas em fins da década de 70, assumindo a presidência do conglomerado comunicacional, e integrando-se na vida política local. Em 1979 é nomeado Prefeito de Maceió, a capital do Estado, cumprindo um mandato que lhe foi confiado pelo governo militar. Três anos depois, elege-se Deputado Federal, obtendo a maior votaçao parlamentar em todo o Estado, pela legenda governista. Em seguida, ele se desvincula do partido oficial e ingressa no principal partido da oposiçao, pelo qual se candidata a Governador de Alagoas em 1986, conquistando o cargo com expressiva votaçao. Até entao um político obscuro, o estilo que Fernando Collor de Mello imprime ao governo de Alagoas lhe dá notoriedade nacional. Ergue a bandeira da moralidade pública, pregando uma administraçao austera e saneadora, que obtém imediatamente grande simpatia popular. Conhecendo profundamente a engrenagem da mídia, ele faz repercutir suas palavras e açoes por todo o território brasileiro,
preenchendo um espaço político que se esvasiara com o fracasso do Plano Cruzado e com um governo hesitante e inapetente como o do Presidente Sarney. Inicialmente ele concentra sua energia no combate aos marajás -ou seja, aos funcionários públicos que recebem elevados salários e nao prestam serviços ao governo, valendo-se de artimanhas legais para conservar privilégios. Em seguida, orienta seu ataque ao Governo Sarney, com o qual rompe publicamente e em conseqüência sofre retaliaçoes, nao recebendo verbas federais para o Estado de Alagoas, o que o transforma em vítima. O senso de oportunidade política de Collor, sua imensa capacidade de comunicar-se com o povo, através de mídia, o clima de desalento e desesperança que domina o país, numa conjuntura de quase ingovernabilidade, sao os ingredientes que vao fortalecer sua ascensao nacional, viabilizando a candidatura presidencial. Este é um momento caracterizado pelo impasse constitucional (confronto entre conservadores e progressistas no parlamento), pela queda da produçao (conseqüência da onda de greves na indústria e no serviço público), pelo descontrole econômico (inflaçao galopante e perda do poder de compra dos salários), pelo fisiologismo político (uso da máquina estatal para privilegiar os parentes e amigos dos novos governantes, no mesmo estilo dos velhos políticos que combateram durante o regime militar), etc. etc. Nao foi difícil a Collor emergir como um furaçao, pondo sua candidatura nas ruas, sustentada por signos extremamente persuasivos -moralidade, juventude e modernidadealcançando patamares nas preferências populares que alarmaram os demais contendores. Figurando como o fator surpresa num pleito delineado pela disputa entre candidatos legitimados historicamente, ele se converteu no principal alvo de combate dos adversarios, durante a campanha. Essa situaçao de vítima, atacado por todos os lados, fortaleceu ainda mais sua candidatura, dentro daquele contexto da psicologia social do brasileiro, que simpatiza com o "amarelinho" (o mito do fraco e desprotegido, que enfrenta os fortes e poderosos, revivendo de certo modo o legendário embate de David contra Golias). Tudo isso temperado por um discurso ideologicamente ambíguo, defendendo os interesses das camadas empobrecidas e combatendo a ganância dos poderosos e privilegiados. Mas a principal motivaçao da sua campanha estava na luta de geraçoes, o que o contrapunha, como representante da maioria jovem da populaçao, a todo um contingente de caciques políticos, que dominaram a cena nacional nos últimos 30 anos, ora na oposiçao, ora no governo, sem contudo resolver os problemas básicos do povo. Do ponto de vista da relaçoes entre comunicaçao e política, a última eleiçao presidencial brasileira apresentou algumas singularidades notáveis. Foi uma eleiçao solteira, exclusivamente para presidente da república, nao envolvendo portanto nenhuma opçao local, para vereador, deputado ou governador, o que de certo modo desmobilizou o aparelho eleitoral convencional, conduzindo a uma escolha distanciada do dia-a-dia do eleitor, ou melhor, fora dos interesses diretos dos
"currais eleitorais". Além disso, foi uma eleiçao em dois turnos, a primeira a nível nacional, causando necessariamente uma polarizaçao entre dois candidatos e uma consequente aglutinaçao de forças díspares. A disputa no segundo turno foi feita por dois candidatos jovens, que derrotaram mais de 20 pretendentes, inclusive as "vacas sagradas" da política nacional. No plano ideológico, houve uma antagonizaçao confusa; de um lado, Lula, apoiado pelas esquerdas tradicionais, enfatizando um discurso que procurava minimizar sua opçao de classe, numa tentativa de ganhar votos de segmentos situados ao centro do espectro político; de outro lado, Collor, acusado como representante das forças conservadoras, recusando publicamente apoio de figuras notórias de direita, inclusive do empresariado paulista aglutinado pela FIESP -Federaçao das Indústrias do Estado de São Paulo, mas utilizando uma retórica peculiar à esquerda, porque embasada nas demandas populares imediatas, principalmente das camadas marginais, politicamente desorganizadas. Além disso, a legislaçao eleitoral continha ingredientes novos, produtos da abertura democrática. Preservava espaços gratuitos para a apresentaçao das plataformas dos candidatos, poucos antes do pleito, garantindo assim uma comunicaçao direta com o eleitorado, em rede nacional de rádio e televisao. Mas em compensaçao abria o flanco para o uso desse mecanismo bem antes da eleiçao, a título de exposiçao das diretrizes partidárias. Como era possível criar novos partidos, sem grandes exigências legais, abrindo-se a brecha para que as pequenas legendas negociassem seus espaços no rádio e na televisao, antes e durante a eleiçao. Collor teve a sorte de ser o primeiro candidato a se lançar publicamente, no espaço partidário, ainda no começo do ano eleitoral, enquanto muitos partidos bem situados eleitoralmente ainda se achavam em disputa interna entre vários pré-candidatos. E teve também a audácia de utilizar os espaços de outros pequenos partidos, sem candidatos próprios, multiplicando assim sua apariçao junto ao grande público, fixando a imagem de um candidato destemido e desbravador. Essa estratégia lhe valeu uma subida crescente nas preferências eleitorais, aferidas pelas pesquisas realizadas periodicamente, desconcertando os demais partidos, quase todos indefinidos em relaçao aos candidatos que iriam apoiar. Exceto Lula e Brizola, previamente definidos como candidatos e confirmados pelos respectivos partidos, todos os outros, inclusive os majoritários, que vinham apoiando o governo de transiçao, hesitaram na definiçao de nomes, o que veio a ocorrer em fase bem adiantada da campanha. Quando esta se trava definitivamente, ou seja, nos 60 dias que anteceram o primeiro turno, através do horário eleitoral gratuito no radio e na televisao, Collor continuava a ser o preferido dos eleitores, seguido por Lula o Brizola.
Nao obstante o decréscimo do seu favoritismo inicial, atacado que passou a ser por todos os contendores, à direita e à esquerda, ele conservou folgadamente o primeiro lugar, o que foi confirmado pela eleiçao do dia 15 de outubro de 1989. O segundo colocado foi Lula, apoiado por uma coligaçao de partidos da esquerda tradicional, incluindo o seu próprio -o Partido dos Trabalhadorese mais o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Stalinista, de linha albanesa, o Partido Socialista Brasileiro reunindo socialistas históricos, e o Partido Verde, integrado pelos ecologistas. A esta frente de esquerda se juntou, no segundo turno, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), prosoviético, e segmentos importantes situados à esquerda e centro-esquerda do Partido do Social Democracia Brasileira (PSDB) e também do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), que tinha o trunfo da resistência histórica ao regime militar, mas que se desgastou politicamente ao sustentar o Governo Sarney. Uma fator decisivo para as vitórias de Collor e de Lula no primeiro turno das eleiçoes foi sem dúvida a eficiência do marketing político de que se valeram para argumentar diariamente no rádio e na televisao, em redes nacionais. Seus programas eleitorais eram de muito boa qualidade, ágeis, convincentes e bem adaptados ao ritmo veloz da mídia e à linguagem simples das grandes massas. Aquela foi uma eleiçao em que os métodos tradicionais de comícios e de conversa ao pé-do-ouvido funcionaram com relatividade, porque cada eleitor teve chance de ouvir, no dia-a-dia, a palavra do próprio candidato, dispensando em certo sentido a intermediaçao dos chamados "cabos eleitorais". De qualquer maneira, houve uma combinaçao do convencimento massivo e da persuasao grupal. Lula concentrou suas forças nas grandes metrópoles e Collor dirigiu seu esforço de propaganda direta nas pequenas comunidades do interior e nos bairros periféricos das capitais. O corpo-a-corpo foi intenso, ambos os candidatos tratando de ganhar a confiança dos eleitores indecisos. Outro fator importante foi o debate entre os candidatos na televisao. Durante o primeiro turno, Collor recusou-se a participar dos debates, evitando desgastar-se desnecessariamente, na medida em que se converteu no alvo do ataque de todos os adversários, tendo em vista sua liderança firme nas preferências eleitorais. A mesma tática de fuga ao debate havia sido utilizada com sucesso por Jânio Quadros, na eleiçao recente em que disputara a prefeitura de São Paulo e saira vitorioso. Isso valeu a Collor a pecha de candidato biônico, que nao tinha capacidade de argumentar ao vivo com os seus contendores. Com sua vitória foi confirmada no primeiro turno, ele manteve a palavra de que debateria na televisao com o seu adversário. As coligaçoes partidárias acertaram com o pool das emissoras de televisao dois debates em rede nacional. No primeiro debate, os dois candidatos se enfrentaram e demostraram grande habilidade para a batalha retórica. Caiu por terra a teoria de que Collor seria incapaz
realiza viagens ao exterior, etc., etc. Tudo isso sob o olhar atento e vigilante da mída, que reproduz sua imagem e a difunde para todos os lares brasileiros. Collor tem tido a preocupaçao constante de manter uma imagem pública de governante jovem, dinâmico, charmoso, trabalhador e preocupado com a soluçao dos problemas da populaçao. Evidentemente ele nem sempre consegue controlar a agenda da mídia a seu favor, pois esta tem desempenhado um papel de denunciar irregularidades existentes no governo, muitas das quais mostram contradiçoes entre o discurso e a prática. Nesse sentido, a imprensa diária nao tem dado trégua ao governo, investigando operaçoes que aparentam irregularidades, ultimamente envolvendo até mesmo familiares do próprio Presidente. Collor tem reagido com habilidade a esse cerco jornalístico, distanciando-se pessoalmente dos fatos noticiados, cuja responsabilidade cabe legalmente a terceiros, sempre procurando demonstrar que nao os aprova e quer a puniçao dos responsáveis. As relaçoes do Presidente com os meios de comunicaçao apresentam-se, portanto, bastante singulares. Por um lado, a mídia tem feito uma cobertura profundamente crítica do seu governo, denunciando atos considerados ilícitos e em muitos casos hostilizando-o. Por outro lado, ele tem sabido monitorar a mídia, desencadenando acontecimientos que esta necessariamente registra e reproduz para o grande público, dissiminando símbolos capazes de comover o cidadao comum e criar uma relaçao empática com o jovem Presidente. Desta maneira, Collor consegue preservar sua boa imagem, suscitando a idéia de que o Presidente quer reconstruir o Brasil mas os políticos barram suas iniciativas. Evidência disso é o resultado da mais recente pesquisa de opiniao pública, que lhe confere legitimidade junto a 64% dos brasileiros, significando uma queda de apenas 6% na sua popularidade, desde o início do governo. Essa tendência é confirmada pela manifestaçao da maioria do eleitorado de que voltaria a elegê-lo Presidente da República na eventualidade de um novo pleito. A preservaçao dessa popularidade, apesar da grave crise nacional traduzida pela queda da produçao agrícola e industrial, pela reduçao dos salários e consequentemente da capacidade aquisitiva dos consumidores, pelo clima de pessimismo e desesperança de certo modo alimentado pelos mass media, nao tem afastado Collor da sua disposiçao para cumprir o programa assumido durante a campanha eleitoral. Nos últimos meses ele tem reconhecido o seu isolamento e dado sinais de maturidade, superando a impetuosidade dos primeiros momentos e buscando fazer alianças políticas que viabilizem seu governo. Ou melhor, que garantam a governabilidade para superar os impasses atuais, inclusive a possibilidade (remota, mas nao descartável) de um golpe de Estado, tao ao gosto da nossa tradiçao política. Encontra-se em processo uma tentativa de "uniao nacional", reunindo as
principais forças políticas do país, da esquerda à direita, tendo como protagonistas os Governadores Estaduais e como meta principal a revisao da Constituiçao de 1988. Pretende-se retirar do texto constitucional aqueles dispositivos demagógicos, clientelísticos, redigidos por inspiraçao das corporaçoes patronais e sindicais, que acarretam onus ao Estado sem gerar em contrapartida os meios indispensáveis à sua efetivaçao. Outra questao prioritária é a forma de governo, aventando-se o parlamentarismo como saída provável para o impasse constante da nossa vida republicana, que tem provocado sucessivos golpes de Estado quando se aguçam os conflitos entre o executivo e o legislativo. Os defensores dessa tese buscam estribar-se na experiência parlamentar do Segundo Império, sem dúvida o período de maior estabilidade política brasileira. O esgotamento da paciência nacional pode ser o combustível que motiva as lideranças políticas, sindicais, empresariais, intelectuais e religiosas a buscarem o entendimento nacional. Para tanto, Collor tem demonstrado humildade e vontade dialógica, certamente convencido de que o caminho da "reconstruçao" passa pela efetiva sedimentaçao da democracia e da participaçao de todos os segmentos da sociedade na elaboraçao de um "projeto nacional". Se, até poucas semanas atrás, a tendência dominante na mídia era a de aguçamento das contradiçoes, antevendo-se uma possível soluçao dramática como a que marcou o suicídio de Getulio Vargas em 1954 ou a renúncia de Jânio Quadros em 1961, percebe-se hoje uma alteraçao do quadro pessimista. Iniciativas tomadas por fortes lideranças políticas, desestimulando aventuras golpistas; manifestaçoes explícitas de instituiçoes da sociedade civil, concitando à superaçao das divergências partidárias; e a atitude assumida pelo Presidente Collor, admitindo até mesmo a formaçao de um governo de coalisao; tudo pode conduzir a uma saída razoável para a crise brasileira. Resta esperar que se torne voz corrente o lema que a imprensa começou a disseminar, explícita ou implicitamente, nos últimos dias: O BRASIL É UM PAIS VIAVEL, E TEM FUTURO!
NOTAS (1) LIMA, Venicio Artur de: "Televisao e política". Comunicaçao & Política 9 (11). Sao Paulo, CBELA, 1990, p. 29-54. (2) LINS DA SILVA, Carlos Eduardo: "Indústria da comunicaçao: personagem principal das eleiçoes; presidenciais brasileiras de 1989. Intercom - Revista Brasileira de Comunicaçao 62-63. Sao Paulo, Intercom, 1990, p. 121-128. (3) LIMA, Venicio Artur de: ob. cit., p. 37-49. (4) LINS DA SILVA, Carlos Eduardo: ob. cit., p. 126. BIBLIOGRAFIA BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos: Os tempos heróicos de Collor e Zélia. Sao Paulo, Nobel, 1991. CLARET, Martin: O fenômeno Collor. Sao Paulo, Martin Claret Editores, 1989. FAUSTO NETO, Antonio: "O Presidente da Televisao". Comunicaçao & Política 9 (11). Sao Pauto, CBELA, 1990, p. 7-28. FESTA, Regina: -TV dos Trabalhadoresa leveza do alternativo (tese de doutorado). Sao Paulo, ECA-USP, 1991. FIESP: Livre para crescer - proposta para um Brasil moderno. Sao Paulo, Cultura Editores Associados, 1990. FIGUEIREDO, Ney Lima e FIGUEIREDO JR., RUBENS DE LIMA, José: Como ganhar um eleiçao - liçoes de campanha e marketing político. Sao Paulo, Cultura Editores Associados, 1990. GARCIA, Alexandre: Nos bastidores da televisao. Rio de Janeiro, Editora Globo, 1990. JAGUARIBE, Helio e outros: Brasil - reforma ou caos, 2º ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1989. KOTSCHO, Mara Nogueira: A cabeça do brasileiro - uma análise das pesquisas de opiniao pública. Petrópolis, Vozes, 1986. LAMOUNIER, Bolivar (ed.): De Geisel a Collor: o balanço da transiçao. Sao Paulo, IDESP, 1990. LIMA, Venício Artur de: "Televisao e política". Comunicaçao & Política 9 (11). Sao Paulo, CBELA, 1990, p. 29-54. LINS DA SILVA, Carlos Eduardo: "Indústria da comunicaçao: personagem principal das eleiçoes presidenciais brasileiras de 1989". Revista Brasileira de Comunicaçao 62-63. Sao Paulo, INTERCON, 1990, p. 121-128. LONGO, Carlos Alberto: Estado Brasileiro - diagnóstico e alternativas. Seo Pauto, Atlas, 1990. MARQUESDE MELO, José (ed.): Populismo e Comunicaçao. Sao Paulo, Cortez/ INTERCOM, 1981. Communication and Democracy - Brazilian perspectives. Sao Paulo, ECAUSP, 1991 MARTINS RODRIGUES, Leôncio: Partidos & Sindicatos. Sao Paulo, Atica, 1990. MOREL, Mário: Lula o metalúrgico: anatomia de uma liderança. Rio de Janeiro, Mova Fronteira, 1981. MEUMAME, José: Atrás do palanque - bastidores da eleiçao 1989. Sao Paulo, Siciliano, 1989.
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