A exigência de que Auschwi z não se epi a
é a p imei a de odas pa a a educação.
ADORNO
Hoje o que mais que udo me choca no dia a dia é a al a de en endimen o e
a pe da que odos demons am do diálogo, da con e sa, do en endimen o, da
escu a do ou o. A his ó ia, a sociologia, a psicologia, a psicanálise, a an o-
pologia, as ciências humanas e sociais se cons uí am e se cons óem sob e a
idéia de um ou o e é es e ou o —como nós mesmos— que pa ece es a hoje
em ques ão, embo a alemos an o dele. Obse emos nosso p óp io co idiano:
na uni e sidade, no campo da polí ica, nas elações amilia es, nas associações,
no abalho. A al a do en endimen o e da escu a do ou o me assus a.
Mas es a pe plexidade não é maio que meu assomb o dian e da disc imi-
nação, da exclusão e da eliminação do ou o, ou seja, dian e da cons a ação de
que, em que pese o a anço ou o apa en e p og esso que o homem oi e em
sendo capaz de conquis a , a humanidade não log ou en en a e supe a o
En ahona 31, 2000 149-159
Linguagem, cul u a e al e idade
Pa a se possí el a educação depois de Auschwi z,
é p eciso educa con a a ba bá ie1
Sonia K ame
Pon i ícia Uni e sidade Ca ólica do Rio de Janei o
Depa amen o de Educacão
Rua Ma quês de Sãos Vicen e, 225. Rio de Janei o
1. Ap esen ação ei a na Sessão Especial «Linguagem, Cul u a e Al e idade. 21a Reunião Anual
da ANPED, Caxambu, se emb o 1998.
Suma io
1. Educação e emancipação -
con ibuções de Ado no
2. Linguagem e his ó ia - con ibuções da
eo ia c í ica da cul u a e da mode nidade
de Wal e Benjamin
3. In ância, his ó ia e o mação cul u al
A í ulo de conside ações inais - educa
con a a ba bá ie
p oblema que es á na o igem dos g andes c imes come idos con a a ida
—sejam eles de o dem polí ica, é nica, eligiosa, social, sexual— na o igem de
odos os genocídios: a di iculdade de acei a que somos ei os de plu alidade,
pois o que nos singula iza como se es humanos é jus amen e nossa plu alida-
de. Somos cons i uídos na di e ença.
Foi a pa i desse assomb o que p epa ei es a ala. Pa a ex e ná-lo, começo
com uma e lexão apoiada em Ado no, e na necessidade po ele de endida
de uma aguda e sensí el c í ica à sociedade con empo ânea e à educação, da sua
de esa de uma educação con a a ba bá ie, pa a que Auschwi z não se epi a;
con inuo com Wal e Benjamin, a c í ica da idéia do p og esso e o papel da
linguagem e da ememo ação da his ó ia, pa a com ambos aze a denúncia
da ba bá ie e a necessidade de se es abelece ou a elação com a adição e a
cul u a. Po im, en o analisa com olha c í ico as c ianças e os jo ens, en o
pensa nosso papel hoje, a güindo a mim mesma e a odos nós sob e a é ica
que em conduzido nossas ações e a esponsabilidade que emos.
De an emão p e ino a odos que Auschwi z não é pa a mim uma me á-
o a.
1. Educação e emancipação - con ibuições de Ado no
Com a a i mação ansc i a na epíg a e, começa Ado no seu ensaio, publicado
en e nós no li o Educação e Emancipação. Diz o au o :
[…] a exigência que Auschwi z não se epi a é a p imei a de odas pa a a edu-
cação. De al modo ela p ecede quaisque ou as que c eio não se possí el
nem necessá io jus i icá-la. não consigo en ende como a é hoje me eceu ão
pouca a enção (a educação depois de Auschwi z). Jus i icá-la e ia algo de
mons uoso em is a de oda mons uosidade oco ida. Mas a pouca cons-
ciência exis en e em elação a essa exigência e as ques ões que ela le an a p o-
am que a mons uosidade não calou undo nas pessoas, sin oma da pe sis ência
da possibilidade de que se epi a no que depende do es ado de consciência e de
inconsciência das pessoas. Qualque deba e ace ca das me as educacionais ca e-
ce de signi icado e impo ância en e a essa me a: que Auschwi z não se epi a.
Ela oi a ba bá ie con a a qual se di ige oda a educação. Fala-se de uma ame-
aça de eg essão à ba bá ie. Mas não se a a de uma ameaça, pois Auschwi z
oia eg essão; a ba bá ie con inua á exis indo en quan o pe ssi i em no que êm
de undamen al as condições que ge am es a eg essão. (Ado no, 1995, p. 119)
Lemb emos que a cons ução ideológica do nazismo começou con a de i-
cien es ísicos, con a p á icas cul u ais, eligiosas e é nicas o nadas aciais,
con a posições polí icas di e gen es: p e endendo elimina de icien es ísicos
e men ais, ciganos, homossexuais, judeus, neg os, comunis as, a humanidade
a a essou a mo e, a a essando Auschwi z (Semp un, 1995, p. 93/94). E pe -
deu, naquele momen o —como em ou os, da his ó ia— o sen ido da al e i-
dade, que dize , o signi icado de que exis e um ou o e de que eu ambém
sou o ou o. A necessidade e o signi icado de elabo a o passado são cen ais
150 En ahona 31, 2000 Sonia K ame
em uma educação que p e enda di eciona ou a ua numa pe spec i a de eman-
cipação e de c í ica da con empo aneidade.
Vol ando a Ado no, pe cebemos a impo ância que o au o dá às elações
de um lado com a in ância e, de ou o, com a cul u a, pois
[…] quando alo de educação após Auschwi z, e i o-me a duas ques ões: p i-
mei o, à educação in an il, sob e udo na p imei a in ância; e, além dis o, ao
escla ecimen o ge al, que p oduz um clima in elec ual, cul u al e social que não
pe mi e al epe ição; po an o um clima em que os mo i os que conduzi-
am ao ho o o nem-se de algum modo conscien es. (Ado no, 1995, p. 123)
O echo acima ambém in eg a um dos a igos do li o Educação e
Emancipação. Vale lemb a que se os ex os des a cole ânea o am ansmi idos
po Ado no em p og amas adio ônicos de 1959 a 1969, ês décadas an es,
Wal e Benjamin, ca o in e locu o dos ank u ianos, ilóso o da his ó ia,
c í ico da cul u a, esc e e a sob e isso ao i e e mo e po con a da ba bá ie
nazis a, denunciando que odo monumen o de cul u a e a ambém um monu-
men o de ba bá ie.
2. Linguagem e his ó ia - con ibuições da eo ia c í ica da cul u a
e da mode nidade de Wal e Benjamin
Teó ico da cul u a e da mode nidade, c í ico da ilusão de p og esso, diz-se de
Benjamin que não se ia possí el con ida pa a um mesa de jan a seus p in-
cipais in e locu o es, in elec uais ão di e sos quan o Ado no (que cunhou
com Ho kheime a exp essão indús ia cul u al), B ech (poe a, ea ólogo, com
quem Benjamin mo ou na Dinama ca), os su ealis as (úl imo ins an âneo,
segundo ele, da in eligência eu opéia), Ka ka, Be gson, P ous e Baudelai e.
T a a-se de um pensado não-o odoxo, ilóso o ma xis a com p o unda ins-
pi ação humanis a e que p eza a e lexão eológica2, c í ico li e á io, colecionado
de minia u as, de li os e b inquedos in an is, aman e do cinema e da o o-
g a ia, es udioso da es é ica e de enso de uma poli ização da es é ica capaz de
aze en e à es e ização da polí ica engend ada pelo nazismo, c í ico da cul-
u a do seu empo. Benjamin negou-se a sai da F ança po não que e in e-
ompe seu T abalho das Passagens —uma pesquisa sob e his ó ia e
mode nidade— e mo eu, em 1940, em Po Bou, on ei a com a Espanha.
Seu caminho eó ico-me odológico —con a a isão desa mada e con a a
isão ilosó ica— le ou-o a esc e e sua ob a em ensaios e agmen os que
se iam como uínas. Seu p oje o e a: numa ob a, num obje o, num indi íduo,
num agmen o, numa insigni icância, encon a o odo. Pa a ele, e a p eciso
comp eende a o alidade que se mani es a na singula idade, que se e ela no
miúdo, no es ilhaço, no mosaico, na ín ima pa e. Os emas da linguagem,
Linguagem, cul u a e al e idade En ahona 31, 2000 151
2. Sob e Benjamin e , en e ou os: KONDER, L. O ma xismo da melancolia. Rio de Janei o:
Campus.
cul u a e da his ó ia se encon am dispe sos em mui os de seus agmen os.
Lendo-os, pode-se comp eende sua c í ica da cul u a e da mode nidade.
Em In ância em Be lim, po exemplo, um ex o de 1933, Benjamin esc e e,
e e indo-se a A má ios:
Nada supe a a o p aze de me gulha a mão em seu in e io ão p o unda-
men e quan o possí el. E não apenas pelo calo da lã. E a « adição» en olada
naquele in e io que eu sen ia na minha mão e que, desse modo, me a aia
pa a aquela p o undeza. (1987b: 124)
Assim, o encon o da his ó ia e da cul u a, exige —no con ex o de sua
ob a— que uma elação «ou a» seja es abelecida com a adição, uma elação
que não é de acei ação ou de ei icação daquilo que passou, oi i ido ou gua -
dado, mas de descons ução e c í ica. Delineia-se uma ins igan e concepção
de his ó ia, dispe sa em mui os ex os e ensaios3. No mesmo agmen o, ele
diz: «Tudo o que e a gua dado a cha e, pe manecia no o po mais empo…
Mas meu p opósi o não e a conse a o no o e sim eno a o elho».(Benjamin,
1987b: 124). Também em Imagens do Pensamen o, ele sin e iza sua isão
da memó ia:
Quem p e ende se ap oxima do p óp io passado so e ado de e agi como
um homem que esca a. An es de udo, não de e eme ol a semp e ao mesmo
a o, espalhá-lo como se espalha a e a, e ol ê-lo como se e ol e o solo. Pois
« a os», nada são além de camadas que apenas à explo ação mais cuidadosa
en egam aquilo que ecompensa a esca ação. Ou seja, as imagens que, des-
p endidas de odas as conexões mais p imi i as, icam como p eciosidades nos
sób ios aposen os de nosso en endimen o a dio, igual a o sos na gale ia do cole-
cionado . E ce amen e é ú il a ança em esca ações segundo planos. Mas é
igualmen e indispensá el a enxadada cau elosa e a ean e na e a escu a. E se
ilude, p i ando-se do melho , quem só az o in en á io dos achados e não sabe
assinala no e eno de hoje o luga no qual é conse ado o elho. (1987b: 239)
O concei o de his ó ia como en ec uzamen o de no o/ elho é uma de
suas con ibuições mais o iginais; al concei o ajuda a comp eende que en en-
a hoje as di iculdades do p esen e, elacionando-as com seu signi icado his-
ó ico mais amplo, é o que nos cons i ui como se es humanos e como sujei os
da his ó ia. Esse mo imen o de esca a - eco da em em Benjamin uma
dimensão subje i a, de esga e da memó ia, das lemb anças de uma ida, mas
ambém uma dimensão cole i a, de esga e da his ó ia das lu as, dos po os,
da humanidade, em di e sos momen os da sua his ó ia e seus con on os. Ao
caminha pela cidade, en a numa biblio eca, museu, gale ia, ao le um li o
152 En ahona 31, 2000 Sonia K ame
3. Pa a comp eende os concei os benjaminianos é p eciso le seus esc i os como alego ias,
como peças de um mosaico. Ve , do p óp io BENJAMIN, Ob as Escolhidas I, II e III(1987a,
1987b e 1989) e, en e ou os, WISMAN, H. (ed). Wal e Benjamin e Pa is. Pa is: Les Édi-
ions du Ce , 1986.
ou e uma exposição, cada peça, cada monumen o, quad o, cada ob a gua -
da a his ó ia condensada, con adições que dizem e calam, alo izam e omi-
em, con am.
Me gulhemos no seu concei o de expe iência. Analisando o de inhamen-
o da a e de na a , ca ac e ís ica do mundo mode no, ele ala num ex o de
1936 do NARRADOR como um homem que sabe da conselhos. Po ém, ao con-
á io da isão u ili a is a e cínica dos nossos dias, onde a oda ho a alguém
epe e que se conselho osse bom e a endido e não dado, pa a Benjamin «da
conselhos» pa ece an iquado po que as expe iências es ão deixando de se
comunicá eis. Ele diz que «aconselha é menos esponde a uma pe gun a que
aze uma suges ão sob e a con inuação de uma his ó ia que es á sendo na a-
da» (1987a: 200), des acando assim a impo ância da ememo ação, da emi-
niscência e do papel do his o iado . A his ó ia é comp eendida como
p esen e-passado- u u o en ec uzados; a his ó ia é en endida como na a i-
a. Comp eende-se, com a lei u a da sua ob a, que o homem se az azendo o
mundo, e se az como homem se azendo na linguagem, p ocesso que só é pos-
sí el g aças à cole i idade, ao nós. É no ou o que a linguagem se en aiza; com-
p eende o ou o eque uma expe iência comum compa ilhada pois «a
na a i a… me gulha a coisa na ida do na ado , como a mão do olei o na
a gila do aso.» (Benjamin, 1987a: 205). P ocu ando ap eende o « empo
his ó ico em e mos de in ensidade e não de c onologia» (Gagnebin, 1994:
11), Benjamin pe gun a: «não exis em, nas ozes que escu amos, ecos de ozes
que emudece am?…» (1987a: 223).
Rememo a o passado signi ica, pa a ele, supe a o his o icismo que ê a
his ó ia como con inuidade linea e mecânica. Po isso,
[…] em cada época é p eciso a anca a adição ao con o mismo, que que
apode a -se dela… O dom de despe a no passado as cen elhas da espe ança
é p i ilégio exclusi o do his o iado con encido de que ambém os mo os
não es a ão em segu ança se o inimigo ence . E esse inimigo não em cessado
de ence . (Benjamin, 1987a: 224-225)
Pa a Benjamin, a ol a ao passado não é ei a pa a conhecê-lo, mas pa a,
se indo-se dele, coloca o p esen e numa si uação c í ica. (Konde , 1988: 22).
É possí el muda o passado, esigni icando-o; po an o, é possí el muda o
u u o, o que nega o a alismo e nessa descon inuidade se unda a dimensão
his ó ica do se humano. Po ou o lado, se há uma his ó ia, se o homem é um
se his ó ico é po que exis e uma in ância do homem, é po que ele de e se ap o-
p ia da linguagem, e dize «eu». Se assim não osse, o homem se ia na u eza. Mas
ao con á io, po se p oduzido na cul u a e p odu o de cul u a, o homem
pode conhece , pode i e e econ a a his ó ia, pode cons ui um sabe cole-
i o. Como sujei os de cul u a, podemos epensa o passado, esigni ica a his-
ó ia, pensa e esigni ica o u u o, indaga o p esen e. Nes e p ocesso, duas
igu as (o c onis a e o colecionado ) são cen ais na sua gale ia de pe sonagens
e na sua c í ica da cul u a. O c onis a é o na ado da his ó ia (p. 209):
Linguagem, cul u a e al e idade En ahona 31, 2000 153
O c onis a que na a os acon ecimen os, sem dis ingui en e os g andes e os
pequenos, le a em con a a e dade de que nada do que um dia acon eceu pode
se conside ado pe dido pa a a his ó ia. (Benjamin, 1987a: 223)
O colecionado descon ex ualiza o obje o pa a que possa unciona como
ex o, dispondo o obje o e sua coleção de modo que, ao in e agi com o obje-
o, cada qual (adul o, jo em ou c iança) conheça a his ó ia des e obje o e a i-
bua a ele um de seus inúme os sen idos. Benjamin em «a in enção de da uma
idéia sob e o elacionamen o de um colecionado com os seus pe ences,
uma idéia sob e a a e de coleciona mais do que sob e a coleção em si» (1987b:
227). Pa a ele, «a exis ência do colecionado é uma ensão dialé ica en e os
pólos da o dem e da deso dem» (1987b: 228). En e an o, diz Benjamin,
«nunca hou e um monumen o de cul u a que não osse um monumen o de ba -
bá ie» (1987a: 225). Um dos legados da eo ia c í ica é nos inci a a olha o
monumen o de ou o modo, es abelece com ele ou a elação, esco á-lo a
con apelo. Não se a a de coisi ica ou mi i ica o que a cul u a acumulou
ou o que a pesquisa cien í ica des enda, mas de le an a as pe gun as que sus-
ci am. De e , com e nesses espaços, uma expe iência c í ica de o mação.
Pa a polemiza , ale aze Habe mas, um de seus in e locu o es que admi-
e que as conquis as humanas g ada i as são uma possibilidade. Nem con es-
ado adical das eses de Benjamin sob e a his ó ia, nem ampouco de enso
dessas eses, Habe mas (1981) conside a que Benjamin opõe à eo ia dialé ica
do p og esso uma dú ida p o ilá ica, ao mesmo empo que o nece a espe-
ança undada con a as concepções pessimis as pa a as quais não ha e ia pos-
sibilidade de uma ida melho pa a o homem. Le ando essa con adição em
con a, Habe mas, embo a de endendo o es o ço pelo consenso, pe gun a:
[…] e se, chegado o momen o de o ganiza discu si amen e a on ade dos
homens, es es i essem pe dido a capacidade de in e p e a a ida jus a? Se
chegado o momen o em que os homens, emancipados de odas as ep essões,
pudessem, en im, con e sa uns com os ou os, eles descob issem que não êm,
a inal, nada a dize em? E se Benjamin i esse azão? E se, com a alência da
c í ica eden o a, o passado que Benjamin que ia sal a i esse sido agado,
pa a semp e, pelo abismo sem undo do mi o, pe dendo-se i emedia elmen-
e, os con eúdos semân icos da adição? (Rouane e F ei ag, 1980: 66)
3. In ância, his ó ia e o mação cul u al
Essa análise p o oca mui as e lexões: é possí el uma educação c í ica da cul u a?
Como pensa a o mação nes e inal de século, numa di eção em que se epen-
se o passado, a mixó dia e os despojos da cul u a? Como de ende e a ua numa
pe spec i a de o mação cul u al c í ica, sem pe de de is a que a cul u a se
cons uiu e o aleceu como monumen o de ba bá ie? Como man e a u opia
e a espe ança de ece solida iedade, gene osidade e jus iça social, con a a dis-
c iminação do ou o, pelo econhecimen o das di e enças de odos os ipos, a
não se esco ando a his ó ia a con apelo, ou seja, na di eção con á ia à domi-
154 En ahona 31, 2000 Sonia K ame
nação, à cul u a legi imada como co e a, con a a op essão? A libe dade do
diálogo es á se pe dendo ou se pe deu? Como ecupe á-la ou e undá-la?
As up u as p o ocadas pelas eo ias con empo âneas nos le am ambém
a epensa a in ância. Tan o os diálogos com a psicanálise, a iloso ia e os es u-
dos da linguagem, como ambém a his ó ia da in ância e as con ibuições da
sociologia e da an opologia pe mi em en en a polêmicas e indaga : como
deixa de se in -ans (aquele que não ala), como adqui i oz e pode num
con ex o que de um lado, in an iliza os sujei os sociais, empu ando pa a en-
e o momen o da ma u idade e, de ou o, os adul iza, jogando pa a ás a cu a
e apa da p imei a in ância? Pa a esol e es e apa en e pa adoxo, é p eciso pe -
cebe a concepção —que lhe é subjacen e— de in ância em abs a o, desen-
aizada de sua cul u a, classe, g upo social e, ao con á io de e as c ianças
segundo uma supos a essência ou na u eza, en ende que são p oduzidas em
e po condições conc e as de exis ência, que são sujei os sociais e his ó icos,
ma cados pelos aspec os con adi ó ios das sociedades em que i em.
A c iança não é ilho e do homem; ela não se esume a se alguém que não
é, mas que se o na á (adul o, no dia em deixa de se c iança…). Con a es a
pe cepção na u alizado a da in ância e in an ilizado a do se humano, há que
se o ja uma concepção que econhece a especi icidade da in ância —mani es a
no seu pode de c iação— e que en ende as c ianças enquan o pessoas que
p oduzem cul u a, além de se em nela p oduzidas, que possuem um olha c í-
ico e ma o o que i a pelo a esso a o dem das coisas, sub e endo essa o dem.
Esse campo ensina não só a comp eende as c ianças, mas a e o mundo a
pa i do pon o de is a da c iança. E ap ende a e o mundo com o olha da
c iança —ques ionando o adul ocen ismo p esen e nas ins i uições, a domi-
nação e a dida ização exis en es nas di e en es modalidades de educação e nas
di e sas ins âncias da cul u a— exige e signi ica comp eende que a c iança
az his ó ia com o lixo da his ó ia.
Can ei o de ob a: as c ianças… sen em-se i esis i elmen e a aídas pelos des-
oços que su gem da cons ução, do abalho no ja dim ou em casa, da a i-
idade do al aia e ou do ma cenei o. Nes es es os que sob am elas econhecem
o os o que o mundo das coisas ol a exa amen e pa a elas, e só pa a elas.
Nes es es os elas es ão menos empenhadas em imi a as ob as dos adul os do
que em es abelece en e os mais di e en es ma e iais, a a és daquilo que c iam
em suas b incadei as, uma no a e incoe en e elação. Com isso, as c ianças
o mam seu p óp io mundo das coisas, mundo pequeno inse ido em um maio .
(Benjamin, 1984: 77)
En ende que as c ianças êm es e olha c í ico que i a pelo a esso a o dem
das coisas, que sub e e o sen ido de uma his ó ia, que muda o di eção de ce -
as si uações, exige que possamos conhece as c ianças, o que azem, de que
b incam, como in en am, de que alam. E que possam ala mais. Se conco -
damos que his ó ia e linguagem são dimensões que con e em humanidade aos
sujei os sociais, se ac edi amos que há uma his ó ia a se con ada po que há
uma in ância do homem, pode emos —comp eendendo melho nossas
Linguagem, cul u a e al e idade En ahona 31, 2000 155
c ianças— comp eende melho nossa época, nossa cul u a, a ba bá ie e as
possibilidades de ans o mação. Há que ap ende com a c iança a olha e i a
pelo a esso, a sub e e . Se é e dade que «os meninos do B asil êm a ca a do
B asil», como diz Gonzaguinha, p ecisamos de espaços de educação capazes
de aze di e en e pa a que não sejam mais e dadei as as pala as dos poe as
quando dizem:
Ainda me lemb o aos ês anos de idade, meu p imei o con a o com as g ades.
Meu p imei o dia na escola, como eu sen i on ade de i embo a.
Fazia udo que eles quisessem, ac edi a a em udo que eles me dissessem.
Me pedi am pa a e paciência. Falhei, g i a am:
C esça e apa eça ! (Ma celo Bon á e Rena o Russo)
Ao con á io, abalha com c ianças pode ensina a u opia. Do mesmo
modo, anda como um lâneu pelas uas das cidades, cuida de c ianças, a en-
u a -se a in e agi com elas em si uações co idianas ou de pesquisa, udo isso
ale a que é c ucial epensa o signi icado da elação adul os/c ianças hoje e
o que ela implica. Uma in e essan e alego ia a esse espei o se ia a do ca inho
de ba e ia: enquan o ap ende a anda de bicicle a eque a ajuda do ou o e a
conquis a da au onomia numa expe iência de coope ação, os ca inhos de ba e-
ia ( e dadei os andado es mode nos) mos am como c ianças e adul os camin-
ham hoje às on as, em di eção a nenhum luga , a esmo, en egues à so e.
Essas ques ões eme em, po an o à esponsabilidade social que emos, no
sen ido de p o oca —como p opõe Ado no— a au o- e lexão c í ica, engen-
d ando si uações onde se o ne possí el ajuda a ieza a adqui i consciência
de si p óp ia, de sua consciência coisi icada, de sua indi e ença pelo ou o.
A í ulo de conside ações inais - educa con a a ba bá ie
Po uma sociedade undada no econhecimen o do ou o e nas suas di e enças
—de cul u a, e nia, eligião, gêne o, classe social, idade— supe ando a desi-
gualdade: es e é o mo e do abalho que de endo em educação. Mas isso é
pouco hoje. Pa a lu a po es a sociedade, é p eciso educa con a a ba bá ie,
o que implica uma é ica e exige uma pe spec i a de o mação cul u al que asse-
gu e sua dimensão de expe iência c í ica. Nesse sen ido, comecei es a ala com
Auschwi z não po en ende que as ques ões g a es do nosso co idiano sejam
meno es ou menos impo an es que as de en ão. Ao con á io. Kosik (1996),
ao analisa a possibilidade ou a impossibilidade do ágico no nosso empo,
mos a que a agédia hoje i ou desas e; indaga se ainda é possí el ala no
ágico se o amanho da agédia é a aliada pelo núme o de cen enas, milha-
es, milhões de homens, mulhe es e c ianças mo os. Quan o maio o núme-
o de í imas, maio a agédia? Não; a agédia no sen ido o iginal é p o ocada
pela mo e de um…
No nosso co idiano, deixam-me pe plexa —como disse no início— as b i-
gas, os ódios, a al a de disce nimen o, a ausência da capacidade de análise
c í ica, a pe da do diálogo. Mas me assomb am mais os su is no os modos de
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eliminação e de epe ição da agédia. Re i o-me: a Galdino índio pa axó quei-
mado; aos mendigos mo os nas esquinas; aos homossexuais chacinados nas
es adas; aos meninos execu ados nas candelá ias des e país; aos p esos o u a-
dos ou ucidados em ca andi us; às c ianças com mãos baleadas po a i-
can es; aos mé odos disciplina es que iolen am os mais p imá ios di ei os das
pessoas; aos p ocessos isí eis ou in isí eis de cala a pala a alheia; às en a i-
as explíci as ou implíci as de busca a posição unânime, eliminando a di e ença
ou o dissenso; aos meninos, meninas, jo ens ou adul os que se en a emudece ;
à his ó ia de esc a idão, passada e p esen e; à desigualdade social, à misé ia, que
ma a pela ome, pela al a de e a, de abalho e de libe dade; à hipoc isia
que suge e que a mudança ge a ia o caos, quando o caos es á já ins alado.
Falo de Auschwi z e desse co idiano de do a que de emos esis i , não pa a
ingenuamen e compa a o an es e o ago a e conclui se já oi pio , nem pa a dize
que é igual; ecuso-me como Kosik a dimensiona o amanho da agédia pelo
núme o de mo os; ecuso-me a con a com quan os ou os se p oduz um
homicídio. T a a-se de c imes con a a humanidade; a a-se de en a i as de eli-
mina o di e en e. Falo de Auschwi z pa a ale a a nós mesmos de que o su il
no o ascismo, de que ala a Pasolini (1990), con inua se ag a ando:
[…] quando ejo aos meu edo que os jo ens es ão pe dendo os an igos alo-
es popula es e abso endo os no os modelos impos os pelo capi alismo, co en-
do assim o isco de uma o ma de desumanização, de uma o ma de a asia
a oz, de uma b u al ausência de capacidade c í ica, de uma acciosa passi idade,
me lemb o de que es as e am exa amen e as ca ac e ís icas ípicas do SS;
e assim ejo se es ende sob e nossas cidades a somb a ho enda da suás ica.
(Pasolini, 1990: 115)
Explici o assim meu pon o de is a de que não co emos o isco de chega
a ba bá ie po que há mui o i emos na ba bá ie.
Logo de início mencionei o a o de que Auschwi z não é pa a mim uma
me á o a; escla eço ago a essa a i mação: meu pai sob e i eu Auschwi z, ou
como disse Semp un, a a essou a expe iência da mo e. E desde semp e ele
me ensinou a doçu a e não a ama gu a; me ensinou que o so imen o pode
ge a a gene osidade, a acei ação do ou o, a capacidade de esis i e de bus-
ca saídas pa a a ida em comum. Mas, sob e udo, com odas as his ó ias que
me con ou, do modelo de ida em cole i idade des uída pelo holocaus o, das
línguas e dos po os ucidados, das cul u as que con i iam (polilingüismo,
he e oglossia, dialogismo), de inúme as si uações i idas po aquele um apaz
judeu dos 14 aos 20 anos de idade, de 1939 a 1945, ci a ei apenas uma: che-
ga em Flossenbu g e, mais a de, em Dachau, ambos campos de ex e mínio,
e a se depa a com um chei o insupo á el. Um chei o desconhecido e insu-
po á el. Dian e da explicação de que p o inha dos o nos c ema ó ios, a eação
de inc edulidade: não e a possí el; quem ac edi a a, mesmo endo a umaça que
saía das chaminés, mesmo sen indo o chei o, mesmo no ando que milha es
de pessoas en a am e não saíam das câma as, ainda assim, quem podia ac e-
di a que se queima a pessoas i as?
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¿Qué esconde an a incompe encia? Pa ece e iden e que es necesa io, una
ez más, acia las cabezas e in oduci mo alidad, pa a adecua se a la u u a
sociedad de la in o mación, que ex ae á sus bene icios y expia á su culpa en una
«c uzada solida ia» hacia los es a os más dep imidos.
Los p incipios pedagógicos de la e o ma son plenamen e aco des con la
de i a de nues a sociedad. La Ve dad impues a dogmá icamen e ma ó al cono-
cimien o en épocas pasadas, y es aho a disuel o en el p ocesamien o in o má-
ico. La iden idad humana se o igina en el lenguaje —el ela o, la ansmisión,
el diálogo, el explica se uno a sí mismo—, es el medio humano, donde puede
o ja se la sensibilidad, una «mane a de se » que hace al «se » «humano», desde
la cual pode ac ua lib emen e sin in e posición de alo es mo ales añadidos.
Si de e dad se p e enden supe a los p oblemas de nues o p esen e y hace
de la enseñanza un espacio cí ico en el que odas las pe sonas puedan ene
un luga , hab ía que plan ea con alen ía un p og ama au én icamen e demo-
c á ico y emancipado , que sólo puede es a basado en el conocimien o y
la acionalidad. Como esc ibió K akaue , «hace al homb e dueño de la azón
y no íc ima del p oceso de acionalización». Po el con a io, lo que p e ende
el ac ual sis ema educa i o es adecua los conocimien os y odo el p oceso de
ap endizaje a las condiciones de la ecnología, con el in de lle a a cabo una
au én ica in eg ación psicológica y mo al, e impidiendo a oda cos a la o -
mación de se es au ónomos y lib es.
El obje i o de es e nue o diseño de la enseñanza es acos umb a a los indi-
iduos, aislados y desp o is os de odo conocimien o y conciencia, al manejo
ciego de las máquinas y a la pé dida de lo eal, o mejo , a su suplan ación po
el mundo digi al y la ealidad i ual. Acep a como ine i able el u u o que
se a ecina y pone la educación al se icio de las mul inacionales de los mul-
imedia. La p egun a que con inúa en pie sigue siendo: «¿Quién se ap opia á
de la au én ica ealidad?».
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