Depoimento de Obéd Emmerich ao repórter Ademir Ramos (1979)
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1 Depoimento de Obéd Emmerich ao repórter Ademir Ramos em 1979 Observação inicial: A origem deste depoimento está explicada na seção A.12 do livro Caneta de Ouro: Poesia e Trajetória de Vida de Obéd Emmerich, de autoria de Francisco G. Emmerich, que está sendo publicado em 2025. Nessa seção, o autor apresenta quem foi o importante repórter Ademir Ramos. Diversos episódios e fatos narrados no depoimento são esclarecidos e/ou corrigidos ao longo do livro. ------------------------------------------------------------------------------------------------- Parte A: Transcrição do original com explicações ou correções Parte B: Cópia do cabeçalho e do início da 1ª página do original Parte C: Cópia completa do original sem os cabeçalhos ------------------------------------------------------------------------------------------------- Parte A: Transcrição completa do texto original, com explicações ou correções em notas de rodapé feitas por Francisco G. Emmerich em 2025. (Observação: Outras explicações/correções são apresentadas no livro.) “REPÓRTER: Ademir [Ramos]” “Assunto: Obéd Emmerich” “Aos 69 anos de idade, Obéd Emmerich é um homem realizado na vida. Aposentado, em 1967, pela prefeitura de Cariacica, exerceu os cargos de contador, foi professor, vereador de Cariacica e de São Mateus, entre outras atividades. Atualmente só cuida de horta. Trabalhou 25 anos na Prefeitura de Cariacica e seis anos no Estado. Nascido em Bom Jardim, Estado do Rio, aos 25 de janeiro de 1910, filho de Izidro Guilherme Emmerich, descendente de suíço 1 e alemão e Alice Martins Emmerich, descendente de português com índio 2 . Trabalhou na roça até a idade de 15 anos. No interior não havia escolas, um professor aparecia e o máximo que permanecia no local era dois meses. Começou a estudar aos 15 anos, em São José do Ribeirão, Córrego de Jaracatiá, Bom Jardim, Rio de Janeiro, na Escola Euclides da Cunha, dirigida por Manoel Vieira Batista, onde estudou dois anos. 1 Obéd se enganou, pois seu pai, Isidro Guilherme Emmerich, descende apenas de alemães. 2 Apuramos que a mãe de Obéd, Alice Martins Emmerich, é descendente, por parte de pai, de portugueses dos Açores. Temos os nomes de seus avós e bisavós maternos (ver árvore da seção 6.5 do livro Caneta de Ouro — Emmerich, 2025), que nasceram no Brasil. Considerando a formação geral da etnia brasileira, é bastante plausível que algum(ns) deles seja(m) descendente(s) de indígenas, equivalentes aos povos originários, em um linguajar mais moderno.
2 Gostava de montar burro bravo, dizia que ia para a igreja, mas se mandava para a fazenda. Em 1927, mandaram-no, então, para a casa do seu tio em Alto Jequitibá 3 , atual Presidente Soares, em Minas Gerais. Fez a admissão, a primeira série ginasial e a segunda, até junho, pois os recursos estavam difíceis e pretendia fazer um curso oficializado. Nesta ocasião, apareceu um pastor, que incutiu na ideia de seu pai, para que o fizesse, também, pastor da Igreja Presbiteriana. Não lhe agradara a ideia e, em 1929, foi para o Rio de Janeiro. Não mais estudou, mas lia bastante, procurando aumentar seus conhecimentos. Em 1930, na ocasião da Aliança Liberal, seria realizado o seu primeiro comício para a candidatura de Getúlio Vargas. Obéd Emmerich apresentou-se e fez um discurso. Os políticos gostaram e puseram-no para sustentação da campanha. A seguir mandaram-no para Minas Gerais. Em Minas, o pessoal era getulista. Em Alto Jequitibá dissolveu o comício da Concentração Conservadora. Estes metiam o pau em Getúlio e João Pessoa. O pessoal, então, virou para o seu lado. Quase o pegaram e quiseram levá-lo, o certo, como diz, é que queriam consumi-lo. Seu sonho era a advocacia, lhe prometeram por intermédio de Alfredo Lima, prefeito de Jequitibá, conseguir com: Antônio Carlos Rodrigues de Andrade, que iria ser governador de Minas Gerais, uma bolsa de estudos, caso a revolução ganhasse. Obéd saiu e foi ser professor em Don Cavati, antigo Inhapim, Minas, onde morava um tio seu. Montou uma escola rural. Veio a revolução, escreveu para Alfredo Lima, cobrando a promessa. Trinta dias depois, recebeu a carta, cheia de lenga-lenga, dizendo que a Revolução não tinha recursos e por isso não seria lhe dada a bolsa. Nessa ocasião o sujeito já era deputado estadual. Obéd escreveulhe uma carta, sem saber desenhar, desenhou uma banana muito bem caprichada e lhe enviou, assinando abaixo. Essa foi sua maior frustração. Seu pai às vésperas da Revolução veio para Celina, distrito de Alegre, Espírito Santo. Em 1931, Obéd chegou e trabalhou na roça. Abriu escola para filhos de lavradores. Em março de 1932, apareceu o reverendo Jader Coelho, que perguntou-lhe se queria ir para Cariacica. Havia, em Cariacica, um colégio da igreja. Cobraria cinco mil réis dos alunos, para sua manutenção. Obéd topou a parada, nem sabia se existia e onde ficava Cariacica. Lecionou até 1934, pois as coisas foram piorando, os alunos não mais queriam pagar. Fechou, então, o colégio Antônio Trajano. Surgiu o Integralismo, Obéd era contra Getúlio, seu ídolo era João Neves Fontoura, do Rio Grande do Sul. Ficou frustrado porque Getúlio não se conformava com sua inteligência e o passou para trás. 3 Foi datilografado “Jequitinhonha”, mas o correto é “Jequitibá”, aqui e em outros dois parágrafos.
3 Surgiu Plínio Salgado, em 1934, formando o Integralismo. Obéd fundou um núcleo em Cariacica e fazia campanhas, chegando a participar de um tiroteio em Cachoeiro de Itapemirim 4 . Veio a revertesse 5 de 1938, com assalto ao Palácio do Catete 6 . Pensaram que ele fosse o responsável. Foi preso, colocaram-no na penitenciária de Pedra D’Água, onde permaneceu por três meses incomunicável, sem chegar a trocar nem a roupa do corpo. Em seguida, soltaram-no porque não encontraram provas que o incriminasse. Obéd teve uma recaída, vendeu seus móveis, arranjou dinheiro com um integralista, comprou uma oficina e foi ser sapateiro. Seus pais o levaram para Celina, Alegre, mas aí, era pior que trabalhar no garimpo, como trabalharia mais tarde. Em Celina, se produzia de tudo. Largou o bananal, canavial, pois ninguém comprava nada. Era preferível abandonar a roça. Voltou para Cariacica. Foi ser garimpeiro. Trabalhou na divisão de Viação, hoje DER. Trabalhava na picareta. A seguir passou a feitor, recebendo 10 mil réis mensais em mercadorias adquiridas no Edgar Rocha, Pitol, etc. Antes disso, Obéd Emmerich foi para a construção do hospital de Itanhenga, onde entrou como ajudante. Saiu pedreiro, atualmente é pedreiro de profissão. Como feitor, saía a pé até as Cinco Pontes, na volta pegava uma carona. Outro dia, ia até as Três Pontes, gastando um dia de ida e volta. Até que Paulo Rodrigues, pioneiro de empresa de ônibus no município o chamou para ser fiscal, recebendo 250 mil réis por mês. Paulo Rodrigues muito o ajudou e até os dias atuais, Obéd é grato à sua família. Tempos depois, a empresa “Alto Viação Cariacica” foi vendida para um português, Alfredo Silva. Obéd ficou trabalhando com ele, por indicação de Paulo Rodrigues, que a seguir lhe arranjou um emprego na Shell. Em maio de 1945, Paulo Rodrigues o chamou para exercer o cargo de secretário-tesoureiro, com salário de 400 mil réis, pois seu cunhado seria prefeito. Em junho Obéd foi admitido. Existia o órgão Departamento dos Municípios. O inspetor do departamento era Aureliano Hoffmann, seu amigo até os momentos atuais. Este lhe deu aulas sobre administração municipal e Obéd ficou doutor no assunto. Na prefeitura, de secretário-tesoureiro, passou a contador e assistente técnico. Aposentou-se, em 30 de janeiro de 1967, como contador. Em 1946, por desentendimento, foi para São Mateus, onde foi contador da prefeitura. De 1947 a 1949 7 exerceu o cargo de vereador. Renunciou ao cargo 4 O tiroteio em Cachoeiro de Itapemirim ocorreu em 03/11/1935. 5 Obéd mencionou “revertesse de 1938”, mas o mais apropriado seria “levante integralista de 1938”. 6 O levante integralista de 1938 ocorreu no Palácio Guanabara, e não no Palácio do Catete. 7 Obéd foi eleito vereador de São Mateus na eleição de 30/11/1947 e exerceu o mandato de 07/01/1948 a 16/12/1948, quando renunciou para retornar a Cariacica. Reassumiu seu cargo na Prefeitura de Cariacica em fevereiro de 1949. Cabe registrar que Obéd não mencionou ao repórter Ademir que havia sido prefeito nomeado de São Mateus por cerca de dois meses no início de 1947.
4 em 1949, quando resolveu voltar para Cariacica e reassumir seu cargo na prefeitura. Em 1959, foi defensor do INPS, implantou com Eduartino Silva, o Departamento de Transportes, criado em 1958 8 . Em 1962, fundou o Ginásio São João Batista, com a cooperação 9 de José Oliveira Correia e aceitação por parte do prefeito Eduartino Silva, prefeito da época, e demais vereadores. As más línguas lhe diziam que estava perdendo tempo. Se nem trinta pessoas estudavam, como daria para fundar um ginásio. Obéd disse: o ginásio é para os pobres que não podem ir estudar em Vitória. O terreno do ginásio foi comprado por 50 contos, pagos a prestação. Os professores, incluindo Obéd, davam aulas de graça. Para que o estabelecimento pudesse funcionar a título precário era necessário preencher vários requisitos, entre eles um filtro, que ele levou de sua própria casa. A planta foi feita, de graça por um amigo. O cimento para construção foi conseguido com a Itabira, a brita com a CVRD e o ferro com a Cia Ferro e Aço de Vitória. Por causa de Ferrinho 10 , no governo de Chiquinho, o ginásio passou ao Estado. Devido a isso, Obéd ficou muito tempo sem pôr os pés no ginásio, até que em 1979, palestrou sobre a Independência do Brasil a pedido de Arildo Gimenes Rodrigues e sugestão de seus filhos. A seguir, ele foi contratado pelo regime da CLT 11 , como chefe do serviço de administração. Fazia de tudo, pôs em dia a escrita. Trabalhou até que Élcio Álvares entrou no poder, em 1975. De 1964 12 a 1967, foi vereador de Cariacica, pelo PSD, a partir daí, não mais se candidatou 13 . 8 Possivelmente, a sentença “implantou com Eduartino Silva, o Departamento de Transportes, criado em 1958” está fora de lugar (deveria estar quatro parágrafos abaixo), sendo que a data correta provavelmente seja 1967–1968, e não 1958. Essa suposição se baseia no fato de que Obéd foi contratado, sob o regime da CLT, em janeiro de 1969, pelo Departamento de Transportes do Estado do Espírito Santo, criado pela Lei nº 2.296/1967, durante o governo de Christiano Dias Lopes Filho. Obéd trabalhou nesse departamento com Eduartino Silva, que ocupava uma posição hierárquica superior. 9 Além de Obéd, que auxiliou significativamente no âmbito da Prefeitura, as pessoas que mais cooperaram para a fundação do Ginásio foram José Oliveira Correia (corretor de seguros), Arildo Gimenes Rodrigues (cirurgião-dentista) e Noás Ribeiro dos Santos (professor). Esse grupo de trabalho contou ainda com o apoio do professor Ruy Lora, da Secretaria de Educação do Estado. 10 Ferrinho é o apelido de Fernando Ferreira Amaral. 11 A sentença mencionada na nota de rodapé nº 8 deveria estar localizada aqui. Obéd foi contratado sob o regime da CLT em 16/01/1969 pelo Departamento de Transportes do ES, como Oficial Administrativo. Pouco depois, em 25/02/1969, passou a exercer o cargo de Chefe do Serviço de Administração, trabalhando com Eduartino Silva. 12 O ano correto do início do mandato de vereador de Cariacica é 1963, e não 1964. 13 Embora Obéd não tenha voltado a se candidatar a vereador após seu mandato de 1963 a 1967, ele não comentou ao repórter que foi candidato a deputado estadual em 1966 e a prefeito de Cariacica em 1970, tendo perdido ambas as eleições. Só a partir de 1970 é que deixou de se candidatar. Cabe ainda registrar que ele tampouco mencionou, em seu depoimento ao repórter Ademir, as candidaturas da década de 1950 — a deputado estadual em 1950 e 1954, e a prefeito em 1958 — nas quais também não foi eleito.
5 Obéd Emmerich foi ainda, o fundador da Arena em Cariacica, mas, em 1972, ingressou no MDB, apoiando Aldo Prudêncio. Trabalhou com ele na prefeitura, até 1975, quando se aposentou 14 . Foi, ainda, um dos implantadores da Rádio Capixaba. Chegou a trabalhar em sua redação. Tinha um jornal falado “Notícias do Dia”, comentando até os dias atuais. Em 1947, escrevia reportagens políticas, de graça. Em A Gazeta foi publicada uma reportagem sua “São Mateus, terra sem justiça e sem liberdade”, contra o PSD. Na ocasião ele era da UDN. Isto causou o maior rebu. Lançou em seu programa, Eleisson de Almeida e outros que ainda são seus amigos. Como afirma, já deu muito duro para ganhar a vida, o pão e não deixar cair a peteca. Quando chegou a Cariacica, esta era mais ou menos do jeito que se encontra atualmente. Tinha uns dois mil habitantes. A sede, em 1979, deve ter uns oito mil. O comércio sempre foi de subsistência. Nunca teve indústrias. Atualmente conta com a Fábrica de Doces Limeira e uma fábrica de fecho éclair. Quando chegou não existia Jardim América, nada. Até Campo Grande era somente mata. Em Itacibá existiam quatro casas, Itaquari – um núcleo, Cariacica – uma chapada. Os antigos moradores de Campo Grande eram Edgar Gonçalves e Belinho. Grande parte dos terrenos pertencia a Novaes Campos, que vendeu para a Imobiliária Itacibá, pertencente aos Srs. Marzeli e Expedito Garcia, por 400 mil réis. Hugo Viola comprou terrenão em Jardim América, das mãos de um preto, por 50 contos à prestação. Em Cariacica só foi alterado o calçamento e reforma de alguns prédios, os melhoramentos são esporádicos. Do seu primeiro casamento com Aracy Mendonça Emmerich, falecida em 7 de outubro de 1951, nasceram os filhos: Oberacy, Vasthy, Daicy, Deneci, Valdeci, Amauri e Magaly. Com sua segunda mulher, Judith da Silva Emmerich, nasceram: Ângela, Francisco e Wilson Obéd Emmerich. Todos bem encaminhados na vida.” “Concordo com os dados. “Autorizo publicar.” Ademir Ramos (1979) 14 Obéd voltou a trabalhar na Prefeitura de Cariacica sob o regime da CLT até 21 de julho de 1975, quando se aposentou por idade por esse mesmo regime. Sua aposentadoria anterior, em 1967, havia ocorrido pelo regime estatutário.
6 ------------------------------------------------------------------------------------------------- Parte B: Cópia do cabeçalho e do início do texto da 1ª página do original do depoimento de Obéd Emmerich ao repórter Ademir Ramos, em 1979. Abaixo, o cabeçalho superior e o início do texto da 1ª página: ------------------------------------------------------------------------------------------------- Parte C: Nas 7 páginas seguintes, uma cópia completa do original do depoimento de Obéd ao repórter Ademir, mostrando todo o corpo do texto, sem os cabeçalhos das páginas. Observação: o repórter não datilografou nada nos cabeçalhos das páginas, exceto na primeira, conforme mostrado na Parte B, em que ele escreveu seu nome, “Ademir”, após “REPORTER:”, e “Obed Emmerich”, após “Assunto:”. Portanto, como o cabeçalho da 1ª página já foi apresentado na Parte B, os cabeçalhos da páginas não serão repetidos na Parte C.