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Pensamento sistêmico, teoria da relevância e teoria da polidez [orig.] / Theory of autopoietic systems, relevance theory, and politeness theory

Almeida, André Luiz de Oliveira; Godoi, Elena; Silva, Juliana Camila Milani da; Figueiredo Junior, Selmo Ribeiro

Abstract

[In English below.] Propomos uma reflexão sobre a linguagem e a comunicação a partir da teoria da relevância, da teoria da polidez e do pensamento sistêmico. O intento é refletir sobre esses fenômenos tendo em mente um continuum cuja constituição parte do âmbito biológico, passa pela esfera cognitiva e chega à dimensão sociológica. As seções deste artigo de conferência dividem-se na apresentação breve das teorias na exposição do continuum biológico-cognitivo-sociológico referido. Palavras-chave: multidisciplinaridade; linguagem; comunicação. Cite como (ABNT):GODOI, Elena; ALMEIDA, André Luiz de Oliveira; SILVA, Juliana Camila Milani da; FIGUEIREDO JR., S. R. Pensamento sistêmico, teoria da relevância e teoria da polidez. Semana de Letras UFPR. Cadernos... In: SEMANA DE LETRAS UFPR. Curitiba: 15 jun. 2011. Language and communication are taken as common ground for our discussion, involving three branches: relevance theory, politeness theory, and the theory of autopoietic systems. We suggest that both language and communication are rooted in a continuum that has its beginning in the realm of biology, goes through the realm of cognition, and ends in the realm of social interactions. This conference paper briefly presents the theories and our arguments regarding the continuum. Keywords: multidisciplinarity; language; communication. Cite as (APA):Godoi, Elena ; Almeida, André Luiz de Oliveira ; Silva, Juliana Camila Milani da; Figueiredo JR., S. R. (2011). Pensamento sistêmico, teoria da relevância e teoria da polidez [Theory of autopoietic systems, relevance theory, and politeness theory]. Cadernos da Semana de Letras UFPR, 2.

Full text

Cadernos da Semana de Letras Ano 2011 Volume II - Trabalhos Completos Universidade Federal do Paraná Curitiba, 23 a 27 de maio de 2011 EDITOR Eduardo Nadalin COMITÊ DE PUBLICAÇÃO João Arthur Pugsley Grahl Marcio Renato Guimarães Nylcéa Thereza de Siqueira Pedra Camila de Oliveira Afonso Carlo Giacomitti Elisa Tisserant de Castro José Olivir de Freitas Junior Rodrigo Tadeu Gonçalves NORMALIZAÇÃO BIBLIOGRÁFICA José Olivir de Freitas Junior PRODUÇÃO GRÁFICA José Olivir de Freitas Junior 1ª edição Catalogação-na-publicação Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) S471c Semana de Letras (3. 2011: Curitiba, PR) Cadernos da Semana de Letras: trabalhos completos / Semana de Letras, 23 a 27 de maio de 2011, Curitiba, PR. – Curitiba: UFPR: 2011. 481 p. ISSN 2237-7611 1. Universidade Federal do Paraná – Congressos. 2. Universidades e faculdades – Pesquisa – Congressos. I. Título. CDU 8(048.3) Bibliotecário Mauro C. Santos CRB 9ª/1416 Cadernos da Semana de Letras UFPR Ano 2011 Volume II – Trabalhos Completos 8 Pensamento sistêmico, teoria da relevância e teoria da polidez: apontamentos iniciais para abordagens do continuum biológico-cognitivo-sociológico1 André Luiz de Oliveira Almeida Elena Godoi Juliana Camila Milani da Silva Selmo Ribeiro Figueiredo Junior Apresentação Quando fizemos a comunicação coordenada que serve de base para este artigo2, denominada “Teoria da relevância, teoria da polidez e pensamento sistêmico: uma inter-relação epistemológica sob lentes pragmáticas”, pretendíamos discutir se haveria, por parte dessas diferentes teorias, alguma congruência na reflexão de objetos do conhecimento tais como a linguagem e a comunicação, bem como se poderia haver algum proveito originado dessa postura reflexiva a favor dos estudos pragmáticos. Também foi nessa ocasião que perguntamos se esse modo interdisciplinar de nos reportar aos objetos do conhecimento mencionados faria evidenciar quais são os elementos imprescindíveis para a intercompreensão entre os sujeitos e, ainda, onde estaria o lugar privilegiado do cientista em sua tarefa. Quanto ao questionamento em relação à congruência no trato de objetos em comum por parte da teoria da relevância (TR), da teoria da polidez (TP) e do pensamento sistêmico (PS), estávamos intuitivamente seguindo uma ideia cuja expressão aproximada o gráfico 1, abaixo, pode aludir. 1 Esta discussão se desenvolveu a partir de apontamentos originados neste ano (2011) no Grupo de Pesquisa “Linguagem e cultura” (UFPR-CNPq), liderado pela Dra. Elena Godoi. 2 Realizada no dia 23 de maio na Semana de Letras 2011 da UFPR. GRÁFICO 1 Cadernos da Semana de Letras UFPR Ano 2011 Volume II – Trabalhos Completos 9 Salientávamos que a TR estaria do lado da cognição (C), a TP a se ocupar de aspectos sociológicos da interação mediante a linguagem (S) e o PS voltado para considerações de ordem biológica ou ontogênica (B)3. Com isso, a discussão poderia se pautar na busca de congruências, o que mais ou menos quisemos evidenciar com os círculos acima interpenetrados (como sugerem as linhas tracejadas), dando a ideia de tratamentos dirigidos a fenômenos iguais sob perspectivas diferentes, sem uma ordem predefinida da discussão em relação aos níveis. Fizemos isso na comunicação oral, mas aqui apresentamos nova postura: propomos uma reflexão sobre a linguagem e a comunicação, não com preocupação de encontrar semelhanças dos tratamentos propostos pela TR, TP e PS, mas sim de observar esses fenômenos tendo em mente um continuum cuja constituição parte do âmbito biológico rumo à dimensão sociológica para a explicação dos fatos da linguagem. Isso dito, as seções que seguem apresentam brevemente as teorias e, na sequência, a seção “Do continuum biológico-cognitivo-sociológico” expõe nossa reflexão mais propriamente, seguida pelas considerações finais. Pensamento sistêmico4 Para MATURANA (2002), a linguagem e as emoções são elementos que participam de todo conversar5. O autor destaca que algumas condições sob as quais uma conversação ocorre são a amizade, o interesse comum, o confinamento espacial e o amor6. MATURANA entende as emoções como [...] disposições corporais que especificam a cada instante o domínio de ações em que se encontra um animal (humano ou não), e que o 3 Nas seções seguintes, essas correlações (TR e cognitivo, TP e sociológico, PS e biológico/ontogênico) serão explicitadas. 4 O pensamento aqui exposto é o de MATURANA (2002). 5 O conversar (na acepção de MATURANA), como ação, pertence ao âmbito emocional (MATURANA, 2002:174). 6 Dentre as emoções, o amor está no centro dos fatos históricos que dão origem ao homem; “é a emoção que constitui o espaço de ações no qual aceitamos o outro na proximidade da convivência” (MATURANA, 2002:174-5). Cadernos da Semana de Letras UFPR Ano 2011 Volume II – Trabalhos Completos 10 emocionar7, como o fluir de uma emoção a outra, é o fluir de um domínio de ações a outro. (MATURANA, 2002:170). O domínio de ações referido na citação acima está ligado à necessidade de que seja um domínio consensual, um domínio de condutas que se encadeia como consequência do “acoplamento estrutural ontogênico8 recíproco entre organismos estruturalmente plásticos” (MATURANA, 2002:147). Essa plasticidade tem a ver com o sistema nervoso, que, embora plástico, é fechado9. Quando dois ou mais organismos interagem recursivamente10 como sistemas estruturalmente plásticos, cada um deles vindo a ser um meio para a realização da autopoiese11 do outro, o resultado é um acoplamento estrutural ontogênico mútuo. (MATURANA, 2002:146). Assim, para MATURANA, deve haver, como condição necessária (mas não suficiente), um acoplamento estrutural recíproco entre os homens para que os rudimentos de uma linguagem possam surgir, homens esses que recebem o estatuto de homens ao surgir a linguagem, considerada um comportamento especial num domínio consensual. Quando os domínios de coordenações consensuais de conduta se tornam recursivos, os homens começam a operar na linguagem (MATURANA, 2002:172). Bastante expressiva é esta outra colocação do autor: Ao movermo-nos na linguagem em interações com outros, mudam nossas emoções segundo um emocionar que é função da história de interações que tenhamos vivido, na qual surgiu nosso emocionar como um aspecto de nossa convivência com outros fora e dentro do linguajar12. Ao mesmo tempo, ao fluir nosso emocionar num curso que é o resultado de nossa história de convivência dentro e fora da linguagem, mudamos de domínio de ações e, portanto, muda o curso 7 O emocionar é um aspecto fundamental do operar animal (MATURANA, 2002:170). 8 Ontogenia diz respeito à historicidade de cada organismo individual (MATURANA, 2002:173). 9 Nesse sentido, digno de nota é a concepção de linguagem assumida aqui: “a linguagem, como processo, não tem lugar no corpo (no sistema nervoso) de seus participantes, mas no espaço de coordenações consensuais de conduta que se constitui no fluir recursivo nos seus encontros corporais recorrentes” (MATURANA, 2002:168). 10 A recursividade é a capacidade que um sistema qualquer tem de recombinar os componentes que o constituem de forma virtualmente infinita. 11 Autopoiese é a capacidade que os organismos vivos têm para manterem a si mesmos (MATURANA, 2002). 12 Linguajar é um termo que se refere ao ato de estar na linguagem (MATURANA, 2002:168). Cadernos da Semana de Letras UFPR Ano 2011 Volume II – Trabalhos Completos 11 de nosso linguajar e de nosso raciocinar. A esse fluir entrelaçado de linguajar e emocionar eu chamo conversar, e chamo conversação o fluir, no conversar, em uma rede particular de linguajar e emocionar. (MATURANA, 2002:172, grifo do autor). A cognição — cujo domínio é, a um só tempo, limitado e ilimitado, como o é o nosso domínio de realidade13 (MATURANA, 2002:162) — é constituída pelas possibilidades que o organismo tem para realizar algo. E o caráter racional é da ordem das coerências operacionais aplicadas às coordenações consensuais de conduta que perfazem a linguagem, e a razão como tal emerge da emoção como diferenciação. Com alguns dos conceitos sistêmicos em mãos, fizemos um esquema que evidencia a hierarquização exposta no esquema a seguir, debatido na comunicação oral a que nos referimos e abaixo reproduzido, seguido por observações. 13 A realidade é o domínio de coisas, e, nesse sentido, aquilo que pode ser distinguido é real (MATURANA, 2002:156). ESQUEMA 1 Cadernos da Semana de Letras UFPR Ano 2011 Volume II – Trabalhos Completos 12 Como se vê acima, a autopoiese fundamenta as condições primevas de possibilidades que um organismo poderá ter no âmbito do orgânico, sem a qual um domínio cognitivo certamente não poderia vir à existência. A capacidade de distinguir que se faculta a um organismo vivo é um processo sobredeterminado pelo domínio cognitivo que o alicerça, dentre cujas expressões primeiras que emergem por diferenciação está o emocionar. Por sua vez, a dinâmica do emocionar é condição para que o amor, a mais importante das emoções, seja possível e atribua, inclusive, o traço gregário a um sem-número de organismos vivos. É com a aproximação que o amor propicia que estará aberto o caminho para que acoplamentos estruturais ontogênicos aconteçam entre organismos, fenômenos que estão na base e na origem da construção de coordenações consensuais de conduta, feitas sem que necessariamente se tenha aí um sistema simbólico tal como uma língua o é, porquanto a ordem da razão precisa fulcrá-la. Com o surgimento da qualidade de raciocinar, temos um componente que possibilita que as coordenações consensuais de conduta constituam domínios consensuais organizados entre os indivíduos, que, quando manipulados recursivamente, fornecem as condições necessárias para que uma linguagem verbal suscite na história evolutiva que nos constitui, manifestada por essência com o conversar. Teoria da relevância14 Com a afirmação de SPERBER e WILSON (2005:222) de que “as expectativas de relevância são precisas e previsíveis o suficiente para guiar o ouvinte na direção do significado do falante”, já vemos a filiação cognitivista que a TR demonstra ter no interior dos estudos pragmáticos de linguagem. Para a TR, a cognição humana é orientada para a relevância. Globalmente, o sistema cognitivo é engrenado para escolher informações potencialmente relevantes. Assim, a TR é 14 A orientação de TR que apresentamos aqui é a de SPERBER e WILSON. Cadernos da Semana de Letras UFPR Ano 2011 Volume II – Trabalhos Completos 13 uma teoria pragmática cognitiva que pretende analisar como os enunciados são compreendidos na perspectiva do ouvinte; para isso, observa como os fatores contextuais e as propriedades linguísticas interagem na interpretação dos enunciados. Em outros termos, como os fatos sobre a audiência, o tempo e o lugar do enunciado se combinam com a estrutura fonológica, sintática e semântica da sentença enunciada como material sobre o qual se faz uma interpretação particular. A TR aponta que o significado de uma sentença ultrapassa seu significado linguístico, ou seja: haveria um aspecto da estrutura linguística que se mantém constante em todos os enunciados, o qual é esquemático ou incompleto, e que deve ser completado ou enriquecido em contexto para definir se a proposição gerada pode ser tida como verdadeira ou falsa. Nesse sentido, o significado para cada falante é sempre o que cada um pretendeu comunicar pela enunciação de uma sentença. Ou seja, uma mesma sentença tem diferentes significados, conforme os variados objetivos de falantes diversos. Em relação ao ouvinte, essa teoria sugere que caberia a ele o papel de usar a variedade de processos pragmáticos de que dispõe para completar e enriquecer o significado esquemático da sentença e gerar sua hipótese interpretativa sobre o significado que o falante pretendeu passar. No que se refere ao que a TR toma como contexto, além da situação ou ambiente físico da enunciação e do texto ou do discurso precedente, em uma abordagem cognitiva, leva-se em consideração que o ouvinte é capaz de recuperar, ou derivar da memória, percepções ou inferências que auxiliam na identificação aproximativa do significado do falante. Para a teoria ora em referência, o contexto deve ser o conjunto de suposições mentalmente representado (à parte da suposição do enunciado no momento produzido), que é utilizado na interpretação, incluindo suposições projetadas da interpretação do texto precedente e da observação que recai no falante e no ambiente imediato. O critério de interpretação da TR desenvolve-se de uma suposição básica sobre a cognição humana: a de que a cognição humana é orientada para a relevância. Uma vez que explicar como os ouvintes atribuem o significado tendo em vista a pretensão dos falantes, num processo bem ou malsucedido, é a meta de uma teoria pragmática cognitiva. A TR defende ainda que há um critério único para a avaliação das interpretações possíveis. Contudo, esse critério, mesmo quando Cadernos da Semana de Letras UFPR Ano 2011 Volume II – Trabalhos Completos 14 corretamente aplicado, nem sempre destaca a interpretação pretendida pelo falante. Assim, o ouvinte deve selecionar, não uma interpretação correta, mas aquela que mais se aproxima com a considerada como correta pelo falante. Nesse sentido, procuram-se as intenções do falante, sem, claro, garantia, contando-se para isso com a representação do conjunto de suposições contextuais. No particular da informação, a TR trabalha com três concepções: 1ª) a forma acidental, 2ª) a forma intencional encoberta e 3ª) a comunicação aberta. A primeira ocorre quando pistas como sotaque, estados de ânimo etc. podem ser notadas, projetando conclusões que não formam parte do significado do falante e que não são intencionalmente transmitidas. A segunda envolve intenções (ser mais agradável, por exemplo) que o falante não pretende que sejam reconhecidas ou compartilhadas. E a terceira, também chamada transmissão aberta de informação, refere-se à ocorrência de uma troca genuína, quando o falante pretende transmitir uma mensagem e deseja que seu ouvinte reconheça essa intenção. Além disso, a TR também se norteia por estes pontos: a) cada enunciado tem uma variedade de interpretações linguisticamente possíveis, todas compatíveis com o significado da sentença; b) nem todas essas interpretações, em dada ocasião, são igualmente acessíveis ao ouvinte (ou seja, não são todas igualmente prováveis de vir à mente do ouvinte); c) os ouvintes são equipados com um critério único e muito geral para avaliação das interpretações, na medida em que elas ocorrem, aceitando-as ou rejeitando-as como hipóteses sobre o significado do falante; d) esse critério é poderoso o suficiente para excluir todas, exceto uma única interpretação (ou algumas interpretações próximas semelhantes), de modo que o ouvinte tem o direito de assumir que a primeira hipótese que o satisfizer (se houver alguma) é a única plausível. Teoria da polidez A teoria da polidez aborda o lado social da linguagem; mas antes de iniciar falando sobre essa teoria, convém definir o que é polidez, e faremos isso utilizando a definição de WATTS (2003), o qual considera haver duas formas de se entender polidez.