ESTÁGIO NO ENSINO FUNDAMENTAL II: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA
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ESTÁGIO NO ENSINO FUNDAMENTAL II: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA Letícia de Sousa Silva1 , Isabel Cristina Higino Santana2, Jeanne Barros Leal De Pontes Medeiros3 Resumo: O estágio constitui um eixo central na formação de professores, pois é por meio dele que o futuro docente tem a oportunidade de conhecer os aspectos essenciais para a construção de sua identidade profissional, além de adquirir conhecimentos práticos relacionados ao cotidiano escolar. Este estágio foi realizado entre os meses de abril e junho em uma escola municipal localizada no bairro José Walter, na cidade de Fortaleza. As atividades de observação e regência ocorreram em turmas do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental, abrangendo os turnos da manhã e da tarde. Após a fase de reconhecimento da instituição, iniciei o estágio de observação, no qual pude compreender melhor a dinâmica das turmas, observar a prática pedagógica do professor supervisor e vivenciar o funcionamento diário da escola. Na etapa de regência, tive a oportunidade de ministrar aulas e interagir mais diretamente com os alunos, que se mostraram participativos, afetivos e interessados, realizando perguntas pertinentes aos temas trabalhados. Durante esse período, vivi experiências significativas que contribuíram de maneira valiosa para minha formação enquanto futura professora. Ao longo dessa jornada, enfrentei desafios, mas também vivi momentos gratificantes que fortaleceram minha escolha pela docência. O estágio representou uma oportunidade valiosa de crescimento pessoal e profissional, reafirmando o compromisso com uma educação humanizadora, crítica e transformadora. Sem dúvida, foi uma experiência que marcou profundamente minha trajetória e que levarei como base para minha atuação futura como professora. Palavras-chave: Formação docente. Ensino-aprendizagem. Licenciatura em Ciências biológicas. 1. INTRODUÇÃO O estágio supervisionado funciona como um ambiente de aprendizado para a prática docente e contribui para a formação da identidade profissional (Silva; Gaspar, 3 Doutora em Educação pela Universidade Estadual do Ceará, Professora Adjunta da Universidade Estadual do Ceará, [email protected] 2 Doutora em Educação pela Universidade Federal do Ceará, Professora Adjunta da Universidade Estadual do Ceará, [email protected] 1 Estudante de graduação em Ciências Biológicas, Centro de Ciências da Saúde, Universidade Estadual do Ceará, [email protected].
2018). Essa vivência possibilita a integração e o uso dos conhecimentos obtidos durante a trajetória acadêmica, promovendo uma experiência prática que reforça a relação entre a teoria aprendida e o cotidiano escolar. Conforme estabelece o Parecer CNE/CP nº 02/2015, o estágio curricular supervisionado é um componente obrigatório da estrutura curricular dos cursos de licenciatura. Trata-se de uma atividade específica, estreitamente vinculada à prática e integrada às demais ações acadêmicas. Seu principal objetivo é proporcionar ao estudante uma vivência mais próxima da realidade profissional, visando ao seu desenvolvimento técnico, cultural, científico e pedagógico. Essa experiência contribui para a formação integral do futuro docente, preparando-o tanto para o exercício da profissão quanto para o pleno exercício da cidadania. Para a elaboração deste trabalho, a estudante realizou seu período de estágio em uma escola pública situada no bairro José Walter, pertencente à rede municipal de ensino. O estágio foi realizado em uma escola de tempo integral que engloba do 6º ao 9º ano, com um total de 12 turmas, cada uma com cerca de 45 alunos. A instituição funciona em tempo integral; contudo, desde 2023, tem operado apenas nos turnos da manhã e da tarde em razão de uma obra que compromete ainda mais sua já limitada infraestrutura. Durante o período em que estive na escola, ela passava por uma ampla reforma, o que afetou significativamente sua estrutura física e provocou mudanças na rotina escolar. Algumas áreas estavam interditadas, gerando incômodos e certa desorganização no ambiente. De modo geral, a escola realmente necessita de uma reforma, devido às condições precárias de sua infraestrutura. As salas de aula são inadequadas para a quantidade de alunos, frequentemente não havendo cadeiras suficientes para todos. Os espaços são abafados, mal iluminados e contam apenas com ventiladores, o que compromete a ventilação adequada. Além disso, os quadros brancos estão desgastados e precisam ser substituídos. No que diz respeito à acessibilidade, a estrutura é inadequada para pessoas com deficiência, especialmente aquelas com limitações de mobilidade, pois a escola não possui rampas nem elevadores que facilitem o acesso ao primeiro andar. A vivência na escola proporcionou diversas experiências significativas que contribuíram de forma relevante para a minha formação como docente. Dentre elas, destacam-se o desenvolvimento da habilidade de gestão da sala de aula, a observação da postura profissional dos professores e o desenvolvimento didático de conteúdos teóricos. O estágio foi realizado, predominantemente, em turmas do 6º e 9º ano no turno da tarde, com a participação ocasional em algumas turmas do período da manhã. Durante esse período, foram desenvolvidas as atividades previstas na disciplina de Estágio Supervisionado, tais como a observação das aulas ministradas pelo professor titular, a condução de regências e a aplicação de um projeto didático. Todas essas ações seguiram a carga horária estipulada pela coordenação do estágio e foram devidamente acompanhadas pelo professor supervisor. Desse modo, este resumo tem como objetivo relatar e refletir sobre as experiências vivenciadas ao longo do estágio. 2. DESENVOLVIMENTO 2.1 Observação
O período de observação representa uma etapa inicial fundamental para o estagiário no contexto da sala de aula, pois é nesse momento que ele acompanha as aulas ministradas pelo professor supervisor. Em suma, essa fase permite ao estagiário obter uma compreensão mais ampla e aprofundada do ambiente escolar, o qual, futuramente, poderá fazer parte de sua vivência profissional. Além disso, a etapa de observação possibilita ao estagiário uma aproximação mais significativa com o professor supervisor, permitindo-lhe acompanhar de perto sua atuação pedagógica, suas estratégias didáticas e sua forma de conduzir diversas situações no contexto escolar. Durante meu estágio, tive a oportunidade de acompanhar e observar diversas aulas, o que contribuiu significativamente para minha compreensão sobre a prática pedagógica e a gestão de sala de aula. Essa vivência me permitiu analisar, com mais atenção, a dinâmica utilizada pelo professor supervisor e perceber como ele estruturava suas aulas e interagia com os alunos. As aulas, de modo geral, seguiam uma rotina bem definida. No início de cada encontro, o professor realizava a chamada pelo número dos alunos, mesmo não utilizando os nomes com frequência ao longo da aula, ele sabia identificá-los individualmente. Esse cuidado em reconhecer cada aluno contribui para o estabelecimento de um ambiente mais acolhedor e respeitoso. Após a chamada, o professor dava início à exposição do conteúdo, geralmente utilizando o quadro como recurso principal. Ele escrevia os principais pontos da aula e, em seguida, desenvolvia a explicação oral, buscando esclarecer os conceitos de forma acessível aos alunos. Entretanto, foi possível perceber que, de forma recorrente, as turmas apresentavam um comportamento bastante agitado. Muitos alunos se mostravam dispersos durante as explicações, conversando entre si ou não prestando atenção às orientações do professor. Diante dessa realidade, o docente adotava uma postura mais rígida e firme, elevando o tom de voz quando necessário, com o intuito de manter a disciplina e recuperar o foco da turma. Embora essa abordagem mais autoritária possa parecer dura em alguns contextos, observei que, na maioria das vezes, ela se mostrava funcional, pois os alunos retomavam a atenção e a aula conseguia prosseguir. As turmas que observei durante o estágio foram compostas por alunos do 6º, 7º, 8º e 9º anos do Ensino Fundamental, e cada uma delas apresentava características e dinâmicas próprias. Essa diversidade foi extremamente enriquecedora para minha formação, pois permitiu que eu percebesse como o comportamento varia significativamente entre as diferentes faixas etárias e como isso influencia diretamente na condução das aulas. As turmas do 6º e 7º anos se mostraram mais agitadas, com alunos frequentemente dispersos e muito ativos. Nesses casos, o professor supervisor adotava uma postura mais firme e enérgica, buscando manter a disciplina e o foco por meio de comandos claros e da imposição de limites. Já nas turmas do 8º e 9º anos, o comportamento dos estudantes era mais reservado e, em muitos momentos, as aulas apresentavam um clima mais monótono, com pouca participação espontânea. Nessas situações, percebi que o professor mudava sua abordagem, utilizando uma linguagem mais próxima e tentando envolver os alunos por meio de questionamentos, dinâmicas ou comentários que despertassem o interesse e a interação com o conteúdo. Essa adaptação de postura por parte do professor foi algo que me
chamou bastante atenção e serviu como aprendizado prático sobre a importância da flexibilidade no exercício da docência. 2.2 Regência A regência representa uma etapa essencial na formação docente, pois é nesse momento que o estagiário tem a oportunidade de aplicar, de forma prática, os conhecimentos teóricos construídos ao longo do curso. Trata-se de um momento de grande responsabilidade, mas também de intenso aprendizado, no qual é possível vivenciar, de fato, o cotidiano da sala de aula, compreendendo seus desafios, demandas e possibilidades. Durante esse período, tive a oportunidade de ministrar aulas para turmas do 6º e do 9º ano do Ensino Fundamental. No entanto, minha atuação foi mais frequente com as turmas de 6º ano, o que me possibilitou desenvolver um vínculo mais próximo com os alunos e acompanhar de maneira mais contínua o progresso das aulas. Essa presença constante em sala de aula favoreceu um ambiente de maior familiaridade, além de contribuir significativamente para o fortalecimento da minha confiança na condução das atividades pedagógicas. Essa experiência contrastou fortemente com o que vivenciei no Estágio Supervisionado I, em que, devido ao tempo mais reduzido, não tive a oportunidade de construir vínculos afetivos com os alunos. Essa ausência de laços afetivos pode comprometer a eficácia do processo de ensino-aprendizagem, como afirmam Marques e Carvalho (2017), ao apontarem que a falta de conexão entre professor e estudante pode tornar o aprendizado mais difícil e limitado. Portanto, a construção de relações interpessoais sólidas em sala de aula se mostrou fundamental para a minha prática docente e para o desenvolvimento de um ambiente de aprendizagem mais acolhedor e produtivo. De modo geral, minhas aulas seguiram a abordagem expositiva-dialogada, buscando sempre promover a participação ativa dos alunos no processo de ensino-aprendizagem. Em algumas turmas, utilizei recursos didáticos complementares, como modelos didáticos, no entanto, a maior parte das aulas foi conduzida com apoio do quadro e do livro didático, que serviram como base para a explanação dos temas propostos. Apesar das limitações de recursos em algumas situações, busquei aproveitar ao máximo as ferramentas disponíveis para tornar o processo de ensino mais atrativo e dinâmico. Uma das estratégias adotadas foi a utilização de atividades interativas, como dinâmicas que estimulassem a participação e o interesse dos alunos. Um exemplo dessa prática foi a dinâmica realizada com uma turma do 6º ano, intitulada “Rocha Quente”. Nessa atividade, utilizei um pincel de quadro branco como objeto simbólico, que era passado de mão em mão entre os alunos enquanto todos cantavam uma música. Quando a música parava, o aluno que estivesse com o pincel em mãos deveria responder a uma pergunta relacionada ao conteúdo previamente trabalhado na aula, elaborada por mim. Essa dinâmica, além de tornar o momento mais leve e divertido, contribuiu para a fixação dos conteúdos de forma lúdica e participativa. Percebi que os alunos se mostraram bastante engajados, o que reforça a importância de diversificar as metodologias e incorporar práticas que estimulem o envolvimento ativo dos estudantes no processo de aprendizagem.
Figura 2 - Período de regência (Utilizando recurso visual) Fonte: Autora (2025) Um dos momentos mais marcantes da minha regência foi o dia em que recebi um bilhete de um aluno elogiando meu trabalho como professora. Esse gesto simples, mas cheio de significado, me trouxe uma profunda sensação de realização, como se, de certa forma, estivesse cumprindo meu propósito enquanto educadora. Senti que minha presença e atuação em sala de aula estavam deixando uma marca positiva na vida dos estudantes. Esse episódio reforçou a ideia de que os professores exercem uma influência significativa sobre seus alunos, podendo impactá-los de maneira positiva ou negativa, como destacam Scalzer et al. (2024). O professor, além de transmissor de conhecimentos, é uma referência afetiva e ética para os estudantes, desempenhando um papel essencial no processo educacional. Nesse sentido, Freire (1992) ressalta que o educador é uma figura central na construção do saber, sendo responsável por mediar o aprendizado e contribuir para a formação crítica e cidadã do aluno. Vivenciar esse reconhecimento, ainda que simbólico, foi extremamente motivador e me fez refletir sobre a importância da sensibilidade, da empatia e do compromisso no exercício da docência.
Figura 1 - Período de regência Fonte: Autora (2025) CONSIDERAÇÕES FINAIS O estágio supervisionado representou uma etapa essencial na minha formação docente, permitindo a vivência concreta do cotidiano escolar e a aplicação prática dos conhecimentos teóricos adquiridos ao longo da graduação. A experiência de observar e conduzir aulas possibilitou o desenvolvimento de competências importantes, como a gestão de sala, a adaptação de estratégias pedagógicas e a construção de vínculos com os alunos. Apesar das dificuldades estruturais enfrentadas pela escola, a convivência com diferentes turmas e faixas etárias foi enriquecedora e contribuiu para o fortalecimento da minha identidade profissional. Além das aprendizagens técnicas e metodológicas, o estágio proporcionou reflexões importantes sobre o papel afetivo, ético e social do professor. Momentos simples, como o reconhecimento espontâneo dos alunos, revelaram o impacto positivo que a docência pode exercer na vida dos estudantes. Encerro essa etapa convicta de que ser professora é um processo contínuo de construção e aprendizado. REFERÊNCIAS FREIRE, P. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. 245 p.
MARQUES, E. S. A.; CARVALHO, M. V. C.. Vivência e prática educativa: a relação afeto-intelecto mediando modos de ser professor e aluno. Obutchénie: Revista de Didática e Psicologia Pedagógica, Uberlândia, v. 3, n. 2, p. 1-25, 2019. Ministério da Educação. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Câmara de Educação Superior. Resolução CNE/CES nº 04, de 15 de maio de 2006. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/rcp01_06.pdf. Acessado em 09 jul. 2025. Ministério da Educação. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Conselho Pleno. Resolução CNE/CP nº 02, de 1º de julho de 2015. Diário Oficial da União, Brasilia, 02 de julho de 2015. Disponível em: pronacampo.mec.gov.br/images/pdf/res_cne_cp_02_ 03072015.pd . Acessado em 09 jul. 2025. SCALZER, M. J. S. C.; FERREIRA, R. C. N.; OLIVEIRA, D. C.; CRUZ, J. F. A INDISCIPLINA NO AMBIENTE ESCOLAR: possíveis causas, desafios e soluções. Revista Ft, v. 28, n. 137, p. 10-1, 2024. SILVA, H. I.; GASPAR, M. Estágio supervisionado: a relação teoria e prática reflexiva na formação de professores do curso de Licenciatura em Pedagogia. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v. 99, n. 251, 2018.