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DIPLOMACIA MILITAR E POLÍTICA EXTERNA: ANÁLISE DE TESES E DISSERTAÇÕES SOBRE O TEMA

Thays Alves da Silva

Abstract

O presente artigo partindo da temática de diplomacia militar na política externa do Brasil, tem como seu objetivo geral é, a partir das teses e dissertação sobre diplomacia militar levantadas, apontar as relações desta diplomacia com a condução da política externa, os objetivos específicos são (i) identificar quais as ações de diplomacia militar realizadas; e (ii) verificar quais países e organizações aparecem nesses estudos. Referente a metodologia, utilizou-se da técnica revisão sistemática da literatura para a seleção das teses e dissertações e análise delas, para isso se recorreu a bases de dados públicas. Desta forma, o trabalho se justifica a partir da importância de não apenas analisar as ligações entre diplomacia militar e política externa brasileira como uma ferramenta que pode contribuir para a inserção do país no cenário internacional, mas também investigar as produções acadêmicas sobre o tema para a identificação de lacunas, tendências e possíveis melhorias. Assim, o país, mesmo com uma diplomacia militar não tão nova, tem ainda um mar de possibilidades e avança timidamente nesta área, tendo um desenvolvimento lento motivado pelos embates dentre ministérios, Relações Exteriores e Defesa, e agentes tal como a preparação de oficiais para gerência e condução de ações do cunho diplomático militar e de defesa são deficitárias.

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134 REER, v. 12, n. 3, p. 134-147, 2025 Edição Regular DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17353605 DIPLOMACIA MILITAR E POLÍTICA EXTERNA: ANÁLISE DE TESES E DISSERTAÇÕES SOBRE O TEMA MILITARY DIPLOMACY AND FOREIGN POLICY: ANALYSIS OF THESES AND DISSERTATIONS ON THE TOPIC Thays Alves da Silva [email protected] RESUMO O presente artigo partindo da temática de diplomacia militar na política externa do Brasil, tem como seu objetivo geral é, a partir das teses e dissertação sobre diplomacia militar levantadas, apontar as relações desta diplomacia com a condução da política externa, os objetivos específicos são (i) identificar quais as ações de diplomacia militar realizadas; e (ii) verificar quais países e organizações aparecem nesses estudos. Referente a metodologia, utilizou-se da técnica revisão sistemática da literatura para a seleção das teses e dissertações e análise delas, para isso se recorreu a bases de dados públicas. Desta forma, o trabalho se justifica a partir da importância de não apenas analisar as ligações entre diplomacia militar e política externa brasileira como uma ferramenta que pode contribuir para a inserção do país no cenário internacional, mas também investigar as produções acadêmicas sobre o tema para a identificação de lacunas, tendências e possíveis melhorias. Assim, o país, mesmo com uma diplomacia militar não tão nova, tem ainda um mar de possibilidades e avança timidamente nesta área, tendo um desenvolvimento lento motivado pelos embates dentre ministérios, Relações Exteriores e Defesa, e agentes tal como a preparação de oficiais para gerência e condução de ações do cunho diplomático militar e de defesa são deficitárias. Palavras-chave: Diplomacia militar; política externa brasileira; Cooperação militar; Diplomacia de defesa. ABSTRACT The present article, based on the theme of military diplomacy in Brazil's foreign policy, aims to identify, through the theses and dissertations on military diplomacy, the relationships between this diplomacy and the conduct of foreign policy. The specific objectives are (i) to identify the actions of military diplomacy carried out, and (ii) to ascertain the countries and organizations mentioned in these studies. Concerning the methodology, a systematic literature review technique was employed to select the theses and dissertations, followed by their analysis using publicly available databases. Thus, the study is justified by the importance of not only analyzing the connections between military diplomacy and Brazilian foreign policy as a tool that can contribute to the country's international integration but also investigating academic productions on the subject to identify gaps, trends, and potential improvements. Therefore, despite Brazil's not-so-new military diplomacy, there remains a sea of opportunities, with progress being hindered by disputes among ministries, the Ministry of Foreign Affairs, and Defense, as well as deficiencies in preparing officers for managing and conducting military and defense diplomatic actions. 135 REER, v. 12, n. 3, p. 134-147, 2025 Edição Regular DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17353605 Keywords: Military Diplomacy; Brazilian Foreign Policy; Military Cooperation; Defense Diplomacy. 1 INTRODUÇÃO O presente trabalho aborda a temática da diplomacia militar na política externa do Brasil. Com isso, o objetivo geral é, a partir das teses e dissertação sobre diplomacia militar levantadas, apontar as relações desta diplomacia com a condução da política externa, os objetivos específicos são (i) identificar quais as ações de diplomacia militar realizadas; e (ii) verificar quais países e organizações aparecem nesses estudos. Para além da discussão sobre poder ser classificado tais ações como diplomacia, não há consenso sobre o conceito no geral e as atividades promovidas como diplomacia militar. KA Muthanna (2011) afirma que, diplomacia militar pode ser compreendida como a utilização pacífica das forças armadas de um país para a promoção de relações com outro, como uma ferramenta de política externa, e o estranhamento sobre o termo dá-se pela combinação entre áreas que tradicionalmente são vistas como antagônicas. Em contrapartida, a diplomacia de defesa, com mesma finalidade, envolve mais atores estatais para além do cunho propriamente militar como os Ministérios da Defesa e das Relações Exteriores e agentes oficiais para ações não coercitivas (Silva,2015). Neste sentido, no campo de estudo tem-se a divergência sobre a utilização dos dois conceitos como sinônimos. Para Muthanna (2011), militar e defesa podem ser utilizados como iguais, mesmo apontando pequenas diferenças entre eles. As dicotomias entre ambas palavras são marcadas pelo contexto de guerra fria onde pós o conflito, a defesa frisava o momento de uma nova diplomacia em detrimento ao militar que mesmo assim permaneceu na literatura (Winand e Rodrigues, 2018). A escolha conceito de diplomacia militar e não diplomacia de defesa para a busca deu-se, pois, conforme argumento de que, a primeira, mesmo com divergência entre autores sobre ser ou não uma diplomacia de fato, é voltada para as ações e relações envolvendo diretamente os militares e suas forças armadas no sentido militarestratégico (Winand e Rodrigues, 2018), fazendo mais sentido para a análise das teses e dissertações que serão apresentadas no andar do trabalho. Porém, no andar do estudo as duas diplomacias serão utilizadas como sinônimo, tento em vista o baixo resultado sobre diplomacia militar. Referente a seleção dos trabalhos, foi utilizado a técnica de revisão sistemática da literatura. Recorreu-se a mais de uma base de dados por conta do baixo número de dissertações e teses sobre o tema, neste sentido, a pesquisa ocorreu na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BDTD), Portal de Periódicos da Capes, Repositório Institucional da Escola 136 REER, v. 12, n. 3, p. 134-147, 2025 Edição Regular DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17353605 Superior de Guerra, Biblioteca Digital do Exército e Repositório Institucional da Produção Científica da Marinha do Brasil (RI-MB). As strings de busca utilizados começaram do mais específico para o geral; (i) diplomacia militar E política externa E Brasil; (ii) diplomacia militar E política externa; (iii) diplomacia militar E Brasil; e (iv) diplomacia militar. Por conta dos poucos resultados, não se utilizou nenhuma ferramenta de seleção e busca avançada como ano e idioma, e para evitar a duplicação dos resultados houve o cuidado e a revisão. 1.1 Sobre os resultados De uma maneira geral, houve 41 trabalhos selecionados para análise de resumo e alguns apontamentos podem ser feitos sobre estes resultados, grande parte são dissertações, apenas oito são teses de doutorado. A diferença entre os estudos produzidos nas universidades em PPGs civis e as instituições militares, também é algo interessante de ser observado, os primeiros, mesmo sendo buscado por “diplomacia militar”, apresentam dissertações e teses que abordam ações diplomáticas que acabam por envolver as forças armadas ou são realizadas em contexto de conflito como a Segunda Guerra Mundial ou questões regionais, assim como a política externa brasileira no período de ditadora militar e por fim, outro tópico que aparece nos escritos são as operações de paz e a MINUSTAH, o que não são, segundo autores, consideradas diplomacia militar (Muthanna, 2011; Silva, 2015). Enquanto os segundos grupos, de programas militares, de fato trabalham o conceito de diplomacia militar e diplomacia de defesa, mas também há temáticas sobre o setor de defesa na PEB, a soberania no pensamento de relações exteriores e de defesa brasileiro, geopolítica, questões nucleares, participação do Brasil na Segunda Guerra através da diplomacia e relações militares, operações de paz e a defesa das fronteiras. Em um olhar macro, de todas as teses e dissertações analisadas pelo título e resumo, por regiões e países estudados, é possível notar o Mercosul, sobretudo a Argentina, África do Sul, Haiti, a região do Cone Sul, Amazônia verde e Amazônia Azul, Estados Unidos, Alemanha e China. Assim, conforme exposto até aqui, foram selecionadas cinco dissertações para estudo. ● CASTRO, Lucas Amorim Poyares. A diplomacia militar como um instrumento da política externa brasileira: estudo da superação da rivalidade brasileiro-argentina na crise de Itaipu. Dissertação (Mestrado em Ciências Militares) 一 Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Rio de Janeiro, 128p. 2021. ● SILVA, Vinícius Lemos da. A Diplomacia Militar como condutora da Política Externa Brasileira: o caso Brasil-Estados Unidos da América, 1939-1991. Dissertação (Mestrado em Ciências Militares) - Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Rio de Janeiro, 119p. 2022. 137 REER, v. 12, n. 3, p. 134-147, 2025 Edição Regular DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17353605 ● SANTOS, Jéssica Leite dos. A relação entre as Marinhas da China e do Brasil a partir de uma abordagem prospectiva: cenários prospectivos holísticos e participativos para tomadas de decisão conscientes no contexto brasileiro. Dissertação (Mestrado) - Escola de Guerra Naval, Programa de Pós-Graduação em Estudos Marítimos (PPGEM), 152p. 2020. ● SILVA, Marcio Magno de Farias Franco e. Diplomacia de defesa de cooperação em defesa: contribuições para a paz e a segurança marítima regionais. Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-Graduação em Segurança Internacional e Defesa. ESG, 149p. 2020. ● ABREU, Guilherme Mattos de. O setor Defesa na política externa brasileira: subsídios para o planejamento de forças. Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-Graduação em Segurança Internacional e Defesa. ESG, 180p. 2020. 2 METODOLOGIAS E ABORDAGENS TEÓRICAS Tratando do tipo de metodologia utilizada para a produção das dissertações, todas são qualitativas, variando pouco nos métodos utilizados. A análise de fontes primarias e secundárias, comum neste tipo de trabalho, estão presente nos cinco, sendo elas a revisão bibliográfica, e a análise documental e de arquivos históricos de instituições militares. Desta forma, os documentos oficiais investigados são, principalmente, a Política Nacional de Defesa (PND) - “documento de condicionante de mais alto nível para o planejamento de ações destinadas à defesa do País” (Brasil, 2020), a Estratégia Nacional de Defesa (END) - “o vínculo entre o posicionamento do País nas questões de Defesa e as ações necessárias para efetivamente dotar o Estado da capacidade para atender seus interesses” (Brasil, 2020) - ambos da última versão lançada em 2020 e outros documentos do Ministério da Defesa, Marinha e Exército, assim de outros países como, por exemplo, os Livros Brancos de Defesa da China. Diversificando os métodos, há a utilização de entrevistas a militares e diplomatas realizadas pelo próprio autor, como o Guilherme Abreu (2020), ou análises sobre falas publicadas em documentos de acervo das instituições ou em revistas e jornais. Três dos trabalhos; (i) “A relação entre as marinhas da China e do Brasil a partir de uma abordagem prospectiva”; (ii) “A diplomacia militar como condutora da política externa brasileira”; e (iii) “A diplomacia militar como instrumento da política externa brasileira”, abordam relações com países específicos, respectivamente, China, Estados Unidos e Argentina, sendo o primeiro uma análise prospectiva com o recorte temporal até 2039 e os dois últimos, estudos de caso somados a utilização de Process Tracing. Para a construção do cenário prospectivo das relações entre as marinhas brasileira e chinesa, Jéssica Santos (2020), vale-se de outras ferramentas como o environmental scanning, árvore de relevância, Delphi, impactos cruzados, análise morfológica e, por lógica, a descrição de cenários futuros. 138 REER, v. 12, n. 3, p. 134-147, 2025 Edição Regular DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17353605 Finalizando a metodologia, também há, por parte de um dos pesquisadores militares, a autoetnografia a partir da “experiência do autor como oficial da Marinha do Brasil ao longo de trinta e quatro anos” (ABREU, 2020). Neste sentido, é interessante contextualizar que das cinco dissertações três autores são militares (Guilherme Abreu - Marinha, Marcio Silva - Marinha e Vinícius Lemos - Exército) e os outros dois (Jéssica Santos e Lucas Castro) são civis. Segundo Castro (2021), produções realizadas por indivíduos da sociedade civil brasileira demonstram a participação desta parcela em assuntos de defesa nacional. Tratando de compreensão do conceito de diplomacia militar e diplomacia de defesa e das abordagens teóricas trabalhadas, o entendimento sobre o que são estas diplomacias de maneira geral convergem em todas as dissertações analisadas, sendo interpretadas como a primeira estando relacionada ao uso pacífico das forças armadas para cooperação e, principalmente, ações relacionadas com as forças armadas de outros países tendo uma certa autonomia quanto a outros órgãos enquanto a diplomacia de defesa, uma diplomacia paralela que diz respeito a uma gama maior de atividades e atores envolvidos como o Ministério da Defesa (Abreu, 2020; Silva, 2020; Lemos, 2022; Santos, 2020; Castro, 2021). O observável de diferença entre as produções são a inclusão de operações de paz, assistência humanitária e reestruturação de políticas de Estado como parte da diplomacia de defesa, sendo mencionado muito as ações dos Estados Unidos e da OTAN (Abreu, 2020; Silva, 2021). Um movimento interessante que ocorre nestas dissertações é a compreensão da diferença entre os dois termos, mas mesmo assim se utiliza ambos como sinônimos indiscriminadamente ou opta por mencionar mais a diplomacia de defesa pela sua amplitude. Dentre os autores que estão com seus estudos sendo analisados, Jéssica Santos (2020) e Vinicius Lemos (2022) são os que mais distinguem os conceitos onde a primeira foca na defesa e o segundo no militar. Lemos (2022) afirma que a diplomacia militar é mais antiga e tem seus primeiros passos com os adidos militares e os ministérios militares que antecedem o surgimento do MD. O caminho feito por estes autores para ambientar este tipo de diplomacia e as problemáticas, que serão apresentadas mais adiante, são baseadas em uma construção se sentido e contexto para isto, logo uma série de outros conceitos-chave aparecem. De uma forma óbvia, o conceito de diplomacia inicia a discussão teórica das dissertações, principalmente a partir da dicotomia histórica entre diplomatas e militares como um sendo o poder mais brando de soft power e o outro do uso da força e do hard power. Os dois trabalhos com as temáticas mais gerais sobre “o setor de defesa na PEB” e “a diplomacia de defesa e a cooperação em defesa” dedicam um bom espaço para argumentar sobre dá distinção entre os dois campos, militar e diplomático, e a importância das forças armadas como 139 REER, v. 12, n. 3, p. 134-147, 2025 Edição Regular DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17353605 uma ferramenta que poderia ser mais explorada para a melhoria da PEB e do Brasil no cenário internacional, assim como apontam não só a Política Externa Brasileira como a Defesa como políticas públicas que necessitam de mais atenção e compreensão da sociedade. Sobre as atividades desempenhadas pelas forças no quesito de diplomacia passarem a ser soft power, diferenciando o que geralmente é a finalidade do Exército, marinha e Aeronáutica, é uma compreensão da maioria dos pesquisadores, porém Lemos (2022) vai mais afundo trabalhando com a ideia de smart power. O smart power decorre da combinação do hard e do soft power, sendo a diplomacia militar um exemplo do seu emprego, pois ela faz uso dos meios militares para fins cooperativos, estando associada aos comportamentos da assistência e da proteção, ainda que, em essência, tenha emprego vocacionado para a ameaça e para a coerção (Lemos, 2022, p.35). Entrando no assunto de política externa, é possível afirmar que todas as cinco dissertações entende a diplomacia de defesa e a diplomacia militar como instrumentos do Estado para inserção do Brasil no sistema internacional, assim como benéficas para o estreitamente de laços com vizinhos, grandes potências e países africanos, como uma oportunidade de melhorar não só as capacidades das forças armadas brasileiras com materiais, mas o aperfeiçoamento e formação dos militares com cursos e intercâmbios. O país pode se projetar como potência média no âmbito da América Latina no quesito mais próximo e se expandir através do Atlântico Sul com ações da Marinha para auxílio a Estados localizados no continente que necessitam profissionalizar suas forças navais ou terrestres, assim como a diplomacia de defesa e a diplomacia militar podem ser ferramentas para a mitigação de estranhamento com outro Estado como foi no caso da Argentina (Castro, 2021). À vista disto, conceitos como potência média ou potência regional e entorno estratégico fazem-se caros para o entendimento das diplomacias de defesa e militar, assim como analisar os resultados de tais ações. As utilizações de escolas de pensamento das relações internacionais como aporte teórico para compreender estas diplomacias aparecem em três das dissertações. O liberalismo e a escola inglesa foram as mais recorridas, para tratar dos caminhos que a defesa pode traçar dentro da PEB (Abre, 2020) e a diplomacia militar entre Brasil e Estados Unidos (Lemos, 2022), e depois o realismo neoclássico, abordando a diplomacia de defesa como uma ferramenta de aproximação entre o Brasil e a Argentina. 3 PROBLEMATIZAÇÕES E CONCLUSÕES 140 REER, v. 12, n. 3, p. 134-147, 2025 Edição Regular DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17353605 Como já foi mencionado, as dissertações selecionadas vão de questões mais abrangentes como o setor de defesa na PEB ou a diplomacia de defesa e vão afunilando para casos específicos da atuação como a diplomacia de defesa e cooperação na segurança marítima no atlântico sul, relações entre as marinhas brasileira e chinesa, diplomacia militar entre Brasil e EUA e a diplomacia de defesa entre Brasil e Argentina. “O SETOR DEFESA NA POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA: Subsídios para o Planejamento de Forças” trabalha a partir de como o emprego do setor de defesa pode ser um instrumento da PEB, principalmente para o seu entorno estratégico, e como capacitá-lo para isso (Abreu, 2020). Neste sentido, o autor argumenta que a realidade brasileira de contínua distinção entre militares e diplomatas, do entendimento que um setor só funciona no fracasso do outro e a falta de incentivos de integração do fator de defesa na formulação da PEB resulta em um atraso nas ações diplomáticas do Brasil. Analisar a interligação destes dois aspectos do Estado brasileiro passa, segundo Abreu (2022), pelo entendimento de que ambos, defesa e política externa, são bens e políticas públicas e que com isso carregam uma interdisciplinariedade que deve ser considerada tanto pelos pesquisadores da área de estudos de defesa e de política externa quanto os tomadores de decisões. Ao decorrer do estudo é apresentado uma série de “outras diplomacias” como diplomacia pública, diplomacia paralela e diplomacia naval, assim como se expõe citando Clawson e Binnendijk (1996) tipos de instrumentos de uma nação dentro da política externa, os quais são divididos em (i) não militares: diplomacia, economia e inteligência; (ii) políticomilitares: bases tecnológicas, controles de armamento, assistência e educação militar e utilização de sistemas de defesa e operações militares em tempo de paz; e (iii) militares: ameaça do uso da força, operações contraterrorismo e contra o narcotráfico, controle de imigrações e refugiados, intervenção militar, sanções e zonas de exclusão, apoio a aliados e o uso clássico do poder militar. Em síntese, as Forças Armadas atuam desde a dissuasão à assistência a países em dificuldade (tarefas humanitárias e operações de paz). Contribuem tanto para a execução de ações de apoio, de persuasão ou de coerção quanto para o desenvolvimento de medidas de confiança mútua e desenvolvimento de tecnologias e de indústrias. Além disso, conduzem atividades de assessoria e de apoio tecnológico, logístico e de segurança às representações diplomáticas… (Abreu, 2020, p.45) Alguma das ações diplomáticas no âmbito militar e de defesa mencionados são a presença de militares estrangeiros nas escolas militares brasileiras e em cursos, visitas de 141 REER, v. 12, n. 3, p. 134-147, 2025 Edição Regular DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17353605 autoridades e comitivas, exercícios multinacionais, o que o Brasil chama de Medidas de Fortalecimento da Confiança e da Segurança (Brasil, 2020 apud Abreu, 2020). O combate aos crimes transnacionais, tráfico de armas e drogas e pirataria, patrulhamento do mar e resgate de refugiados também são apontados. A Missão Naval em Cabo Verde e Missão de Assessoria Naval na Namíbia são uma das ações diplomáticas militar mais relevantes. Em suma, Abreu (2020) conclui que as forças armadas carregam uma relevância que muitas vezes é esquecida pelos gestores da PEB que dedicam mais atenção ao soft power tradicional e para uma melhor utilização da diplomacia de defesa como ferramenta é necessário esquecer a lógica antagonista e desenvolver capacidades adequadas para os militares, especialmente os oficiais, atuarem nela e no suporte da diplomacia clássica dentre outras iniciativas. Convergindo com a dissertação mencionada acima, “DIPLOMACIA DE DEFESA E A COOPERAÇÃO EM DEFESA: Contribuições para a Paz e a Segurança Marítima no Atlântico Sul” há o debate sobre a dicotomia entre o MD e o MRE, já tratada aqui, e a temática gira em torno da investigação da diplomacia de defesa e de cooperação com os Estados do Ocidente africano desenvolvida pela Marinha brasileira no pós-Guerra Fria como um caminho para a consolidação do Brasil enquanto um líder regional (Silva, 2020). A construção do aporte teórico é semelhante ao que Abreu (2020) utiliza, porém, o enfoque é na força naval e em uma região do entorno estratégico, aparecendo no trabalho o conceito de potência média e o objetivo nacional de alcançar da hegemonia na região do Atlântico Sul. Documentos de defesa ainda apontam que o Brasil é o Estado de maior representatividade da região sul-atlântica no ordenamento internacional, tento a envergadura necessária para se apresentar como a maior potência regional, incluindo aí os países africanos, com plena capacidade para assumir o protagonismo da segurança desse largo espaço marítimo. (Silva, 2020, p. 8) Tratando das atividades de cooperação realizadas pela Marinha na região da América do Sul, são voltadas principalmente para treinamento naval conjunto com Argentina e Uruguai, e com o Chile como parceiros de atividades na estação Antártica. No continente africano há a formação de oficiais e praças e profissionalização de marinhas de países africanos como, por exemplo, a Missão de Assessoria Naval na Namíbia e a Missão Naval em Cabo Verde, já mencionadas, assim como reuniões entre ministros de defesa e auxílios para a criação de guardas costeiras. Os atrasos nas Marinhas de Guerra nos países africanos caracterizam-se pelo termo “cegueira no mar” que diz respeito a contradição entre o extenso litoral, ilhas e arquipélagos presentes na região e a negligência dos Estados para o mar enquanto focam apenas nos territórios terrestres, com exceção da Nigéria e África do Sul (Silva, 2020). 142 REER, v. 12, n. 3, p. 134-147, 2025 Edição Regular DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17353605 Um ponto que complexifica a diplomacia de defesa brasileira na África, que não pode ser deixado de lado, são os atores extrarregionais historicamente presentes na região (Silva, 2020). Fora dos Estados destes dois entornos, América do Sul e África, Marcio Silva (2020) menciona o acordo técnico-comercial com a China para a reconstrução da estação de pesquisa brasileira na Antártica e a Rússia com a colaboração no sistema de posicionamento global russo GLONASS. Por fim, o autor afirma que a defesa de um espaço grande como o Atlântico Sul e a permanência deste como uma zona de paz depende do engajamento de todos os países que compartilham acesso a ele e, uma forte presença do Brasil na região depende dos acordos de cooperação em defesa, porém, é pouco provável que o país consiga garantir seus interesses sem interferência e oposições de outros atores, especialmente as grandes potências. Ainda sobre a marinha, Jéssica Santos (2020), em “A RELAÇÃO ENTRE AS MARINHAS DA CHINA E DO BRASIL A PARTIR DE UMA ABORDAGEM PROSPECTIVA: Cenário Prospectivos holísticos e participativos para tomadas de decisão conscientes no contexto brasileiro” argumenta entorno das potencialidades e resultados que podem ser colhidos a partir de um maior estreitamento de laços entre as marinhas dos dois países. Este ano (2024) Brasil e China completam 50 anos de relações diplomáticas oficiais: Além da relevância comercial que um tem para o outro, sendo a RPC o principal parceiro comercial do Brasil atualmente, observa-se trocas constantes em temas e áreas diversas. A primeira parceria estratégica estabelecida entre o Estado chinês e um país estrangeiro foi com aquele e a cada dia mais brasileiros e chineses se interessam um pela cultura e oportunidades que o outro tem a oferecer… (Santos, 2020, p.14) No âmbito da defesa, marcos entre os dois países, acordos e instancias apontadas como primordiais para a diplomacia de defesa por Santos (2020) são a celebração do acordo de troca de adidâncias militares, o acordo de cooperação para a construção de satélites sino-brasileiros, ambos na década de 80 e a criação do Comitê Conjunto de Intercâmbio e Cooperação BrasilChina (CCIC) entre dos MDs em 2009. Tais documentos, timidamente explorados, garantem sustentação a ações entre as duas marinhas. Tratando especificamente das marinhas chinesa e brasileira, pelo caráter em comum das duas, de desenvolverem atividades híbridas que não envolvem só o poder militar, mas atuações pacíficas no sistema internacional, acaba possibilitando um número maior de ações delas. Visto isso, Jéssica Santos (2020) busca a partir da metodologia de cenários prospectivos dar mais subsídios para o debate acerca da importância e do potencial de uma diplomacia de defesa, ou naval, no caso do escopo da pesquisa, com a China para os objetivos estratégicos brasileiros, para assim auxiliar os tomadores de decisão e formuladores de políticas.