HERPETOLOGIA EM SALA DE AULA: UMA ABORDAGEM PRÁTICA E INTERDISCIPLINAR NO ENSINO FUNDAMENTAL A PARTIR DO ACERVO DO MHNCE
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1 Graduanda do Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas, Universidade Estadual do Ceará (UECE), paula.ri[email protected] 2 Docente do Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas, Universidade Estadual do Ceará (UECE), [email protected] 3 Docente do Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas e Coordenadora de Estágio, Universidade Estadual do Ceará (UECE), [email protected] 4 Docente Supervisora do Estágio de Ciências, [email protected] ! HERPETOLOGIA EM SALA DE AULA: UMA ABORDAGEM PRÁTICA E INTERDISCIPLINAR NO ENSINO FUNDAMENTAL A PARTIR DO ACERVO DO MHNCE Ana Paula Rios Morais1, Isabel Cristina Higino Santana2, Jeanne Barros Leal Pontes Medeiros3, Maria Luciana da Fonseca4. Resumo: O Estágio Supervisionado do Ensino Fundamental II (ESEF II) foi uma oportunidade de articular teoria e prática na formação docente, com foco no desenvolvimento de competências pedagógicas. Realizado em uma escola municipal de Fortaleza-CE, que atende alunos da Educação Infantil ao Ensino Fundamental – anos iniciais e finais, e destaca-se por ser um ambiente acolhedor. O período do estágio envolveu observação e atuação com turmas do 7º ao 9º ano, sendo a turma do 8º ano A foi escolhida (devido ao maior número de alunos) para a aplicação de um projeto didático sobre Herpetologia. A proposta surgiu através da minha afinidade com a área, por meio da minha atuação e envolvimento em projetos/estudos no Museu de História Natural do Ceará Prof. Dias da Rocha (MHNCE) situado em Pacoti-CE. O objetivo foi tornar o ensino de Ciências mais atrativo e significativo, aproximando os alunos da biodiversidade local (e do estado) e promovendo a valorização de animais frequentemente vistos com medo e repulsa, como as serpentes e sapos. O projeto foi planejado e estruturado em duas etapas: 1. Uma palestra expositiva dialogada (slides e amostra de uma parte do acervo do MHNCE); 2. Um quiz em grupo com perguntas sobre os conteúdos abordados. Foram utilizados exemplares reais conservados de animais herpetológicos, que despertou a curiosidade dos estudantes e possibilitou o aprendizado concreto. A atividade permitiu desmistificar crenças populares equivocadas, como o medo de serpentes, além de desenvolver habilidades como trabalho em equipe e escuta ativa. As aulas observaram os princípios da BNCC, promovendo o pensamento crítico, o respeito à vida e a sustentabilidade. Os resultados indicaram que abordagens interativas e a utilização de materiais visuais contribuem para a participação ativa dos alunos e para um aprendizado mais efetivo. Apesar de dos desafios, a experiência foi muito bem-sucedida e superou as expectativas, contribuindo para a minha formação como futura docente e para a construção de uma educação mais contextualizada, reflexiva e sensível à realidade dos estudantes. Além disso, a experiência fortaleceu minha autonomia docente, incentivou o uso de metodologias ativas e ampliou minha compreensão sobre o ensino de Ciências. Palavras-chave: Herpetologia. Formação docente no ensino fundamental. Projeto didático. Licenciatura em ciências biológicas. Educação ambiental.
1. INTRODUÇÃO A formação inicial de professores exige experiências práticas em ambientes escolares que permitam a articulação entre teoria e prática, promovendo o desenvolvimento de competências didático-pedagógicas (PIMENTA; LIMA, 2012). O Estágio Supervisionado surge, portanto, como um espaço privilegiado para essa vivência, especialmente quando possibilita a realização de projetos que dialogam com os interesses dos alunos e com o cotidiano escolar. O estágio supervisionado obrigatório foi realizado em uma instituição pública municipal, localizada em Fortaleza, no estado do Ceará. A escola atende alunos da Educação Infantil ao Ensino Fundamental – anos iniciais e finais, além de pré-escola e creche – e se destaca por seu ambiente bastante acolhedor (inclui também modalidades envolvendo o Ensino Regular – EJA). A referida escola conta com a seguinte infraestrutura: salas de aulas com ventiladores, biblioteca, sala para leitura, laboratório de informática, quadra esportiva coberta, salas da diretoria e professores, cozinha, refeitório, pátio coberto, parque infantil, acesso à internet, banheiros para os funcionários, também para os alunos do ensino fundamental e educação infantil. Na questão se tratando da “acessibilidade”, conta com banheiros PNE (pessoas com necessidades especiais), corrimão, guarda-corpo (somente nas escadas que dão acesso ao 1º andar) e rampas (MORAIS; MEDEIROS; FONSECA, 2025). Durante o estágio, foram acompanhadas turmas do 7º ano B, 8º ano A e 9º ano A (totalizando três turmas), a turma do 8º ano sendo a única contemplada com a aplicação do projeto didático. Foi possível observar desafios como a evasão escolar, que afetava principalmente os alunos do 7º ano, além de diferentes ritmos de aprendizagem entre os estudantes. A interação com os alunos permitiu identificar dificuldades em relação à compreensão de conceitos científicos, o que reforçou a importância do uso de metodologias ativas no ensino. No presente trabalho, relata-se a construção e aplicação de um projeto didático voltado ao ensino de herpetologia — o estudo de répteis e anfíbios — com estudantes do 8º ano A. A escolha desse tema se deu pela paixão e afinidade com a área, em razão da minha atuação na Ciências Biológicas e principalmente na participação em projetos de pesquisa, extensão, conservação e educação ambiental, na promoção da popularização da ciência e a valorização da biodiversidade local no Museu de História Natural do Ceará Prof. Dias da Rocha (MHNCE). Além disso, a proposta busca contribuir para uma formação científica crítica, valorizando o contato com espécimes reais como ferramenta para promover o encantamento e o aprendizado significativo (MORTIMER; SCOTT, 2002). Trabalhar com animais herpetológicos, ainda que conservados, estimula o raciocínio investigativo, desmistifica medos culturais e oportuniza a discussão sobre biodiversidade, conservação e saúde pública (ROCHA; VAIRA; NAPOLI, 2019). A atividade também dialoga com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2018), promovendo competências relacionadas à compreensão do mundo natural e ao pensamento científico. O relato da execução desse projeto didático voltado para o ensino de Ciências, foi desenvolvido durante o período de Estágio Supervisionado do Ensino Fundamental II (ESEF II) com o intuito de valorizar também a fauna local, promovendo não só o pensamento cientifico, mas como a desconstrução de preconceitos com determinados animais como serpentes, lagartos, sapos, cobras-de-duas-cabeças, rãs e entre outros que geralmente causam repulsa e assim, ocasionado a desinformação popular.
2. DESENVOLVIMENTO O Estágio Supervisionado do Ensino Fundamental II (ESEF II) foi dividido em três fases, sendo elas: Reconhecimento do local de atuação, Estágio de observação e Desenvolvimento do Plano de Estágio em Campo, que incluiu as Regências e seus planejamentos, os Diários de Campo e o Projeto Didático – abarcando planejamento, escrita, aplicação e avaliação. Nesse contexto, foi implementado o projeto didático “Herpetologia no Ensino Fundamental: uma experiência com a turma do 8º ano A” para complementar o ensino de Ciências no ramo da Zoologia e Ciências Biológicas. 2.1 CARACTERIZAÇÃO DA TURMA Durante todo o período de Estágio Supervisionado do Ensino Fundamental II (ESEF II), foram acompanhadas outras turmas, não só a 8º ano A. A turma do 8º ano foi escolhida para ser contemplada com a aplicação do projeto didático, devido ao maior número de alunos que frequentavam a escola comparadas às outras duas turmas, por conta da evasão escolar sofrida pela escola. Essa turma possuía aproximadamente 39 alunos (número quantitativo no Diário de Classe – Caderneta Escolar – da profa regente). 2.2 OBSERVAÇÃO Realizado nas quartas e quintas, o estágio iniciou a fase de observação com as turmas do 7º ao 9º ano, observando a prática docente ministrada pela professora titular e a interação dos alunos com os conteúdos. Em todas as turmas observadas, a professora regente seguia uma abordagem tradicional, baseada em explicações expositivas e o uso do livro didático (Livro Teláris Essencial de Ciências, dos autores Fernando Gewandsznajder e Helena Pacca, da Editora Ática). Os conteúdos foram planejados conforme a BNCC e adequados ao nível de cada turma: no 7º ano, trabalhou-se a habilidade EF07CI19, abordando as doenças transmissíveis e a importância do autocuidado e da prevenção em saúde pública; no 8º ano, o foco foi a habilidade EF08CI10, que trata das Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’s), incluindo sintomas, formas de transmissão e prevenção, com ênfase no respeito e responsabilidade; e no 9º ano, a habilidade EF09CI03, voltada à compreensão das ligações químicas (iônicas, covalentes e metálicas), por meio de explicações acessíveis e exemplos do cotidiano (BRASIL, 2018). 2.3 REGÊNCIA As habilidades EF07CI19, EF08CI10 e EF09CI03 foram trabalhadas durante minha regência com o auxilio da professora regente com as turmas do 7º, 8º e 9º anos, respectivamente. Cada uma foi abordada com metodologias acessíveis e contextualizadas, promovendo a compreensão dos conteúdos e incentivando atitudes responsáveis dos alunos. As aulas proporcionaram momentos de troca, reflexão e aprendizado, alinhando teoria e prática de forma significativa. Essa interação favoreceu o desenvolvimento do pensamento crítico, a participação ativa dos alunos e a construção de conhecimentos contextualizados, tornando o processo de ensino-aprendizagem mais dinâmico e colaborativo. De acordo com Carvalho e Silva (2021), a inserção de temas científicos no
cotidiano escolar de forma crítica e contextualizada favorece a construção do conhecimento e o desenvolvimento de competências essenciais à formação cidadã. 2.4 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO DO PROJETO DIDÁTICO Foi incluído no plano de aula da professora titular o projeto didático que foi planejado para ocorrer em aproximadamente 2h (duas horas), com a seguinte estrutura: uma palestra expositiva dialogada sobre Herpetologia, seguida da apresentação de exemplares conservados de serpentes, lagartos, anfíbios e sapos, pertencentes ao acervo do MHNCE, e um quiz interativo, com o intuito de avaliar o aprendizado dos alunos. O projeto didático é uma proposta pedagógica estruturada que visa aprofundar o aprendizado dos alunos por meio de estratégias e recursos específicos. Essa abordagem busca facilitar a organização e a compreensão dos conteúdos pelos estudantes, promovendo um aprendizado mais visual, dinâmico e interativo. Dessa forma, o projeto contribui para o desenvolvimento da autonomia dos alunos e para uma melhor assimilação dos conceitos trabalhados em sala de aula. Contribuindo assim, para a desmitificação do medo e sentimentos negativos que alguns animais sofrem. 2.5 PROJETO DIDÁTICO: PALESTRA E QUIZ HERPETOLÓGICO A primeira etapa do projeto, consistia em uma palestra dada para os alunos, que foi feita com uma linguagem mais acessível, explorando conceitos básicos de classificação, habitat, importância ecológica e cuidados no contato com os animais herpetológicos. A segunda etapa da atividade consistiu em um quiz sendo aplicado em grupos. As equipes, previamente organizadas, receberam folhas com perguntas objetivas e de múltipla escolha (Figura 1). As questões abordavam conteúdos apresentados na palestra, incluindo identificação de animais, características anatômicas, hábitos alimentares e medidas de prevenção em caso de acidentes. A equipe vencedora recebeu kits de materiais escolares como premiação, o que motivou a participação dos alunos e reforçou o vínculo entre ensino e incentivo ao estudo. Sombra Júnior (2024) demonstra que ações de educação ambiental nas escolas melhoram significativamente a percepção dos alunos em relação às serpentes, promovendo a conservação e modificando crenças negativas por meio de informação e sensibilização. Durante a atividade, foi perceptível a curiosidade dos estudantes, especialmente quando tiveram a oportunidade de observar de perto os exemplares herpetológicos conservados. Muitos relataram nunca ter visto animais como serpentes e lagartos fora da televisão, o que tornou a experiência ainda mais significativa. Esse contato direto proporcionou um momento de aprendizagem concreta, favorecendo a construção de novos saberes a partir da realidade dos alunos. Além do conteúdo curricular, o projeto também contribuiu para o desenvolvimento de habilidades como o trabalho em equipe, a escuta ativa e a argumentação, especialmente durante o quiz. A metodologia adotada buscou valorizar o protagonismo dos estudantes, promovendo uma abordagem mais lúdica e interativa, condizente com o nível de ensino e o contexto escolar. Nesse sentido, a proposta dialoga com os princípios da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), ao estimular o pensamento crítico, a valorização da biodiversidade e o respeito à vida, pilares fundamentais para uma educação comprometida com a formação cidadã, com a sustentabilidade ambiental e com a construção de uma sociedade mais consciente e responsável.
Figura 1 – Quiz herpetológico do projeto didático aplicado em sala de aula com a turma do 8o ano A Fonte: Própria autora (2025).
2.6 AVALIAÇÃO DO PROJETO APLICADO Os alunos se mostraram extremamente curiosos com os animais. Muitos relataram nunca ter visto um animal de museu de perto. Algumas perguntas envolviam mitos, como o de que serpentes bebem leite ou perseguem pessoas, o que permitiu intervenções educativas. A turma respondeu bem à dinâmica, demonstrando participação ativa e respeito com o material biológico apresentado em sala (Figura 2). A atividade também permitiu observar o nível de compreensão dos alunos em relação aos conteúdos abordados, reforçando a importância de estratégias interativas e do contato direto com materiais que estimulem o aprendizado significativo. Figura 2 – Projeto didático sendo aplicado em sala de aula e parte dos materiais herpetológicos do acervo do MHNCE. Fonte: Própria autora (2025). 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO A experiência foi altamente positiva. A presença dos exemplares conservados despertou grande curiosidade entre os estudantes. Muitos relataram nunca ter visto uma serpente ou sapo de perto, ainda que preservados, o que demonstra a importância de aproximar a ciência do cotidiano. A participação no quiz revelou que a maioria dos alunos compreendeu os principais pontos da palestra, conseguindo responder corretamente à maioria das perguntas. Houve colaboração entre os colegas, respeito às regras da atividade e entusiasmo durante todo o processo. Apesar do sucesso da atividade, ocorreram desafios logísticos, como o transporte e acondicionamento dos exemplares (uma parte do acervo – os exemplares preservados em álcool e formol foram deixados na escola em um ambiente seguro até o dia e horário da aplicação do projeto didático), além da limitação de tempo para aprofundamento dos conteúdos. Ainda assim, a ação foi bem-sucedida ao atingir seu principal objetivo: despertar o interesse dos estudantes por temas biológicos por meio de uma abordagem lúdica, prática e envolvente.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS O projeto didático desenvolvido com a turma do 8º ano A da Escola Projeto Nascente permitiu unir conhecimentos acadêmicos à prática pedagógica, despertando o interesse dos estudantes pelo estudo da herpetologia. Sendo que o objetivo principal do projeto foi tornar o ensino de Ciências mais atrativo e significativo para os alunos, no qual foi plenamente alcançado. O uso de exemplares reais como recurso didático mostrouse eficaz para promover uma aprendizagem significativa, conforme defendido por Ausubel (2003). A aplicação do quiz, por sua vez, proporcionou uma forma dinâmica de avaliação, promovendo o trabalho em equipe e o raciocínio coletivo. Conclui-se que o estágio me permitiu exercer a autonomia docente, desenvolver estratégias de ensino e refletir sobre minha atuação. Os resultados alcançados superaram as expectativas iniciais e indicaram que abordagens interativas e contextualizadas podem contribuir de forma significativa para o ensino de Ciências no Ensino Fundamental, já que tornou o ensino mais contextualizado e próximo da realidade dos alunos, gerando engajamento e a promoção da desmitificação de conceitos errôneos tratando-se de animais herpetológicos. REFERÊNCIAS AUSUBEL, D. P. Aquisição e retenção de conhecimentos: uma perspectiva cognitiva. Lisboa: Plátano, 2003. BNCC - Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica. Brasília: MEC/SEB, 2018. CARVALHO, D. S.; SILVA, M. A. S. Ensino de Ciências e formação cidadã: desafios e possibilidades. Revista Brasileira de Educação em Ciências, v. 16, n. 1, p. 45–60, 2021. MORAIS, A. P. R.; MEDEIROS, J. B. L. P.; FONSECA, M. L. Mapeando o conhecimento: organizando ideias sobre o ensino de misturas e separações com mapas mentais no 6º ano do ensino fundamental. In: ENSESSUP – Encontro Norte-Nordeste Sobre Ensino Superior em Ciências Biológicas, 2025, Fortaleza. Anais… Fortaleza: UECE, 2025. Disponível em: https://uece.br/eventos/anaisenessup/trabalhos_completos/1660-67801-17022025234316.pdf. Acesso em: 09 jul. 2025. MORTIMER, E. F.; SCOTT, P. H. Atividade discursiva nas salas de aula de Ciências: uma ferramenta para analisar e planejar o ensino. Investigações em Ensino de Ciências, v. 7, n. 3, p. 283-306, 2002. PIMENTA, S. G.; LIMA, M. S. T. Estágio e docência. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2012. ROCHA, C. F. D.; VAIRA, M.; NAPOLI, M. F. Os Répteis como Recursos Educacionais: estratégias e experiências. In: NOGUEIRA, C. C.; ARRUDA, R. M. (org.). Educação em Herpetologia. Curitiba: Sociedade Brasileira de Herpetologia, 2019. p. 45-66.
SOMBRA JÚNIOR, C. A.; Educação ambiental nas escolas para a conservação de serpentes: um estudo de caso. Revista Educação e (Trans)formação, v. 1, n. 1, p. 134– 145, 2024.