scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

IMPACTOS DO USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA FORMAÇÃO COGNITIVA DE ESTUDANTES DA EDUCAÇÃO BÁSICA

Araújo Dos Santos, Guilherme

Full text

IMPACTOS DO USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA FORMAÇÃO COGNITIVA DE ESTUDANTES DA EDUCAÇÃO BÁSICA Guilherme Araújo Dos Santos1 1 Resumo: O uso excessivo de IAs, como o ChatGPT, no contexto da educação básica pode comprometer o desenvolvimento de habilidades cognitivas essenciais. Embora essas ferramentas ofereçam agilidade na execução de tarefas escolares, sua aplicação indiscriminada tende a enfraquecer competências fundamentais como o pensamento crítico e reflexivo, a criatividade, a resiliência cognitiva e a capacidade de síntese e expressão escrita. A dependência de respostas prontas reduz a elaboração de argumentos próprios, dificultando a formação de juízos autônomos e comprometendo a construção de uma postura analítica diante das informações. A criatividade, por sua vez, exige enfrentamento de desafios, exploração de ideias e aceitação do erro como parte do processo de aprendizagem, aspectos frequentemente negligenciados em contextos onde predominam soluções imediatas e padronizadas. A resiliência cognitiva, necessária para lidar com tarefas complexas e persistir diante de dificuldades, também é impactada pela facilidade de acesso a conteúdo prontos, o que desencoraja o esforço mental e o enfrentamento do desconforto intelectual. Já a capacidade de síntese e expressão escrita, essencial para a organização do pensamento e a comunicação clara de ideias, sofre prejuízos quando há terceirização da produção textual. A utilização passiva de ferramentas tecnológicas, especialmente em fases escolares marcadas pela construção da autonomia intelectual, pode gerar efeitos negativos no processo formativo, como empobrecimento da leitura crítica, fragilidade na aprendizagem e limitação da capacidade de resolver problemas de forma criativa e independente. Assim, é fundamental ir além do simples uso de recursos tecnológicos, promovendo uma educação que favoreça o uso responsável e crítico dessas ferramentas. Elas devem atuar como aliadas no processo formativo, e não como atalhos que comprometem as bases cognitivas e emocionais indispensáveis à aprendizagem. Palavras-chave: Pensamento crítico. Criatividade. Resiliência cognitiva. Estudantes. ChatGPT. 1 Graduando em Ciências Biológicas, Universidade Estadual do Ceará, Centro de Ciências da Saúde/Curso de Ciências Biológicas, e-mail:[email protected] 1. INTRODUÇÃO Durante meu estágio supervisionado no Ensino Médio I (ESEM 1), percebi algumas mudanças em relação aos meus dois estágios anteriores. Uma das principais alterações foi a proibição do uso de celulares em sala de aula. Essa medida foi adotada com base na Lei nº 14.846/2024, que regulamenta o uso de dispositivos eletrônicos em instituições de ensino básico em diversos estados do país. De acordo com essa legislação, o uso de celulares durante as aulas pode prejudicar significativamente o processo de ensino e aprendizagem, pois interfere na concentração, na participação ativa dos alunos e no ambiente pedagógico. A presença constante do celular contribui para a dispersão da atenção, facilita o acesso a conteúdo não relacionados ao conteúdo trabalhado e dificulta o engajamento com as atividades propostas. Ao conversar com meu professor supervisor de estágio, ele se posicionou favoravelmente à nova legislação que proíbe o uso de celulares em sala de aula. Segundo ele, a ausência desses dispositivos durante as aulas tem contribuído para uma melhora significativa na atenção dos alunos e na qualidade do ensino. O professor relatou que, antes da proibição, muitos estudantes se mostravam dispersos e pouco engajados, frequentemente utilizando o celular para acessar redes sociais ou procurar respostas prontas por meio de ferramentas de inteligência artificial. Essa prática, segundo ele, levou ao comodismo por parte dos alunos, que passaram a depender dessas tecnologias para realizar atividades e avaliações, sem realmente se dedicar ao estudo dos conteúdos. Diante dessas observações e reflexões compartilhadas pelo professor supervisor, passei a pensar mais profundamente sobre o papel das tecnologias, em especial das inteligências artificiais, no ambiente escolar. Embora seu uso excessivo possa comprometer o aprendizado, como relatado, também é inegável que as tecnologias sempre fizeram parte da trajetória humana como ferramentas para facilitar tarefas e otimizar processos. Essa ambiguidade me levou a refletir sobre como o uso consciente e orientado da IA poderia contribuir positivamente para a educação, desde que bem integrado ao contexto pedagógico. Desde o início das primeiras civilizações, os seres humanos buscam, desenvolver tecnologias que otimizassem uma determinada tarefa, como a invenção da roda pelos sumérios, um povo mesopotâmico, que era, e ainda é utilizado para facilitar o transporte de cargas pesadas em um tempo menor. Com o passar do tempo, e de acordo com a necessidade humana, novas tecnologias que visavam diminuir o esforço humano foram aparecendo, como o surgimento das máquinas a vapor no século XVIII que acelerou o processo de produção industrial, do computador que automatizou tarefas intelectuais e processamento de dados, e mais recentemente a Inteligência Artificial (IA) que automatiza tarefas repetitivas e toma decisões rápidas com base em padrões de dados. No entanto, o uso abusivo de certas IAs como o ChatGPT podem trazer sérios comprometimentos para o desenvolvimento de crianças e adolescentes durante sua fase escolar (UNESCO, 2024), visto que que acabam utilizando essa ferramenta de maneira a substituir seu processo de aprendizado, colocando-a para substituir sua capacidade de raciocinar e de criatividade, habilidades que são inerentes ao seres humanos que estão sendo cada vez menos desenvolvidas, por estar sendo criado uma dependência cada vez maior de ferramentas que substituem o trabalho que os estudantes deveriam ter para a construção da sua capacidade de raciocinar e de criar novas conexões. Essa dependência pode prejudicar o desenvolvimento de estudantes da educação básica, pois ao deixar de estimular seu cérebro, cada vez menos conexões são feitas, o que pode acometer a capacidade de ter um pensamento crítico e reflexivo durante o processo de aprendizado, e também da tomada de decisão, visto que o cérebro se acostuma em ter "algo" trabalhando por ele (Mogavi et al., 2023). Diante disso, justifica-se a realização deste trabalho com o intuito de analisar os impactos do uso abusivo de IAs no desenvolvimento cognitivo de estudantes, contribuindo para a compreensão dos riscos e das limitações dessa prática. Nesse sentindo, esse trabalho visa abordar sobre os impactos do uso abusivo de IAs, como ChatGPT, em estudantes, e como o seu uso pode afetar no seu desenvolvimento cognitivo. 2. DESENVOLVIMENTO Com o avanço tecnológico, tornou-se cada vez mais comum a presença constante de diversos tipos de informações, bem como a necessidade de estar sempre atualizado, acompanhando a velocidade com que essas informações são disseminadas (Gupta; Sharma 2021). Como consequência, há uma tendência natural do cérebro em priorizar temas de maior interesse pessoal e que demandem menor esforço cognitivo. Entre estudantes em idade escolar, esse cenário é ainda mais evidente, uma vez que são frequentemente cobrados a realizar atividades que exigem esforço mental contínuo. Contudo, conteúdos considerados pouco atrativos, como o estudo para avaliações escolares, tendem a gerar desinteresse, justamente por exigirem maior empenho cognitivo, enquanto temas associados ao entretenimento, que demandam menor esforço mental, acabam sendo preferidos pelos estudantes. Apesar desse desinteresse, os estudantes permanecem com a responsabilidade de estudar conteúdos menos atrativos, devido às exigências impostas pelos contextos escolar, familiar e social. Nesse sentido, o uso IAs, como o ChatGPT, torna-se atrativo por proporcionar acesso rápido e amplo a informações, otimizando tarefas consideradas desagradáveis. Assim, é possível concluir tais tarefas em menos tempo, permitindo que os estudantes direcionem sua atenção para atividades que demandam menos esforço. Mas então qual seria o problema do uso do IAs para otimizar tarefas escolares, visto que os seres humanos sempre buscavam criar tecnologias que otimizassem tarefas desagradáveis e demoradas? Para tentar responder a essa pergunta, o desenvolvimento será estruturado a partir de tópicos como o pensamento crítico e reflexivo, a criatividade, a resiliência cognitiva e a capacidade de síntese e expressão escrita. No que se refere ao pensamento crítico e reflexivo, será abordado como o uso da inteligência artificial para a geração automática de respostas pode levar o estudante a deixar de analisar, interpretar e construir argumentos próprios, comprometendo, assim, sua autonomia intelectual. Em relação à criatividade, entende-se que ela se desenvolve na busca ativa por soluções e na exploração de ideias. No campo da resiliência cognitiva, destaca-se que enfrentar tarefas difíceis, compreender conteúdos complexos e lidar com erros fazem parte do processo de aprendizagem. Por fim, será abordada a capacidade de síntese e expressão escrita, que pode ser prejudicada quando os estudantes recorrem a textos prontos fornecidos por inteligências artificiais. Pensamento crítico e reflexivo Quando os estudantes deixam de elaborar suas próprias ideias e passam a depender de respostas prontas, como as fornecidas por ferramentas de IA, ocorre uma redução significativa da atividade mental envolvida no processo de aprendizagem. Aprender é, essencialmente, um exercício ativo: envolve refletir, comparar, interpretar, errar, reformular e construir conhecimento com base em experiências e informações prévias. Ao pular essas etapas, o estudante não apenas perde a oportunidade de desenvolver habilidades de pensamento crítico, mas também enfraquece sua capacidade de formar juízos autônomos e tomar decisões conscientes (Yavich, 2025). Essa prática gera uma dependência cognitiva, na qual o cérebro se acostuma a receber respostas externas sem desenvolver os circuitos responsáveis pela análise, síntese e criatividade, e ao decorrer do tempo, essa passividade pode comprometer a autonomia intelectual, que é a habilidade de pensar por conta própria, sustentar opiniões com argumentos consistentes e questionar informações de maneira racional e lógica (Zhang et al., 2024). Na prática pedagógica cotidiana, essas fragilidades tornam-se evidentes em sala de aula, onde é possível observar que muitos estudantes enfrentam sérias dificuldades ao serem desafiados a produzir textos autorais com coerência, coesão e posicionamento crítico (Pinto; Pereira, 2016). Além disso, nota-se a limitação na capacidade de formular hipóteses de forma lógica e fundamentada, o que compromete o desenvolvimento do pensamento científico. Situações que exigem a resolução de problemas abertos, aqueles que não possuem uma única resposta correta e demandam análise, criatividade e tomada de decisão, também revelam obstáculos importantes na construção de raciocínios mais autônomos e reflexivos. Do mesmo modo, a participação em debates argumentativos é muitas vezes marcada por discursos frágeis, com ausência de embasamento teórico, dificuldade em sustentar pontos de vista e escassa escuta ativa dos colegas. Esses elementos apontam para a necessidade de práticas pedagógicas que estimulem a autoria, o pensamento crítico e a argumentação como dimensões fundamentais da formação dos estudantes. Do ponto de vista do desenvolvimento humano, essa perda da independência cognitiva compromete não apenas o desempenho acadêmico, mas também a formação cidadã, uma vez que a tomada de decisões conscientes é essencial para a vida em sociedade, para o exercício da ética, da responsabilidade e da liberdade individual. Ao receber informações de forma passiva, o estudante tende a aceitá-las como verdades absolutas, sem refletir sobre sua veracidade, origem ou contexto, o tornando vulnerável a diversos riscos, como a desinformação, pois pode acreditar e compartilhar conteúdos falsos por não ter desenvolvido o hábito de verificar fontes ou analisar criticamente o que recebe (Kenski, 2003). Nesse sentido, a passividade intelectual oriunda da falta da construção de um pensamento crítico e reflexivo representa um grave entrave ao processo formativo dos estudantes, comprometendo não apenas a aprendizagem escolar, mas também a construção de uma cidadania crítica e consciente. A dependência de respostas prontas, sejam elas oferecidas por tecnologias ou por métodos tradicionais que não estimulam o raciocínio ativo, enfraquece as estruturas cognitivas responsáveis pela autonomia, análise reflexiva e a, criatividade, algo essencial para a elaboração de soluções para desafios acadêmicos cotidianos. Criatividade A criatividade é uma habilidade cognitiva atrelada ao desenvolvimento pessoal, acadêmico e profissional, se manifestando na capacidade de criar algo novo, encontrar soluções originais para problemas e pensar fora dos padrões esperados (Kaufman; Baer, 2006). Esse processo ocorre, principalmente, quando o indivíduo é desafiado a refletir, testar hipóteses, errar e reformular ideias. Contudo, por vivermos em uma sociedade que frequentemente não apoia o erro e desvaloriza ideias novas, especialmente quando estas confrontam métodos tradicionais já consolidados, o ato de criar algo original muitas vezes não é acolhido ou incentivado. Essa postura cultural pode gerar um ambiente em que a inovação é vista com desconfiança, e o erro, que deveria ser parte natural do processo de aprendizagem, torna-se motivo de medo e constrangimento. No caso de estudantes da educação básica, especialmente aqueles que estão passando pela adolescência, um período marcado pela formação da identidade pessoal e intelectual, esse cenário é ainda mais desafiador, a constante necessidade de validação externa, somada à tendência de comparar-se com os colegas, pode levar à inibição da expressão de ideias próprias. Em vez de desenvolverem um pensamento autêntico, muitos acabam seguindo linhas de raciocínio já estabelecidas, consideradas mais aceitas pelo grupo ou pelo ambiente escolar, sufocando sua criatividade e originalidade. E, nesse sentido, ao se depararem com ferramentas de inteligência artificial, os estudantes, ao optarem por permanecer em sua zona de conforto, acabam por se autossabotar, ao delegarem à tecnologia sua própria capacidade criativa. Ao utilizar uma ferramenta que apenas armazena e organiza uma vasta quantidade de informações, o estudante abdica do processo ativo de construção do conhecimento. A IA, por si só, não é capaz de gerar algo verdadeiramente novo, pois funciona como uma apresentação de termos, dados e ideias desconectadas, que só ganham sentido quando interpretadas, organizadas e contextualizadas por um sujeito pensante. A criatividade não surge do conforto, mas da necessidade de superar dificuldades e encontrar caminhos onde não há respostas evidentes, sendo nesses momentos de desafio, incerteza ou limitação que o pensamento criativo é mobilizado, levando o indivíduo a buscar alternativas, explorar novas possibilidades e construir soluções originais (Csikszentmihalyi, 1997). Quando tudo está pronto e acessível, como ocorre com o uso constante de ferramentas como a inteligência artificial, o cérebro não é estimulado a sair da zona de segurança nem a enfrentar o desconforto intelectual que impulsiona a invenção e a descoberta. O processo criativo exige enfrentamento de problemas abertos, reflexão profunda, tentativas frustradas e reformulações, sendo muitas vezes marcadas por esforço e persistência, que fortalecem as conexões neurais associadas à originalidade, à flexibilidade cognitiva e à produção de novas ideias (Sawyer; Henriksen, 2024). Em contrapartida, o excesso de conforto, caracterizado pela presença constante de respostas prontas e caminhos predefinidos, inibe o pensamento divergente, essencial à criatividade. No ambiente escolar, essa lógica se torna ainda mais evidente. Quando o estudante recorre automaticamente à IA para realizar tarefas que exigiriam análise, interpretação e produção autoral, ele evita o processo de criação, perdendo a chance de exercitar sua imaginação e sua capacidade de construir algo novo a partir do próprio repertório. Com o tempo, essa postura pode gerar uma dependência de soluções externas e uma redução significativa da autonomia criativa. Além disso, a criatividade também está relacionada com à autonomia intelectual e emocional, não se tratando apenas da capacidade de gerar ideias novas, mas também envolve a coragem de expressá-las, testá-las e sustentá-las diante dos outros. Quando o estudante confia em sua própria capacidade de pensar, argumentar e criar, ele desenvolve não apenas suas habilidades cognitivas, mas também aspectos fundamentais de sua identidade intelectual, como a autoconfiança, o protagonismo e o senso de autoria. Por outro lado, a dependência excessiva de soluções automatizadas pode inibir o desenvolvimento dessas dimensões. Quando o estudante recorre constantemente a respostas prontas, ele evita o esforço necessário para construir seu próprio pensamento, deixando de experimentar a satisfação de resolver um problema por si mesmo (Schleicher, 2018). Com isso, adota uma postura passiva e reprodutora, abrindo mão do exercício criativo e enfraquecendo sua identidade como autor do próprio conhecimento. Diante disso, é possível perceber que a criatividade não se desenvolve de forma passiva nem imediata, mas exige esforço, enfrentamento de desafios e participação ativa no processo de aprendizagem. Embora as ferramentas de inteligência artificial possam oferecer suporte pontual, seu uso indiscriminado e automático pode comprometer o amadurecimento intelectual e emocional do estudante, ao reduzir as oportunidades de reflexão, experimentação e autoria, afetando sua resiliência cognitiva. Resiliência cognitiva A resiliência cognitiva se refere a capacidade de lidar com dificuldades intelectuais, persistir diante de desafios, superar erros e manter-se engajado na resolução de problemas mesmo quando o conteúdo é complexo ou exige esforço prolongado (Tugade; Fredrickson, 2004). Essa habilidade se relaciona com o desenvolvimento acadêmico e pessoal, pois está diretamente ligada à motivação intrínseca, à tolerância à frustração e à capacidade de autorregulação emocional e cognitiva. No contexto educacional, enfrentar tarefas difíceis, como interpretar um texto denso, resolver um problema matemático complexo ou escrever uma redação argumentativa, faz parte da construção do conhecimento. Esses momentos, embora desconfortáveis, estimulam o cérebro a buscar novas conexões, adaptar estratégias e aprender com os erros. É nesse esforço que o estudante desenvolve não apenas conhecimento, mas também confiança em sua capacidade de aprender por conta própria (Bjork, 2011). Entretanto, com o uso de IAs para gerar respostas prontas, muitos estudantes acabam evitando esse processo formativo. A IA oferece caminhos rápidos, soluções completas e textos bem formulados, o que pode levar o aluno a pular etapas fundamentais do aprendizado, como a reflexão, o erro, o recomeço e a análise crítica. Com isso, o cérebro não é desafiado, e o estudante não desenvolve a resistência necessária para lidar com tarefas mais exigentes no futuro. Ademais, o fator tempo também é um aspecto bastante considerado na escolha por utilizar ferramentas de inteligência artificial. Frequentemente, os alunos se sentem fortemente pressionados a realizar diversas atividades, trabalhos e provas que lhes são exigidos, seja pelos professores, pelas famílias ou até por eles próprios (Silva et al., 2024). Diante dessa sobrecarga, muitos recorrem a essas ferramentas por oferecerem informações rápidas, acreditando que não conseguirão dominar adequadamente os conteúdos exigidos, os quais demandam excelência e domínio (De Souza et al., 2025). Assim, o uso da IA acaba funcionando como uma forma de fuga, um atalho para concluir determinadas tarefas que, por serem consideradas desagradáveis, os estudantes buscam finalizar com mais rapidez e menos esforço. Ao longo do tempo, essa prática pode gerar dependência intelectual, ou seja, uma tendência a recorrer sempre a fontes externas para resolver problemas ou completar tarefas, em vez de confiar nas próprias capacidades. Isso enfraquece a autonomia e reduz a persistência diante de situações novas ou desafiadoras, criando um perfil de estudante que desiste com facilidade, evita o esforço e sente-se inseguro ao não ter apoio imediato da tecnologia. Diante desse cenário, deve-se refletir cuidadosamente sobre o papel das tecnologias no processo de aprendizagem e na construção da resiliência cognitiva por meio do enfrentamento de dificuldades. É necessário promover uma cultura educacional que valorize o esforço, o processo e o pensamento autêntico, visto que é através do enfrentamento dos desafios, ainda que desconfortáveis, que o cérebro se fortalece e novas conexões são formadas, promovendo não apenas o domínio de conteúdos, mas também o amadurecimento emocional e cognitivo. Capacidade de síntese e expressão escrita A capacidade de síntese e expressão escrita configura-se como uma das competências mais relevantes no processo de aprendizagem, uma vez que envolve não apenas o domínio de um conteúdo, mas a compreensão profunda a ponto de reformulá-lo com palavras próprias, de maneira clara, lógica e objetiva (Alves, 2022). Trata-se de uma competência essencial tanto para o desempenho acadêmico, em provas dissertativas, redações, trabalhos escolares e apresentações, quanto para a vida profissional e social, contextos nos quais a comunicação eficaz é amplamente valorizada. A escrita, nesse sentido, é uma atividade única à espécie humana, pois difere de outras formas de comunicação presentes na natureza (como gestos ou sons em animais) por sua capacidade de transcender o tempo e o espaço (Alves, 2022). Por meio dela, é possível registrar ideias, construir conhecimento, estabelecer diálogos com o passado e projetar pensamentos para o futuro, inclusive com pessoas que nunca serão conhecidas pessoalmente. Adicionalmente, o ato de escrever contribui de forma significativa para a organização do pensamento. Ao buscar expressar algo com clareza, o sujeito é desafiado a estruturar suas ideias, selecionar vocabulário adequado, revisar conceitos e avaliar a coerência e a lógica do que está sendo transmitido. Esse processo favorece o desenvolvimento do raciocínio crítico, da clareza argumentativa e da autonomia intelectual, elementos fundamentais para a formação integral do estudante. Apesar da reconhecida importância da capacidade de escrita, interpretação e aprendizado autônomo para o desenvolvimento humano, o uso indiscriminado de ferramentas de IA tem provocado um impacto preocupante nesse processo (Holmes, Bialik, Fadel, 2019). A IA, quando utilizada de forma passiva e substitutiva, ou seja, quando pensa, escreve e responde no lugar do estudante, pode enfraquecer significativamente o desenvolvimento de habilidades cognitivas fundamentais. A escrita, por exemplo, não é apenas uma forma de comunicar ideias, mas um processo ativo de construção do pensamento. Escrever exige selecionar, organizar, refletir, sintetizar e revisar, ações que estimulam o cérebro e fortalecem as conexões neurais relacionadas à linguagem, memória, lógica e criatividade (Holmes, Bialik, Fadel, 2019). Quando esse processo é terceirizado à IA, o estudante perde a oportunidade de exercitar sua própria voz, desenvolver clareza argumentativa e consolidar o conteúdo estudado. Da mesma forma, a interpretação textual não se resume à leitura mecânica de palavras, mas envolve compreender contextos, identificar intenções, relacionar informações e formular significados. É um processo que exige concentração, esforço mental e bagagem cultural. A dependência de resumos automáticos, explicações prontas ou respostas instantâneas pode gerar um empobrecimento da leitura crítica, tornando o estudante mais superficial na compreensão dos textos e menos capaz de estabelecer relações complexas entre ideias (Soares, 2018). Além disso, o aprendizado, quando não passa pelo esforço ativo, torna-se frágil e pouco duradouro. A mente humana aprende de forma mais eficaz quando participa ativamente da experiência, enfrentando desafios, elaborando hipóteses, errando e corrigindo. Ao pular essas etapas com o uso de IA, o estudante compromete não apenas a retenção do conteúdo, mas também o desenvolvimento de autonomia, criatividade e capacidade de resolver problemas, competências essenciais para a vida em sociedade. CONSIDERAÇÕES FINAIS Apesar das contribuições advindas do uso de IAs, sua aplicação no ensino de alunos da educação básica ainda deve ser conduzida com cautela. Esses estudantes encontram-se em uma fase de desenvolvimento e amadurecimento intelectual, na qual muitos mecanismos cerebrais ainda estão em formação. Além disso, ainda são necessárias pesquisas que investiguem o papel holístico das IAs no desenvolvimento acadêmico humano, evitando tratálas unicamente como soluções imediatas para todos os desafios educacionais. Diante dessas reflexões, torna-se evidente que o uso indiscriminado de ferramentas de inteligência artificial no ambiente escolar, embora possa oferecer praticidade e agilidade na realização de tarefas, traz implicações significativas para o desenvolvimento intelectual dos estudantes. A substituição do esforço cognitivo por respostas automáticas compromete a formação de competências fundamentais, como o pensamento crítico e reflexivo, a criatividade, a resiliência cognitiva, bem como a capacidade de síntese e expressão escrita. Tais competências não apenas favorecem o desempenho acadêmico, mas também constituem a base para a construção da autonomia intelectual, da identidade como autor do próprio conhecimento e do exercício de uma cidadania consciente. A aprendizagem significativa exige participação ativa, enfrentamento de desafios, experimentação e autoria. Portanto, mais do que simplesmente utilizar recursos tecnológicos, é necessário educar para o uso responsável e crítico dessas ferramentas, de modo que sirvam como apoio ao processo formativo, e não como atalhos que enfraquecem as estruturas cognitivas e emocionais essenciais à aprendizagem. REFERÊNCIAS ALVES, Rafael Alexandre. Desenvolvimento da competência escrita: a escrita como processo de reinvestimento de saberes. 2022. BANDURA, Albert. Self-efficacy: The exercise of control. Freeman, 1997. BJORK, Elizabeth L. et al. Making things hard on yourself, but in a good way: Creating desirable difficulties to enhance learning. Psychology and the real world: Essays illustrating fundamental contributions to society, v. 2, n. 59-68, p. 56-64, 2011. CSIKSZENTMIHALYI, Mihaly et al. Flow and the psychology of discovery and invention. HarperPerennial, New York, v. 39, p. 1-16, 1997. DE SOUZA, Andriw Santos et al. Estratégias para o Uso Consciente da Inteligência Artificial no Ensino Técnico Integrado ao Ensino Médio. In: Simpósio Brasileiro de Computação na Educação Básica (SBC-EB). SBC, 2025. p. 197-200. GUPTA, Mayank; SHARMA, Aditya. Fear of missing out: A brief overview of origin, theoretical underpinnings and relationship with mental health. World journal of clinical cases, v. 9, n. 19, p. 4881, 2021. HOLMES, Wayne; BIALIK, Maya; FADEL, Charles. Artificial intelligence in education promises and implications for teaching and learning. Center for Curriculum Redesign, 2019. KAUFMAN, James C.; BAER, John (Ed.). Creativity and reason in cognitive development. Cambridge University Press, 2006. MOGAVI, Reza Hadi et al. Exploring user perspectives on chatgpt: Applications, perceptions, and implications for ai-integrated education. arXiv preprint arXiv:2305.13114, 2023. MORAN, José Manuel. A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá. Papirus Editora, 2007. PINTO, Mariana Oliveira; PEREIRA, Luísa Álvares. Escrever para aprender no ensino básico: das conceções dos professores... às práticas dos alunos. Revista Portuguesa de Educação, v. 29, n. 2, p. 109-139, 2016. SAWYER, Robert Keith; HENRIKSEN, Danah. Explaining creativity: The science of human innovation. Oxford university press, 2024. SCHLEICHER, Andreas. World class. OECD Publishing, Paris, 2018. SILVA, Andreia Bento da et al. Análise situacional da ansiedade entre jovens estudantes: um estudo em uma escola de ensino médio. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Curso Técnico em Enfermagem) – Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, ETEC Sylvio de Mattos Carvalho, 2024. SOARES, Magda. Letramento-um tema em três gêneros. Autêntica, 2018. TUGADE, Michele M.; FREDRICKSON, Barbara L. Resilient individuals use positive emotions to bounce back from negative emotional experiences. Journal of personality and social psychology, v. 86, n. 2, p. 320, 2004. UNESCO. Guia para a IA generativa na educação e na pesquisa. Miao, Fengchun; Holmes, Wayne (autores). Lisboa: UNESCO, 2024. ISBN 978-92-3-700028-1. YAVICH, Roman. Will the Use of AI Undermine Students Independent Thinking?. Education Sciences, v. 15, n. 6, p. 669, 2025. ZHANG, Shunan et al. Do you have AI dependency? The roles of academic self-efficacy, academic stress, and performance expectations on problematic AI usage behavior. International Journal of Educational Technology in Higher Education, v. 21, n. 1, p. 34, 2024.