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REFLEXÕES SOBRE AUTOCUIDADO E SAÚDE DE ALUNOS PERIFÉRICOS NO ENSINO FUNDAMENTAL: VIVÊNCIAS DO 8º ANO

Silva Falcão, Erik da; Barros Leal de Pontes Medeiros, Jeanne

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REFLEXÕES SOBRE AUTOCUIDADO E SAÚDE DE ALUNOS PERIFÉRICOS NO ENSINO FUNDAMENTAL: VIVÊNCIAS DO 8º ANO Erik da Silva Falcão1, Jeanne Barros Leal de Pontes Medeiros² Resumo: O estágio supervisionado, enquanto componente obrigatório da formação de um licenciado, representa uma oportunidade de vivenciar, na prática, os conhecimentos teóricos adquiridos ao longo do curso. No contexto nacional, as sequências didáticas (SD) podem assumir papéis distintos seguindo a diversas linhas investigativas. O autocuidado é uma atividade aprendida pelo indivíduo, voltada para objetivos específicos relacionados à promoção da saúde e do bem-estar. Segundo Orem, o autocuidado trata-se de uma ação exercida em contextos concretos da vida cotidiana, direcionada a si mesmo, com a finalidade de regular fatores que influenciam seu desenvolvimento e qualidade de vida. As questões levantadas no trabalho evidenciam o conhecimento dos alunos acerca do tema, tendo como principal problemática a falta de acesso aos recursos necessários para manter uma rotina diária de autocuidado físico, mental e social. Palavras-chave: Autocuidado. Saúde. Estágio Supervisionado. Vulnerabilidade. 1. INTRODUÇÃO O estágio supervisionado, enquanto componente obrigatório da formação de um licenciado, representa uma oportunidade de vivenciar, na prática, os conhecimentos teóricos adquiridos ao longo do curso. O curso de Licenciatura em Ciências Biológicas organiza seus estágios de forma a proporcionar experiências práticas ao longo de diferentes etapas do ensino básico, iniciando no Ensino Fundamental e encerrando no Ensino Médio. Mais do que uma exigência curricular, o estágio possibilita, por meio das vivências práticas e teóricas, uma reflexão sobre o nosso papel enquanto educadores no ensino básico. O conceito de autocuidado foi introduzido pela primeira vez no campo da enfermagem em 1958, quando a enfermeira Dorothea Elizabeth Orem começou a refletir sobre as razões pelas quais os indivíduos necessitam de assistência de enfermagem e como podem ser beneficiados por essa intervenção. O autocuidado é uma atividade aprendida pelo indivíduo, voltada para objetivos específicos relacionados à promoção da saúde e do bem-estar (OREM, 2001). Segundo Orem (2001) o autocuidado trata-se de uma ação exercida em contextos concretos da vida cotidiana, 1 Graduando do Curso de Ciências Biológicas, Universidade Estadual do Ceará, e-mail: [email protected] ² Doutora em Educação pela Universidade Estadual do Ceará, Professora Adjunta da Universidade Estadual do Ceará, e-mail: [email protected] direcionada a si mesmo, com a finalidade de regular fatores que influenciam seu desenvolvimento e qualidade de vida. Segundo a autora, o autocuidado envolve a adoção de práticas fundamentadas em um modelo que contribui para o desenvolvimento humano (SILVA; OLIVEIRA; SILVA; POLARO; RADÜNZ; SANTOS; SANTANA, 2009). No contexto nacional, as sequências didáticas (SD) podem assumir papéis distintos seguindo diferentes linhas investigativas. Diversos estudos, tanto no contexto nacional quanto internacional, baseiam-se na tradição francesa de pesquisa e compreendem a aprendizagem seguindo a Teoria das Situações Didáticas de Brousseau (2008). Sob essa perspectiva, o foco das investigações não está centrado especificamente no sujeito cognitivo, mas na interação entre aluno, professor e saber, mediada pelas situações didáticas no contexto do processo de ensino e aprendizagem (PAIS, 2001). Segundo dados da CEPEVI/SMF, em 2006 o bairro Jardim das Oliveiras, onde situa-se a instituição alvo deste trabalho, foi o segundo mais violento no que concerne à variável homicídio, significa que, ao analisar os dados de violência, o local em questão apresenta os maiores índices de homicídios em comparação com outros. A “variável homicídio” é um dos indicadores usados para medir a violência em uma região, e quando se diz que algo é “mais violento” nesse aspecto, está se referindo especificamente à frequência ou taxa de homicídios. Dado esse contexto sociocultural, marcado por violência e descaso. O projeto didático objetiva promover a reflexão crítica sobre as práticas de autocuidado como uma estratégia fundamental diante das diversas formas de violência dentro cotidiano de alunos periféricos, fazendo uso de uma SD como estratégia, pensando principalmente no posicionamento do aluno como protagonista. 2. METODOLOGIA Dentro do programa de Estágio Supervisionado no Ensino Fundamental I (ESEF I) há a obrigatoriedade de desenvolver um projeto didático com a carga horária de 12 horas, reservadas para planejamento, escrita, aplicação e avaliação. No presente resumo, a carga horária foi usada para desenvolver e aplicar uma SD com alunos do 8º ano do ensino fundamental em uma instituição pública de ensino que terá nome e localização mantida em sigilo, com o objetivo de resguardar a identidade dos participantes e garantir a privacidade das respostas fornecidas pelos próprios. Essa medida visa assegurar a confidencialidade dos dados, em conformidade com princípios éticos de pesquisa envolvendo seres humanos, além de criar um ambiente seguro e respeitoso para a livre expressão dos estudantes durante o processo investigativo. Essa decisão está em consonância com a LEI Nº 14.874, de 28 de MAIO de 2024. A seleção da turma foi realizada com base na similaridade do conteúdo abordado com o tema, que foi escolhido para o projeto didático, com o conteúdo programático, que também se apresentaria como uma forma de complementar os temas abordados na feira de ciências. O projeto didático teve como foco principal os temas: saúde do corpo, saúde da mente e práticas de autocuidado, promovendo reflexões integradas sobre bem-estar físico, emocional e hábitos saudáveis no contexto escolar e no cotidiano dos participantes. Para a aplicação da SD, foram dispostas três aulas contando com 100 minutos cada, em semanas subsequentes. Na primeira aula, foi elaborada uma apresentação com slides evidenciando diferenças entre o corpo humano e o corpo de outros animais, e posteriormente, questionados sobre atos de cuidado para manter a saúde do corpo. Ao final da aula os alunos foram encarregados de pensar na questão: Eu sou um corpo ou eu tenho um corpo? A segunda aula foi iniciada com um debate entre as duas perspectivas, onde os alunos estariam livres para discutir seus pontos de vista e defender, com o professor agindo apenas como mediador do debate. Em um segundo momento, foi utilizado o quadro branco e pincel para organizar as ideias, mas reforçando que ambos os pontos de vista estariam corretos, prosseguindo com uma apresentação de slides sobre saúde da mente e práticas que favorecem o bem-estar mental. Na terceira aula, foi realizada a aplicação de um material previamente elaborado contendo questões objetivas e discursivas. Além disso, também foi realizada uma roda de conversa com os alunos, finalizando assim a sequência didática. 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO 3.1 Resultados da regência Na primeira aula, os alunos já estavam familiarizados com a minha presença no ambiente da sala de aula. A aula foi iniciada com um questionamento: Qual a função do braço de um chimpanzé? Os alunos estranharam a pergunta repentina e sem contexto, mas logo as respostas envergonhadas começaram a surgir. Foi de consenso que o braço dos chimpanzés serviria para pendurar-se em árvores, sendo assim, o animal estaria adaptado para realizar tal função com maestria. Após esse momento inicial, a aula deu continuidade, e utilizando o projetor como recurso, pudemos iniciar a análise: Quais as adaptações que os seres humanos teriam? Os alunos responderam de uma forma não técnica, mas indicando o cérebro desenvolvido, as glândulas sudoríparas e o bipedalismo. A aula prosseguiu com a apresentação de slides, entrando na temática saúde do corpo. Aproveitando do conhecimento prévio dos alunos, a aula teve uma participação considerável e muitas respostas boas acerca do conteúdo abordado. Muitos alunos afirmaram boas práticas para manter uma boa saúde do corpo, como, manter uma boa alimentação, sono regulado, praticar atividades físicas e manter uma boa higiene. A atividade que foi entregue na última aula contou com 3 questões objetivas relacionadas à saúde do corpo. Gráfico 1 – Resultados do questionário, questões de 1 a 3. Fonte: Elaborado pelo autor. Na segunda aula, boa parte dos alunos não se prepararam para um debate sobre o tema, poucos se dispuseram a pesquisar e refletir sobre a questão que foi apresentada ao final da primeira aula, e como foi um dia chuvoso, uma quantidade reduzida de alunos esteve presente, sendo assim, a sala foi dividida em dois grandes grupos. A atividade foi realizada como previsto, mas as respostas estavam mais centradas em um dos lados. O grupo 1 ficou encarregado por apresentar o argumento do “eu tenho um corpo” e o grupo 2 argumentaria a favor do “eu sou um corpo”. O debate iniciou bem, porém, todos assumiram posicionamentos semelhantes quando um aluno citou uma perspectiva religiosa, onde o indivíduo possui um corpo, mas sua verdadeira essência reside na alma. Nesse sentido, o corpo seria apenas um receptáculo, um invólucro temporário que abriga aquilo que realmente o define. Atuando como mediador do debate, apenas acatei a ideia da turma e expus minha linha de raciocínio com uma perspectiva material, onde nós seríamos um corpo, refém de todas as coisas que experienciamos e de todas as escolhas que tomamos. Prosseguindo com a aula, a saúde mental foi o principal tópico, falando sobre práticas que são saudáveis e práticas não saudáveis. Mais uma vez com o uso do projetor e uma apresentação de slides para abordar a temática de forma mais dinâmica e atrativa para os alunos. Dentro do planejamento, a aula iria abordar em um breve momento sobre a importância de áreas verdes e questionar sobre a presença desses espaços nas periferias. As áreas verdes são reconhecidas como um importante indicador na avaliação da qualidade ambiental urbana e, além disso, são exigidas por lei. Sua ausência ou inefetividade no espaço urbano compromete a qualidade do ambiente e, consequentemente, a falta de locais adequados para o lazer impacta negativamente a qualidade de vida da população (LIMA; AMORIM, 2011). O questionário utilizado na última aula contemplou 2 questões objetivas sobre o tema. Gráfico 2 – Resultados do questionário, questões 4 e 5. Fonte: Elaborado pelo autor. A última aula iniciou com o questionário, adverti os alunos que as suas respostas seriam mantidas privadas e assim eles teriam liberdade para dar as respostas que mais se sentirem confortáveis. Houve um momento com uma roda de conversa sobre autocuidado e como essas práticas afetam o bem-estar humano, explorando bem o conteúdo que foi apresentado nas aulas anteriores. Os alunos foram questionados sobre a importância do autocuidado no cotidiano: O autocuidado ajuda no psicológico e fisicamente, uma pessoa sem autocuidado pode ficar com o psicológico abalado. (aluno 16) As práticas de autocuidado proporcionam uma melhor qualidade de vida (aluno 11) As respostas dos alunos 11 e 16 demonstram que eles já possuem um conhecimento prévio sobre a importância do autocuidado, reconhecendo seus impactos no bem-estar físico e psicológico. Isso reforça a relevância de complementar esse saber com atividades que estimulem o protagonismo e aprofundem a reflexão sobre o tema. Quando indagados a respeito dos desafios para tornar essas práticas de autocuidado os alunos revelaram que: O maior desafio é a falta de tempo ou o cansaço, às vezes a rotina é tão corrida que nos esquecemos de nós mesmos. (aluno 2) A dificuldade de ter uma alimentação de boa qualidade. (aluno 9) Não consigo manter sono regular por causa do celular. (aluno 16) As respostas dos alunos sobre os desafios enfrentados por eles para manter uma rotina saudável está intimamente ligado com a realidade da comunidade, parte dos alunos do 8º ano usam o contra turno como forma de garantir uma renda extra, por isso, há a dificuldade de manter essa rotina. A falta de uma alimentação balanceada também é um problema relatado por uma grande parte dos alunos. Outro problema também relacionado está o uso excessivo dos celulares, alguns alunos relataram dificuldade em se ver longe das redes sociais, culpabilizando o “tédio” por esse uso indiscriminado.. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS. As questões levantadas no trabalho evidenciam o conhecimento dos alunos acerca do tema, tendo como principal problemática a falta de acesso aos recursos necessários para manter uma rotina diária de autocuidado físico, mental e social. Essa limitação revela não apenas desigualdades socioeconômicas, mas também a necessidade de políticas públicas e ações educativas que promovam o bem-estar integral, garantindo condições mínimas para que todos possam cuidar de si de forma plena e contínua. Com isso, compreende-se que o autocuidado vai além do cuidado físico individual, envolvendo também práticas de resistência e fortalecimento coletivo frente às situações de vulnerabilidade. O autocuidado foi abordado como uma forma ativa de enfrentamento à violência cotidiana. Reconhecer e promover práticas de autocuidado nesse contexto significa não apenas cuidar de si, mas também reivindicar espaços de escuta, pertencimento, valorização dentro da escola e de preservação da saúde mental e emocional. Tenho uma conexão direta com a realidade vivida pelos alunos, já que também sou residente no mesmo bairro e convivi com situações que são recorrentes dado o contexto socioeconômico da área, compreendo a maior parte das dificuldades relatadas pelos alunos suas respostas, dentro do questionário e durante as aulas. A minha vivência no primeiro estágio, dentro do ensino fundamental, me permitiu compreender de perto o funcionamento de uma escola, o planejamento de aulas e a regência das mesmas, sendo fundamental para o enriquecimento do currículo de um futuro docente. 5. REFERÊNCIAS. BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Indicadores Educacionais. INEP. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/acesso-a-informacao/dados-abertos/indicadores-educacio nais. Acesso em: 7 de julho de 2025. BRASIL. Lei nº 14.874, de 28 de maio de 2024. Dispõe sobre a pesquisa com seres humanos e institui o Sistema Nacional de Ética em Pesquisa com Seres Humanos. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2023-2026/2024/Lei/L14874.htm Acesso em: 7 jul. 2025. BROUSSEAU, G., Ed. Introdução ao estudo das situações didáticas: conteúdos e métodos de ensino. São Paulo, SP: Ática, 1 ed. 2008. CÉLULA DE VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA. Disponível em: http://www.sms.fortaleza.ce.gov.br/sms_v2/vigiliancias_EpidemiologicaTabnet.asp. acesso em 07 de julho de 2025. LIMA, Valéria. AMORIM, Margarete Cristiane de Costa Trindade. A IMPORTÂNCIA DAS ÁREAS VERDES PARA A QUALIDADE AMBIENTAL DAS CIDADES. Formação (Online), [S. l.], v. 1, n. 13, 2011. SILVA, Irene de Jesus; OLIVEIRA, Marília de Fátima Vieira de; SILVA, Sílvio Éder Dias da; POLARO, Sandra Helena Isse; RADÜNZ, Vera; SANTOS, Evanguelia Kotzias Atherino dos; SANTANA, Mary Elizabeth de. Cuidado, autocuidado e cuidado de si: uma compreensão paradigmática para o cuidado de enfermagem. Revista da Escola de Enfermagem da Usp, v. 43, n. 3, p. 697-703, set. 2009 OREM, Dorothea. Elizabeth. (2001). Nursing: Concepts of Practice, 6 ed., Mosby PAIS, LUIZ Carlos. Didática da Matemática: uma análise da influência francesa. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.