APRENDER ENSINANDO: OS DESAFIOS DO ENSINO DE INFORMÁTICA NOS CURSOS LIVRES DA ESCOLA DE COMPUTAÇÃO SOLIDÁRIA
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30 APRENDER ENSINANDO: OS DESAFIOS DO ENSINO DE INFORMÁTICA NOS CURSOS LIVRES DA ESCOLA DE COMPUTAÇÃO SOLIDÁRIA Ricardo Dantas Silva – Curso de Ciência da Computação – [email protected] DOI 10.5281/zenodo.17498683 A Escola de Computação Solidária é um projeto de extensão universitária vinculado aos cursos de Tecnologia da Informação do Centro Universitário de João Pessoa – UNIPÊ. Desde sua criação, tem como principal objetivo democratizar o acesso ao conhecimento digital, ofertando cursos livres e gratuitos de informática básica e aplicada à comunidade em situação de vulnerabilidade social. O projeto se fundamenta na ideia de que o domínio da informática é hoje uma competência essencial para o exercício pleno da cidadania, para o acesso a oportunidades no mercado de trabalho e para o protagonismo acadêmico e social. Contudo, ao mesmo tempo em que promove o acesso ao conhecimento tecnológico para a comunidade externa, o projeto se configura como um potente espaço formativo para os discentes dos cursos de TI que atuam como ministrantes das turmas. A prática do “aprender ensinando” surge como um diferencial metodológico da iniciativa, ao estimular que os estudantes universitários desenvolvam competências comunicacionais, empáticas e pedagógicas ao longo do contato com diferentes perfis de alunos e contextos sociais. Nesse processo, destaca-se um importante desafio: a ausência de formação didático-pedagógica sistematizada, uma vez que os cursos envolvidos não são de licenciatura. Este relato apresenta a experiência recente da formação de uma nova turma, voltada ao letramento digital
31 de pessoas com mais de 50 anos, refletindo sobre os desafios e aprendizados envolvidos nesse processo. A prática pedagógica do projeto estrutura-se em torno de cursos de curta duração, com carga horária média de 60 horas, realizados nos laboratórios de informática da Instituição e conduzidos por duplas ou trios de discentes extensionistas, sob a orientação direta de um docente coordenador. Os conteúdos são previamente organizados com base em um roteiro de aulas, que abrange desde noções básicas de manuseio de computadores e celulares, até práticas como uso do WhatsApp, navegação na internet, digitação de textos, acesso a serviços públicos digitais, entre outros. O projeto utiliza a abordagem centrada na aprendizagem ativa, com foco na experimentação, na resolução de problemas práticos e no respeito ao ritmo de cada participante. No primeiro semestre de 2025, iniciou-se uma nova turma de letramento digital destinada exclusivamente a pessoas com 50 anos ou mais, com perfil variado entre trabalhadores aposentados, donas de casa, pequenos empreendedores e pessoas em busca de reinserção no mercado de trabalho. A metodologia adotada precisou ser adaptada para atender às especificidades desse público, com foco no acolhimento, na escuta ativa e na construção de uma linguagem acessível e não técnica. A condução das aulas pelos discentes extensionistas revelou múltiplas camadas de aprendizado. De um lado, os alunos do curso de Ciência da Computação e Sistemas para Internet foram desafiados a traduzir seus conhecimentos técnicos para uma linguagem compreensível e significativa, o que exigiu o desenvolvimento de habilidades interpessoais como paciência, empatia e escuta sensível. De outro lado, os participantes da turma demonstraram grande interesse e motivação, mas também apresentaram dificuldades associadas ao medo do erro, à insegurança com os dispositivos e à ausência de experiências prévias com tecnologias digitais. Esses desafios
32 evidenciaram a necessidade de redimensionar as estratégias de ensino. Foram realizadas adaptações no material didático, simplificação dos tutoriais, maior uso de exemplos do cotidiano dos participantes e criação de momentos individuais de acompanhamento, especialmente nas primeiras aulas. Além disso, encontros de formação continuada foram promovidos com os extensionistas para discussão de práticas pedagógicas inclusivas e escuta ativa das dificuldades enfrentadas em sala de aula. Um fator determinante para o sucesso da iniciativa foi o estabelecimento de vínculos afetivos entre extensionistas e cursistas. Ao serem acolhidos com respeito e empatia, os participantes relataram maior segurança para participar das atividades, o que resultou em um ambiente de aprendizagem mais engajador e colaborativo. Por sua vez, os discentes extensionistas desenvolveram maior autonomia, iniciativa e capacidade de mediação, ampliando sua visão sobre o papel social da tecnologia e da educação. O projeto tem promovido impactos significativos tanto na comunidade atendida quanto nos estudantes envolvidos. Para os cursistas, especialmente aqueles da turma 50+, o domínio de ferramentas digitais passou a representar mais do que uma habilidade técnica: tornou-se um símbolo de independência, autoestima e pertencimento a um mundo cada vez mais digitalizado. Muitos relataram, ao final do curso, que passaram a realizar atividades cotidianas com maior autonomia, como acessar o banco via aplicativo, conversar com familiares por vídeo chamada ou utilizar aplicativos de transporte. Para os discentes, o contato direto com a prática do ensino trouxe um novo olhar sobre sua formação acadêmica e sobre o papel social da universidade. Muitos relataram que participar do projeto contribuiu para ampliar suas competências comunicacionais, além de despertar vocações para o trabalho com educação e projetos sociais. Além disso, o caráter extensionista da atividade fortalece o tripé ensino-
33 pesquisa-extensão, promovendo uma formação mais integral e humanizada. A experiência da Escola de Computação Solidária evidencia que a prática do “aprender ensinando” pode ser uma via potente de formação, tanto para quem ensina quanto para quem aprende. Ao possibilitar que estudantes de cursos não licenciatura atuem como agentes de transformação social, o projeto contribui para o desenvolvimento de competências muitas vezes negligenciadas nos currículos tradicionais, como empatia, comunicação e compromisso social. O trabalho com o público 50+ revelou a importância de adotar metodologias ativas, personalizadas e acolhedoras, que respeitem os tempos e saberes prévios dos aprendizes. Também destacou a relevância de preparar os discentes para o desafio do ensino, mesmo fora do campo tradicional da docência, como estratégia de desenvolvimento de habilidades do século XXI. Como continuidade, pretende-se ampliar o número de turmas voltadas a públicos diversos, promover ciclos formativos regulares para os extensionistas e integrar os resultados do projeto a pesquisas voltadas à inclusão digital e às práticas pedagógicas em ambientes não escolares. Acredita-se que a educação, quando comprometida com a inclusão e com o diálogo entre gerações, pode ser uma ferramenta transformadora, e que a universidade tem papel fundamental nesse processo. REFERÊNCIAS: Assmann H. A metamorfose do aprender na sociedade da informação. Ciência da Informação [Internet]. v29, n. 2, p.07-15. 2000. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S010019652000000200002>. Acesso em 20/07/2025. BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes para a Extensão na Educação Superior Brasileira. MEC, 2018.
34 FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Paz e Terra, 1987. MORAN, José Manuel. A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá. Papirus, 2007.