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Covariação entre processos de adaptação linguística quanto ao uso de /r/ em coda silábica na fala de migrantes baianos residentes em Palmares Paulista-SP

Ferraz, Leonardo

Abstract

Análises acerca do uso de /r/ em coda silábica (como em carne e barco) no português brasileiro têm se concentrado tanto sobre o processo de apagamento do rótico vs. sua realização (Callou, Moraes e Leite, 2002; Oushiro; Mendes, 2014, inter alia) quanto sobre diferentes pronúncias do segmento (p.ex., tepe vs. retroflexo) (Oushiro; Mendes, 2013; Oushiro, 2015; Souza, 2023). No caso dos falares baiano e paulista, as pronúncias características são a fricativa (Oliveira, 1999; Guedes, 2014) e as variantes tepe e retroflexa (Guiotti, 2002; Oushiro, 2015), respectivamente; no caso do apagamento, comum nesses dialetos, as variedades diferenciam-se quanto às taxas de aplicação do processo (Callou, Moraes e Leite, 2002), sendo a supressão mais frequente no dialeto baiano, especialmente em meio de palavra (Oliveira, 1999; Guedes, 2014). No campo do contato dialetal (Trudgill, 1986; Oushiro et al., 2023; Fernández-Mallat; Nycz, 2025), estudos sobre o uso simultâneo de múltiplas variáveis sociolinguísticas (Guy, 2013; Oushiro, 2015) têm investigado distintos fenômenos (p.ex., acomodação concomitante a /r/ retroflexo e à vogal pretônica [e] mais baixa); no entanto, um mesmo fenômeno (p.ex., r em coda) pode estar envolvido em diferentes processos de adaptação linguística (Souza, 2023), que podem (ou não) coocorrer na fala dos indivíduos. Análises prévias sobre o uso de /r/ por migrantes baianos em Palmares Paulista, pequena cidade do interior de São Paulo, demonstraram a existência de dois processos distintos: o emprego da variante retroflexa, correlacionado com fatores sociais e estilísticos, e a diminuição das taxas de apagamento de /r/ em relação a baianos não migrantes (Oliveira, 1999; Guedes, 2014), correlacionada com fatores linguísticos e estilísticos. Este estudo analisa a variação de /r/ em coda a partir das perspectivas do seu apagamento e da alternância entre suas pronúncias, com o objetivo de investigar em que medida esses migrantes adaptam-se simultaneamente aos padrões paulistas. Análises de 1.757 dados de retroflexo (vs. fricativo) e 796 dados de apagamento (vs. realização), extraídos de entrevistas sociolinguísticas (Labov, 1984) com 20 migrantes baianos, não demonstraram correlação significativa entre a alternância das pronúncias de /r/ e o apagamento do rótico (Rho de Spearman = 0,03, p = 0,86), assinalando o fato de que esses processos não caminham juntos na fala dos migrantes, embora estejam associados a características dialetais da variedade paulista (Guiotti, 2002; Oushiro; Mendes, 2014; Carmo; Taborda, 2019). Em conjunto com resultados gerais obtidos previamente, a falta de correlação verificada entre os fenômenos sugere que a diminuição das taxas de apagamento de /r/ prescinde do contato com os paulistas, sendo condicionada por preditores linguísticos e questões de ordem estilística; ao contrário da aquisição do retroflexo, fortemente influenciada pelo efeito de fatores de ordem social e estilística, entre eles o Tempo de Residência do migrante em São Paulo. O desenvolvimento dessas análises contribui para um exame mais aprofundado da uniformidade linguística de baianos que vivem em Palmares Paulista e para a descrição da fala de migrantes internos no Brasil, sobretudo nordestinos residentes no estado de São Paulo (Oushiro et al., 2023). (Apoio: CNPq 131252/2022-4) Referências Alves, M. I. P. M. Atitudes linguísticas de nordestinos em São Paulo. 1979. 226 f. Dissertação (Mestrado) – IEL, UNICAMP, Campinas. Baeninger, R. São Paulo e suas migrações no final do século 20. São Paulo em Perspectiva, v. 19, n. 3, p. 84–96, 2005. Ferraz, L. Palmamirim: um estudo sobre a plasticidade dialetal de migrantes baianos residentes no município de Palmares Paulista-SP. 2024. Dissertação (Mestrado) – IEL, UNICAMP, Campinas. Guy, G. R. The cognitive coherence of sociolects: how do speakers handle multiple sociolinguistic variables? Journal of Pragmatics, v. 52, p. 63–71, 2013. Guy, G. R.; Oushiro, L.; Mendes, R. B. Indexicality and coherence. In: Beaman, K.; Guy, G. R. (eds.). The coherence of linguistic communities: orderly heterogeneity and social meaning. New York: Routledge, 2022. p. 53–68. IBGE. Censo Demográfico de 2010. [S. l.], 2010. IPEA. Comunicados do IPEA (n. 115): Perfil dos migrantes em São Paulo. [S. l.], 2011. Acesso em: 17 jul. 2024. Labov, W. Field methods of the project on linguistic change and variation: Readings in Sociolinguistics. In: Language in Use. Ed. John Baugh e Joel Sherzer. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1984. Oliveira, M. A. J. Dialetos em contato: Acomodação dialetal por migrantes baianos habitantes da cidade de Bauru, São Paulo. 2020. 88 f. Dissertação (Mestrado) – FLCAR, UNESP, Araraquara. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/193044.

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Introdução Metodologia Resultados Conclusões Covariação entre processos de adaptação linguística quanto ao uso de /r/ em coda silábica na fala de migrantes baianos residentes em Palmares Paulista-SP Leonardo Ferraz VARIEM/Unicamp Universidade Federal da Paraíba 15 out. 2025 Ferraz 15 out. 2025 Covariação 1 / 17 Introdução Metodologia Resultados Conclusões São Paulo: terra baiana •Baianos: o grupo que liderou os movimentos migratórios para São Paulo desde os anos 1930 (Baeninger, 2005) •11% da população da Região Metropolitana de São Paulo (IPEA, 2011) •11% da população total do estado de SP (IBGE, 2010) Ferraz 15 out. 2025 Covariação 2 / 17 Introdução Metodologia Resultados Conclusões A fala de baianos residentes em São Paulo Alguns dos poucos trabalhos sobre a fala de migrantes baianos no campo do Contato (Trudgill, 1986; Weinreich, 1953): •Alves (1979): baianos (e pernambucanos) residentes em São Paulo-SP •Souza (2023) baianos residentes na Região Metropolitana de São Paulo •Tipologia de processos de adaptação linguística em situação de contato dialetal •Proposição do termo plasticidade dialetal em detrimento de acomodação dialetal (Trudgill, 1986) e aquisição de segundo dialeto (Siegel, 2010) •Oliveira (2020): baianos residentes em Bauru-SP Ferraz 15 out. 2025 Covariação 3 / 17 Introdução Metodologia Resultados Conclusões O Noroeste paulista Figura 1: Mapa do estado de São Paulo com a Região Noroeste em evidência Ferraz 15 out. 2025 Covariação 4 / 17 Introdução Metodologia Resultados Conclusões Palmares Paulista Figura 2: Vista aérea de Palmares Paulista-SP (Site da Prefeitura Municipal) Ferraz 15 out. 2025 Covariação 5 / 17 Introdução Metodologia Resultados Conclusões A comunidade investigada Justificativas •Movimento migratório particular de baianos vindos das cidades de Paramirim e Livramento de Nossa Senhora para Palmares Paulista •Migrantes em contato com a variedade caipira do português paulista, alvo de forte estigmatização Ferraz 15 out. 2025 Covariação 6 / 17 Introdução Metodologia Resultados Conclusões Ferraz (2024): materiais e métodos •Entrevistas sociolinguísticas com 20 falantes (Labov, 1984; Tagliamonte, 2006) •Fenômeno em análise: (-r) em coda silábica (como em garfo e mulher) a partir de duas perspectivas: •Retroflexo (po[õ]ta) versus Fricativo (po[h]ta) •Realização (colhe[õ,h] e mora[õ,h]) versus Apagamento (colhe/ø/ e mora/ø/) •Análises multivariadas no R (R Core Team, 2024) •Modelos de regressão logística binária Ferraz 15 out. 2025 Covariação 7 / 17 Introdução Metodologia Resultados Conclusões Processos de adaptação linguística Tabela 1: Comparação entre as taxas de apagamento de (-r) em posição medial em Feira de Santana-BA, São José do Rio Preto-SP e Palmares Paulista-SP Verificação de dois processos de adaptação distintos descritos por Souza (2023): •Aquisição da variante retroflexa de (-r) •Contenção de apagamento em posição medial de palavra Proporção de apagamento de (-r) em posição de coda medial Feira de Santana-BA (Guedes, 2014) S. J. do Rio Preto-SP (Carmo e Taborda, 2019) Baianos em Palmares (Ferraz, 2024) 20% 0,7% 8% Ferraz 15 out. 2025 Covariação 8 / 17 Introdução Metodologia Resultados Conclusões Questionamento A comunidade baiana em Palmares é também coesa em seus usos linguísticos? Os falantes que tendem a empregar a variante retroflexa também tendem a realizar mais o rótico em posição medial de palavra? Ferraz 15 out. 2025 Covariação 9 / 17 Entre retroflexos e fricativos: preditores sociais em foco Tabela 2: Regressão logística de efeitos mistos acerca do emprego de /r/ retroflexo Variável preditora Correlação Estimativa (em logodds) Gênero x - Estilo*Escolaridade ✓1,202 Idade x - Idade de migração x - Tempo de residência ✓0,208 Ferraz 15 out. 2025 Covariação 16 / 17 O apagamento do rótico: preditores linguísticos em foco Tabela 3: Regressão logística de efeitos mistos acerca do apagamento de /r/ Variável preditora Correlação Estimativa (em logodds) Estilo ✓-0,561 Contexto fonol. precedente ✓-0,947 Contexto fonol. seguinte x - Tonicidade da sílaba x - Posição da sílaba ✓0,432 Classe morfológica x - Ferraz 15 out. 2025 Covariação 17 / 17