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confabulando: educação transmídia e desinformação na crise climática

Alzamora, Geane C.; Tárcia, Lorena P.; Gambarato, Renira R.; Cunha, Leonardo

Abstract

Confabulando investiga, desde 2020, como o ambiente escolar pode contribuir para reduzir os impactos sociais da propagação de conteúdos enganosos. Em sua fase atual, prioriza ações de sustentabilidade em contexto de crise climática, com ações planejadas em escolas públicas localizadas em zonas sensíveis à questão ambiental, no Brasil e em Moçambique. Busca-se estimular o reconhecimento de marcas enunciativas da desinformação, sobretudo relacionadas ao negacionismo climático. Os estudantes são levados a refletir criticamente sobre as consequências dessas narrativas em sua realidade social e política, a partir de extensões locais. Confabulando integra o projeto de ensino, pesquisa e extensão “Educação transmídia para escolas públicas de países de língua estrangeira”, que já realizou, desde 2017, experimentos didáticos em escolas públicas de Belo Horizonte (Brasil), Díli (Timor Leste), Maputo e Beira (ambas em Moçambique). Consideramos que a desinformação se expande impulsionada por algoritmos e por crenças compartilhadas em conexões online/offline, sobretudo em esferas midiáticas refratárias ao contraditório. Com base nesse entendimento, desenvolvemos estratégias lúdicas e sustentáveis para favorecer a formação de hábitos de consumo midiático cada vez mais críticos e sofisticados. A metodologia inclui grupo focal com estudantes e entrevistas em profundidade com professores; dinâmica transmídia em ambiente escolar; ampliação do universo narrativo a partir de extensões locais; avaliação por meio de questionários e entrevistas. Relatamos as primeiras aplicações planejadas da proposta, em fase de implementação.

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confabulando: educação transmídia e desinformação na crise climática confabulating: transmedia education and misinformation in climate crisis Geane C. Alzamora Professora Associada do Departamento de Comunicação Social Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Belo Horizonte, MG Orcid: https://orcid.org/0000-0003-2994-8308 Lorena P. Tárcia Coordenadora do curso de Pós-graduação em Jornalismo Digital Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas) Belo Horizonte, MG Orcid: https://orcid.org/0000-0003-1066-0101 Renira R. Gambarato Professora Titular de Mídia e Comunicação Jönköping University Jönköping, SE Orcid: https://orcid.org/0000-0001-7631-6608 Leonardo Cunha Professor Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas) Belo Horizonte, MG Orcid: https://orcid.org/0009-0007-7379-4234 DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17503442 Resumo: Confabulando investiga, desde 2020, como o ambiente escolar pode contribuir para reduzir os impactos sociais da propagação de conteúdos enganosos. Em sua fase atual, prioriza ações de sustentabilidade em contexto de crise climática, com ações planejadas em escolas públicas localizadas em zonas sensíveis à questão ambiental, no Brasil e em Moçambique. Busca-se estimular o reconhecimento de marcas enunciativas da desinformação, sobretudo relacionadas ao negacionismo climático. Os estudantes são levados a refletir criticamente sobre as consequências dessas narrativas em sua realidade social e política, a partir de extensões locais. Confabulando integra o projeto de ensino, pesquisa e extensão “Educação transmídia para escolas públicas de países de língua estrangeira”, que já realizou, desde 2017, experimentos didáticos em escolas públicas de Belo Horizonte (Brasil), Díli (Timor Leste), Maputo e Beira (ambas em Letramento SocioAmbiental, Atibaia, 3 (2): 830–845, 2025 - Alzamora; Tárcia; Gambarato & Cunha - confabulando 831 Moçambique). Consideramos que a desinformação se expande impulsionada por algoritmos e por crenças compartilhadas em conexões online/offline, sobretudo em esferas midiáticas refratárias ao contraditório. Com base nesse entendimento, desenvolvemos estratégias lúdicas e sustentáveis para favorecer a formação de hábitos de consumo midiático cada vez mais críticos e sofisticados. A metodologia inclui grupo focal com estudantes e entrevistas em profundidade com professores; dinâmica transmídia em ambiente escolar; ampliação do universo narrativo a partir de extensões locais; avaliação por meio de questionários e entrevistas. Relatamos as primeiras aplicações planejadas da proposta, em fase de implementação. Palavras-chave: (1) Educomunicação; (2) Transmídia; (3) Sustentabilidade; (4) Crise climática; (5) Desinformação. Abstract: Since 2020, Confabulating [Confabulando] has been investigating how the school environment can help reduce the social impacts of the spread of misleading content. In its current phase, it prioritizes sustainability initiatives in the context of the climate crisis, with planned initiatives in public schools located in environmentally sensitive areas in Brazil and Mozambique. The project seeks to encourage recognition of the hallmarks of misinformation, particularly those related to climate change denial. Students are encouraged to critically reflect on the consequences of these narratives in their social and political realities, based on local outreach. Confabulando is part of the teaching, research, and outreach project "Transmedia Education for Public Schools in Foreign-Speaking Countries," which has conducted teaching experiments in public schools in Belo Horizonte (Brazil), Dili (East Timor), and Maputo and Beira (both in Mozambique) since 2017. We believe that disinformation spreads driven by algorithms and shared beliefs in online and offline connections, especially in media spheres resistant to contradiction. Based on this understanding, we developed playful and sustainable strategies to foster the formation of increasingly critical and sophisticated media consumption habits. The methodology includes focus groups with students and in-depth interviews with teachers; transmedia dynamics in the school environment; expanding the narrative universe through local outreach; and assessment through questionnaires and interviews. We report on the first planned applications of the proposal, currently in the implementation phase. Keywords: (1) Educommunication; (2) Transmedia; (3) Sustainability; (4) Climate crisis; (5) Disinformation. Letramento SocioAmbiental, Atibaia, 3 (2): 830–845, 2025 - Alzamora; Tárcia; Gambarato & Cunha - confabulando 832 Introdução Este projeto investiga, desde 2020, como o ambiente escolar pode contribuir para reduzir os impactos sociais da propagação de conteúdos enganosos. Em sua fase atual, prioriza ações de educação midiática em contexto de crise climática, com ações planejadas, lúdicas e sustentáveis, em escolas públicas localizadas em zonas sensíveis à questão ambiental no Brasil e em Moçambique. Busca-se estimular o reconhecimento de marcas enunciativas da desinformação relacionadas ao negacionismo climático e científico, com atenção especial à incidência de inteligência artificial generativa nesse cenário. Os estudantes são levados a refletir criticamente sobre as consequências dessas formas enunciativas em sua realidade cultural e política. Incentiva-se a apropriação social da proposta com o intuito de constituir um universo narrativo reticular, de natureza transmidiática, que integre extensões criativas locais à proposta original dos pesquisadores. O projeto, fundamenta-se no desenvolvimento e aplicação de um método de educominicação transmidiática iniciado já em 2017 (GAMBARATO; ALZAMORA & TÁRCIA 2020), mas que passou a priorizar o fenômeno contemporâneo da desinformação a partir de 2020 (TÁRCIA et al. 2023). Essa escolha foi motivada pelo crescente negacionismo científico que afetava a adesão social à vacinação de Covid-19. Em nossa avaliação, aquele cenário era resultado da incidência da prática endêmica da desinformação (MARSHALL 2017) no contexto mais amplo da chamada crise epistêmica, relativa à ausência de critérios comuns para aferir a confiabilidade das fontes e as características das informações de qualidade (DE DEUS & ALZAMORA 2024). Logo, tornava-se necessário compreender quais instâncias epistêmicas poderiam ser acionadas para a recomposição de critérios válidos socialmente para avaliar a integridade das informações compartilhadas em rede e a confiabilidade das fontes. Confabulando integra o projeto de ensino, pesquisa e extensão “Educação transmídia para escolas públicas de países de língua portuguesa”1, que já realizou, desde 2017, experimentos didáticos em escolas públicas de Díli (Timor Leste), Belo Horizonte (Brasil), Maputo e Beira (ambas em Moçambique). Com financiamento atual do CNPq2 e Fapemig3, o projeto prioriza o desenvolvimento de ações de educação midiática voltadas para o incremento de ações sustentáveis em contexto de crise climática, a partir de cooperação interinstitucional entre a Universidade Federal de Minas Gerais, no Brasil, e Jönköping University, na Suécia. 1 UFMG/SIEX: Processo 403678 2 CNPq: Processos 402772/2024-5 e 445077/2024-7 3 Fapemig: Processo APQ-02853-24 Letramento SocioAmbiental, Atibaia, 3 (2): 830–845, 2025 - Alzamora; Tárcia; Gambarato & Cunha - confabulando 833 Entendemos a sustentabilidade não apenas por suas dimensões ambiental, social, cultural e econômica, mas também por sua dimensão comunicacional (SOUZA 2022), ainda pouco estudada (SERVAES & YUSHA’U 2023). Em nossa pesquisa, a sustentabilidade comunicacional se refere tanto a aspectos materiais, como infraestrutura energética e equipamentos, quanto a aspectos imateriais relacionados, sobretudo, a implicações emocionais, cognitivas, culturais e sociopolíticas das interações sociotécnicas. Interessa-nos, nesse sentido, compreender o impacto de aspectos imateriais “poluidores” do processo comunicacional, que incidem em sua sustentabilidade, como negacionismo climático e científico, teorias da conspiração, discursos de ódio e formas emergentes de colonialismo digital, normalmente acopladas ao uso inadvertido de inteligência artificial generativa. Tais aspectos integram o que denominamos ecossistema de desinformação, um conjunto anômalo, disperso e instável de informações confusas, distorcidas ou enganosas que produzem efeitos de veracidade, ainda que de modo traiçoeiro (ALZAMORA; MENDES & RIBEIRO 2021). Partimos da premissa de que a desinformação se expande impulsionada por algoritmos e por crenças compartilhadas em conexões online/offline, sobretudo em esferas midiáticas refratárias ao contraditório. Com base nesse entendimento, desenvolvemos estratégias lúdicas para favorecer a formação de hábitos conscientes, críticos e sustentáveis de consumo midiático. Confabulando: enfrentamento lúdico à desinformação Confabulando constitui uma proposta metodológica qualitativa de educação midiática em ambientes escolares, com foco no enfrentamento à desinformação. Considerando a desinformação parte das práticas sociais, culturais e políticas da contemporaneidade, o projeto volta-se para seus efeitos práticos na vida social. Por causa disso, assumimos a perspectiva pragmática de verdade apresentada pelo filósofo e lógico norte-americano Charles Sanders Peirce (1834-1914). O pragmatismo peirciano é um método de aprimoramento gradual das ideias, com foco em seus efeitos práticos (Ribeiro; Paes 2021). Nessa vertente, considera-se que as crenças guiam as condutas dos indivíduos e que estas se aprimoram ao longo do tempo desde que sejam delineadas pela busca ética da verdade. A verdade, seria, então, um ideal apto a corrigir constantemente as crenças e as condutas sociais quando eticamente conduzidas. Peirce ([1877] 2008) propôs quatro métodos de fixação de crenças: tenacidade, autoridade, a priori e científico. Em uma perspectiva contemporânea, os métodos poderiam ser respectivamente relacionados a: desprezo por evidências em contrário (típico de bolhas ideológicas), Letramento SocioAmbiental, Atibaia, 3 (2): 830–845, 2025 - Alzamora; Tárcia; Gambarato & Cunha - confabulando 834 confiança em quem compartilha a informação (típico e influenciadores digitais), plausibilidade lógica da informação (típico de teorias da conspiração), e provisoriedade das certezas mediante evidências em contrário (típico da ciência). Os quatro métodos são utilizados como parâmetros analíticos dos argumentos apresentados pelos estudantes. O objetivo principal, portanto, é compreender os processos de formação de crenças entre adolescentes e suas estratégias para avaliar a consistência das informações que compartilham em contextos digitais. A metodologia qualitativa assume contornos lúdicos, baseada em ações planejadas de educação transmídia concebidas a partir das características delineadoras de textos informativos, opinativos e literários. A finalidade do experimento didático é desenvolver habilidades para distinguir gêneros e formatos textuais, com foco no reconhecimento de marcas enunciativas da desinformação. Busca-se estimular a reflexão sobre a confiabilidade e consistência de informações disponíveis em contextos midiáticos cotidianos. Nossa hipótese é que a dinâmica transmídia de desinformação se expande impulsionada por algoritmos e em sintonia com as crenças preponderantes em dinâmicas comunicacionais de compartilhamento, sobretudo em esferas midiáticas refratárias ao contraditório. Com base nessa hipótese, desenvolvemos estratégias educomunicacionais que favorecem o reconhecimento social da desinformação em textos variados, levando em conta tanto as referências de linguagem, quanto os tipos de interação sociotécnica predominantes, as quais são aferidas no tópico hábitos de consumo midiático, na fase metodológica de diagnóstico. Esta etapa inclui grupo focal com estudantes e entrevistas em profundidade com professores. A proposta metodológica abrange as etapas de diagnóstico, planejamento transmídia, produção (com foco em reprodutibilidade sustentável e acessibilidade), aplicação (atividades na escola por dois a quatro dias), e avaliação (por meio de questionários com estudantes envolvidos e entrevistas com professores). A duração do experimento didático em sala de aula pode variar em função da disponibilidade e interesse da comunidade escolar. Estudo empreendido por parte desta equipe sobre como a escola era imaginada por adolescentes matriculados na rede municipal de Belo Horizonte durante a pandemia de Covid-19, constatou a confiança que os estudantes depositavam na escola e nos professores (NOBRE et al. 2024). Priorizou-se, então, a formulação de uma estratégia metodológica lúdica para engajar adolescentes em prol da integridade da informação em contexto escolar pós-pandêmico, a qual denominamos Confabulando. A aplicação piloto da proposta, planejada para aferir sua pertinência conceitual e sua potência de engajamento lúdico, ocorreu em abril de 2022, na Escola Balão Vermelho, em Belo Horizonte, para estudantes de 13-14 anos4. 4 Destaque na chamada de divulgação científica da UFMG. Disponível em: https://www.educacaotransmidia.com/confabulando. Acesso em: 25/07/2025. Letramento SocioAmbiental, Atibaia, 3 (2): 830–845, 2025 - Alzamora; Tárcia; Gambarato & Cunha - confabulando 835 A Escola Balão Vermelho é uma escola particular de Belo Horizonte (MG), pioneira na abordagem construtivista de ensino e aprendizagem. Foi inaugurada em 1972, em plena ditatura militar no Brasil, e sempre se caracterizou por ser uma escola de vanguarda, sensível a questões que afetam a cidadania, com ênfase em literatura e artes em geral. A proposta foi também apresentada em agosto de 2023 para pesquisadores em literacia midiática convidados a participar do evento “Jogos de mesa contra fake news”, realizado pela organização sem fins lucrativos Meedan, na Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, Fiocruz, Rio de Janeiro. Após essas aplicações iniciais, a proposta foi revisada e disponibilizada para acesso público e gratuito no site do projeto5, incluindo: curso de autoformação em educomunicação transmídia para professores; manual do professor; material de todas as atividades planejadas, incluindo as cartas do jogo, para impressão; e tutorial para aplicação da proposta em sala de aula. Com vistas a aprimorar a proposta para novo ciclo de aplicações em escolas públicas do Brasil e de Moçambique, em junho de 2025 a proposta foi apresentada a estudantes de mestrado e doutorado das áreas de Comunicação e Educação matriculados na disciplina do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, “Sustentabilidade, Semiótica e Modos de Existência”, ofertada pelos professores Geane C Alzamora (Departamento de Comunicação Social da UFMG) e Francisco A. Coutinho (Faculdade de Educação da UFMG). O projeto valoriza a noção de sustentabilidade social e é sensível às diferentes realidades socioeconômicas e culturais das comunidades escolares (TÁRCIA et al. 2023). Por causa disso, o planejamento priorizou o uso de material de baixo custo, como papel, caneta e jogos de cartas para impressão. As atividades planejadas basearam-se em jogos de cartas e construção coletiva de textos informativos, opinativos, e literários. A aplicação em escola foi projetada para ser realizada em sala de aula em pelo menos dois encontros, sendo um de apresentação e execução da proposta e outro de síntese e avaliação. Os resultados dessa primeira fase (2021-2023) demonstraram que os estudantes apresentam dificuldades para reconhecer efeitos de sentido provenientes de modalidades textuais variadas e identificar marcadores textuais de desinformação. Constatou-se que a oficina lúdica baseada em jogos de cartas e construção coletiva de textos gerou o envolvimento necessário com o tema da desinformação, estimulando discussões acerca de suas formas de penetração social e possíveis consequências. Conclui-se que as possibilidades lúdicas advindas da dinâmica transmídia de educomunicação projetada são adequadas para ampliar a formação de repertório específico sobre o tema da desinformação e a reflexão crítica 5 Disponível em: https://www.educacaotransmidia.com/confabulando. Acesso em: 25/07/2025. Letramento SocioAmbiental, Atibaia, 3 (2): 830–845, 2025 - Alzamora; Tárcia; Gambarato & Cunha - confabulando 836 sobre as consequências da prática de compartilhamento de informações midiáticas. Com base nesses resultados, projetamos a segunda fase do Confabulando (2024-2027), voltada para o enfrentamento à desinformação em contexto de crise climática, com especial interesse em negacionismo climático e científico ampliado por formas emergentes de uso social de inteligência artificial generativa. Confabulando em contexto de crise climática Em sua segunda fase, Confabulando investiga como e em que medida a noção de sustentabilidade aplicada à comunicação transmídia pode contribuir para fomentar estratégias educomunicacionais voltadas para o desenvolvimento de ações coletivas que promovam a diversidade cultural, a responsabilidade social e a consciência ambiental em contexto de crise climática considerando, sobretudo, a incidência do negacionismo climático e científico nesse cenário. A perspectiva de educação transmídia que delineia nossa abordagem ... integra qualquer forma de expressão, digital ou analógica, que possa estabelecer interações sociais entre sala de aula e comunidade local e promover intercâmbios culturais entre estudantes e/ou professores em escala global, baseados em experiências geolocalizadas (ALZAMORA & MUTSUQUE 2021: 125). Por esse prisma, a dinâmica transmídia não se restringe às narrativas multiplataformas delineadas pelo atual capitalismo de dados. Pelo contrário, filia-se à perspectiva crítica da era pós-digital, na qual a tecnologia se torna tão pervasiva e onipresente na vida cotidiana que mal a notamos (ALZAMORA & GAMBARATO 2024). Por isso mesmo, demanda uma apurada visão crítica acerca das atuais tecnologias de comunicação. De acordo com Cramer (2015), embora o contexto pós-digital seja marcado pela onipresença de tecnologias como algoritmos, inteligência artificial, infraestruturas digitais, experimentos em biotecnologia e IoT (Internet of Things), aciona práticas pós-coloniais em comunicação e rejeita tecno-utopias. Esse entendimento nos posiciona criticamente em relação às formas emergentes de colonialismo digital, relativo à exploração comercial e política de dados pessoais que circulam pelas infraestruturas digitais. Para Couldry & Mejias (2020), o colonialismo digital é mais sutil que o colonialismo histórico porque não utiliza violência física para dominar pessoas e territórios. As peculiaridades do colonialismo digital podem impactar na sustentabilidade social, cultural, ambiental, econômica e comunicacional, ao disseminar padrões geoculturais que incidem nas identidades sociais locais (QUIJANO 2010). Por essa razão, advogamos uma espécie de Letramento SocioAmbiental, Atibaia, 3 (2): 830–845, 2025 - Alzamora; Tárcia; Gambarato & Cunha - confabulando 837 educomunicação transmídia decolonial. Entendemos o decolonial não apenas como uma perspectiva crítica, mas como uma escolha epistemológica e prática que busca romper com hierarquias de saber herdadas do colonialismo e abrir espaço para estratégias comunicacionais plurais, sustentadas na valorização dos conhecimentos locais, das narrativas comunitárias e da justiça cognitiva (SOUSA SANTOS & MENESES 2019). Em sintonia com o Programa de Fomento do Letramento em Mídia e Informação preconizado pela UNESCO (2019), a nossa abordagem leva em conta a justiça social como parâmetro para assegurar igualdade de acesso a direitos básicos, como educação e comunicação. A ênfase recai na sustentabilidade do processo comunicacional, com atenção ao impacto energético dos recursos tecnológicos, o destino reciclável dos equipamentos, a soberania dos dados digitais e o impacto nas relações sociais locais de resíduos tóxicos das interações sociotécnicas, como desinformação, teorias da conspiração, discurso de ódio etc. A estratégia metodológica de Confabulando parte de experiência prévia da equipe deste projeto com planejamento comunicacional em educação transmídia para escolas públicas de países de língua portuguesa, com experimentos didáticos realizados em Timor Leste (2017), Moçambique (2018, 2019, 2021) e Brasil (2019, 2022, 2023). A metodologia já testada, como argumentamos anteriormente, compreende as seguintes etapas: diagnóstico, planejamento, desenvolvimento de produtos, execução e avaliação. Em sua fase atual, a metodologia foi aprimorada para promover a sustentabilidade comunicacional, social, econômica e cultural em contexto de crise climática. As quatro atividades planejadas, disponíveis no site do projeto, podem ser realizadas em qualquer contexto escolar e podem ser adaptadas de uma semana presencial a um dia, com atividades online disponíveis no site do projeto, conforme a disponibilidade da comunidade escolar, incluindo as seguintes etapas; a) apresentação da proposta; b) diagnóstico; c) percurso formativo docente; d) aplicação em sala de aula; e) avaliação e encerramento. A proposta transmidiática inclui atividades colaborativas e competitivas, em perspectivas individuais, coletivas (toda a sala) e em grupos. São quatro atividades propostas: a) definições poéticas (oficina de criação coletiva de poesia a partir de palavras caras à realidade local, com foco em criatividade e conexão lógica de ideias); b) definições inventadas (jogo competitivo individual, a partir de definição de dicionário, com foco em persuasão e perspicácia para reconhecer as marcas enunciativas da veracidade); c) jogo fake news I (jogo competitivo em equipes, com foco em capacidade de simular notícia jornalística e reconhecimento de marcas enunciativas de desinformação); d) jogo fake news II (jogo competitivo de cartas em equipes, com foco em perspicácia para diferenciar notícias falsas de verdadeiras). As duas últimas atividades utilizam referências à incidência de inteligência artificial generativa no ecossistema contemporâneo da desinformação. Letramento SocioAmbiental, Atibaia, 3 (2): 830–845, 2025 - Alzamora; Tárcia; Gambarato & Cunha - confabulando 838 A aplicação deve, necessariamente, envolver discussão sobre as características dos gêneros textuais aplicados, estratégias discursivas utilizadas para criação, persuasão, engano e fraude, métodos de fixação de crença, implicações éticas do uso social de inteligência artificial generativa e sustentabilidade do processo comunicacional acionado. Espera-se que as extensões criativas locais sejam incorporadas ao projeto para servirem de parâmetro para outras aplicações em sala de aula. Assim, as realidades locais passam a balizar a compreensão mútua do fenômeno global, em uma dinâmica educomunicacional fundada na validação transmidiática realizada pelos pares. Estimula-se, desse modo, que os próprios estudantes se tornem sujeitos do conhecimento coletivo produzido neste projeto. Fase inicial de implementação Em 2025, esta metodologia qualitativa está sendo testada em quatro escolas públicas do Brasil e Moçambique que estão localizadas em áreas sensíveis à questão ambiental, tais como: desastres climáticos naturais, desastres ecológicos oriundos da ação humana, como queimadas, desmatamentos e rompimento de barragens de mineradoras. Espera-se, desse modo, criar condições para estabelecer, entre adolescentes brasileiros e moçambicanos, um diálogo transnacional e transmidiático a partir de problemas ambientais comuns. Tal diálogo se ancora em uma perspectiva decolonial, que reconhece a legitimidade de outros modos de conhecer e interpretar o mundo, para além dos referenciais ocidentais hegemônicos, valorizando práticas comunitárias, narrativas locais e saberes ancestrais. Nesse sentido, busca-se propiciar o incremento de uma comunicação sustentável orientada por soluções locais, capazes de articular justiça ambiental e justiça cognitiva. De acordo com Latour (2020), a ausência de um mundo comum na contemporaneidade levou ao colapso ecológico, ao negacionismo climático e científico, à explosão das desigualdades e à ascensão global do populismo. A crise climática é a expressão mais contundente desse cenário. A Organização Meteorológica Mundial (OMM), vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU), informou que 2024 foi o ano mais quente em 175 anos de registro científico6. O recorde superou 2023, considerado o ano mais quente já registrado, com temperatura média 1,48ºC acima da média do período pré-industrial, quando o mundo passou a usar combustível fóssil em grande escala, um dos marcos iniciais do Antropoceno (STEFFEN; CRUTZEN 6 Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/287173-onu-confirma-2024-como-o-ano-maisquente-j%C3%A1-registrado-com-cerca-de-155%C2%B0c-acima-dos-n%C3%ADveis. Acesso em: 29/07/2025. Letramento SocioAmbiental, Atibaia, 3 (2): 830–845, 2025 - Alzamora; Tárcia; Gambarato & Cunha - confabulando 845 TÁRCIA, L.P.; ALZAMORA, G.C.; CUNHA, L. & GAMBARATO, R.R. (2023). “Transmedia educommunication method for social sustainability in lowincome communities”, Frontiers in Communication, v. 8. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/communication/articles/10.3389/fcom m.2023.1077807/full. Acesso em: 30/07/2025. UNESCO (2019). MIL CLICKS - Social Media Iniciative. Disponível em: https://en.unesco.org/milclicks. Acesso em: 19/07/2025. Sobre os autores Geane C. Alzamora é professora da Universidade Federal de Minas Gerais, pesquisadora do CNPq (312279/2022-1; 402772/2024-5; 445077/2024-7) e da Fapemig (APQ-02853-24). Membro do Conselho Gestor do Programa UFMG de Formação Cidadã em Defesa da Democracia, membro da Comissão Permanente de Inteligência Artificial da UFMG e líder do grupo de pesquisa MediaAção - Mídia, Semiótica e Pragmatismo. Lorena Tarcia é jornalista, mestre em Educação e doutora em Comunicação Social, coordenadora do curso de especialização em Jornalismo Digital da PUC Minas. Consultora em estratégias digitais para empresas públicas e privadas. Coordena projeto transmídia de educação midiática em países de língua portuguesa. Renira Rampazzo Gambarato é professora titular da Jönköping University (Suécia), onde coordena o perfil institucional EduCom – Educommunicating Social Sustainability, School of Education and Communication. É coautora de vários livros, sendo o mais recente Streaming Media and Cultural Memory in a Postdigital Society (2025). Leonardo Cunha é jornalista, professor do curso de especialização em Jornalismo Digital da PUC Minas, escritor e tradutor. Doutor em ArtesCinema e Mestre em Ciência da Informação pela UFMG. Publicou dezenas de livros de literatura para crianças e jovens. Organizou o livro teórico “Poesia para crianças: conceitos, tendências e práticas”, editora Positivo 2013. Venceu diversos prêmios literários, como o Jabuti, Nestlé, Biblioteca Nacional e FNLIJ.