scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Mapeamento Participativo e Cartografia Social: Aspectos Conceituais e Trajetórias de Pesquisa

Raquel Dezidério Souto; Paulo Márcio Leal de Menezes; Manoel do Couto Fernandes

Abstract

O mapeamento participativo tem sido utilizado em diversos âmbitos e para distintas finalidades, na defesa de direitos adquiridos por populações tradicionais, no planejamento e gestão ambientais, na redução de riscos de desastres, na recuperação urbana de áreas que sofreram com desastres naturais, na educação ambiental, entre outras. Como parte do processo da Cartografia Social, o mapeamento participativo contribui para dar visibilidade às comunidades e para empoderá-las na arena da resolução de conflitos socioambientais, que surgem decorrentes dos avanços desenvolvimentistas de setores econômicos preponderantes, como os de energia, turismo, imobiliário ou agrícola. O livro Mapeamento participativo e Cartografia Social: aspectos conceituais e trajetórias de pesquisa destina-se a mostrar as potencialidades e desafios encontrados nos mapeamentos participativos ou colaborativos, seus aspectos conceituais definidores e as experiências de pesquisa nessa temática, relatadas por pesquisadores brasileiros. O livro também está disponível no portal do IVIDES.org: http://ivides.org/livros. Como fazer referência: SOUTO, R.D.; MENEZES, P. M. L. de; FERNANDES, M. do C. (org.). Mapeamento Participativo e Cartografia Social: aspectos conceituais e trajetórias de pesquisa. Rio de Janeiro: Edição da autora, 2021. 214 p. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.5779902

Full text

Raquel Dezidério Souto Paulo Márcio Leal de Menezes Manoel do Couto Fernandes Organizadores MAPEAMENTO PARTICIPATIVO E CARTOGRAFIA SOCIAL: ASPECTOS CONCEITUAIS E TRAJETÓRIAS DE PESQUISA MAPEAMENTO PARTICIPATIVO E CARTOGRAFIA SOCIAL: ASPECTOS CONCEITUAIS E TRAJETÓRIAS DE PESQUISA Iniciativa: Instituto Virtual para o Desenvolvimento Sustentável - IVIDES.org Apoio: Laboratório de Cartografia - GeoCart - UFRJ e Portal Geodireito Raquel Dezidério Souto Paulo Márcio Leal de Menezes Manoel do Couto Fernandes Organizadores Rio de Janeiro 2021 MAPEAMENTO PARTICIPATIVO E CARTOGRAFIA SOCIAL: ASPECTOS CONCEITUAIS E TRAJETÓRIAS DE PESQUISA Organização RaquelDezidérioSouto PauloMárcioLealdeMenezes ManoeldoCoutoFernandes Edição e revisão final: RaquelDezidérioSouto Capa, projeto gráfico e diagramação: DouglasVieiradaSilva Comitê científico e editorial Prefácio PauloMárcioLealdeMenezes ManoeldoCoutoFernandes Prólogo LuizAntonioManoUgedaSanches Edicão  da  autora  sob  a  licença  Creative Commons Atribuição-NãoComercial-Sem Derivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0)https://creativecommons.org/licenses/byncnd/4.0/legalcode.Épermitidaacópiaeredis‐ tribuiçãodessaobraemqualquersuporteouformato,desdequemencioneseaautoria.Épermitidoremixar, transformar  ou  criar  a  partir  dessa  obra,  porém  é  vedada  a  distribuição  do  material  modificado  ou  sua  comercialização.  Éexpressamentevedadaacomercializaçãodaobranaíntegraousuautilizaçãoempartesparafinscomerciais. Aviso legal:ostextosassinadosnestaobra,tantonoquedizrespeitoàlinguagemcomoaoconteúdo, sãodeinteiraresponsabilidadedosautoresconvidadosenãoexpressam,necessariamente,opensamentodos organizadores.Épermitidocitarpartedostextossemautorizaçãoprévia,desdequesejaidentificadaafonte.A violaçãodosdireitosdoautor(Lein.°9.610/98)écrimeestabelecidopeloartigo184doCódigoPenal. Posfácio RaquelDezidérioSouto Revisores DanielleSequeiraGarcez (Universidade Federal do Ceará) ÉdersonCostaBriguenti (Universidade Estadual de Campinas) FernandaAparecidaLeonardi (Instituto Federal do Sul de Minas) LeandrodeSouzaCruz (Universidade de Brasília) VeraLúciadosSantosPlacido (Pontifícia Universidade Católica de Campinas) Autores AdryaneGorayeb AndersondaSilvaMarinho AssíriaBatistaSantos FláviaDarreBarbosa GeovanniaMariaCandidodaSilva GislleidyUchôaTavares HiroshiOta IvanaAlmeidadeFigueiredoJalowitzki JaderdeOliveiraSantos JairBezerradosSantosJunior KaoriIto LeonardoCordeirodeSousa LuizAntonioManoUgedaSanches ManoeldoCoutoFernandes MariaCláudiaCandeiadeSouza MariaRitadeJesusDionísio MarianaAmânciodeSousaMoraes PauloMárcioLealdeMenezes RaquelDezidérioSouto ReginaBalbinodaSilva ReginaCéliadeOliveira RicardodeSampaioDagnino SalvadorCarpiJunior SarahLuanaMaiadoNascimento ThomazWilliandeFigueiredoXavier VivianeGomesdeAraújo [Páginaintencionalmenteembranco] Maps are more than pieces of paper. They are stories, conversations, lives and songs lived out in a place and are inseparable from the political and cultural contexts in wich they are used. (Warren,2004apudIFAD,Good pratices in participatory mapping,2009) Algumas técnicas de mapeamento participativo ou colaborativo Raquel Dezidério Souto .......................................................................... 31 Mapeamento e participação 1 Raquel Dezidério Souto .......................................................................... 15 PARTE I - CONCEITOS Paulo Márcio Leal de Menezes e Manoel do Couto Fernandes ........................... ix Prefácio SUMÁRIO Luiz Antonio Mano Ugeda Sanches ......................................................................... xi Prólogo Cartografia 2.0 e participação Raquel Dezidério Souto .......................................................................... 46 2 3 4 PARTE II - PRÁTICAS Cartografia social e a produção de dados participativos para o zoneamento ecológico-econômico costeiro do Ceará Adryane Gorayeb, Jader de Oliveira Santos, Regina Balbino da Silva, Thomaz Willian de Figueiredo Xavier, Anderson da Silva Marinho, Mariana Amâncio de Sousa Moraes, Assíria Batista Santos, Geovannia Maria Candido da Silva, Sarah Luana Maia do Nascimento, Leonardo Cordeiro de Sousa, Gislleidy Uchôa Tavares e Jair Bezerra dos Santos Junior .............................................................. 62 5 6 Mapeamento ambiental participativo na UGRH Turvo e Grande - SP: mobilização, gestão e educação ambiental Processo participativo e regeneração urbana no Japão pós-desastre: o caso do vilarejo de Shibitachi Ivana Almeida de Figueiredo Jalowitzki, Maria Cláudia Candeia de Souza, Hiroshi Ota, Kaori Ito e Maria Rita de Jesus Dionísio .......... 120 Flávia Darre Barbosa e Salvador Carpi Junior ................................... 91 7 8 Mapeamento ambiental participativo na ponta norte do município de Ilha Comprida, SP: riscos e vulnerabilidades ambientais percebidos pela população local Viviane Gomes de Araújo, Salvador Carpi Junior e Regina Célia de Oliveira ........................................................................ 146 Mapeamento ambiental participativo (MAP): experiências de aplicação na formação acadêmica e aperfeiçoamento profissional Salvador Carpi Junior e Ricardo de Sampaio Dagnino ...................... 170 Posfácio Bibliografia completa Raquel Dezidério Souto ........................................................................................ 194 ................................................................................ 196 15 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa MAPEAMENTO E PARTICIPAÇÃO Raquel Dezidério Souto 1 1 - INTRODUÇÃO EmtodaaHistóriadaHumanidade,osindivíduosmapearamseuentorno,comdiferentes fins...Pinturasrupestresjácontinhamindicaçõesdelocais(lugares,nosentidogeográficoatual)edi‐ reções...osregistrosdeegípcios,gregoseromanosjácontinhamanoçãoespacialemsuasconcep‐ ções...Comamodernidade,osmapasdeJohnSnow,quesalvaramboapartedapopulaçãoinglesado surtodecólerade1854,poridentificaracorrelaçãoespacialentreadisseminaçãodaepidemiaealo‐ calizaçãodasfontesdeáguaparaabastecimentodapopulação,mostrouaimportânciasocialdomape‐ amento,inaugurandoumaeradepopularizaçãodemapeamentosnoOcidente,queeramvoltadosà resoluçãodequestõesrelacionadasnãoapenasàlocalizaçãodeestoquesderecursosnaturaisoude aglomeraçãodeedificações,masqueincluíamconsideraçõessobreadistribuiçãodapopulação;etan‐ toasuainfluêncianomeio(oHomemmodificadordomeio)quantoainfluênciaquesofredesse,na visãodeLucienFebvre(1991). Oincrementodaparticipaçãonosmapeamentosacompanhaessemovimento,qualseja,depo‐ pularizaçãodemapeamentosquevalorizamadimensãosocial,passandoaserutilizadacadavezmais eminiciativasparadefesadedireitosadquiridos1ouquenecessitamdecoberturaparaáreasextensas, comonomapeamentodaslocalidadesoleadasnoBrasil,entreosanosde20192020(SOUTO,2020)2. Oadensamentopopulacional,especialmenteemregiõescosteiras,temlevadoàcomplexificaçãodos problemas,assimtornadosmaisprofundos,requerendoaproposiçãodesoluçõesqueenvolvamaparti‐ cipação,conformepreconizadopordiversasnormaslegaisfederaisnoBrasileporacordosmultilate‐ raisinternacionaisdosquaisoPaísésignatário(SOUTO,2021b). Opresentecapítulobuscamostrarostiposdeparticipaçãonosmapeamentos,aqualosfazse‐ remdenominadoscomoparticipativosoucomocolaborativos,ecomoissoinfluencianaescolhado desenho(design)doprojetodepesquisaenosresultados(enaconfiançaacercadosmesmos).Alguns aspectosdosmapeamentos,conformesugeridosnapublicaçãodeVerplankeeoutros(2016),sãodeta‐ lhadoscomapontamentosencontradosnolevantamentobibliográficorealizadoporocasiãodapesquisa deestágiopósdoutoralqueestásendodesenvolvidapelaautora3. 1Em muitoscasos,jáadquiridossegundoo marcolegal,mas que sofremconstrangimento,de acordocom determinados  interesses  de  uso  do  espaço  e  dos  recursos,  conflitantes  com  os  interesses  dos  povos  tradicionais,  e.g.; 2CorrespondeaomaiordesastreambientalenvolvendohidrocarbonetosnoAtlânticoSul,atingindomaisde50% dalinhadecostabrasileira. 3Pesquisadeestágiopósdoutoraldaautora,juntoaoProgramadePósgraduaçãoemGeografiadaUFRJ,sobre aaplicaçãodomapeamentoparticipativo,maisespecificamente,ousodeumSistemadeInformaçãoGeográfica deParticipaçãoPública(SIGPP)nodiagnósticodaqualidadeambientaldazonacosteira.http://www.ivides.org/ index/index.php/mapazonacosteirarj. 16 Mapeamentoeparticipação 2 - MAPEAMENTOS PARTICIPATIVOS OU COLABORATIVOS? Dois  momentos  importantes  marcam  a  História  da  inclusão  da  participação  no  mapeamento.  Em  1988,  o  documento  intitulado  Participatory Learning and Action  (PLA),  publicado  pelo  Internati‐ onal Institute for Environment and Development    IIED  (Londres)  e  pelo  Institute of Development Stu‐ dies    IDS  (Sussex),  incluiu  experiências  que  já  envolviam  o  uso  de  sistema  de  informação  geográfica  participativo  (Participatory Geographic Information System,  PGIS)4.  Em  2005,  a  conferência  Interna‐ cional Mapping for Change International Conference on Participatory Spatial Information Manage‐ ment and Communication  (mais  conhecida  como  Mapping for Change),  foi  realizada  em  Nairobi  (Kenya),  por  várias  instituições,  sob  a  coordenação  do  IIED.  Nesta  conferência,  foi  reconhecido  que  a  prática  do  mapeamento  com  PGIS  pode  ter  profundas  implicações  para  os  grupos  marginalizados  da  sociedade:  i)  aumento  da  capacidade  em  gerar,  manejar  e  comunicar  informações  espaciais;  ii)  estímu‐ lo  à  inovação  e  iii)  encorajamento  das  mudanças  sociais  positivas  (CORBETT  et al.,  2006).  Goodchild  (2007)  cunha  a  expressão  "cidadãos  como  sensores",  para  exprimir  a  ideia  de  que  os  cidadãos  podem  fazer  aportes  acerca  de  diversas  situações,  funcionando  como  verdadeiros  sensores,  o  que,  mais  tarde,  foi  popularizado  como  Ciência  cidadã  (Citzen Science),  Ciência  da  comunidade  (Community Science)  ouCiênciacomfontenamultidão(Crowd-sourced Science). Osmapeamentosdistinguemseentreparticipativosoucolaborativos,adependerdonívelde interaçãodoparticipantecomomapaemsi.Assim,nosmapeamentoscomusodepelículatransparente sobreomapa,osparticipantesmarcamdiretamentenapelículaospontosquesãorelevantesparaa questãoinvestigada,comauxíliodapessoaqueorientaomapeamento(técnico,pesquisadorououtros, denominadosfacilitadores),oqueconstituiumexemplodemapeamentoparticipativo.Jánomapea‐ mentocomprogramasdesenvolvidosparaoperarviaweb,osdadossãoenviadospelosparticipantes viaformulárioonlineouainda,viaplotagem"virtual"dosdadosnomapadispostononavegadordeIn‐ ternet(browser),constituindoumexemplodemapeamentocolaborativo5.OQuadro1apresentaalgu‐ mas características que distinguem estes tipos de mapeamento, daquele mapeamento convencional, frequentementerealizadopeloEstado,empresasououtrosentesinteressadosnainformaçãogeoespaci‐ al(ougeoinformação),informaçãocomlocalizaçãogeográfica. Convém  distinguir  a  Cartografia  temática  (social)  da  Cartografia  Social,  fonte  frequente  de  dúvidas.  A  Cartografia  temática  (social)  é  aquela  que  inclui  predominantemente  os  aspectos  da  di‐ mensão  social  no  mapa  (ainda  que  possa  também  incluir  aspectos  de  demais  dimensões,  como  a  econômica  e  a  ambiental,  mas  como  suporte  para  a  principal,  social).  Já  a  Cartografia  Social  é  a  Quadro 1Mapeamentosconvencionaisemapeamentosparticipativosoucolaborativos Elaboraçãoprópria.(*)Nota:informaçãogeoespaciallocaléaquelaqueégeradacomlocalizaçãoespacialelo‐ calmente.Nãoconfundircomescalalocal,quedizrespeitoàproporçãoentrearepresentaçãodoespaço(noma‐ pa,correspondendoaoespaçoteórico)earealidade(oespaçoreal). 4https://pubs.iied.org/14507iied.AdistinçãoentreSIGparticipativo(siglainglesaPGIS),SIGdeparticipação pública(siglainglesaPPGIS)einformaçãogeográficavoluntária(siglainglesaVGI)podeserencontradaem BrowneKyttä(2014)eserádetalhadanosegundocapítulodestelivro. 5Paraumadiscussãoaprofundadaentreessasduascategorias,consultarAlves(2018). 17 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa área  teórica  cuja  proposta  conceitual  e  metodológica  contempla  a  utilização  de  técnicas  e  vivências  na  confecção  de  mapas  coletivos,  pelos  indivíduos  e  grupos  conhecedores  do  território  (Herrera,  2009;  Seemann,  2011).  Herrera  reforça  que  "os mapas são produtos simbólicos e culturais e, por‐ tanto, o uso de cartografias deve estar de acordo com o contexto sociocultural em que as mesmas são utilizadas."(HERRERA,2009,p.19,tradução). ACartografiaSocialéumaáreaquetemcrescidonoBrasilnosúltimosanos,noquetangeà suaaplicaçãocomoobjetivodesubsidiarcomdocumentos(osmapas),aresoluçãodeconflitosdos maisvariadostipos(deinteresses,deusodosrecursosnaturais,aquelessocioambientais,dentreou‐ tros).Emcertassituações,osgruposemdisputapossuemníveisdiferenciadosdeforça(traduzido,por vezes,empodereconômicoe/ouinfluênciapolítica),oquereforçaaimportânciadaadoçãodessetipo devisãocartográfica,dadooempoderamentodosgruposmaisvulneráveisnoprocesso. Poroutrolado,osmapeamentosparticipativos(oucolaborativos)temsidoadotadosemproje‐ tosdeplanejamentourbano,empesquisasparaelaboraçãodezoneamentos,pesquisasparadelimitação deunidadesdeconservação,diagnósticossocioambientaisoumapeamentosdeáreasderisco.Assim, destacamseasseguintesiniciativas:i)Caracterização da Pesca Artesanal no entorno das ilhas Ca‐ garras, Rio de Janeiro,deGerhardinger(2009),quesubsidiouacriaçãodoMonumentoNaturaldas IlhasCagarras;ii) Territorialidade e sociobiodiversidade na configuração do espaço produtivo da co‐ munidade Olho d'Água dos negros no município de Esperantina-PI,deFéeGomes(2015),queinves‐ tigaramarelaçãoentresociobiodiversidadenoextrativismovegetal,naconservaçãoambientalena valorizaçãodossabereslocais,utilizandoomapeamentoparticipativoparacompreenderospadrõesde usodaterrapelacomunidade;iii) Cartografia social da comunidade quilombola da Serra do Evaristo - Baturité - CE: um estudo de caso, de Silva e outros (2016), que ealizaram um mapeamento participa‐ tivo com a Comunidade Quilombola da Serra do Evaristo (Baturité, Ceará),afimdeobservarcomoa metodologiaaplicadacontribuiuparaofortalecimentoeoautoconhecimentodasrelaçõesentreaco‐ munidadeeoterritório;iv) Mapeamento participativo de áreas de risco a movimento de massa no bairro Senhor dos Montes -São João del Rey, Minas Gerais,deAlmeidaeVentorini(2014),queelabo‐ rarammapasparticipativosparamapearasáreasderiscoamovimentosdemassa. Emrelaçãoaosmapeamentosparticipativospararesoluçãodeconflitos,caberessaltarquehá distintostiposdeconflitos:uso-uso(use-use conflicts)euso-ambiente(use-environment conflicts), querequeremmedidasespecíficasparasuaresolução(EHLER;DOUVERE,2007).Noconflitousouso,diferentesatividades(cominteressesprópriosedivergentes)concorrempelomesmoespaço,por exemplo,oconflitoentreospescadoreseosoperadoresdebarcosdepasseioturísticoe/oudemergu‐ lho;jánotipouso-ambiente,oconflitoresideentreasatividadeshumanaseoambiente,sendonotá‐ veis,osefeitosdeletériosecumulativosdapoluiçãonasaúdedoambiente(oqueincluioHomem), porexemplo,quandoencontramsetartarugasmarinhasmortasnaspraias,presasemrestosderedes depesca,denominadasredes fantasma(ghost nets)(SOUTO,2021a).Taisrestosdepetrechosdepes‐ ca(nãoapenasredes,comorestosdelinhas,restosdearmadilhasdetodotipo),perdidoseàderivano mar,temcontribuídoparaamortandadedemuitosanimaismarinhoseprejuízosàpescaartesanal (BARBOSAFILHOet al.,2020). Mooreet al.(2017)desenvolverampesquisaarespeitodaparticipaçãoparaomapeamentode conflitos espaciais de uso-uso na região de Kimberley(Austrália),oqueincluiuaanálisedadelimita‐ çãodetrêsparquesmarinhosedereservasmarinhasadjacentesàsualinhadecosta.Osautoresaplica‐ ramquestionáriossemiestruturadossobreosconflitos(queincluíramtambémquestõesdemográficas), ementrevistascomosparticipantes;seguidodarealizaçãodeoficinasdemapeamentoparaqueospar‐ ticipantesdelimitassemasdiferentesáreas,segundousosdiretoseindiretos,presentesnaregião.A abordagemutilizadafoiinteressante,poiscontemplouvalores de consumo(consuptive values)evalo‐ res de não-consumo(non-consuptive values);valores de uso(indireto ou direto)eainda,categoriasde valores de não-uso.Osvalores de consumosãoaquelesreferentesaovalornãomercantilderecursos, taiscomomadeiraoucarnedecaça,osquaisseriamconsumidosimediatamentepelosindivíduos;os valores de não-consumoreferemseaosvaloresdefunçõeseserviçosecossistêmicos,taiscomo:cicla‐ gemdenutrientes,energiafotossintéticaetc;osvalores de uso indiretodizemrespeitoaosbenefícios indiretosdeserviçosecossistêmicos,porexemplo,quandoumgrupoeconômicosebeneficiadeágua queélimpanaturalmentenocaminhodafonteaoconsumo;jáosvaloresdenãouso,sãoaquelesrefe‐ rentesaaspectosnãoutilizáveis,comoporexemplo,ovalordaherançacultural.Apartirdosresulta‐ 18 Mapeamentoeparticipação dos,ospesquisadoresobservaramquecercade2/3daáreadeparquesmarinhospreexistentesapresen‐ tavaconflitospotenciaisdeusosemgeral,parcelaquediminuiquandoseanalisaapenasosvaloresde consumo,oquereforçaanecessidadedeprepararametodologiaaseraplicadacomcuidadoparanão gerarresultadosenviesados.Osautoresargumentamainda,acriaçãocadavezmaisfrequentedeáreas marinhasprotegidas,comumenteacompanhadapeloaumentodosconflitosdeusos,sendoentãoimpe‐ rativaaadoçãodoplanejamentoespacialmarinho,comfinsareduzirtaisconflitos.Comolimitação,os autoresafirmamqueomapeamentoparticipativoemsinãosolucionaosconflitos,osquaisdevemser alvodeumamploprocessopolíticocomparticipaçãodostomadoresdedecisão. Diversasoutraspesquisaspossuemofoconaaplicaçãodosmapeamentosparticipativoe/ou colaborativonaspráticasdegestãosocioambiental,comdestaqueparaprospecçãodeáreaspropíciasà instalaçãodeunidadesdeconservaçãodaNatureza;emavaliaçõesdezonasparaconservaçãojádeli‐ mitadas(análisesdeconflitosexistenteseanálisesacercadaadequaçãodadelimitaçãodetaiszonas); empesquisasenvolvendocomunidadesdepescadores,comoformadecapturardadoseinformações geoespaciaislocais,tantoemregiõesremotasepreservadas,comoasIlhasHavaí(EUA)(LEVINE; FEINHOLZ,2015),quantoemregiõesaltamenteurbanizadas,comoaBaíadeGuanabara(RiodeJa‐ neiro,Brasil)(CHAVES,2011). Käyhköeoutros(2019),aorealizaremmapeamentoparticipativojuntoaoshabitantesdaIlha deUnguja,Zanzibar(Tanzânia),comfinsasubsidiaroprocessodegerenciamentocosteironaregião, argumentamqueomapeamentoparticipativoéimportanteparaaespacializaçãodevaloreslocais,in‐ formaçõesimportantesparaoadequadoplanejamentoespacialmarinhoegerenciamentocosteiro.Os autoresdetectaramnaregião,oquedenominaramcomoespaços costeiros locais multifuncionais,ca‐ racterizadosporelevadadiversidadeespacial,cujamanutenção,consideramfundamentalparaapro‐ moçãodobemestarcomunitário. Browneoutros(2016)investigaramespecificamenteosperfisdeusuáriosdeumaregiãode Kimberly(Austrália),tendosidomapeadososvaloresespaciaiseaspreferênciasdeusosdeáreascos‐ teirasemarinhas,comauxíliodomapeamentoparticipativo.Ospesquisadoresobservaramque,apóso tratamentoestatísticodosdados,nãofoipossíveldeterminarumarelaçãoestatísticaforteentrevalores epreferênciasdediferentesgruposdeparticipantesenementreosgruposeosvalores/preferênciasma‐ peados.Elevantamasseguintesindagações:i)comogarantiroengajamentocompletodosgrupospara alémdosinteressesdeconservação?eii)comosercapazdequantificarcomauxíliodepesos,opoder relativodosgruposdeinteresse,suaspercepções,alémdaspercepçõesdetodososenvolvidos?Ospes‐ quisadoresressaltamqueousodesistema de informação geográfica de participação pública(public participation geographic information system,PPGIS)6podeauxiliarnacapturadequantidademuito maioremaisvariadadedados,quepodemauxiliarnaelucidaçãodasquestõeslevantadas. Mahboubieoutros(2015)realizarammapeamentodospontosquentessocioecológicosmari‐ nhosnaregiãocosteiradeBritishColumbia(Canadá),comaconsultaaespecialistaslocaiseoutros atores,arespeitodetrezeatributosparaovalorsocioecológico:estéticacênica,economia,recreação, suporteàvida,aprendizadocientífico,biodiversidade,espiritual,existência(intrínseco),herançacultu‐ ral,futuro,subsistência,terapêuticaelugaresespeciais.Paratanto,utilizaramumsistema de informa‐ ção geográfica participativo (participatory geographic information system, PGIS), com auxílio do programaArcGIS®.Apósarealizaçãodasentrevistasedasoficinasdemapeamentoparticipativo,fo‐ ramgeradosospontosquentes(hot spots),quemarcamaconcentraçãodevaloresdedeterminadoas‐ pecto,noespaço.Segundoosmesmospesquisadores,ametodologiaadotadapermitiugerarresultados comumaltograudesignificânciaestatísticaespacial,osquaissãoimportantesparaosgestorespúbli‐ cosnosníveislocaleregionaleparaoengajamentodosatoresnoplanejamentodoriscoassociadoàs atividadesdedesenvolvimento. 6Essetipodesistemadeinformaçãogeográfica(SIG)ougeographic information system(GIS)édisponibilizado viaInternetepodealcançarumnúmeromuitomaiordeparticipantes.Noentanto,hálimitações,noquediz respeitoàpropriedadedosdados(nemsempredeclaradacomosendodosparticipantesdomapeamento)ouà dificuldadeemrealizaravalidaçãodosdados,sejaaprioriouaposterioriaomapeamento,emetapasdepós processamentodosdadosinformadospelosparticipantesou coletadosautomaticamente(paratanto,devendo haverconsentimentodoparticipante/usuáriodoaplicativo).EssaseoutrasquestõesrelacionadasaosPPGISsão discutidasnocapítulo2dopresentelivro. 19 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa Apenascomabrevedescriçãodestasexperiências,percebeseaimportânciaeutilidadedo mapeamentoparticipativooucolaborativo,demodoaauxiliarnoprocessodegestãoparticipativa.Tais práticascontribuemparaamelhorpercepçãodoscomponentesedosprocessosenvolvidosnossiste‐ mascosteirosemarinhos(edequaisqueroutros,quesequeirainvestigar).Noentanto,estesmapea‐ mentostambémapresentamlimitações,queserãodiscutidasnocapítulo2dopresentelivro.Adespeito dasdiferençasqueosmesmosguardam,algunsprincípiosreferemseatodosostipos,comoaconfian‐ çanosdadosouaéticaenvolvidanasatividadesdemapeamento.Comoparâmetros,sãoadotadosos cincoprincípiosdaparticipação,utilizadosnotrabalhodeVerplankeeoutros(2016):acesso,proprie‐ dade,confiança,validaçãoeaplicação(demétodosetécnicas).Osmesmosautoresapresentamum quadro,noqualresumemtaispropriedadesesuarelaçãocomosdadosemétodosreferentesaosmape‐ amentosparticipativosoucolaborativos(Quadro2). 2.1 - ACESSO O  acesso  é  um  princípio  que  diz  respeito  ao  acesso  do  participante  ao  mapeamento,  que  passa  do  polo  passivo  para  o  polo  ativo  do  mesmo.  No  caso  de  mapeamentos  que  envolvem  co‐ munidades  tradicionais  e/ou  aquelas  socioambientalmente  vulneráveis,  esse  princípio  é  especial‐ mente  importante,  já  que  pode  contribuir  para  a  preservação  da  cultura,  o  fortalecimento  da  identidade  local  e  o  empoderamento  desses  grupos  (ACSELRAD,  2008,  2012,  2013;  VER‐ PLANKE  et al.,  2016;  CAMPOS,  2009;  CHAVES,  2011;  COSTA,  2016;  GERHARDINGER;  FIGUEIRA;  WALTER,  2009;  GERHARDINGER  et al.,  2010;  IFAD,  2009;  LEVINE;  FEI‐ NHOLZ,  2015;  MEIRELLES;  SOUZA;  LIMA,  2016;  MENDES;  GORAYEB;  BRANNS‐ TROM,  2016;  ARNS,  2002;  TORRES;  GAONA;  CORREDOR,  2012).  Esse  princípio  relacionase  diretamente  com  os  quatro  demais  apontados  por  Verplanke  e  outros  (2016),  uma  vez  que  a  falha  no  acesso  compromete  a  propriedade,  confiança,  validação  e  aplicação  dos  dados,  inerentesàsdiferentesfasesdosmapeamentos. Naqueles  mapeamentos  participativos  ou  colaborativos  que  envolvem  representantes,  é  necessário  escolher  com  cuidado  quem  fará  a  representação,  uma  vez  que  o  aporte  de  dados  e  in‐ formações  será  atribuído  a  todo  o  grupo  (ao  coletivo  sendo  representado).  Uma  história  curiosa  é  a  de  que,  ao  entrar  em  contato  com  determinado  povoado  de  pescadores,  um  pesquisador  optou  por  escolher  a  pessoa  mais  idosa  para  representar  aquele  grupo,  em  um  mapeamento  muito  mais  abrangente,  que  envolvia  a  avaliação  socioeconômica  da  região.  No  entanto,  o  indivíduo  mais  idoso  do  grupo  era  aquele  que  tinha  se  mudado  para  a  localidade  há  pouco  tempo.  Assim,  a  esco‐ lha  dos  critérios  que  levarão,  por  conseguinte,  à  escolha  dos  representantes  no  mapeamento  (de  um  grupo  de  pessoas,  setor  econômico,  ramo  de  atividade  etc),  deve  ser  tomada  com  base  no  co‐ nhecimento  prévio  da  área  e  do  grupo  (ou  ramo  ou  setor).  Dada  a  impossibilidade  de  fazêlo,  será  imprescindível  incluir  uma  fase  inicial  de  prélevantamento,  para  apreensão  dessas  informações,  juntoaocoletivoemquestão. Quadro 2Princípiosdosmapeamentosparticipativosesuarelaçãocomdadosemétodos Fonte:Verplankeet al.(2016,p.311). 20 Mapeamentoeparticipação Nocasodaaquisiçãodeinformaçõesgeográficasvoluntárias(volunteered geographic infor‐ mation,VGI),osprogramaseequipamentosobtêmosdadosdosusuários,osquais,nãonecessaria‐ mente, estarão disponíveis a todos que colaboraram7.Assim, considerase que os usuários tiveram acesso,porémnãopossuempropriedadesobreosdados(e,emmuitasvezes,issoéinformadonoster‐ mosdecessãodedireitosdeuso,quandodacriaçãodacontaparausodaaplicação). Oacessotambémdizrespeitoàética,jáqueummapeamentoparticipativooucolaborativo tendenciosopodelevaraconclusõesenviesadas,oque,porfim,prejudicariaocoletivo;ouoacessoa dadoseinformaçõessensíveis(dadosindividualizadosdepessoasfísicasoujurídicas)pode,domesmo modo,causarprejuízosaoutrem.Assim,ainclusãodeparticipantesnomapeamentonormalmenteé acompanhadadeautorizaçõespessoais(edoslíderesdosgrupos)parauso/divulgaçãodosresultados; sendoque,emdeterminadoscasos,aindahánecessidadedesolicitaroparecerdorespectivocomitêde éticaempesquisa8,sendodestacados:aComissãoNacionaldeÉticaemPesquisa(CONEP),queéliga‐ da diretamente ao Conselho Nacional de Saúde (http://www.conselho.saude.gov.br/Web_comissoes/ conep/index.html);eoComitêdeÉticaemPesquisanasCiênciasHumanas,daAssociaçãoBrasileira deAntropologia(http://www.portal.abant.org.br/2013/07/09/comitedeeticaempesquisanasciencias humanas/). Oacessorelacionasediretamentecomoconceitocadavezmaisadotadodeaberturade da‐ dos (ouOpen Data);ouseja,aquelesdadosquepodemseracessados,adaptadose/ouutilizadosemou‐ tras iniciativas e programas. O Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos (IEEE, Institute of Eletrical and Eletronic Engineers)osdefinecomo:"Open Datasãodadosquepodemserusados,reuti‐ lizadoseredistribuídoslivrementeporqualquerpessoa,sujeitoapenas,nomáximo,aorequisitode atribuiçãoecompartilhamentodamesmaforma."(IEEE,2021,s.p.).JáoPortalBrasileirodeDados Abertos,utilizaadefiniçãodoOpen Knowledgement Internacional:"Open Data constituiapublicação edisseminaçãodedadoseinformaçõespúblicasnaWeb,seguindoalgunscritériosquepossibilitamsua reutilizaçãoeodesenvolvimentodeaplicativosportodaasociedade."(BRASIL,2021,s.p.). HátrêsleisparaosdadosgovernamentaisabertosqueforampropostasporDavidEaves(Har‐ vard Kennedy School of Government),em2009,masqueseaplicamaosdemaistiposdedadosabertos (nãoapenasgovernamentais)9:1.SenãoestáindexadoedisponívelnaInternet10,nãoexiste;2.Senão estiverabertoeemformatocompreensívelpormáquina,nãopodeseraproveitado;e3.Sedispositivo legalnãopermitirsuareplicação,nãoempodera.Aprimeiraleirelacionasecomacapacidadedousuá‐ rioencontrarosdadosEu posso encontrar isto?(I can find it?);asegunda,comsuautilizaçãopelos diferentesprogramasedispositivoseletrônicosEu posso usar isto?(I can use it?);eaterceira,coma limitaçãoenvolvidanaimpossibilidadedesuareplicaçãoe/oudistribuiçãoEu posso compartilhar is‐ to?(I can share it?). Umgrupodepersonalidadesdadefesadogovernoaberto11sereuniuem2007emworkshop nacidadedeSebastopol(Califórnia,EUA);epropôsosoito princípios dos dados abertos governa‐ mentaiscompleto,primário,temporal,processávelpormáquina,nãodiscriminatório,nãoproprietá‐ rioelicenciadolivremente.Caberessaltarquetaisprincípiospodemseraplicadosaoutrostiposde dados abertos (não governamentais).A lista a seguir foi traduzida e adaptada de opengovdata.org (2007,s.p.): 7Dadossomentevisualizadoscomodadosagregadosoudadosnãodisponíveis. 8Eemdiversosníveispodemsernecessáriasautorizaçõesdoindivíduoparticipante,dorepresentantedogrupo e/oudecomitêsdeentidades(universidadesfederais,orgãospúblicos,entidadesprivadasetc). 9"If it can’t be spidered or indexed, it doesn’t exist; If it isn’t available in open and machine readable format, it can’t engage; If a legal framework doesn’t allow it to be repurposed, it doesn’t empower." 10Eminglês,spidered datadizrespeitoaosdadosquesãoencontradospelosmotoresdebusca(denominadosem inglêsporsearch engine spiders). 11Osparticipantesdoworkshopde2007naCalifórniaestãolistadosem:https://opengovdata.org/. 21 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa 1.Completo (Complete)todososdadospúblicossãodisponíveis.Odadopúblicoéaquele quenãoésujeitoalimitaçõesdeprivilégio,segurançaeprivacidade; 2.Primário (Primary)odadoécoletadonafonte,comomaiornívelpossíveldegranulari‐ dade(ouseja,nãoagregadoenãomodificado); 3.Temporal (Timely)odadoestádisponíveltãorapidamentequantofornecessáriopara preservaroseuvalordedado.Ouseja,evitardeixarpassarmuitotempo,demodoquea medidaaindasejarepresentativadarealidade; 4.Acessível (Accessible)odadoestádisponívelparaoespectromaisamplopossívelde usuários,paraumaamplagamadepropostas(objetivos); 5.Processável por máquina (Machine processable)odadoéestruturadodeformaquepos‐ sasersubmetidoaprocessamentoautomático.Aesserespeito,hápadrõesdeinteroperabili‐ dadededadosquesãonormatizadospelospaíses,ondesãodefinidososformatosdedados esuascaracterísticas,necessáriasparaapesquisaeleiturapormáquinas.NoBrasil,aestru‐ turaadotadaédenominadaPadrões de Interoperabilidade de Governo EletrônicoePing (BRASIL,2021)12. 6.Não discriminatório (Non-discriminatory) odadoestádisponívelaqualquerum,semre‐ querimentoderegistroparatanto; 7.Não proprietário (Non-proprietary)odadoestádisponívelemformatotal,quenãohá controleexclusivosobreomesmo;e 8Licenciado livremente (License-free)osdadosnãoestãosujeitosaqualquerlicençapro‐ prietária(copyright),patenteouregulamentaçãodemarcaregistradaoudesegredocomer‐ cial. Nesse sentido, há diversas licenças livres disponíveis atualmente, sendo a mais tradicional,alicençaGNU General Public LicenseGNUGPL(ouapenasGPL),daFree Software Foundation(FSF)13; 2.2 - PROPRIEDADE AindadeacordocomVerplankeeoutros(2016),osindivíduosalcançamapropriedadesobre osdadospormeiodosprocessoseatribuições.Oprocessodemapeamentodizrespeitoàsequênciade etapasnecessáriasparaqueumobjetivogeralsejaalcançado.Jáaatribuição,dizrespeitoàclassifica‐ çãodosindivíduosemrelaçãoaprioridades,segundoaqual,osmesmosterãopermissãoparaacessar, editaredistribuirosdados.Emprogramasesistemas,correspondeàpermissãodeacessoàleituraees‐ crita(edição)dosdados. Noprocesso de mapeamento participativo(oucolaborativo)14,adefiniçãosobreapropriedade dosdados(e.g.,seapropriedadeédofabricantedosoftware onlineparamapeamentooudousuárioda aplicação)constadoprojetodomapeamentoedostermosdeautorização/usodosdados(edeoutras normascabíveis).Portanto,háprocessosnosquaisapropriedadedosdadoséatribuídanecessariamente aoindivíduo(ouaogrupo)queparticipadomapeamento(noscasossupramencionadosdedefesadedi‐ reitosadquiridosdepovostradicionais,porexemplo).Jáemoutroscasos,comonosprogramasqueco‐ 12ParaconhecerasnormasrelacionadasaPolíticadeDadosAbertosdoBrasil,visitar:https://wiki.dados.gov.br/ PoliticadeDadosAbertos.ashx.  Para  conhecer  o  ePing  (versão  2018),  ver  http://eping.governoeletronico.gov.br/. 13 https://www.gnu.org/licenses/licenses.ptbr.html.Além da GPL, destacamos: licença Creative Commons, licençaBSD(Berkeley),licençaMIT,licençaMozillaetc. 14Especificamente,no âmbitodoMapeamento Ambiental Participativo(MAP),aoqueRicardodeSampaio Dagnino,SalvadorCarpiJunioredemaiscolaboradorespassaramadenominarcomo processo de mapeamento ambiental participativo.Consultaroúltimocapítulodopresentelivro,ondeospesquisadoresdiscutemassuas experiênciasemmapeamentosdotipo. 22 Mapeamentoeparticipação letamdadosgeolocalizados15dosusuários(VGI)16,nãonecessariamente,apropriedadeédeclaradaco‐ mosendodousuário,queforneceosdados.Poroutrolado,apermissãoparaacessareeditarosdados emplataformasdemapeamentocolaborativoabertas(comooOpenStreetMap®)17,pressupõeanão existênciadepropriedadeparticularsobreosdados,osdadossãoabertos,detodos,coletivamente.Por outrolado,aplataformademapeamentocolaborativoOpenGreenMap®informaemseuacordodeuso pelosusuários18,prevêqueapropriedadedosdadosenviadosparaabasededadosdomapaonlineé dosmapeadoresegrupos.Emambososcasos,énecessáriosempreinformarafontedosdados,os créditosdequemcolaboroucomassériesdedados(data sets),arquivosdecamadasdeinformaçãode mapas(layers),alémdeoutrosrecursos,obtidosdeterceiros. Umasériedeautorestemdiscutidosobreoempoderamentodecomunidadestradicionaise outrosgrupos,emdisputaspeladefesadedireitosadquiridos,segundoaConstituiçãoFederalde1988 (ou outras normas infraconstitucionais).Assim, ressaltamse os trabalhos de Mendes, Gorayeb e Brannstrom(2016);Milagres(2011);Campos(2009);Chaves(2011);Rodrigues,MarqueseFredrich (2020),porsuarelevâncianesseâmbito.Poroutrolado,omapeamentoparticipativooucolaborativo envolvendoresidentesemumalocalidadepodeauxiliarnagestãopúblicaparticipativa(sejaambiental, urbanaetc),oquetambémempoderaocidadãonoprocesso,jáqueomesmocontribuicomsuasper‐ cepções,dadoseinformações(e,idealmente,asmesmassãovalorizadas).Énecessário,entretanto,que aparticipaçãosejareal,nãoapenas"consultiva"equesejadadaatençãoàescolhadosrepresentantes, principalmente,noscasosemqueomapeamentoenvolvemuitosgrupos/setores. Torricelli(2019),emdiscussãosobreasrelaçõesentreomapeamentoparticipativoeodireito àcidade,elaboraduashipótesesmuitointeressantes,quemostramarelaçãointrínsecaentreodireitoà cidadeeosentimentodepertencimentosdosindivíduosemrelaçãoaoslugares;eainfluênciadomapa narelaçãoentrecidadaniaeterritorialidade: Hipótesis 1: cualquier definición (o medición) del “derecho a la ciudad” im‐ plica una relación entre ciudadanía y espacios de pertenencias de las perso‐ nas (familias, organizaciones, etc.) o sea una relación entre ciudadanía y territorialidad qué en las ciudades de Latinoamérica se manifiesta muy a menudo como pertenencia al barrio de vida o de origen; Hipótesis 2: Se puede sostener que el mapa puede modificar de alguna ma‐ nera la relación entre ciudadanía y territorialidad. En otras palabras, el ma‐ pa puede funcionar en sus dos sentidos (de modelo y de instrumento) para aumentar el derecho a la ciudad, configurando un proceso de empoderami‐ ento, en lugares donde no hay herramientas de medida del espacio, ni siquie‐ ra imagen clara del mundo en lo que uno vive: es el caso, creo, de muchos asentamientos informales en las ciudades del “Sur Global”, caracterizados por la precariedad y la vulnerabilidad de sus moradores. (p. 13) 19 15Dadosgeolocalizados(oudadosgeoespaciais;ouainda,dadosgeográficos)possuemlocalizaçãogeográfica, segundoumsistemadereferênciadecoordenadas.Omaisconhecidoéosistemadecoordenadasgeográficas, segundooqual,asposiçõessãodadasempares(latitude,longitude). 16VGI ou "(...) geospatial content generated by non-professionals using mapping systems available on the Internet."(USGS,2021,s.p.),refereseàgeoinformaçãoqueéfornecidapelousuáriovoluntariamente(ouseja,o prérequisitoéodequeousuáriotemciênciadequeestáfornecendoosdados,aindaqueemsegundo planono aplicativoou outromeio).Essetemaseráretomadono capítulo2,sobreasprincipaistécnicasutilizadasde mapeamentoparticipativooucolaborativo. 17http://www.openstreetmap.org. 18Terms of Use | Open Green Map(https://www.opengreenmap.org/legal). 19Hipótese 1: qualquer definição (ou medida) do "direito à cidade" implica uma relação entre cidadania e espaços de pertencimento das pessoas (famílias, organizações etc.), ou seja, uma relação entre cidadania e territorialidade.Oque,naAméricaLatina,manifestasemuitasvezescomopertencimentoaobairrodevidaou deorigem.(...) 23 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa OmapeamentoparticipativorealizadoporecomindígenasMebêngôkre,emMoikarakô,uma pequenavilade220habitantes,situadanocoraçãodaTerraIndígenaKaiapó(TIK),suldoestadodo Pará,foiinicialmentepensadoporPascaledeRobert,JeanFrançoisFaureeAnneElisabethLaques, paramostraraextensãododesmatamentonoentornodaTIK,porém,foiapropriadopelosindígenas, quederamumaoutradimensãoaomapeamento,adimensãopolítica.Omapeamentopassouaseren‐ tão,detodooterritórioindígena,ocupandoumlocalcentralnalutapelademarcaçãodesuasterras (INHABITANTS...,2006). 2.3 - CONFIANÇA Oprincípiodaconfiançaéfundamentalemtodasasetapasdoprocessodemapeamentoparti‐ cipativooucolaborativo.Inicialmente,énecessárioqueomapeador(ougrupo)tenhamconfiançana propostadomapeamentoenaspessoasqueocoordenam.Tratasedeumarelaçãomútua,emquetam‐ béménecessárioqueocoordenadoroufacilitadordomapeamentotenhaconfiançanogrupoqueestá mapeando.Quandodousodeplataformaseletrônicas,quedispõemdemapasonline;oudispositivos móveisquepodemcapturarascoordenadasdalocalizaçãogeográfica,aconfiançaresidemaisnatec‐ nologiaqueestásendoutilizadaenoseumantenedor.Emambasassituações,sejamapeandocomum grupomenor,sejaobtendodadosdamultidão(crowdsourcing),aconfiançaemtodooprocessoéim‐ prescindívelparaqueomapeamentoobtenhasucesso. Nosprocessosdemapeamentoparticipativo,quantomaioraconfiançamútuaentreocoorde‐ nadoreosmapeadores,maiorapossibilidadedeaquisiçãodepercepçõesmaisprofundasporpartici‐ pantes (VERPLANKE et al., 2016). Já em mapeamentos com uso de aplicativos e dispositivos, havendoconfiança,haverámaioradesãoaousoeàcontribuiçãodedadospelosusuários.Umexemplo importanteatualmenteéabasedoOpenStreetMap®,quejácontacomaproximadamente8milhõesde usuáriosnomundo,tendomapeadocercade7,3bilhõesdepontos(denominadoscomonodes)ecerca de9,4milhõesderelações20. Alémdanecessidadedoestabelecimentodarelaçãodeconfiançaparaquehajaaefetivaparti‐ cipação,aconfiançarelacionasetambémcomaacuráciadosdados.Emoutraspalavras,seosdados obtidospormeiodomapeamentoparticipativooucolaborativocorrespondemaomundoreal.Docon‐ trário,osdadosplotados(ouenviados)formarãoumquadroquenãocorrespondeàrealidade.Essafa‐ lhapodeocorrerporfaltadecapacitaçãoparaexecutaraatividadedemapeamentooupormáféde quemcoordenaomapeamento,queenviesapropositalmenteosresultados.Oqueremeteàvalidação dosresultados,comodiscutidoadiantenestetexto. Osmapeamentosparticipativostemmaioracuráciarepresentacionaldoqueposicional;se comparadosàquelesrealizadoscomVGI.Caberessaltarqueaacurácia posicionalestápresentenos doistiposdemapeamentosequeomapeamentoparticipativopodeapresentarboageolocalizaçãodos pontosedemaisfeiçõesmapeados,quandodousodetecnologiasemseuauxílio.Nocasodosmape‐ amentos com programas e sistemas computacionais, a precisão21 e a acurácia posicionais residem nesses  programas  e  sistemas.  Por  outro  lado,  em  mapeamentos  participativos  in loco,  os  participantes  19 Hipótese 2:Podeseargumentarqueomapapode,dealgumamaneira,modificararelaçãoentrecidadaniae territorialidade. Em outras palavras, o mapa pode funcionar em seus dois sentidos (como modelo e como instrumento),paraampliarodireitoàcidade,configurandoumprocessodeempoderamento,emlugaresonde nãoexistemferramentasdemediçãodoespaço,nemmesmoumclaroimagemdomundoemquesevive:éo caso,creioeu,demuitosassentamentosinformaisnascidadesdo"SulGlobal",caracterizadospelaprecariedade evulnerabilidadedeseushabitantes. 20Deacordocomhttps://www.openstreetmap.org/stats/data_stats.html.Acessoem10nov.2021. 21 Cabe uma distinção entre precisão e acurácia.A precisão diz respeito à reprodutibilidade dos resultados, utilizandoseomesmoequipamento(etécnica),enquantoqueaacuráciarefereseaquantoamedidatomadase aproximadovalorreal.Assim,aotomaramedidadageolocalizaçãodedeterminadopontocomauxíliode aparelhorastreadorGPS(GlobalPosicioningSystem)trêsvezes,amedidaseráconsideradaprecisaseosvalores variaremapenasnaúltimacasadecimal.Seamesmamedidacorrespondercorretamenteàrealidade,entãoé consideradaainda,comotendoacuráciaposicional. 24 Mapeamentoeparticipação podemrealizarmapeamentoscomdelimitaçõesaproximadasdasfeiçõesmapeadas,apartirdesuas percepçõesevivências.Essadiferençademodoalgumcolocaomapeamentoparticipativoemposi‐ çãoinferioraomapeamentocomusoderecursostecnológicos;poroutrolado,segundoVerplankee outros(2016),émaiscomplexorealizarmapeamentosparticipativoscomefetivocontatoentreosco‐ ordenadoreseosparticipantes,pelanecessidadedaconstruçãodarelaçãodeconfiançamútua;mas também,muitasvezes,porlimitaçõesdosprópriosparticipantes.Assim,CarpiJunior,BarbosaeLo‐ pes(2019);RioseMendes(2009);DagninoeCarpiJunior(2021);Barbosa(2019)consideramim‐ portantearealizaçãodaalfabetização cartográficadosparticipantes22,comoformadecapacitaçãodo grupoparaomapeamento.Noentanto,osautoreslembramqueéimportantehaveromenornível possíveldeinterferênciadoscoordenadores/facilitadoresnomomentodomapeamento.Deixarogru‐ polivreparacriarseusprópriossímbolosdelegendaouescolherascoresaseremusadasnomapea‐ mento, ainda que, posteriormente, todos esses símbolos, cores e demais elementos possam se "traduzidos"emelementoscartográficosconvencionais. Outraconsideraçãoimportanteéque,emmuitoscasos,aconfiançanomapeamentoresidenas empresasouinstituiçõescoordenadoras,mantenedoras.Issolevaàdiscussãoatualarespeitodoslimi‐ tesdasempresaseoutrosentesquelidamcominformaçõessensíveis(informaçõespessoaisedeoutro tipo),envolvidosnousoenocompartilhamentodessesdados.Tambéméquestionadaatualmente,aco‐ letadedados(incluindoosdadosdesuageolocalização),semautorizaçãodosusuáriosdeprogramase sistemasdeinformação.Porvezes,semaautorizaçãoesemaciênciadosusuários.  2.4 - VALIDAÇÃO A  validação  corresponde  à  etapa  do  processo  de  mapeamento  na  qual  serão  confirmados  os  dados  de  entrada  e  os  resultados  obtidos.  No  mapeamento  participativo  in loco,  a  validação  dá se  por  meio  da  apresentação  dos  resultados  às  comunidades  (ou  grupos),  que  avaliam  se  os  mes‐ mos  correspondem  à  realidade  local.  Cabe  ressaltar  que  outros  processos  podem  ser  incluídos,  co‐ mo  a  validação  por  meio  da  geração  (em  ambiente  SIG)  de  estatísticas  geoespaciais,  que  são  utilizadas  para  medir  a  coerência  do  conjunto  de  dados,  em  fases  prévias  à  apresentação  aos  grupos  participantes  do  mapeamento.  Já  no  mapeamento  participativo  ou  colaborativo  assistido  por  pro‐ gramas  e  aparatos  tecnológicos,  a  validação  frequentemente  se  dá  por  meio  de  mecanismos  conti‐ dos  na  programação  de  tais  plataformas,  como  quando  o  usuário  insere  um  ponto  com  sua  geolocalização  e  a  plataforma  é  capaz  de  verificar  se  o  ponto  plotado/informado  corresponde  à  ge‐ olocalização  do  indivíduo,  tomada  automaticamente;  ou  quando  essa  atribuição  da  posição  geoes‐ pacial  é  diretamente  atribuída  pela  própria  máquina/programa.  Assim,  a  validação  no  primeiro  tipo  de  mapeamento  descrito,  reside  no  grupo  que  mapeia,  enquanto  que  a  validação  no  segundo  tipo,  residenosrecursosutilizadosparamapear. Além  disso,  a  validação  dos  resultados,  tanto  dos  mapeamentos  participativos  in loco  quanto  das  plataformas  de  mapeamento  participativo  ou  colaborativo,  disponíveis  na  Internet,  po‐ dem  apresentar  um  terceiro  tipo  de  validação,  que  corresponde  à  validação  de  externos.  Em  outras  palavras,  a  validação  de  pessoas/grupos  que  não  participaram  efetivamente  do  mapeamento.  A  tí‐ tulo  de  exemplo,  o  mapa  resultante  do  mapeamento  participativo  realizado  junto  a  uma  comuni‐ dade  tradicional  pode  necessitar  ser  validado  em  outras  arenas,  como  em  audiências  públicas  de  defesa  de  direitos  adquiridos  ou  em  reuniões  de  comissões  de  limites  territoriais23.  Outro  exemplo  é  a  validação  dos  dados  do  mapeamento  colaborativo  online  no  OpenStreetMap,  que  é  realizada  por  terceiros  (parte  da  comunidade  de  usuários  da  plataforma  que  não  participou  do  mapeamento  dessesdados). 22Alfabetização cartográfica definida como "processo de domínio e aprendizagem de uma linguagem  constituídadesímbolosesignificados;umalinguagemgráfica(...)."(PASSINI,1998apudRIOS;MENDES, 2009,p.1). 23Paratanto,omaparesultantedessetipodemapeamento,quandonecessárioforsuaapresentaçãoemâmbitos oficiais,deveseguirasconvençõescartográficasvigentes,paraseraceitocomodocumentoválido,contendoseus elementosobrigatórioseassinadoporprofissionalhabilitadoparaelaborarmapas. 31 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa ALGUMAS TÉCNICAS DE MAPEAMENTO PARTICIPATIVO OU COLABORATIVO Raquel Dezidério Souto 2 Mapeamentos  participativos  ou  colaborativos  não  são  todos  iguais...  Nem  todos  os  resul‐ tados  de  um  mapeamento  desse  tipo  podem  ser  considerados  válidos...  Nem  sempre  os  resultados  obtidos  podem  ser  considerados  representativos  da  parcela  da  população  incluída  na  participação...  Todas  essas  sentenças  ilustram  como  o  processo  de  mapeamento  participativo  pode  ser  tecnica‐ mente  complexo  e  delicado,  do  ponto  de  vista  ético,  o  que  leva  à  necessidade  da  observação  cuida‐ dosa  dos  diferentes  aspectos  conceituais  envolvidos  e  do  conhecimento  das  diferentes  técnicas  e  abordagens. O  presente  capítulo  mostra  as  diferenças  entre  algumas  das  técnicas  mais  utilizadas  em  mapeamentos  participativos  ou  colaborativos 1 :  o  mapa mental  (Hands-on mapping);  o  mapeamen‐ to com suporte de mapas e imagens  (Participatory mapping using scale maps and images);  o  mo‐ delo 3D participativo  (Participatory 3D model, P3DM);  o  mapeamento com apoio de sistema de informação geográfica  (mapping with GIS);  e  o  mapeamento com recursos de multimídia e basea‐ do na Internet  (multimedia and Internet-based mapping),  segundo  publicação  de  2009,  do  Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura  (International Fund for Agricultural Deve‐ lopment,  IFAD)2.  Cada  um  destes  tipos  de  mapeamento  possui  suas  peculiaridades  e  aplicabilida‐ des  e,  assim,  algumas  questões  são  relevantes  na  elaboração  do  plano  de  mapeamento,  conforme  elencadoabaixo3. •Público-alvo do mapeamento.  Qual  o  perfil  demográfico  do  grupo  (etário,  escola‐ ridade,  dentre  outros)?  Os  participantes  possuem  familiaridade  com  programas  e  equipamentos? •Representatividade do público-alvo.Quemfoichamadoaparticiparrepresentaocoletivo? •Preservação de dados sensíveis.Osdadospessoaisdosparticipantesedeoutrosenvolvi‐ dosestãoprotegidos?Háautorizaçãoparaseuusoedivulgação? •Tipos de dados a serem levantados.Osdadoslevantadossãoimportantespararepresentar ofenômeno? 1Adistinçãoeosprincípiosenvolvidosnosmapeamentosparticipativoecolaborativopodemserencontradosno capítulo  1.  Em  resumo,  no  primeiro  tipo  de  mapeamento,  os  participantes  efetivamente  plotam  os  dados  e  informações  no  mapa,  enquanto  que  no  segundo,  os  dados  e  informações  são  enviados  aos  responsáveis  pelo  mapeamento,  que  realizamaplotagemnomapa. 2  Good practices in participatory mapping.  http://www.iapad.org/wpcontent/uploads/2015/07/ifad_good_practice_in‐ participatory_mapping.pdf. 3Conformeaulaministradapelaautora,em24defevereirode2021,paraalunosdeGeografiadaUniversidade Federal  do  Ceará  (UFC),  a  convite  do  Laboratório  de  Geoprocessamento  e  Cartografia  Social    LABOCARTUFC. 32 Algumastécnicasdemapeamentoparticipativooucolaborativo •Necessidade de validação dos dados.Hánecessidadedevalidaçãodosdadoseresultados derivados?Comoseráfeitaavalidação? •Pós-processamento dos dados.Quaistratamentosdedadossãonecessáriosnaetapade pósprocessamentodomapeamento? A  título  de  exemplo,  dificilmente  um  mapeamento  realizado  com  auxílio  de  SIG  participati‐ vo  (participatory geographic information system,  PGIS)  ou  de  SIG  de  participação  pública  (public participation geographic information system,  PPGIS)  seria  bem  sucedido  com  um  públicoalvo  que  não  possui  a  mínima  aptidão  para  utilizar  os  sistemas  computacionais  e  equipamentos  digitais.  A  de‐ pender  do  objetivo,  será  melhor  o  pesquisador  (ou  outro  ator  interessado  e  responsável  pelo  mapea‐ mento)  utilizar  métodos  mais  simples,  como  a  marcação  de  pontos  em  película  transparente  sobre  um  suporte  (mapa,  carta  e/ou  imagem  com  qualidade  cartográfica);  ou  ainda  mais  simples,  como  o  desenho  do  mapa  mental  (participante  desenha  o  mapa  do  local,  a  partir  de  suas  memórias  e  expe‐ riência  de  vida).  Por  outro  lado,  para  inferir  sobre  questões  geográficas  em  outras  escalas,  como  a  re‐ gional,  nacional  ou  global;  sistemas  computacionais  são  frequentemente  utilizados,  a  fim  de  obter  dados  da  multidão  (crowdsourcing),  por  meio  de  seu  envio  pelos  voluntários,  o  que  é  denominado  como  informação  geográfica  voluntária  (volunteered geographic information,  VGI).  A  despeito  de  todasessasnuances,podemserelencadasasvantagenselimitaçõesdestestiposdemapeamento: Vantagens Possibilidadedeaquisiçãodedadosqualitativoseemescalalocal; Menorcustodeoperação(secomparadoaomapeamentopresencial); Empoderamentodascomunidades; Possibilidadedeaplicaçãoemumaamplagamadeáreas,comonaeducaçãoambiental,na gestãopúblicaparticipativa,nareduçãoderiscosdedesastres,dentreoutras; Valorizaçãodolugar4;valorizaçãoepreservaçãodaculturallocal;e Fontededadosparaadvocacy5. Limitações Faltadeconhecimentocartográficodosparticipantesoucolaboradores(quandoforocaso); Dificuldadedealgunsparticipantesemlidarcomtecnologiasdemapeamentodigital; Maiorcomplexidadenavalidaçãodosdados;   Necessidade  de  garantir  a  segurança  dos  dados  sensíveis  (dados  pessoais  e  dados  sigilosos);  e Necessidadedeestabelecimentodeumarelaçãodeconfiançaentreosresponsáveispeloma‐ peamentoeosparticipantes. 4Nosentidogeográficodelugar,comooespaçoondehabitaumgrupopopulacionalecomumaidentidade própria.Sendoassim,esperasequeosparticipantesdomapeamentotragamparaomapaseusvalores,suas experiênciasdevidaeoutrosaspectosintangíveis,queosassociamindelevelmenteaolugar,conformeavisãode Tuan(2011,2012,2018). 5  Advocacy  é  uma  expressão  inglesa  para  o  coletivo  das  ações  de  advocacia  no  âmbito  da  justiça  socioambiental.  Frequentemente,  são  ações  em  prol  da  manutenção  de  direitos  adquiridos,  que  envolvem  comunidades  em  desvantagem,  nas  situações  de  conflito  socioambiental,  como  por  exemplo,  as  populações  tradicionais  (quilombolas,  indígenas,  caiçaras,  entre  outros)  frente  ao(s)  grupo(s)  envolvido(s)  na  instalação  de  grandesempreendimentoseconômicos. 33 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa Uma  questão  frequentemente  levantada  é  a  de  que  se  qualquer  tipo  de  mapeamento  co‐ letivo  pode  ser  denominado  como  participativo  ou  colaborativo.  Em  outras  palavras,  um  mapa  elaborado  a  muitas  mãos  necessariamente  é  participativo?  A  coleta  de  dados  e  registros  foto‐ gráficos  enviados  a  posteriori  de  um  evento  sob  investigação  configura  um  mapeamento  cola‐ borativo?  Todas  essas  questões  impactam  no  desenho  do  processo  de  mapeamento.  Segundo  IFAD(2009),osmapascomunitáriospodemserassimconsideradossegundoalgunscritérios: •Omapeamentoparticipativoédefinidopeloprocessodeprodução; •Omapeamentoparticipativoédefinidoporumprodutoquerepresentaa agendadacomunidade; •Omapeamentoparticipativoédefinidopeloconteúdodosmapasqueretra‐ tamconhecimentoseinformaçõeslocais; •Omapeamentoparticipativonãoédefinidopeloníveldecumprimentodas convençõescartográficasformais;(p.7,traduçãominha)6 Portanto,  na  visão  do  IFAD,  o  mapeamento  participativo  comunitário  deve  envolver  um  objetivo  comum  (agenda  da  comunidade  ou  grupo),  ser  definido  por  um  processo  de  produção  próprio  (característico),  gerando  mapas  que  retratam  o  conhecimento  espacial  local  e  não  necessa‐ riamente  seguindo  as  convenções  cartográficas  vigentes7.  Com  o  tempo,  a  prática  ganhou  outras  aplicações,  sendo  adotada  também  em  âmbito  empresarial  (e  não  apenas  no  âmbito  da  justiça  so‐ cioambiental),  com  disponibilização  de  plataformas  online  de  mapeamento  participativo  ou  cola‐ borativo  que  atendem  a  diversos  fins,  ampliando  ainda  mais  o  conceito  de  mapeamento  participativo. Essa  é  a  evolução  natural  da  disseminação  dos  mapas  temáticos,  presenciada  no  século  XIX.  Até  então,  havia  grande  profusão  de  mapas  topográficos,  que  dispunham  a  representação  gráfica  das  relações  topológicas  do  espaço.  Com  a  disseminação  dos  mapas  temáticos,  outros  da‐ dos  e  informações  foram  acrescentados  ao  mapa,  além  das  relações  topológicas  (PLATIN,  2014).  No  entanto,  para  além  de  temático,  os  mapas  participativos  ou  colaborativos  encerram,  em  muitas  situações,  dados  e  informações  que  contribuem  para  o  empoderamento  da  comunidade  e  de  gru‐ pos,  tendo  sido  convencionado  denominar  esse  novo  campo  como  Cartografia  Social8.  O  mapea‐ mento  participativo  ou  colaborativo,  nessa  perspectiva  (integrando  um  processo  de  Cartografia  Social),  pode  ser  ainda,  associado  a  outras  técnicas  de  pesquisa  qualitativa  em  Geografia,  que  con‐ tribuem  para  melhorar  a  compreensão  e  despertar  a  confiança  do  grupo  de  participantes  e  o  respon‐ sávelpelomapeamento9. 6(...)Participatory mapping is defined by the process of production;(...)Participatory mapping is defined by a product that represents the agenda of the community;(...)Participatory mapping is defined by the content of the maps wich depicts local knowledge and information;(...)Participatory mapping is not defined by the level of compliance with formal cartographic conventions.(p.7) 7 Entretanto, em muitos casos, os dados obtidos de mapeamentos participativos ou colaborativos são pós processadosparaatenderàsconvençõescartográficasvigenteseserutilizadoscomodocumentoreconhecido oficialmente,sendonecessárioconstaremoselementosobrigatóriosdomapa,alémdoregistroedaassinaturade profissionalhabilitadoaproduzirmapas.Ouseja,paraqueoconhecimentoespaciallocalsejaconsideradoválido énecessáriosuatraduçãoemlinguagemcartográficaoficial.Paraumadiscussãoacercadosmultiletramentosna Cartografia,consultarLobato(2020). 8  Os  temas  do  mapeamento  participativo  ou  colaborativo  e  da  Cartografia  social  são  discutidos  no  capítulo  1  da  obra. 9 Para uma leitura aprofundada sobre as técnicas de pesquisa qualitativa em Geografia, consultar Marafon, Ramires,RibeiroePessôa(2013). 34 Algumastécnicasdemapeamentoparticipativooucolaborativo 1. MAPA MENTAL (HANDS-ON MAPPING) Omapamental10édesenhadopelosparticipantesdomapeamento,apartirdesuasmemóriase experiênciasdevidaetemsidoutilizadoemmuitasiniciativasqueenvolvemcomunidadesedefesade direitosadquiridos.Omapapodeserdesenhadonochão(ground mapping)ousobrepapel(sketch mapping).IFAD(2009)mencionaqueoFundoInternacionalparaparaoDesenvolvimentodaAgricul‐ turapromovemapeamentosparticipativoscomunitários,queutilizamessetipoespecíficodetécnicana etapainicial,comfinalidadetambémdecriaçãodolaçodeconfiançamútuaentreosresponsáveispelo mapeamento(muitasvezes,denominadoscomofacilitadores)eosparticipantes;eparadespertaroen‐ gajamentodacomunidade. Tatiana  Ferreira  (2014),  em  pesquisa  de  mestrado,  realizou  mapeamento  participativo  com  comunidade  residente  em  Majorlândia  (Ceará,  Brasil),  que  tem  a  prática  artística  de  produção  das  gar‐ rafinhas  de  areia  colorida,  incluindo  o  mapa  mental  em  etapa  inicial,  o  Mapa da Praia de Majorlândia  (Figura  1).  A  autora  associou  a  prática  do  mapa  mental  a  caminhadas  de  reconhecimento  do  terreno  e  etnomapeamento,numaabordagemgeográficacultural,quevalorizaosabertradicionallocal. Pormeiodaoficinademapeamento,ondeosmoradoresdeMajorlândiaelaboraramoma‐ pamental,TatianaFerreirapodeobservarosaspectosmaisimportantesparaogrupoe,comocom‐ plemento das caminhadas de reconhecimento, pode inferir sobre parte da rotina dos integrantes dessacomunidade: Aideiadomapamentalfoioprincipalindutordalinhainvestigativaquese‐ riapercorridanapesquisadecampo.Assim,arealizaçãodestecomumgrupo deartesãosquepossuemumrecorteidentitáriodesimesmo,jábemdelimita‐ do,ecujaaproximaçãodapesquisadorapôdeserconsideradapositiva,abar‐ cou um território de circulação cotidiana de referências espaciais que remeteramoraaopresenteeoraaopassadodeconstituiçãodogrupo.Osca‐ minhosfeitosprimordialmentepelapraiae,também,pelasvilas,ruelasde areiaeestradas,tecemavidasocialdesses,quevivememMajorlândiae transitamporCanoaQuebrada,Quixabaeoutrospovoadosdolitoralpróxi‐ mo.(FERREIRA,2014,p.63) Campos  (2009),  em  pesquisa  sobre  populações  tradicionais,  unidades  de  conservação  e  mine‐ ração,  utilizou  o  mapa  mental  como  uma  das  primeiras  etapas  de  abordagem  à  comunidade  de  Oriximi‐ ná  (Pará,  Brasil),  que,  tradicionalmente,  extrai  açaí  e  castanhas  do  pará  na  região.  O  pesquisador  associou  o  mapa  mental  com  outras  técnicas  de  pesquisa  qualitativa,  como  o  sondeio  (entrevistas  infor‐ Figura 1 - Mapa da Praia de Majorlândia.MapamentaldeMajorlândia(Ceará,Brasil),elaborado pelosmoradoresdaregião,artesãosdasgarrafinhasdeareiacolorida.Fonte:Ferreira(2014,s.p.). 10OmapamentalfoipropostoinicialmenteempesquisadeLynch(1959),parainferirsobreaimaginabilidade especialderesidentesdeumaáreaurbana.Oautorjámencionavaousodomapeamentoparticipativocomouma maneiradeincluiroscidadãosnoplanejamentourbano. 35 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa mais  com  os  membros  do  grupo  e  caminhadas  exploratórias)  e  reuniões  coletivas.  O  grupo  desenhou  no  mapa  mental  as  áreas  onde  realizam  a  extração  da  castanha  e  do  açaí,  além  das  principais  espécies  vege‐ taiseanimais(Figura2). SegundoCampos,omapamentalpermite"obterumasériedeinformaçõessobreaformade percepçãoeapropriaçãodoambientepelosremanescentesdequilombos,permitindonovasformasde aproximaçãoentreossaberesdematrizesdiferenciadas"(2009,p.73).Muitosautorespassaramade‐ nominaressetipodemapeamentocomoetnomapeamentoparticipativo,umavezqueenvolvematrizes étnicastradicionais,comoosquilombolas,oscaiçaras(epescadorestradicionaisdemodogeral),osin‐ dígenaseoutrosgrupos11. Na  pesquisa  de  Chaves  (2011),  o  mapa  mental  foi  utilizado  em  etapas  iniciais,  a  fim  de  in‐ ferir  sobre  o  conhecimento  dos  participantes  acerca  de  seu  espaço  vivido.  A  pesquisadora  associou  a  prática  do  mapa  mental  à  da  observação  participante,  para  provocar  a  percepção  ambiental  dos  participantes: (...)cadaindivíduopossuiumapercepçãodoambientequeocircunda.Tal ambienteorganizaossentidosdoindivíduo,permitindoqueesteobtenhaum conhecimentomaiorsobreseuespaço,oqualconstituiumabaseparaoseu crescimento.Issoocorreporqueaimagemclaraelegíveldoespaçovivido servecomoumaestruturadereferência,sobreaqualorganizamseativida‐ des,crençaseconhecimentos.(p.60) Figura 2 - MapamentaldosmoradoresdeOriximiná(Pará,Brasil).Fonte:Campos(2009,p.71). 11 Etnomapeamento participativo, que se enquadra como prática de pesquisa qualitativa em Etnografia, em EtnogeografiaenaGeografiacultural(RODRIGUES;MARQUES;FREDRICH,2020). 36 Algumastécnicasdemapeamentoparticipativooucolaborativo Osmapasmentaissãoutilizadostambémemambientedeaprendizagem,comoumapráti‐ capedagógicaparadespertarointeressedoalunopelolugar(e,consequentemente,osentimentode pertencimentoaolugar)eparaauxiliaraalfabetizaçãocartográfica,conformepesquisadeSantiago (2017).Osresultadosobtidospelapesquisadoraconfirmamquenãohárigideznaformaenapro‐ porcionalidadedoselementosrepresentadosnomapamental,porém,oselementoseasrelaçõeses‐ tão ali representados, valorizando os significados empregados pelo indivíduo na leitura do espaço (Figuras3ae3b). ParaIFAD(2009),asvantagensdousodomapamentalsão:baixocusto,podeserrealizado emtemporelativamentecurtoeprovêresultadosemcurtoprazo.Noentanto,comolimitações,aponta: omapamentalfinalnãoégeorreferenciado,oquetornacomplexaoseutransporteemambienteSIG paraoformatodemapaconvencional12;poucoútilquandoénecessáriaaacurácialocacional,acurácia namediçãodeáreasounatomadadeoutrasmedidasquantitativas. 2. MAPEAMENTO COM SUPORTE DE MAPAS E IMAGENS (PARTICIPATORY MAPPING USING SCALE MAPS AND IMAGES) Omapeamentoparticipativocomsuportedemapaseimagensérealizadocomadispo‐ siçãodeumapelículatransparenteporcimadomapaoudaimagem,ondeosparticipantesmarcamos pontosedemaisfeiçõesdeinteresse.Apelículapodesercompostapordiferentesmateriais,comoace‐ tato,papelvegetal,dentreoutros.Aescolhadossímbolosdalegendapodeserrealizadaaprioripelos responsáveispelomapeamentoouaposterioripelosprópriosparticipantes,sendoessaúltimamaneira, amaisutilizada,pordeixarosintegranteslivresparainformaremoquelheséimportante,seminterfe‐ rênciadofacilitador.Assim,promoveseaindaapreservaçãodacultura,jáque,emmuitassituações, taisíconessãorepresentativosdeelementosnaturaisousociais,própriosdoslugareseprópriosdasco‐ munidadesqueoshabitam. De  acordo  com  IFAD  (2009),  esse  tipo  de  mapeamento  participativo  é  utilizado  quando  é  necessária  a  acurácia  posicional,  funcionando  bem  com  imagens  satelitais  e  aéreas,  sendo  os  pontos  mar‐ cados  frequentemente  com  referência  a  alguma  feição  natural  (rios,  morros,  lagos  etc).  Como  há  disponi‐ bilidade  da  base  cartográfica,  pontos  tomados  com  auxílio  de  equipamento  de  geoposicionamento13  também  podem  ser  plotados  no  mapa.  Atualmente,  há  diversos  programas  para  telefones  celulares  que  oferecemdadosdegeolocalizaçãoequepermitemtirarfotosefazervídeosgeolocalizados. 12Mapaconvencional,consideradocomoaquelequesegueasconvençõescartográficasoficiais.Vernotade rodapénúmero7dopresentecapítulo. 13Equipamentoligadoaumsistemaglobalqueforneceascoordenadasgeográficasda localização,comoo Sistema de Posicionamento Global (Global Positioning System) ou, mais amplamente, o Sistema Global de NavegaçãoporSatélite(Global Navigation Satellite System,GNSS). Figura 3 - mapas mentais desenhados por alunos: a) com padronização das dimensões; b) sem padronizaçãodasdimensões.Fonte:Santiago(2009,p.114115). a) b) 37 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa Adisposiçãodomapaoudaimagemauxiliamaspessoaspoucofamiliarizadascomconven‐ çõescartográficas,podendoaatividadetambémfuncionarcomomeioparapromoçãodaalfabetização cartográfica.Assim,muitaspesquisasiniciamcomatransmissãodeconhecimentocartográficoemum nívelbásico,paraqueosparticipantesentendamconceitoscomoproporção(escala)ouprecisãoeacu‐ rácia.Apósasmarcações,omapadapelículaévetorizadoemambientedeSIGeresultaemummapa quesegueasconvençõescartográficasequepodeserapresentadoemdiversosâmbitosquenecessitam dedocumentosatestadospeloEstado.Poressemotivo,taismapasfinaisnecessitamdaassinaturade profissionalhabilitado. Em  pesquisa  sobre  a  pesca  de  emalhe  em  São  Paulo,  Souza  e  Freitas  (2018)  utilizaram  esse  tipo  de  mapeamento  para  que  os  pescadores  da  região  de  Peruíbe  (são  Paulo,  Brasil)  mar‐ cassem  na  película  as  áreas  de  pesca  com  utilização  do  emalhe.  A  partir  dos  resultados  do  ma‐ peamento,  os  pesquisadores  puderam  perceber  que  havia  um  adensamento  de  pescadores  próximo  às  áreas  delimitadas  das  unidades  de  conservação  (UC),  o  que  representa  uma  questão  importante  para  a  gestão  da  Área  de  proteção  ambiental  marinha  do  Litoral  Norte  (São  Paulo).  Tal  pesquisa  demonstra  a  importância  dos  mapeamentos  participativos  no  âmbito  da  gestão  de  áreasprotegidas. Pesquisa  realizada  por  Klain  e  Chan  (2012),  sobre  a  percepção  a  respeito  dos  serviços  ecos‐ sistêmicos  e  o  zoneamento  para  subsidiar  o  planejamento  espacial  marinho  na  região  do  norte  da  Ilha  de  Vancouver  (Canadá),  incluiu  várias  oficinas  de  mapeamento  participativo  com  suporte  de  cartas  náuticas  e  imagens,  com  a  participação  de  integrantes  de  diversos  setores  (Academia,  Gover‐ no,  empresas,  pescadores  etc).  Os  resultados  mostraram  a  distribuição  espacial  dos  valores  tangíveis  (monetários  e  nãomonetários)  e  intangíveis  para  estes  setores  e  os  pesquisadores  argumentam  que  os  valores  intangíveis  são  muito  importantes  do  ponto  de  vista  da  gestão,  mas  que  são  ainda  pouco  considerados  pelos  gestores,  o  que,  em  muitas  situações,  leva  a  um  zoneamento  espacial  marinho  inadequado. Gerhardinger,  Figueira  e  Walter  (2009)  realizaram  mapeamento  participativo  com  pescadores  de  comunidades  do  entorno  das  Ilhas  Cagarras  (Rio  de  Janeiro,  Brasil)14,  para  subsidiar  o  estudo  para  delimitação  da  atual  UC  denominada  Monumento  Natural  (MONA)  das  Ilhas  Cagarras.  Diversas  ofi‐ cinas  de  mapeamento  participativo  foram  realizadas,  onde  os  pescadores  marcaram  as  áreas  de  pesca  (Figuras  4a  e  4b)  e  outros  aspectos  importantes  para  a  conservação  ambiental  da  região  e  a  preserva‐ ção  da  atividade  pesqueira,  de  modo  a  não  perturbar  o  ecossistema  insular.  Além  disso,  foram  elenca‐ dos  os  conflitos  usouso  e  usoambiente  na  região  do  entorno  das  ilhas,  contribuindo  para  a  gestão  da  unidade. Figura 4Mapasparticipativosdadistribuiçãodospesqueirosem:(a)Copacabana(RiodeJaneiro/RJ) e(b)Itaipu(Niterói/RJ).Fonte:Gerhardinger,FigueiraeWalter(2009,p.88). a) b) 14ComunidadesdepescadoresdoQuebraMardaBarradaTijuca,CopacabanaeUrca(RiodeJaneiro/RJ); JurujubaeItaipu(Niterói/RJ). 38 Algumastécnicasdemapeamentoparticipativooucolaborativo IFAD(2009)apontacomovantagensdautilizaçãodestetipodemapeamento:relativamente baratoerápido;provêumarepresentaçãoespacialdoconhecimentolocalcomacurácialocacional(par‐ ticularmente,comaconfirmaçãodosdados,pormeiodemedidasdegeolocalizaçãocomauxíliode equipamentocomGPS;omaparesultantepodeserutilizadoparaocálculodemedidas.Poroutrolado, aslimitaçõessão:oacessoabasescartográficasédifícilemcertasregiões,oquepodeinviabilizara atividade;mesmodisponíveis,osmapaspodemestardesatualizados,oquetambématrapalha(ouinvi‐ abiliza)omapeamento,adependerdafinalidade15,autilizaçãodemapaseimagenspodeserdesafiador parapessoasquenãotêmconhecimentoscartográficos,oquepodesercontornadocomaalfabetização cartográficadosparticipantes. 3. MODELO 3D PARTICIPATIVO (PARTICIPATORY 3D MODEL, P3DM) Omodelo3Dparticipativoéummodelo3Dsobreoqualosparticipantesmarcamospontose outrasfeiçõesdeinteresse(Figura5),podendoserreutilizadoemváriosmomentos(IFAD,2009).Os modelossãocriadosapartirdoscontornostopográficosemantêmasproporçõesreais,seguindouma escalaprédefinida. 15Nocasodemapeamentosparticipativosqueenvolvammedidas,énecessáriaautilizaçãodemapaseimagens atualizados. Figura 5 -  Modelo  3D  em  escala  1:10.000,  onde  os  habitantes  de  Nessuit  (Kenya)  marcaram  as  principais  feições  da  região.  Fotografia  de  Giacomo  Rambaldi,  CTA.  Fonte:  IFAD  (2009,  p.  16). 39 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa Rambaldieoutros(2007),querealizaramummapeamentoparticipativocompovoindígena Ogiek,habitantedeNessuit(Kenya),oferecemumplanodemapeamentoconstituídodei)umafase inicial(preparatóriaparaomapeamento3D);ii)oexercíciodomapeamentoparticipativocommodelo 3D;iii)aescolhadositensdalegenda;iv)apassagemdospontosplotadosnomodelo3Dparauma matriz,paracaracterizarasdiferentesfeiçõesidentificadaspelosparticipantesnomapeamento,segundo critériosestabelecidospelogrupo(taiscomo,altitude,tipodevegetação,tipodesoloetc);v)consolida‐ çãodalegenda;evi)processodecodificação(dositensdalegendaconsolidada). IFAD(2009)apresentacomovantagensdosmodelos3Dparticipativos:omodelo3Déintuiti‐ voecompreensível,oquefacilitaaparticipaçãodepessoasquenãoconhecemconvençõescartográfi‐ casousãoiletradas;adisponibilizaçãodomodelo3Dfortaleceosentimentodepertencimentoaolugar nogrupoecontribuiparaasuacoesão,àmedidaemqueomodeloéfrutodotrabalhocoletivo.Porou‐ trolado,aslimitaçõesconsistemnoconsumoelevadodetemponaconstruçãodomodelo;aarmazena‐ gemeotransportedomodelopodesercomplicado;edificuldadenacriaçãodemodelospararegiões muitoextensas. JáRambaldi et al.(2007)consideramqueomapeamentoparticipativocomusodemodelo3D oferecevantagensemrelaçãoaomapeamentoem2D,umavezquealcançatodasasfaixasetárias(par‐ ticipantesdequalqueridadepodemmapearsemdificuldades)efuncionacomopráticapedagógicacom osjovens,quesãoconvocadosaajudarnaconstruçãomodelo3D,apartirdaslinhastopográficasle‐ vantadasnafasedepreparaçãoparaessetipodemapeamento.Alémdisso,osmesmosautoresobserva‐ ram que os participantes foram capazes de marcar no modelo 3D, feições relacionadas tanto aos aspectostangíveisquantoaosintangíveis,queeramimportantesparaopovoindígenaOgiek,contribu‐ indoparaapreservaçãodesuacultura.Outroresultadointeressanteencontradopelospesquisadoresfoi odequeelesperceberamdiferençasentreomapeamentorealizadopeloscaçadoresdogrupoepelos agricultores,oquedemonstraqueestetipodemapeamentopodeserutilizadoparacompreendercomo osdiferentessubgruposserelacionamcomomeio. Figura 6 -VersãofinaldalegendadomapeamentorealizadoporRambaldieoutros(2007,p.122). 40 Algumastécnicasdemapeamentoparticipativooucolaborativo Na  pesquisa  de  RamirezGomes  e  outros,  o  mapeamento  3D  participativo  foi  utilizado  pa‐ ra  o  engajamento  de  comunidades  Saamaka  (ou  Saramaka,  ou  ainda,  Saramacca),  habitantes  da  parte  superior  do  Rio  Suriname,  historicamente  desprestigiados,  pela  falta  de  reconhecimento  de  seu  direito  à  terra,  frente  às  pressões  de  madeireiras  locais.  A  deterioração  de  serviços  ecossistêmi‐ cos,  dos  quais  tais  comunidades  dependiam,  levou  os  pesquisadores  a  realizarem  mapeamento  par‐ ticipativo  3D,  a  fim  de  identificar  os  principais  serviços  ecossistêmicos  da  região.  A  partir  dos  resultados  do  mapeamento,  os  mesmos  puderam  observar  que  havia  aumento  ou  diminuição  de  de‐ manda  por  determinados  serviços  ecossistêmicos  e  que  estava  ocorrendo  sobreexplotação  de  re‐ cursos  lígneos,  traduzida  pelo  aumento  da  demanda  por  madeira,  enquanto  que  a  oferta  estava  diminuindo(RAMIREZGOMESet al.,2017). Rambaldi  (2010)  elaborou  um  guia  denominado  Participatory Three-dimensional Mo‐ delling: Princípios e aplicações de orientação,  para  o  Centro  Técnico  para  a  Agricultura  (CTA)  e  a  Fundação  Ford,  que  oferece  o  panorama  do  mapeamento  3D  participativo  em  alguns  países  e  também  um  passoapasso  para  a  modelagem  3D.  O  autor  recomenda  a  validação  dos  resultados  obtidos,  por  comparação  com  outros  produtos  cartográficos  (quando  existentes)  e  com  a  verifica‐ ção  em  campo  com  auxílio  dos  participantes.  É  importante  envolver  os  participantes  na  verifica‐ ção  em  campo,  uma  vez  que  são  eles  os  conhecedores  do  território.  A  despeito  das  diferenças  entre  as  experiências  envolvendo  mapeamento  participativo  deste  tipo,  frequentemente,  os  pes‐ quisadores  ressaltam  a  importância  das  práticas  participativas  para  engajamento  comunitário  e  pa‐ ra  empoderamento  das  comunidades  em  situação  de  vulnerabilidade  ou  de  desvantagem  frente  a  pressõeseconômicas. 4. MAPEAMENTO COM APOIO DE SISTEMA DE INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA (MAP‐ PING WITH GIS) E MAPEAMENTO COM RECURSOS MULTIMÍDIA E BASEADO NA IN‐ TERNET (MULTIMEDIA AND INTERNET-BASED MAPPING) A  prática  do  mapeamento  participativo  com  apoio  de  SIG  participativo  (Participatory geographic information system,  PGIS)  foi  amplamente  divulgada  a  partir  da  publicação  em  1988  do  Participatory Learning and Action  (PLA)16,  pelo  International Institute for Environ‐ ment and Development  (IIED)  e  pelo  Institute of Development Studies  (IDS),  cuja  finalidade  foi  a  de  compartilhar  experiências  e  instrumentos  de  PGIS.  Já  em  2005,  a  prática  sofreu  grande  impulso,  pela  realização  em  setembro  de  2005,  da  Conferência  Internacional  Mapping for Change17,  em  Nairobi  (Kenya),  com  envolvimento  de  várias  instituições,  sob  a  coordenação  doIIED(VERPLANKEetal.,2016). Aexpressão'SIGdeparticipaçãopública'(Public Participation Geographic Information Sys‐ tem,PPGIS)foicunhadoem1996noencontrodoCentroNacionalparaAnáliseeInformaçãoGeo‐ gráficadosEUA(National Center for Geographic Information and Analysis,NCGIA).PPGIStemsido utilizadoparamelhoraraqualidadedatomadadedecisãorelacionadaaousodaterra,pormeiodopro‐ cessodeparticipação.Nessavia,temsidoutilizadoamplamenteporgestorespúblicos,demodoacom‐ plementar os métodos de participação. Já o PGIS, surgiu em países em desenvolvimento e visa frequentementepromoverosobjetivosdeorganizaçõesnãogovernamentais(ONGs),especialmentere‐ lacionadosaosdireitosdepovostradicionais,àpromoçãodasaúdeouaopoderpolítico(BROWN; MARKETTA,2014). Segundo  Verplanke  e  outros  (2016),  o  PGIS  teve  seu  início  na  Europa  e  no  Canadá  e  sua  maior  utilização  em  anos  recentes  tem  sido  em  países  do  Hemisfério  Sul,  abordando  grupos  menores  e  com  contato  com  o  facilitador.  Já  o  PPGIS,  surge  nos  Estados  Unidos  da  América,  sendo  sua  maior  utilização  atualmente  em  países  do  Hemisfério  Norte,  envolvendo  grupos  maiores  e  sem  contato  com  umfacilitador. 16https://pubs.iied.org/14507iied. 17http://www.iapad.org/pgis2005/. 46 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa CARTOGRAFIA 2.0 E PARTICIPAÇÃO Raquel Dezidério Souto 3 Comapopularizaçãodossistemasdeinformaçãogeográfica(SIG)quefuncionamviaInternet (denominadosabreviadamentecomowebGIS)eadisponibilizaçãodemapasdinâmicoseinterativos1,o acesso  aos  mapas  e  às  informações  geográficas  (ou  geoinformações)  ganhou  um  novo  horizonte,  abrindo  caminho  para  o  surgimento  de  sistemas  que  possibilitam  o  mapeamento  participativo  ou  colaborativo  de  forma  online2.  Para  que  tal  estágio  fosse  alcançado,  foi  necessário  o  aperfeiçoamento  dos  sistemas  e  equi‐ pamentos  computacionais,  em  paralelo  ao  desenvolvimento  da  Ciência  da  Informação  Geográfica  (Geo‐ graphic Information ScienceouGIScience;ouainda,geospatial data science). Conformevistonocapítulo2,osurgimentodosSIGparticipativos(Participatory GIS,PGIS) edosSIGdeparticipaçãopública(Public Participation GIS,PPGIS)permitiramodesenvolvimentode mapeamentosparticipativos(oucolaborativos)sofisticados,realizadosviaInternetounão.Osmapas resultantes,desdequeseguindoasconvençõescartográficas,podemserreconhecidoscomodocumen‐ tosválidosemâmbitosformais(oficiais,jurídicos,científicos,...),oquepodeserumfatordecisivoem disputaspelodireitoàpropriedadedaterra(ousobreoseuusoeocupação),ondeénecessáriocontar comaacurácialocacional. No  entanto,  à  medida  que  aumenta  a  sofisticação  do  mapeamento  participativo  (ou  cola‐ borativo),  ficam  frequentemente  de  fora  (ou  sua  participação  é  muito  dificultada)  aqueles  partici‐ pantes  (ou  colaboradores)  que  não  têm  familiaridade  com  os  programas  e  equipamentos  computacionais,  além  daqueles  integrantes  de  segmentos  sociais  que  o  mapeamento  não  'alcança',  tais  como  os  grupos  marginalizados  que  habitam  as  áreas  paupérrimas  de  aglomerados  subnor‐ mais,  os  grupos  que  vivem  afastados  dos  grandes  centros,  as  populações  tradicionais,  entre  outros.  Nesse  caso,  sugerese  normalmente  uma  fase  inicial  de  preparação  para  o  mapeamento,  na  qual  os  participantes  são  instruídos  a  respeito  das  convenções  cartográficas  pertinentes  aos  SIG  (escala  e  projeção  cartográficas,  sistema  de  coordenadas  etc),  o  que  tem  sido  denominado  como  um  proces‐ so de alfabetização cartográfica;alémdaapresentaçãodoSIGedeseusrecursos. Aindaqueosmapeamentosparticipativos(oucolaborativos)comapoiodeSIGsejammaisso‐ fisticados  que  aqueles  mapeamentos  que  não  dispõem  do  uso  de  geotecnologias,  do  mesmo  modo,  é  im‐ portante  promover  a  valorização  do  conhecimento  geográfico  local  dos  participantes  (ou  colaboradores),  1Paraumhistóricosobreaevoluçãodomapeamentoweb,consultarSousa(2011). 2Paradiferençasentreosmapeamentosparticipativoecolaborativo,consultarocapítulo1destaobra.Emsuma, no  mapeamento  participativo,  os  participantes  efetivamente  inserem  pontos,  linhas  e  áreas  no  mapa,  enquanto  que,  no  colaborativo,  os  dados  são  enviados  pelos  colaboradores  aos  responsáveis  pelo  mapeamento  que,  então,  realizam  suaplotagem. 3  A  GIScience  se  ocupa  do  estudo  dos  processos  (e  técnicas)  de  aquisição  e  tratamento  dos  dados  geoespaciais  e  de  visualizaçãodasinformaçõesgeográficas,investigandoosaspectosenvolvidosnosmapeamentos.Paraconhecer maissobreaGIScience,consultarGoodchild(1992;2015;2019);Goodchildet al.(1999)eWright,Goodchilde Proctor(1997). 47 Cartografia2.0eparticipação nosentidodedeixáloslivresnafasededefiniçãodositensdalegenda,porexemplo,ounadiscussão inicialarespeitodosproblemasencontradospelacomunidade.Nocasodemapeamentosmuitoamplos (em  que  não  há  contato  diretamente  com  os  grupos,  sendo  realizados  com  auxílio  dos  PPGIS  e  via  Inter‐ net),  ainda  assim,  é  necessário  promover  a  valorização  do  conhecimento  geográfico  local,  que,  nesse  mé‐ todo de mapear, é constituído pelas informações geográficas voluntárias (Volunteered Geographic Information,VGI),aportadaspelosvoluntários4.Umaplataformaqueexemplificaestetipodemapea‐ mento  é  o  OpenStreetMap®5  (Figura  1),  que  consiste  na  maior  base  colaborativa  da  atualidade,  contando  commilhõesdeusuárioscolaboradoresebilhõesdefeições(features)mapeadas(SOUTOet al.,2021). Talbasetemsidoutilizadaemmapeamentoscolaborativosdeáreasnãomapeadaspelogoverno(osde‐ nominadosvazios cartográficos),taiscomoasáreasruraisouasáreasurbanascomaglomeraçõessub‐ normais;ouainda,emmapeamentoscomfinshumanitários.Nessavia,destacaseoprogramaYouth Mappers6,mantidopelaUSAID(United States Agency for International Development),queoferece oportunidades  a  jovens  estudantes  universitários  de  países  em  desenvolvimento,  no  mapeamento  de  áreas  deriscoeoutrasáreasqueconstituemvazios cartográficosemseuspaíses. Para  Wright,  Goodchild  e  Proctor  (1997),  há  comumente  uma  dicotomia  na  visão  a  respeito  dos  SIG,  que  consiste  em  ora  enxergálos  como  ferramentas,  envolvendo  determinadas  classes  de  programas  e  de  hardwares  específicos,  a  fim  de  alcançar  um  objetivo  prédefinido  (utilizado  por  usuários  de  nível  de  graduação);oracomoo'fazerSIG',porpesquisadoresedesenvolvedores,comoaperfeiçoamentodos métodos  e  técnicas  envolvidos  nos  SIG  (utilizado  por  usuários  em  nível  de  pósgraduação  e  profissional).  Porém,osautoresacrescentamumaterceiravisão,queconsistena'CiênciadoSIG',queabordaosprin‐ cipaistemasenvolvidosnautilizaçãodosSIGnaatualidade.Assim,asdemaisseçõesdocapítulovisam detalharasvantagenselimitaçõesdosPPGIS,daVGIedosdadosdamultidão(crowdsourcing),relaci‐ onadosàatualprofusãodemapeamentosparticipativos(oucolaborativos)online. 1 - SIG DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA (PUBLIC PARTICIPATION GIS, PPGIS) O termo PPGIS foi cunhado em 1996 no workshop realizado pelo Centro Nacional para AnáliseeInformaçãoGeográficadosEUA7(BROWN;KYTTÄ,2014).Conformevistonoscapítulos anteriores,osPPGISdiferemsedosPGISporseuusoviaInternetepelapossibilidadedeincluirmuito maisusuários,gerandoconsequentementegrandevolumededados,doisfatoresquenecessitamserle‐ vadosemconsideraçãoquandodoplanejamentodestetipodemapeamento.Osmapeamentoscom PGISePPGIStêmsidoutilizadosnosâmbitosdoplanejamentoedagestãoambientaise,especifica‐ mente,doplanejamentoespacial(incluindooplanejamentoespacialmarinho,PEM).Aseguir,sãodis‐ cutidasasvantagenselimitaçõesdautilizaçãodestemapeamentonestesdoisâmbitos,afimdelançar luzessobreaspossibilidadesdeseuuso. 1.1 - MAPEAMENTO COM PGIS E PPGIS NO PLANEJAMENTO E NA GESTÃO AMBIENTAIS Diversosautorestêmreafirmadoaimportânciadomapeamentoparticipativo(oucolaborativo) nosâmbitosdoplanejamentoedagestãoambientais.MuitasiniciativasqueutilizamPPGIStêmemco‐ mumacaracterísticadereunirumelevadonúmerodeparticipantes(oucolaboradores)eumgrandevo‐ 4AprópriaexpressãoVGIincluiapalavra'voluntário',oquedefinequeainformaçãogeográficaéaportadade forma  voluntária  pelo  colaborador,  o  que  subentende  que  o  usuário  está  ciente  desse  aporte.  Isto  tem  aberto  discussões  sobreoslimitesparaosprogramasesistemasonlinequearmazenameutilizamdadosdegeolocalizaçãoedados pessoaisdosseususuários.NoBrasil,estelimiteéreguladonoMarcoCivildaInternet,aLeinº12.965/2014,a qual"estabeleceprincípios,garantias,direitosedeveresparaousodaInternetnoBrasil".(BRASIL,2014). 5https://www.openstreetmap.org. 6https://www.youthmappers.org/. 7  National Center for Geographic Information and Analysis  (NCGIA).  Nota  de  Paul  Schroeder  sobre  o  referido  workshop:https://www.commoncoordinates.com/ppgis/public.html. 48 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa lumededados.Algumascaracterísticas,comoabasecartográficaadotadaouasetapasdeprocessamen‐ toedepósprocessamentodosdadosgeoespaciais,individualizamasiniciativasepermitemaospesqui‐ sadoresinferiremarespeitodaeficáciadasmetodologiaspropostas.Estetipodemapeamentotemsido utilizadotambémemprojetosqueenvolvemmuitos(evariadostiposde)atores,facilitandoaaquisição de  dados  geoespaciais  e  possibilitando  o  aumento  da  complexidade  do  mapeamento,  no  sentido  da  chan‐ ce  de  maior  inclusão  de  planos  de  informação,  de  mais  categorias  para  a  legenda,  de  maior  diversidade  de  ícones,entreoutros.Alémdisso,osmapeamentoscomPPGISpermitemrealizaravalidaçãodosdados deformaautomática,como,porexemplo,aaquisiçãoautomáticadacoordenadadoponto,asercompa‐ rada  com  a  geolocalização  informada  pelo  usuário  participante  (ou  colaborador).  A  seguir,  são  destacados  alguns  estudos  de  caso  de  mapeamentos  com  PPGIS,  para  mostrar  que  tais  práticas  podem  alcançar  resul‐ tadosbastanteexpressivoseúteisnoplanejamentoenagestãoambientais. A  pesquisa  de  Barnett  e  outros  (2016),  sobre  a  relação  entre  o  mapeamento  com  PPGIS  e  a  per‐ cepçãodepescadoresresidentesnaBaíadeFundy(Canadá)acercadamitigaçãodosriscosassociadosa detritos  marinhos  (resíduos  sólidos  que  chegam  até  o  mar),  é  muito  interessante,  pois  são  escassas  as  pes‐ quisasenvolvendomapeamentodedetritosnomareoutroscorposd'água.Osdetritosforammapeados com  ajuda  dos  pescadores  e  classificados  quanto  à  sua  geolocalização  em  relação  às  áreas  arrendadas  pe‐ logovernoparaaaquicultura:até100mdoslimitesdenominadoscomoonlease(dentrodasáreas);ou off-lease(foradasáreas).Ospesquisadoresverificaramumaenormedificuldadeemmapear,devidoàs correntesdederivapresentesnomar,quepodemdeslocarosdetritosaindaduranteaatividadederegis‐ trodasualocalização.Poroutrolado,ospesquisadoresapontaramquefoipossíveldelimitarasáreasde acúmulodestesdetritoseinferir,juntoaospescadoresparticipantes,comoesseslocaisdegradadosesta‐ vam  prejudicando  a  pesca  realizada  por  eles.  Os  autores  argumentaram  que  o  conhecimento  dos  pescado‐ res  sobre  a  região  e  a  sua  percepção  do  risco  oferecido  pelos  detritos  auxiliaram  no  entendimento  dos  tipos  dedetritosmarinhosencontradoseasuadistribuiçãoespacial.Eainda,reforçaramaideiadaadoçãodo PPGIScomopromotordacomunicaçãoambiental,sendoimportanteparaauxiliarnoprocessodemiti‐ gaçãodapoluiçãomarinhapordetritos,subsidiandoasatividadesdegestãoambientalnessesentido. Brown  e  outros  (2016)  argumentam  que  os  grupos  de  interesse  em  áreas  costeiras  e  ma‐ rinhas  têm  potencial  para  influenciar  o  planejamento  e  o  gerenciamento  das  áreas  de  proteção  marinhas.  Assim,  os  autores  realizaram  um  mapeamento  com  PPGIS  com  a  participação  de  ato‐ res  de  uma  região  de  Kimberly  (Austrália),  com  vistas  a  identificar  os  valores  espaciais  e  as  pre‐ ferênciasemáreascosteirasemarinhas. Figura 1 -MapadoOpenStreetMap,comdestaqueparaoMapDataLayer.Fonte:OpenStreetMap Wiki(https://wiki.openstreetmap.org/wiki/Map_Data_layer). 49 Cartografia2.0eparticipação Os  pesquisadores  aplicaram  questionários  para  exploração  inicial  dos  participantes  (dados  demográficos,  percepção  sobre  a  pesquisa  e  conhecimento  acerca  da  região  de  estudo),  utilizaram  marcadores  prédefinidos  no  mapeamento  participativo  realizado  com  os  atores  e  aplicaram  nova‐ mente  questionários,  em  fase  de  pósmapeamento,  para  que  informassem  em  qual  grupo  de  interes‐ se  se  enquadravam  (residentes;  visitantes;  aborígenes;  pescadores  comerciais,  catadores  de  pérolas,  aquicultores;  comunidade,  governo  local  ou  estadual;  ONGs;  indústria  do  turismo,  indústria  de  óleo  &  gás;  e  pesquisa),  além  de  outras  questões  para  indicação  de  prioridades  ambientais  e  econô‐ micas8  e  sobre  quais  os  desafios  encontrados  na  região.  A  partir  dos  resultados  da  aplicação  deste  segundo  questionário,  os  participantes  foram  separados  em  grupos  e  os  dados  plotados  no  mapa  (a  respeito  de  seus  valores  espaciais  e  preferências)  foram  analisados  estatisticamente,  a  fim  de  iden‐ tificar  padrões  espaciais  nos  resultados  do  mapeamento,  segundo  os  diferentes  grupos,  como  o  esquema  da  Figura  2  (Brown  et al.,  2016).  Outras  pesquisas  realizadas  por  Brown  também  aplica‐ rammetodologiasemelhante(KARIMI;BROWN,2017;BROWN;SANDERS;REED,2018). Levine  e  Feinholz  (2015)  realizaram  o  mapeamento  participativo  para  avaliar  a  intensidade  das  atividades  humanas  costeiras  em  locais  selecionados  nas  Ilhas  Havaí  (West Hawaii e  West Maui).  Inicialmente,  os  pesquisadores  realizaram  workshop  com  tomadores  de  decisão  locais,  tendo  sido  definidas  as  categorias  de  usos  dos  recursos  naturais  na  região;  em  seguida,  foram  realizadas  oficinas  de  mapeamento  participativo  com  os  atores  dos  locais.  Os  usos  extrativos  e  nãoextrativos  foram  mapeados  pelos  participantes,  que  validaram  os  resultados  ao  final.  O  interessante  da  meto‐ dologia  de  Levine  e  Feinholz  (2015)  foi  a  utilização  de  um  gride  hexagonal  (Figura  3),  que  os  auto‐ res  afirmaram  ter  sido  adequado  para  a  realização  das  estatísticas  espaciais  em  etapa  de  pósmapeamento. Todasaspesquisasmencionadasconcordamquehánecessidadedeenvolverascomunidades habitantesdoslocaiseostomadoresdedecisãonoplanejamentoegestãoambientais,afimdealcançar aeficáciaalmejadanosplanosdegestão.Apartirdoenvolvimentodascomunidadeslocaisdaregião,é possívelcompreenderassuassingularidadeseainda,darvisibilidadeaestascomunidadesecontribuir paraoseuempoderamentonosprocessosdeplanejamentoegestãoenosprocessosderesoluçãode conflitosassociados. Emrelaçãoaoplanejamento,destacaseoplanejamentoespaciale,emparticular,oplaneja‐ mentoespacialmarinho,PEM(Marine Spatial Planning,MSP).Pesquisasvemsendodesenvolvidas nosentidodeincorporaraspráticasparticipativasnoplanejamentoespacial,tambémpeloaportededa‐ dosqualitativos(alémdapossibilidadedeconjugálosaosdadosquantitativos),oferecemquadrosde situaçãocomacurácialocacional.Aseguir,sãoapresentadasconsideraçõessobreousodePGISePP‐ GISnoplanejamentoespacial,sendoofertadosestudosdecasodeaplicaçãodessesmapeamentosno âmbitodoPEM. Figura 2 -PassoapassonaavaliaçãodasáreasmarinhaprotegidasdeKimberly(Austrália).Fonte: Brownet al.(2016,p.80,tradução) 8Eminglês,Environmental-Economics Priority(EEP),aqualcomparaasprioridadesambientaleeconômicano gerenciamentocosteiroemarinho(ouemoutrossistemasdegestão). 50 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa 1.2 - MAPEAMENTO COM PGIS E PPGIS NO PLANEJAMENTO ESPACIAL Blaschke(2004),emtextocríticosobreautilizaçãodosPGISedoPPGISnoâmbitodopla‐ nejamentoespacial,distingueduasabordagensparaaparticipação:umapública(variandoaamplitude do'público'emdoissubtipos)eoutra,centradanosatores,conformedispostonoQuadro1.Aoobser‐ varoreferidoquadro,notaseque,aoparticularizaromapeamento,ouseja,aoincluirapenasosatores envolvidosnadinâmicaaserobservada,maiorseráoengajamentoecomprometimentodosparticipan‐ tes,jáquesãopartesinteressadas.Poroutrolado,aoampliaroespectrodosparticipantes,abrindoo mapeamentoaopúblicoemgeral,oníveldecomprometimentodogrupocomomapeamentodiminui. Cabeobservarque,aindaqueoníveldecomprometimentotenhadiminuídoindividualmente,nocomp‐ togeral,osresultadosobtidospelomapeamentocomacomunidade(ougrupo)podemsersignificati‐ voseimportantesdopontodevistadagestão. Omapeamentoparticipativo(oucolaborativo)tambémtemsidoutilizadocomosuporteao planejamentourbano.MachadoeCamboim(2019)realizarampesquisaparacompatibilizaçãodoma‐ peamentocolaborativo(comOpenStreetMap®)comomapeamentodereferênciaurbano,elencandoas vantagenselimitaçõesdametodologiaproposta.Comovantagens,asautorasapontam: i)menorcusto envolvidonosmapeamentoscolaborativos;ii)empoderamentodascomunidades,quepassamainfor‐ marelementosparaomapa,podendodarlhesvisibilidadenosprocessosdeplanejamentourbano;iii)a integraçãocomomapeamentocolaborativo"temcapacidadeparaenriquecer,atualizarecomplementar omapeamentooficial"(p.17).Ecomolimitações,apontam:i)precariedadedoacervocartográficodos municípios,havendoinclusive,prefeiturasquenãodispunhamdemapadereferênciaurbanoouaque‐ lasondeomesmoestavadesatualizado;ii)"alegislaçãocartográficabrasileiraaindanãoprevêahomo‐ logaçãodedadosdeprodutoresnãooficiais"(p.17);iii)necessidadedecriaçãodeprocedimentospara realizaraintegraçãoedocumentaraqualidadedosdados. Figura 3 -IlustraçãodogridehexagonalutilizadonapesquisadeLevineeFeinholz(2015). 51 Cartografia2.0eparticipação Mapeamento com PGIS e PPGIS no planejamento espacial marinho OsmapeamentosparticipativoscomPGISePPGIStemsidoaplicadosnoplanejamentoeges‐ tãoambientaisderegiõescosteirasemarinhas,sendomuitaspesquisasconcentradasemregiõesonde háunidadesdeconservaçãodanatureza.Emgeral,ospesquisadoresorganizamworkshopscomosges‐ toreseespecialistas(acadêmicos,técnicosdogovernoetc),afimdeestabelecerprioridadesparaavali‐ açãoetemaspertinentesaoslocais.Emetapasderealizaçãodeoficinas,partedospesquisadoresutiliza umalegendaprópria,comoselementosprédefinidos,enquantoqueoutros,definemalegendaemcon‐ juntocomosparticipantes.Questionáriosparacaracterizaçãodemográficaesocioeconômicadosgru‐ pos participantes também são aplicados, a fim de melhorar a análise posterior dos resultados do mapeamento,permitindoinclusive,arealizaçãodeclassificaçõesapartirdecritériosetários,econômi‐ cos,culturaisetc.Oquedistingueasmetodologiasapresentadastambéméaopçãopelomapeamento comPGISoucomPPGIS,sendoesseúltimo,disponibilizadoviaInterneteoprimeiro,realizadopre‐ sencialmenteemreuniõescomosgruposfocais. Käyhköet al.(2019)publicaramartigosobreaimportânciadoconhecimentogeográficolocal noplanejamentoespacialmarinhoenogerenciamentocosteiroemZanzibar(Tanzânia).Apesquisafoi desenvolvidacomauxíliodoprogramaMaptionnaire®9ecomaparticipaçãotantodeleigosquantode especialistas,  que  mapearam  valores  e  atividades;  e  as  oportunidades  e  os  desafios  encontrados  na  região.  Ospesquisadoreselaborarammapassobreosvaloreseatividades,quemostramasáreasmaisvaloriza‐ das  pela  comunidade  e  os  ambientes  biofísicos,  habitats  marinhos  e  reservas  naturais  e  para  conservação. Os manuais das Nações Unidas para o PEM valorizam a participação dos atores no planejamento(Figuras4e5).SouzaeFreitas(2018)realizarammapeamentoparticipativocomPGIS eentrevistasaospescadoresdaregiãodePeruíbe(SãoPaulo),afimdemapearasáreasdepescade emalhe,queéordenadaporleiqueestabeleceáreasparasuarestrição(Figura6).Ospesquisadores puderamobservarapartirdosresultadosdomapeamento,queasáreasdepescadeemalhenaregião estãomuitopróximasàsáreasmarinhasprotegidasnaregiãoEstaçãoEcológica(ESEC)Tupiniquins eRefúgiodaVidaSIlvestre(RVS)AbrigoeGuararitama.Osautoresargumentamqueomapeamento participativoéimportanteoprocessodeplanejamentoespacialmarinho,poispoderevelarosconflitos deinteresseedeusonaregião. 9https://maptionnaire.com/ Quadro 1 -Tiposdeparticipaçãonomapeamentonoâmbitodoplanejamentoespacial Fonte:Blaschke(2004,s.p.,tradução). 52 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa Oplanejamentoespacialmarinhoemergecomoumaferramentaparaagestão doambientemarinhofrenteàsdiversaspressõesadvindasdaintensaocupa‐ çãodazonacosteiraeàintensificaçãodaexploraçãoderecursosmarinhos. Paratanto,énecessárioocompletoentendimentodadistribuiçãoespacialdas atividadesqueocorremnessesambientesecomoelasinteragementresi.A participaçãodosdiferentesusuáriosnosprocessosdedecisãopermiteaiden‐ tificaçãodepossíveisconflitosentreusuárioseobjetivosdeconservaçãolo‐ cais, tornando possíveis a mediação e a mitigação desses conflitos.Além disso,aogarantiraparticipaçãodosmúltiplosusuários,épossíveldesenvol‐ verumplanejamentoestratégicoparadeterminadaregiãoeaumentaracom‐ placência dos usuários a respeito das decisões tomadas. (SOUZA E FREITAS,2018,p.179) Figura 4 -  Elementos  do  gerenciamento,  incluindo  a  participação  dos  atores  (steakholder participation),  navisãoparaoplanejamentoespacialmarinho(PEM),segundoEhlereDouvere(2007,p.46). 53 Cartografia2.0eparticipação Klain  e  Chan  (2012)  realizaram  mapeamento  participativo  dos  serviços  ecossistêmicos  na  Ilha  Vancouver  (Canadá),  incluindo  valores  tangíveis  e  intangíveis,  que  os  pesquisadores  argumen‐ tam  serem  frequentemente  deixados  de  fora  dos  mapeamentos  participativos  para  suporte  ao  plane‐ jamento  espacial  marinho.  Para  os  autores,  há  uma  oportunidade  para  melhor  integração  entre  valores  de  serviços  ecossitêmicos  culturais  no  planejamento,  por  meio  de  protocolos  de  entrevis‐ tas;  e  que,  somente  por  meio  da  participação,  é  possível  identificar  e  quantificar  locais  particulares;  e  que  o  processo  de  planejamento  e  de  tomadadedecisão  será  mais  efetivo  se  incluir  um  compo‐ nenteparticipativo. Souto(2021)mostraqueosprincipaismarcosjurídicosdogerenciamentocosteironoBrasile nosdocumentosdereferênciainternacionaisparaogerenciamentocosteiroeparaoplanejamentoespa‐ cialmarinhocontemplamaprevisãodainclusãodaparticipaçãonoprocessodeseudesenvolvimento. Noentanto,amentalidadedaparticipaçãoaindaépoucocomumnoâmbitodoplanejamentoegestão públicosnoBrasil,tendosidodesenvolvidasiniciativasparticipativas,porpesquisadoresdeuniversida‐ Figura 5 - O continuum do ciclo de planejamento espacial marinho, segundo Ehler e Douvere (2009,p.19). Figura 6 -Figura6Etapasdametodologiautilizadanarealizaçãodomapeamentoparticipativocom ospescadoresdaregiãodePeruíbe,SP.Fonte:SouzaeFreitas(2018,p.173). 54 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa despúblicasbrasileiraseorganizaçõesnãogovernamentais.Aexceçãosãoosmapeamentosparticipati‐ vosrealizadosempartesdasUCsportécnicosdoInstitutoChicoMendesparaaConservaçãodaBio‐ diverdidade(ICMBio),orgãoquefazpartedoInstitutoBrasileirodeMeioAmbiente(IBAMA).Como muitosautoresapontam,éfundamentalincluiraparticipaçãonoprocessodeplanejamentoespacial(se‐ jaelemarinhoounão),paraquesejalevantadoumconjuntodedadosquesejarepresentativodasdinâ‐ micas(econflitos)encontrados. 2 - INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA VOLUNTÁRIA (VOLUNTEERED GEOGRAPHIC INFORMATION, VGI) E OS DADOS DA MULTIDÃO (CROWDSOURCING) Aexpressão'informaçãogeográficavoluntária'(Volunteered Geographic Information,VGI) foicunhadaporGoodchild(2007),emsuapublicaçãoCitizens as voluntary sensors: spatial data in‐ frastructure in the world of web 2.0(Cidadãoscomosensoresvoluntários:infraestruturadedadosespa‐ ciaisnomundodaWeb2.0),sugerindoaconsideraçãonosmapeamentosdasinformaçõesfornecidas pelosindivíduosvoluntariamente.OtrabalhodeGoodchildabriuocaminhoparaaCiênciaCidadã(Ci‐ tizen Science),umtipodepráticacientíficafundamentadanaparticipaçãovoluntáriadecidadãosque contribuemeanalisamdadosobtidosdamultidão. AVGIéutilizadatipicamenteeminiciativasquepartemdoscidadãos,queutilizamméto‐ dosdeamostragemvoluntáriaeascontribuiçõesindividuaisaomapeamento.Paratanto,os servi‐ ços baseados em localização (Location based services) são fundamentais no desenvolvimento de programas que trabalham com VGI, popularizados nos aparelhos de telefonia celular, conforme considerações do Centro para as Ciências Sociais Integradas Espacialmente (Center for Spatially Integrated Social Sciences,CSISS),noSpecialist Meeting on Location-Based Services,eventopro‐ movidopeloCSISS: O  Sistema  de  Posicionamento  Global  e  as  tecnologias  celulares  estão  via‐ bilizando  uma  nova  geração  de  dispositivos  eletrônicos  que  sabem  onde  estão  e  são  capazes  de  modificar  as  informações  que  coletam  e  apresen‐ tam  a  partir  desse  conhecimento.  (...)  Um  serviço  baseado  em  localização  (LBS)  pode  ser  definido  como  um  serviço  de  informação  que  explora  a  capacidade  da  tecnologia  de  saber  onde  está  e  de  modificar  as  informa‐ ções  que  apresentam.  O  Open  GIS  Consortium  deu  início  a  uma  série  de  iniciativas  relacionadas  às  especificações  técnicas  para  LBS.  (CSISS,  2001,s.p.,tradução)10 Zhang  et al.  (2019),  em  artigo  sobre  a  participação  pública  na  Geoweb 11 ,  como  uma  maneira  de  promoção  da  participação  em  governos  locais,  argumenta  que  os  avanços  nos  sensores  cidadãos  (citizen sensors)  e  no  armazenamento  de  grande  volume  de  dados  em  nuvem  (na  Internet),  denomina‐ do  como  Big  Data  (e,  especificamente  em  relação  aos  dados  geográficos,  denominado  como  Big Earth Data),  possibilitam  maior  integração  entre  os  gestores  e  os  cidadãos,  o  que  é  vantajoso  no  desenvolvi‐ mento  de  cidades  inteligentes  (smart cities).  No  mesmo  ano,  Zhang  e  outros  publicaram  artigo  sobre  a  10The Global Positioning System and cellular technologies are enabling a new generation of electronic devices that know where they are, and are capable of modifying the information they collect and present based on that knowledge. (..) A location-based service (LBS) could be defined as an information service that exploits the ability of technology to know where it is, and to modify the information it presents accordingly. The Open GIS Consortium has begun a number of initiatives related to technical specifications for LBS(CSISS,2001). 11Geoweb(ouGeographic Web)éumaexpressãopararepresentaraimportânciadageolocalizaçãonaWorld Wide Web atualmente (web 2.0).Acompanha esta evolução da web, com maior participação social e sendo denominada ainda como Cartografia 2.0. Nessa via, diversos programas utilizam os serviços baseados em localização(LBS)paraproverageolocalizaçãoeatenderàdemandaporinformaçõesdousuário(porexemplo,a consultaàlocalizaçãoderestaurantes,hotéiseoutros,nasimediaçõesdousuárioquearealiza). 55 Cartografia2.0eparticipação utilidade  de  um  sistema  web  para  o  planejamento  participativo  na  cidade  de  Wuhan  (China)  e  argu‐ mentaram  que  a  metodologia  aplicada  melhorou  a  participação  nas  fases  iniciais  do  planejamento,  po‐ rém  encontraram  dificuldades  quanto  à  participação  de  pessoas  pouco  familiarizadas  com  computadoreseoutrosequipamentos. Para  Crampton  (2009),  os  programas  free  e  de  código  aberto  (free and open source softwa‐ re,  FOSS)  foram  a  grande  mola  propulsora  da  Geoweb,  com  a  disponibilização  de  programas  e  siste‐ mas  para  mapeamento  acessíveis  ao  grande  público.  Isso  abriu  espaço  para  o  desenvolvimento  de  uma  grande  variedade  de  aplicações  independentes  (fora  do  circuito  dos  grande  softwares  comerciais  demapeamento): Existem também dezenas de ferramentas cartográficas online desenvolvi‐ das de forma independente que fornecem funcionalidade apenas anterior‐ mente disponível como parte de pacotes de software comerciais. Existem ferramentasparafazerprojeçõesdemapas,decidirsobreesquemasdeco‐ res,fazermapasanimados,converterarquivos,fazercartogramas,sobrepor camadas de mapas e, claro, fazer upload e visualizar trilhas de GPS (...). (CRAMPTON,2009,p.94,tradução)12 FostereDuham(2015)argumentamqueaVGItemsidofrequentementeutilizadacomouma novaformademocráticaeempoderadoradeciênciacidadã(Citizen Science),quepermiteadivisãodas tarefasdecoletadedadosaumgrandegrupodepessoas.Noentanto,ospesquisadoresressaltamque surgirampreocupaçõessobrequais'geografias'seriamoferecidasvoluntariamenteecomqualpropósi‐ to.MachadoeCamboim(2019)argumentamnessesentido,queénecessáriooestabelecimentodepro‐ cedimentos para automatização da coleta, análise e validação dos dados.A pesquisa de Foster e Dunham(2015)visoudeterminaraintegridadedacoberturadomapeamentoflorestalurbanogerado pelousuárionositeinterativoPhillyTreeMap13,comparandoocomimagensdesensoresremotosdeal‐ taresolução,arespeitodacoberturadodossel.Osautoresdestacaramqueafaltadedadoséaprincipal motivaçãopelabuscadaVGI. Ramahtizadeh,  Rajabifard  e  Kalantari  (2016)  realizaram  estudo   sobre  a  aplicação  da  VGI  na  administração  da  terra  (land administration)  e  sugerem  que  para  tanto,  é  necessário  com‐ preender  as  complexidades  e  interconexões  dos  aspectos  legais,  institucionais,  técnicas  e  sociais.  Os  autores  propõem  uma  estrutura  (framework)  para  o  uso  da  VGI  na  administração  da  terra  e  ar‐ gumentam  que  a  VGI  tem  contribuído  para  a  elaboração  de  projetos  menos  onerosos,  de  coleta  de  dados  mais  rápida  e  mais  facilitada.  E  que  o  uso  de  dados  colaborativos  pode  suprir  as  lacunas  de  dadosoficiais. Nessavia,oOpenStreetMap®éamaiorplataformademapeamentocolaborativoonlineecon‐ tacomumaarquiteturabastanterobusta,queincluieditorprópriodefeições(JOSM)eumainterface deprogramaçãodeaplicação(Application Programming Interface,API)queligaosistemagerenciador debancodedadosPostgresqlaosusuários,queinformamosdadosespaciais;equepossibilitaautiliza‐ çãodabasecartográficaemaplicaçõesdemapeamentoonline(Figura7).Estatemsidoaprincipalba‐ seutilizadaemprojetosdelevantamentodedadoscolaborativosparasuprirosdadosdasregiõesainda nãomapeadas(MACHADO;CAMBOIM,2019;SOUTOet al.,2021),constituindoassim,importante subsídioinformacionalaoplanejamentourbanoeregionaletambémaosprojetosdereduçãoderiscos dedesastres. 12There are also dozens of independently developed cartographic tools online that provide functionality only previously available as part of commercial software packages. Tools exist to make map projections, decide on color schemes, make animated maps, convert fi les, make cartograms, overlay map layers and of course upload and visualize GPS tracks (...). (CRAMPTON,2009,p.94) 13http://www.phillytreemap.org/ 62 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa 1 - INTRODUÇÃO Aconstruçãodenarrativascartográficasfundamentadasnainterlocuçãoentreosindivíduose suasvivênciascotidianas,promoverepresentaçõesmaissubstanciaisdarealidadededeterminadoster‐ ritórios.Nesseaspecto,asaçõesdemapeamentoparticipativotêmcolaboradonademocratizaçãododi‐ reitodeexistireresistir,pormeiodaconstruçãodepontos,linhasepolígonos,projetadosemmapas produzidoscoletivamenteesocialmente. Omapeamentoparticipativofomentadiscursosdepertencimentoereconhecimentosocioes‐ pacial,consolidandosecomoferramentadereivindicaçãodedireitosebuscaporumasociedademais justa,comequidadesocialeconservaçãoambiental.Assim,aintroduçãodemapassociaisnaelabora‐ çãodepolíticaspúblicas,podepermitiraexistênciadeaçõesfundamentadasnavalorizaçãodemúlti‐ plosconhecimentosenorespeitoaosagentesintegradosaessarealidade,resultandoemsoluçõesmais eficazeseemumagestãoterritorialcompromissadacomodesenvolvimentoefetivamentesustentável. Osrecortescosteirossãocomplexosmosaicosterritoriaisquemargeiamaságuasmarinhase fluviomarinhas,comumapluralidadedeusoseocupaçõesquereivindicamumconjuntodeaçõessiste‐ máticasnoseuordenamento,sendoessas,expressasapartirdepolíticaseplanosdegerenciamento,em múltiplasescalas,osquaispreveemmedidaseinstrumentosquediagnosticameordenamoterritório. Dentreesses,destacaseoZoneamentoEcológicoEconômicoCosteiro(ZEEC),instrumentodaPolíti‐ caNacionaldoGerenciamentoCosteiro(PNGC)(BRASIL,2004).Deacordocomaleiqueoinstitui, oZEECéumaferramentadeorganizaçãodoterritório,necessáriaparaalcançarascondiçõesdedesen‐ volvimentosustentáveldazonacosteira,emacordocomasdiretrizesdozoneamentoecológicoeconô‐ mico (ZEE) do território nacional. Ademais, tratase de mecanismo de suporte às ações de licenciamento,monitoramento,gestãoefiscalização. NoestadodoCeará,oZEECéuminstrumentodaPolíticaEstadualdoGerenciamentoCostei‐ ro(CEARÁ,2006).Temporobjetivoorganizar,deformaintegrada,asdecisõesdosagentespúblicose privadosquantoàgestãoterritorialdazonacosteiradoestado,garantindoaplenamanutençãodasativi‐ dadeseconômicas,assimcomo,possibilitandooplanejamentodeinvestimentosfuturosedosserviços ambientaisdaregião,pormeiodeumdesenvolvimentosustentável,pautadonamelhoriadascondições devidadapopulaçãolitorânea.Assim,oZEECabrangeos573quilômetrosdeextensãodazonacostei‐ radoCeará,sendodivididoemquatrosetores(CostaExtremoOeste;CostaOeste;FortalezaeRegião CARTOGRAFIA SOCIAL E A PRODUÇÃO DE DADOS PARTICIPATIVOS PARA O ZONEAMENTO ECOLÓGICOECONÔMICO COSTEIRO DO CEARÁ Adryane Gorayeb, Jader de Oliveira Santos, Regina Balbino da Silva, Thomaz Willian de Figueiredo Xavier, Anderson da Silva Marinho, Mariana Amâncio de Sousa Moraes, Assíria Batista Santos, Geovannia Maria Candido da Silva, Sarah Luana Maia do Nascimento, Leonardo Cordeiro de Sousa, Gislleidy Uchôa Tavares e Jair Bezerra dos Santos Junior 4 63 CartografiaSocialeaProduçãodeDadosParticipativosparaoZonaeamentoEcológicoEconômicoCosteirodoCeará Metropolitana;CostaLeste),agregando23municípios.Executadoinicialmenteem2006,oinstrumento passouporatualizaçõesentreosanosde2014e2016,sobretudoparaareestruturaçãoeatualizaçãodo mapeamentoedesuasescalasdeanálise.Noanode2019,oGovernodoEstadodoCearáinicioupro‐ cessodeconsultaàscomunidadesemoradoresdetodoolitoralparanovasatualizações1.Esseprocesso deatualizaçãoestevesobliderançaegestãodaSecretariadoMeioAmbiente(SEMA),emparceriacom aSuperintendênciaEstadualdoMeioAmbiente(SEMACE),tendocomoprincípiosbásicos,acom‐ preensãodoTerritório,asustentabilidadeecológicaeeconômicaeaparticipaçãodemocrática. Apesar  do  incentivo  à  participação  social,  durante  a  construção  dessa  atualização  do  ZEEC  Ce‐ ará,  ocorreram  diversas  reivindicações  por  parte  das  associações  e  organizações  comunitárias  da  zona  cos‐ teira.  Sinalizaram,  por  exemplo,  a  necessidade  de  maior  inclusão  das  comunidades  tradicionais  litorâneas  (pescadoresartesanais,quilombolaseindígenas),tantonoprocessodeconstruçãodozoneamentoquan‐ tonaformaderepresentaçãodascomunidades,emergindoapossibilidadedeintroduçãodemapeamen‐ tosparticipativos,nageraçãodedadoscartográficosequalitativosaseremagregadosaozoneamento. Diantedissoeemrazãodaprementenecessidadedemaiordetalhamentodosestudosparaa planícielitorânea,aCartografiaSocialfoiincorporadacomoumaferramentadeplanejamentopartici‐ pativoque,pormeiododesenvolvimentodasoficinasdemapeamento(levantamentodedadosprimá‐ riosevalidaçãodasinformações),culminaramnaelaboraçãodemapassociais,dandovisibilidadeàs comunidadeslitorâneasdoestadodoCeará.Assimcomo,suasterritorialidades,conflitoseameaças;e tendocomoresultadosrelevantes,aparticipaçãosocialesuaconscientizaçãosobreaimportânciado envolvimentodosmoradoresnoplanejamentoterritorial. ACartografiaSocialatuoucomomecanismobottom-up(debaixoparacima)noplanejamento daspolíticaspúblicas,comaprincipalintençãodeinserirnosprocessosdeplanificaçãoestatal,avisão daspopulaçõesdiretamenteafetadaspelosinvestimentosprivadosepelasaçõesdeordenamentoterri‐ torialdoEstado.Aintroduçãodessemapeamentoparticipativoculminouemumambienteaberto,com discussõescoletivasedelivreexpressão,possibilitandoaescutaeavalorizaçãodosposicionamentos individuaisecoletivosdoshabitanteslocais,arespeitodeseusterritóriosdevidaemoradia. Portanto,oenfoquedesteartigoéaexposiçãodosresultadosdaproduçãodosdadossocioam‐ bientaiseodesenvolvimentodosprocedimentosmetodológicosdomapeamentoparticipativo,executa‐ do no contexto do ZEEC do Ceará, em 2019 e 2020, abrangendo representações de todos os municípiosdolitoralcearense,oqualfoipossível,devidoàexecuçãodeoficinasdeCartografiaSocial, emconjuntocomaaplicaçãodematrizesdeinformaçõesqualitativas. 2 - MATERIAIS E MÉTODOS AsoficinasdeCartografiaSocialforamrealizadasentrejaneiroemarçode2020.Conjunta‐ menteàsatividadesdemapeamentoparticipativo,foramexecutadoslevantamentosdeinformações qualitativasparaproduçãodeumDiagnósticoSocioambientalParticipativo(DSAP).Nototal,ocorre‐ ram26oficinas,comcargahoráriatotalde100horas,sendo17dasoficinas,realizadasparaolevanta‐ mento de informações; e 9 oficinas, para a validação dos dados, cujas localizações podem ser visualizadasnaFigura1. Ressaltasequetaislocalidadesforamselecionadasapartirdesuasituaçãogeográfica,facili‐ dadedetransporteemobilidadeparaosparticipantes,infraestruturaderecepçãoehistóricopolíticode organizaçãosocial.Nototal,participaramcercade489pessoas,deperfilheterogêneo,comresidência emtodosos23municípioscosteirosdoCeará. Opercursometodológicoéapresentadodemaneirasistêmicanaseguinteordem:i)etapade planejamentodasoficinasemobilizaçãodascomunidades;ii)etapadelevantamentodosdados;iii) etapadeprocessamentodosdadosemambientedeSistemadeInformaçãoGeográfica(SIG);iv)vali‐ daçãodosmapassociaispreliminaresemcampoeviaWhatsApp®,porcausadoperíododeisolamento social,devidoàpandemiadaCovid19;ev)correçõesfinaiseentregadosprodutos. 1Siteoficial:http://zeecceara.com.br/. 64 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa Figura 1–MunicípioscosteirosondeforamrealizadasasoficinasdeCartografiaSociallevantamentodeinformaçõesevalidação(ZEECCeará 2021).Elaboraçãoprópria. CartografiaSocialeaProduçãodeDadosParticipativosparaoZonaeamentoEcológicoEconômicoCosteirodoCeará 65 Figura 2–MapaÍndiceedelocalizaçãodascomunidadesagregadorasdasoficinasdeCartografiaSocial,realizadasdejaneiroamarçode 2020.Fonte:ZEECCeará2021. 66 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa AsatividadescontidasnoZEECCeará2021,relacionadasàCartografiaSocial,iniciaramem dezembrode2019,comadefiniçãodascomunidadesagregadoras,amobilizaçãodasaçõeseoplane‐ jamentodosprocessosaseremrealizados.AFigura2demonstraadistribuiçãodascomunidadesagre‐ gadoras.Adefiniçãoocorreuconformeanecessidadedetrabalharcommapasnaescalacartográficade 1:25.000,exigênciadaSEMA,cujarepresentaçãoédadapelosquadrantesamarelos.Nestaescala,fo‐ ramelaborados20mapas,aolongodetodoolitoralcearense(Figura2). Aproduçãodosmapasbasecomimagensdesatélite(basemapsdoGoogle Satellite®eESRI Satellite®) levou em consideração o nível de detalhamento visual.Além dos mapas na escala  de 1:25.000,definiramseescalasmaiores(1:10.000e1:5.000)quandonecessário,conformeaFigura3.O fatordeterminantefoialimitaçãovisualexistentenaescalaprincipal,emespecialnossetores4(Extre‐ moOeste)e1(Leste).Noqueserefereàsomatotaldefolhasimpressaspararealizaçãodomapeamen‐ to,foramproduzidas52folhasdemapasbase,distribuídasentreosquatrosetoresdolitoraldoestado. 2.1 - MOBILIZAÇÃO: CONVITE À PARTICIPAÇÃO DOS MORADORES E PLANEJAMENTO DAS AÇÕES Houve  ampla  participação  e  colaboração  de  entidades  sociais  com  forte  atuação  no  litoral  cearense  (algumas,  há  mais  de  trinta  anos).  Podese  citar  especialmente  o  Instituto  Terramar,  o  Conselho  Pastoral  dos  Pescadores  do  Ceará  (CPPCeará),  o  Movimento  de  Pescadores  e  Pescado‐ ras  Artesanais  (MPP),  a  Organização  Popular  do  Aracati  (OPA)  e  a  Coordenadoria  de  Educação  Ambiental  e  Articulação  Social  da  Secretaria  de  Meio  Ambiente  (SEMA).  Destacase  que  se  trata  de  instituições  e  organizações  historicamente  engajadas  na  luta  pela  preservação  e  conservação  ambiental  da  zona  costeira,  a  partir  de  preceitos  da  justiça  social,  com  ampla  atuação  de  lideranças  Figura 3 – Cartograma que exemplifica a base multiescalar da Cartografia Social do ZEEC Ceará 2021. Polígonovermelho:1:10.000;Polígonolilás:1:25.000;Polígonoamarelo:1:30.000.Fonte:ZEECCeará2021. 67 CartografiaSocialeaProduçãodeDadosParticipativosparaoZonaeamentoEcológicoEconômicoCosteirodoCeará comunitárias,  presidentes  das  colônias  de  pesca  e  moradores,  em  geral,  das  comunidades  tradicio‐ nais  costeiras  do  Ceará  (pescadores  artesanais,  marisqueiras,  agricultores  familiares,  povos  indíge‐ nasequilombolas). A  agenda  das  oficinas  foi  divulgada  no  mês  de  Dezembro  de  2019,  por  diferentes  meios.  A  escolha  e  a  definição  da  forma  de  divulgação  foram  estabelecidas  em  conjunto  com  as  lideran‐ ças  comunitárias  e  com  os  parceiros  institucionais,  sendo  os  fatores  determinantes  para  a  escolha,  a  cultura  local,  os  recursos  e  os  meios  disponíveis  na  região:  i)  uso  de  aplicativos  de  mensagens  em  redes  sociais,  em  especial  o  WhatsApp®2,  com  envio  de  panfletos  digitais;  ii)  convites  orais  durante  as  reuniões  ordinárias  das  entidades  parceiras;  iii)  participação  em  programas  de  rádio  AM/FM,  iv)  distribuição  de  panfletos  impressos,  popularmente  conhecidos  como  “mosquitinhos”,  por  lideranças  locais;  v)  aluguel  de  carros  de  som;  e  vi)  publicação  em  sites  oficias  das  prefeituras  municipais. Naetapademobilização,foramfornecidasinformaçõesacercadosobjetivosdasoficinas,as‐ simcomoosprocedimentosmetodológicosdesuaexecução.AsoficinasdeCartografiaSocialocorre‐ ramdeformaaberta,gratuitaenãoexigirampréinscrição. 2.2 - APLICAÇÃO DE METODOLOGIAS PARTICIPATIVAS: MATRIZ SWOT E CARTOGRAFIA SOCIAL AbaseconceitualdaCartografiaSocial,comometodologiaparticipativaparaomapeamento socialdolitoralcearense,seguiuprincipalmenteospreceitosqueapontamosestudosproduzidospor Almeidaet al.(2018);Acselradet al.(2008);eGorayeb,MeireleseSilva(2015).Paraessesautores,a CartografiaSocialatuacomoferramentadeanálisecríticaeparticipativa,deformaaprivilegiaradeli‐ mitaçãoecaracterizaçãoespacialdeterritóriosemdisputa,sejaporinteressessocioambientais,econô‐ micoseculturais,comvínculosancestraisesimbólicos. Aelaboraçãodosmapassociaisfoipossívelapartirdeduasetapas,obedecidasduranteas17 oficinasrealizadasnosmesesdejaneiroefevereirode2020:i) construçãodematrizesqualitativas,uti‐ lizandosedopreenchimentodasplanilhasFOFA(Fortalezas,Oportunidades,FraquezaseAmeaças), tambémconhecidascomomatrizSWOT(Strength, Weakness, Opportunity, Threat)eii)aplicaçãode princípiostécnicometodológicosdaCartografiaSocial(Figura4). AsplanilhasFOFApermitiramoregistrodosfatoresinternoseexternos,positivosenegati‐ vos,julgadosrelevantespelosparticipantes(Figura5).Tratasedemetodologiajáutilizadaemcontex‐ tossocioambientaisequevislumbraramagestãocolaborativadosrecursosnaturaiseseususos,em diferentes contextos (VIEGAS; MONIZ; SANTOS, 2014; BULL, 2016; XAVIER; GORAYEB; BRANNSTROM,2020). Primeiramente,foireservadoumespaçodetemponomomentodeaberturadasatividades,pa‐ raasexplicaçõessobreos objetivos gerais daoficina no contexto do ZEEC,tendosidorealizados es‐ clarecimentossobreasmetodologiasparticipativasqueseriamempregadas.Comointuitodefornecer provocaçãoàreflexãodosparticipantesacercadeseusterritórios,foraminstigadasbrevesdiscussõese problematizações,pormeiodeperguntasnorteadoras:Qual é o meu território? O que tem de bom e de ruim nele? O que faço para viver bem no meu lugar? Quais são os conflitos e problemas que existem onde moro? TaisquestionamentosorientaramasatividadesdeconstruçãodasmatrizesFOFAedosmapas sociaiseprovocaramdebatesintensos,sendoconstantementeresgatadas,aolongodostrabalhosparti‐ cipativos,possíveisrespostasàsindagações. 2AmplamentedifundidonoBrasil,inclusiveentreascamadasmaispobresdapopulação,devidoasergratuito, terinstalaçãosimpleserápidaeserdefácilutilização(mensagensdetextoe/ouáudio).Ébastanteusadoespeci‐ almentenazonacosteiracearense,porrequererbaixosinaldeInternet,passíveldeutilizaçãocomintermitência desinal. 68 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa Figura 4–AplicaçãodeprincípiostécnicometodológicosdaCartografiaSocial.Elaboraçãoprópria. EmrelaçãoàCartografiaSocial,emcampo,fezseusodeprocedimentosdomapeamentopar‐ ticipativo,istoé,elaboraçãodemapasdeesboço(CORBETT,2006).Paratanto,foramempregadas ferramentasdigitaiscomplementares,comoaconsultainlocoaoGoogle Earth Pro,ousodeSIGs(es‐ pecialmente,osoftwareQGIS®)eolevantamentodecoordenadas,comauxíliodeumreceptordena‐ vegaçãodesistemaGNSS(Global Navigation Satellite System).Foramfeitosregistrosemcadernetas decampoanalógicaseemaparelhosdesmartphone,captandoseimagensepequenosvídeos,alémde teremsidorealizadasgravaçõesdeáudio(composteriortranscrição),comanuênciadosparticipantes. Aofinaldodiadeoficina,eramfeitosregistrosfotográficosdasmatrizesedosmapassociais,porme‐ norizadamente,enviandoosparaoarmazenamentoemnuvem,demodoasalvar,protegerepartilhar comaequipetodasasinformaçõessociaisrelevantesdapesquisa. Os  mapasbase  para  elaboração  dos  mapas  de  esboço,  foram  organizados  a  partir  das  feições  territoriais  representativas  sobre  as  imagens  de  satélite  (basemaps  do  Google Satellite ®  e  ESRI Satelli‐ te ® ),  por  parte  dos  participantes  das  oficinas,  utilizando  caneta  hidrocor,  colas  coloridas  e  marcadores  permanentes.  Foi  possível  demarcar  feições  espaciais  que  expunham  informações  sobre  as  paisagens  naturais  (praias,  lagoas,  dunas,  manguezais,  lagamares,  falésias  etc),  atribuindoas  significados  particu‐ Figura 5–ElaboraçãodasplanilhasFOFA:a)nacomunidadedeFlecheiras(TrairiCE);b)nacomunidadedo Batoque(AquirazCE).Fonte:AcervodasoficinasdoZEECCeará2021. 69 CartografiaSocialeaProduçãodeDadosParticipativosparaoZonaeamentoEcológicoEconômicoCosteirodoCeará lares  conforme  os  usos,  experiências,  temporalidades  e  tradicionalidades  intrínsecas  (medicina  popular,  culinária  típica  com  produtos  locais,  histórias,  contos  e  religiosidades).  Adicionalmente,  foram  realiza‐ dos  registros  sobre  as  experiências  culturais  e  o  modo  de  vida  tradicional  das  comunidades,  com  o  rela‐ to  das  festas  religiosas,  regatas  desportivas,  festivais  de  música,  danças  típicas  e  cantorias,  produtos  da  agricultura  familiar  e  do  artesanato  típico  do  litoral  cearense  (com  palhas  de  coqueiro  e  carnaúba,  cipó,  linhasdealgodão,etc.)(Figura6). NoLaboratóriodeGeoprocessamentoeCartografiaSocial(LABOCART)doDepartamento deGeografiadaUniversidadeFederaldoCeará(UFC),asinformaçõesforamdigitalizadasutilizando seosoftwarelivreQGIS®3.x.,pormeiodavetorizaçãodasfeiçõesproduzidassobreimagensdesatéli‐ te(basemapsdoGoogle Satellite®eESRI Satellite®)eintegralizadasembasesdedadosgeográficos. Osarquivosdedados,noformatoshapefile(.shp),foramarmazenadosemnuvem,oquegarantiurapi‐ deznarealizaçãodadigitalização.Osarquivosvetoriaiscriadosseguiramaseguinteestrutura:Id(nu‐ meraçãoíndice);Nome(toponímiadoquefoimapeado);Descrição(explicaçãosintéticadosignificado decadafeição)eFonte(indicaçãodaoficinadeorigemeadatadarealização). Figura 6– a) Construção dos mapas sociais na comunidade da Prainha de CantoVerde, no município de Beberibe;b)enaSecretariadeDesenvolvimento,Trabalho,Agricultura,MeioAmbienteePesca(SEDEMA)do municípiodeIcapuí;c)Exemplodelegendaelaboradaduranteaconstruçãodosmapasdeesboço.Fonte:Acervo dasoficinasdoZEECCeará2021. Quadro 1–Basescartográficasvetoriaiserasters utilizadascomofontesdedadosparaosmapassociaisfinais Elaboraçãoprópria. Nosmapassociaisfinais,foramutilizadasbasescartográficasvetoriaiserastersdefontesin‐ ternacionais,nacionaiseestaduais.NoQuadro1sãoindicadastodasasinformaçõesutilizadas. 70 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa Os  métodos  de  pesquisa  social  qualitativa  complementares  à  Cartografia  Social,  que  integraram  oDSAP,asaber,apontamentosemdiáriodebordo,gravaçõesdeáudio(composteriortranscrição)e preenchimento  das  matrizes  FOFA,  foram  essenciais  para  compreender  com  maior  profundidade  as  infor‐ maçõestextuaiseiconográficasdosmapaselaboradosduranteasoficinas.Oaportedosdadosqualitati‐ vos  aos  mapas  sociais  possibilitou  o  incremento  de  ideias  aos  mapas,  sanando  incompreensões  ou  mesmo  incoerências  espaciais,  e  atribuindo  significativa  qualidade  aos  mapas  e  às  explicações  textuais  complementares. Asmetodologiasdapesquisasocialqualitativapossibilitaramainserçãodemaiordiversidade deinformaçõesnosmapas,incluindofalasefotografiassignificativasquerepresentavam,porumlado, omododevidadascomunidadestradicionaiscosteirase,poroutro,osconflitoseasagressõesque,ro‐ tineiramente,essaspopulaçõessofrememseusterritórios,devidoàinsegurançadapossedasterraseà invisibilidadedoEstado(LEROY;MEIRELES,2013). Parainserirosmapasdentrodeumalógicacientífica,oprocessamentodosdadosespaciaisea criaçãodosmapassociaispassaramporprocessosdenormatizaçãobásica,quevisaramaaplicaçãode regrascartográficas,comainserçãodosseguinteselementos:projeção,sistemadecoordenadas,escala, convençõescomsímbolospadronizadoselegenda.Talformalizaçãogarantiuacompreensãouniversa‐ lizadadasfeiçõesproduzidasnosquatrosetoresdazonacosteiracearense,tornandoainterpretaçãoea compreensãodosmapasacessíveisaopúblicoemgeral. Asistematizaçãodasinformaçõesmapeadaspelosparticipantessedeupormeiodoagrupa‐ mentoportemáticas.Paracadatemáticaestabelecida(conflitosterritoriais,áreasdepesca,unidadesde conservaçãoetc.)foramcriadaslegendasespecíficas,quefaziamumaassociaçãointuitivaedinâmica dasuarepresentação.AsimbologiafoiproduzidapormeiodobancodesímbolosvetoriaisSVG(Sca‐ lable Vector Graphics),disponíveisnaplataformaWeb Flaticon®3enabibliotecadoQGIS®. Além  da  criação  de  simbologias  de  compreensão  universal,  preservando  as  caraterísticas  únicas  eintrínsecasatribuídasaoselementosdaspaisagenspelosparticipantesdasoficinas,outrodesafioque ospesquisadoresprecisaramenfrentarfoiacriaçãoderecortesdevisualizaçãodomapeamento(visões multiescalares),integrandoosquatrosetoresdolitoralcearenseemumamesmapranchadeimpressão. Asoluçãoencontradapararepresentartodaaextensãodolitoralcearense,semdescontinuida‐ des(pois,osistemadepadronizaçãodaslegendasprecisavagarantiracoesãoeacoerênciadastemáti‐ casmapeadas)obedeceuaosseguintescritérios:a)respeitoàsopiniõesdosmapeadoressociaisque participaramdasoficinas;b)fidelidadeaoquefoidesenhado,analogicamente,nosmapasduranteas oficinas;c)padronizaçãoeunificaçãodetemáticasgerais,levandoseemconsideraçãoasdiferenças técnicasdeconstruçãodelegenda,atualizaçãodetoponímiaseobediênciaàsconvenções;d)coesão, coerênciaesequênciadosdadoscoletadosemcampo,considerandosequeosfenômenosespaciaissão contínuos,multiescalares,multitemporaisemultifacetados. Aetapadevalidaçãodosmapassociaisfoirealizadanomêsdemarçode2020,quandoa equiperetornouàcampo(em9oficinas)eapresentouasversõespreliminaresdoscincomapassociais, emgruposdetrabalhoquerepresentavamespecialmenteasliderançascomunitáriaseprincipaisentida‐ dessociaisenvolvidas(Figura7).Ressaltaseque,durantetodooprocessodedigitalizaçãodosmapas, aequipemantevecontatodiretocomosmobilizadoresdascomunidades,viaemaileWhatsApp®,sub‐ metendoàaveriguação,cadaetapadeconstruçãodosmapasemlaboratório. Osprodutosfinaisforamprojetadosnosentidode:i)fornecerbancodedadoscomarquivos padronizadosnaescaladelevantamentodedadosemescala1:25.000;eii)apresentarcincomapasso‐ ciaiscomlayoutqueagreguemasinformaçõessobreterritorialidades,ameaçaseconflitoseumlevan‐ tamentonãodefinitivodascomunidadestradicionaisautodeclaradasdolitoraldoCeará: a.MapaNãoDefinitivodascomunidadestradicionaisautodeclaradasdoLitoraldoCeará; b.CartografiaSocialdaCostaExtremoOestedoCeará; c. CartografiaSocialdaCostaOestedoCeará; d.CartografiaSocialdeFortalezaeRegiãoMetropolitana; e.CartografiaSocialdaCostaLestedoCeará. 3Linkdeacesso:https://www.flaticon.com/br/. 71 CartografiaSocialeaProduçãodeDadosParticipativosparaoZonaeamentoEcológicoEconômicoCosteirodoCeará Figura 7–a)ValidaçãodosmapassociaisnacomunidadedeCumbuco(CaucaiaCE);b)membrodaequipena comunidadedeCurralVelho(AcaraúCE).Fonte:AcervodasoficinasZEECCeará2021. Ressaltasequeascomunidadesautodeclaradascomopopulaçõestradicionais,devidoàsua cultura,religiosidade,afetividadeeancestralidade,atestamsuapermanênciaenquantomoradoresde comunidadestradicionaisem:cadastroemcolôniasdepesca,sindicatosdetrabalhadoresrurais,associ‐ açõescomunitárias,gruposdetradiçãocultural,dentreoutrasformasdeassociativismo.Alémdisso, conformeoDecreton°6040,de07defevereirode2007,Art.3o,incisoI,povosecomunidadestradici‐ onaissãodefinidosenquanto: Gruposculturalmentediferenciadosequesereconhecemcomotais,quepos‐ suemformasprópriasdeorganizaçãosocial,queocupameusamterritóriose recursosnaturaiscomocondiçãoparasuareproduçãocultural,social,religio‐ sa,ancestraleeconômica,utilizandoconhecimentos,inovaçõesepráticasge‐ radosetransmitidospelatradição(BRASIL,2007). Os  cinco  mapas  finais  foram  integralizados  com  layout  definido  em  escalas  que  variaram,  setorialmente,  entre  1:70.000  e  1:90.000  (escala  de  apresentação  dos  dados  integralizados).  Já  o  mapa  de  localização  das  comunidades  autodeclaradas  tradicionais  do  Ceará  foi  elaborado  na  esca‐ la  de  1:400.000,  com  visão  geral  e  atualizada  do  levantamento  (preliminar  e  nãodefinitivo),  em  marçode2020. 3 - RESULTADOS E DISCUSSÃO Noprocessodevalidaçãoeconsolidaçãodomapeamento,emmarçode2020,obteveseo quantitativototalde294comunidadestradicionaisautodeclaradaspresentesnolitoraldoCeará,ecom amploreconhecimentosocialeentrepares4. AcentralidadedoprocessodeconstruçãodaCartografiaSocialnoZEECdoCearáfoieviden‐ ciarapercepçãodosmoradoresdascomunidadestradicionaisdolitoraldoCeará,acercadesuasubsis‐ tênciaeseumododevida,considerandoasprincipaispotencialidadesnaturais,econômicasesociais, assimcomoasproblemáticasedificuldadesvivenciadasemseucotidiano. As  informações  qualitativas  demonstram  que  o  cotidiano  dos  moradores  é  conduzido  por  atividades  relacionadas  à  pesca  artesanal,  agricultura  familiar,  criação  de  pequenos  animais,  extrati‐ vismo  vegetal  (medicina  popular),  cultura  e  arte  (artesanato,  gastronomia,  música,  dança,  religiosida‐ de,festas)eprestaçãodeserviços(atividadesrelacionadasaocomércio,turismoeesportesnáuticos). 4Fontecomoquadroqueespecificaonomedacomunidade,omunicípioeoestágiodereconhecimentopode serconsultadonodocumentoconsolidadodoZEECCeará2021. 78 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa Figura 12 –LegendadoMapaSocialdaCostadeFortalezaeRegiãoMetropolitana.Fonte:ZEECCeará2021. 79 CartografiaSocialeaProduçãodeDadosParticipativosparaoZonaeamentoEcológicoEconômicoCosteirodoCeará AsoficinasdeCartografiaSocialemFortalezaeRegiãoMetropolitanaforamconcentradas emcincoencontros,distribuídasnasprimeirassemanasdejaneiroemarçode2020,comumacargaho‐ ráriatotalestimadaem20horas.Cercade85pessoasede16entidadesderepresentaçãosocial,política egovernamentalparticiparamformalmentedasatividadesdeconstruçãodosmapassociais,queforam nucleadasnascomunidades:AldeiaJapuara,RESEXBatoque,BocadaBarradaSabiaguaba,Cumbuco eTerraIndígenaTapeba(Quadro4). OsprincipaisconflitoseameaçasàscomunidadestradicionaisdaCostadeFortalezaeRegião Metropolitanaestãorelacionados:i)àerosãocosteiraintensanolitoraldeAquiraz,emBatoque;ii)aos problemasreferentesàespeculaçãoimobiliáriaemCaucaia,causandoconflitoscomoslimitesdaster‐ rasindígenasdoPovoAnacé;iii)aosconflitosdosindígenasAnacécomosmotoristasdebuguesetri‐ lhões(carrosdetrilhaoff-road),devidoaotráfegointensoemambientesinapropriados;iv)cercamento delagoasepraias,comrestriçãopúblicaaosacessos,devidoàexpansãodeloteamentosemáreasdeta‐ buleiroeaosresortsnaspraias;ev)ameaçasàpescaartesanal,devidoàimplantaçãodeparqueeólico off-shorenolitoraldeIcaraí. “Aaudiência[públicadoprojetodeenergiaoffshorenoIcaraí]foihorrível, muitaspessoasestavammaispreocupadascomapolíticaenãocomoproje‐ to.Ospescadorestêmreceiodapescaficarrestritaemtornodoprojeto[e] nãoexistenenhumagarantia[depesca].Nósproduzimosumamédiade15 toneladasdepescadoporanoenaáreaondeseráinstaladoosespigões[com torreseólicas]éberçáriodelagosta.”(pescador,moradordolitoraldeCau‐ caia,marçode2020). ACostaOestetotaliza3.120,73km²,cujaplanícielitorânea(áreaconsideradaparaomapea‐ mento)compreende194,23km²,abrangendo49comunidadestradicionais.Foramdefinidos78ele‐ mentos que compuseram: 12 geobiodiversidades, 36 territorialidades (infraestrutura; atividade Quadro 3 –RelaçãodasEntidades,MovimentosSociaiseInstituiçõesqueparticiparamdasoficinasdecartogra‐ fiasocialnosmunicípiosdaCostaLestedoCeará Fonte:ZEECCeará2021. 80 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa econômica;religiosidade,afetividade,tradição,lazerecultura)e30conflitoseameaçasàscomunida‐ destradicionaiseaoambientenatural11(Figura13). AsoficinasdeCartografiaSocialdaCostaOesteforamconcentradasemquatroencontros, distribuídosnassemanasdejaneiroamarçode2020,comumacargahoráriatotalestimadaem14ho‐ ras.Cercade88pessoase11entidadesderepresentaçãosocial,políticaegovernamental,participaram formalmentedasatividadesdeconstruçãodosmapassociais,queforamnucleadasnascomunidades: Lagoinha,FlecheiraseAssentamentoMaceió(Quadro5). OsprincipaisconflitoseameaçasàscomunidadestradicionaisdaCostaOesteestãorelaciona‐ dos:i)aosconflitosentreospescadoreseosdonosdebarracasdepraia,devidoàdistribuiçãodasme‐ sasnapraiaqueinterferemnosportosdasembarcações(jangadas,paquetesebotes);ii)àfaltade ordenamentodaatividadedokitesurf,inclusivenalagoadoJegue;iii)àdesativaçãodeescolaspúbli‐ cas;iv)àespeculaçãoimobiliária;ev)àcarcinicultura. “Comacarciniculturateveadiminuiçãodospescados,amudançaeoafasta‐ mentodospássaros,porqueelesacabaramcomosmanguescomaparteque tinhaargilaebarro.EagoraelesestãoaumentandoproladodaCamboas.Eo nossomedotambéméacontaminaçãodaáguadasCamboas.Ela[carcinicul‐ tura]usamuitoprodutoquímico.OnossomedoéelesvirempraCanabrava [ondetemumalagoa],queéondeabasteceáguapraParaipabatoda.Conta‐ minatudo,osolo,aágua.”(morador(a)daCostaOestenaOficinadeCarto‐ grafiaSocialemLagoinha,janeiro/2020). ACostaExtremoOesteteveabrange5.019,555km²,eaplanícielitorânea(áreaconsiderada paraomapeamento)tem638,13km²,abrangendo88comunidadestradicionais.Foramdefinidos75 elementosquecompuseram:15geobiodiversidades,31territorialidades(infraestrutura;atividadeeco‐ nômica;religiosidade,afetividade,tradição,lazerecultura)e29conflitoseameaçasàscomunidades tradicionaiseaoambientenatural12(Figura14). Quadro 4–Relaçãodasentidades,movimentossociaiseinstituiçõesqueparticiparamdasoficinasdecartogra‐ fiasocialnosmunicípiosdaCostadeFortalezaeRegiãoMetropolitana Fonte:ZEECCeará2021. 11OmapasocialpodeserconsultadonodocumentoconsolidadodoZEECCeará2021. 12OmapasocialpodeserconsultadonodocumentoconsolidadodoZEECCeará(2021). CartografiaSocialeaProduçãodeDadosParticipativosparaoZonaeamentoEcológicoEconômicoCosteirodoCeará 81 Figura 13 LegendadoMapaSocialdaCostaOeste.Fonte:ZEECCeará2021. 82 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa Figura 14 –LegendadoMapaSocialdaCostaExtremoOeste.Fonte:ZEECCeará2021. 83 CartografiaSocialeaProduçãodeDadosParticipativosparaoZonaeamentoEcológicoEconômicoCosteirodoCeará AsoficinasdeCartografiaSocialdaCostaExtremoOesteforamconcentradasemdezencon‐ tros,distribuídosnassemanasdejaneiro,fevereiroemarçode2020,comumacargahoráriatotalesti‐ mada em 42 horas. Cerca de 135 pessoas e 10 entidades de representação social, política e governamentalparticiparamformalmentedasatividadesdeconstruçãodosmapassociais,queforam nucleadasnascomunidades:Bitupitá,Chaval,Preá,CurralVelho,Almofala,Tatajuba,Jericoacoarae CaetanosdeCima(Quadro6). OsprincipaisconflitoseameaçasàscomunidadestradicionaisdaCostaOesteestãorelaciona‐ dos:i)àfaltadeordenamentodaatividadedokitesurf;ii)problemasreferentesàpresençadosparques eólicosonshore;iii)possíveisameaçasdainstalaçãodeparqueseólicosoffshore;iv)conflitosnousoda águapotável;v)êxodorural,especialmenteentreosjovensqueprocurammelhoresdecondiçõesdees‐ tudoetrabalhonascidadesmédiasregionaisenacapital,Fortaleza;vi)violênciarelacionadaàsfacções criminosas(drogasearmas);vii)conflitosentreoturismotradicionaleoturismocomunitário,comên‐ fasenospasseiosdebuggysobreasdunasnoslençóiscaetanenses(AssentamentoSabiaguaba);viii) presençadecarrosdesomnaspraias(poluiçãosonora);ix)especulaçãoimobiliáriaintensaeirregular emambientesdemanguezal,dunasepraias;ex)sentimentodedesconfiançadosmoradorescomas instituiçõesgovernamentais,comdestaqueaoórgãodelicenciamentoambientalestadual(SEMACE). “Essaseólicaspranóséumpéssimoinvestimento,elevemtirarnossacultu‐ ra,nossoespaço,vemtrazerdestruiçãopranossasáreasdemanguezaleapi‐ cum, vêm tirar o acesso nosso e o sossego, chega bem na beiradinha da nossa casa batendo, quando é a noite faz barulho que parece uma maré cheia, sem contar o perigo, uma bicha [torre] dessa cair.” (morador(a) da CostaExtremoOeste,naOficinadeCartografiaSocial,emCurralVelho AcaraúCE,janeiro/2020). Quadro 5–Relaçãodasentidades,movimentossociaiseinstituiçõesqueparticiparamdasoficinasdecartografia socialnosmunicípiosdaCostaOeste Quadro 6–RelaçãodasEntidades,MovimentosSociaiseInstituiçõesqueparticiparamdasoficinasdeCarto‐ grafiaSocialnosmunicípiosdaCostaExtremoOeste Fonte:ZEECCeará2021. Fonte:ZEECCeará2021. 84 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa 3.3 - O MAPEAMENTO PARTICIPATIVO COMO ESTRATÉGIA PARA A CONS‐ TRUÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS OlitoraldoCeará,apesardesuadiversidadenaturalemultiplicidadesociocultural,possuisi‐ milaridadesrelevantesemtermosambientais,assimcomoconflitoseameaçasqueagemdemodo transversalnoterritórioeimpactamolitoral,delesteaoeste(CORIOLANO,2008;RODRIGUES, 2011;CAVALCANTE,2012;GOMES,2014;MENDES;GORAYEB;BRANNSTROM,2016). Omapeamentoparticipativopossibilitouidentificarpreliminarmente294comunidadestradi‐ cionaisnolitoraldoCeará.Assuasatividadestradicionaissãopautadasnousocoletivodaterraedos territóriosmarinhosefluviolacustres.Osmoradoresdascomunidadestradicionais(quilombolas,indí‐ genasepescadoresartesanais)identificaramumamultiplicidadedetemasrelacionadosaos:recursos naturais,serviçosecossistêmicosedinâmicasdoselementosquecompõemaspaisagens. Naconstruçãodaslegendasdosmapassociais,osrecursosnaturais,oselementosdaspaisa‐ genseosserviçosecossistêmicosassociadosforamofocodosrelatosrelacionadosàvantagemdese morarnolitoraldoCeará.Abelezacênicadaspaisagens,aprodutividadepesqueira,apresençadenas‐ centesecorposhídricos,moradaselocaisdeapariçõesdecetáceos,mamíferosmarinhosededesova detartarugas,sãoalgunsexemplos.Nestecontexto,osmoradoresressaltaramainda,aimportânciadas unidadesdeconservaçãodolitoral(parques,reservasextrativistas,áreasdeproteçãoambientaleáreas depreservaçãopermanente). O turismo comunitário desenvolvido por diversas comunidades, como Caetanos de Cima (emAmontada),PrainhadoCantoVerde,Balbino,PontaGrossa,Redonda,RequenguelaeTremembé (emIcapuí)eTatajuba(emCamocim);foiidentificadocomgrandevalorpelascomunidadestradicio‐ nais,assimcomoaslocalidadesdasescolasruraismunicipaiseestaduais,presentesnascomunidades enoslugaresemqueocorremasmanifestaçõesculturais,astradições,asentidadesreligiosasemní‐ vellocaleregional.Osesportesnáuticos,comokitesurf,windsurf,mergulhoetc.,sãoapontadasco‐ mo positivos nos locais onde ocorrem, contanto que haja respeito mútuo entre os praticantes, os pescadoreseosbanhistaslocais. Apossibilidadededesenvolveratividadestradicionais,comoagriculturafamiliar,pescaarte‐ sanal,extrativismoparaartesanatoecoletadeplantasparafinsmedicinaispodemseralvosdepolíticas, planos,programaseprojetos,quersejaporaçõespúblicasouprivadas.Nestecontextoeemrelaçãoàs possíveisaçõesdogovernoestadual,porexemplo,ressaltamseaspolíticasqueenvolvemaregulariza‐ çãofundiáriaeasquestõesconcernentesaolicenciamentoambiental.Comosugestão,estainiciativa devetercomofocoajustiçaemrelaçãoaosprocessosparaaregularizaçãofundiária,comênfaseaopa‐ pelmediadordoEstado,naresoluçãodosconflitosentreasparteseaintensificaçãodafiscalizaçãoea constituiçãodeumacultura,porpartedosórgãosfiscalizadores,deconsulta(ampla,honestaesincera) juntoàscomunidades,antesdainstalaçãodeempreendimentosprivados,quetenhamporpremissaos aspectosdasjustiçasprocessuaisedistributivas. Assim,épossívelencontrarconformidadesemtermosdepercepçãodosmoradoresdolitoral, emgeral,relacionadosàsameaçasdevidoagentesexternosprivados(grandesprojetosdeturismo,car‐ ciniculturae/ouenergia),atividadeseconômicasdifusas(esportesnáuticos,off-roadeespeculaçãoimo‐ biliáriaparafinalidadesdiversas)ouconflitosinternosquenecessitamdemediaçãodoPoderPúblico. Aslegendasdosmapasindicaram:aespeculaçãoimobiliáriaintensaeirregular,emespecialparaotu‐ rismo(construçãoeexpansãodehotéis,pousadasebarracasdepraia),comfocosdeviolênciaetrans‐ gressõesdedireitos,aprivatizaçãodesítiosarqueológicoseáreasdepreservação;deficiêncianacoleta delixo(comdestaqueàfaltadeconsciênciaambientalerelaçãoàdestinaçãoadequadadosresíduos sólidos,dosmoradoresevisitantes);conflitoscomatividadeseconômicasjáestabilizadasnolitoral,co‐ moacarciniculturaeosparqueseólicosonshore,devidoaobloqueiodeacessos(dunas,manguezaise praias);àprivatizaçãodeáreaspúblicas,cercamentosnaspraias,queimpedemoacessopúblicoedifi‐ cultamadesovadastartarugas;àpoluiçãoassociadaàmanutençãodosviveirosdecamarão;poluição sonoranaspraiaseconflitosentreosmoradoreseosbugueiros/carrosdetrilhão,devidoaotrânsitoir‐ regularnasdunasefalésias;privatizaçãodeáreaspúblicas,cercamentosnaspraiaselagoasdevidoà expansãoirregulardeloteamentoseaosresortsnaspraias. 85 CartografiaSocialeaProduçãodeDadosParticipativosparaoZonaeamentoEcológicoEconômicoCosteirodoCeará Sobreaexpansãodaredehoteleira,Evangelistaet al.(2016)indicara,tambématravésdouso demapeamentoparticipativo,queainstalaçãodehotéispromoveutranstornosàscomunidadeslocais, inclusive,isolandoasdecamposdedunasquepromovemacessoalagoasinterdunaresnomunicípio deBeberibe,noLitoralLeste.Chaves(2019),aoinvestigaroprocessodeapropriaçãoterritorialdeem‐ preendimentoseólicosemterritóriosquilombolasnacomunidadedoCumbeemAracati,indicouquea insegurançanapossedasterrasfoiprovidencialnaexclusãodosmoradoreslocais,nasdecisõesacerca dainstalaçãodestasiniciativas.Alémdisso,aautoradestacaqueosimpactosproduzidosporessatipo‐ logiadeempreendimentoforamesãosentidosdeformadistinta,umavezqueosresidentesusamosre‐ cursosnaturaisepossuemrelaçõesdiferentescomoempreendimento.Nascimento(2014),Tavares (2018)eSampaio(2020)obtiveramcomoprincipaisresultadosdeseusestudosnolitoraldoCeará,os impactos socioambientais às comunidades tradicionais, advindos da instalação de parques eólicos onshoreefazendasdecarciniculturaemseusterritórios,enumerandoumasériededanosambientais, comoassoreamentodeleitosderioselagoasinternadunares,erosãocosteira,poluiçãohídricaeaumen‐ todainsegurançaalimentardosmoradoreslocais. Noambientemarinho,foramcitadasameaçasrelacionadasàsressacasdomar,erosãocosteira, salinizaçãodaáguasubterrâneaealagamentosàsmargensdaslagoas.Problemasdepescapredatória, emespecialusodecompressoremarambaia(MENDES;GORAYEB;BRANNSTROM,2016).Jáa respeitodospotenciaiscausadoresdeconflitos,foiapontadaaexistênciadeprojetosdeparqueseólicos offshore(PEO),emtrêsdiferentessetores:CostaExtremoOeste,CostaOesteeFortalezaeRegiãoMe‐ tropolitana.Segundoosrelatos,osmoradoresestimamquetaisempreendimentosirãoimpactarnegati‐ vamente a pesca e a navegação, além de causar impactos ainda desconhecidos no ambiente geobiofísicomarinhoepraial.Xavier,GorayebeBrannstrom(2020),aoanalisaremospotenciaisim‐ pactossocioambientaisdePEO,noLitoralOestedoCeará,demonstraramqueasáreasutilizadaspelos pescadoressesobrepõemdiretamenteàsáreasdosPEO,planejadosnaregião.Destaforma,emvirtude daexistênciaderegrasdetrafegabilidadedaMarinha13,estimasequeaexclusãodeáreasdepescaafe‐ taráfortementeospescadoreslocais,sobretudo,dascomunidadesdeMoitas,CaetanosdeCimaeCae‐ tanosdeBaixo(emAmontada). Noqueserefereàsaçõesparamelhoriadavidadospescadoresepescadorasdolitoralcearen‐ se,aspropostaspodemserresumidasem:i)promovercapacitaçõescomospescadores;ii)construir mercadosdevendadepescadocomrefrigeraçãoadequada;iii)oferecerfinanciamentoseprojetospara investimentonareformadematerialdepesca;iv)ordenaraatividadedekitesurf,criandozonasdeatu‐ açãodemodoanãoprejudicarapesca;v)criarauxíliofinanceironoperíododedefesodocamarão; vi) incentivaraaquisiçãopelasprefeiturasdosprodutosdapescaartesanalparaamerendaescolarpor meiodoPAA(ProgramadeApoioàAgriculturaFamiliar);evii)incentivarocréditodeprodução(agrí‐ colaepesqueira)àjuventudeparasuafixaçãonascomunidadeseparaodesenvolvimentodasativida‐ destradicionais. 4 - CONCLUSÕES Estecapítulobuscouapresentaranáliseacercadaparticipaçãopúblicanoplanejamentoterri‐ torial,sobretudonocontextodaCartografiaSocial,enfatizandoodesenvolvimentotécnico,operacio‐ nalelogísticoderealizaçãodasoficinasparaoZoneamentoEcológicoEconômicoCosteironoCeará (CEARÁ,2021).Abordouseainda,comoosindicadoresmapeadosevidenciaramelegitimaramosdi‐ ferentesusoserelaçõesdospovoscosteiroscomsuastradições,nolitoralcearense.Valeressaltarquea incorporaçãodaCartografiaSocialeminstrumentoestataldeplanejamentofoiumainovaçãonacional epossibilitoutrazerasvozesdascomunidades,mesmoquedemodoincipiente,paraoprocessooficial deordenamentoterritorial. ACartografiaSocialpossibilitou,pelaprimeiravez,olevantamentopreliminardoquantitati‐ vodascomunidadestradicionaislitorâneasdoCeará:294comunidadese439moradores,juntamente com54entidadesrepresentativas,mapearam573kmlongitudinaisdecosta,inserindolegendascomte‐ 13Paramaisinformações,verificaraNORMAM11/DPC,napágina221,item0217,queversasobreinstalação deparqueeólicomarítimo. 86 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa máticasvoltadasàgeobiodiversidades,territorialidades(infraestrutura;atividadeeconômica;religiosi‐ dade,afetividade,tradição,lazerecultura),conflitoseameaçasàscomunidadestradicionaiseaoambi‐ entenatural. A  Cartografia  Social  privilegia  o  conhecimento  popular,  simbólico  e  cultural,  como  meio  de  pro‐ duzir  o  mapeamento  de  territórios  tradicionais,  étnicos,  sagrados  e  coletivos,  em  áreas  urbanas  e  zonas  ru‐ rais.  A  metodologia  de  construção  dos  mapas  sociais  possibilitou  o  planejamento  participativo  em  várias  esferasdeatuação,umavezqueaatitudedemapearasações,osobjetoseosprocessosresultaramem uma  maior  reflexão  em  grupo  do  cotidiano  e  de  sua  práxis,  possibilitando  o  exercício  de  atitudes  cidadãs.  Nesteâmbito,aCartografiaSocialdoZEECdoCeará2021,pormeiodaconstruçãocoletiva dosmapasduranteasoficinasdetrabalho,auxiliounoprocessoderepresentaçãoespacialdolitoraldo Ceará,dandovisibilidadeàscomunidadestradicionaisautodeclaradas,integrandoaconstruçãododi‐ agnósticoparticipativo,comarepresentaçãovisualdosdadoseexpondoasterritorialidades,conflitose ameaçaspresentesaolongodacosta. FoipossívelobservarqueaaplicaçãodasMatrizesFOFA,paraauxiliarostrabalhosdemape‐ amentodaCartografiaSocial,agregouinformaçõesqualitativasqueampliaramoroldetemasaserem mapeadosepropiciouaprévalidaçãodasinformaçõesinseridasnosmapasdeesboço,elaboradosdu‐ ranteasoficinas.Alémdisso,agravaçãodasfalaseanotaçõesemcadernetasdecampo,comoferra‐ mentassecundárias,possibilitaramatriangulaçãodedadosqualitativos,influenciandopositivamente narobustezdasinformaçõesadquiridas. Emboraasmetodologiasparticipativastenhamsemostradoeficazes,érelevantedestacarque houvelimitaçõesemseususos.Asoficinasforamplanejadasemummodeloquenãopossibilitouaca‐ pacitaçãodosparticipantesnasabordagensutilizadas,etapaimportanteparatornarpossívelodesenvol‐ vimento do entendimento socioespacial das comunidades. O pouco tempo disponibilizado (quatro meses)eosrecursoslimitadosparaaexecuçãodasatividades,emvirtudedagrandeextensãodolitoral cearense(573km),influenciaramsobremaneiranodesenhoconcisodasoficinas. OmodelodeCartografiaSocialadotadoconstituiuimportantemétododeanálisedascondi‐ çõessociaisdolitoraldoCeará,comfortesníveisdeaceitabilidadesocialeparticipaçãoativadopúbli‐ co,umavezquepossibilitouaatuaçãodosmoradores,dediferentesformaspormeiodaexpressão oral,daescritaedodesenho.Alémdisso,ametodologiafoidesenvolvidaemformatolivre,comparti‐ cipaçãoespontânea,agregandopúblicosdiversosque,porumlado,podiamserfiéis,acompanhando todaaagendadeatividadese,poroutro,podiamserflutuantes,dandocontribuiçõesdemodointermi‐ tenteeextemporâneo.Aliberdadefoiumcaráterintrínsecoàsações,emqueosparticipantesexpuse‐ ramsuasideiascomfocoemtemáticasespecíficas,comoatividadeseconômicas,agricultura,pesca, esporte,cultura,lazer,religião,etc. Porfim,entendesequeaconstruçãodosmapassociaispelosmeiosaquiexpostos,foiuma primeiraaproximaçãoestratégicaparapossibilitaramplainclusãoeparticipaçãodapopulaçãocosteira nocontextodoplanejamentoterritorial.Entretanto,afirmasequenãohágarantiaqueoconhecimento dascomunidadestradicionaisproporcionará,defato,influênciasnodirecionamento dodesenvolvi‐ mentoeconômiconazonacosteiradoCeará.Destaforma,éimportanteressaltaranecessidadeda constantevigilânciapelosmoradoreseentidadesparceiras(MinistérioPúblico,associaçõescomunitá‐ rias, órgãos públicos, universidades, movimentos sociais, coletivos e demais entidades parceiras), quantoaousodosdadosproduzidos.Assim,concluisequeestaaçãoabreportasparaofortalecimento domapeamentoparticipativo,comoinstrumentoativo,naspolíticaspúblicasdeplanejamentosocioes‐ pacialdolitoraldoCeará. AGRADECIMENTOS OsautoresagradecemaofinanciamentodapesquisapelaSecretariadeMeioAmbiente(SE‐ MA)doCeará;assimcomoaparticipaçãoativadosmoradoresdolitoral;eoapoiofornecidopelos principaisparceiros:CoordenadoriadeEducaçãoAmbientaleArticulaçãoSocialdaSEMA,Instituto Terramar,ConselhoPastoraldosPescadoresdoCeará(CPPCeará),MovimentodePescadoresePesca‐ 87 CartografiaSocialeaProduçãodeDadosParticipativosparaoZonaeamentoEcológicoEconômicoCosteirodoCeará dorasArtesanais(MPP)eOrganizaçãoPopulardoAracati(OPA).Otrabalhofoipossíveldevidoàde‐ dicaçãodealunosdagraduaçãoemLicenciaturaeBachareladodoDepartamentodeGeografiadaUni‐ versidadeFederaldoCeará(UFC),assimcomodaparticipaçãofundamentaldediscentesdomestrado edoutoradodoProgramadePósGraduaçãoemGeografiadaUFC. REFERÊNCIAS ACSELRAD,H.et al. Cartografias Sociais e Territórios.RiodeJaneiro:UniversidadeFederaldoRio de  Janeiro  (UFRJ),  Instituto  de  Pesquisa  e  Planejamento  Urbano  e  Regional    IPPUR,  2008.  Coleção  Ter‐ ritório,  ambiente  e  conflitos  sociais;  n.  1.  Disponível  em:  http://www2.fct.unesp.br/  docentes/geo/raul/car‐ tografia_tematica/leitura%204/Cartografias%20Sociais%20e%20Territ%F3rio.pdf.  Acesso  em:  27  jan.  2020. ALMEIDA,A.W.B.et. al. Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia (PNCSA).Disponívelem: http://novacartografiasocial.com.br/.Acessoem:27jan.2020.(Plataformadeacessoaoprojetocom‐ pletocomaspublicações). ALMEIDA,B.F.M.A.Cartografia social e conflitos territoriais no assentamento Sabiaguaba, Cea‐ rá, Brasil.DissertaçãodeMestrado(ProgramadePósGraduaçãoemGeografia),UniversidadeFederal do Ceará, Fortaleza, 2018. Disponível em: http://www.repositorio.ufc.br/handle/riufc/34938.Acesso em:24mar.2021. BRAGA,M.S.deC.Embarcações a vela do litoral do Estado do Ceará: construção, construtores, navegação e aspectos pesqueiros.2013.342f.Tese(doutorado)UniversidadeFederaldoCeará,Ins‐ titutodeCiênciasdoMar,PósGraduaçãoemCiênciasMarinhasTropicais,Fortaleza,2013.Disponível em:http://www.repositorio.ufc.br/handle/riufc/9496?mode=full.Acessoem:mar.2021. BRANDÃO,C.R.A comunidade tradicional.In:COSTA,J.B.A.LUZ,C.(Orgs.).Cerrado,Gerais, Sertão:comunidadestradicionaisdossertõesroseanos.MontesClaros:2010.P1365.Disponívelem: http://nupaub.fflch.usp.br/sites/nupaub.fflch.usp.br/files/a%20comunidade%20trad160.pdf.Acessoem: 13fev.2021. BRASIL.Decreto Federal nº 5.300 de 7 de dezembro de 2004.RegulamentaaLeino7.661,de16de maio  de  1988,  que  institui  o  Plano  Nacional  de  Gerenciamento  Costeiro    PNGC,  dispõe  sobre  regras  de  usoeocupaçãodazonacosteiraeestabelececritériosdegestãodaorlamarítima,edáoutrasprovidên‐ cias. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato20042006/2004/decreto/d5300.htm. Acessoem:17fev.2021. ____.Decreto Federal n° 6.040, de 07 de fevereiro de 2007.InstituiaPolíticaNacionaldeDesen‐ volvimento Sustentável dos Povos e ComunidadesTradicionais. Disponível em: http://www.planal‐ to.gov.br/ccivil_03/_ato20072010/2007/decreto/d6040.htm.Acessoem:10ago.2019. BULL,J.W.et al. Strengths, Weaknesses, Opportunities and Threats: A SWOT analysis of the ecosys‐ tem services framework.EcosystemServices,v.17,p.99111,2016.Disponívelem:http://macroecoin‐ tern.dk/pdfreprints/Bull_etal_EcosysServ_2016.pdf.Acessoem:24mar.2021. CAVALCANTE,E.O.Modernização seletiva do litoral: conflitos, mudanças e permanências da loca‐ lidade do Cumbuco (CE).2012.138f.Dissertação(MestradoemGeografia)CentrodeCiências, UniversidadeFederaldoCeará,Fortaleza,2012.Disponívelem:http://www.repositorio.ufc.br/handle/ riufc/7789.Acessoem:24mar.2021. CEARÁ.Lei nº 13.796, de 30 de junho de 2006.InstituiaPolíticaEstadualdeGerenciamentoCostei‐ ro,eoPlanoEstadualdeGerenciamentoCosteiroedáoutrasprovidências.Disponívelem:https:// www.al.ce.gov.br/legislativo/legislacao5/leis2006/13796.htm.Acessoem:17fev.2021. CHAVES,L.O.Modos de vida e conflitos pelo uso dos recursos naturais na Comunidade do Cumbe, Aracati, Ceará - Brasil. 2019.277f.Tese(DoutoradoemDesenvolvimentoeMeioAmbiente)Uni‐ versidadeFederaldoCeará,Fortaleza,2019.Disponívelem:http://www.repositorio.ufc.br/handle/riufc/ 47339.Acessoem24mar.2021. 94 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa ParaapresentarorelatodessasexperiênciascomométodoMAP,opresentecapítulofoiestru‐ turadodaseguinteforma:primeiro,seráfeitaumabreveexplicaçãosobreoMAP;emseguida,seráfei‐ taacontextualizaçãodaBaciaHidrográficadoTurvo/Grande(BHTG),territórioemquefoirealizada aaplicaçãodoMAP;nasequência,serãoapresentadasasduasexperiênciaspropriamenteditas;e,final‐ mente,seráapresentadaumadiscussãoarespeitodosaprendizadoseperspectivasquesurgiramapartir dasexperiências. 2. O MÉTODO DE MAPEAMENTO AMBIENTAL PARTICIPATIVO (MAP) O  método  de  Mapeamento  Ambiental  Participativo  (MAP),  aqui  abordado,  tem  uma  longa  trajetória  de  aplicação  no  estado  de  São  Paulo,  que  se  iniciou  na  década  de  90  (CARPI  JUNIOR,  2012;  DAGNINO;  CARPI  JUNIOR,  2016;  ARAÚJO,  2019;  BARBOSA,  2019)  e,  mais  recente‐ mente,  em  diferentes  estados  brasileiros.  Passou  por  diversas  adaptações  ao  longo  dessa  trajetória,  pois,  sendo  uma  modalidade  de  Cartografia  Social,  é  natural  que  acompanhe  as  mudanças  históricas  esocioculturais. Mesmocomtodasasmudançasocorridas,aessênciadoMAPsemanteve.Essênciaestaque dizrespeitoàimportânciadaspessoasenvolvidasnoprocesso,duranteasuaaplicação.Emoutraspala‐ vras,oMAPsefazcompessoas,que,aoparticiparemdasuarealização,levamsuasvozes,históriasde vida,suamemória,indignações,entretantasoutrascoisas. DagninoeCarpiJunior(2016)destacamaimportânciadetodasasdimensõesenvolvidasno mapeamentoparticipativoediscorremque [...]realizarmapeamentosparticipativosémaisdoqueouvirapopulaçãoe coletardados.Ésemelhanteaumatopolítico,ondeaspessoassãochamadas asereuniresãoouvidas,numprocessoquevalorizaacultura,amemóriaco‐ letiva,apercepção,alinguagempopulareaexperiênciahistóricadospartici‐ pantes. Reúne a indignação da comunidade, dá voz e espaço para a organizaçãopolítica.Éjustamenteisso,quediferenciaassessõesdemapea‐ mentodastentativasdeadministrarconflitos,jáque,aocontrário,asessão pretendeevidenciarosconflitosenãoadministrálos.(DAGNINO;CARPI JUNIOR,2016,p.23) Em  meio  a  tantos  métodos  de  mapeamento  participativo  e  cartografias  sociais,  com  dife‐ rentes  enfoques  temáticos  e  recortes  espaciais,  conforme  atentam  Dagnino  e  Carpi  Junior  (2016),  o  MAP  vem  se  destacando  em  trabalhos  com  temas  pertinentes  a  diagnósticos  que  estão  relacio‐ nados  aos  aspectos  ambientais,  à  qualidade  da  água  e  à  gestão  de  recursos  hídricos  em  áreas  urba‐ naserurais. O  MAP  também  está  sendo  cada  vez  mais  utilizado  nos  estudos  relativos  a  bacias  hi‐ drográficas,  pois,  por  meio  de  reuniões  públicas,  a  comunidade  aponta,  em  bases  cartográficas,  as  diversas  situações  encontradas  na  bacia  e  no  local  onde  vivem.  Assim,  é  possível  fornecer  para  a  comunidade  um  ambiente  para  construção  de  um  diagnóstico  da  bacia  hidrográfica  e  que,  inclusive,  pode  ser  verificado  posteriormente  por  técnicos  ligados  às  instituições  de  gestão,  como  CBHs,  poder  público,  entre  outras,  sendo  útil  também  na  elaboração  e  discussão  de  ins‐ trumentos  de  gestão  de  recursos  hídricos,  como  o  Plano  de  Bacia  Hidrográfica3  (BARBOSA,  2019). 3 Os planos de recursos hídricos ou Planos de Bacias Hidrográficas são alguns dos instrumentos de planejamentoegestão,queservemparaorientarasociedadeeostomadoresdedecisão,paraarecuperação, proteção e conservação dos recursos hídricos das bacias ou regiões hidrográficas correspondentes (SÃO PAULO,2021b). 95 Mapeamentoambientalparticipativonabaciahidrográficadoturvo/grandesp:participação,gestãoeeducaçãoambiental 2.1 - A APLICAÇÃO DO MAP O  MAP  é  composto  por  duas  etapas  principais:  mobilização  e  oficina  colaborativa;  que,  em  de‐ terminadas  situações,  podem  ser  parcialmente  adaptadas.  Contudo,  essas  etapas  possuem  certo  rigor  me‐ todológico,oquetornaoMAPcientífico,dopontodevistaacadêmico,eválido,dopontodevistada gestãosocioambientaleparacontribuircomaformulaçãodepolíticaspúblicas.TodoométodoMAPé pautadoemoficinasereuniões4colaborativaseaáreadeestudosédefinidaconformeosobjetivosdo projeto  e  da  sua  aplicação.  As  oficinas  são  realizadas  sobretudo  com  apoio  de  material  cartográfico  (ma‐ pas  base  da  área  de  estudos)  e  materiais  didáticos,  que  são  elaborados  previamente  pela  equipe  técnica  do  projeto. Aetapa da mobilizaçãoéfundamentalparadivulgaroprojetoechamaracomunidadepara fazerpartedoprocesso.Essamobilizaçãopodeocorrerdediversasformas,quedependemdasinstitui‐ çõesenvolvidasnoprojeto.Emgeral,sedápeladivulgaçãoeconvitedasatividadesentreinstituiçãoe comunidade,pormeiodecartazes,meioeletrônico,entreoutrasformas.Nasexperiênciasqueserãore‐ latadas,amobilizaçãoocorreuprimeiramentejuntoaoComitêdeBaciaHidrográficadoTurvoeGran‐ dee,apartirdele,paraacomunidade.Comacomunidademobilizada,começaaetapa da oficina colaborativa.Conformejámencionado,aquantidadedeoficinaspodevariardeacordocomoobjetivo geraldoprojetoeaáreadeestudo.Aorganizaçãodasatividadesdependedaquantidadedeoficinase, porisso,podeserdivididaemmaisdeumaoficina. QuandooMAPaconteceumumaúnicaoficina,nelasãorealizadasasseguintesatividades: •apresentaçãodosparticipantes •discussãodostemaseconceitosprioritáriosdoprojeto •aplicaçãodoMAPpropriamenteditoquandoosparticipantes,tendoemmãosasbases cartográficas,identificamdeformaparticipativa,osriscosepotencialidadessocioambien‐ taisdaáreadeestudos •apresentaçãodosresultadosereflexãocoletiva •avaliaçãodoprocesso É importante ressaltar que a ação pedagógica para a alfabetização cartográfica, necessária paraaaplicaçãodoMAP,éintegradaaométodo.Istoquerdizerque,duranteasoficinas,ospartici‐ pantes conseguem se apropriar de uma linguagem cartográfica, que é necessária para a realização das atividades participativas e para trabalhar com as bases cartográficas. Eventualmente, poderão ser realizadas outras oficinas para subsidiar o MAP. Normalmente, nestas oficinas, são elencadas prioridades,dentreosriscosepotencialidadessocioambientaisidentificadoscomoMAP,esãorea‐ lizadostrabalhosdecampoparaverificaçãodedadosin loco.Estasoficinasocorreramemumdos projetosqueseráapresentado.Omaterialproduzidoduranteasoficinasésistematizadopelaequipe técnicaeapresentadoparaapopulaçãointeressada,poderpúblicoedemaisinstituiçõesenvolvidas, resultandoemummaterialdigitalizado. 3 - CONHECENDO A BACIA HIDROGRÁFICA DO TURVO/GRANDE ABaciaHidrográficadoTurvo/Grande,localizadanoestadodeSãoPaulo,compõeaBacia doRioGrande,quetempartedoterritórionoestadodeSãoPauloeoutra,noestadodeMinasGerais. SegundooInstitutodePesquisasTecnológicas(IPT,2008),aBaciaHidrográficadoTurvo/Grandefoi definidacomoaUnidadedeGerenciamentodeRecursosHídricos(UGRHI15),pormeiodoPlanoEs‐ tadualdeRecursosHídricosdoEstadodeSãoPaulo,publicadonoanode1994.AFigura1destacaa localizaçãodaUGRHI15noestado,dentreasoutrasUnidadesdeGerenciamento. 4Notadosautores:osdoistermos,oficinaereunião,foramutilizadosnosprojetosapresentadosnocapítuloeseu usoestáadequadoaoMAP.Nopresentetexto,trabalhasecomotermooficina. 96 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa AsUnidadesdeGerenciamentoforamdefinidasafimdefacilitaragestãodosrecursoshídri‐ cosnoestado,enormalmentesãodelimitadaspelosterritóriosdasrespectivasbaciashidrográficas,co‐ moéocasodaBaciaHidrográficadoTurvo/Grande.Algumasexceçõessãoabaciahidrográficado RioParanapanemaeadoRioTietê. OterritóriodabaciadoTurvo/Grandeéformadopor75municípiosepossuiumapopulação totalaproximadade1.280.832hab.,sendo93,5%residentesnaáreaurbana.Umtotalde12subbacias compõemoterritóriodaUGRHI15,conformedemonstraaFigura2.ÉaquartaUGRHIemtamanho deáreadedrenagemdoestado,abrangendo15.975km2,(CBHTG,2020) OComitêdeBaciaHidrográficaTurvoGrande(CBHTG),colegiadoresponsávelpelagestão daUGRHI15,foifundadoem15dedezembrode1995.Suacomposiçãoatendeaoprincípiodeuma gestãotripartite,comapresençaderepresentantesdoPoderPúblico(EstadoeMunicípios)edasocie‐ dadecivil,incluindoosusuáriosdeágua.OCBHTGéumcomitêestadual,poisabaciadoTurvo/ GrandeestáemsuatotalidadenoestadodeSãoPaulo. Com relação aos indicadores sociais, os dados disponíveis são do Índice de Desenvolvi‐ mentoHumano(IDH),referentesaorelatóriodesituaçãodoanode2010.Essesdadosindicamque aproximadamente20% dosmunicípiosdabaciaestavamacimada médiaestadual,compontuação de0,814(CBHTG,2010). Orelatóriodesituaçãodabaciahidrográficarelativoaoanode2019apresentaosseguintes dadosdesaneamentobásico:93%doesgotoeratratado;21municípiospossuíamatendimentodeágua abaixode90%;e100%dosmunicípiosdestinavamresíduossólidosparaaterrosadequados.Quantoao índicedequalidadedaáguanabacia(IQA),considerandoospontosdemonitoramentodaCETESB, emaproximadamente62%dospontos,oIQAéconsideradoBom(CBHTG,2020). ConformeabordadonoPlanodeBaciadestaUnidadedeGerenciamento,grandepartedas atividadeseconômicasestãorelacionadasaosetorprimárioe,porestemotivo,amaiordemandade águanabaciaéparaousorural.Porcontadaocupaçãodoterritóriodabaciapelasatividadesprimá‐ rias,sobretudopelaculturadacanadeaçúcar,epelacrescenteurbanização,avegetaçãonaturalre‐ manescentereduziuparacercade7%,sendoascategoriasdemaiorocorrência:aFlorestaEstacional SemidecidualeaFormaçãoArbórea/ArbustivaemregiãodeVárzeaeSavana.Estãolocalizadasno limitedaUGRHI,doisimportantesreservatórios,quetambémsãoaproveitadosparaatividadesnáu‐ ticasedelazer:oReservatóriodeIlhaSolteiraeoReservatóriodeÁguaVermelha. Comrelaçãoaosproblemassocioambientaiseaspectosnegativos,nolevantamentorealizado porTavareseFerrante(2009),foramidentificados: •erosão •faltademataciliareassoreamentodosrios •baixoíndicedematanativa •avançodoplantiodecanadeaçúcarepoluiçãodoarcomqueimadas •loteamentosirregularesqueavançamnamatanativa •baixadisponibilidadehídricaepoluiçãodaágua •lixo(aterronãocontrolado) •altacaptaçãoedesperdíciodeáguanairrigação •soloemprocessodedesertificação •desaparecimentodefauna •altoíndicedemortalidadedapopulaçãoporcâncer •intoxicaçãoporagrotóxicos •faltadeconscientizaçãoedeaçõesdepreservaçãoambiental •poluiçãovisual Mapeamentoambientalparticipativonabaciahidrográficadoturvo/grandesp:participação,gestãoeeducaçãoambiental 97 Figura 1–LocalizaçãodaUGRHI15noestadodeSãoPaulo.Fonte:CARPIJUNIORet. al.(2016) 98 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa Figura 2–BaciaHidrográficadoTurvo/GrandeesubbaciasUGRHI15.Fonte:REGEA(2017). 99 Mapeamentoambientalparticipativonabaciahidrográficadoturvo/grandesp:participação,gestãoeeducaçãoambiental Esta  informação  sobre  os  problemas  socioambientais,  que  tem  como  base  dados  forneci‐ dos  por  dirigentes  das  ONGs  ambientalistas  da  UGRHI,  é  fundamental,  pois  é  anterior  aos  dois  projetos  de  MAP  realizados  na  bacia,  servindo  de  base  de  comparação  aos  problemas  e  riscos  apontados  durante  as  oficinas.  Atualmente  o  CBHTG  identifica  a  degradação  dos  recursos  hídri‐ cos  superficiais  associados  a  uso  e  ocupação  inadequados  do  solo  como  principal  problema  na  bacia(CBHTG,2021). 4 - RELATOS DAS EXPERIÊNCIAS COM O MAP OsrelatosdasexperiênciascomaplicaçãodoMAPserãoapresentadosporordemcronológica. Primeiramente,seráapresentadooprojetoMapeamento Ambiental participativo: experiência de edu‐ cação ambiental na bacia hidrográfica Turvo/Grandee,emseguida,oprojetoConhecendo o Comitê e mapeando a bacia: formação para uma gestão participativa do território. 4.1 - MAPEAMENTO AMBIENTAL PARTICIPATIVO: EXPERIÊNCIA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA BACIA HIDROGRÁFICA TURVO/GRANDE Estaexperiênciacorrespondeaumainiciativaquenasceuapartirdasdiretrizesdoprojetode capacitaçãoeeducaçãoambientalBacia Hidrográfica: Um Instrumento na Educação.Oprojeto,volta‐ doaeducadoresealunosdoensinoformal,foidivididoemtrêsmódulos,cadaumcomumtemaespe‐ cífico de trabalho:  água, solo e bacia hidrográfica. O projeto teve início em 2009 e contou com diversasaçõesdeEducaçãoecapacitação,alcançandomaisde15milalunos,aolongodosseus3anos. Dentreasatividades,estavamdesdeaministraçãodecursoscomcargahoráriarelativaàespecialização atéarealizaçãodasvisitasmonitoradasadiversoslocaisdabacia(CARPIJUNIORet al.,2014). A  base  de  trabalho  foi  o  Polo  Regional  Centro  Norte,  órgão  da  Agência  Paulista  de  Tec‐ nologia  dos  Agronegócios  (APTA),  localizado  no  Município  de  Pindorama  (SP)  e  um  dos  inte‐ grantes  da  Bacia  Hidrográfica  do  Turvo/Grande.Segundo  Carpi  Junior  e  outros  (2014),  o  Polo  Regional  pode  ser  considerado  referência  de  prática  conservacionista  do  solo  e  centro  de  capaci‐ tação  de  educadores  e  tem  atuado  nos  últimos  anos  em  parceria  com  o  CBHTG  e  com  outras  en‐ tidades  e  instituições  de  ensino.  Além  disso,  foi  destacado  seu  papel  mobilizador  das  Diretorias  Regionais  de  Educação  (DRE’s)  do  Interior  Paulista  e  das  Secretarias  Municipais  de  Educação,  paraodesenvolvimentodepráticasdeeducaçãoambiental. Descrição das atividades realizadas com a aplicação do MAP e resultados AaplicaçãodoMAPpropriamenteditafoirealizadaemumaoficinanoanode2011,denomi‐ nadaIdentificação de riscos e alterações ambientais em bacias hidrográficas(CARPIJUNIORet al., 2016).Naoficina,foramtrabalhadosostemasespecíficosdecadamódulodoprojeto,oquepossibili‐ touintegrartodasasdiscussõesquesurgiramdesdeoseuinício,em2009. ParaaplicaçãodoMAPnoterritóriodaUGRHI15,buscouseconceberumaregionalização queabarcasseaomenosummunicípiodecadaumadas12subbacias.Mas,comonãofoipossível realizarasoficinasemcadaumdosmunicípiospreviamenteselecionados,porcontadelogísticae/ou apoioderecursosfinanceiros,osparticipantesdeslocaramseparaoPoloRegionalCentroNorte,em Pindorama. E assim, participaram 55 educadores e técnicos ambientais dos seguintes municípios:  Ariranha,Fernandópolis,Mirassol,Guapiaçu,Catanduva,Olímpia,Orindiúva,SantaAdélia,Tanabi, ItajobiePindorama. AmetodologiaparaaaplicaçãodoMAPaconteceuemdoisperíodos(manhãetarde).Noperí‐ odo  da  manhã,  foi  realizada  uma  palestra  técnica,  para  apresentar  aos  participantes  os  conceitos  de  bacia  hidrográfica,riscosambientaiseexplicaçõessobreométododoMapeamentoAmbientalParticipativo 100 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa (MAP).Noperíododatarde,foirealizadaumaatividadeprática,emqueforamdistribuídosaospartici‐ pantes,osmapasbasedecadamunicípioenvolvidoeummapageraldetodaaáreadabaciahidrográfi‐ caTurvo/Grande,representadapelaUGRHI15.Osmapasbaseforampreviamenteelaboradospela equipecoordenadora,apartirdomaterialcartográficocedidopeloCBHTG. Apósadistribuiçãodasbasescartográficas,foramformadosgruposconformeomunicípiode origemdosparticipantes.Cadagruporecebeuseumapabaseeumroteirobásicodeidentificaçãode riscos.Partindodoseuconhecimentoepercepçãosobreaáreadapesquisa,osparticipantes,comauxí‐ liodecanetashidrográficascoloridas,indicaramnomapabase:i)quaiseramassituaçõesderiscosam‐ bientaiseondeapareciam;ii)quaiseramosaspectosambientaispositivos(ousuaspotencialidades)e ondeapareciam.Aolongodaatividade,osgrupostambémfizeramumrelatoescritosobreasdiscus‐ sõeseapontamentos.AfinalizaçãodaatividadedeMAPfoifeitaatravésdaapresentaçãodosmapas, quandocadagrupocomentousobresuaspercepçõeseascaracterísticasdecadamunicípioesobreo quefoimapeado. Aofinal,osmapascomosapontamentosforamrecolhidospelaequipe,paraacompilaçãodos dados,organizaçãodomaterialcartográficocominserçãodosgrafismosesímbolos,alémdaorganiza‐ çãodapartetextual.Paraadigitalizaçãodomaterialcartográfico,foiutilizadoosoftwareCorelDraw®. No  processo  de  digitalização,  tomouse  o  cuidado  em  manter  o  mais  fiéis  possíveis,  os  apontamentos  re‐ alizadospelacomunidade.Nestesentido,édegrandeimportância,arealizaçãodetrabalhosposteriores, paraconfirmaçãodedados(comaconfirmaçãoin locoeoutroslevantamentos),paramanteratualizada apesquisa.Paraotratamentodomaterialtextual(osrelatos),adotouseomesmocritériodefidelidade. Tambéméimportantefrisarque,sendooMAPummétodocolaborativo/participativoemque estáenvolvidaacomunidadededeterminadolocal,éprecisorigorcomafidelidadedosapontamentos, notratamentodosdados.Nãohá,nestaetapadedigitalização,informaçõesaseremcorrigidaspela equipecoordenadora,pois,todososdadospartemdapercepçãodacomunidade.Ademais,nomomento daoficina,osparticipantestrabalhamcomoprincípiodomapamentale,geralmente,nãoutilizamre‐ cursosdesensoriamentoremotoegeoprocessamento. Apartirdosmateriaisdasoficinas,foipossívelproduzirumconjuntodedezmapas,umpara cadamunicípio:Ariranha;Fernandópolis;Mirassol;Guapiaçu;Catanduva;Olímpia;Orindiúva;Santa Adélia;TanabiePindorama.OsparticipantesdomunicípiodeItajobirealizaramostrabalhosreferentes aumtrechodaUGRHITietêBatalha,ondeselocalizaasedemunicipaldessemunicípio,masforam convidadospeloprojetoporfazerpartedaDREdeCatanduva. OprimeiromapaabrangeatotalidadedaUGRHITurvoeGrande(Figura3).Nele,podemser visualizadostodososmunicípiosquefizerampartedaoficinaeoconjuntodosapontamentosrealiza‐ dospelosparticipantes.Ressaltamosque,nessemapa,osapontamentosnãoestãoclassificadosnale‐ gendacomoriscosoupotencialidades.Estefoiumdesafioencontrado,umavezque,duranteaoficina, osparticipantesnãofizeramestadistinçãodeformaclara. Dos  outros  nove  mapas  elaborados,  selecionamos  três  para  apresentar  neste  capítulo.  Dois  deles,  correspondem  a  municípios  que  foram  sede  dos  trabalhos  da  outra  experiência  que  será  rela‐ tada:  Catanduva  e  Fernandópolis.  O  terceiro  mapa,  por  mencionar  uma  situação  de  risco,  que  poste‐ riormente  provocou  um  importante  impacto  ambiental  na  bacia  hidrográfica:  município  de  Santa  Adélia.OsdemaismapasediscussõespodemserconsultadosemCarpiJunioret al.(2016). Apontamentos sobre o município de Catanduva OmunicípiodeCatanduva,representadonomapa,estáinseridonassubbaciasdoRioSão DomingoseRibeirãodaOnça,naporçãosudestedaUGRHI15(Figura4).Conformeoapontamento feitopelosparticipantesnodiadaoficina,grandepartedaárearuralestavaocupadapelaculturadeca‐ nadeaçúcar.Outroapontamentorealizadofoidequeaestaçãodetratamentodeesgotoeoparque ecológicodacidadeestavamemfasedeconstrução.Foimencionadotambémquenomunicípiohavia umprojetoparareciclagemdelixo(denominado"luxodolixo”)eoantigolixãohaviasetransformado emumaáreacontaminada.Tambémforamcitadasáreasdeerosãoeassoreamento. Mapeamentoambientalparticipativonabaciahidrográficadoturvo/grandesp:participação,gestãoeeducaçãoambiental 101 Figura 3MapaAmbientalParticipativodaUGRHITurvoGrande,SP.Fonte:CarpiJunioret al.(2014). 102 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa Figura 4MapaAmbientalParticipativodoMunicípiodeCatanduva,SP.Fonte:CarpiJunioret al.(2014). 103 Mapeamentoambientalparticipativonabaciahidrográficadoturvo/grandesp:participação,gestãoeeducaçãoambiental Apontamentos sobre o município de Fernandópolis OmunicípiodeFernandópolis,representadonomapa,estáinseridonassubbaciasdoRibei‐ rãodaSantaRita,ÁguaVermelhaeRibeirãodoMarinheiro,porçãosudoestedaUGRHI15(Figura5). Entreosapontamentosfeitospelogrupo,estavaapresençadeumimportantefrigoríficolocalizado muitopróximodasmargensdeumcórregoeregiãodenascentes.Ogrupotambémsalientouapreocu‐ paçãocomresíduosquímicos,provenientesdausinadeálcooleaçúcaredaculturadacanadeaçúcar (queocupavagrandepartedaárearural). Apontamentos sobre o município de Santa Adélia OmunicípiodeSantaAdélia,representadonomapa,estáinseridonasubbaciadoRioSão DomingoseumamenoráreanasubbaciadoRibeirãodaOnça(Figura6).Destacamosumdosapon‐ tamentosfeitosporessegrupo,sobreaexistênciadealgumasáreasderiscoambiental,quesofriamin‐ fluênciadasusinasdecanadeaçúcarpresentesnomunicípio.Naépocadarealizaçãodessaoficina, umadessasáreasfoiapontadaporestarlocalizadapróximaaocórregoSãoDomingoseaosarmazéns deaçúcarqueestãolocalizadosnoPortoSecodacidade. Doisanosapósaoficina,noanode2013,ocorreuumgrandeincêndioemumdosarmazéns deaçúcarqueprovocouumgrandeimpactoambiental,poisoaçúcarqueimadoderretidoacabouatin‐ gindoocórregoSãoDomingos. Alémdosmapas,tambémfoielaboradopelaequipeumquadrocomacompilaçãodassitua‐ çõeslevantadasnosgrupos,pormunicípio,afimdefacilitaroacessoàsinformaçõeseadivulgação dosresultadosdaoficinadoMAP(Figura7).Nototal,40situaçõesdiversaseriscossocioambientais naUGRHI15foramidentificadaspelacomunidade. Os  registros  mais  recorrentes  em  todos  os  municípios  foram  a  cultura  de  canadeaçúcar,  o  despejo  de  esgoto  in natura  nos  cursos  de  água,  a  poluição  por  conta  das  indústrias,  a  grande  quanti‐ dadedeusinasdeálcooleaçúcareosprocessoserosivosqueocorremnabaciahidrográfica. 4.2 - CONHECENDO O COMITÊ E MAPEANDO A BACIA: FORMAÇÃO PARA UMA GESTÃO PARTICIPATIVA DO TERRITÓRIO Oprojeto“ConhecendooComitêeMapeandoaBacia:formaçãoparaumagestãopartici‐ pativadoTerritório”ocorreuaolongodoanode2018einíciode2019naBaciaHidrográficado Turvo/GrandeUGRHI15,efoiumademandapropostapelaCâmaratécnicadeEducaçãoAmbien‐ taldoCBHTG. Alguns  pontos  do  projeto  foram  selecionados  para  serem  apresentados  neste  capítulo.  As  demais  atividades  e  resultados  do  projeto  encontramse  descritos  nos  trabalhos  de  Barbosa  (2019),  Barbosa,  Car‐ piJunioreLopes(2019);eCarpiJunior,BarbosaeLopes(2019a,2019b).Oprojetotevedoisobjetivos principais:i)difusãodopapeldoCBHcomoespaçoparticipativovoltadoaogerenciamentoderecursos hídricos;eii)ofertadecursodeformaçãosobreaaplicaçãodoMAP,comfinsaodiagnósticoeàelabo‐ raçãodeproposições,voltadosàrealidadelocaleenvolvendoacomunidadenesseprocesso. Pararealizarasatividadesdoprojeto,aUGRHI15foiregionalizadaemquatrogrupos,possi‐ bilitandoamploalcancedosmunicípiosdabaciaeaamplaparticipaçãodacomunidade.Emcadagru‐ po,foramrealizadosquatroeventos,emdatasdistintas.Todososeventosforamgratuitosedestinadosà comunidadedabacia.Participaramdasoficinas,servidorespúblicosestaduaisemunicipais,membros doCBH,profissionaisligadosàtemáticadosrecursoshídricos,professores,estudantes,membrosde ONG’sedemaisinteressados,queresidiamnaáreadepesquisa.ATabela1apresentaoseventos,suas respectivasdatasequantidadedeparticipantes. 110 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa Figura 9MapaAmbientalParticipativoUGRHI15TurvoGrande.Fonte:CarpiJunior,BarbosaeLopes(2019a). 111 Mapeamentoambientalparticipativonabaciahidrográficadoturvo/grandesp:participação,gestãoeeducaçãoambiental comoEcokit,dosseguintesparâmetros:parâmetrostermotolerantes(coliformesfecais,totaisesalmo‐ nella),amônia,ortofosfatoenitrato.Paracadaperfilhidroambiental,foielaboradoumperfiltopográfi‐ co,commediçãodedeclividade.AcompilaçãodetodososperfispodeserobservadanaFigura10. AOficina 3domódulodeformaçãofoiaúltimaoficinadecadagrupo,encerrandoasativida‐ des.Essaoficinafoidivididaemdoisperíodos:noperíododamanhãepartedoperíododatarde,os participantestrabalharamcomamatrizSWOT;aofinaldoperíododatarde,osmesmosfizeramuma avaliaçãodetodooprocessoqueparticiparamaolongodosmódulos. AmatrizSWOTéumatécnicadeanálisequetrabalhacomquatroparâmetrosdeavaliaçãode situação,que,quandoaplicadosemconjunto,fornecemumavisãointegradaeabrangentedaáreadees‐ tudo.Noprojeto,aaplicaçãodaanáliseSWOTtomouporbaseasetapasrealizadasnaUnidadedeGes‐ tão  de  Recursos  Hídricos  Paranapanema  (UGRHIParanapanema),  descritas  na  referência  de  Leal  et. al.  (2015).  Paraaanálisedabaciahidrográfica,comautilizaçãodamatrizSWOT,areflexãoquedeveser feitaduranteaatividadeéadetentaridentificarassituaçõesinternasdabacia(asforçasefraquezas);e as  situações  externas  à  bacia,  mas  que  interferem  diretamente  em  sua  dinâmica  (as  oportunidades  e  ame‐ aças).  Contudo,  esta  divisão  não  é  rigorosa  e,  muitas  vezes,  uma  situação  pode  ser  encaixada  em  mais  de  umparâmetro.Tomamos,comoexemplo,umausinadeálcooleaçúcar:estafoivistanasoficinas,por algunsparticipantes,comoumaforça,poispodegerarempregoedesenvolvimentoeconômicoparaa bacia;e,aomesmotempo,poroutros,comoumafraqueza,porgeraralgunstiposdepoluição. Partindodesteraciocínio,naoficina,aatividadeocorreudaseguintemaneira:primeiroforam distribuídascanetasesferográficascoloridasetarjetasdecartolina,comumacorparacadaparâmetro damatrizSWOT,afimdequeosgruposrelatassemsuasobservaçõeseaspectosdiscutidosnasuaárea deestudo;depois,osparticipantesreceberamummapabase,paraquefizessemasinserçõesdospontos levantadosediscutidosnamatriz(emcadagrupo,osparticipantesreceberamsuasáreasrespectivas). A  aplicação  da  análise  SWOT  gerou  um  conjunto  de  citações  de  cada  variável,  referente  a  cada  módulo;  e  uma  compilação,  gerada  para  toda  a  bacia,  que  foi  inserida  no  mapa  da  UGRHI  15  (Figura  11).  Nototal,foramefetuadas242citações,sendo75fraquezas,68forças,51oportunidadese48ameaças. AaplicaçãodamatrizSWOTemumdosmódulosdoprojetopodecomplementaraanáliseda situaçãoda baciahidrográficadoTurvo/Grandeesubsidiara tomadade decisões pelosgestorese membrosdoCBH.Alémdisso,contribuiuparaqueosparticipantesrefletissemsobretodososlevanta‐ mentoseapontamentosquefizeramnosmódulosanteriores. Valelembrarque,nasoportunidadesapresentadas(nasUGRHIsParanapanemaeTurvo/Gran‐ de),oMAPfoirealizadodeformaintegradaàelaboraçãodamatrizSWOT,comoformademapearos elementos  do  ambiente  e  as  demandas  que  foram  identificadas  em  oficinas.  Assim,  é  possibilitado  repre‐ sentarcartograficamenteasvariáveisdamatrizSWOT,adaptandooprincípiopresentenoMAP,deva‐ lorizar  os  elementos  da  paisagem  de  interesse  à  gestão  ambiental,  ao  identificálos  numa  base  territorial.  5 - APRENDIZADOS COM O MAPEAMENTO AMBIENTAL PARTICIPATIVO: PERSPECTIVAS E CONSIDERAÇÕES Asduasexperiênciasrelatadasnestecapítulotrazemumareflexãoimportantedequeaeduca‐ ção  ambiental  e  a  gestão  em  uma  bacia  hidrográfica  devem  contar  com  a  participação  da  comunidade  que  ali  reside  e,  para  que  isso  ocorra,  existem  atualmente  práticas  e  técnicas  que  viabilizam  essa  participação,  poissão,poressência,participativas/colaborativas,comooMapeamentoAmbientalParticipativo. Por  isso,  é  possível  inferir  que  a  aplicação  do  MAP,  envolvendo  a  participação  da  comunidade  que  vive  na  bacia  hidrográfica,  promove  a  reflexão  coletiva  de  diferentes  pontos  de  vista  e  sobre  diver‐ sos  temas,  reforçando  a  sua  importância,  como  um  método  para  auxiliar  na  identificação  de  diversas  si‐ tuações  de  riscos  e  de  potencialidades  socioambientais  e,  ao  mesmo  tempo,  contribuindo  significativamente  para  a  gestão  e  o  planejamento  participativos,  bem  como,  para  o  fortalecimento  da  cidadaniaedemocracia. 112 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa Figura 10PerfilHidroambientalLongitudinalParticipativoUGRHI15TurvoGrande.Fonte:CarpiJunior,BarbosaeLopes(2019a). Mapeamentoambientalparticipativonabaciahidrográficadoturvo/grandesp:participação,gestãoeeducaçãoambiental 113 Figura 11MapadaanáliseFOFA(SWOT)UGRHI15,SP.Fonte:CarpiJunior,BarbosaeLopes(2019a). 114 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa Nos  dois  projetos,  destacamos  também  a  importância  da  mobilização,  para  o  envolvimento  e  a  participação  de  pessoas  com  perfil  variado  de  área  de  atuação,  de  grau  de  escolaridade,  de  faixa  etá‐ riaedesegmentosocial.Mas,frisamosqueamobilizaçãonãoocorresomentenoiníciodosprojetos. CitamosaquiostrabalhosdePeçanhaNetoet al.(2019)eFariaset al.(2019),realizadosem4 municípiosdoTriânguloMineiro(MG),pormeiode12oficinas,ondeforamaplicadosoMAPeama‐ trizSWOT,integradosaoutras6oficinas,comaplicaçãodaAvaliaçãoEcológicaRápida(AER)eda análisedaqualidadedaágua;comaparticipaçãototalde483pessoas.Esseconjuntodetrabalhos exemplificaopotencialmobilizadordaspráticasparticipativasedasatividadesrealizadasnasoficinas doMAP.Ospesquisadoresdosdoistrabalhosde2019supracitadossãofiliadosàUniversidadeFederal doTriânguloMineiro(UFTM,CampusdeIturama)eestavamentreosparticipantesdasoficinas,nase‐ gundaexperiênciarelatadanopresentecapítulo;apartirdelas,replicaramosmétodosMAPematriz SWOTnosmunicípiosmineiroslocalizadospróximosadivisacomoestadodeSãoPaulo. Amobilizaçãodosparticipantestambémocorreudurantearealizaçãodosprojetos,fortalecen‐ dooprocessoparticipativoemamboseobomrelacionamentocomaequipe.Demaneiraformalein‐ formal,osparticipantestraziamfrequentementesuaspreocupações,"desabafos",realizaçõeseaspectos positivosrelacionadosprincipalmenteàvidaprofissional.Algunsparticipantes,inclusive,trouxeramà equipetécnica,sugestões,opiniõesemateriaisrelacionadosàssuasvivênciasprofissionais,queforam muitoúteiseinteressantes. Comoexemplo,mencionamosacontribuiçãodoprofessororiundodomunicípiodeIturama, MG,quetemutilizadooprotocolodeAER,nosúltimosanos,emseustrabalhos.Esseprotocolocor‐ respondeaumaadaptaçãofeitaporele,apartirdemateriaisestudados.Aomencionálonoprimeirodia demódulo,realizadoemFernandópolis(projetosupracitadonestecapítulo),ogrupoachouacontribui‐ çãodegrandevaliaeaequipetécnicadecidiuutilizálanaelaboraçãodoPerfilHidroambientalPartici‐ pativo.Talfatodemonstratambémqueaspráticasparticipativaspodemseradaptadas,conformeo contextoeasdiversasrealidadesenecessidadeslocais. OutroexemploconsistenacontribuiçãodoProf.FranciscoAntônioMoschini,umimportante ambientalistadoestadodeSãoPaulo,que,emCatanduva,foiconvidadoespecialmenteparatrazer grandescontribuiçõessobreprojetosdeeducaçãoambientaleexperiênciasepráticasparticipativas, queenvolvemaeducaçãoformalenãoformal,sobretudonaBaciaHidrográficadoRioTietê. Tambémépossívelcitaroutroexemplodecolaboração,narealizaçãodosegundomóduloem Votuporanga(grupoCdosegundorelato),quandoapesquisadoradoIACAptaVotuporanga,gentil‐ mente,trouxeummicroscópioeletrônicoparaosparticipantesobservarem,emlâmina,apresençade plânctonsnasamostrasdeáguacoletadasdurantearealizaçãodoPerfilHidroambiental. Umdesafioqueencontramos,referenteàmobilizaçãoinicialdosprojetos,estánaescolhade mecanismosquepromovamaamplaparticipaçãodacomunidadenasoficinas.Destacamosque,aolon‐ gododesenvolvimentodosegundoprojetoConhecendo o Comitê,descritonosegundorelatodeste capítulo,nãoocorreuumaparticipaçãoefetivadosmembrosdoCBHTurvo/Grande.Mesmosendoele, oprincipalagentemobilizador.Dototaldeparticipantesdasoficinas,aproximadamente10%eram membrosdoCBH,oquepodeapontarparaafaltadeinteresseporpartedadiretoriadoCBH,emmo‐ bilizarosmembrosdestecolegiadoàparticipação,relativizandoaimportânciaqueestesmembroscon‐ feremàspráticasparticipativas. JánoprimeiroprojetorelatadoBacia Hidrográfica: um instrumento na Educação,foinotó‐ riaafaltadeparticipaçãomaisefetivadeintegrantesdoCBH.Poroutrolado,àmedidaqueotrabalho decunhoparticipativopassouaserreconhecidonaregião,opróprioCBHseinteressoupelasuaconti‐ nuidadeeatualização,motivandoarealizaçãodosegundoprojeto,anosdepois. Poroutrolado,nesseprimeiroprojeto,amaiorpartedosparticipanteseramdaáreadeEduca‐ ção.Levandoemcontaestefato,bemcomoocontextodeumacapacitaçãovoltadaàmelhoriadacons‐ cientizaçãoambientalsobreumaunidadedegerenciamentodaágua,destacamosograndepotencial apresentado  pelos  participantes  da  oficina  MAP,  em  promover  a  mobilização  e  a  educação  ambiental,  em  suas  atividades  profissionais  e  cotidianas.  Grande  parte  desse  potencial  devese  à  noção  de  pertencimen‐ todosparticipantes,umavezqueeramtodosresidentesetrabalhadoresnaUGRHITurvo/Grandee,em distintosgrausdeintensidade,todosestavamcomprometidoscomacapacitaçãoparaumagirfuturo. 115 Mapeamentoambientalparticipativonabaciahidrográficadoturvo/grandesp:participação,gestãoeeducaçãoambiental Oenvolvimentodosparticipantesduranteoprojeto,esuasaçõescotidianasposterioresde‐ monstraopotencialdomapeamentoambientalparticipativo,embaciashidrográficas,comoagentefor‐ talecedordaEducaçãoAmbiental. Frisamosque,estiverampresentesnasoficinasrepresentantesdasociedadecivil,membrosde instituições,representantesdopoderpúblicoecomunidadeemgeral,oquepromoveuainteraçãoentre aparticipaçãopública,socialepopular. Outrodestaquequefazemos,paraosdoisprojetos,éopotencialdoMAPparaaçõesvoltadas àgestãodasbaciashidrográficas.Osapontamentosrealizadosduranteasoficinaspodemserutilizados comopontosdeatençãonaelaboraçãodeinstrumentosdegestão,bemcomopontosparamonitora‐ mentodasinstituiçõesesociedadeemgeral. Comoexemplo,citamosaexperiênciarelatadanaseção4.2destecapítulo,queaplicouosmé‐ todosdeformaintegrada,possibilitandoolevantamentodeinformaçõessobreasituaçãoambientale dosrecursoshídricosdabaciahidrográfica,emescalasdiferenciadas:aescaladabaciahidrográfica, comoMAP;aescalalocal,comoperfilHidroambiental;eaescaladagestãoampliada,englobando elementosquenãosãolocalizadosaumdeterminadopontoespecíficodentrodabacia,comamatriz SWOT.Comesselevantamentorealizado,foipossívelidentificardiversassituaçõesderiscos,específi‐ casdaUGRHI15,que,inclusive,condizemcomodiagnósticoeprognósticodoplanodebaciaaprova‐ dopeloCBHTurvo/Grandedestaunidadedegerenciamento. Tambémfoipossívelobservarqueessesmétodos,quandoaplicadosemconjunto,contribuem substancialmenteparaampliaçãodaparticipaçãoedamobilizaçãodacomunidade,poisagregamquali‐ dadeàgestãodosrecursoshídricoseaoprocessodeeducaçãosobreoterritóriodabaciahidrográfica, namedidaemqueosparticipantesdediferentessegmentosseenvolveramnasatividades,adquiramco‐ nhecimentosobreabaciahidrográficaediscutiramcoletivamentesobreosdesafioseaspossibilidades paracadasituaçãoidentificada. Ao  comparar  os  levantamentos  feitos  nas  duas  experiências,  das  áreas  em  comum    Grupo  ACatanduva  e  o  Grupo  DFernandópolis,  notamos  algumas  situações  que  se  repetem.  Em  Catandu‐ va,  as  situações  foram:  presença  da  monocultura  de  canadeaçúcar  em  grande  parte  da  área  rural  do  município,  processos  erosivos  e  estação  de  tratamento  de  esgotos  com  problemas.  Em  Fernandópo‐ lis,  as  situações  que  ser  repetiram  foram:  instalação  de  frigoríficos  em  áreas  próximas  as  nascentes  de  córregos  e  impactos  gerados  pela  monocultura  de  canadeaçúcar.  Esta  comparação  é  fundamen‐ tal  para  demonstrar  a  importância  do  monitoramento  dessas  situações  e  a  continuidade  de  projetos  comoesses. Nosdoisprojetoseemtodasasoficinas,osparticipantesressaltaramaimportânciadepráticas eferramentasquepromovemaparticipação,porseremimportantestantoparaagestão,comoparaa educaçãoecapacitação,relacionadasàbaciahidrográfica,gestãoeplanejamentoambientaleCBH’s. Poroutrolado,apontaramalgunsdesafios,taiscomo:afaltadeinteressedopoderpúblicoedeinstitui‐ ções,empromoveraçõesdestetipo;odesconhecimentodoCBH,comoumimportantecolegiadopara agestãodosrecursoshídricos,porpartedasociedadeedosprópriosparticipantesdoscursos;aneces‐ sidadedecursoseformaçõesqueenvolvamaEducaçãoAmbiental. Em  suma,  as  oficinas  nos  projetos:  i)  promoveram  um  ambiente  participativo  importan‐ te  para  a  gestão  da  água  e  dos  recursos  hídricos,  que  permeou  diferentes  graus  de  participação,  que  vão  da  consulta  à  proposição  (e  elaboração)  de  medidas  que  podem  contribuir  e  legitimar  as  decisões  dos  Comitês  de  Bacia  para  as  Unidades  de  Gerenciamento  de  Recursos  Hídricos;  ii)  promoveram  a  Educação  Ambiental  e  a  mobilização  dos  participantes,  antes,  durante  e  depois  das  oficinas;  iii)  aproximaram  segmentos  sociais  diversificados,  proporcionando  um  ambiente  de  discussão  e  colaboração;  iv)  propiciaram  maior  conhecimento  sobre  o  CBH  e  sobre  a  bacia  hidrográfica;  e  v)  demonstraram  que  a  área  de  uma  bacia  hidrográfica  é  adequada  à  aplicação  do  MAP. A  aplicação  do  MAP,  nas  duas  experiências,  mostra  que  ele  pode  ser  utilizado  em  proje‐ tos  que  envolvam  a  Educação  Ambiental  e  a  gestão,  com  foco  no  território  da  bacia  hidrográfica  e  nos  recursos  hídricos.  E  que  também  pode  ser  adaptado  para  outros  recortes  territoriais,  temas  e  116 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa necessidades.  No  caso  específico  das  experiências  relatadas,  acreditamos  que  a  continuidade  dos  projetos  traria  um  maior  envolvimento  da  comunidade  com  o  seu  local  de  vivência  e  possibilitaria  omonitoramentodassituaçõesapontadas,aolongodotempo. Diantedoquefoiexposto,observamosentãoque,durantearealizaçãodosdoisprojetos, ocorreuaconstanteinteraçãodasquatrofrentesmencionadasnoiníciodocapítulo,oquepossibilitouo alcancedasériederesultadosapresentados,quedemonstramaimportânciadoMAPparafortalecero processosdepolitizaçãoeinstrumentalizaçãodesujeitossociais,reafirmandoonossoposicionamento eodepesquisadoresquetrabalhamoutrabalharamcomessametodologia. REFERÊNCIAS ARAÚJO,V.G.Mapeamento ambiental participativo na Ponta Norte do Município de Ilha Comprida, São Paulo, Brasil.2019.159f.Dissertação(mestradoemGeografia)UniversidadeEstadualdeCam‐ pinas, Instituto de Geociências, Campinas, SP. Disponível em: http://www.repositorio.unicamp.br/ handle/REPOSIP/335150.Acessoem:25fev.2021. BARBOSA,F.D.Diagnóstico hidroambiental da microbacia do córrego Novo Rincão - Rincão/SP. 2012.166f.Dissertação(MestradoemGeografia)UniversidadeEstadualPaulista,InstitutodeGeo‐ ciências e Ciências Exatas, 2012. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/95703. Acessoem:25fev.2021. ____.Comitês de Bacia Hidrográfica, representação e participação: desafios e possibilidades à gestão da água e dos recursos hídricos no Brasil.2019.417f.Tese(DoutoradoemCiênciasAmbientais) ProgramadePósGraduaçãoemCiênciasAmbientais,UniversidadeFederaldeSãoCarlos,SãoCarlos, SP, 2019. Disponível em: https://repositorio.ufscar.br/bitstream/handle/ufscar/11643/ TESE%20FLAVIA_DARRE_BARBOSA.pdf.Acessoem:25fev.2021. BARBOSA,  F.  D.;  CARPI  JUNIOR,  S.;  LOPES,  M.  C.  Contribuição de metodologias participativas na análise e gestão da UGRHI Turvo/Grande: resultados do Projeto “Conhecendo o Comitê e mapeando a bacia”. Revista CientíficaAnap Brasil, Tupã, SP, v. 12, n. 26, 2019.  Disponível em: https:// www.amigosdanatureza.org.br/publicacoes/index.php/anap_brasil/article/view/2234.  Acesso  em:  25  fev.  2021.. BORDENAVE,J.E.D.O que é participação.SãoPaulo:Brasiliense,1994.86p. CARPIJUNIOR,S.Experiências de mapeamento de riscos ambientais no Estado de São Paulo com utilização de método participativo.In:CongressoBrasileirosobreDesastresNaturais,2012,RioClaro, SP.CongressoBrasileirosobreDesastresNaturais,2012.p.112. CARPIJUNIOR,S;LOPES,M.C.;BARBOSA,F.D.;MARTINS,A.L. Mapeamento ambiental par‐ ticipativo: experiência de Educação Ambiental na UGRHI Turvo e Grande.In:DIAS,L.S.;BENINI, S.M.(org.).Estudosambientaisaplicadosembaciashidrográficas.1ed.Tupã,SP:ANAP,2014.p.29 57.Disponívelem:http://www.amigosdanatureza.org.br/livros/livro/cod/86.Acessoem25.fev.2021. ____.Mapeamento ambiental participativo: experiência de Educação Ambiental na UGRHI Turvo e Grande.  In:  DIAS,  L.  S.;  BENINI,  S.  M.  (org.).  Estudos  ambientais  aplicados  em  bacias  hidrográficas.  2  ed.TupãSP:ANAP,2016.p.2854.Disponívelem:https://www.amigosdanatureza.org.br/biblioteca/ livros/livro/cod/122.Acessoem:25fev.2021. CARPIJUNIOR,S;BARBOSA,F.D;LOPES.M.C.Relatório Técnico Final: projeto “Conhecendo o comité e mapeando a bacia: formação para uma gestão participativa do território''.VBAmbiental, CBHTurvoGrande,PrefeituradeCatanduva,2019a.Disponívelem:https://drive.google.com/drive/ folders/0B1wVS6ilcrUV3BiMlBXN3ZVUm8.Acessoem:25fev.2021. ____.  Projeto  “Conhecendo o comitê e mapeando a bacia”: contribuição metodológica na análise e ges‐ tão da UGRHI Turvo/Grande-SP.  In: PINHEIRO,  L.  S.;  GORAYEB,  A.  (org.).  Geografia  Física  e  as  mu‐ danças  globais.  Fortaleza,  CE:  Editora  da  UFC,  2019b.  p.  113.  Disponível  em:  http://www.editora.ufc.br/ images/imagens/pdf/geografiafisicaeasmudancasglobais/956.pdf.Acessoem25fev.2021. 117 Mapeamentoambientalparticipativonabaciahidrográficadoturvo/grandesp:participação,gestãoeeducaçãoambiental CARPI  JUNIOR,  S.  ;  LOPES,  M.  C.  ;  BARBOSA,  F.  D.  ;  MARTINS,  A.  L.  M.  Mapeamento  Ambiental  Participativo:Experiencia de EducaçãoAmbiental na UGRHI Turvo e Grande. In: DIAS, Leonice Seolin;  BENINI,  Sandra  Medina.  (Org.).  Estudos Ambientais Aplicados em Bacias Hidrográficas.  1.  ed.  Tupã,SP:ANAP,2014,v.I,p.2957. CBHTG.COMITÊDEBACIAHIDROGRÁFICATURVO/GRANDE(SÃOPAULO).Relatório de situação dos recursos hídricos da UGRHI 15 2020 - ANO BASE 2019.  São  José  do  Rio  Preto,  SP:  CBH TG,2020.Disponívelem:http://www.sigrh.sp.gov.br/cbhtg/documentos:.Acessoem:25fev.2021. ____.COMITÊDEBACIAHIDROGRÁFICATURVO/GRANDE(SÃOPAULO).Relatório de situ‐ ação dos recursos hídricos da UGRHI 15 2010 - ANO BASE 2009.SãoJosédoRioPreto,SP:CBH TG,2010. ____.COMITÊDEBACIAHIDROGRÁFICATURVO/GRANDE(SÃOPAULO).Página de apre‐ sentação.CBHTG,2021.Disponívelem:https://comitetg.sp.gov.br/site/apresentacao/.Acessoem:25 fev.2021. DAGNINO,  R.;  CARPI  JUNIOR,  S.  História e desafios do mapeamento ambiental participativo no es‐ tado de São Paulo.  In:  DIAS,  L.  S.;  BENINI,  S.  M.  (org.).  Estudos  ambientais  aplicados  em  bacias  hidro‐ gráficas.  2.  ed.  Tupã,  SP:  ANAP,  2016.  p.  1127.  Disponível  em:  https://www.amigosdanatureza.org.br/ biblioteca/livros/livro/cod/122.Acessoem25.fev.2021. FARIAS,A.K.S.R.;SOUZA,L.;SAMPAIO,T.M.;MASSON,V.;CASTELLOBRANCOJUNIOR, A.  Educação ambiental com o uso da ferramenta matriz SWOT/FOFA na estratégia de mapeamento am‐ biental participativo.In:16ºCongressoNacionaldeMeioAmbiente,PoçosdeCaldas,MG,24a27de setembro  de  2019.  Disponível  em:  http://meioambientepocos.com.br/anais2019.html.  Acesso  em:  27.  fev.  2021. IPT(INSTITUTODEPESQUISASTECNOLÓGICASDOESTADODESÃOPAULO).Relatório Técnico CPTI n. 397/08. Plano de Bacia da Unidade de Gerenciamento de Recursos Hídricos da Ba‐ cia do Turvo/Grande (UGRHI 15).ComitêdaBaciaHidrográficadoTurvo/Grande.FundoEstadualde RecursosHídricos.SãoJosédoRioPreto,dez.2008. LEAL,A.C.;AMORIM,B.;MELLO,L.G.M.;NUNES,R.S.;CARPIJUNIOR,S.UGRHI.Parana‐ panema - Oficinas de Diagnóstico Participativo. Nota Técnica nº 5/2015/CINCS/SAS.Brasília,DF: Agência Nacional de Águas (ANA), 2015. Disponível em: http://paranapanema.org/plano/admin/ upload/documento/28.pdf.Acessoem:25fev.2021. PEÇANHANETO,J.L.;SILVA,P.A.;CURTI,B.C. G.;SILVA,M.E.;CASTELLOBRANCO JUNIOR,A.Levantamento de aspectos ambientais de bacias hidrográficas urbanas em municípios do Pontal do Triângulo Mineiro com a ferramenta Mapeamento Participativo. In: 16º Congresso NacionaldeMeioAmbiente,PoçosdeCaldas,MG,24a27desetembrode2019.Disponívelem: http://meioambientepocos.com.br/anais2019.html.Acessoem27.fev.2021. REGEAGEOLOGIA,ENGENHARIAEESTUDOS.Plano de Bacia da Unidade de Gerenciamento de Recursos Hídricos da Bacia do Turvo/Grande (UGRHI 15).SãoJosédoRioPreto,SP:CBHTG, 2017.Disponívelem:http://www.sigrh.sp.gov.br/cbhtg/documentos.Acessoem:25fev.2021. ROMERA E SILVA, P.A. Água: quem vive sem? 2ed. FCTH/CTHidro (ANA, CNPq/SNRH), SãoPaulo,2003. SÃOPAULO(GOVERNO).Secretaria da infraestrutura e Meio Ambiente. O que é o FEHIDRO?. 2021a. Disponível em: https://www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br/fundoestadualderecursos hidricos/.Acessoem:25fev.2021. ____.  Sistema Integrado de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Planos de Bacias Hidrográficas. São Paulo,  2021b.  Disponível  em:  http://www.sigrh.sp.gov.br/crh/planodebaciashidrograficas..  Acessoem:25fev.2021. TAVARES,J.S.;FERRANTE;V.L.B.Organizações Não Governamentais Ambientais na Unidade de Gerenciamento de Recursos Hídricos dos Rios Turvo e Grande: entre a resistência e a utopia, algumas reflexões.In:IVJornadadeEstudosemAssentamentosRurais,junho2009,Campinas,SP,FEAGRI Unicamp,ÉcoledesHautesÉtudesenSciencesSocialesdeParis(EHESS). [Páginaintencionalmenteembranco] [Páginaintencionalmenteembranco] 126 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa hikinami.  Como  consequência,  9  pessoas  perderam  as  suas  vidas  nesta  pequena  localidade,  uma  de‐ pendia  de  cadeira  de  rodas  e  outras  que  retornaram  às  suas  residências  na  tentativa  de  salvar  algum  item  pessoal.  De  acordo  com  o  levantamento  feito  in  loco,  o  número  de  edifícios  total  ou  parcialmente  danificadosemShibitachifoide95dentreas270residênciaslocais. Aindaduranteasaçõescomunitáriasqueprecederamohikinami,quandoosalertasdetsunami foramemitidos,ospescadoresseorganizaramesaíramcomsuasfamíliasemsuasembarcaçõespara altomar.Assim,conseguirampouparqueseusnaviossofressemdanoscomoimpactodaquebradaon‐ dacomocontinente.Podemosencararestaaçãocomoresiliênciaepreparodeumacomunidadeorga‐ nizada, minimizando os prejuízos do desastre. Tão logo configurado o cenário de destruição, as famíliasencontraramseperplexasdiantedarupturaqueassuasvidassofreram.Muitosperderamsuas casasouseusfamiliares.Natentativadefugaparaaspartesmaisaltas,algunsmorrerampeladificulda‐ dedemobilidade,oquemostrouqueosistemaviário,dependentedasviasaolongodacosta,seconfi‐ guroucomoumfatorderiscoequeprecisavaserredesenhado. Considerese,ainda,queodesastreocorreuaofinaldoinverno,períodoemqueastemperatu‐ rasoscilamentre1°Ce8°C.AchegadadotsunamicomáguasgeladasdoOceanoPacífico,somadaà interrupçãodosserviçosbásicosdeáguaeenergiaelétrica,tornouoimpactoaindamaisdramático. Muitaspessoasestavamapenascomaroupadocorpoe,natentativadesalvarosseuspertences,acaba‐ ramsemolhando.Paraalémdotrauma,osatingidospassarammuitofrio.NocasodeShibitachi,aresi‐ dênciadosenhorShintaroSuzuki,lídercomunitáriotambémconhecidoporsenhorKodate(apelido quecarregaporcontadosseusancestrais),possuiumaantigacaldeiradaEraEdomovidaàlenha,do iníciodoséculoXX,querecebiaáguadiretamentedasmontanhas(Figura10).Alocalizaçãodesuare‐ sidênciaeraestrategicamentesituadanasáreasmaisaltas,livrandoadaaçãodestrutivadostsunamis, razãopelaqualresistiuaosfrequentesdesastrespormuitasgerações.EmMaxwell(2012),oSr.Suzuki contaqueamesmaaçãoerarelatadaentreseusfamiliareseque,naocorrênciadoeventode2011,ele assumiuaresponsabilidadequeafamíliasempreexerceunessassituações. Em  documentário  produzido  por  Maxwell  (2012)  após  o  desastre  de  2011,  relatase  a  im‐ portância  histórica  da  residência  Kodate,  não  apenas  no  evento  recente  como  em  desastres  anterio‐ res.  Os  jardins  do  local  foram  usados  como  espaço  de  acolhimento  para  as  vítimas,  para  as  quais  foi  oferecida  água  da  caldeira,  permitindo  que  todos  da  comunidade  pudessem  se  banhar  e  lavar  seus  pertences,  aquecendo  não  apenas  os  seus  corpos  como  também  o  espírito.  Ali  puderam  encontrar  conforto  emocional  uns  com  os  outros.  Este  momento,  certamente,  simbolizou  o  início  da  resiliência  local  e  coesão  da  comunidade.  A  partir  da  premissa  de  que  o  tipo  de  desastre  acontecerá  novamente,  esse  tipo  de  ação  se  mostra  como  um  primeiro  passo  para  a  recuperação  da  comunidade  e  é  um  indi‐ cativoderesiliêncialocal. No  que  diz  respeito  ao  engajamento  da  comunidade  no  processo  de  recuperação,  fica  claro  o  envolvimento  das  lideranças  relacionadas  aos  grupos  de  ação  na  reconstrução  da  aldeia.  Foram  definidos  três  grupos  com  frentes  de  trabalho  distintas,  incluindo  um  responsável  por  cada  um  dos  Figura 8–Àesquerda:localizaçãodeShibitachi,naregiãonordestedoJapão;aocentro,linhadotsunamimar‐ cadaemvermelho,nomunicípiodeKesennuma,comdestaqueembrancoparaovilarejodeShibitachi,localida‐ dedesteestudodecaso;àdireita:áreadeShibitachiatingidapelohikinami,marcadaemazul.Fonte:adaptado dePlanTWorkshop(2011)eGoogleEarth®(2021). 127 ProcessoparticipativoeregeneraçãonoJapãopósdesastre:OcasodoVilarejodeShibitachi cinco  distritos  administrativos.  As  tarefas  foram  divididas  em:  1)  rotas  de  fuga;  2)  limpeza  de  escombros;  e  3)  realocação  de  famílias  (Figura  11).  Os  moradores  de  Shibitachi  se  envolveram  principalmente  por  intermédio  dos  seus  líderes  comunitários,  que  assumiram  vigorosamente  as  responsabilidades  no  processo  de  recuperação.  Essa  organização  é  o  reflexo  de  uma  prática  pós guerra  japonesa  de  participação  das  comunidades  nos  processos  e  nas  decisões  de  planejamento  urbanodenominadamachizukuri. 1.5 - MACHIZUKURI – PLANEJAMENTO COMUNITÁRIO PARTICIPATIVO NO JAPÃO É importante ressaltar que, nos últimos anos, a participação popular na gestão e planejamentourbanotemcrescidosubstancialmentenoJapão.Foiessaorganizaçãoquepermitiuque acomunidadedeShibitachipudessesearticularrapidamentenestastrêsfrentesdetrabalho.Otermo machizukuri()–formadopelosideogramasdemachi(=cidade/comunidade)ezukurido verbotsukuru(=fazere/ouproduzir)–surgiunoJapãopósguerra,emmeioareivindicações popularescontraummodelodegestãourbanacentralizadopelogovernoepodeserdefinidocomoo conjuntodeaçõesdeforteparticipaçãopopulareorganizaçãocomunitária,visandomelhoriaslocais ouasoluçãodeproblemasquecolocamacomunidadeemrisco(KUSAKABE,2013).Otermo,de difícil tradução, é definido porWatanabe (2012) como “planejamento comunitário” e se refere ao modojaponêsdeorganizaçãocomunitáriaeparticipaçãopopularnagestãodosespaçosurbanos. Figura 9–Sequênciacronológicadodesastrede11demarçode2011atingindoovilarejodeShibitachi,identi‐ ficadasedescritasaseguir:A)oterremotode9.0demagnitudeocorreuemaltomareShibitachificousobalerta daameaçadeumgrandetsunami;B)abaíasofreusignificativaelevaçãodoníveldaáguaenquantootsunami atingiaaáreaprincipaldeKesennuma,jáqueaposiçãodovilarejonapenínsulanãorecebeuoimpactodireto vindodoOceanoPacífico;C)finalmente,ocorreuaondaderetorno(hikinami)quecausouadestruiçãodasedi‐ ficaçõesnaáreaplana,frenteaomar;D)inesperadamente,chegaramdestroçospegandofogotrazidospelomar, vindosdoportodeKesennuma,quecausaramtambémincêndioemShibitachi.Fonte:acervopessoaldeMorio Suzuki,2010. 128 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa Apesardenãoterbaselegal,apráticademachizukuritornousebastantepopularnoJapãonas últimasdécadas,principalmenteapósasconsequênciasdrásticasdoterremotodeHanshinAwaji,ocor‐ ridoemKobe,em1995.Porsetratardeiniciativascomunitárias,apráticaapresentavariadasaborda‐ gens,maspodeserentendida,resumidamente,comoumaatividadenaqualosmoradoresconstroem umambientequereflitaseusanseioseestilosdevida,emcontrapartidaaumavisãogenéricadosiste‐ matradicionaldeplanejamentourbano(toshi keikaku).Noinício,omachizukurieraumaaçãodepro‐ testo contra as medidas autoritárias do governo, mas, ao longo dos anos, tornouse uma prática cotidianadeautogestãocomunitária,ondemuitasdecisõesindependemdogovernolocal(KUSAKA‐ BE,2013).Shibitachiéumexemplodeumacomunidadeempoderadaeorganizadaquetemdesenvol‐ vidoapráticadaautogestãodacidade,antesmesmodaocorrênciadoterremotoetsunamide2011, atravésdacriaçãodeassociações,promoçãodeeventos,distribuiçãoderesponsabilidades,entreoutras atividadesdemanutençãodavila. 1.6 - POLÍTICAS PÚBLICAS NO PÓS-DESASTRE E SEUS DESDOBRAMENTOS A primeira etapa de ações governamentais em Shibitachi, frente à condição pósdesastre, consistiuemalocaraspessoasafetadasnacasaderepousoerecreaçãodeidososIkoi-no-ie,umedifí‐ ciocomunitárioondeforamacomodadasasvítimas,dentrodaslimitaçõesdoespaço.Logoemsegui‐ da foram construídas moradias temporárias, na forma de contêineres dispostos em diferentes localidadesdapenínsuladeKarakuwa,afastadosdacosta.OconjuntodeimagensdaFigura12ilustra Figura 10–ResidênciaKodate,localizadaemterrasmaisaltas,recebeu,atravésdeseusproprietários,SrShin‐ taroSuzukiesuaesposaasvítimasdodesastreemseusjardins.Osafetadosfizeramusodaságuasvindasdireta‐ mente das montanhas e aquecidas com lenha pela caldeira da era Edo para lavarem seus pertences e se aquecerem.Ofatoevidenciouaresiliêncialocalnomomentopósdesastre.Ahistória“ACaldeira”écontadape‐ lojornalistaRobertoMaxwellemumdocumentárionoyoutube.Fonte:montagemcomfotosdoacervopessoal deIvanaJalowitzki,2011;edeRobertoMaxwell,2012. 129 ProcessoparticipativoeregeneraçãonoJapãopósdesastre:OcasodoVilarejodeShibitachi Figura 11OsdocumentosmostramaorganizaçãocomunitáriaapartirdademandadogovernodeKesennuma paraasfrentesdetrabalhonecessáriasparaarecuperaçãodeShibitachi,antesmesmodoiníciodoprojetocomas universidades.Fonte:acervopessoaldeIvanaJalowitzki,2011. Figura 12MapaesquemáticodoscincoassentamentostemporáriosdistribuídospelodistritodeKarakuwa.Os habitantesdeShibitachiforammarcadosemamarelonostrechosidentificadoscomA,B,C,D,E,oquemostra queosdesabrigadosforamdistribuídosaleatoriamenteedesconectadoscomasuacomunidade.Napartedaima‐ gemidentificadaporF,épossívelobservarqueasresidênciastemporáriasforamconstruídasemcontêineres. Fonte:GovernodaProvínciadeMiyagieacervopessoaldeIvanaJalowitzki,2011. 130 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa comoasfamíliasdeShibitachi,destacadasemamarelo,forammisturadasafamíliasdeoutrasaldeias afetadasdapenínsuladeKarakuwa,distribuídasemcincoassentamentosdiferentes.Dopontodevista dacomunidade,oarranjoaleatórioadotadopelogovernoprovocouorompimentodasrelaçõesdevi‐ zinhançapréestabelecidas,tendoimpactodiretonosentimentodepertencimentoenoenfraquecimen‐ todasconexõessociais. As  autoridades  ofereceram  a  Shibitachi  algumas  possibilidades  de  realocação  das  famí‐ lias  que  tiveram  suas  casas  gravemente  danificadas  ou  totalmente  destruídas.  No  entanto,  as  possi‐ bilidades  oferecidas  segregavam  os  desabrigados  da  malha  urbana  original  do  vilarejo  (Figura  13).  Parte  da  população  local,  acostumada  a  se  deslocar  a  pé,  não  ficou  satisfeita  com  as  opções,  pois  as  possibilidades  apresentadas  ficavam  distantes  de  suas  residências  originais  e  quebravam  o  sentido  de  comunidade  em  relação  às  conexões  estabelecidas  ao  longo  dos  anos  de  existência  de  Shibitachi. OutrapropostadeintervençãorealizadapeloGovernodaProvínciadeMiyagifoiadacons‐ truçãodeumabarreiradetsunami,com10mdealtura,comomostraaFigura14.Essapossibilidade tambémtrouxeinsatisfaçãoeumalongapolêmica,poisseriaumentraveparaaconexãoeoacessoda comunidade(depescadores)aomar,queéagênesedaocupaçãodeShibitachi.Tantoacomunidadelo‐ calquantoogovernomunicipaldeKesennumadefendiamqueabarreiranãodeveriaserconstruída, desdequeaáreaplanacontíguaàbaíasemantivesselivredeconstruções,reservandoaáreaapenaspa‐ raparquesouinstalaçõesdeapoioàpesca.Entretanto,oGovernodaprovíncianãoabriumãodessa obradeengenharia.Houvenegociaçãoeabarreiraacabousendodefinidaparaserconstruídacom 8,2mdealturaeumpoucomaisrecuadaparadentrodocontinente,parapermitirasecagemdasgigan‐ tescasredesdepesca. Figura 13DemarcaçãosobreaimagemsatéliteGoogleEarth®daspossíveislocalidades,identificadasporA,B eC,pararealocaçãodasfamíliasdesabrigadaspelodesastrede2011,escolhidaspeloGovernodaProvínciade Miyagi.Fonte:adaptadodeGovernodaProvínciadeMiyagi(2011). 131 ProcessoparticipativoeregeneraçãonoJapãopósdesastre:OcasodoVilarejodeShibitachi 2 - O PROJETO SHIBITACHI MINATO MACHIZUKURI HYAKUNENKAI (ASSO‐ CIAÇÃO DE PLANEJAMENTO COMUNITÁRIO PARA OS PRÓXIMOS 100 ANOS DO PORTO DE SHIBITACHI) OProjetointituladoShibitachi Minato Machizukuri Hyakunenkai(AssociaçãodePlanejamen‐ toComunitárioparaosPróximos100AnosdoPortodeShibitachi)surgiuapartirdeumapelogover‐ namentalatodacomunidadeacadêmicaparacontribuirvoluntariamentecomarecuperaçãodasáreas afetadaspelodesastre.Ogovernonacionalestabeleceuprioridadesemobilizoufrentesdetrabalhode assistênciaàpopulaçãoafetada;entretanto,dadaagravidadeedimensãododesastre,aajudavoluntária erafundamentalnatratativadiretacomascomunidadeseajudanaexecuçãodetarefas,comoalimpeza deescombros,alívioemergencialetomadadedecisões,frenteaosfuturosdesafios.Oprojetofoisubsi‐ diadoporeditaisdeinstituiçõesprivadaserecursosdaUniversidadedeTóquioeteveiníciotrêsmeses apósodesastre(emjunhode2011).Posteriormente,tambémrecebeuapoiofinanceirodoToyotaFoun‐ dation.Oprincipalobjetivodoprojetofoiodeoferecerassistênciatécnicaesuportenastomadasde decisãoparaoplanodereconstruçãodovilarejodeShibitachiefoiincorporadoàsfrentesdetrabalho preestabelecidaspelogovernolocalepelacomunidade. OprojetofoiencabeçadopelosprofessoresHiroshiOta(UniversidadedeTóquio)eKaori Ito(UniversidadedeCiênciasdeTóquio).Foiconduzidocomoapoioeoenvolvimentodeseusestu‐ dantesdelaboratório.Àépocadainiciativa,asautorasIvanaJalowitzki,MariaCláudiaCandeiae MariaRitaDionísioeramestudantesdedoutoradodaUniversidadedeTóquio.Alémdestenúcleo, outrosprofissionaisforamincorporadosaolongodoprocesso,colaborandoemdiferentesmomentos, comooarquitetoeprofessorToshihiroSato,queidealizouoprojetoedeunomeàiniciativa,mem‐ brosdaUniversidadedeTohoku(Tohoku University),doShibauraInstitutodeTecnologia(Shibaura Institute of Technology),dentreoutroscolaboradoresnacionaiseinternacionais.Comoconsequência dagranderepercussãointernacionaldodesastre,umagranderededevoluntáriosepesquisadoresse formouemtornodaregiãodeTohoku,principalmente,nosprimeirosanosapósodesastre.Muitas atividadesparalelasocorreramduranteasvisitasaShibitachi,resultandoemricosmomentosdetroca eaprendizado. Figura 14PropostadoGovernodaProvínciadeMiyagi,paraaconstruçãodeumabarreiradetsunamide10 metrosdealtura.Fonte:GovernodaProvínciadeMiyagi(2011). 132 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa Entre 2011 e 2012, a proposta de caráter participativo se configurou numa sequência de workshopsemShibitachi,ondeocorreramencontroscomacomunidadeeolevantamentodeinforma‐ ções,parasubsidiardiscussõesepropostasderegeneraçãopósdesastre,levandoemconsideraçãoas demandasprioritáriaseosanseiosdapopulação.Paralelamenteàsatividadesdecampo,foramdesen‐ volvidasatividadesdediscussãoeprocessamentodedadosnoslaboratóriosdepesquisa.Oprojetofoi estruturadoemdiversasetapasparaodesenvolvimentodapropostaderegeneraçãourbana,comoilus‐ tramasFiguras15e16.Apriori,aestratégiainicialfoiadeestabelecerlaçosdeconfiançacomaco‐ munidade e identificar os seus anseios e problemas.Ao mesmo tempo, procurouse desenvolver atividadesvisandoàconscientizaçãodapopulaçãoacercadadimensãododesastre,alémdodebateen‐ treosparessobreasestratégiasdereconstrução.Apartirdastrêsfrentesdetrabalhoestabelecidaspela Figura 15Linhadotempodasatividadesdesenvolvidasentre2011e2012.Elaboraçãoprópria,2021. 133 ProcessoparticipativoeregeneraçãonoJapãopósdesastre:OcasodoVilarejodeShibitachi Figura 16Quadroresumodasatividadesdesenvolvidasentre2011e2012.Elaboraçãoprópria,2021. 134 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa comunidade(rotasdefuga,limpezaurbanaerealocaçãodefamílias)edetodoomaterialcoletadodu‐ ranteosencontroseentrevistas,foramelaboradasasnossaspropostas.Asatividadesdescritasaqui compreendemointervalodeumano,nointuitodeilustrarasprincipaistécnicasdeprocessoparticipa‐ tivoutilizadasemumcenáriopósdesastre.Entretanto,valeressaltarqueainiciativaeotrabalhocoma comunidadeperdurouatéomomentodestapublicação. 2.1 - TRATATIVAS INICIAIS AconexãoestabelecidacomacomunidadedeShibitachiseiniciouatravésdoarquitetoepro‐ fessordaUniversidadedeTohoku,ToshihiroSato,quejáeraantigocontatodosprofessoresHiroshi OtaeKaoriIto.Logoapósodesastre,oprof.Satoseorganizouepercorreudiversaslocalidades,noin‐ tuitodeoferecerajudaàscomunidadesafetadas.Oportunamente,emsuasandançasnapenínsulade Karakuwa,oProf.SatoconheceuoSr.ShintaroSuzuki(senhorKodate),importantelídercomunitário deShibitachi,quesemostroumuitointeressadonapossívelajudaasuacomunidade.Tãologoostrâ‐ mitesseoficializaram,foidadoinícioàsatividadesemjunhode2011.OsenhorKodaterevelouse umafigurachaveduranteastratativasefoioprincipalmediadordasdiscussõescomliderançasemem‐ brosdacomunidadee,logoapósoepisódiodacaldeira,ganhoubastanteprestígioerespeitodosmora‐ dores.Paraarealizaçãodosworkshops,contamoscomautilizaçãodacasaderepousoerecreaçãode idososIkoi-no-ie,queserviudepalcoparaasnossasdiscussões,comomostraaFigura17.Acasajáera umareferênciaparaosmoradoresdeShibitachiefoiumadaspoucasestruturascomunitáriasquenão foramdanificadaspelotsunamieserviudeabrigoparaossobreviventeslogoapósodesastre.Atual‐ mente,aIkoi-no-iefuncionacomoumcentrocomunitário,abertoatodaacomunidade,ondeocorrem tantoasatividadesdemachizukuriquantooutrasdiversas,deinteressedosgruposdacomunidade.O edifíciosetornoupalcodeconexãosocial,sensibilização,participaçãoeempoderamentocomunitário. 2.2 - MAPEAMENTO DAS CONDIÇÕES DO TERRITÓRIO PRÉ E PÓS-DESASTRE Aprimeirafasefoidestinadaacompreenderadimensãodoestragomaterialcausadopelode‐ sastreeaidentificaroslaçossociaiseculturaisremanescentesemShibitachi(Figura18).Paratal,fo‐ ram feitos diversos levantamentos in loco para averiguar o estado dos edifícios danificados, mapeamentodasconstruçõescolapsadasearemanescênciadeedificaçõesedocumentoshistóricos. Figura 17RealizaçãodasatividadesdeMachizukurinoedifíciocomunitárioIkoinoie,emShibitachi.Fonte: acervopessoaldeIvanaJalowitzki,2011. 135 ProcessoparticipativoeregeneraçãonoJapãopósdesastre:OcasodoVilarejodeShibitachi Todososlevantamentosforamfeitoscommediçõesin loco,pormeiodecaminhadasguiadasporlíde‐ resemembrosdapopulação.Apesardeboapartedosescombrostersidoremovidaduranteaprimeira visitaaShibitachi,partedainfraestruturaurbanaaindaestavadanificada(comoviasevalasdeesgoto edrenagem)eeraiminenteoperigodedesabamentoseacidentes,devidoàsréplicasdograndeterre‐ moto.Logo,aconduçãodasvisitasdecampopelapopulaçãofoifundamentalparagarantiraseguran‐ ça à nossa equipe durante os levantamentos.As visitas guiadas também se mostraram uma boa oportunidadeparaouvirosrelatossobreaspreexistências,vivênciaseapropriaçõesdoterritório.Du‐ ranteasvisitas,fizemosregistrosfotográficoseutilizamosmapasimpressos,paralançarosdados maissignificativos. Umadasprimeirasatividades,foiolevantamentodedocumentosantigosarmazenadosnum edifíciodaeraEdodotipoKura.SobaconsultoriadoarquitetodeKanazawa,KiohideMuto,especia‐ listaempatrimônio,foifeitotambémolevantamentodeedifíciosantigosremanescentes.Aresidência Kodate,queabrigaafamíliadosenhorShintaroSuzuki(senhorKodate),presentenaregiãohá38gera‐ ções,foiumdosedifíciosquesobreviveramaotsunamienãosofreugrandesdanos.Atualmente,aresi‐ dência está em processo de tombamento patrimonial, graças aos esforços do professor Sato.A reconstituiçãoimagéticadapaisagemprédesastrefoipossíveltambém,graçasaosrelatoseregistros fotográficos,feitospelosprópriosmoradores.Osdadosdestelevantamentopreliminarforamreunidos eorganizadosemmapas,queeramperiodicamenteatualizados. A  partir  destes  levantamentos,  foi  possível  compreender  mais  sobre  a  história  do  vilarejo  e  a  sua  relação  com  o  mar.  Shibitachi  era  um  belo  assentamento  em  torno  de  uma  baía  de  águas  profun‐ das  onde  viviam  260  famílias.  Foi  constatado  que  boa  parte  das  casas  localizadas  perto  da  costa  foi  destruída  após  ser  atingida  por  uma  onda  de  tsunami  de  9.0m  (EEFIT,  2013).  Antes  do  tsunami,  a  paisagem  de  Shibitachi  era  composta  predominantemente  por  casas  unifamiliares  próximas  à  costa,  algumas  do  tipo  Karakuwa Goten  (uma  arquitetura  típica  da  região)  e  pequenas  construções  destina‐ das  à  atividade  pesqueira.  A  área  costeira  que  compreende  o  vilarejo  de  Shibitachi  se  divide  entre  a  baía  portuária,  onde  barcos  de  pequeno  porte  se  atracavam;  e  a  baía  de  Fujihama,  onde  eram  cultiva‐ das  e  processadas  ostras.  Outra  arquitetura  característica  da  paisagem  de  Shibitachi  são  os  grandes  ta‐ ludes  de  pedra  (ishigaki)  construídos  ao  longo  das  vias  e  lotes  devido  à  alta  declividade  do  terreno  (Figura  19).  Boa  parte  dos  taludes  de  pedra  sofreram  poucos  danos,  por  se  localizarem  em  áreas  mais  altas.  Foram  feitas  medições  in loco  destes  taludes  remanescentes,  a  fim  de  mapeálos  e  incorporálos  noplanodereconstruçãodacidade. Figura 18Mapeamentodaáreaafetada.Fonte:àesquerdaGoogleMaps ,2011;àdireitaacervopessoaldos autores,2011. 142 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa Umavezqueestávamosemcontatocomumacomunidadenacondiçãopósdesastre,também tivemosquelidarcomumarealidadedesafiadora.Emumaesferamaisampla,ogovernopriorizouare‐ cuperaçãodeviaselinhasdetransporte,oquefacilitouoacessoacomunidadesmaisisoladas,jáare‐ construçãodascidadesdependiadanegociaçãocomapopulação.Porisso,nosprimeirosmesesainda eraiminenteoperigodecolapsodasáreasatingidas.Issorepresentavariscodeacidentespessoaisdu‐ ranteoslevantamentosedeslocamentos.ComaocorrênciadofenômenodesubsidênciaemShibitachi, porexemplo,umadasdificuldadesencontradaspeloprojetoforamosregistroscartográficosdesatuali‐ zados.Alémdisso,somouseadificuldadederealizarmediçõesin locoemáreascomriscodedesliza‐ mentosedesabamentos.Aatualizaçãocartográficaeranecessáriaparasubsidiaroprojetoderotasde evacuação.Sendoassim,foinecessárioumesforçoadicionaldosvoluntários,pordiversasviagens,para arealizaçãodolevantamentoplanialtimétricoqueserviudebaseparaoredesenhodascurvasdenível. Osvoluntáriosquesedeslocavamparaasregiõesafetadastambémenfrentavamdificuldades paraencontrarhospedagemeconseguirpassarmaistempoemcontatocomacomunidade.Graçasàge‐ nerosidadedapopulaçãodeShibitachi,anossaequipe,emdiferentesocasiões,ficouhospedadanoedi‐ fíciocomunitáriodemúltiplousoIkoi-no-ie.Percebemosqueainstalação,queapresentavadiversas facilidades,mostrouseestratégica.Umedifíciocomestepropósitoviabilizaarealizaçãodeatividades dediferentesnaturezasparaatenderaosinteressesdacomunidade,estabelecendoumeloquepotencia‐ lizaoaumentodetrocasecoesãosocial.Portanto,serviuàcomunidadeparaesteeoutrospropósitos. Nasprimeirasaçõespósdesastre,porexemplo,omesmoedifícioserviudeabrigoemergencialàsfamí‐ liasqueperderamassuascasas. Emrelaçãoàaproximaçãocomacomunidade,apráticaetradiçãodoMachizukurinoJapão facilitouocontatocomapopulaçãoeaconduçãodomapeamentoparticipativo.Aoquetudoindica,a populaçãodeShibitachijáerabemengajadaeorganizada,poisapresentourapidezeagilidadeaoseor‐ ganizar.Aexemplodisso,asfrentesdetrabalhojáhaviamsidoestruturadasantesmesmodainteração comanossaequipe,trêsmesesdepoisdodesastre.Quandofalamosemprocessoparticipativo,éco‐ mumoestabelecimentodecontatopredominantementecomoslíderescomunitários.Semdúvida,oslí‐ deressãodefundamentalimportânciaetrazemavisãodacomunidade,filtradasapartirdesuasfalase decisões.Emnossoprojeto,tivemosoportunidadespontuaisdeconversarcomoutrosmembrosdaco‐ munidade.Nessasocasiões,pudemosperceberquepermeiamoutrasopiniõesecontribuiçõescoma construçãodeumperfilcomunitárioedesejosrealmentecoletivos.Ficaalacunaaserpreenchidapara queestratégiassejamcriadasparaqueaescutadeoutrasvozespossaserconsideradanolevantamento dedadosparasubsidiarastomadasdedecisões. Acondiçãoderupturageográficaesocialdasfamíliasquetiveramqueseabrigaremcasas temporáriastambémprejudicouanossainteraçãocomdiferentesatoresdacomunidade.Nocasode Shibitachi,essasfamíliassedistribuíramemcincoassentamentoslocalizadosemdiferentespontosda penínsuladeKarakuwaeforammisturadascomoutrascomunidades.Portanto,houvedificuldadeem realizaracoletadeinformaçõescompessoasdessasfamílias,nãohavendoplenacomunicaçãocoma comunidade.Asinformações,maisumavez,vieramcomumavisãomaisunilateralelimitadadoviés doslíderescomunitários.Dentreasestratégiasdeinteraçãocomacomunidade,gostaríamosderessaltar queousodamaqueteserevelouumaferramentafundamentalparafomentarodebate,assimcomoo sentimentodepertencimentodapopulaçãocomoprojetofoiampliado. Outropontoaserconsideradonacondiçãopósdesastreédeconduziroprocessoparticipativo comsensibilidade,empatiaecriarmecanismosparalidarcomafragilidadedepessoasquetiveramper‐ dasmateriaiseimateriais.Dadaadimensãododesastre,osholofotesinternacionaisficaramvoltados paraasáreasafetadas.Aomesmotempoqueexistiamuitavontadeeajudahumanitária,comunidades tambémpassaramasofrergrandeassédioemummomentodelicadoecomumasobrecargadeeventos, semaformaçãodevínculossignificativosparaasuarecuperação.Somadoaisso,existiaumagrande dificuldadedascomunidadessecomunicaremcomvoluntáriosestrangeirospelabarreiradoidioma. Sendoassim,muitasvezessefazianecessárioumainterlocuçãocomumjaponêsbilíngue. Porfim,aolongodoprocessocompreendemosaimportânciadoapoioecomprometimentodo trabalhovoluntárionofortalecimentoeempoderamentodacomunidadenummomentotãodelicadode suasvidas.Ofatortempoaliadoàcontinuidadedenossasaçõestambémsemostroufundamentalna conduçãodesteprocessoenaconstruçãodeumelocomacomunidade.Aoescolheronomedoprojeto 143 ProcessoparticipativoeregeneraçãonoJapãopósdesastre:OcasodoVilarejodeShibitachi  Shibitachi Minato Machizukuri Hyakunenkai (Associação de Planejamento Comunitário para os próximos100AnosdoPortodeShibitachi)oprofessorSatoanteviuanecessidadedeumaaçãocontí‐ nua,jáconscientedequeresultadosexpressivosdemandamanosparaseremcolhidos.Devemosressal‐ tarquetodasasatividadesforamrealizadasapoiadasporrecursosdemapeamentoconvencionaisenão convencionais.Esserecursofeztodaadiferençanaqualidadedoprocessodoprojetoproposto,dentro deumademandaemergencial.Certamente,osresultadosalcançadosnãoseriamosmesmosseapartici‐ paçãocomunitárianãotivessesidoconsiderada. AGRADECIMENTOS AgradecemosimensamenteàpopulaçãodeShibitachi,pelagenerosidadeemnoscederseues‐ paço,tempo,compartilhamentodeinformaçõesehospitalidadeparaarealizaçãodosworkshops,prin‐ cipalmenteaosenhorKodateefamília. AoMEXT(MinistériodaEducação,Cultura,Esportes,CiênciaeTecnologiadoGovernoJa‐ ponês),quenosviabilizouestudar,experimentarevivernoJapão. Eainda,nãopodemosdeixardereconheceroapoiorecebidopelaUniversidadedeTóquio, que,alémdenosoferecerensinodequalidade,nosconcedeuapoiofinanceiroparairacampo,através doGlobal COE Program,assimcomooapoiofinanceirorecebidopelaThe Toyota Foundation,que atendeuaochamadonacionaldeajudahumanitáriaelevounossaequipeparaodesenvolvimentodo projetonovilarejodeShibitachi. Reconhecemosacontribuiçãodorevisordestetrabalhoque,certamente,nosconduziuauma melhorclarezaecompreensãoàescrita. Enfim,nãopoderíamosdeixardeagradeceraoconvitefeitopelosorganizadoresdestapubli‐ cação,quenostrouxeramaoportunidadederegistrarmosemultiplicarmosessaexperiênciacomdiver‐ sosaprendizadosparasesomaràssignificativasiniciativasnacionais. REFERÊNCIAS ANDRADE,F.R.D.Terremotos e Tsunamis no Japão.RevistaUSP,SãoPaulo,n.91,p.1629,set./ nov.2011. BRIS,P.;BENDITO,F.Impact of Japanese Post-Disaster Temporary Housing Areas’ (THAs) Design on Mental and Social Health.InternationalJournalofEnvironmentalResearchandPublicHealth,16, 2019,p.126.Disponívelem:https://www.researchgate.net/publication/337574899_Impact_of_Japa‐ nese_PostDisaster_Temporary_Housing_Areas'_THAs_Design_on_Mental_and_Social_Health.Aces‐ soem:13mar.2021. EEFIT (EARTHQUAKEENGINEERINGFIELDINVESTIGATIONTEAM).Recovery Two Years After the 2011 Tōhoku Earthquake and Tsunami: a return mission report by EEFIT.Institutionof Structural Engineers. London. 2013. p. 126127 Disponível em: https://www.istructe.org/IStructE/ media/Public/Resources/reporteefitmissionjapan20131201.pdf.Acessoem:10demar.de2021. INPRES(INSTITUTONACIONALDEPREVENCIÓNSÍSMICA).Terremoto de Japón del 11 de marzo de 2011.http://contenidos.inpres.gob.ar/alumnos/terrem_japon2011.SanJuan,2011.Disponí‐ velem:.Acessoem:21defev.de2021. ISHIBASHI,S.;ITO,K.Changes in historical land use and current space utilization patterns in a Ja‐ panese fishing village.AAG2015AnnualMeeting.Chicago,Ilinois.2015. ITO,T.;INUI,K.;FUJIMOTO,S.;HIRATA,A.;HATAKEYAMA,N.Architecture. Possible here? “HomeforAll”.Tóquio:TOTOPublishing,2013. 144 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa JMA(JAPANMETEOROLOGICALAGENCY).The 2011 Great East Japan Earthquake.2011.Dis‐ ponívelem:https://www.jma.go.jp/jma/en/2011_Earthquake/2011_Earthquake.html.Acessoem:11de fev.de2021. KAZAMA,M.;NODA,T.Damage statistics (Summary of the 2011 off the Pacific Coast of Tohoku Earthquake damage).SoilsandFoundations,v.52,n.5,2012,p.780792.Disponívelem:https:// www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0038080612000947#bib21.Acessoem:11mar.2021. KESENNUMATairyoUtakomi,ShibitachiTairyoUtakomi&SakihamaTairyoUtakomi.The Story of Michinoku Gold. 2020. Disponível em: https://www.tohokugoldenroute.com/cp/?cpid=337.Acesso em:11fev.2021. KUSAKABE,E.Advancing sustainable development at the local level: The case of machizukuri in Ja‐ panese cities.  Progress  in  Planning,  v.  80,  2013,  p.  165.  Disponível  em:  https://www.sciencedirect.com/ science/article/pii/S0305900612000803.Acessoem:25fev.2021. MAXWELL,R.Kome:A Reconstrução dos Laços Comunitários no Japão Pós-11 de Março.Kindle Edition, 2021. Disponível em: https://www.amazon.co.jp/dp/B08Y7MFT23/ref=cm_sw_r_oth_a‐ pi_YA6Y7HHM0A6977MBY7JB.Acessoem:09demar.de2021. ___.A Caldeira.YouTube.5dedezde2012.Disponívelem:https://youtu.be/ZImjAsD7ueM.Acesso em:24defevde2021. MEJÍA,J.Japão acerta detalhes do plano de reconstrução após terremoto.Exame,SãoPaulo,11de abr. de 2011. Mundo. Disponível em: https://exame.com/mundo/japaoacertadetalhesdoplanode reconstrucaoaposterremoto/.Acessoem:22defev.de2021. MLIT(MINISTRYOFLAND,INFRASTRUCTURE,TRANSPORT,ANDTOURISM).White Paper on Land, Infrastructure, Transport, and Tourism in Japan, 2011.Disponívelem:https://www.mlit.go.jp/ english/whitepaper/2011.pdf.Acessoem:13mar.2021. PlanT  WORKSHOP.  Tsunami Impact Area Map: Great East Japan Earthquake 2011/3/11.  Hosei  Univer‐ sity. Architecture Department. 2011. Disponível em: https://issuu.com/plant_tkd/docs/ tsunami_impact_area_map.Acessoem:11defev.de2021. WATANABE,S. The Historical Analysis Of The 'kunitachi Machizukuri Movement': Its Nature And The Role Of Professor Shiro Masuda. In: 15th International Planning History Society Conference, 2012, São Paulo. Disponível em: http://www.usp.br/fau/iphs/abstractsAndPapersFiles/Sessions/36/ WATANABE.pdf.Acessoem:25fev.2021. WNA(WORLDNUCLEARASSOCIATION).Fukushima Daiichi Accident. Safety and Security. Lon‐ don. 2021. Disponível em: https://www.worldnuclear.org/informationlibrary/safetyandsecurity/ safetyofplants/fukushimadaiichiaccident.aspx.Acessoem:20defev.de2021. [Páginaintencionalmenteembranco] 146 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa MAPEAMENTO AMBIENTAL PARTICIPATIVO NA PONTA NORTE DO MUNICÍPIO DE ILHA COMPRIDA, SP: RISCOS E VULNERABILIDADES AMBIENTAIS PERCEBIDOS PELA POPULAÇÃO LOCAL Viviane Gomes de Araújo, Salvador Carpi Junior e Regina Célia de Oliveira 7 1 - INTRODUÇÃO Aszonascosteirassãoambientesdeusosmúltiplos,assimcomodetentorasdediversasformas deocupaçãoedeatividadeshumanas,desdeapresençadecomunidadescoletorastradicionais,atéim‐ plantaçõesindustriaisediversificadaexpansãourbana(MORAES,1999). Devidoàcomplexidadeambientalpresentenaszonascosteiras,aumentaseainstabilidadede seussistemasnaturaisconformeavançamoprocessodeocupaçãoeurbanizaçãonestasregiões,assim comoaintensidadedesituaçõesderiscoevulnerabilidadeambientaisqueafetamsuaspopulaçõese seuecossistemalocal(MUEHE,1995). NocasodoEstadodeSãoPaulo,amaiorparceladaspraiasencontraseocupada,estando grandepartedelasjátotalmenteurbanizadas,principalmenteaosetratardepraiasdoLitoralNorteeda BaixadaSantista.JáaspraiasdoLitoralSul,abrigamnúmeropopulacionalegraudeurbanizaçãobem inferioresàspraiasdosdemaissetoresdolitoralpaulista,porémcomprocessodeocupaçãocrescente. Inseridonestepanorama,estáomunicípiodeIlhaComprida,localizadonoLitoralSuldoEs‐ tadodeSãoPaulo(Brasil),entreascoordenadasgeográficas24º40’46’’S;47º25’41’’We25º00’56’’S; 47º25’42’’W.Tratasedeumailhaquepossuiumpoucomaisde70kmdecomprimento,porcercade3 kmdelargura;equeestáseparadadocontinentepeloMarPequeno(oudeIguape)epeloMardeCa‐ naneia,tendocomomunicípioslimítrofes,IguapeeCananeia. APontaNorte(Figura1),áreadeestudodestetrabalho,localizasenaextremidadenordeste daIlhaComprida,queseconfiguracomoumaáreacomelevadasensibilidadeàerosãocosteiraeére‐ conhecidacomoinadequadaàocupaçãohumana(BECEGATO;SUGUIO,2008). Importante  destacar  que  as  atividades  desta  pesquisa  foram  desenvolvidas  no  trecho  ur‐ bano  da  Ponta  Norte,  área  onde  se  concentra  a  população  vulnerável  aos  riscos  de  erosão  costeira  presentes  naquela  região  da  ilha.  Diante  de  tais  questões,  o  objetivo  deste  trabalho  consistiu  em  compreender  as  situações  de  riscos  e  de  vulnerabilidades  social  e  ambiental,  existentes  na  Ponta  Norte  do  município  de  Ilha  Comprida  (SP),  a  partir  da  aplicação,  na  escala  do  lugar  (1:  5.000),  da  metodologia  do  Mapeamento  Ambiental  Participativo  (MAP),  com  o  intuito  de  contribuir  com  a  elaboraçãodeplanosdegestãoambientalparaaáreaemquestão. 147 MapeamentoambientalparticipativonaPontaNortedoMunicípiodeIlhaComprida,SP 2 - REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 - AS CARTOGRAFIAS DE CUNHO SOCIAL Buscandoavalorizaçãodosmétodosparticipativos,sefaznecessáriaainserçãoemdiscussões acercadascartografiasdecunhosocial,tambémfundamentaisparaoentendimentodoMAP.Sãodi‐ versasasdenominaçõesdadasàspráticasquevisamàproduçãodemapas,apartirdaparticipaçãopo‐ pular.AindaqueexistagrandevariedadedemetodologiaserecortesexistentesentreaCartografia Social,Cartografia da Ação Social,omapeamento participativoeaEtnocartografia,porexemplo,to‐ dastêmemcomumavalorizaçãodamemóriacoletivaeoincentivoàparticipaçãodapopulação,para oentendimentodoterritório. Sendoessetrabalho,orelatodeumaexperiênciaqueadotacomoumadasváriasmetodologi‐ as,daquiloqueédenominadodeformageralnestecapítulocomoCartografiaSocial,éimportanteque seapresentemdefiniçõesprecisasparaostermos:aCartografiaSocialconstituisecomoumramoda ciênciacartográfica,quetrabalhadeformacríticaeparticipativacomademarcaçãoeacaracterização espacialdeterritóriosemdisputa,degrandeinteressesocioambiental,econômicoecultural,comvín‐ culosancestraisesimbólicos(GORAYEB;MEIRELES,2014). Acrescentase  também,  que  a  Cartografia  Social  permite  a  participação  efetiva  de  grupos  que  es‐ tão  excluídos  da  produção  dos  chamados  mapas  tradicionais,  já  que  as  bases  cartográficas  e  os  mapas  ge‐ ralmentesãoproduzidosportécnicosespecializados,sobointeressedeinstituiçõespúblicaseprivadas (ACSELRAD,2008). Ainda  definindo  a  Cartografia  Social  Acselrad  (2010,  p.  10)  destaca  que  as  experiências  para  es‐ te  tipo  de  cartografia  têm  como  alguns  de  seus  objetivos  “a  afirmação  identitária  territorial  de  grupos  su‐ balternos,assimcomoafundamentaçãocognitivadagestãoracionalderecursosnaturais”.Ouseja,a CartografiaSocialpodeservirtantocomomeiodealertaparaagestãodosrecursospresentesnoterritó‐ rio,comotambém,meiodeaproximarumgrupoexcluídodoterritórionoqualelevive;que,pormuitas vezes,édisputadoporinteressesprivados,atravésdeprojetosdesenvolvimentistashegemônicos. Figura 1–Localizaçãodaáreadeestudo.Fonte:Araújo(2019). 148 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa ACartografiaSocialesuasdiferentesvertentestêmcomoumdeseuspontosdepartida,quea mesmadeveocorreratravésdacoletividade,naqualospesquisadoreseacomunidadetenhamomes‐ moníveldeimportâncianarealizaçãodoprojeto(SANTOS,2016).Alémdisso,aCartografiaSocial nãopodeserumaimposiçãodopesquisadorparaacomunidade,eladeveocorrerpelointeressedaco‐ munidadelocal(ALMEIDA,2010)ouporiniciativadopesquisadorougrupodepesquisa. Segundo  Acselrad  (2008),  o  primeiro  estudo  reconhecido  como  um  mapeamento  parti‐ cipativo  ocorreu  no  Canadá,  na  década  de  1970  e,  nesse  projeto,  grupos  de  esquimós  realizaram  mais  de  duzentos  mapas  de  uso  e  ocupação  da  terra,  que  foram  de  grande  utilidade  para  a  posse  eomanejodosrecursosnaturais. JánoBrasil,oProjetoNovaCartografiaSocialdaAmazônia(PNCSA)foioprimeiroprojeto dedestaque,aoutilizaroconceitodeCartografiaSocial(ACSELRAD,2008,p.6).Aindaexistente,o PNCSAteveseuinícionocomeçodosanos1990,nasáreasemquesedesenvolveuoProgramaGran‐ deCarajás,tendoamplaparticipaçãoetendocomoresultado,aproduçãodediversosfascículos,que resultaramnolivroCarajás: a guerra dos Mapas,publicadoem1994(ALMEIDA,1994). As  produções  do  PNSCA  tiveram  o  “envolvimento  de  sindicatos,  associações,  movi‐ mentos,  cooperativas,  que  os  têm  utilizado  ‘como  forma  de  afirmar  direitos  territoriais’  em  dife‐ rentes  contextos”  (ACSELRAD,  2008,  p.  6).  Com  relação  aos  resultados  do  início  do  PNSCA,  Gorayeb  e  Meirelles  (2014)  acrescentam  que  o  projeto  demonstrou  que  os  usos  do  território  não  estavam  fixos  a  limites  exatos,  pelo  contrário,  demonstraram  um  uso  “coletivo  e  multifacetário”.  Dessa  forma,  o  PNSCA  “foi  fundamental  para  a  elaboração  de  políticas  fundiárias  e  ambientais  nacionais,  com  a  discussão  de  legislações,  a  elaboração  de  planos  de  uso,  de  manejo  e  de  gestão  territorialeacriaçãodeReservasExtrativistas”(GORAYEB;MEIRELES,2014). ApósoPNSCA,foramdiversososprojetosdeCartografiaSocialdesenvolvidosnoBrasil. SegundoAcselrad(2010),consistememcercade220experiências,denominadasporseuspromotores comodeCartografiaSocialoudemapeamentoparticipativo,entre1992e2010.Nãonecessariamente, todosessesprojetosseguemascaracterísticasapontadascomoessenciaisparaaCartografiaSocial,co‐ moporexemplo,anecessidadedeconstruçãoconjunta,semimposiçãoporpartedospromotoresdos projetos. ComovistoemAcselrad(2008),aparticipaçãopopularpassaaganharimportâncianoBrasila partirdosanos2000,tornandoseatémesmoobrigatóriaemdeterminadasinstâncias.Comisso,alguns mapeamentosparticipativospassaramaserorganizados,comoumaformalidadeparaaefetivaçãode projetosunilateraisou,comoAcselrad(2010)define,projetoshegemônicos. GorayebeMeirelles(2014)apontamavariedadedeprojetosdeCartografiaSocialeosdife‐ rentesobjetivosquecadaumdelestrazconsigo.Entreestesobjetivos,destacamsealegalizaçãodeter‐ raspúblicas,posselegaldaterra,melhoriashabitacionais,publicizaçãodefenômenose/ousituaçõesde vida,divulgaçãodeserviços,infraestruturae/ouculturadeumdeterminadolugar/povoação.Osmes‐ mosautoresindicamadistribuiçãoespacial,aspopulaçõesparticipanteseosprincipaisriscoseamea‐ ças,osquaislevaramàelaboraçãodessesmapeamentos(Quadro1). AindacomrelaçãoaosprojetosdeCartografiaSocialnoBrasil,cabeacrescentaraimportân‐ ciaqueosistemadeinformaçãogeográfica(SIG)temtidoparaamultiplicaçãodosmapeamentospar‐ ticipativos(COLI,2008.p.93).Noentanto,Coli(2008)indicaqueamesmatecnologiapermitea disseminaçãodosprojetosquelevamàinstrumentalizaçãodelutaspelaafirmaçãoterritorialetambém servecomomeiodeexpropriaçãodossaberesepoderesdostrabalhadores.Essesquestionamentosele‐ vamadiscussãosobreopapeldosmapeamentosparticipativosedaCartografiaSocial. Emsuma,podeseafirmarqueapesardascríticasqueindicamapossibilidadedascartografias sociaisserviremparaobjetivoscontráriosàsuacriaçãoeconceituação,estaspermitemomapeamento doTerritório,combasenasmemóriaseconhecimentodacomunidadelocal,tendocomoresultado,ma‐ teriaisquepodemterdiversasutilidadesdentreelas,subsídiosparaaelaboraçãodepolíticaspúblicas, assimcomo,meiodecontribuirparaamelhoriadoconhecimentodaspopulaçõesqueparticipamdestes processos. 149 MapeamentoambientalparticipativonaPontaNortedoMunicípiodeIlhaComprida,SP 2.2 - DO MAPEAMENTO DE RISCOS AMBIENTAIS AO MAPEAMENTO AMBIENTAL PARTICIPATIVO OMapeamento Ambiental ParticipativonoinícioerachamadodeMapeamento de Riscos Ambientais.SegundoDagninoeCarpiJunior(2016),amudançadenomeocorreuapartirdaobserva‐ çãodospesquisadoressobreointeressedapopulaçãoemtratarnãoapenasosriscosambientais,mas tambémasquestõesgeraisrelacionadasàpreservaçãoambiental,incluindoaspotencialidadesdolugar (açõesepontospositivos). Sobreosmapeamentosderiscosambientais,destacamsetrabalhosefetuadosnaregiãode Campinas(SEVÁFILHO,1997)enabaciahidrográficadorioMogiGuaçu(CARPIJUNIOR.2001; SEVÁFILHO;CARPIJUNIOR,2001;CARPIJUNIOR;PEREZFILHO,2005). Por  se  tratar  de  um  método  de  mapeamento  participativo,  o  MAP  traz  semelhanças  e  dife‐ renças  com  outras  metodologias  de  Cartografia  Social.  Uma  diferença  que  os  primeiros  mapeamen‐ tos  de  risco  ambiental  trouxeram  em  relação  aos  primeiros  trabalhos  de  Cartografia  Social  no  Brasil  foram  as  áreas  escolhidas  para  o  mapeamento.  Enquanto  os  projetos  de  Cartografia  Social  ocorriam  em  áreas  rurais,  principalmente  nas  regiões  norte  e  nordeste  do  país,  os  mapeamentos  de  riscos  am‐ bientais  ocorreram  em  áreas  urbanas  ou  periurbanas  no  estado  de  São  Paulo  (DAGNINO;  CARPI  JUNIOR,2016),característicaquesemanteveapósamudançadenomenclatura. A  partir  das  experiências  e  das  contribuições  da  aplicação  da  metodologia  em  trabalhos  de‐ senvolvidas  por  Carpi  Junior  (2001),  Dagnino  (2007),  Dagnino  e  Carpi  Junior  (2016)  e  Silva  (2015),  por  exemplo,  é  definido  um  modelo  básico  de  etapas  de  aplicação  para  a  elaboração  do  MAP(Quadro2). A  primeira  etapa  para  a  elaboração  do  MAP  é  a  definição  de  uma  área  e  de  um  público  alvo  (Quadro  2).  Importante  que  exista  interesse  da  população  em  apontar  os  problemas  ou  as  potencialidades  presentes  na  cidade  ou  no  bairro  em  questão.  Após  isto,  se  faz  necessária  a  reali‐ zação  de  parcerias  com  a  população  e,  sendo  possível,  com  os  setores  públicos,  as  organizações  não  governamentais  (ONGs),  entre  outros,  para  definir  um  local  apropriado  para  a  realização  das  reuniões  de  mapeamento  e,  de  preferência,  que  não  tenham  quaisquer  relações  com  organi‐ zaçõespolíticas. Emseguida,énecessáriaaelaboraçãodemapabase,aserutilizadoduranteasreuniõesde mapeamento.No quedizrespeitoàscaraterísticasdestematerial,éaconselhávelque detenhaape‐ nasinformaçõesessenciaisebásicasparaoseuentendimento,taiscomo:principaisruaseavenidas, Quadro 1PanoramageraldasatividadesdeCartografiaSocialnoBrasil Fonte:adaptadodeGorayebeMeirelles(2014). 150 MapeamentoParticipativoeCartografiaSocial:AspectosConceituaiseTrajetóriasdePesquisa nomes de rios, nomes de bairros, assim como a localização de escolas, praças, igrejas, postos de saúde,estabelecimentoscomerciaisetc.Arespeitodisto,CarpiJunioret al.(2012,p.49)ressaltam aimportânciadosmapasbase,deacordocomaseguinteafirmação: Énecessárioprepararumabasecartográficaqueproporcioneaosparticipan‐ tes das reuniões um material de fácil visualização, espaços para insumos gráficoselocalizaçãoenomedebairros,avenidas,rodovias,rios,instituições eequipamentospúblicosdemaiorporte,limitesdaáreadeestudoeoutras referênciasimportantes. Comadefiniçãododia,localehoráriodareunião,opesquisadoredemaisenvolvidosdevem divulgaroeventopublicamente,utilizandoosmeiosnecessáriosepráticosparaconvidaropúblicoal‐ vodomapeamento.Jáasegundaetapa,consistenafasederealizaçãodareuniãopúblicademapea‐ mento.Nela,opesquisadoresclareceinicialmenteointuitodapesquisaeosobjetivosdoMAPea importânciadaparticipaçãodapopulaçãoparaasuarealização,alémdesanarpossíveisdúvidas. Nachamadaalfabetização cartográfica,ospesquisadoresdãoorientaçõesquecontribuampa‐ raqueosparticipantessefamiliarizemcomomaterialcartográfico,sendocapazesdereconhecereen‐ tenderassimbologiasdalegenda,bemcomoaidentificaçãodepontosdereferêncianomapa,entre outrosaspectos. ConformeDagnino(2007,p.52)omomentodemapeamentoprecisaseracompanhadopelos pesquisadores,para queeles exerçamum papeldeestimuladores,indicando para apopulação que quaisquerpercepçõesdelasobreoambientesãopassíveisdemapeamento.Alémdisso,seforocaso,o pesquisadortambémdeveacalmarosparticipantesmaiseufóricosepromoverodiálogorespeitosoen‐ tretodos,semprebuscandoavalorizaçãodaspercepções,dasexperiências,dosmapasmentaiseda memóriacoletiva. Nomomentodomapeamento,énecessárioainda,queopesquisadorestejaatentoatodasas informaçõeseexperiênciasrelatadaspelosparticipantes,poisestaspodemserdegranderelevância;e, nãonecessariamente,serãocolocadasoudevidamenteesclarecidasnomapa.ConformeDagninoeCar‐ piJunior(2016),ospesquisadoresnãodevemapresentardefiniçõesrestritassobreosconceitos.Ouse‐ ja,adefiniçãodoqueéumriscoambiental,porexemplo,podeseradosprópriosparticipantes. NaterceiraetapadoMAP,apósareuniãopública,opesquisadordevecompilareanalisaros dadosobtidos,redigindorelatórioseartigos,porexemplo,assimcomo,elaborarmapasquefacilitemo entendimentodasinformaçõescoletadas.Nocasodosmapas,aanáliseprecisaserfeitaapartirdareto‐ Quadro 2EtapasdaaplicaçãodoMapeamentoAmbientalParticipativo. Fonte:elaboradoapartirdeDagnino(2007)eSilva(2015). 151 MapeamentoambientalparticipativonaPontaNortedoMunicípiodeIlhaComprida,SP madadosestudossobrearegião.Casosejanecessário,umanovavisitaaolocaldeveserrealizada,para coletadedadosqueconfirmemasinformaçõesadquiridasduranteareuniãopública,abrindopossibili‐ dadesderefinamentoouatémesmo,acorreçãodosresultados. Porfim,apósaconclusãodapesquisa,deveseorganizarumareuniãopública,paradevolutiva dosresultadosfinaisdetodootrabalho.Nessaetapa,éaconselhávelquehajaaparticipaçãodasmes‐ maspessoasqueparticiparamdasreuniõesanteriores(e,depreferência,nomesmolocal);equeconte comapresençademembrosdopoderpúblico(vereadores,secretários,prefeitoeviceprefeitoetc.). Alémdasocializaçãodosdadosdapesquisacomapopulaçãoepoderpúblico,talreuniãopúblicatam‐ bémpodeservircomoaoportunidadeparaosparticipantesopinaremsobreosresultados,alémdeos corrigirem,conformesejanecessário. Porvezes,emdiversasatividades,dedistintossetoresdasociedade,apercepçãodaspessoas sobreoambienteésubestimadaecolocadaemsegundoplano,emcomparaçãoaoconhecimentotécni‐ coecientífico(SEVÁFILHO,1997).Noentanto,nãoéessaavisãopresentenosmapeamentosparti‐ cipativos. Nestes mapeamentos, a memória coletiva e a percepção são valorizadas, como fonte de conhecimentosquepodeserutilizadapelopesquisadorepelaprópriacomunidade,comoferramentas degestãoeplanejamento.  O  MAP,  entretanto,  não  busca  substituir  o  conhecimento  científico  por  outra  forma  de  conheci‐ mento.  Segundo  Carpi  Junior  e  Perez  Filho  (2005),  o  que  se  pretende  é  adicionar  e  integrar  as  percepções,  os  mapas  mentais  e  a  memória  coletiva,  junto  aos  métodos  já  amplamente  utilizados  nas  pesquisas  geo‐ gráficaseambientais. Trataseentão,deumametodologiaquebuscaconciliarmétodostradicionaiscomaparticipa‐ çãoefetivadapopulação.Diantedessedesafio,fazsenecessário,justificarasuautilidadeeeficácia,ou seja,éprecisoexporosmotivospelosquaisoMAPéútilparasociedadeenquantométodoparticipati‐ vocientífico.Emoutraspalavras,éessencialquesejamapresentados,alémdosobjetivosemetodolo‐ giasdoMAP,osargumentosqueojustificamequeafirmamasuautilidade.DagninoeCarpiJunior (2016)demonstramqueosdiagnósticosparticipativos,nosquaisoMAPestáenglobado,sãoinclusivos socialmente,científicos(dopontodevistaacadêmico)epossuemoamparolegal.Cabenosentão,ex‐ plorarosargumentosapresentadosporesteseoutrosautores. PrimeiramenteéimportantecitaroprofessorSeváFilho,responsávelpelaprimeiraatividade demapeamento participativo de riscos ambientais,pesquisadorquefoitambémumdosprimeirosa justificaredemonstrararelevânciadessemétodo,comopodeserobservadonotrechoaseguir: A  relevância  de  um  mapeamento  de  riscos  ambientais  está  em  conseguirse  elaborar  um  produto  de  aplicação  didática  para  usar  na  formação  de  outras  li‐ deranças,  e  na  educação  popular.  Algo  em  que  os  cidadãos  se  apoiem  para  o  entendimento  da  própria  região  e  de  alguns  dos  seus  próprios  problemas.  (SE‐ VÁFILHO,1997,p.1). EmCarpiJunior(2001),aanálisederiscosambientais,pormeiodemapeamentoparticipati‐ vo,foiumdosmétodosutilizadosaolongodoestudo.Pelaexposiçãodeexperiênciasanterioresede discussãoteórica,oautorafirmaanecessidadedaexploraçãoedautilizaçãodediagnósticos participa‐ tivos de risco ambiental,paraqueassimsejaapossívelaconstruçãode uma  nova  visão  de  pesquisa  que  possa  conciliar  o  melhor  possível,  o  co‐ nhecimento  técnico    científico  com  o  conhecimento  intuitivo  e  da  percep‐ ção  da  população  ligada  às  questões  ambientais,  e  contribuir  ao  engajamentopolíticodasociedade.(CARPIJUNIOR,2001p.62) Omapeamentoparticipativoderiscosambientaispermiteentão,oentendimentodaprópriare‐ gião  e  de  parte  de  seus  problemas  (SEVÁ  FILHO,  1997);  e,  por  consequência,  engajamento  político  des‐ sa população (CARPI JUNIOR, 2001). Complementando, uma das justificativas para o uso do