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Pessoas e águas: natureza humana e ecossistêmica na comunidade quilombola de Monte Alegre, Veredinha, Minas Gerais

Silva, Roberta Alves; Cambraia, Rosana Passos; Baronio, Gudryan Jackson; Braga, Maraísa Resende; Rech, André Rodrigo

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FTUVEPTSVSBJTFNJOBTFSBJT ·ȱȱ ȱȱ ȱȱȱ ȱȱ ǻǯǼ PM Os Vales que Educam: estudos rurais em Minas Gerais 2 3 André Rodrigo Rech Ivana Cristina Lovo Alan Faber do Nascimento Hebert Canela Salgado (Organizadores) Os Vales que Educam: estudos rurais em Minas Gerais 4 Copyright © Autoras e autores Todos os direitos garantidos. Qualquer parte desta obra pode ser reproduzida, transmitida ou arquivada desde que levados em conta os direitos das autoras e dos autores. André Rodrigo Rech; Ivana Cristina Lovo; Alan Faber do Nascimento; Hebert Canela Salgado [Orgs.] Os Vales que Educam: estudos rurais em Minas Gerais. São Carlos: Pedro & João Editores, 2024. 517p. 16 x 23 cm. ISBN: 978-65-265-1506-8 [Digital] 1. Comunidades tradicionais. 2. Agroecologia. 3. Desigualdade. 4. Minas Gerais. 5. Estudos rurais. I. Título. CDD Ȯ 370 Capa: Marcos Della Porta Foto capa: Homenagem ao Grupo de Folia de Reis do Bairro Arraial dos Crioulos de Araçuaí, Bordado Aline Gomes Ruas, Fotografia Lori Figueiró, dezembro de 2022. Ficha Catalográfica: Hélio Márcio Pajeú Ȯ CRB - 8-8828 Diagramação: Diany Akiko Lee Editores: Pedro Amaro de Moura Brito & João Rodrigo de Moura Brito Conselho Editorial da Pedro & João Editores: Augusto Ponzio (Bari/Itália); João Wanderley Geraldi (Unicamp/Brasil); Hélio Márcio Pajeú (UFPE/Brasil); Maria Isabel de Moura (UFSCar/Brasil); Maria da Piedade Resende da Costa (UFSCar/Brasil); Valdemir Miotello (UFSCar/Brasil); Ana Cláudia Bortolozzi (UNESP/Bauru/Brasil); Mariangela Lima de Almeida (UFES/Brasil); José Kuiava (UNIOESTE/Brasil); Marisol Barenco de Mello (UFF/Brasil); Camila Caracelli Scherma (UFFS/Brasil); Luís Fernando Soares Zuin (USP/Brasil); Ana Patrícia da Silva (UERJ/Brasil). Pedro & João Editores www.pedroejoaoeditores.com.br 13568-878 Ȯ São Carlos Ȯ SP 2024 5 Sumário Seção 1 Comunidades Tradicionais e seus territórios Capítulo 1 Povos e comunidade tradicionais do Brasil: conceitos, direitos e princípios agroecológicos Alan Oliveira dos Santos Daniele Taís Silva Sobrinho Larissa Chaves Pinto Lauanda Lopes de Souza Marivaldo Aparecido de Carvalho Claudenir Fávero Capítulo 2 Pessoas e águas: Natureza humana e ecossistêmica na comunidade quilombola de Monte Alegre, Veredinha, Minas Gerais Roberta Alves Silva Rosana Passos Cambraia Gudryan Jackson Baronio Maraísa Resende Braga André Rodrigo Rech Capítulo 3 ȃȱȱȄDZȱȱȱȱȱȱ por uma comunidade Quilombola do Alto Jequitinhonha Nanci Ribeiro de Jesus Camila Alvez Islas André Rodrigo Rech 13 41 69 41 Capítulo 2 Pessoas e águas: natureza humana e ecossistêmica na comunidade quilombola de Monte Alegre, Veredinha, Minas Gerais Roberta Alves Silva 13 Rosana Passos Cambraia1 Gudryan Jackson Baronio2 Maraísa Resende Braga3 André Rodrigo Rech1 13 Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos Rurais - PPGER. Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. - UFVJM. 2 Universidade de São Paulo - USP 3 Programa de Pós-Graduação em Agroecosistemas - PGA, Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. 42 Resumo Neste trabalho ȯ que compõe a dissertação de mestrado da primeira autora ȯ nos dedicamos a compreender a disponibilidade e o uso do serviço ecossistêmico de provisão hídrica no contexto da comunidade Quilombola de Monte Alegre, Veredinha, Minas Gerais. Buscamos ainda abordar os problemas e os conflitos em torno desse bem natural, assim como os aspectos culturais e simbólicos dessa relação entre a comunidade e a água. Utilizamos entrevistas semiestruturadas e visitas de campo como o método participativo transecto como estratégias metodológicas para o levantamento de dados. Verificamos a singularidade da relação que a comunidade tem com a água, marcada pelo uso comunal com cuidado e respeito, assim como os impactos que a monocultura de eucalipto ȯ sobretudo no entorno de Monte Alegre ȯ tem trazido à comunidade, sendo os principais a escassez da água e a perda de parte do território. Neste cenário, a comunidade passa a adotar serviços ambientais como estratégia de (re) existência. Introdução Desde o começo dos tempos águas e chão se amam. Eles se entram amorosamente. E se fecundam... E acho que as águas iniciam os homens. Nos iniciam... Todos somos devedores destas águas... Penso que os homens deste lugar são a continuação destas águas. (BARROS, 2019, n.p) Segundo o Relatório-Síntese da Avaliação Ecossistêmica do Milênio (MA, 2005) a água é um serviço [bem] ecossistêmico de provisão, caracterizado pelo atendimento às demandas dos seres vivos ȯ de forma mais específica, dos humanos. Na classificação apresentada por Schuler (2019) este bem pode ser descrito como hidrológico terrestre, que seria resultado das ações do ecossistema sobre as águas terrestres/não oceânicas. Os bens hidrológicos ȱ ȱ ȃȱ ȱ ¤ȱ ȱ ȱ ¡ȱ Ȅȱ na agricultura e no abastecimento geral, ȃȱȱ¤ȱȱȄȱ voltado à produção de energiaǰȱȃ³ȱȱȱ¥ȱ¤Ȅȱ como o turismo e outros, e ȃ³ȱ àȱ ȱ ȱ ȱ 43 ecossistemaȄ, que contribuiriam na geração de outros bens naturais (SCHULER, 2019, p. 16). Considerando que os principais processos no meio rural dependem da disponibilidade de água, especialmente de água potável (Zheng et al. 2016), este é um dos serviços ecossistêmicos mais preciosos às comunidades rurais. Se a agricultura é um modo de vida, a água é então um dos elementos principais na modulação desse modo de viver. Monte Alegre é uma comunidade quilombola e rural, situada no município de Veredinha, Minas Gerais, com um modo de viver marcado pela estreita relação com seu território natural e simbólico. A comunidade, outrora (início dos anos 2000) populosa com mais de 30 famílias, tecia a vida entre as grotas 14 e as chapadas 15 vivendo da agricultura, extrativismo e artesanato, como relatam as famílias entrevistadas. Monte Alegre, assim como outras comunidades do Alto Vale do Jequitinhonha, sofreu um processo de expropriação das chapadas, conduzido pela empresa Aperam BioEnergia, para a implantação do monocultivo de eucalipto a partir da década de 1970. Como consequência, a região sofreu um processo de agravamento da tímida aridez natural. Os estudos de Lima (2013) apontam características do eucalipto, descrevendo-o como uma planta de: Alta demanda de água, esgotando a umidade do solo e diminuindo a recarga, de modo que desestabiliza o ciclo hidrológico; Elevada demanda de nutrientes, criando um alto déficit anual, descontrolando o ciclo de produção; 14 As grotas possuem duas acepções para a comunidade. A primeira diz respeito às partes baixas do relevo, desde o declive das bordas de uma planície até as baixadas no entorno dos córregos, onde são construídas as casas e efetuados os cultivos. Ou podem também se referir à propriedade de uma família, tendo como ȱȱ¤ȱǰȱȱȱȱȱȱȱ¡¨DZȱȃȱ dos Quirinos, grota dos Barbas" etc. 15 As chapadas são as partes mais altas do relevo, geralmente planas e extensas, com vegetação do cerrado típico, abundante em frutos e com áreas de veredas Ȃ¤ǯȱ³ȱȱȱȱǰȱȱȱȱ£ǯȱ 50 ȃȱ¤ȱȱǰȱ·Ƿȱȱȱȱȱȱǰȱ£ǰȱȱǰȱ pras criação e prá limpeza né! Pras pranta também essas que a gente pranta perto de casa, ocê entende, né!, pra tudo, porque sem água nada sobrevive. Pros passarim também a gȱäȱ¤ǯȱȱȱǯȱȱȱȱȱ£ȱȂ¤ȱȱäȱ¤ȱ ȱȱȱȱǯȄȱ(Maria do Miliano, 65 anos, Monte Alegre). Como indica a fala acima, nas atividades agropecuárias utiliza-ȱȱ£³¨ȱȱ¤ȱȃȱȱ³äȄǰȱȱ domésticos (bovinos, equinos, muares, suínos, aves e em alguns casos caprinos) e para irrigação de alguns cultivos próximos à casa, geralmente olerícolas e frutíferas; em geral, as culturas anuais não costumam ser irrigadas. Na agroindústria doméstica, a água é utilizada para a produção de rapadura, farinha, cachaça, doces, queijos, requeijões etc. Galizone (2010) parte do entendimento que a segurança e soberania alimentar da comunidade passam pela necessidade de se ter água em qualidade e quantidade, não só para o consumo humano direto, mas também para a produção de alimentos. A autora trata essas duas dimensões do uso da água como inseparáveis e complementares, assim como compreende a comunidade de Monte Alegre. ȃNaquela época ninguém pensava que iria acabar [a água], né! Mas hoje nós tá veno. Aqui lugar que era terra de arroz, hoje é pelador 19 Ȅȱ (Etelviana, 66 anos, Monte Alegre). Esse usufruto, embora por muito tempo tenha sido feito sem a preocupação futura, não se pautava (na ȱȱǼȱȱȃȄǯȱȱȱȱȱȱ feito com muito respeito à natureza, entendida como coisa de Deus. Ainda assim, no período em que as chapadas foram derrubadas e transformadas em carvão vegetal para implante do eucalipto, os comunitários recuados nas grotas imitaram a produção de carvão vista nas chapadas como uma alternativa a perda de parte de sua fonte de renda. Percebendo os impactos negativos do desmatamento a comunidade cessou a atividade. De acordo com as entrevistas, Monte Alegre passou inclusive a cuidar e a reflorestar áreas degradas, além de exercer uma fiscalização interna em relação à 19 Área degradada com solo exposto, sem vegetação. 51 observação das boas práticas ambientais. É comum um vizinho ir dialogar com o outro por entender que seu roçado está sendo em demasia, e pode ser prejudicial. Percebemos nas entrevistas que nos processos internos sempre houve regras de uso e cuidado, mesmo que não registradas através da escrita, e mesmo sem a figura de um fiscal propriamente dito. A moral dos comunitários criou aos poucos um código simbólico que norteia a relação com a natureza. Existe, então, uma espécie de fiscalização coletiva sutil, feita de forma natural pela comunidade, um tipo de controle social consciente, que se assemelha com as descrições de controle social descritas por Sobreiro (2008) e Berkes (1996). Na comunidade, a partilha é o princípio do uso (MAUSS, 2013), e a nascente das lapinhas localizadas na Grota do Algodoeiro é um exemplo disso. A nascente tinha vazão pequena segundo os moradores, de forma que armazenava somente a quantidade de água referenȱȱȱȱȂ¤ȱȱ£ǰȱȱȱȱȱȱ água, em poucos minutos brotava novamente o referente a mais um pote. Mesmo a vazão não sendo grande, abastecia durante o período de estiagem cinco famílias (Afonso Venâncio, Mané do Afonso Venâncio, Nenê do Tio Chico, Joana do Mané Toca e Maria Toca), que residiam naquela grota. ȃȱ¤ȱȱȱȱǯȱȱ¤ȱȱȱ¨ȱȱȱ¨ǰȱȱȱ as outras, né! Só na seca que a gente pegava dela, mas ela durava o ano todo... era só a nascente, ela era um caldeirãozinho mais pequeno que essa minha aqui em casa... Era tudo compartilhado, não tinha regra não, o que chegava primeiro panhava, se chegasse junto um panhava um muncado [não enchia o pote] e deixava para o outro... Se tivesse suja por causa dos passarinhos ou da chuva, qualquer um que chegasse lá primeiro, lavava, se tivesse de tempo até esperava encher de novo para apanhar a água, se não, deixava o pote, ia para a casa e depois voltava... Não podia por nada lá não [animais, bovinos ou equinos], todo mundo preservava porque era a fonte que tinha... Não tinha briga porque todo mundo tinha combinação para usar ela [a ǾǯǯǯȄȱ (Maria de Lourdes 52 anos, Monte Alegre, grifo nosso). Observamos que nesta fala Maria de Lourdes afirma que não havia regras para o uso da nascente, mas logo em seguida ela diz ȱȃtodo mundo tinha combinação para usarȄȱȯ entendemos essa 52 combinação não como um tratado na sua acepção estrita, mas o combinar da moral, tanto no sentido de moral semelhante nas práticas, quanto no sentido de um código simbólico do grupo, que vai determinar o que é certo ou errado, legítimo ou ilegítimo perante os seus. E é justamente este código simbólico que sutilmente conduz às normas de uso. Conforme aponta Berkes (1999) o conhecimento ecológico tradicional abrange também valores culturais e morais que moldam e modulam a relação com o mundo natural. A nascente da Lapinha se encontra hoje inativa e de acordo com a comunidade teria secado entre 1998 e 1999. As famílias que faziam uso dela fizeram um poço tipo Amazonas 20 e passaram a usar a água dele no período da seca. A escassez raramente é individualizada, porque boa parte dos recursos naturais de muitas comunidades rurais - terras, plantas, frutos, madeiras, lenha, minerais e água - são domínios coletivos originados de herança comum, e esta condição costuma implicar quase sempre numa partilha equitativa da abundância e da escassez (RIBEIRO, 2013, p. 55). As famílias da comunidade vivenciam juntas o processo de escassez de água, não existe indiferença à situação do outro. Se uma família possui fartura de água, as demais não passarão necessidade, por mais distante que estejam as residências. A forma da comunidade se relacionar com a água nos lembra a descrição de Godelier sobre as formas de direitos/apropriação dos bens, descrito na obra de Godoi (1998). Godelier usa dois termos dos Sianes da Nova Guiné para distinguir as formas de direito/apropriação; merafo e amfonka, que traduziriam, respectivamente, a tutela de um bem intransferível e inalienável perante a comunidade e os seus, e bens alienáveis apropriados de forma pessoal e individual (GODELIER 1998 apud GODOI, 1998). 20 Poço Amazonas ou cisterna é o nome que a comunidade dá ao poços perfurados a mão na procura de água. Geralmente a água dos poços é utilizada para o consumo humano por serem entendidas como água de boa qualidade. 53 Trazendo esta reflexão para o contexto da comunidade de Monte Alegre, a água, os frutos do cerrado e outros elementos ȯ mas, sobretudo a água ȯ seria um direito merafo, porque são dons de Deus dados para todos. Mesmo a nascente da Lapinha estando localizada no terreno do Sr. Afonso Venâncio, ele não era o dono da água, não poderia vendê-la aos comunitários, e tampouco poderia negá-la aos seus. Ele era simplesmente o responsável pelo cuidado, pela tutela daquele bem inalienável. Muito embora isso não seja dito às claras, percebe-se uma convicção e respeito de que o que está no terreno do outro é determinado por ele, mas ao mesmo tempo a moral deste outro ȯ que pode ser qualquer comunitário ȯ já carrega a ciência da forma de gestão de direito merafo. Já o direito/apropriação amfonka compreenderia na comunidade as benfeitorias de cada agricultor sobre sua terra: as plantações tanto de lavoura ou de outra natureza são bens alienáveis construídos e apropriados pelo próprio indivíduo e ele é, portanto, o dono daquilo, assim como os animais domésticos criados, a casa construída etc. Os elementos de direito merafo devem ser também solicitados a quem tem a tutela do bem, assim como no direito amfonka; a diferença é que este último pode ser negado, enquanto negar este primeiro é negar a comunidade e a condição de comunitário. A ideia de direito que traz Godelier no termo amfonka nos remete a uma concepção trabalhada por Woortmann (1990) com os sitiantes de Sergipe, que é a noção de ser dono como uma categoria moral dentre os camponeses. Segundo o autor, a partir de suas ³äȱȱ¡ȱȱȃé-se dono, não por se ter comprado a terra, mas por tê-la trabalhadoȄǰȱ¨ȱ·-se dono do que produziu. O direito amfonka traz um pouco dessa essência, de que é seu o que você construiu, e somente sobre o que foi edificado é que se tem pleno direito. A natureza e seus elementos neste sentido jamais poderiam ser, nem mesmo em parte, pertencentes ao ser humano. 54 A vida árida e resiliente: dos bens naturais aos serviços ambientais Mesmo que não reconhecida oficialmente pelo Estado, a região geográfica em que se encontra a comunidade possui fortes características do semiárido, sendo inclusive uma área atendida pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE). Esta agência foi criada pelo presidente Juscelino Kubitschek, justamente para atender a região nordeste em toda área compreendida como o polígono da seca, pensando o desenvolvimento da região com projetos, assistência técnica, dentre outras ações, conforme a Lei nº 3.692, de 15 de dezembro de 1959. A atuação da SUDENE na região por si só já é um elemento indicador da fragilidade hídrica. Porém, na prática, não podemos deixar de enfatizar que a SUDENE historicamente foi colocada a serviço dos grandes proprietários de terra, dos ruralistas, na medida em que a preocupação primária era de tornar produtivas as grandes propriedades, com o discurso da seca drástica na região e da miséria do povo (OLIVEIRA, 2004). O resultado do trabalho da ȱ ȱ ȱ ȱ ȃ¹-envolvimentoȄǰȱ ȱ ȱ ȱ ȱ ȱ caminho junto à Rural Minas de ordem Estadual (RIBEIRO, 2007), para a instauração de iniciativas do hidro e do agronegócio. Hoje se faz necessário, especialmente no Vale do Jequitinhonha, não mais buscar modelo de desenvolvimento alternativo, senão buscar alternativas ao modelo de desenvolvimento (SANTOS, 2009, p. 28). A Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), uma organização civil de interesse público, considera que as regiões semiáridas ocorrem na caatinga, no cerrado e nas regiões de transição entre os dois biomas. No caso do Brasil, segundo a ASA (2019), o semiárido tem uma média de precipitação menor do que os demais locais, com índice anual entre 400 a 800 mm, o que é menor do que a taxa de evaporação anual de aproximadamente 3.000 mm. Ainda de acordo com a ASA, a baixa precipitação somada aos solos pouco profundos e à salinização dos mesmos 55 dificultaria o abastecimento dos lençóis e provocaria o déficit hídrico natural. Porém, um diferencial do semiárido no Vale do Jequitinhonha são os solos bem estruturados e profundos; em decorrência disto, é possível armazenar mais água nos lençóis subterrâneos, o que possibilita o surgimento de nascentes (GALIZONE, 2010), um dos maiores bens na perspectiva dos agricultores. A condição de aridez, que é causa e consequência da ȱ ǰȱ ȱ ȱ ȱ ȱ ȱ ȃȱ ecológico único, de graȱ£ȱȱȄȱǻǰȱŘŖŗřǰȱ p. 33), adaptado às condições climáticas, que é marcado pela restrição hídrica em grande parte do ano. Ademais, existem outros fatores que podem impedir ou ȱȱȱȱ¤ǰȱȱȃȱȱȱ¹ȱ Inter Tropical, fenômenos El niño, La niña, frentes frias do Sul e ȱȱ¤ȱȱ³¨ȱȱȱ¦Ȅȱǻǰȱ 2013 p. 33). Baptista e Campos (2003) mostram também outra perspectiva que precisa ser refletida a respeito do agravamento da aridez, que está voltada para a interação humana com a natureza. Esta interação apresenta variáveis não mensuradas neste trabalho, como práticas de extração predatórias em diferentes setores, monocultivos diversos, o uso indiscriminado de agrotóxicos, dentre outros. ȃ1ȱ¹ȱǯǯǯȱȱȱȱ·ǰȱȱȱ·ȱȱȱǰȱȱȱ vez mesmo que a Terezinha tava com o Natalino novim, pego dá uma lubrina, foi ino foi ino, quando viu choveu 90 dias, a Santa Catirina passava era cheia direto, hoje a Santa Catirina oia lá que nas águas qualquer criança pode passar nela, porque as coisas es fala, as coisas fico difícil, mas não é tanto que as coisas ta difícil porque oce oia... lá na cabicera do Campo do Boa que é a cabeceira da Santa Catirina, lá es fez uma caivoera da Acesita [atual Aperan BioEnergia, produtora de carvão vegetal a partir do eucalipto], era um lugar que corria muita água. Aqui no campo do Boa tem uma barragem que vai daqui na cancela, ocê oia lá a Santa Catirina ta seca e a barragem está lá cheia de água... Porque hoje o tempo não ta bão, a pessoa num pode fala que ta bão, mas quem acabou com a natureza foi os home memo, proce vê a cabeceira de um rio daquele fazer uma barragem dessaǯȄ (Domingo da Luiza, 65 anos, Monte Alegre, grifo nosso). 56 Na fala acima, que se repetia entre os comunitários, constatase que os moradores da comunidade percebem as mudanças justamente por terem vivido os dois períodos, o da fartura e o da escassez de água. Quando prestamos atenção na fala do Sr. Domingos percebemos a compreensão e o sentimento de que esse não é um processo natural, dado pela natureza por si só, é algo criado pelas pessoas. Veem dia-após-dia a dificuldade de manter as práticas da agricultura do mesmo modo como era feito até então. ȃȱǰȱȱȱȱàȱȱȱȱȱǰȱàȱȱȱ£ȱ lá, que tinha tanta água, que gastava fazer aqueles rego prá ir prantano naqueles meios de tanta água, quando ocê ia coloca o arroz, na cova, a água arribava o arroz pra cima, di tanta água, agora hoje ocê vai lá ocê num acredita... agora lá hoje é quinem eu tô falano pro ocês nem água tem, tudo seco (Etelvina 66 anos, Monte Alegre). ...É essa acalipada [eucalipto], né! Que o povo tá prantano nas chapadas em roda, num ȱ ȱȱ Çȱ ȱ£ǯȄȱ (Maria do Adão Preto, 62 anos, Monte Alegre). Os córregos Malaquias e Macaúbas, que atravessam a comunidade, há mais de 18 anos correm somente quando chove e logo após as chuvas cessam, mantendo somente os poços maiores. ȃȱȱǽȱøǾȱȱȱ·ȱȱşşȱǽŗşşşǾǰȱȱȱȱ£ȱȱȱȱ né! E de 99 prá cá levem assim, um ano ele seca mais cedo no outro seca mais tarde. E de 2014 prá cá ta sendo mais crítico, e de 2017 já foi, de 2018 e 2019 foi a mais graduada [seca mais intensa]. O Malaquias antes assim, eu conheci ele correndo água igual ao Macaúbas e ȱȱȱ·ȱȱȱøǯȄ (Maria do Miliano, 65 anos, Monte Alegre). Na percepção dos comunitários, houve expressiva redução na quantidade de chuva e, consequentemente, na disponibilidade de água nos últimos anos, o que teria afetado diretamente a produção. As correlações de Pearson produzidas com dados de precipitação mensal desde o ano 1980 até 2019 (com exceção de 1988 a 1992), apontam pontos relevantes em relação à chuva na região do estudo, que podem contribuir para a reflexão do entendimento formado a partir das percepções subjetivas dos comunitários (Figuras 2 e 3). 57 Uma parte dos dados foi coletada na estação meteorológica de Itamarandiba (Minas Gerais) e a outra pelo Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica (CAV) Turmalina (Minas Gerais). O parâmetro R é calculado a partir da amplitude temporal da estação chuvosa ao longo de cada ano, de modo que valores iguais a 1 refletem anos com chuvas extremamente concentradas e valores iguais a 0 refletem anos com chuvas uniformemente distribuídas no período. Não houve correlação significativa entre a concentração das chuvas ao longo dos últimos 39 anos (rc= -0,13; Gl= 34, p-value = 0,44), indicando que as chuvas, independentemente de sua intensidade, ocorreram em uma amplitude temporal semelhante (Figura 2). GRÁFICO 1 ȯ CORRELAÇÃO ENTRE O PARÂMETRO DE CONCENTRAÇÃO (R) DAS CHUVAS NO ALTO VALE DO JEQUITINHONHA E O INTERVALO DE TEMPO OBSERVADO (1980-2019). FONTE: ANÁLISES DA AUTORA. Com relação à concentração das chuvas, considerando todos os picos anuais da estação chuvosa, não houve mudança deles ao longo do tempo (correlação Pearson rc -0,07; t = -0,43; Gl = 34; p-value = 0,33). Sendo assim, a probabilidade de um determinado mês acumular maior quantidade de chuvas (influenciar mais a variável 58 momento médio de precipitação) não teria mudado entre os anos analisados (Gráfico 2). Nesta análise, a quantidade de chuva de cada mês é representada por um vetor, sendo que o vetor resultante indicaria o momento médio desse pico por ano. No entanto, há nove pontos nos quais o pico da estação chuvosa ocorre no mês de janeiro (destacados em vermelho no Gráfico 2), tradicionalmente reconhecido como mês mais chuvoso na região. GRÁFICO 2 ȯ MOMENTO DE PICO DA ESTAÇÃO CHUVOSA AO LONGO DOS ANOS. FONTE: ANÁLISES DA AUTORA. Desta forma, para confrontar com a percepção popular de ȱȱȃ¤ȄȱǻȱȱǼȱȱȱ¹ǰȱȱ por analisar a correlação dos dados sem esses nove pontos. Neste caso, observamos uma relação forte e significativa entre pico de chuva e o tempo (t = -2.4998, df = 25, p-value = 0.009677, R pearson -0.4471808). A correlação negativa indica então que à medida em que o tempo passou, o pico das chuvas foi de fato adiantado como percebido pelos comunitários e relatado por Lima (2013). 59 Da mesma forma que os comunitários perceberam o adiantamento do pico das chuvas, a percepção da diminuição das ȃ¤Ȅȱ·ȱȱȱȱ³¨ȱ¥ȱ³¨ȱȱȱ geral chovido. Ao longo do tempo o volume anual de chuvas apresentou uma clara diminuição (rp= -0,29; t = -1,79; Gl= 34; pvalue = 0,041 Ȯ Figura 4). Como ilustração desse fenômeno, entre os anos de 1980 e 1985 a média anual de chuvas foi de 1600 milímetros, enquanto entre 2015 e 2020 a média foi de 1100 milímetros. A questão suscitada no resultado desta análise é: quais seriam os fatores atuantes no decorrer do tempo que têm feito com que o volume de chuva no ano seja menor? GRÁFICO 3 ȯ ACÚMULO ANUAL DE VOLUME DE CHUVA EM RELAÇÃO AO TEMPO NO PERÍODO DE 1980 A 2020 NO ALTO VALE DO JEQUITINHONHA. FONTE:FFONTE: ANÁLISES DA AUTORA. A pesquisa desenvolvida por Mattos et al. (2019) sobre a diminuição das águas subterrâneas a partir da chegada do eucalipto nos auxilia a compreender de onde possivelmente tenham vindo as alterações que têm ocorrido na comunidade 66 MATTOS, T. S. et al. Groundwater recharge decrease replacing pasture by eucalyptus plantation. Water, [online], v. 11, n. 6, p. 1213, 2019. DOI: https://doi.org/10.3390/w11061213. MAUSS, M. Ensaio sobre a dádiva: forma e razão de trocas nas sociedades arcaicas. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Cosac Naify, 2013. MILLENNIUM ECOSYSTEM ASSESSMENT Ȯ MEA. Ecosystem and human well-being: a framework for assessment. Washington, DC: Island Press, 2005. OLIVEIRA, F. As contradições: globalização, nação, religião, metropolização. Belo Horizonte: UFMG/ CEDIPLAR, 2004. RIBEIRO, E. M; GALIZONE, F. M. Água. In. RIBEIRO (org.) Sete estudos sobre a agricultura familiar do Vale do Jequitinhonha. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2013. RIBEIRO, E. M.; GALIZONI, F. M. Quatro histórias de terras perdidas: modernização agrária e privatização de campos comuns em Minas Gerais. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, [online], v. 9, n. 2, p. 115-129, nov. 2007. SANTOS, B. de S. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. 7 ed. São Paulo: Cortez, 2009. SCHISTEK, H. 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