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Creches para cães: um capricho ou uma necessidade?

Ramos, Alessandra Teixeira; Rocha, Paula Iañez de Lima; Louzada, Luciana dos Santos; Reis, Thaís Noronha; Matos, Janara de Camargo

Abstract

As modificações da sociedade também transformaram a relação entre seres humanos e animais, que se tornou mais próxima e afetuosa, a ponto de formar o que se denomina família multiespécie. Neste novo cenário, os animais, mais especificamente os cães, tornaram-se vulneráveis e sujeitos aos problemas da vida urbanizada, assim como seus tutores, especialmente quando estes passam a maior parte do dia fora de casa. Dessa forma, as creches para cães podem ser uma solução para o bem-estar dos cachorros e a tranquilidade das pessoas. Este artigo tem como objetivo analisar o impacto das creches para cães na vida moderna da família multiespécie. Para tanto, foi realizada uma revisão integrativa da literatura e uma pesquisa quantitativa a partir de um formulário do Google Forms. Verificou-se que a maioria dos entrevistados está disposta a utilizar os serviços de uma creche para cães a fim de melhorar a qualidade de vida dos pets, evitando deixá-los sozinhos em seus lares e, consequentemente, contribuindo para a redução do estresse e para a socialização dos animais. Versão publicada na Revista Processando o Saber:https://www.fatecpg.edu.br/revista/index.php/ps/article/view/383

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89 | Educação inclusiva: competências digitais dos professores para o atendimento educacional especializado Revista Processando o Saber (eISSN: 2179-5150) - Fatec Praia Grande – Multidisciplinar Revisão por pares - Acesso aberto - www.fatecpg.edu.br/revista - [email protected] eISSN 2179-5150 FATEC Praia Grande • fatecpg.edu.br/revista submetido: Jan/2025 • aceito: Mar/2025 • publicado: Jun/2025 Interface gráfica do usuário Descrição gerada automaticamente com confiança baixa Desenho de um círculo Descrição gerada automaticamente com confiança média Creches para cães: um capricho ou uma necessidade? Dog daycare: a whim or a necessity? Alessandra Teixeira Ramos Fatec Praia Grande [email protected] Luciana dos Santos Louzada Fatec Praia Grande [email protected] Paula Iañez de Lima Rocha Fatec Praia Grande [email protected] Thaís Noronha Reis Fatec Praia Grande [email protected] Janara de Camargo Matos Fatec Praia Grande [email protected] RESUMO As modificações da sociedade também transformaram a relação entre seres humanos e animais, que se tornou mais próxima e afetuosa, a ponto de formar o que se denomina família multiespécie. Neste novo cenário, os animais, mais especificamente os cães, tornaram-se vulneráveis e sujeitos aos problemas da vida urbanizada, assim como seus tutores, especialmente quando estes passam a maior parte do dia fora de casa. Dessa forma, as creches para cães podem ser uma solução para o bem-estar dos cachorros e a tranquilidade das pessoas. Este artigo tem como objetivo analisar o impacto das creches para cães na vida moderna da família multiespécie. Para tanto, foi realizada uma revisão integrativa da literatura e uma pesquisa quantitativa a partir de um formulário do Google Forms. Verificou-se que a maioria dos entrevistados está disposta a utilizar os serviços de uma creche para cães a fim de melhorar a qualidade de vida dos pets, evitando deixá-los sozinhos em seus lares e, consequentemente, contribuindo para a redução do estresse e para a socialização dos animais. PALAVRAS-CHAVE: Creche para cães, bem-estar animal, família multiespécie. ABSTRACT The modifications in society have also transformed the relationship between humans and animals, which has become closer and more affectionate, to the point of forming what is known as a multi-species family. Animals, specifically dogs, have become vulnerable and subject to the problems of urban life, just like their guardians, especially when they spend most of the day away from home. Thus, dog daycare centers can be a solution for the well-being of dogs and the tranquility of people. This article aims to analyze the impact of dog daycare centers on the modern life of the multi-species family. To that end, a systematic literature review was conducted and a quantitative research study was carried out using a Google Forms questionnaire. It was found that most respondents are willing to use the services of a dog daycare to improve the quality of life for pets, preventing them from being left alone in their homes and consequently contributing to reducing stress and promoting socialization among animals. KEY-WORDS: dog daycare, animal welfare, multi-species family. 90 | Creches para cães: um capricho ou uma necessidade? Revista Processando o Saber - v.17 - p. 89-104 - 2025 INTRODUÇÃO A relação entre humanos e animais tem sido multifacetada e evolutiva. A partir do século XIX, com a urbanização e a industrialização, essa relação passou a ser marcada não apenas pela exploração e o uso da força de trabalho animal, mas também por um sentimento de afeto e respeito (Ritvo, 1987). As modificações de vida em sociedade, juntamente com as novas perspectivas familiares e do meio ambiente, vêm transformando significativamente a relação ser humano e animal (Wisniewski, 2019). Tem-se, portanto, a chamada família multiespécie: grupo que, segundo Faraco (2008, p. 37), inclui tanto humanos, quanto animais de estimação como membros, convivendo de forma harmoniosa e buscando desconstruir os padrões da família tradicional, predominantemente humana. Esse tipo de família surge como uma resposta às mudanças sociais que redefiniram as estruturas familiares contemporâneas, destacando a importância dos laços afetivos entre humanos e seus animais, que são considerados integrantes do núcleo familiar, em vez de simples animais de estimação. Assim, os tutores frequentemente ajustam suas rotinas e estilos de vida em função dos animais, o que reflete o compromisso e a responsabilidade que sentem, semelhantes aos que os pais têm com seus filhos, evidenciando a relevância das relações multiespécie na sociedade atual (Santos; Ningeliski, 2024). A intensa urbanização das cidades e as alterações no estilo de vida têm um impacto profundo nessa dinâmica, afetando não apenas os cães, mas também seus tutores. O crescimento acelerado das cidades e da densidade populacional resultam em espaços reduzidos, limitando o acesso dos cães ao ar livre e impactando diretamente sua qualidade de vida. Paralelamente, o ritmo acelerado e as longas jornadas de trabalho dos tutores criam uma demanda por soluções que garantam o bem-estar dos animais na sua ausência. (Lampert, 2014, p.7). A partir desse contexto e do aumento da importância dos cães nas famílias, os tutores passaram a investir em cuidados com a saúde, alimentação, visitas ao veterinário e em serviços especializados, como as creches (Cardoso, 2022). O crescimento desse vínculo tem impulsionado o mercado pet no Brasil, com uma demanda crescente por produtos e serviços de alta qualidade (Elizeire, 2013). Essa tendência reflete em soluções como as creches para cães, que são eficazes para lidar com comportamentos indesejados, por exemplo. Esses espaços oferecem uma rotina estruturada e a oportunidade para os cachorros gastarem energia de maneira saudável, o que melhora o comportamento dos 91 | Creches para cães: um capricho ou uma necessidade? Revista Processando o Saber - v.17 - p. 89-104 - 2025 animais e reduz o estresse dos tutores, que têm a tranquilidade de saber que seus cães estão bem cuidados durante o dia (Dalmas, 2019). Neste cenário, a creche para cães proporciona, então, cuidados a esses animais e, consequentemente, impacta em seu bem-estar (Siano, 2022). Este, por sua vez, é determinado pelas condições físicas e psicológicas as quais o animal é susceptível e pode ser caracterizado como as tentativas do indivíduo de adaptar-se ao ambiente, a fim de atingir a homeostase, ou seja, o estado de equilíbrio do organismo (Broom, 1986). Desta maneira, a creche funciona como um meio para permitir que o cão tenha as cinco liberdades do seu bem-estar animal atendidas: estar livre de fome e sede, livre de desconforto, livre de dor, livre para expressar seu comportamento natural e livre de medo e angústia (Guirro, 2022). O objetivo geral desse artigo é analisar o impacto das creches para cães na vida moderna da família multiespécie. Para alcançar essa compreensão, os objetivos específicos são: a) explorar como as creches para cães podem beneficiar o bem-estar desses animais; b) destrinchar o papel das creches na socialização dos cães; c) compreender o impacto do bem-estar dos cães que frequentam creches no contexto da família multiespécie. 1. JUSTIFICATIVA DO TEMA Segundo a ABINPET (Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação), o mercado pet no Brasil tem apresentado um crescimento significativo, alcançando um faturamento de R$ 68,7 bilhões em 2023. Esse cenário reflete não apenas a relevância econômica do setor, mas também a transformação nas relações familiares, nas quais os animais de estimação são cada vez mais considerados membros da família, configurando o que se denomina “família multiespécie” (Gazanna; Schmidt, 2015). Essa nova dinâmica familiar evidencia um vínculo emocional profundo entre humanos e seus pets, que compartilham o mesmo ambiente domiciliar. Dados de uma pesquisa da Comissão de Animais de Companhia (COMAC) de 2022 revelam que os fenômenos resultantes da pandemia de Covid-19, durante a qual ocorreram 30% de todas as aquisições de animais de estimação, levaram a mudanças na relação entre humanos e esses animais, o que impulsionou o aumento da busca por serviços que promovam o bemestar e a qualidade de vida dos animais. Com o retorno das atividades profissionais presenciais 92 | Creches para cães: um capricho ou uma necessidade? Revista Processando o Saber - v.17 - p. 89-104 - 2025 após a pandemia, a necessidade de soluções que garantam a socialização e o cuidado dos cães tornou-se mais evidente (Costa, 2023). Embora a área pet food seja responsável pela maior parte do faturamento do mercado pet, o segmento de outros produtos e serviços para animais faturou 16% a mais no ano de 2023, refletindo uma crescente busca por cuidados que envolvam saúde, higiene e bem-estar dos animais de estimação (Sebrae, 2024). Esse aumento torna-se mais relevante ao considerar também o crescimento do número de animais de estimação nos lares brasileiros. Segundo a ABINPET, em 2022, a população de animais domésticos atingiu 167,6 milhões, sendo 67,8 milhões de cães, o que coloca o Brasil em 3º lugar no mundo em número total de animais de estimação. Dessa forma, as creches para cães destacam-se como uma alternativa com potencial, além de serem efetivas, proporcionando um ambiente seguro onde os animais podem socializar e expressar seus comportamentos naturais na ausência de seus tutores. 2. PROBLEMA DE PESQUISA E HIPÓTESES O crescente número de animais de estimação, especialmente cães, nos lares brasileiros e o consequente aumento da preocupação com a saúde desses animais refletem uma demanda por soluções que atendam às necessidades dos pets, especialmente em contextos nos quais os tutores se ausentam por longos períodos durante o dia. Nesse cenário, as creches podem ser uma solução estruturada que contribui para a melhor qualidade de vida e o bem-estar animal. Sendo assim, o problema de pesquisa deste artigo é: De que maneira as creches para cães podem contribuir para o bem-estar dos animais e de seus tutores? Uma vez, então, que a proposta deste estudo é analisar o impacto das creches no bemestar dos cães e na satisfação dos tutores, as hipóteses que serão consideradas são: • H1: A creche para cães contribui para o bem-estar dos animais ao melhorar sua qualidade de vida; • H2: A creche para cães permite a socialização dos animais; • H3: A creche para cães contribui para a redução do estresse tanto dos tutores quanto dos cães, tornando-se um impacto positivo no contexto da família multiespécie. 93 | Creches para cães: um capricho ou uma necessidade? Revista Processando o Saber - v.17 - p. 89-104 - 2025 3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 3. 1. A FAMÍLIA MULTIESPÉCIE NO CONTEXTO DA VIDA MODERNA A inclusão dos animais como membros da família indica a formação de uma relação interespécies, caracterizando uma família multiespécie composta por humanos e seus pets. Esses animais desempenham diversas funções, variando desde objetos de status social até cuidadores e integrantes da família, recebendo a mesma importância que os demais membros. Nesse contexto, ressalta que “animais de estimação são vistos como tão próximos quanto ‘o próprio filho’ pelos humanos” (Santos, 2008, p. 23). Além disso, Cohen (2002) aponta que, para os residentes em centros urbanos, os animais de estimação são considerados parte do núcleo familiar, proporcionando conforto e companhia aos demais membros. O autor ressalta que, embora ocupem um espaço distinto dos humanos, os animais de estimação atuam de maneira congruente ao sistema familiar, reforçando a ideia de que as relações afetivas agora incluem uma nova dinâmica, caracterizada pela emergência do conceito de família multiespécie. Outro aspecto relevante é que, segundo Bowen (1978) propõe que um sistema familiar emocional pode incluir não apenas membros da família extensa, mas também pessoas sem grau de parentesco e animais de estimação. Nesse sentido, conforme pesquisa da COMAC (2023), após a pandemia, observou-se um crescimento significativo no número de animais de estimação nos lares. Esse aumento é resultado do isolamento social, que levou muitas pessoas a buscarem companhia e afeto em seus pets. Essa mudança no comportamento dos tutores gerou vínculos mais profundos com seus animais, culminando na emergência do termo “família multiespécie”. Nesse contexto, destaca-se a figura do “Pet Lover Emocional”, que representa o tutor que trata os animais como membros integrantes da família e demonstra um compromisso significativo com o bem-estar e a socialização deles. Assim, essa nova dinâmica não apenas enriquece a vida dos tutores, mas também redefine as relações familiares contemporâneas, evidenciando a importância da inclusão dos animais na estrutura familiar. Dessa forma, a família multiespécie simboliza uma transformação nas dinâmicas familiares, onde os animais de estimação, anteriormente restritos a certos espaços, agora ocupam quartos, considerados santuários privados nas sociedades pós-modernas. Essa mudança indica que os pets são vistos como membros íntimos da família, refletindo um novo status em relação aos humanos e sendo considerados parte integrante da unidade familiar. A relação entre 94 | Creches para cães: um capricho ou uma necessidade? Revista Processando o Saber - v.17 - p. 89-104 - 2025 humanos e animais de estimação não se baseia em parentesco nem no poder familiar; ao adotar um animal, surge uma responsabilidade, pois esses seres são dependentes e não podem ser descartados. Portanto, além do afeto, é fundamental que haja uma conduta responsável no cuidado dos animais não humanos (Chaves, apud Barbosa; Boff, 2023). Assim, a família multiespécie surge como uma resposta às mudanças sociais que redefinem as estruturas familiares contemporâneas, destacando a importância dos laços afetivos entre humanos e animais de estimação, que são considerados integrantes da família, em vez de simples animais de estimação. Essa nova realidade, fundamentada no princípio da afetividade, valoriza as conexões emocionais em vez dos laços consanguíneos. Os tutores frequentemente ajustam suas rotinas e estilos de vida em função dos animais, refletindo o compromisso e a responsabilidade que sentem, semelhantes aos que os pais têm com seus filhos, evidenciando a relevância das relações multiespécie na sociedade atual (Santos; Ningeliski, 2024). 3.2 O MERCADO PET NO BRASIL Ao longo dos anos, a relação entre homens e animais tem se remodelado e produzido uma nova configuração social. Os animais assumiram papéis de destaque na sociedade, e passaram a ser membros essenciais da dinâmica familiar, parceiros de trabalho e fiéis companheiros de estimação, criando assim a necessidade de um mercado especializado, voltado para atender às demandas apresentadas (Bueno, 2020). Consoante a isso, surgiu o mercado pet, considerado um segmento do agronegócio com o desenvolvimento das atividades de criação, produção e comercialização de animais de estimação, incluindo lojas especializadas em serviços e venda de produtos, tendo origem nos Estados Unidos no início do século XX (ABINPET, 2024). A presença do pet shop no Brasil começou a consolidar-se a partir das décadas de 1960 e 1970, seguindo uma tendência global de urbanização e aumento da aquisição de animais de estimação, especialmente cães e gatos. Essa expansão se deu para atender a demanda crescente de proprietários de animais em busca de alimentos, acessórios, serviços de banho e tosa, cuidados veterinários básicos, treinamento e adestramento, hospedagem e até mesmo creche com cuidados e atividades recreativas (ABINPET, 2023; Carvalho, 2021). 95 | Creches para cães: um capricho ou uma necessidade? Revista Processando o Saber - v.17 - p. 89-104 - 2025 O crescimento da indústria pet acompanhou o aumento da importância atribuída aos animais de estimação nas famílias modernas, sem falar na longevidade e o estilo de vida solitário nas grandes cidades, que tornaram os animais de estimação figuras indispensáveis na vida das pessoas, o que tornou um setor significativo com grande contribuição na economia (ABINPET, 2023; Silva, 2018). A população pet brasileira vem crescendo constantemente nos últimos 10 anos. De acordo com a ABINPET, em 2023, o Brasil contabilizou 160,9 milhões de animais de estimação, marcando um aumento de 3,3% em relação a 2022. Alcançando um faturamento de R$ 68,7 bilhões, representando um crescimento de 14% em comparação a 2022. O Brasil se destaca como o terceiro maior mercado pet do mundo, com uma participação de 4,9%. Esse crescimento é evidenciado por dados que mostram que, em média, existem 1,6 pets por residência no país. Isso significa que, na maioria dos lares brasileiros, há mais de um animal de estimação, evidenciando a importância dos pets no cotidiano das pessoas (ABINPET, 2023) O segmento pet apresenta uma excelente oportunidade de negócio, especialmente para empreendedores iniciantes. Atualmente, apenas 10% desse mercado é dominado por grandes empresas, enquanto os 90% restantes estão sob a gestão de pequenos e médios negócios em todo o Brasil. Além disso, a demanda por creches para animais cresceu 22% em 2021, se comparado a 2020, contribuindo para um faturamento anual aproximado de R$ 50 bilhões. Essa realidade evidencia o potencial desse setor em expansão e a viabilidade de novos empreendimentos (Sebrae, 2024). 3. 3. AS CRECHES PARA CÃES A creche para cães tem se tornado uma solução cada vez mais procurada por tutores que buscam garantir o bem-estar de seus animais de estimação, especialmente em ambientes urbanos, onde os cães frequentemente passam longos períodos sozinhos. Esses espaços fornecem uma alternativa para minimizar os efeitos negativos da solidão e do tédio, fatores que muitas vezes levam ao desenvolvimento de comportamentos destrutivos, como latidos excessivos e destruição de móveis (Sampaio et al., 2019). O conceito de creche para cães vai além de apenas supervisionar os pets; esses locais oferecem atividades físicas, interação social e cuidados personalizados que promovem a saúde física e mental dos animais. Segundo Kurachi e Irimajir (2019), a socialização em ambientes 96 | Creches para cães: um capricho ou uma necessidade? Revista Processando o Saber - v.17 - p. 89-104 - 2025 controlados ajuda a reduzir a ansiedade e o estresse dos cães, proporcionando uma rotina mais equilibrada. Além disso, as creches colaboram para o desenvolvimento de habilidades de convivência entre os cães, reduzindo comportamentos agressivos ou tímidos, conforme evidenciado por estudos de Afonso (2008). A implementação de rotinas estruturadas, que incluem momentos de brincadeiras, descanso e alimentação, permite que os cães liberem energia de maneira saudável, o que impacta positivamente o seu comportamento ao retornarem para casa. Consequentemente, o bem-estar dos tutores também é afetado, uma vez que a preocupação com o estado emocional de seus pets é reduzida, conforme aponta uma pesquisa conduzida por Azevedo, (2018). Dessa forma, as creches para cães não apenas melhoram o comportamento e a saúde dos animais, mas também promovem uma relação mais harmoniosa entre os cães e seus tutores, aliviando o estresse de ambos (Afonso, 2008). Com o crescimento do mercado pet no Brasil, essas creches estão cada vez mais se especializando, oferecendo serviços que vão desde monitoramento por câmeras até atividades personalizadas para atender às necessidades específicas de cada cão, conforme observa (Cabral e Savalli, 2020). Isso demonstra que o papel das creches para cães na sociedade moderna tem se consolidado como uma ferramenta essencial para o bem-estar animal, especialmente em famílias onde os tutores possuem rotinas intensas e buscam alternativas para garantir o cuidado adequado de seus pets durante o dia 3. 4. O BEM-ESTAR ANIMAL APLICADO AOS CÃES A preocupação com o bem-estar animal teve início por volta de 1964, com a publicação do livro Animal Machines, de Ruth Harrison, que abordava o tratamento dispensado aos animais na produção agropecuária, onde eram tratados como máquinas inanimadas, e não como seres vivos. A partir de então, o governo britânico criou o Comitê Brambell, em 1965, que passou a investigar essa situação e a importância de discutir a biologia e a qualidade de vida dos animais (Siano, 2022). Segundo Pereira et al. (2020), o Comitê também estabeleceu as bases para a definição das cinco liberdades relativas ao bem-estar animal, inicialmente aplicadas apenas aos animais de produção, mas posteriormente estendidas a todos os animais, sendo elas: ser livre de fome, sede e má nutrição, ser livre de desconforto, ser livre de dor ou doença, ser livre para expressar seu comportamento natural e ser livre de medo. 97 | Creches para cães: um capricho ou uma necessidade? Revista Processando o Saber - v.17 - p. 89-104 - 2025 Para a Associação Mundial de Veterinários de Pequeno Porte, o bem-estar animal está relacionado aos estados físico, psicológico, social e ambiental em equilíbrio. Isso é corroborado pelo fato de que, mesmo estando fisicamente saudáveis e bem alimentados, situações de estresse também podem afetar a qualidade de vida dos animais, uma vez que são seres sencientes, ou seja, capazes de experimentar emoções positivas e negativas (Ryan et al., 2018). Sendo assim, o convívio entre seres humanos e animais pode influenciar diretamente o bem-estar animal e a qualidade de vida dos cães, uma vez que as pessoas são responsáveis por prover as necessidades desses animais, o que os torna vulneráveis às ações e omissões humanas (Siano, 2022). 4. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS De acordo com Pizzani et al. (2012), a pesquisa bibliográfica caracteriza-se por uma revisão integrativa da literatura sobre os principais temas relacionados ao trabalho científico, com o objetivo de buscar conhecimento e sustentar a fundamentação do estudo. Dessa forma, neste artigo, foi realizada essa modalidade de pesquisa, buscando dados sobre a relação entre creches para cães, o bem-estar animal e a satisfação dos tutores no contexto da família multiespécie. Essa pesquisa bibliográfica foi efetuada por meio da busca e seleção de artigos científicos e trabalhos acadêmicos nas bases de dados SciELO e Google Acadêmico, utilizando as palavras-chave ‘família multiespécie’, ‘mercado pet’, ‘creche para cães’ e ‘bem-estar animal’. Realizou-se também uma pesquisa quantitativa por meio de um formulário do Google Forms, que foi distribuído via hiperlink aos moradores da região da Baixada Santista (SP), durante o período de 22/03/2024 a 29/03/2024, com o intuito de levantar como esse público enxergava a possibilidade de usar o serviço de creche para seus cães. Após essa etapa, selecionou-se os indivíduos que afirmaram ter cães como animais de estimação para constituir a amostra do estudo. 104 | Creches para cães: um capricho ou uma necessidade? Revista Processando o Saber - v.17 - p. 89-104 - 2025 WISNIEWSK, P. C. Animais de estimação como seres de direito e a impossibilidade da guarda nos casos de ruptura do vínculo conjugal dos guardiões. Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada, v. 4, n. 7, 2019. Disponível em: https://sou.ucs.br/etc/revistas/index.php/ricaucs/article/view/7306/3854. Acesso em: 29 jan. 2025.