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Arquitetura e urbanismo: participação social, ações educativas e direito à cidade

Centro Universitário de João Pessoa

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Andrei de Ferrer e Arruda Cavalcanti Christiane Nicolau Rosendo Ferreira Fernanda Rocha de Oliveira Kelly Christine da Silva de Lima Marcela Dimenstein Mirella de Almeida Braga Renata da Silva Barbosa Rui Vanderlei Rocha Junior Sheila Azevedo Freire Deborah Padula Kishimoto Sebastião Cezar Paredes do Amaral Marcela Dimenstein ORGANIZAÇÃO COMITÊ CIENTÍFICO A772 Arquitetura e urbanismo: participação social, ações educativas e direito à cidade / Organizado por Deborah Padula Kishimoto, Sebastião C. P. do Amaral, Marcela Dimenstein. Unipê:João Pessoa, 2018. 126 p. ISBN 978-85-87868-73-2 1. Produção Acadêmica. 2. Arquitetura. 3. Urbanismo. I. Título. UNIPÊ / BC CDU 711:72 Este e-book foi desenvolvido com intenção de facilitar o acesso à informação. Baixe o arquivo e visualize-o na tela do seu computador ou celular sempre que necessitar. Utilize as setas, as teclas Page Up e Page Down do teclado ou o Scroll do mouse para navegar pelo livro. Não desperdice papel, imprima somente se necessário COMO MELHOR UTILIZAR ESTE E-BOOK Núcleo de Publicações Institucionais (NPI) Filipe Carvalho de Almeida Raiff Pimentel Félix Almeida Igor Vinicius Mendes de Araujo Neves PRODUÇÃO EDITORIAL COORDENAÇÃO EDITORIAL PROJETO GRÁFICO ILUSTRAÇÃO DE CAPA DOI: 10.5281/zenodo.17611819 ANÁLISE DE INTERVENÇÃO EM EDIFÍCIO HISTÓRICO: APL - ACADEMIA PARAIBANA DE LETRAS ALINE RAMALHO FERREIRA DA SILVA, DEBORAH PADULA KISHIMOTO ANÁLISES DA ARTE ISLÂMICA: ESTUDO DE CASO DAS MESQUITAS EM SÃO PAULO E FOZ DO IGUAÇU MARIA LUIZA XAVIER CHAVES PAISAGEM URBANA E O USO DE MAPA MENTAIS NO ESTUDO DA IMAGEM DA CIDADE DE JOÃO PESSOA ARTHUR DINIZ ALMEIDA, MARCELA DIMENSTEIN, LETÍCIA QUEIROGA SOUSA DE MORAIS, ARMANDO JOSÉ BATISTA FERNANDES PASCOAL ESCOLA DE RECIFE: A IMPORTÂNCIA DA PRODUÇÃO ARQUITETÔNICA NORDESTINA MARIANA MUNIZ MACÊDO HENRIQUE DOS SANTOS, VIVIANNE CARVALHO DO BÚ, CHRISTIANE NICOLAU ROSENDO FERREIRA MEDIANERAS PESSOENSES: A REPRESENTAÇÃO FÍLMICA DE BUENOS AIRES E A REALIDADE URBANA DE JOÃO PESSOA IGOR VINICIUS MENDES DE ARAUJO NEVES, MARCELA DIMENSTEIN, ANDREI DE FERRER E ARRUDA CAVALCANTI EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA COMO PROPULSORA DA PARTICIPAÇÃO SOCIAL: EXPERIÊNCIAS DO ESCRITÓRIO MODELO DE ARQUITETURA E URBANISMO - TRAMA DIOGO GOMES PEREIRA BATISTA, IGOR VIEIRA SANTOS, AMÉLIA DE FARIAS PANET BARROS INTERVENÇÃO NO BAIRRO ALTIPLANO CABO BRANCO PARA IMPLANTAÇÃO DE UM PARQUE LINEAR E REQUALIFICAÇÃO DA PRAÇA JOSÉ TARGINO DANIEL VICTOR LUCENA DE ARAUJO, JAINE CÂNDIDO DE GOIS, FLÁVIA DANTAS DA NÓBREGA, BRENDA COUTINHO DE OLIVEIRA SUMÁRIO 05 44 75 30 58 91 113 PÁGINA 5 ANÁLISE DE INTERVENÇÃO EM EDIFICIO HISTÓRICO: APL ACADEMIA PARAIBANA DE LETRAS ANALYSIS OF INTERVENTION IN HISTORICAL BUILDING: APL - PARAIBANA ACADEMY OF LETTERS SILVA, ALINE RAMALHO FERREIRA DA Graduanda em Arquitetura e Urbanismo pelo Centro Universitário de João Pessoa – UNIPÊ, [email protected] KISHIMOTO, DEBORAH PADULA Mestre em Preservação do Patrimônio Cultural, docente do Curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário de João Pessoa – UNIPÊ, deborah.kishimot[email protected] RESUMO O presente artigo é um estudo de caso que surgiu diante das crescentes intervenções no patrimônio edificado do centro histórico da cidade de João Pessoa – PB. Nesse sentido, este trabalho analisa a estrutura edilícia da Academia Paraibana de Letras (APL), edifício do período colonial que sofreu intervenções em sua estrutura física, devido à necessidade de adaptação aos novos usos que foram surgindo. A APL é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado Paraíba (IPHAEP, 1980) e sua implantação é localizada no núcleo de surgimento da cidade, em um entorno de grande importância histórica e identitária para a comunidade pessoense. Dessa forma, através da análise de documentos e publicações que versam sobre o objeto de estudo e análise do levantamento físico da APL, este estudo tem como objetivo a comparação dos dados levantados, a fim de investigar o estado de descaracterização da APL em relação aos seus possíveis aspectos originais de arquitetura colonial. Palavras-chave: Patrimônio histórico, intervenção, Academia Paraibana de Letras. 6 PÁGINA ABSTRACT This present article is a case study that originated from the increasing interventions in the built patrimony of the historic centre of João Pessoa – PB. For that matter, this work analyzes the building structure of the Academy of letters of Paraíba (APL), a building that dates back to the colonial period and has undergone interventions in its physical structure, due to the needs of readapting to new uses of the space. The Academy building is heritage listed by the Institute of Historic and Artistic Patrimony of Paraíba State (IPHAEP, 1980) and its construction is located in the heart of the city’s birthplace, in an environment of great historical and identity importance for the people of João Pessoa. Therefore, through the analyses of documents and publications that state about the study object and through analyses of the physical assessment of the building, this study aims to compare the data collected in order to investigate the state of disfigurement of the APL in relation to its possible original features from the colonial architecture. Keywords: Historical heritage, intervention, Academia Paraibana de Letras 1 INTRODUÇÃO Este trabalho tem como premissa analisar as intervenções realizadas em uma edificação de interesse histórico e cultural, a Academia Paraibana de Letras (APL), tombada individualmente pelo IPHAEP através do Decreto n°8.643 (IPHAEP, 1980) e cuja implantação pertence ao núcleo de surgimento original da capital Paraibana, localizada na antiga Rua Direita, hoje Duque de Caxias. O arcabouço de informações existentes sobre o edifício descreve que houveram modificações ao longo do tempo resultado de troca de uso residencial para institucional, dando consequência da nova ocupação, a APL. Tratando-se de um imóvel inserido na poligonal de proteção do IPHAN e tombado individualmente pelo IPHAEP, tais reformas constituem um problema social, patrimonial e cultural. A metodologia aplicada para este trabalho foi do tipo exploratória, segundo Acevedo e Nohara (2013), uma vez que para alcançar o objetivo proposto foi necessário compreender com profundidade as intervenções ocorridas no objeto de estudo, assim como a sua atual configuração arquitetônica e os métodos utilizados foram o levantamento bibliográfico, registro de arquivos e estudo de caso. A pesquisa foi iniciada com uma visita técnica in loco, registros fotográficos e referências bibliográficas que subsidiaram a análise espacial do edifício foram colhidas, a Revista APL nº09 de (1941-1978) subsidiou a parte analítica do trabalho em conjunto PÁGINA 7 com o material disponível na “Rede de Arquivos IPHAN” acervo digital e no sítio eletrônico “Memória João Pessoa”, por fim o material desenvolvido pelo escritório de projetos do Unipê - Ubtech Office em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba - IPHAEP embasou a confecção das plantas de releitura desenvolvidas neste trabalho. O texto foi estruturado com um embasamento histórico urbano regional, apresenta algumas etnografias do edifício com diferentes contextos históricos que o edifício presenciou, destacando assim elementos de originalidade e intervenções que foram documentadas, assim a análise percorre a avaliação analítica através de um breve mapeamento de danos que subsidiou na investigação os diagnósticos superficiais deste trabalho e por fim uma conclusão. Figura 01 – Registro fotografia realizado em maio de 2018 de como está o edifício atual da APL. Imagem: Aline Ramalho Ferreira da Silva, 2018. 2 DESENVOLVIMENTO Contexto edilício e urbanístico em movimento O MEMÓRIA JOÃO PESSOA (2016), sítio eletrônico é o resultado de um projeto de extensão do Departamento de Arquitetura e Urbanismo (DAU) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e tem como objetivo fornecer informações sobre a história e formação da cidade de João Pessoa. Assim, descreve que no fim do século XIX e início do XX a cidade de João Pessoa passou por mudanças com o crescimento populacional, que somado ao surgimento de novas necessidades dos usuários e de novos usos nos espaços da cidade fizeram com que houvesse uma expansão do território em dois eixos. 8 PÁGINA O primeiro em direção ao bairro Tambiá e o segundo ao bairro Trincheiras, como pode ser observado nos Diagramas 01 e 02. Diagrama 01 – Poligonais de preservação do IPHAN E IPHAEP, eixos de expansão da cidade em direção aos bairros do Tambiá e Trincheiras Fonte: Secretaria de Planejamento (Seplan) da Prefeitura Municipal de João Pessoa (PMJP), modificado pela autora, 2018. PÁGINA 9 Diagrama 02 – Poligonais de preservação do IPHAN E IPHAEP, localização da APL e destaque para a Rua Duque de Caxias, anteriormente denominada como Rua Direita. Fonte: Secretaria de Planejamento (Seplan) da Prefeitura Municipal de João Pessoa (PMJP), modificado pela autora, 2018. Nessa conjuntura, as modificações do patrimônio edificado foram sendo cada vez mais recorrentes, devido ao deslocamento das pessoas que residiam no núcleo de surgimento da cidade em direção aos bairros das Trincheiras e Tambiá, e posteriormente em direção ao litoral. Ainda que de forma lenta, esse deslocamento para outras porções da cidade fez surgir a necessidade de adequar os espaços preexistentes aos novos usos e ocupações. Diante dessa realidade, ao longo do crescimento da cidade de João Pessoa, a arquitetura edificada dentro do seu centro histórico apresentou muitas 16 PÁGINA Figura 07 – Fotografia atual da APL tirada em 29 denovembro de 2017, sem platibanda na fachada oeste. Imagem: Aline Ramalho Ferreira da Silva, 2018. Figura 08 – Planta esquemática de Locação e Coberta da APL, com ângulos das Figuras 06 e 07 em vermelho. Fonte: IPHAEP; UBTECH OFFICE (2018), editado. PÁGINA 17 No acervo virtual do IPHAN, há registros fotográficos da APL cadastrados em 1981, na Superintendência Estadual do IPHAN em Pernambuco - Recife. Nesse acervo, as Figuras 09, 10 e 11 são registros de uma reforma iniciada em agosto de 1974 que, pelo menos parte dela não foi concluída, visto que a Figura 10 apresenta estruturas em construção nos fundos do lote n°25 que não existem atualmente. Os registros mostram o aspecto externo da APL próximo ao que havia em 1947 (Figura 06). Figura 09 – Fotografia da APL em 1981, sob registro online FPE 01826. Fonte: Acervo digital do IPHAN, acessado em 2018. 18 PÁGINA Figura 10 – Fotografia da APL em 1981, mostrando estruturas em construção inexistentes atualmente, sob registro online FPE 01829. Fonte: Acervo digital do IPHAN, acessado em 2018. Figura 12 é acervo digital do IPHAN – PB de 1992 e não apresenta possibilidade de visualizar maiores detalhes da APL, porém estão visíveis a platibanda retirada e as novas aberturas da fachada norte. O registro mostra o início da antiga Rua Direita repleta de barracas durante a Festa das Neves1, e a APL com um aspecto próximo ao encontrado atualmente. 1 A Festa das Neves é uma tradicional festa de rua da cidade de João Pessoa, onde é comemorado seu aniversário de fundação. A celebração geralmente conta com uma programação religiosa e cultural que acontece nas ruas do centro histórico de João Pessoa. PÁGINA 19 Figura 11 – Fotografia da APL em 1981, sob registro online FPE 01830. Fonte: Acervo digital do IPHAN, acessado em 2018. Figura 12 – Fotografia da APL em 1992, sob registro online F001456. Fonte: Acervo digital do IPHAN, acessado em 2018. 20 PÁGINA Os principais elementos da arquitetura colonial encontrados externamente na APL são a coberta de duas águas em telha cerâmica do tipo canal (Figura 13), os beirais triplos, as cercaduras em pedra calcária e os ornamentos, também em pedra calcária, nas esquadrias (Figura 14). As colunas visíveis na fachada norte também são em pedra calcária remanescente do período colonial (Figura 13). Figura 13 – Fachada Norte. Imagem: Aline Ramalho Ferreira da Silva, 2018. Figura 14 – Cercaduras em Pedra Calcária. Imagem: Aline Ramalho Ferreira da Silva, 2018. PÁGINA 21 Avaliações Analíticas Prévias ao Mapeamento de Danos - Aspectos Internos No início deste trabalho identificamos a configuração espacial de uma casa térrea colonial, através dos croquis realizados pelo Reis Filho (2000) (Figura 03). A APL é um exemplo dessa tipologia arquitetônica do período Colonial, dessa forma, trazemos a Figura 15 com a configuração atual de sua planta, a fim de investigar as intervenções que ocorreram no layout da APL, e demarcando as duas edificações que a compõem e o lote ao norte que posteriormente foi incorporado ao lote n° 25. A Figura 16 mostra a localização do Mezanino, inserido em reforma após a década de 1970. Figura 15 – Planta Baixa do Térreo da APL. Fonte: IPHAEP; UBTECH OFFICE (2018), editado. 22 PÁGINA Figura 16 – Planta Baixa do Mezanino da APL. Fonte: IPHAEP; UBTECH OFFICE (2018), editado. Diante das Figuras 15 e 16, as principais indicações do período colonial que corroboram com a descrição de Reis Filho (2000) são as implantações geminadas de ambas as edificações e suas frentes alinhadas com a rua. Como dito anteriormente, ao menos duas das divisórias existentes até o ano de 1947 foram demolidas nas reformas da edificação n°25, e apesar de não termos vestígios das demolições, utilizamos os exemplos de Reis Filho (2000) acerca do layout interno das casas térreas coloniais e produzimos uma planta baixa esquemática com uma possível localização das divisórias demolidas, mostradas na cor amarela (Figura 17). PÁGINA 23 Figura 17 – Planta baixa esquemática das demolições na edificação nº25. Fonte: IPHAEP; UBTECH OFFICE (2018), editado. Quanto aos elementos da arquitetura colonial remanescentes nos interiores das duas edificações, os principais encontrados são as conversadeiras e as cercaduras em pedra calcária nas esquadrias (Figuras 18 e 19). Figura 18 – Conversadeira em Pedra Calcária. Imagem: Aline Ramalho Ferreira da Silva, 2017. 24 PÁGINA Figura 19 – Cercadura em Pedra Calcária, no edifício n°25. Imagem: Aline Ramalho Ferreira da Silva, 2017. Diagnóstico No Projeto de Revitalização do centro histórico de João Pessoa: Cadastro Técnico e Normativa de Proteção (MINC, 1989), inventariou-se as edificações que faziam parte da poligonal da proteção do IPHAEP, através das fichas cadastrais, a fim de registrar seus aspectos externos e internos. Dessa forma, o cadastro técnico2 classifica a edificação n°25 como imóvel de Conservação Parcial, visto que apesar de se tratar de uma edificação de interesse histórico e cultural e apresentar elementos significativos da arquitetura colonial, como as conversadeiras nas janelas em pedra calcária e as cercaduras nas esquadrias (Figuras 20 e 21), e possuir a maioria dos elementos externos com seu aspecto próximo ao original, apresenta descaracterização do seu interior, restando apenas a menor parte dos seus elementos originais (MINC, 1989). 2 O Cadastro Técnico é um dos documentos que compuseram o diagnóstico do estudo desenvolvido pela Comissão Permanente de Desenvolvimento do Centro Histórico de João Pessoa, do qual resultou o Projeto de Revitalização do Centro Histórico de João Pessoa, que tinha como prioridade a revitalização de áreas degradadas (Silva, 2016b). PÁGINA 25 Figura 20 – Cercaduras em pedra calcária nas esquadrias da Fachada Leste Imagem: Aline Ramalho Ferreira da Silva, 2018. Figura 21 – Cercaduras em Pedra Calcária e conversadeira em pedra calcária. Imagem: Aline Ramalho Ferreira da Silva, 2018. Um dos fatores que possivelmente contribuiu com a classificação do n°25 como imóvel de Conservação Parcial foi a inserção do Mezanino para o auditório (Figuras 22 e 23), que constituiu em uma alteração radical na estrutura do edifício colonial. 32 PÁGINA os primeiros nomes que nos vêm à mente sejam os de Lúcio Costa e Niemeyer, outros tantos nomes são igualmente importantes, como Lina Bo Bardi, Rino Levi, Sérgio Bernardes, Vilanova Artigas, Burle Marx, Paulo Mendes da Rocha, Reidy, etc. O estilo moderno desembarcou no país, como era de praxe na época, atrasado cerca de uma década em relação às grandes potências na Europa e aos Estados Unidos. Segundo Hitchcock (1955, apud LINO, 2013), a América Latina era caracterizada não pelo isolamento em relação ao resto do mundo, mas pelo isolamento de si mesma, em razão dos meios de transporte aéreo e terrestres que eram incipientes. A arquitetura realizada no Brasil durante o modernismo não era uma simples apropriação do modernismo europeu, muito pelo contrário, os arquitetos brasileiros criaram uma “um novo idioma nacional dentro da linguagem internacional da arquitetura moderna” (HITCHCOCK, 1955, apud LINO, 2013). Neste sentido, Bruand (1981, apud TINEM, 2006, p. 39), defende que: A nova arquitetura brasileira não nasceu de uma lenta maturação da arquitetura local; foi resultado, mais uma vez, de uma importação pura e simples do Velho Mundo. Contudo, logo superou a etapa da aplicação mais ou menos servil de certas regras e princípios e encontrou num caminho próprio. Isso se deve ao nascimento de uma personalidade artística genuinamente brasileira, cujo primeiro sintoma foi, mais uma vez, um estilo histórico: o neocolonial. Cavalcanti e Lago (2005) indicam três grandes obras modernas que confirmam a força adquirida em uma ressonância internacional: Ministério da Educação e Saúde, Pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York e o Conjunto da Pampulha. Os autores acreditam que esses três exemplares indicam, com base em uma postura gradativa, como a arquitetura brasileira moderna foi adquirindo marcas de um “sabor local”, de uma linguagem nacional que passou a se distanciar dos ditames europeus. No terceiro exemplo, o Conjunto da Pampulha de Niemeyer evidencia o afastamento da referente obra de uma arquitetura racional-funcionalista europeia passando a ser regida através de um repertório formal de “curvas, rampas formas livres” que se distanciam do até então convencional dentro da produção moderna mundial da época, firmando a “escola brasileira”. Talvez este seja mais um motivo para a grande importância dada ao modernismo no país: pela primeira vez alcançou-se uma linguagem nacional. Indo além, não ficamos apenas com uma escola nacional, mas várias, que desenvolveram suas próprias particularidades dentro da linguagem nacional. Neste sentido, podemos citar a Escola de Recife com as figuras de Luís Nunes, Acácio Gil Borsoi e Delfim Amorim; a escola paulista, liderada por Vilanova Artigas; e a escola carioca, cujos representantes são, entre outros, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Reidy e os irmãos Roberto. Estas escolas PÁGINA 33 foram fundamentais na disseminação do ensino da arquitetura e, consequentemente, dos ideais modernos, no Brasil. Embora Recife fosse a cidade mais importante do Nordeste e terceira do Brasil na época áurea do modernismo, o reconhecimento de uma arquitetura moderna pioneira através da obra de Luiz Nunes (década de 1930) é realizada tardiamente por Yves Bruand em seu livro “Arquitetura Contemporânea no Brasil” (1981), quando levantou a hipótese da existência de uma Escola de Recife. Com o questionamento realizado por Bruand, a arquitetura Pernambucana passou a ser objeto de estudo para vários pesquisadores que buscam as mais variadas abordagens para o tema. De maneira geral, o estudo da produção arquitetônica pernambucana modernista pode ser dividida em dois períodos, a década de 30, cujo referencial é Luiz Nunes, e a década de 50 e 60, com a obra do carioca Acácio Gil Borsoi e do português Delfim Amorim, que fixam residência no Recife e passam a lecionar no Curso de Arquitetura. Embora se considere moderno aquilo que foi produzido entre as décadas de 30 e 60, no Brasil, o modernismo permaneceu “em uso” até o início da década de 80. Aliás, ainda que o movimento tenha tido seu declínio, muitos arquitetos brasileiros da atualidade ainda estão impregnados dos ensinamentos modernos em suas obras. É importante salientar que não se trata de cópia, tentativa de reviver um período já passado ou arquitetos modernos perdido no tempo, mas de arquitetos contemporâneos influenciados pelo modernismo. Assim, duas hipóteses são levantadas para explicar esta forte influência modernista: em primeiro lugar, os arquitetos contemporâneos encontram inspiração no passado, como um elemento do vocabulário arquitetônico, para alcançar, mais uma vez, uma linguagem nacional. Neste sentido, Cavalcanti (2005) acredita haver na contemporaneidade um “modernismo em movimento”. Essa terminologia seria, portanto utilizada para denominar “[...] uma arquitetura múltipla e plural praticada por profissionais que, sem reverenciar um tempo já passado, sabem nele encontrar riquezas e não fardos” (CAVALCANTI, 2005, p. 41). Em segundo lugar, os arquitetos da atualidade cujas obras são influenciadas pela arquitetura moderna foram formados em faculdades que, até hoje, ensinam o modernismo ora porque ainda há professores/ arquitetos formados no período moderno, ora porque os mestres aprenderam a fazer arquitetura com professores modernistas. Neste sentido, Rocha (2012, p. 53), relata o início do Curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal da Paraíba, no final da década de 70, cujo quadro de docentes era composto por professores das escolas de Recife, Brasília e Rio de Janeiro e diz: 34 PÁGINA Esses docentes “em trânsito” (SEGAWA, 1988) proporcionavam, sobretudo, uma troca de informações que enriquecia o ensino e propiciava uma formação que, no mínimo, oferecia alternativas e talvez fosse mais abrangente. Entretanto, ainda que fossem distintas, essas formações tinham, em sua maioria, como fundamento, a arquitetura moderna, o que colidia de certa forma com a sedução do pós moderno que tardiamente, no início dos anos 80, chegava através das publicações especializadas e pelos meios de comunicação em geral. Desta forma, partindo do pressuposto que o modernismo ainda está enraizado na academia, buscou-se estudar, no presente artigo, a Escola de Recife e seus principais precursores para entender o que os profissionais lá formados aprenderam enquanto estudantes e como esta forma de pensar e fazer arquitetura ultrapassou a fronteira estadual, chegando, principalmente, a outros estados do Nordeste. A ESCOLA DE RECIFE Conforme dito anteriormente, com a hipótese levantada por Bruand, cresceu a quantidade de pesquisas feitas em cima da produção moderna pernambucana ante a possibilidade da existência de uma Escola de Recife. Escola, na essência da palavra, pode significar tanto o edifício onde se realiza o ofício de educar, como uma forma de pensar e ver o mundo. Nesta segunda definição, a escola é formada por um grupo de pessoas que possuem os mesmos ideais. No caso de Recife, este grupo se firmou em torno do ambiente acadêmico-profissional, motivo pelo qual estes ideais se perpetuaram no espaço e tempo. Os grandes nomes da Escola de Recife são Acácio Gil Borsoi e Delfim Amorim. Embora Luiz Nunes seja o precursor do modernismo no estado, de inegável importância, o lapso temporal de sua atividade profissional foi curto – cerca de quatro anos – uma vez que ele veio a falecer antes de completar 30 anos. Além destes três, Amorim (2001) traz, ainda, Mário Russo como personagem importante que conecta a arquitetura de Luiz Nunes à de Delfim Amorim e Borsoi. Na tentativa de provar a existência da Escola de Recife, Luís Amorim (2001) identifica três paradigmas, o paradigma dos setores, o ambiental e o da forma, e alguns paradoxos, analisando-os a partir da moradia. De acordo com Amorim (2001), “o paradigma dos setores estabelece procedimentos projetivos que definem a ordenação do plano, e em alguns casos sua expressão volumétrica, a partir do agrupamento de atividades afins em setores funcionais”. Este método nada mais é que listar as atividades que deveriam ser desenvolvidas no edifício e agrupá-las em setores de acordo com as suas similaridades. Em seguida, estes grupos seriam representados em manchas, depois em nós. Inicialmente os PÁGINA 35 estudantes analisavam o problema apenas da ótica funcional. Em seguida o diagrama começava a apresentar a conectividade dos espaços, forma e dimensão. Por fim, o processo final seria uma consequência do aprimoramento desse processo. Os efeitos deste paradigma podem se desdobrar em suas três naturezas: social, metodológica e espacial. A primeira define as regras que o arquiteto deve seguir para atender às solicitações de ordem sociocultural. A natureza metodológica se materializa nos procedimentos projetivos e tem como função limitar as possibilidades de arranjos que os arquitetos tem disponível. Por fim, a natureza espacial delimita a possibilidade de disposição espacial por meio o isolamento dos setores que compõem a obra. Estes efeitos se traduzem nas transformações do espaço da habitação de recife. As habitações modernas projetadas sob a ótica do paradigma dos setores apresentam mudanças no modo de conceber o espaço: ambientes fluidos e sem porta, mas com arranjos espaciais que dificultam acessos, mas ampliam os campos visuais. O paradigma ambiental significa a necessidade de adaptar a arquitetura às particularidades do clima quente e úmido do Nordeste. Neste ponto, a grande importância dada ao experimentalismo em oposição ao limitado uso de documentos técnicos-científicos foram primordiais para o desenvolvimento de princípios para a construção nos trópicos, o que culminou, na década de 70, na publicação do “Roteiro para Construir no Nordeste, de autoria de Armando Holanda. Assim, em se tratando do paradigma ambiental, algumas soluções projetuais, obtidas principalmente em razão do experimentalismo, merecem ser pontuados: a sobreposição da telha canal sobre a laje (que alguns autores dizem ser invenção de Delfim do Amaral) para minimizar os efeitos da insolação, fissuras e as consequentes infiltrações; a laje dupla (que não foi muito utilizada em razão do alto custo), que consistia em posicionar duas lajes em concreto paralelamente, de modo a permitir o sombreamento da laje inferior e a circulação constante de ar, isolando termicamente a construção; o cobrimento das superfícies opacas com cerâmica, retomando a tradição dos azulejos do século XIX; e, por fim, o cuidado dado às aberturas através de dois sistemas – o móvel e o fixo -, que incluíam o uso de brisesoleil (vertical e horizontal), as esquadrias e elementos vazados (conhecidos no Nordeste como cobogós) de todas as formas e materiais e o peitoril ventilado. Os tantos desdobramentos do paradigma ambiental apresentados demonstram a sua importância na composição arquitetônica e na configuração espacial, de modo a permitir a livre circulação do ar, sem que para isso fosse preciso haver conflitos na setorização. Por último, Amorim (2001) traz o paradigma da forma como a definição do “campo de investigação compositiva entre a racionalidade construtiva e o acervo histórico 36 PÁGINA nacional”. Para ele, a racionalidade construtiva foi fruto da influência de Mário Russo e Delfim Amorim. Já o acervo histórico seria adaptações “de sistemas construtivos locais, da ordenação volumétrica, como observado na organização dos conjuntos dos engenhos de açúcar e nos sobrados urbanos recifenses; ou na aplicação de alguns elementos da arquitetura, como a telha canal, o azulejo e as esquadrias de madeira”. Após a listagem dos paradigmas, Amorim (2001) chega à conclusão que apenas eles não são suficientes para afirmar a existência de uma escola. É neste momento, então, que ele expõe os paradoxos que envolvem a escola recifense: a precariedade tecnológica que havia na região, demonstrada na ausência de indústrias fornecedoras de equipamentos, materiais e tecnologia; e as peculiaridades da sociedade local. De um lado a arquitetura moderna, com as moradias sendo comparadas a máquinas, pressupunha um desenvolvimento tecnológico que permitisse a superação dos limites existentes, por outro lado o “projeto social moderno” buscava o acesso grande massa a essas tecnologias (o que implicava a busca pelo barateamento dos produtos e equipamentos) e à moradia econômica, porém digna. Assim, os arquitetos nordestinos precisavam lidar com esse “paradoxo de superar as deficiências tecnológicas e as desigualdades sociais, para estabelecer um modernismo contraditório”. No que se refere às peculiaridades da sociedade local, enquanto a Europa e Estados Unidos viviam uma experiência de unidades habitacionais com dimensões e programas reduzidos, com unidades de serviço e comércio agregadas (o que permitia, por exemplo, áreas de serviço e espaços para armazenamento de alimentos reduzidos nas residências), Recife estava inserido em um contexto de famílias numerosas e de renda mais baixa (o que implicava em um setor de serviço maior, com área de serviço e dependência para os empregados domésticos). Após estas ponderações, Amorim (2001) conclui pela existência pontos por eles citados como sendo uma constante observável nos edifícios de recife, ainda que “as expressões arquitetônicas oriundas dessa conjunção de paradigmas e paradoxos, não sejam, sem seu conjunto, absolutamente homogêneas”. Desta forma, aceitando a existência da Escola de Recife, serão apresentadas a seguir algumas considerações acerca dos seus principais representantes, a partir de sua década de atuação. DÉCADA DE 1930 Luiz Nunes formou-se pela Escola Nacional de Belas Artes em 1931, e, conforme já dito, foi o responsável pelas primeiras manifestações do modernismo no Nordeste. Fundou a Diretoria de Arquitetura e Construção de Pernambuco e sua gestão “foi PÁGINA 37 marcada pela utilização de novos materiais de construção e pela renovação nos métodos de trabalho” (CAVALCANTI, 2001, p. 198). O DAU precisou fechar suas portas em razão da repressão à Revolta Comunista de 1935. Luiz Nunes faleceu prematuramente e, assim como ele, seus possíveis discípulos não chegaram a lecionar na Escola de Belas-Artes, não transmitindo seu legado. Em 1934 chega ao Recife onde é contratado para trabalhar no setor de obras públicas do estado de Pernambuco junto a Joaquim Cardozo “para realizar as obras pioneiras de arquitetura moderna.” (MARQUES & NASLAVSKY, 2011). Segundo Cardozo (1956, apud MARQUES & NASLAVSKY, 2011), Nunes teria encontrado em Recife “um ambiente favorável à adoção dos princípios modernistas corbuserianos”. No mesmo ano, Nunes realiza a fundação no Recife da Diretoria de Arquitetura e construções (DAC) que tem como primeira obra a Usina Higienizadora do leite. O projeto foi pioneiro no sentido de trazer para o edifício a racionalidade e funcionalidade exigida nos novos ditames modernos da época. Esse projeto faz parte, segundo SEGAWA (1998, p. 84), da sua primeira fase. Dentre a produção arquitetônica em Pernambuco de Luiz Nunes são o Reservatório d’Água, na cidade de Olinda, de 1936 e, em 1937, o Pavilhão de Verificação de Óbitos as obras mais significativas que compõem a segunda fase de produção do arquiteto já a frente da DAU (Diretoria de arquitetura e urbanismo). O primeiro exemplar, um volume retangular apoiado sobre pilotis, remonta, segundo Marques e Naslavsky (2011), para obras de Mies Van Der Rohe. A continuidade do volume (corpo) e pilotis (base) é quebrada na medida em que o arquiteto gera em um dos pavimentos um vazio. No tocante a concepção estrutural, a massa edílica é formada por concreto armado e as fachadas recebem o tratamento através do uso de cobogós. As autoras Marques e Naslavsky (2011) levantam a reflexão que o reservatório d’água de Olinda prenuncia o que vem ser encontrado posteriormente no Ministério da Educação e Saúde: 1. Do ponto de vista compositivo na relação volumétrica entre o prisma vertical e o bloco horizontal criando uma esplanada acima do nível da rua;Na criação de um edifício público que cria também um espaço público, a esplanada com o pilotis; 2. Do ponto de vista tectônico, na utilização dos meios construtivos como fonte de expressividade máxima da concepção arquitetural; 3. Na inserção no contexto urbano, buscando um caráter monumental, harmônico, mas contrastando com o entorno precedente; 4. Na referência à imagem do arranha-céu moderno. 38 PÁGINA Há, portanto, uma sugestão de que esse pioneirismo sob o âmbito nacional de Luiz Nunes, a partir do projeto de reservatório d’água de Olinda, fora ocultado, possivelmente, a um âmbito exclusivamente regional, pernambucano. No caso do edifício Pavilhão de verificação de óbitos, Marques e Naslavsky (2011) defendem que a obra incorpora conceitualmente quatro pontos modernos estabelecidos por Le Corbusier, são eles: “planta livre modulada, estrutura independente, fachada livre, tetojardim”. Essa comunicação entre a obra de Nunes e os ditames modernos de Le Corbusier pode ser observada na própria relação dialógica existente entre pavilhão e a Ville Savoye, por exemplo. Lemos (1983, apud TINEM, 2006) acredita que Nunes conseguiu em pouco tempo de atuação, três anos (1934-1937), “[...] um caminho nacional para a arquitetura moderna, reunindo ou reaplicando uma sintaxe que talvez viesse dar ao movimento do Recife uma conotação distinta da que se esboçava no Rio à sombra de Lúcio Costa”. E teria, por sua vez, produzido uma obra autônoma, autêntica, apesar da efemeridade da sua produção. As influências recebidas pelos representantes europeus do Modernismo tais como Gropius e Le Corbusier, tornam-se evidentes na composição plástica do edifício, bem como nas soluções funcionais adotadas por Nunes ou até mesmo na preocupação do papel social da arquitetura e sua democratização defendida por Gropius. De acordo com Bruand (1981, apud TINEM, 2006), havia por parte de Nunes uma preocupação com a idiossincrasia do lugar, da relação do edifício com seu contexto. Dessa forma, ainda que Nunes se apropriasse das características inerentes ao movimento moderno europeu (concreto, vidro, estrutura aparente), havia, no entanto, uma adequação, incorporação de elementos locais ao projeto. DÉCADA DE 1950 A 1960 As décadas de 50 e 60 vão marcar, na produção moderna em Recife, a atuação dos arquitetos Acácio Gil Borsoi e de Delfim Fernandes Amorim. Conforme já relatado, Amorim (2001) considera Mário Russo o elo entre Luiz Nunes e os grandes arquitetos das décadas de 50/60. Mário Russo era italiano, formado pela Escola de Nápoles, permaneceu em Recife entre 1949 e 1956, tinha um método de ensino baseado no rigor racionalista, com preocupações com o clima, que foi marcante na formação da primeira turma do curso autônomo de arquitetura da Universidade do Recife (CABRAL, 2003, apud NASLAVSKY, 2003). Borsoi formou-se na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, tendo convivido com grandes nomes do modernismo, como Niemeyer, Lúcio PÁGINA 39 Costa, além de ter trabalhado com Affonso Reidy e Alcides da Rocha Miranda. Foi para o Recife em 1951, quando assumiu a cadeira de Pequenas e Grandes Construções na Escola de Belas-Artes de Pernambuco e, em 1959, tornou-se cátedra de Composições de Arquitetura na Universidade Federal de Pernambuco, ocupando tal posto por quase vinte anos. Embora tenha sido inicialmente influenciado por Niemeyer, Borsoi “foi aos poucos depurando seu estilo, numa adaptação criativa dos princípios modernistas às particularidades do Nordeste” (CAVALCANTI, 2001, p. 26). Delfim Amorim, por sua vez, estudou na Escola do Porto e, posteriormente, se tornou professor da mesma. Foi cofundador da ODAM – Organização em Defesa da Arquitetura Moderna –, movimento português que recebeu influência da arquitetura moderna brasileira. Migrou para o Recife, onde começou a lecionar no Curso de Arquitetura da Escola de Belas-Artes, em 1951, como assistente de Borsoi na cadeira de Pequenas Composições, tendo assumido a titularidade da cadeira posteriormente. Naturalizou-se brasileiro Em 1956 e, com a criação da Faculdade de Arquitetura, em 1959, assumiu a regência da cadeira de Composições de Arquitetura. Assim, Delfim e Borsoi foram responsáveis pela formação dos arquitetos que atuariam nas capitais nordestinas. No caso de Borsoi, Silva (2003, apud NASLAVSKY, 2003) destaca a ligação existente com a “Escola Carioca”, a influência recebida por Lucio Costa, Oscar Niemeyer e Afonso Reidy com quem chegou a trabalhar. O arquiteto de formação carioca encontrou na capital pernambucana uma atmosfera propícia para a “aplicação” do “novo” fazer moderno, ressignificado sob uma perspectiva social, climática, cultural, econômica inerente ao Nordeste. Em um primeiro momento, sua produção esteve voltada a “elite pernambucana”, por tal fato, sua produção, segundo Silva (2003), teve mais liberdade no sentido do arquiteto se utilizar dos materiais, técnicas que estavam surgindo na época. A autora destaca como marca recorrente nas obras de Borsoi, a preocupação do arquiteto e minúcia no que se refere à escolha dos materiais a serem utilizados no projeto, “[..] atribui-se um papel importante ao tijolo aparente e a madeira, enquanto complementos das estruturas de concreto armado e dos panos de vidro.” (BRUAND, 1981, apud SILVA, 2003). No entanto, sua contribuição para a arquitetura moderna em Recife não esteve somente atrelada à classe burguesa, Borsoi contribuiu urbanisticamente quando integrou o corpo de equipes que auxiliariam na revisão do Código de Obras da cidade e impediram, por sua vez, que a orla de Recife sofresse intervenções tais como ocorriam na orla de Copacabana no Rio de Janeiro na época. Neste sentido, “Recife tem um código de obras que impediu muitas aberrações. Uma delas teria sido a cópia servil do modelo 40 PÁGINA de Copacabana, onde a ocupação do terreno é integral, como se pretendeu implantar, na década de 50, no bairro de Boa Viagem” Silva (1988 apud AMARAL, 2004). Além disso, a atuação de Borsoi na cidade esteve também atrelada a projetos de habitação social, o mais citado dentre os estudiosos é o projeto “Cajueiro Seco”. O projeto evidenciava, essencialmente, a importância da participação popular na produção das habitações. Para o projeto, Borsoi volta-se para as tradições passadistas, habitações coloniais, através da construção em taipa. O projeto sugeria a produção habitacional a partir da pré-fabricação em taipa, um sistema racionalizado onde a construção, moradia, poderia ser realizada pela própria população. A década de 60 vai marcar, prioritariamente, na obra residencial de Borsoi uma incorporação ao movimento brutalista. A utilização do concreto aparente, tijolo aparente surgirão de forma recorrente. No entanto, mais uma vez, há uma preocupação por parte do arquiteto em promover o enraizamento da construção aos condicionantes diversos encontrados na região. Junto a Borsoi, o arquiteto Delfim Fernandes Amorim representa uma das figuras de relevância, protagonista, dentro do contexto arquitetônico moderno de Pernambuco. Amorim seria, segundo BRUAND (1881, apud NASLAVSKY, 2003), “o verdadeiro herdeiro de Lucio Costa em Pernambuco”. Apesar de Borsoi e Amorim serem comumente apresentados em paralelo o que supõe haver uma similaridade em suas obras, cada arquiteto desenvolveu uma linha particular de projeto. Amorim, por exemplo, adquiriu reconhecimento através da construção de residências unifamiliares: “As casas de Amorim”. Essa tipologia de casa apresentava telhados com laje em concreto inclinadas com cobertura em telha cerâmica. De acordo com Silva (1994, apud NASLAVSKY, 2003), a produção moderna recifense da década de 60 que, como já citado, seguia os ditames regionalistas, esteve apoiada em dois vieses: 1. o bloco retangular com telhados cerâmicos em 4 águas, generosos beirais, aberturas regulares, varandas e predominância de cheios sobre vazios 2. o tipo de Amorim criado por Delfim Fernandes Amorim, entre 1958 e 1960, sua marca registrada na arquitetura de Pernambuco, quando alia ainda que involuntariamente, a leveza plástica da arquitetura moderna brasileira a sobriedade das casas rurais do passado colonial luso brasileiro: “os telhados se reduzem a lajes de concreto armado com pequena inclinação geralmente duas águas, apoiadas em paredes estruturais de alvenarias de tijolos ou em curtos pontaletes de ferro (...) sobre as lajes de coberta, telhas cerâmicas tipo canal formando um colchão de ar para atenuar os rigores do clima (...) uso de azulejos policromados para revestimento de trechos de fachadas externas, portas e janelas em madeira” PÁGINA 41 Na necessidade de adequação da construção ao contexto local, Recife, Amorim, bem como Borsoi se utilizaram de algumas variáveis, estratégias projetuais que ressoam por grande parte das suas obras. Costa (2012) em “arquitetura do sol” pontua algumas dessas características mais recorrentes. Pode-se citar, por exemplo, em termos formais, a suspensão da casa do solo que além de proporcionar destaque visual à construção, potencializavam um maior conforto térmico à edificação. No tocante à configuração externa do edifício, o que Costa (2012) aponta é a utilizado recorrente de materiais cerâmicos, azulejaria, nas fachadas como estratégia técnica para amenizar o fator de “umidade” presente na região e, por conseguinte, auxiliar na conservação do edificado. Como forma de remeter a uso da brises, fruto de um viés arquitetônico moderno, os arquitetos, Amorim e Borsoi, fizeram o uso de Cobogós em material cerâmico como estratégia de adequação climática das fachadas que recebiam maior incidência solar, bem como havia estratégia de “baratear” os custos das obras. Diante do exposto, é possível perceber que a importância dos arquitetos acima citados ressoa além de um recorte cronológico do movimento moderno. CONSIDERAÇÕES FINAIS Desde a experiência de Luís Nunes frente ao Diretório de Arquitetura e Urbanismo, Recife passou a ser um campo importante de atuação de profissionais da arquitetura. O Curso de Arquitetura e Urbanismo foi oficializado em 1948, mas apenas em 1958 ganhou autonomia, tornando-se independente de Belas Artes. Nos anos 50, o Curso de Arquitetura da Universidade do Recife foi uma das sete escolas de arquitetura nacional (junto à ENBA, FAU, URGS, EFMG, FNA – atual UFRJ - e Mackenzie) e um dos centros mais importantes de ensino da arquitetura no país, recebendo estudantes das regiões Norte e Nordeste. Após o questionamento de Bruand, diversos autores passam a defender a existência de uma Escola de Recife. Para Luís Amorim, esta é fundamentada em um contínuo que vem desde Luiz Nunes, na década de 30, até a década de 70, culminando no livro “Roteiro para construir no Nordeste”, de Armando Holanda. Os dois grandes expoentes desta Escola são, sem dúvida, Borsoi e Delfim Amorim, que, além de arquitetos atuantes no mercado, foram professores por muitas décadas, formando um grande número de profissionais que, influenciados por seus modos de pensar moderno, migraram para diversos estados do Nordeste, onde participaram da criação dos Cursos de Arquitetura e Urbanismo. Neste sentido, podemos citar como exemplo Rubens Wanderley em Alagoas e Hélio Costa, Expedito Arruda, Amaro Muniz e Rômulo Carvalho na Universidade Federal da Paraíba. 48 PÁGINA A imigração árabe ocorreu desde o final do século XIX, os primeiros a chegarem foram os provenientes de países como Síria, da Palestina e do Líbano, cristãos maronitas3, refugiando-se de conflitos de étnicos e religiosos. No Brasil, estabeleceramse principalmente em São Paulo e Foz do Iguaçu. No início do século XX, outros imigrantes desembarcaram com intuito de prosperarem e, posteriormente, voltarem para suas regiões de origem. A vinda de povos muçulmanos trouxe contribuições devido à identidade cultural e religião dos mesmos, na qual se manifestou por meio da influência em algumas obras arquitetônicas, como, por exemplo, Palácio das Indústrias no parque D. Pedro em São Paulo, e na construção de mesquitas, sendo a Mesquita Brasil a primeira fundada com no país e na América Latina. As instalações da Mesquita Brasil foram iniciadas em dimensões reduzidas na Rua da Mocca e, posteriormente, na Avenida do Estado, bairro do Cambuci do município de São Paulo, com intuito de poder abrigar os muçulmanos que estavam desembarcando no porto de Santos e sua intenção era de manter as características de uma mesquita, o qual foi incentivado pelo primeiro sheik que veio ao Brasil, em 1956. Figura 01: Mesquita Brasil em Cambuci, vista exterior, 2013. Fonte: Site Islam Brasil. Acesso em: <http://islamismobr.blogspot.com/2013/06/a-mesquita-brasil.html>.Visto em: 20/09/18. 3 Cristões libaneses, com a Igreja Maronita possuindo um ritual prório, que difere do rito latino comumente conhecido pelos católicos ocidentais. PÁGINA 49 Figura 02: Mesquita Brasil em Cambuci, vista interior, 2011. Fonte: Site Filha da Alvorada. Acesso em: <http://filhadaalvorada.blogspot.com/2011/08/mesquitas-dobrasil-mesquita-brasil.html>. Visto em: 22/09/18. Segundo Paulo Pinto4(2005), a mesquita foi ampliada em um estilo “neomameluco”5, com seu exterior caracterizado pela cor branca com dois minaretes e: Seu interior decorado com painéis pintados com arabescos característicos das estampas egípcias evocam a arquitetura religiosa do Oriente Médio contemporâneo, assim como um passado imaginário da ‘época de ouro’ do Islã. (PINTO, 2005, p.237) A Mesquita de Santo Amaro foi fundada em 1977 na zona sul de São Paulo, onde residem aproximadamente 500 famílias muçulmanas6. O terreno no qual se instalou continha uma chácara que foi adquirida devido à contribuição de muçulmanos e apoio do Ministério de Awcaf do Egito. A Sociedade Beneficente Muçulmana de Santo Amaro possui um pátio, espaços para que as pessoas possam se instalar e, separadamente, um espaço para realizar as orações. 4 Coordenador de pesquisa de pós-graduação em Antropologia e do Núcleo de Estudos sobre o Oriente Médio da Universidade Federal Fluminense, de Niterói. 5 Período da arte islâmica do século 13, os mamelucos impõem seu poder na Síria tornando uma exclusividade da arte no reino. 6 Dados fornecidos pela comunidade apresentados na tese de Francirosy Campos Barbosa Ferreira, em 2007. 50 PÁGINA Figura 03: Mesquita de Santo Amaro, vista exterior, 2011. Fonte: Site Filha da Alvorada. Acesso em: <http://filhadaalvorada.blogspot.com/2011/08/mesquitas-dobrasil-mesquita-de-santo.html>. Visto em: 22/09/18. Figura 04: Mesquita de Santo Amaro, vista interior, 2011. Fonte: Site Filha da Alvorada. Acesso em: <http://filhadaalvorada.blogspot.com/2011/08/mesquitas-dobrasil-mesquita-de-santo.html>. Visto em: 22/09/18. PÁGINA 51 Possui arquitetura semelhante às mesquitas construídas na Turquia de tradição Otomana e com características dessa tipologia, como a utilização de uma cúpula, vitrais, minaretes, tribuna e decoração em motivos florais, geométricos e inscrições. Sua fachada destaca-se pelos seus ladrilhos coloridos, essa referência pode ser encontrada em casas coloniais construídas pelos portugueses nos séculos XVIII e XIV, sendo uma característica histórica dessas construções. Esta mesquita apresenta uma dimensão inferior do que a Mesquita Brasil, no enquanto possui um maior destaque no exterior e interior, com destaque para as cores “mais escura, com uma atmosfera mais ‘oriental’, mais ‘árabe’ do que as demais” (FERREIRA, 2007, p.92). Outra mesquita de São Paulo fundamental para uma melhor compressão do estudo abordado é a Abu BarkAssadic conhecida como Mesquita de São Bernardo do Campo. É a única da região do ABCD, no bairro Jardim das Américas e estando localizada na rua Henrique Alves dos Santos, 205. Sua construção teve início em 1984, sendo inaugurada em 1990, possuindo contribuição da Sociedade Islâmica de Beneficência Abu BarkAssidk e da comunidade de São Bernardo sendo uma das maiores colônias islâmicas do Estado de São Paulo, composta por aproximadamente 400 famílias libanesas e outros que foram revertidos ao Islã7. São Bernardo do Campo também tem como característica o comércio de móveis, tecidos e roupas, o que atrai muitos muçulmanos para o trabalho nessa atividade (RAMOS, 2003). Figura 05: Mesquita de São Bernardo do Campo, vista exterior mostrando a frente da mesquita, 2016. Fonte: Blog São Bernardo do Campo. Acesso em: <http://www.saobernardodocampo.blog.br/saobernardo-do-campo-mesquita-sao-bernardo>. Visto em: 18/09/2018. 7 Dados fornecidos pela comunidade apresentados na tese de Francirosy Campos Barbosa Ferreira, em 2007. 52 PÁGINA Figura 06: Mesquita de São Bernardo do Campo, vista exterior mostrando a lateral da mesquita. Fonte: Site Turismo São Bernardo. Acesso em: <http://www.turismosaobernardo.com.br/locais/ir/ exibir/local=mesquita-abu-bakr-assidik>. Visto em: 18/09/18. Figura 07: Mesquita de São Bernardo do Campo, vista exterior mostrando a lateral da mesquita, 2014. Fonte: Site Foursquare. Acesso em: <https://pt.foursquare.com/v/mesquita-s%C3%A3o-bernardo-docampo/4e5864986365d314184c8d0e/photos>. Visto em: 18/09/18. PÁGINA 53 Inicialmente, a mesquita localizava-se em um edifício no centro da cidade, e o fato de estar nesse local tornou-a um modelo de edificação com o objetivo de a vinda e a recepção de muçulmanos do bairro e circunvizinhanças. Apesar da mesquita possuir minaretes e cúpula, sua forma não condiz com uma mesquita propriamente dita, como no caso da Mesquita Brasil, por exemplo. Em suas fachadas brancas de linhas retas sobressair o curvo da cúpula e das janelas de vidro com suas pontas formando um pequeno arco ogival, pode-se ver caligrafias árabes nas mesmas, estando sequenciadas ao longo das laterais. A mesquita possui colunas robustas no exterior e interior, um grande lustre, cúpula verde, tapete decorado com tonalidade vermelha e possui uma maneira de convivência diferenciada em seu interior, como pode ser visto no relato de Francirosy Campos Barbosa Ferreira8 em Redes Islâmicas em São Paulo: “Nascidos muçulmanos” e “revertidos”: A mesquita não apresenta aquele silêncio que impera em grandes templos. As crianças correm, brincam, rezam, falam. Não há cadeiras, só tapetes. Sentada em um tapete, sem sapatos, observo as pessoas que chegam e o comportamento de cada uma: a forma como se aproximam, o abraço entre os homens, o cumprimento das mulheres, com suas crianças a tiracolo ou correndo à sua volta; observo também as jovens recémrevertidas e cujo número parece aumentar a cada visita minha. A mesquita é um espaço de convivência das diferenças. (FERREIRA, 2009, p. 8) Outra importante cidade é Foz do Iguaçu por ser um polo econômico e turístico a partir de sua tríplice fronteira com cidades no Paraguai e na Argentina, o que lhe confere uma diversidade semelhante à de cidades de grande porte, como São Paulo, além de ter uma das maiores comunidades muçulmanas do Brasil. A história dos muçulmanos com o local em questão começou na década de 1930 por meio de duas historicidades, uma ligada a etnia libanesa por ter ocorrido a chegada de imigrantes em maior intensidade no século XX por oportunidades econômicas devido ao processo de urbanização e industrialização ocorrido no país, como a construção da Ponte Internacional da Amizade, e com maior facilidade de obtenção do visto de entrada do que na América do Norte. A segunda historicidade é o sagrado, que faz referência a religião voltando-se para a história do profeta e do Islã e para as cidades Meca e Medina na Arábia Saudita e Líbano que são cidades de nascimento, acolhimento e morte do profeta Maomé. É possível observar construções de diversificadas tipologias com estilo arabesco e um enaltecimento da linguagem árabe, podendo ser vista sua importância em um relato de um comerciante brasileiro descente de libaneses muçulmanos no artigo O Espaço De Representação Da Comunidade Árabe - Muçulmana De Foz Do Iguaçu - Paraná9: 8 Antropóloga, docente e pesquisadora no Dpto Psicologia Social na Universidade de São Paulo, no campus de Ribeirão Preto. 9 Dos autores Denis Ricardo Carloto e Sylvio Fausto Gil Filho. 54 PÁGINA Quem já nasceu em um país que fala o árabe, já está em vantagem, está privilegiado, graças a Deus, sorte deles que tem o idioma de berço que é o idioma em que o Alcorão foi revelado. (CARLOTO E GIL FILHO, p.5) Foz do Iguaçu é sede da maior mesquita sunita10 na América Latina com 600m² de área, denominada de “Omar IbnKhatab”, foi inaugurada em 1983 com apenas um ano e seis meses de construção e conta com uma comunidade de aproximadamente 50 família. Figura 08: Mesquita Omar IbnKhatab, vista exterior, 2017. Fonte: Site Hotel Mirante Foz. Acesso em: <https://www.hotelmirantefoz.com.br/noticias/mesquitaislamica-de-foz-do-iguacu-uma-das-obras-mais-conceituadas-mundialmente-como-referenciaislamica>. Visto em: 20/09/18. Figura 09: Mesquita Omar IbnKhatab, vista interior, 2017. Fonte: Site Aquí me quedo. Acesso em: <http://aquimequedo.com.br/2017/06/07/foz-do-iguacu/>. Visto em: 22/09/18. 10 O islamismo possui duas vertentes, divisão que ocorreu após a morte do profeta Maomé devido ao conflito para decidir quem seria o legítimo sucessor do profeta, os xiitas reivindicavam o direito de Ali, o genro do mesmo; e os sunitas que é a corrente majoritária da religião e ortodoxa, apoiavam Abu Bakr, pai da esposa de Maomé, Aisha. PÁGINA 55 Seu exterior é caracterizado pela cor branca com uma cúpula central de 400m², dois minaretes e escadaria, enquanto no seu interior é orientado pelo mihrab, com arabescos e inscrições árabes decorando as paredes e cúpula na tonalidade de azul e trazendo sensação de tranquilidade ao ambiente por meio da luz advinda das aberturas dos vitrais, o chão sendo coberto por um grande tapete azul com detalhes de desenhos de arcos e colunas. A mesquita possui um centro de recepção aos visitantes devido ao grande número de turistas e frequentadores do local, para poder incentivar e servir de apoio para os eventos culturais e sociais que ali residem. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS No desenvolvimento do artigo em questão foram considerados os aspectos contextuais e formais para a análise da arte islâmica e da tipologia existente nas mesquitas de São Paulo e Foz do Iguaçu, buscando entender a relevância das mesmas para o estudo da presença e influência da arte islâmica no Brasil. Compreendendo a forma na qual essa arte adapta-se as diferenças geográficas e culturais encontradas no Brasil, como um elemento da identidade da cultura islâmica presente no cotidiano brasileiro, causando diversidade no espaço plural e étnico de um povo. Assim, as mesquitas brasileiras possuem características que remetem as primeiras construções das tipologias, que representam comunidades islâmicas e transmitem o saber da cultura das mesmas, tornando São Paulo e Foz de Iguaçu diversificados culturalmente por apresentar traços arquitetônicos da arte islâmica misturados ao cotidiano dos bairros. O estudo de caso proposto no presente artigo possibilitou caracterizações de elementos que associam as tipologias das mesquitas presentes em território árabe e que são visualizadas no Brasil (São Paulo e Foz do Iguaçu) com a diversidade de elementos adaptados da cultura islâmica à cultura nacional brasileira. Ao longo do estudo foram destacadas as cenas interiores e exteriores das mesquitas ora analisadas, trazendo ao leitor a possibilidade de observação do espaço/local de congregação coletiva existentes nas mesquitas. 56 PÁGINA 4 REFERÊNCIAS CARDOZO, P. F. 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Dissertação (Mestrado em Língua, Literatura e Cultura Árabe) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 200 f., 2008. PÁGINA 57 SENKO, E. C. A Arte E Arquitetura Islâmica Na Idade Média E A Representação Do Poder Andaluz: A Mesquita Maior De Córdoba (Séc. Viii). Artigo científico. Universidade Federal do Paraná, Paraná, f. 15, 2011. TEIXEIRA, G. Foz do Iguaçu: Mesquita Árabe + Templo Budista + Três fronteiras. Aquí me quedo, 2017. Disponível em: <http://aquimequedo.com.br/2017/06/07/foz-doiguacu/> Acesso em: setembro de 2018. 64 PÁGINA Para Rolnik (2014), a locação dos empreendimentos deve ter relação direta com a paisagem, preservando sempre a memória e a identidade do espaço, dialogando com a topografia e os demais elementos naturais. O que o filme nos mostra é justamente o oposto. Há uma falta de planejamento urbano na cidade de Buenos Aires, o que ocasiona o crescimento vertical desenfreado, afetando diretamente na paisagem, na mobilidade e na qualidade de vida urbana. A verticalização urbana, segundo Patrícia Alonso Andrade (2017), potencializa o adensamento populacional na medida em que multiplica a área útil a ser edificada dos terrenos, por meio da sobreposição de pavimentos. A autora também coloca que essa é uma solução possível para situações em que haja limitação de espaço, o que não é o caso de João Pessoa, que se insere dentro de uma lógica de planejamento urbano capitalista, onde o solo se transforma em um meio de produção e em mercadoria. A atual fase de verticalização da capital paraibana é apontada por ser, pautada pela atuação intensa de grandes empresas construtoras e incorporadoras, pode ser caracterizada e diferenciada da fase anterior por duas tendências: 1) sua expansão para mais bairros e setores da cidade, apresentando características próprias em cada um deles; 2) a elevação do gabarito dos prédios altos residenciais para mais de vinte pavimentos, alguns já atingindo mais de quarenta ou mesmo cinquenta pavimentos, sendo tal elevação acompanhada de mudanças na configuração programática dos espaços comuns dos edifícios, com consequências para as relações entre público e privado no espaço urbano onde se inserem (ANDRADE, 2017). Na figura 3, é possível identificar o Duo Corporate Towers, um complexo coorporativo com duas torres localizadas às margens BR 230 de João Pessoa. PÁGINA 65 Figura 2 e 3: Verticalização em Buenos Aires,2011 e Verticalização em João Pessoa,2018. Fonte: Frame do filme Medianeras (2011) e Igor Neves (2018). 66 PÁGINA Contrastes A coexistência entre o antigo e o novo sempre foi motivo de debate, por vezes celebrado como uma forma harmônica de progresso ou de tensões que evidenciam o apagamento da memória. Para Ana Fani Carlos (2004), a busca pelo incessantemente novo, com novas formas urbanas que se constroem sobre outras, com profundas transformações, revelam uma paisagem em constante movimento. Assim, a autora nos apresenta o terno – espaço amnésico – fundamental para definir o espaço produzido na contemporaneidade, com formas mutantes em um tempo efêmero, gerando relações conflituosas de estranhamento e identidade. João Pessoa possui um centro antigo tombado tanto pelo IPHAN, quanto pelo IPHAEP, sendo detentora de um grande acervo edificado que acumula exemplares desde os tempos coloniais. Contudo, é perceptível que ao longo do tempo, antigas residências e logradouros que dão lugar a novos edifícios, num vertiginoso processo de descaracterização, que só favorece para torná-la mais complexa e irregular. Muitas das edificações, que deveriam ser protegidas pelo processo de tombamento individual, deram lugar a novos empreendimentos que ferem sua cronologia estética e arquitetônica, sempre motivados pelas vontades do capital, que por vezes é insensível a tentativas de preservação da memória da cidade. É visível no filme o contraste das edificações em sua cronologia estética. Na figura 4 podemos observar o reflexo de uma edificação histórica na superfície envidraçada de um edifício contemporâneo. Na figura 5, em João Pessoa, podemos observar o mesmo efeito que mostra uma perda de identidade estética que ignora a salvaguarda de sua história, para o presente e o futuro. PÁGINA 67 Figura 4 e 5: Reflexo do contraste arquitetônico em Buenos Aires, 2011 e reflexo do contraste arquitetônico em João Pessoa,2018. Fonte: Frame do filme Medianeras (2011) e Igor Neves. 68 PÁGINA No par de figuras seguintes (6 e 7), podemos observar contraste não só estilísticos, mas também em relação ao porte e volumetria das edificações. No exemplo portenho, uma edificação Art Nouveau sofre uma intervenção invasiva se tornando a base de uma torre que quebra o gabarito original, não só da edificação, mas do conjunto arquitetônico do centro de Buenos Aires. O mesmo acontece no caso pessoense, onde o Shopping Tambiá se insere na paisagem urbana de forma agressiva, sem nenhum critério ou respeito com o seu entorno imediato. Figura 6 e 7: Contraste arquitetônico em Buenos Aires, 2011 e contraste arquitetônico em João Pessoa,2018. Fonte: Frame do filme Medianeras (2011) e Igor Neves (2018). PÁGINA 69 Semelhante situação de contraste acontece nas figuras 8 e 9. Na primeira imagem, um edifício com características ecléticas se avizinha de dois edifícios de aparência racionalista. A ausência de afastamentos laterais entre esses edifícios causa um efeito de “sufocamento” da edificação mais antiga, o que a torna invisível na paisagem. Na figura 9, o casarão eclético divide o lote com uma inserção contemporânea e se conectam através de uma passarela. O maior porte e a intenção do arquiteto em criar um ritmo na fachada semelhante ao do casarão acabam por tirar as atenções daquele que deveria ter mais destaque. Figura 8 e 9: Contraste arquitetônico em Buenos Aires, 2011 e contraste arquitetônico em João Pessoa,2018. Fonte: Frame do filme Medianeras (2011) e Igor Neves (2018). 70 PÁGINA Irregularidades As autoras Salvador e Barone (2018) apontam que a rua, em sua essência, deve ser um espaço público e democrático, palco de encontro entre pessoas, possibilitando diferentes formas de interação cultural e social, facilitando a mobilidade e conectividade de seus espaços. Contudo, a facilidade de locomoção permitida pelo automóvel tem como consequência o afastamento dos centros urbanos e um zoneamento das atividades cotidianas. As críticas às práticas urbanísticas de privilegio do carro, monofuncionais e homogeneizantes estão no cerne da obra de Jane Jacobs – Morte e Vida de Grande Cidades (1961), que reafirma o papel de importância das ruas e calçadas, considerandoas órgãos vitais de uma cidade. Jan Gehl (2013), outro defensor da rua, afirma que uma cidade bem planejada deve sempre levar em consideração a escala humana, oferecer um ambiente sustentável com fácil acesso ao transporte coletivo, espaços públicos variados e facilidade de circulação de pedestre. As irregularidades urbanas estão visíveis na cidade à medida que não corroboram com a ideia de espaço inclusivo, heterogêneo, acessível e democrático. As imagens 10 e 11 mostram edificações refletidas em um outro empreendimento que ultrapassa os limites da escala arquitetônica da rua, além de não levar em conta a escala humana. Figura 10 e 11: Irregularidade arquitetônica em Buenos Aires, 2011 e irregularidade arquitetônica em João Pessoa,2018. PÁGINA 71 Fonte: Frame do filme Medianeras (2011) e Igor Neves (2018). Nas figuras 12 e 13 podemos observar a inserção impositiva das edificações mais altas se comparadas com as suas adjacências. Tais megaconstruções alteram o padrão arquitetônico do entorno contradizendo as formas existentes, não estabelecendo diálogo com a rua, ou mesmo com os pedestres. As aberturas são mínimas, não ocorrendo conexão entre o espaço público e o privado, tornando-se assim, uma edificação insustentável em um espaço nada atrativo para os usuários. Figura 12 e 13: Irregularidade arquitetônica em Buenos Aires, 2011 e irregularidade arquitetônica em João Pessoa,2018. 72 PÁGINA Fonte: Frame do filme Medianeras (2011) e Armando Pascoal (2018). CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao analisar as percepções de Martín e Mariana no filme Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual, vemos que as questões urbanas são tratadas como pano de fundo para um romance que acontece entre os personagens e refletem seus contrastes, irregularidades e fobias pessoais. Dessa forma, através de sua narrativa, o espaço fílmico contribui para identificar como estão postas as realidades da cidade e suas perspectivas, provocações e as dificuldades contemporâneas. Frente à realidade de João Pessoa, compreende-se que as vivencias no dito mundo real traduzem situações enfrentadas cotidianamente, como a forte verticalização, irregularidades arquitetônicas, contrastes paisagísticos, insustentabilidades, dentre outros. Apesar de se tratarem de cidades distintas, percebidas através de meios distintos: cinema e fotografia, os processos globalizantes do capital são percebidos com intensidades, mesmo que diferentes, em ambos os casos. Percebe-se que o modelo de produção de cidade que vem sendo construído resulta em visuais conflituosos, porventura segregatórios, que transparecem uma dependência especulativa que se sobrepõe a um ambiente de qualidade e sustentável. O cinema cria uma plataforma para se debater essas questões urbanas que por vezes passam desapercebidas no cotidiano, sensibilizando olhares para que espectadores PÁGINA 73 possam identificar em suas realidades paralelos com aquela que foi vivenciada no espaço fílmico. Dessa forma, percebe-se que as angústias dos personagens estão ligadas à sociedade como um todo e que os cenários podem ser os mais comuns e próximos a cada indivíduo. REFERÊNCIAS ANDRADE, Patrícia Alonso. Verticalização em João Pessoa: produção do espaço e transformações urbanas. In: Portal Vitruvius. São Paulo, maio, 2017. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/17.204/6555. Acesso em outubro/2018. BARBOSA, Jorge Luiz. A Arte de representar como reconhecimento do mundo: o espaço geográfico, o cinema e o imaginário social. In: Revista GEOgraphia – Ano II – No. 3. Rio de Janeiro, 2000. Disponível em: http://www.uff.br/geographia/ojs/index.php/ geographia/article/viewArticle/30.Acesso em outubro/2018. CARLOS, Ana Fani Alessandri. O espaço urbano: novos escritos sobre a cidade. São Paulo: Contexto, 2004. GEHL, Jan. Cidade para pessoas.São Paulo: Perspectiva, 2013. HAROCHE, Claudine. A condição sensível: formas e maneiras de sentir no Ocidente. Trad. Jacy Alves de Seixas e Vera Avellar Ribeiro. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2008. JACOBS, Jane.Morte e vida de grandes cidades.São Paulo, Martins Fontes, 2011. MARTIN, Marcel. A linguagem cinematográfica. São Paulo: Brasiliense, 2003. METZ, Christian. A significação do cinema. São Paulo: Perspectiva, ROLNIK, Raquel.Verticalização: para além do debate do sim ounão. In: blog da Raquel Rolnik, 2014. Disponível em: http://arquiteturaurbanismotodos.org.br/verticalizacaoraquel-rolnik/. Acesso em outubro/2018. SALVADOR, Laís Margiota; BARONE, Gabriela Pereira. Jan Gehl e o desenho urbano das cidades contemporâneas: De Copenhague a São Paulo.In: Portal Vitruvius. São Paulo, maio, 2017. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/ arquitextos/19.217/7020. Acesso em outubro/2018. TARKOVSKY, Andrei. Esculpir o tempo. São Paulo: Martins Fontes, 1998. 80 PÁGINA Figura 2 - Mapa do bairro do Roger, onde é possível observar pontos importantes do local Fonte: Produção do grupo a parir de imagens de satélite do google earth, 2018. PÁGINA 81 Figura 3 - Imagem do bairro do Roger, feita em uma das visitas, representando a tipologia das edificações do bairro que não possuem muitos pavimentos e as vias estreita, mais próxima da escala humana, 2018. Fonte: Acervo do grupo Já o Bairro do Aeroclube tem sua origem na divisão do bairro do Bessa em loteamentos feita na década de 1980 e criado pelo arquiteto Aquino que, para a criação desse parcelamento de áreas, segundo Sousa e Sarmento (2014) “(...) seguiu a mesma diretriz de conciliar o traçado com canais existentes e destinar suas margens a áreas verdes. O desenho que ele deu ao parcelamento era moderadamente irregular, mas contrastava com a regularidade do vizinho Jardim Bessamar”. A delimitação dos novos bairros criados a partir do parcelamento do Bessa só passou a valer após a aprovação da lei municipal n° 1.574 de 04 de setembro de 1998. A partir daí, foram delimitados os bairros: Aeroclube, Jardim Oceania e Bessa. Algumas características importantes do bairro foram percebidas com as visitas de campo: existência de muitos lotes vazios e algumas vias sem pavimentação, o que contrasta com espaços que apresentam edificações de múltiplos pavimentos e muros altos; as vias são largas e projetadas para atender o uso de veículos. Apesar da ausência outros de espaços públicos no Aeroblube fora o Parque Parahyba que fica nas margens do 82 PÁGINA bairro, existem dois shoppings se tornaram referência local, além do equipamento que dá nome ao bairro: Aeroclube. Figura 4 - Mapa do bairro do Aeroclube, pelo qual é possível atentar para pontos importantes Fonte: Produção do grupo a parir de imagens de satélite do google earth, 2018. PÁGINA 83 Figura 5 e 6 - Imagens feitas em uma das visitas ao bairro do Aeroclube, onde é possível atentar os lotes vazios a frente e ao processo de verticalização, que caracteriza o Bairro, 2018. Fonte: Acervo do grupo Análise dos mapas mentais coletados Com as observações de campo conseguimos gerar um estudo comparativo entre os dois bairros e identificamos diversas especificidades contrastantes como: ano de ocupação inicial, localização geográfica, tipologia de edificações, renda média dos habitantes, delimitação e dimensão de lotes. Também foram identificados seus pontos de maior concentração de pessoas, grandes equipamentos urbanos, dentre outros, o que indicava uma maior probabilidade de participação dos indivíduos na pesquisa. A aplicação dos mapas mentais mostrou a percepção da paisagem urbana daqueles que vivem que circulam pelos dois bairros e apontou diferenças significativas. 84 PÁGINA Figura 7 - Mapa mental 1 - M.L., 23 anos (moradora). Aeroclube, João Pessoa, 2018. Fonte: Acervo do grupo O mapa 1 apresenta ícones e letras, elementos da paisagem construída dispostos de maneira separada. Para fazer sua análise foi necessário coletar algumas informações emitidas pela autora durante a entrevista. Ela representa as rotatórias pelas quais passa em seu percurso de carro quando sai de casa. Além disso representou dois parques públicos que estão localizados em um bairro tangente ao Aeroclube. Representa um pequeno shopping do bairro onde costuma comer, sua casa e o edifício onde morava anteriormente. Esse mapa mostra o distanciamento da autora em ralação ao bairro, reflexo do lugar onde mora, o edifício mais alto do bairro, no 32º pavimento. PÁGINA 85 Figura 8 - Mapa mental 2 - C.M., 20 anos (morador). Aeroclube, João Pessoa, 2018. Fonte: Acervo do grupo O mapa 2 apresenta ícones, elementos da paisagem construída dispostos de maneira separada. Para fazer sua análise foi necessário coletar algumas informações emitidas pelo autor durante a entrevista. Ele representa o apartamento onde reside e uma praça que existem próximo onde mora. Também um shopping, que apesar de não estar no seu bairro, o considera importante, bem como o equipamento que dá nome ao bairro: Aeroclube. Esse mapa, assim como o anterior, mostra o distanciamento do autor em ralação ao bairro, onde mostra uma visão de cima do bairro, por morar no 12 andar do edifício. Figura 9 - Mapa mental 3 – L.F., 45 anos (moradora). Aeroclube, João Pessoa, 2018. Fonte: Acervo do grupo 86 PÁGINA O terceiro mapa apresenta ícones, dispostos em perspectiva, com elementos da paisagem construída. A análise do mapa, juntamente com o discurso traz um equipamento que dá nome ao bairro - o Aeroclube. O mapa trouxe uma representação comum aos outros mapas coletados no local, a simbologia trazida pelo avião e a pista de decolagem. Figura 10 - Mapa mental 4 – J.F., 29 anos (trabalha no bairro). Aeroclube, João Pessoa, 2018. Fonte: Acervo do grupo O mapa 4 retrata a falta de infraestrutura existente nas vias, com buracos na pista; ainda apresenta o carro, simbolizando o trânsito do lugar, além dos edifícios altos e o sol representando o calor. A falta de afetividade com o bairro marca o discurso da autora, expressando apenas os problemas no bairro. PÁGINA 87 Figura 11 - Mapa mental 4 – A.A., 70 anos (morador). Roger, João Pessoa, 2018. Fonte: Acervo do grupo No quinto mapa existem diferentes ícones dispostos em perspectiva, com elementos humanos e edificados. A fala do autor do mapa somada a sua representação traz signos que simbolizam sua relação afetuosa com o bairro: as pessoas aqui simbolizam a amizade, as casas unidas representam a vizinhança, onde todos se conhecem e se ajudam, já a igreja retrata a presença de sedes de instituições religiosas no local. Figura 12 - Mapa mental 4 – C.F., 47 anos (moradora). Roger, João Pessoa, 2018. Fonte: Acervo do grupo No sexto mapa apresenta ícones e letras dispostos de forma conjunta, com elementos humanos e texto. Para compreender os signos dispostos no mapa foi necessário utilizar a fala da autora, que traduzem a sua relação afetuosa com o bairro: as figuras humanas representa ela e a filha que vivem em uma vila do bairro, o sentimento de pertencimento é observado pela frase que significa: “o Roger é tudo para mim.”. 88 PÁGINA Figura 13 - Mapa mental 5 – J.S., 21 anos (moradora). Roger, João Pessoa, 2018. Fonte: Acervo do grupo O mapa 7 apresenta ícones gráficos de forma dispersa, com elementos representando a natureza. Para entender o significado desse mapa foi necessário recorrer ao discurso da autora, que buscou representar um coração simbolizando o sentimento de afeto que possui pelo bairro, mas apoiado sobre as mãos e com uma rachadura, definindo a sensação de insegurança que ela sente ultimamente, uma vez que a mesma recentemente foi assaltada. Em contrapartida, desenha uma flor simbolizando a esperança pela diminuição da violência na região. Figura 14 - Reunião do subgrupo de pesquisa que estuda os bairros do Aeroclube e do Roger, Aeroclube, 2018. Fonte: Acervo do grupo PÁGINA 89 CONSIDERAÇÕES FINAIS Após a realização de visitas de campo aos bairros estudados foi percebido o quanto a paisagem urbana é capaz de interferir na visão que seus moradores possuem da região, como também as suas sensações de pertencimento àquele local. Através da metodologia abordada neste trabalho foi perceptível a diferença na interação existente com o meio urbano entre os dois bairros e suas especificidades pelos seus habitantes, uma vez que no bairro do Aeroclube, percebemos um menor número de transeuntes, a existência de vias mais largas, infraestrutura mais recente, menos interação entre seus habitantes e uma relação não tão boa com o bairro, apenas o considerando como local de morada ou trabalho, além de o associarem sempre ao maior equipamento existente na área, a pista de pouso de aviões. Já no bairro do Roger, o resultado é o oposto, foi possível perceber atividades constantes e a relação da população com o entorno. Foi perceptível a sensação de pertencimento ao lugar, como também a vontade de permanecer em uma vizinhança antiga, amigável e aberta, com áreas vivas, sem grandes torres ou condomínios de alto luxo. Dada a realização deste trabalho e seus resultados obtidos, é visto como a paisagem urbana é capaz de interferir em aspectos como vitalidade urbana e sensação de pertencimento ao lugar, diretrizes necessárias para mensurar a qualidade de um determinado espaço. REFERÊNCIAS ANDRADE, Patrícia Alonso de. Verticalização em João Pessoa. Produção do espaço e transformações urbanas. Arquitextos, São Paulo, ano 17, n. 204.02, Vitruvius, maio 2017 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/17.204/6555>. BISPO, L. M. C. Relicário Urbano: uma leitura do Bairro do Roger na cidade de João Pessoa-PB. 2003-2013. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal da Paraíba. João Pessoa. 2015. CULLEN, Gordon. Paisagem Urbana. Lisboa: Edições 70, 2006. GEHL, Jan. Cidade para Pessoas. São Paulo: Perspectiva, 2010. FILHO, F.S.M.; OLIVEIRA, I. J. A utilização de mapas mentais na percepção da paisagem cultural da cidade de Goiás/GO. CULTUR: Revista de Cultura e Turismo, Ilhéus, ano 07, n 03, p. 31-45, 2013. 96 PÁGINA Um novo olhar sobre a real função social que se almeja do exercício do arquiteto e urbanista requer necessariamente uma aproximação dos usuários do espaço, considerando a importância da contribuição dos diversos atores para o desenvolvimento de melhorias para a cidade. Esse processo de inter-relações não é uma tarefa fácil, e se depara com uma série de dificuldades em termos de gestão e subsídios facilitadores dessas ações, como também de uma mudança de comportamento e atitudes que propiciem uma maior inclusão e uma quebra de paradigmas de viés capitalista e descontextualizado. Além disso, a prática de ações participativas ainda não ocorre em larga escala, muitas iniciativas acontecem de forma pontual, como as atividades de extensão universitária (PINHEIRO e FERNANDES, 2017). O exercício pedagógico nas universidades, por vezes, torna-se limitado quando não mantém relações com a realidade social. Contudo, ao assumir o compromisso de aproximação com essa realidade, tendo-a como norteadora das ações, novas possibilidades de ensino e aprendizagem são obtidas. Na arquitetura e urbanismo a reflexão crítica sobre o espaço se dá em diferentes escalas de relações sobre os lugares, as pessoas e suas ações. Apesar de estarmos todos imersos no espaço das cidades, nem todos a experimentam de modo a reconhecer as maneiras de viver e os conflitos existentes em sua totalidade. A lógica da segregação como solução para enfrentar os problemas urbanos apenas aumenta as desigualdades que comprometem a vida de todos e todas, de forma direta e indireta. A compreensão das relações desse ecossistema urbano é fundamental para uma formação capaz de transfigurar a visão dominadora do saber em uma visão integrante e fortalecedora, capaz de lidar com a complexidade da vida urbana de forma mais perspicaz (SILVA et al., 2014). No ensino universitário, há uma generalização e superficialidade do conteúdo simplesmente “repassado” e muitas vezes distanciado das referências locais, sem a inserção interativa do aprendiz no contexto urbano. A necessidade de suprir a carga teórica dos cursos deve estar associada às práticas relacionadas também às necessidades da sociedade, simultaneamente, e para tanto é necessário reconhecer e alcançar essa realidade de cada localidade. Assim sendo, “a formação de saberes relacionada à construção de lugares indica um caminho, convergindo relações humanas e espacialidades, como fatores de qualificação do ensino e da cidade” (SILVA et al., 2014, p. 337). Nesse contexto, a extensão universitária se destaca como uma opção possível para conciliar os projetos e as demandas reais, fundamentada em metodologias participativas que valorizam e incluem os saberes populares como aporte social, libertador e transformador, para todos os envolvidos. PÁGINA 97 Extensão universitária e os Escritório Modelo de Arquitetura e Urbanismo Educar e educar-se, na prática da liberdade, é tarefa daqueles que sabem que pouco sabem – por isto sabem que sabem algo e podem assim chegar a saber mais – em diálogo com aqueles que, quase sempre, pensam que nada sabem, para que estes, transformando seu pensar que nada sabem em saber que pouco sabem, possam igualmente saber mais (FREIRE, 1983, p.15). A universidade oferece um importante canal de produção de conhecimentos científicos capazes de transformar e gerar melhorias para a sociedade. A ponte de troca entre os saberes técnicos da Academia e os saberes empíricos da prática e vivência da população é viabilizada, sobretudo, pela extensão universitária. Santos (2004, p.66) expressa os valores das atividades de extensão e atribui às universidades a importância de seu papel para “uma participação ativa na construção da coesão social, no aprofundamento da democracia, na luta contra a exclusão social e a degradação ambiental, na defesa da diversidade cultural”. Assim, a produção do conhecimento tem espaço não somente na universidade, mas também na própria cidade, através das dinâmicas de seus lugares, saberes e relações humanas (SILVA et al., 2014). O envolvimento em atividades de extensão é realizado através de uma interação colaborativa que possibilita o encontro de diferentes saberes onde todos se tornam atores daquela história que tem como palco um mundo humano, de comunicação (FREIRE, 1983). No âmbito universitário do curso de arquitetura e urbanismo temos os Escritórios Modelo de Arquitetura e Urbanismo (EMAU), que é um projeto de extensão associado à Federação Nacional de Estudantes de Arquitetura e Urbanismo (FeNEA) do Brasil. O EMAU nasceu no início dos anos 90, assumindo um compromisso com a realidade social brasileira. Nesse momento foi criado o Projeto de Orientação à Escritórios Modelo de Arquitetura e Urbanismo (POEMA) como base para formação e caracterização dos EMAUs que passaram a ser construídos em diversas cidades do país. As discussões sobre as relações entre a formação em arquitetura e urbanismo e as suas contribuições para a sociedade a partir da extensão, estão presentes em diversos encontros e eventos fomentados pela FeNEA e outras instituições da área, mas atingem o seu ápice no Seminário Nacional dos Escritórios Modelo de Arquitetura e Urbanismo (SeNEMAU). O SeNEMAU é o momento onde ocorrem as maiores trocas de experiências entre os EMAUs e onde se realizam praticas conjuntas de ações de fomento de extensão, unindo pessoas de todo o pais com afinidades relacionadas as práticas da função social do curso (FENEA, 2006). A tríade indissociável entre extensão, ensino e pesquisa, caracterizando essa união através da propulsão de conhecimentos entre universidade e sociedade é fomentada 98 PÁGINA pelos EMAUs que tem como princípios norteadores: ser um projeto de extensão universitária; propiciar a melhoria da formação acadêmica; atender a populações sem possibilidades de ter acesso ao trabalho do arquiteto e urbanista; retornar à comunidade acadêmica o conhecimento adquirido em suas atividades; difundir a atividade de arquitetura e urbanismo, complementando e não competindo com o mercado profissional; ser de livre participação a todos os estudantes de arquitetura e urbanismo e outros interessados, sendo um espaço de debate e produção aberto a toda a sociedade; proporcionar o trabalho coletivo, visando uma gestão democrática e horizontal; estabelecer um processo projetual participativo, promovendo a mobilização social; garantir o trabalho integrado a outras áreas do conhecimento; ser autônomo em relação a sua gestão e seleção de projetos e orientadores; ser isento de remuneração pelos beneficiários e garantir seu funcionamento e continuidade (FENEA, 2006). Além desses princípios, a Responsabilidade Técnica sobre os projetos elaborados pelos EMAUs segue legislação reguladora dos exercícios das profissões definidas pelos conselhos profissionais específicos. (FENEA, 2006, p.21-22) No caso dos escritórios modelos de arquitetura e urbanismo um professor orientador deve acompanhar as atividades e se responsabilizar tecnicamente pelos projetos desenvolvidos de acordo com a Lei 12.378/2010 (BRASIL, 2010). Para Silva et al. (2014) não devemos entender os escritórios modelos de arquitetura como escritórios semelhantes aqueles existentes no mercado profissional, tampouco devemos considerá-los modelos gerais que possam se replicar, pois cada contexto específico define as ações dos EMAUs. No entanto, algo em comum os une, a proposta de trabalhar em situações de necessidade e de demandas sociais onde se espera que os EMAUs possam contribuir para a transformação contínua das situações reais. As atividades de extensão aproximam os universitários da realidade social, que muitas vezes é desconhecida ou observada de forma superficial na academia. Existem diversos modos de partir para essa interação, sendo necessária uma boa dose de atenção e reflexão para conduzir os processos de projeto junto às comunidades com as quais se iniciam um relacionamento. “O EMAU enfatiza a necessidade de arquitetos interlocutores, que estabeleçam pontes e sejam mediadores de diálogo entre os diversos agentes urbanos - comunidades, poder público, agentes privados” (LODDI et al., 2016, p.6). A Lei Federal 11.888 de 2008, conhecida como Lei da Assistência Técnica, prevê que os serviços de assistência técnica em parcerias com as instituições governamentais devem ser prestados por profissionais das áreas de arquitetura, urbanismo e engenharia, onde estão incluídos os programas de extensão por meio dos Escritórios Modelo (BRASIL, 2008). Além disso, os EMAUs também estão validados dentro das diretrizes-base dos cursos de arquitetura e urbanismo pelo Ministério da Educação. PÁGINA 99 3 EXPERIÊNCIAS DO EMAU TRAMA O Trama, é o EMAU vinculado à UFPB, localizado na cidade de João Pessoa - Paraíba, sendo o mesmo associado à Federação Nacional de Estudantes de Arquitetura – FeNEA. O Trama foi criado em 2009, por estudantes engajados nas causas sociais em combate às problemáticas emergentes nas cidades contemporâneas que desfavorecem sobretudo aqueles mais carentes da atuação profissional do arquiteto e urbanista. O conceito do Trama está relacionado a um emaranhado de elementos independentes que, por meio da troca de experiências, gera benefícios coletivos, buscando valorizar esse processo como um primeiro resultado, onde “não se pode puxar um fio sem interferir no tecido”. Dessa forma, o propósito do Trama é conduzir os ensinamentos universitários a serem desenvolvidos de forma colaborativa com e para a comunidade carente, criando dessa forma uma rede de trocas de aprendizado mútuo a favor da qualidade de vida para as pessoas diante dos processos de construção da cidade. O Trama é formado por membros estudantes voluntários e bolsistas de projetos de extensão universitária, bem como por colaboradores e professores coordenadores, contando principalmente com pessoas da área de arquitetura e urbanismo, mas também desenvolvendo parcerias com estudantes e profissionais de diversas áreas a partir de uma visão interdisciplinar. A sua estrutura de organização baseada em dois grupos de participantes, a estrutura fixa, que são os que fazem parte de sua organização interna, relacionados à coordenação e desenvolvimento do escritório, e a estrutura integrante, que são os Grupos de Trabalhos (GTs), criados a partir de demandas apreciadas e também de projetos de extensão temáticos reconhecidos institucionalmente. A horizontalidade da organização do grupo é presente desde os momentos internos de tomada de decisão das demandas e formulação dos projetos a serem desenvolvidos, até os processos participativos que são construídos para atuar junto às comunidades de forma a não estabelecer hierarquias dominantes, buscando dar voz a todos os envolvidos. O processo de aproximação com a comunidade é desenvolvido de maneira a adequar-se a cada realidade e demanda trabalhada a partir de metodologias participativas voltadas para uma abordagem de concepção arquitetônica que conduza a um melhor entendimento dos desejos e necessidades da comunidade e a realização concreta da construção de novos ambientes mais propícios ao convívio social. A corresponsabilidade entre os diversos atores nas ações de mutirão colaborativo, possibilita um usufruto mais consciente desses espaços construídos. Desde a sua formação, o Trama mantém-se ativo e vem desenvolvendo uma série de ações voltadas para a temática social da arquitetura e urbanismo, por exemplo, a organização de eventos como palestras, rodas de debate, oficinas, manifestações 100 PÁGINA e intervenções urbanas; participação em eventos externos como congressos, seminários, conselhos e encontros estudantis e profissionais; realiza também pesquisas e publicações científicas na área; e o mais importante, realiza atividades de extensão universitária através de parcerias com a organização civil e institucional, na tentativa de estabelecer processos participativos em comunidades carentes e grupos menos favorecidos da sociedade. Neste trabalho, serão apresentadas 4 experiências do Trama, desenvolvidas nos últimos anos, onde foram realizados processos participativos de projeto e execução em sistema de mutirão colaborativo. Busca-se dessa forma, compartilhar essas práticas e aprofundar a discussão sobre o tema, analisando os métodos adotados e refletindo sobre os alcances e as dificuldades encontradas, como base para um constante aprimoramento e reflexão sobre esses processos. Em ação do Trama em conjunto com a Prefeitura Municipal do Conde/Paraíba, deu-se início em 2017 o programa “Mutirão na Vizinhança”, que consiste na realização de projetos participativos junto a comunidades carentes desprovidas de espaços públicos, frente a demandas sociais da própria população. Esses projetos participativos contam com a atuação de três agentes principais: a comunidade, a prefeitura e o Trama. Com o intuito de desenvolver um processo colaborativo entre as partes, o Trama tornouse responsável por desenvolver uma metodologia capaz de possibilitar uma vivência de atividades práticas, fomentando a participação comunitária como o ponto central desse processo de construção da cidade. Desse modo, a metodologia utilizada surgiu da adaptação do método do “Poema dos Desejos” ou Wish Poem, instrumento desenvolvido por Henry Sanoff (2001), concebendo como resultado a oficina da maquete dos desejos, uma forma lúdica e reflexiva para auxiliar no processo participativo do projeto e mutirão a serem a serem realizados. A proposta básica da oficina da maquete dos desejos consiste na elaboração de uma maquete física tendo como partida a discussão coletiva em alguns grupos, onde crianças, adultos e idosos da comunidade juntamente com os facilitadores do Trama, refletem sobre as suas principais necessidades e desejos. Com as crianças é dada uma maior liberdade de abstração onde é entregue material para desenho e conduzidas dinâmicas para saber o que desejam para o espaço objeto de intervenção. Ao fim das discussões são eleitos representantes da comunidade para expor a síntese do que foi debatido em cada grupo, culminando as ações na construção de uma maquete física como proposta de intervenção. A partir disso, cabe ao EMAU refinar o projeto e elaborar os desenhos arquitetônicos para o detalhamento de materiais e execução da proposta, que volta a ser apresentada à comunidade em novos encontros até a sua definição final. Em paralelo, mantém-se um planejamento e articulação entre os agentes, para realização do “mutirão da mão na massa”, que consiste na execução do projeto, onde são PÁGINA 101 determinados quais serviços são viáveis e seguros para a participação da comunidade, dividindo atividades e estabelecendo quais etapas da obra requerem serviços e infraestruturas específicas que ficarão sob responsabilidade da administração pública. Dentro desta lógica em dois anos, o Trama está na quarta atuação, onde cada uma precisou de adaptações próprias de aprimoramento e viabilização do processo. A seguir são apresentados cada um desses trabalhos. A primeira experiência do Mutirão na Vizinhança surgiu do diálogo do Trama, com a Secretaria de Planejamento do Conde ( SEPLAN), onde parte de sua equipe são arquitetos e urbanistas ex-membros do Trama. A partir desse contato chegou-se a proposta para elaboração de um projeto participativo de uma praça para o loteamento Ademário Régis, um território desprovido de espaços públicos de qualidade, onde já havia uma demanda da associação comunitária. Em março de 2017 foram realizados os primeiros contatos com a comunidade onde foi feito o reconhecimento do terreno da praça e a dinâmica da oficina da maquete dos desejos, implementando de forma satisfatória a metodologia participativa para definição das necessidades da comunidade e proposta coletiva para intervenção através da maquete, como pode ser visto através das Figuras 1 e 2. Após a conclusão da primeira etapa, foram criados grupos de trabalho para elaborar o projeto e planejamento das diferentes frentes de trabalho - de mobiliário urbano, arborização e paisagismo, intervenções artísticas, pavimentação, comunicação, espaços comunitários e outros - para o mutirão de execução colaborativa, que ocorreu em abril de 2017, ver Figuras 3 e 4. Figuras 1 e 2: Momento de confecção da maquete dos desejos e apresentação das necessidades da comunidade com reflexão a partir da maquete física, respectivamente, 2017. Fonte: Arquivo dos autores. 102 PÁGINA Figuras 3 e 4: Mobiliário infantil construído durante o mutirão da vizinhança a partir do reaproveitamento de materiais: ponte de pneus e túnel de manilhas hidráulicas, respectivamente, 2017. Fonte: Arquivo dos autores. Várias dificuldades foram encontradas no momento do mutirão, onde a área de intervenção era grande, o tempo de trabalho era reduzido, não se obteve materiais de forma apropriada e a participação popular não foi tão promissora quanto se esperava, apesar de uma efetiva presença de mulheres e crianças da comunidade e outros colaboradores que surgiram em diferentes momentos. Por alguns momentos, o Trama perdeu o seu protagonismo em manter a organização da metodologia planejada das atividades, visto que haviam muitos representantes do poder público e outros que não tomaram conhecimento do processo almejado, entre outros aspectos de articulação, o que dificultava a execução da obra para alcançar o resultado esperado. Contudo, houve um momento muito oportuno de plenária ao final do mutirão, onde abriu-se um espaço para dar voz a todos ali presentes, discutindo sobre as dificuldades e as conquistas realizadas, assumindo também o compromisso de finalizar a obra e gerar a infraestrutura necessária por parte da Prefeitura. Foram necessários alguns meses, aguardando recursos, materiais e mão de obra para que os serviços de infraestrutura fossem concluídos até a praça ser finalizada e batizada em dezembro de 2017 como “Praça da Amizade”. A segunda experiência colaborativa para o Mutirão na Vizinhança foi realizada em setembro de 2017, neste momento o projeto formalizou vínculo com o programa de extensão da UFPB, o PROBEX, aderindo mais participantes ao escritório. Diferentemente da primeira, esse projeto tratava-se da reconstrução do Museu do Quilombo do Ipiranga, para a comunidade quilombola do Gurugí, território do Conde. Para esse projeto, foi necessária uma nova adaptação na metodologia utilizada, uma vez que se tratava de uma demanda específica de assistência técnica para reconstrução de uma casa de taipa destinada ao museu. PÁGINA 103 Na primeira reunião estiveram presentes representantes das Secretarias de Cultura e Planejamento de Conde, membros do Quilombo Ipiranga e a equipe do Trama, neste momento foi apresentado o programa de necessidades que consiste na reconstrução da casa de taipa, o agenciamento da área e a criação de uma pracinha destinada à leitura. Em um segundo momento a equipe do Trama fez o levantamento in loco do espaço destinado ao museu e do canto da leitura. Em conversa com um dos mestres e com o líder quilombola, foi proposto como seria a divisão da edificação, respeitando o desenho original da casa pré-existente. Posteriormente no escritório do Trama, com o desenho do terreno e estudos preliminares, algumas modificações foram propostas para melhorar o desempenho térmico do edifício além de assegurar uma maior vida útil à edificação de taipa. Após a entrega do projeto o primeiro mutirão ocorreu no dia 14 de outubro de 2017, onde foram feitas todas as escavações e limpeza do terreno, para alocação das estruturas principais. Na semana seguinte os mestres continuaram o trabalho com a montagem das estruturas secundárias, preparando a casa para a tapagem em forma de mutirão, com a participação de vários membros do quilombo, dos técnicos da prefeitura e dos alunos do Trama e voluntários do curso de Arquitetura e Urbanismo. Neste dia foi feito o processo de tapagem de mão desde a etapa de pisar o barro para adquirir a consistência adequada, a tapagem de mão e por fim o processo de cobrir a casa com telhas de barro, ver Figuras 5, 6 e 7. Após a secagem do barro, os membros do quilombo concluíram com o assentamento das portas e janelas. Sendo a inauguração feita junta a festa de coco de roda para celebrar tal ocasião. 104 PÁGINA Figuras 5 e 6: Momento de mutirão para construção do Museu do Quilombo, utilizando a técnica de construção em taipa com a pariticpação dos moradores locais e universitários, 2017. Fonte: Arquivo dos autores. PÁGINA 105 Figura 7: Museu do Quilombo do Ipiranga em fase final de construção, 2017. Fonte: Arquivo dos autores. Este mutirão contou com problemas na sua execução, houve pouco tempo para realizar o projeto e planejamento de acordo com a demanda de pouco mais de um mês, além da falta de material e descumprimento do projeto na hora da execução, o que poderá ocasionar problemas futuros a edificação. Tais fatos, evidenciam as dificuldades de atuação no gerenciamento de projetos em obras, que é algo pouco trabalhado durante a formação acadêmica. Apesar disso, o processo trouxe um grande aprendizado para a equipe do Trama através dos ensinamentos populares sobre os processos construtivos em madeira e taipa, evidenciando que nesse projeto, os verdadeiros professores foram os próprios mestres da construção do quilombo. Em 2018, houve a renovação da extensão do Trama junto ao “Mutirão na Vizinhança” com uma nova proposta de intervenção, essa terceira experiência, ainda em andamento, trata-se de uma praça no Bairro Nossa Senhora das Neves, no Conde/PB. Semelhante ao primeiro, visa atender a necessidade da criação de espaços públicos em locais onde a comunidade carece desses ambientes. Este em particular é um resquício de uma área destinada para uma praça, tendo parte do terreno doada a uma igreja na gestão de 2012 à 2014. A primeira etapa da metodologia participativa com a comunidade para desenvolver a maquete dos desejos aconteceu em junho de 2018, assim, foram separados os grupos de crianças e adultos para discutir os desejos para a praça. As atividades com as crianças foram extremamente produtivas gerando desenhos que surpreenderam pela maturidade da percepção espacial. Já as discussões com os adultos foram repletas de incertezas, a título de exemplo, a Igreja e seus representantes foram contrários à intervenção, pois havia interesses na aquisição do terreno para ampliar a Igreja, e também não houve, 112 PÁGINA SANOFF, H. School Building Assessment Methods. Washington, DC. National Clearinghouse for Educational Facilities, 2001. Disponível em: http://www.ncef.org/ pubs/sanoffassess.pdf. Acesso em maio/2017. SANTOS, B. S. A Universidade no Séc. XXI: para uma reforma democrática e emancipatória da universidade. 3ª ed. São Paulo: Cortez Editora, 2004. SILVA, A. L. S. V.; FONTENELE, C. M.; LYRA, L. E. G. Desafios da extensão universitária e dos escritórios modelo nos cursos de arquitetura e urbanismo. Oculum Ensaios. v.11. n. 2. Campinas, São Paulo. p. 335-346. 2014. VASCONCELOS, E. M. Complexidade e pesquisa interdisciplinar. Epistemologia e metodologia operativa. Petrópolis: Vozes, 2002. PÁGINA 113 INTERVENÇÃO NO BAIRRO ALTIPLANO CABO BRANCO PARA IMPLANTAÇÃO DE UM PARQUE LINEAR E REQUALIFICAÇÃO DA PRAÇA JOSÉ TARGINO INTERVENTION AT THE ALTIPLANO CABO BRANCO DISCTRICT FOR THE IMPLEMENTATION OF A LINEAR PARK AND REQUALIFICATION OF JOSÉ TARGINO SQUARE ARAUJO, DANIEL VICTOR LUCENA DE Graduando Arquitetura e Urbanismo pelo Centro Universitário de João Pessoa – UNIPÊ, [email protected] GOIS, JAINE CÂNDIDO DE Técnica em edificações pelo IFPB; Graduanda Arquitetura e Urbanismo pelo Centro Universitário de João Pessoa – UNIPÊ, [email protected] NÓBREGA, FLÁVIA DANTAS DA Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela UFPB, Docente do Curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário de João Pessoa – UNIPÊ, [email protected] OLIVEIRA, BRENDA COUTINHO DE Técnica em edificações pelo IFPB; Graduanda em Arquitetura e Urbanismo pelo Centro Universitário de João Pessoa – UNIPÊ, [email protected] RESUMO A pesquisa tem a finalidade de diagnosticar os problemas de caráter urbano em um trecho do bairro o Altiplano Cabo Branco, em João Pessoa, Paraíba, e intervir no espaço através melhorias no espaço público, com a criação de um parque linear e da requalificação da Praça José Targino. A metodologia baseada em Del Rio (1990) e Watteman (ano) foi firmada através de visitas técnicas, entrevistas e pesquisas sobre o local de estudo, constatando a necessidade de gerar áreas que promovam lazer, segurança e convívio social, por intermédio da iluminação e pavimentação adequada das vias, atividades diversificadas e a valorização dos equipamentos e vegetação já existentes, resultando 114 PÁGINA em um projeto democrático e abrangente. Palavras-chave: parque linear, espaço público, requalificação. ABSTRACT The research has the finality of diagnosing and intervening urbanisticallyon the in an excerpt from the neighborhood Altiplano Cabo Branco, in João Pessoa, Paraiba, proposing a functional public space, through the creation of a linear park and the requalification of José Targino Square. The methodology, based on Vicent Del Rio (1990), was established through technical visits, interviews and research about the area of study, stating the need to develop comfortable spaces that promote leisure, culture, security and social interaction, thanks to lighting, paving, diversified activities and the valorization of already existing pre-existences, in addition to the preservation of existing vegetation, resulting in a comprehensive and democratic project. Keywords: linear park, public space, requalification. 1 INTRODUÇÃO O avanço tecnológico da construção civil ocasionou alterações na dinâmica cultural das cidades, sendo assim, o desenvolvimento do espaço urbano como local de encontro e interação social diminuiu em função de construções isoladas, sem ligação com o entorno. Jan Gehl em seu livro Cidade para Pessoas (2014), aborda questões fundamentais para qualidade de vida nas cidades. Os modernistas rejeitaram a cidade e o espaço da cidade mudando seu foco para construções individuais. Essa ideologia tornou-se dominante por volta de 1960 e seus princípios continuam a afetar o planejamento de muitas áreas urbanas novas. (GEHL, Jan; 2014 p.4) A Cidade moderna, já adepta dos lotes com recuos, advindos dos princípios sanitaristas, também passa a adotar uma nova postura quanto à interação social que passa a ser secundária. E a partir desta problemática, surgem as políticas públicas para solucionar as questões decorrentes de espaços urbanos sem uso, tornando os ambientes agradáveis e acolhedores. Cidades convidativas devem ter um espaço público cuidadosamente projetado para sustentar os processos que formam a vida urbana, como afirma GEHL (2014). PÁGINA 115 A falta de espaços adequados favorece a formação de barreiras entre o público e privado, de modo que são comuns estruturas de proteção, como muros e cercas, que se propõem a resolver a problemática da insegurança coletiva gerada por grandes espaços urbanos, contribuindo para o esvaziamento das ruas, uma vez que dificulta o contato entre pessoas. Este abandono é agravado pela falta de equipamentos e atividades diversificadas que atendam a todas as faixas etárias e classes sociais, dinamizando o uso do espaço. Sobre a vida nas cidades Jan Gehl aponta que: A vida na cidade é um processo de auto alimentação, de auto reforço. Algo acontece porque algo acontece porque algo acontece. Após iniciada, uma brincadeira de criança pode, rapidamente, atrair mais participantes. Processos similares acorrem com atividades de adultos. As pessoas vão onde o povo está (GEHL, Jan; 2014 p.64). Com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos moradores da cidade e trazer animação urbana para o espaço público, foi proposta uma intervenção no bairro do Altiplano, em uma área com potencial urbanístico para instalação de lazer e convívio, uma vez que após levantamento de campo, verificou-se que a área se encontra degradada e carente. Foi escolhida a inserção de um parque linear, uma vez que parques podem funcionar como equipamentos importantes na cidade, proporcionando recreação e lazer, especialmente às camadas mais carentes da sociedade que não dispõem de outras opções. Contribuindo para a permeabilidade do solo, favorecendo a ventilação e desenvolvimento de práticas esportivas e de educação ambiental, possibilitando a utilização democrática do espaço público, como dito por GOMES (2014). O desenvolvimento do projeto foi realizado através de estudos do local, reconhecendo as problemáticas específicas da área de implantação, com o intuito de valorizar o espaço público, suas áreas verdes e o contato entre os usuários do meio urbano, já que esses fatores propiciam uma cidade viva e mais segura. Analisado o panorama em que se encontra a área de estudo, baseados em metodologias de leitura do espaço, conforme Del Rio (1990) e Watterman (2011), formulou-se o conceito para o Parque Linear Altiplano e as diretrizes para a revitalização da Praça José Targino, no qual optou-se por soluções que estimulem tanto a população local quanto moradores de outros bairros, convidando-os a sair dos seus espaços comuns e sentindo-se à vontade para integrar os percursos e atividades propostas para o parque. 116 PÁGINA 2 DESENVOLVIMENTO A pesquisa tem como objetivo uma proposta de intervenção urbana no bairro do Altiplano Cabo Branco (João Pessoa - PB), entre as ruas José Rufino e Rui Costa, que contempla o canteiro central e a Praça José Targino, propondo um Parque Linear e também a requalificação da Praça, atendendo aos anseios da população. Figura 01 – Localização da Área Objeto de Estudo (AOE), 2017. Fonte: Google Maps, editado pelos autores. Na metodologia de Vicente Del Rio (1990), a leitura de um espaço urbano, deve ser desenvolvida in loco buscando a identidade, o caráter e a qualidade de um lugar, podendo ser compreendida, segundo o autor, através de quatro ferramentas: morfologia urbana, análise visual, percepção do meio ambiente e comportamento ambiental. Com base nessa metodologia buscou-se entender incialmente o contexto histórico-cultural e características físicas do sítio, contemplados na morfologia urbana. A percepção ambiental foi efetivada com entrevistas e elaboração de mapas mentais feitos pelos moradores e frequentadores, onde os elementos visuais mais marcantes eram destacados por eles e foram interpretados com auxílio dos mapas temáticos da área de estudo. A quarta ferramenta utilizada, chamada por Del Rio de Comportamento Ambiental, foi aplicada por meio de visitas técnicas em diferentes horários, e confecção PÁGINA 117 de mapas comportamentais com indicação de como a população se apropriava do espaço durante o decorrer do dia. De acordo com Watterman (2011), realizando mapeamentos de cunho comportamental e urbanista obtêm-se uma ideia completa da realidade de um lugar. Com a percepção daqueles que vivenciam a mesma realidade, o profissional tem uma ideia ampliada do que precisa o sítio, ou a sua vocação, genius locci, com inclusão dos desejos de quem habita e se apropria do lugar. Os mapas gerados apresentam não somente o que existe, mas apontam as potencialidades que a área de estudo oferece. Com isso, constatou-se a carência de infraestrutura básica como: iluminação adequada, calçadas regulares e acessíveis, mobiliário urbano, transporte público adequado, vias com dimensões apropriadas, pavimentação satisfatória e arborização com manutenção necessária. A Praça José Targino, apesar de conter quadras esportivas, que abrigam aulas de judô, academia ao ar livre e equipamentos urbanos como bancos e postes, apresenta pouca utilização pela população, devido às condições em que se encontra. O playground e as quadras se encontram em condições precárias sem os equipamentos necessários, redes de proteção deterioradas, pisos desnivelados, desgastes na estrutura das arquibancadas, além de bancos e equipamentos da academia enferrujados e quebrados. O espaçamento entre os postes de iluminação, assim como a tipologia das lâmpadas, foi considerado inadequado e, além disso, foi identificada falta de manutenção arbórea, ou seja, copas da vegetação nativa de grande porte afetando a permeabilidade visual e agravando a vulnerabilidade do local. Quanto à percepção ambiental, os altos muros das residências foram apontados como geradores da insegurança, constatação que, somada aos resultados anteriores, contribuem para a falta de uso da praça José Targino. Em relação à revitalização da mesma, foi proposto um parque linear no canteiro central, que constitui uma área com instalações espaçadas, de uso escasso e pontual. Jacobs (2000) defendeu em seu livro Morte e Vida das Grandes Cidades os parques, identificando suas características, seus pontos positivos e negativos, e como eles estão inseridos dentro do espaço. Os parques de bairro ou espaços similares são comumente considerados conferida a população carente das cidades. Vamos virar esse raciocínio do avesso e imaginar os parques urbanos como locais carentes e precisem da dádiva da vida e da aprovação conferida a eles. Isso está mais de acordo com a realidade, pois as pessoas dão utilidade aos parques e fazem deles um sucesso ou então não os usam e os condenam ao fracasso (JACOBS, Jane; 2000 p. 97). Por essa razão é tão importante avaliar a sensação que o local transmite, uma vez que se trata do fator que vai definir se o local terá um uso continuo ou se tornará mais um 118 PÁGINA demonstrativo de espaços com potencial inicial e abandono posterior, constituindo o que pode se chamar de baixa urbanidade, espaços de pouca hospitalidade e desequilíbrio entre o convívio social proposto e o atuante. Durante as pesquisas in loco, foi possível observar usuários apenas em determinados horários e em função de usos específicos, alguns exemplos são as aulas de judô no fim da tarde, assim como caminhadas e jogos de vôlei e futebol. Ao entender as dificuldades dos usuários do meio urbano, a proposta utilizou-se de quatro ferramentas, utilizadas por Azevedo; Alonso e Loch (2009) apud Maranhão e Martins (2018) sendo elas manter, introduzir, melhorar e erradicar, iniciativa que busca as melhores soluções para cada problemática encontrada. Na área de estudo encontram-se um posto policial, associação dos moradores e um restaurante popular, os quais optou-se por manter, com relocação para uma melhor localização de acordo com cada função e entrevistas realizadas. Os estacionamentos irregulares, iluminação na coloração amarela, árvores que atrapalham os fluxos das vias e bancos improvisados pela população são itens a serem erradicados. Figura 02 – Planta Baixa com divisão dos Setores, 2017. Fonte: Elaborado pelos autores. No que diz respeito às melhorias e adições, o projeto do parque linear foi setorizado em quatro trechos (Fig.02), com distribuição igualitária do mobiliário e equipamentos, com introdução de áreas de uso infantil, estacionamento adequado, novas paradas de ônibus e equipamentos de iluminação, anfiteatro, academia, mirante, quiosques, reordenação de trechos do trânsito, por meio de um retorno para os veículos, ciclovia ao redor do parque, proporcionando uma vivência diferenciada do trajeto e inserção de espelhos d’água e novas espécies adequadas ao clima local na composição das áreas verdes, com base no conceito de microclima diferenciado proposto por Mascaró (2009). PÁGINA 119 Figura 03 – Setor 1 Caminho e espelho d’água, 2018. Fonte: Elaborado pelos autores através do programa Sketchup. No primeiro setor há um caminho junto à espelhos d’água com inserção de paisagismo, destinado ao passeio contemplativo (fig. 03). Durante o percurso foi mantida a declividade natural do solo, sendo possível projetar um mirante no trecho mais rebaixado, composto por um deck de madeira sobre um talude. A solução permitiu manter a vegetação natural de área de preservação intacta, ainda que proporcionando a criação de um espaço funcional (fig. 04). 120 PÁGINA Figura 04 – Setor 1 Mirante, 2018. Fonte: Elaborado pelos autores através do programa Sketchup. Na divisa entre os setores 1 e 2, há um retorno para os veículos, desse modo os motoristas também apreciarão a área, reduzindo a velocidade, participando indiretamente das atividades do parque, ou seja, contemplando o mesmo, criando também movimento e interesse em estacionar e vivenciar o espaço. Ao longo do parque há a coexistência entre uma ciclovia e vias para caminhada, sem que um dos usos interfira negativamente no outro (Fig.05). Para assegurar os microclimas e criação de um percurso sensorial, árvores de médio e grande porte foram dispostas nos canteiros fornecendo sombreamento, assim como diversidade nas espécies de flores, que incluem azaleias, lavandas e lantanas, assegurando um jardim de cheiros e texturas. PÁGINA 121 Figura 05 – Faixa de caminhada e Ciclovia em vermelho, 2018. Fonte: Elaborado pelos autores através do programa Sketchup. No segundo setor foram distribuídas as atividades correspondentes à prática de atividades físicas, acolhendo uma série de atividades diversificadas, como academia ao ar livre, espaço para ioga, quiosques de alimentação (fig. 06), banheiros públicos e a renovação do prédio da associação de moradores. Figura 06–Setor 2 Quiosque, 2018. Fonte: Elaborado pelos autores através do programa Sketchup.(2018)