ANAIS DO V SEMINÁRIO DESAFIOS DO TRABALHO E EDUCAÇÃO: TRABALHO COM DIREITOS, EDUCAÇÃO PÚBLICA E MEIO AMBIENTE GT4 – Trabalho Docente, Ensino Superior e Licenciaturas 845 DIFUSÃO TERRITORIAL DE CURSOS A DISTÂNCIA NO BRASIL: O CASO DAS LICENCIATURAS EM GEOGRAFIA Henrique Caetano Vian1 Amanda Silva Almeida2 Resumo Este trabalho teve como objetivo analisarmos a difusão territorial dos cursos de educação a distância (EAD) no Brasil, com ênfase nas licenciaturas em Geografia. Metodologicamente, realizamos levantamentos bibliográficos e documentais, além de análises de dados secundários extraídos do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) e do Ministério da Educação (MEC). Verificamos que essa difusão é dominada por Instituições de Ensino Superior privadas, que operam sob uma lógica de maximização de lucros, concentrando-se nas regiões historicamente privilegiadas do país, embora também penetrem em áreas anteriormente excluídas do acesso ao ensino superior. Discutimos que, embora tenha promovido uma expansão quantitativa do acesso, a EAD é caracterizada por um processo crescente de precarização do trabalho docente e pela fragilização qualitativa dos cursos ofertados. Ademais, discutimos os desafios inerentes à produção do saber geográfico em licenciaturas a distância, que tendem a veicular um ensino padronizado, desvinculado das particularidades regionais e dos saberes locais que constituem a formação socioespacial brasileira. Palavras-chave: Ensino Superior. EAD. Saber geográfico. 1 Introdução A sucessão histórica dos dados do Censo da Educação Superior revela o crescimento acentuado da modalidade de educação a distância (EAD) no Brasil na última década. Desde 2015, ela cresce de forma acelerada em número de matrículas, cursos e vagas, enquanto a modalidade de educação presencial apresenta uma contínua retração (INEP, 2023). Outro dado marcante é o de que o setor privado figura como o principal responsável pelo inchaço da EAD no país, ao passo que o setor público apresenta uma pequena representatividade nesse segmento. Vimos defendendo que tal situação do ensino superior constitui, intrinsecamente, uma situação geográfica renovada para o fenômeno educativo no país (VIAN, 2022; 2024), ainda que não necessariamente mais equitativa. A expansão de cursos a distância no país não prescinde, portanto, de uma dimensão espacial. A difusão territorial da educação a distância inscreve novos horizontes de análise, atrelados não somente às formas, mas também aos conteúdos desse fenômeno. 1 Doutorando em Geografia, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP),
[email protected]. 2 Mestra em Geografia, Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL),
[email protected].
ANAIS DO V SEMINÁRIO DESAFIOS DO TRABALHO E EDUCAÇÃO: TRABALHO COM DIREITOS, EDUCAÇÃO PÚBLICA E MEIO AMBIENTE GT4 – Trabalho Docente, Ensino Superior e Licenciaturas 846 A sucessão histórica dos dados do Censo da Educação Superior revela o crescimento acentuado da modalidade de educação a distância (EAD) no Brasil na última década. Desde 2015, ela cresce de forma acelerada em número de matrículas, cursos e vagas, enquanto a modalidade de educação presencial apresenta uma contínua retração (INEP, 2023). Outro dado marcante é o de que o setor privado figura como o principal responsável pelo inchaço da EAD no país, ao passo que o setor público apresenta uma pequena representatividade nesse segmento. Vimos defendendo que tal situação do ensino superior constitui, intrinsecamente, uma situação geográfica renovada para o fenômeno educativo no país (VIAN, 2022; 2024), ainda que não necessariamente mais equitativa. A expansão de cursos a distância no país não prescinde, portanto, de uma dimensão espacial. A difusão territorial da educação a distância inscreve novos horizontes de análise, atrelados não somente às formas, mas também aos conteúdos desse fenômeno. Com o presente trabalho, objetivamos discutir a expansão e a difusão territorial de cursos a distância no Brasil, tomando como enfoque o caso das licenciaturas em Geografia. Temos, pois, a intenção de apresentar como esses cursos se materializam no território brasileiro, bem como de problematizar as implicações da formação docente em Geografia no cerne desse “paradigma reticular da educação” (VIAN, 2024, p. 162). Em termos operacionais, o trabalho foi realizado a partir de levantamentos bibliográficos e documentais, além da análise de dados secundários disponibilizados por fontes oficiais. O texto está organizado em três partes, para além desta introdução e das considerações finais. Na primeira, apresentamos um panorama geral acerca da modalidade EAD no país por meio de dados e informações disponibilizadas pelo Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) e pelo Ministério da Educação (MEC), assim como expomos dados relativos aos cursos de Geografia no país. Em seguida, apresentamos e discutimos a materialização dos cursos de licenciatura a distância em Geografia no território brasileiro, destacando padrões de concentração regional e estadual e tensionando a questão da democratização do acesso ao ensino superior por meio da modalidade EAD. Por fim, enfatizamos a importância da produção do saber geográfico (MESQUITA, 2023) nos diversos contextos regionais e locais do país – ação aparentemente suspensa por corporações de ensino que controlam a maior fatia da modalidade de educação a distância. Estas tem tratado a educação, essencialmente, como uma mercadoria digital (VIAN, 2022) padronizada, alheia às diversas situações geográficas (SILVEIRA, 1999) e seus respectivos saberes locais (SANTOS, 1999). 2 Panorama da educação a distância no Brasil Na década de 1990, em meio à propagação de uma agenda neoliberal aos sistemas educacionais de países periféricos (DALE, 2004), a educação a distância foi apologizada como uma
ANAIS DO V SEMINÁRIO DESAFIOS DO TRABALHO E EDUCAÇÃO: TRABALHO COM DIREITOS, EDUCAÇÃO PÚBLICA E MEIO AMBIENTE GT4 – Trabalho Docente, Ensino Superior e Licenciaturas 847 potencial política de democratização do acesso ao ensino superior a países cujos indicadores de escolaridade apresentavam defasagens (LIMA, 2006; SANTOS, 2008). Tal agenda, arquitetada por grandes organismos internacionais como Banco Mundial, Organização Mundial do Comércio e Unesco, também advogou pela abertura comercial do campo educacional (OLIVEIRA, 2009), convertendo-o em um “mercado mundial da educação” (RIBEIRO, 2006) e impulsionando a consolidação de um setor educacional “privadomercantil” (SGUISSARDI, 2008) no Brasil, intimamente associado ao mercado financeiro mundial (SEKI, 2020). Nas décadas que sucedem tais marcos, o Brasil experimentou o crescimento expressivo da modalidade de educação a distância e também de seu “setor educacional privado-mercantilfinanceirizado” (VIAN, 2024) de ensino superior, bem como testemunhou uma contínua imbricação entre ambas as coisas. Hoje, das 4,3 milhões de matrículas no ensino superior por meio da modalidade EAD, 4,1 milhões estão concentradas no setor privado, algo em torno de 96% do total. Tal setor é igualmente responsável pela maior parte das matrículas em licenciaturas a distância no país, totalizando quase 1,1 milhão (65% do total). Não raro, o setor privado também domina a oferta de cursos de formação docente em Geografia na modalidade EAD no Brasil, enquanto o setor público concentra-se nos cursos presenciais (INEP, 2023). Cursos presenciais, em geral, demandam investimentos maiores, os quais são, na maior parte das vezes, assumidos pelo setor público. O setor privado, por sua vez, tem focado em manter cursos presenciais em áreas com mensalidades mais elevadas, tais como Medicina e Direito, e deslocado cursos com menor retorno financeiro para a modalidade a distância, como as licenciaturas, haja vista que os custos de implementação digital são relativamente menores (MESQUITA, 2024). Desde 2012, muito em função da lógica mercantil de redução de custos de implementação de novos cursos, o país enfrenta a retração do número de cursos de graduação presencial e experiencia a expansão do número de cursos na modalidade a distância. A isso, soma-se o cenário pandêmico irrompido em 2020, o qual foi estrategicamente oportunizado por IES privadas para ampliar seus negócios a distância (MESQUITA, 2023; VIAN, 2024). Conforme sistematizou Girotto (2024), em 2012, o número de cursos de graduação presenciais era de 7.613, tendo este sido reduzido a 5.902 em 2022 (uma variação de -22%). No mesmo espaço de tempo, cursos de graduação EAD saltaram de 581 para 1.923 (uma variação positiva de 231%). É importante pontuar que, dentre os cursos presenciais extintos, encontravam-se cursos de IES públicas, as quais têm sofrido um significativo esvaziamento sob a expansão da EAD privada. Essa situação evidencia como a EAD tem se consolidado no Brasil como uma concorrente da modalidade presencial, em vez de uma forma complementar do sistema nacional de ensino
ANAIS DO V SEMINÁRIO DESAFIOS DO TRABALHO E EDUCAÇÃO: TRABALHO COM DIREITOS, EDUCAÇÃO PÚBLICA E MEIO AMBIENTE GT4 – Trabalho Docente, Ensino Superior e Licenciaturas 848 (MESQUITA, 2023). Enquanto os cursos presenciais são progressivamente encerrados e, consequentemente, vagas diminuem nessa modalidade, as vagas e a oferta de cursos de graduação a distância não param de crescer. Entre 2015 e 2022, o número de vagas nessa modalidade saltou de 2,8 milhões para 17,2 milhões, e o número de cursos EAD evoluiu de 1.473 para 9.186 (INEP, 2023). Em 2022, o número de ingressos em cursos de licenciatura foi de 789 mil, dos quais 639 mil (81% do total) foram por meio da modalidade EAD. No mesmo ano, havia um total de 1,67 milhão de matriculados em licenciaturas no país (INEP, 2023), dos quais 1,07 milhão (64% do total) era em cursos EAD. Dentre os principais cursos de formação docente em número de matrículas do país figuravam: Pedagogia (com mais de 820 mil matriculados), Educação Física (com mais de 115 mil matrículas), Matemática e História (ambas com cerca de 94 mil estudantes), Letras-Português (com 84 mil matriculados), Biologia (com mais de 76 mil) e Geografia (com cerca de 51 mil matriculados) (INEP, 2023). No que se refere especificamente aos cursos de licenciatura em Geografia no Brasil, é possível observar que hoje 54% (cerca de 27,5 mil) das matrículas se dão na modalidade presencial e 46% (cerca de 23,5 mil) se dão na modalidade a distância (INEP, 2023). Esta última, no entanto, representou 70% dos ingressos em cursos de formação docente em Geografia em 2022 – dado indicativo de uma possível superação do percentual de estudantes matriculados em cursos presenciais nos próximos anos. Assim, é possível afirmar que esse curso acompanha a tendência geral apontada pelo INEP, segundo a qual, nos próximos anos, o número de estudantes em cursos a distância deverá ultrapassar o de alunos em cursos presenciais. Em 2022, 65% dos ingressos em cursos de graduação no Brasil ocorreram na modalidade EAD (INEP, 2023). Conforme constatou Girotto (2024), licenciaturas em Geografia no Brasil são predominantemente ofertadas pelo setor público na modalidade presencial (mais de 160 cursos). Em segundo lugar, está o setor privado com a oferta de licenciaturas em Geografia a distância, com cerca de 70 cursos. Em novo levantamento, realizado por nós, foram identificados 99 cursos de licenciatura em Geografia a distância em atividade pelo setor privado, dos quais 58 pertenciam a IES privadas com fins lucrativos e 41 a IES privadas sem fins lucrativos. No setor público, por sua vez, foram identificados 22 cursos em atividade3. Haveria, portanto, um total de 121 cursos EAD de licenciatura em Geografia no país (Tabela 1).
ANAIS DO V SEMINÁRIO DESAFIOS DO TRABALHO E EDUCAÇÃO: TRABALHO COM DIREITOS, EDUCAÇÃO PÚBLICA E MEIO AMBIENTE GT4 – Trabalho Docente, Ensino Superior e Licenciaturas 849 Tabela 1: IES ofertantes de licenciaturas em Geografia a distância, por categoria administrativa – 2022. 3 Foram desconsiderados neste levantamento os cursos enquadrados como “Programa Especial de Formação Pedagógica de Docentes” da Universidade de Franca (UNIFRAN) e da Universidade Cruzeiro do Sul, cuja carga horária era de 1.000 horas/aula. Sob a mesma lógica, desconsideramos o curso de “Geografia – Programa Segunda Licenciatura” da Universidade de Taubaté. IES privadas com fins lucrativos Centro Universitário Anhanguera Pitágoras Ampli Centro Universitário Anhanguera Pitágoras Unopar de Campo Grande Centro Universitário Anhanguera Pitágoras Unopar de Niterói Centro Universitário Araguaia Centro Universitário Braz Cubas Centro Universitário Campo Limpo Paulista Centro Universitário Cidade Verde Centro Universitário da Serra Gaúcha Centro Universitário de Goiás Centro Universitário de João Pessoa Centro Universitário do Vale do Jaguaribe Centro Universitário Dom Pedro II Centro Universitário Estácio da Amazônia Centro Universitário Estácio de Brasília - Estácio Brasília Centro Universitário Estácio de Ribeirão Preto Centro Universitário Estácio de Santa Catarina Centro Universitário Etep Centro Universitário Facunicamps Centro Universitário Facvest Centro Universitário Fadergs Centro Universitário Fael Centro Universitário FAI Centro Universitário Faveni Centro Universitário Internacional Centro Universitário Itop Centro Universitário Jorge Amado Centro Universitário Leonardo da Vinci Centro Universitário Redentor Centro Universitário Sumaré Centro Universitário Una Centro Universitário Unibta Centro Universitário Unidom - Bosco Centro Universitário Unifacig Centro Universitário Unifatecie Centro Universitário Unirb Faculdade Censupeg Faculdade do Noroeste de Minas Faculdade Dom Alberto Faculdade Jardins Faculdade Metropolitana do Estado de São Paulo Faculdade Única de Ipatinga Faculdade Unida de São Paulo - EAD Instituto Superior de Educação Ateneu Universidade Anhanguera Universidade Anhembi Morumbi Universidade Cesumar Universidade Cidade de São Paulo Universidade Cruzeiro do Sul Universidade de Franca Universidade de Mogi das Cruzes Universidade Estácio de Sá Universidade Paulista Universidade Pitágoras Unopar Anhanguera Universidade Positivo Universidade Potiguar Universidade Salvador Universidade São Judas Tadeu Universidade Veiga de Almeida IES privadas sem fins lucrativos Abeu - Centro Universitário Centro Universitário Assis Gurgacz Centro Universitário Campos de Andrade Centro Universitário Celso Lisboa Centro Universitário da Grande Dourados Centro Universitário das Faculdades Integradas de Ourinhos Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas Centro Universitário de Araras - Centro Universitário de Barra Mansa Centro Universitário de Caratinga Centro Universitário de Caratinga Centro Universitário de Ensino, Ciência e Tecnologia do Paraná Centro Universitário de Jales Centro Universitário do Planalto de Araxá Centro Universitário Doctum de Teófilo Otoni Centro Universitário Gama e Souza
ANAIS DO V SEMINÁRIO DESAFIOS DO TRABALHO E EDUCAÇÃO: TRABALHO COM DIREITOS, EDUCAÇÃO PÚBLICA E MEIO AMBIENTE GT4 – Trabalho Docente, Ensino Superior e Licenciaturas 850 Fonte: Elaborado a partir dos microdados do INEP (2023). Perante os dados levantados, algumas observações se destacam: instituições privadas como Anhanguera e Estácio aparecem repetidamente, pois classificadas sob diferentes códigos de IES pelo Ministério da Educação. Além disso, muitas dessas IES são parte de grandes conglomerados educacionais, como Anhanguera (controlada pelo grupo Cogna Educação) e Estácio (controlada pelo grupo YDUQS). Outras instituições que integram grandes grupos incluem o Centro Universitário Braz Cubas, a Universidade Positivo e a Universidade da Cidade de São Paulo (controlados pelo grupo Cruzeiro do Sul), bem como a Universidade Anhembi Morumbi, o Centro Universitário Una e a Universidade São Judas Tadeu (controlados pelo grupo Ânima Educação). Há, assim, um cenário que nos sugere a oligopolização da educação superior a distância no país. Algumas questões permanecem em aberto para investigações futuras: o curso de licenciatura em Geografia a distância oferecido pela Universidade Anhembi Morumbi, por exemplo, difere daquele ofertado pela Universidade São Judas Tadeu, considerando que ambas pertencem ao mesmo grupo? Ou seriam esses cursos, na verdade, padronizados pela holding controladora – no caso, a Ânima Educação? As mesmas indagações se aplicariam às demais IES e seus cursos totalmente a distância. Os dados apresentados não explicitam a dimensão da distribuição territorial dos cursos e licenciatura em Geografia a distância. Enquanto cursos presenciais, por sua própria natureza, supõem a existência de infraestruturas físicas para sua realização, geralmente localizadas em uma ou algumas poucas cidades (na dinâmica de diferentes campi), cursos a distância podem ser realizados independentemente de infraestruturas físicas como universidades, centros universitários ou faculdades. Este é um dos motivos pelos quais, veremos, cursos de educação a distância assumem uma vasta capilaridade no território brasileiro. Centro Universitário Ítalo-Brasileiro Centro Universitário Projeção Centro Universitário Sagrado Coração Centro Universitário Santa Cruz de Curitiba Claretiano - Centro Universitário Faculdade Católica Paulista Faculdade de Educação São Luís Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ituverava Faculdade Virtual do Brasil Universidade Católica do Salvador Universidade da Região de Joinville Universidade de Araraquara Universidade de Caxias do Sul Universidade de Passo Fundo Universidade de Uberaba Universidade do Oeste Paulista Universidade do Sul de Santa Catarina Universidade do Vale do Itajaí Universidade José do Rosário Vellano Universidade Luterana do Brasil Universidade Metropolitana de Santos Universidade Presbiteriana Mackenzie Universidade Salgado de Oliveira Universidade Santa Cecília Universidade Santo Amaro IES públicas Universidade do Estado da Bahia Universidade do Estado de Mato Grosso Carlos Alberto Reyes Maldonado - Unemat Universidade do Estado do Rio de Janeiro Universidade Estadual da Paraíba Universidade Estadual de Montes Claros Universidade Estadual de Ponta Grossa Universidade Estadual do Ceará Fundação Universidade Federal do Pampa - Unipampa Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão Universidade de Brasília Universidade Federal de Alagoas Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Universidade Federal de Ouro Preto Universidade Federal de Pernambuco Universidade Federal de Roraima Universidade Federal de Santa Maria Universidade Federal de Sergipe Universidade Federal do Piauí Universidade Federal do Rio Grande do Norte Universidade Federal do Rio Grande do Sul Universidade de Taubaté
ANAIS DO V SEMINÁRIO DESAFIOS DO TRABALHO E EDUCAÇÃO: TRABALHO COM DIREITOS, EDUCAÇÃO PÚBLICA E MEIO AMBIENTE GT4 – Trabalho Docente, Ensino Superior e Licenciaturas 851 3 Distribuição territorial dos cursos de geografia a distância A difusão territorial da educação a distância manifesta-se de forma mais notável por meio dos denominados "polos de educação a distância", os quais passaram a ocupar estabelecimentos situados nas principais vias e avenidas das mais diversas cidades brasileiras, assim como também já se encontram em salas comerciais no interior de shopping centers4. Os polos de educação a distância (polos EAD) configuram-se como fixos geográficos de acesso esporádico, sendo utilizados por estudantes de cursos a distância em momentos programados, como avaliações bimestrais, além de servirem para atendimentos presenciais e sessões de tutoria. Diferentemente da modalidade presencial, que demanda a instalação de fixos geográficos de acesso contínuo (infraestruturas como salas de aula, laboratórios e bibliotecas físicas), a educação a distância está em grande parte assentada em fluxos informacionais e de capital que podem se estender a longas distâncias e múltiplos lugares, numa dinâmica reticular complexa que tende a escapar o domínio da visão. Daí o desafio de mapear a totalidade do fenômeno. O setor educacional privado-mercantil, dominante na oferta de educação a distância, tem privilegiado estratégias de contenção de custos com o intuito de preservar e ampliar suas margens de rentabilidade, ao mesmo tempo em que busca expandir sua presença territorial. Essa lógica de atuação explica a proliferação dos polos de EAD em múltiplas cidades, consolidando uma vasta capilaridade no território nacional. Em vez de expandir o acesso ao ensino superior por meio da criação de novas universidades ou campi, observa-se o aprofundamento de um modelo de "franquias" (SCUDELER; TASSONI, 2023). Nesse esquema, entidades jurídicas locais investem o próprio capital para a abertura de polos associados a IES privadas, recebendo em troca uma parte dos valores das mensalidades arrecadadas. Por sua vez, as IES evitam os custos de implantação de novas unidades próprias e obtêm uma porcentagem dos valores arrecadados pelos gestores dos polos modelo de "franquias" (SCUDELER; TASSONI, 2023). Nesse esquema, entidades jurídicas locais investem o próprio capital para a abertura de polos associados a IES privadas, recebendo em troca uma parte dos valores das mensalidades arrecadadas. Por sua vez, as IES evitam os custos de implantação de novas unidades próprias e obtêm uma porcentagem dos valores arrecadados pelos gestores dos polos. 4 Dentre numerosos casos, podemos citar a abertura de um polo da Universidade Santo Amaro (Unisa) no Parque Shopping Barueri. Disponível em: https://www.unisa.br/pioneira-no-ead-unisa-inaugura-unidade-no-parqueshopping-barueri/. Acesso em: 14 jul. 2024.
ANAIS DO V SEMINÁRIO DESAFIOS DO TRABALHO E EDUCAÇÃO: TRABALHO COM DIREITOS, EDUCAÇÃO PÚBLICA E MEIO AMBIENTE GT4 – Trabalho Docente, Ensino Superior e Licenciaturas 852 Por intermédio dos polos EAD, as instituições de ensino conseguem se estabelecer simultaneamente em centenas ou até milhares de municípios, ofertando uma grade curricular padronizada para seus respectivos cursos. Tal configuração justifica a elevada capilaridade territorial dos cursos de licenciatura em Geografia na modalidade a distância, muito superior aos 121 cursos em atividade na atualidade (Imagem 1). A título de exemplo, a Universidade Paulista (Unip) faz-se presente em 635 municípios brasileiros, nas 27 Unidades da Federação, com a oferta de licenciaturas em Geografia a distância (MEC, 2022). Imagem 1: Distribuição e caracterização dos cursos de graduação em Geografia – Brasil, 2022 (modalidade dos cursos e grau EAD) Fonte: MEC (2022). Elaboração: Amanda Almeida (2024). A Imagem 1 apresenta dois mapas que expõem a distribuição e caracterização dos cursos de graduação em Geografia no Brasil em 2022. No primeiro mapa, que distingue a educação presencial da educação a distância, nota-se a marcante capilaridade dos cursos a distância, especialmente em áreas onde o ensino presencial possui menor penetração – como nos estados do Acre, Roraima e Rondônia na região Norte. Tal expansão parece atender à demanda por educação superior em regiões historicamente menos favorecidas, muitas vezes distantes dos grandes centros urbanos. A maior densidade de cursos EAD em comparação com os presenciais sugere que, para além da localização geográfica, há uma demanda reprimida que encontra nos cursos a distância a única opção de acesso ao ensino superior. No segundo mapa, a comparação entre os graus bacharelado e licenciatura em EAD revela outra tendência importante: a esmagadora predominância de cursos de licenciatura em Geografia sobre os de bacharelado. Esse fenômeno pode ser interpretado como uma resposta direta às necessidades do
ANAIS DO V SEMINÁRIO DESAFIOS DO TRABALHO E EDUCAÇÃO: TRABALHO COM DIREITOS, EDUCAÇÃO PÚBLICA E MEIO AMBIENTE GT4 – Trabalho Docente, Ensino Superior e Licenciaturas 853 mercado de trabalho e à política educacional brasileira, que prioriza a formação de professores para atender às redes de ensino básico. Essa distribuição, contudo, não é homogênea. Sul e Sudeste – regiões que Santos e Silveira (2021 [2001]) definem como Região Concentrada – mostram maior concentração de cursos, em consonância com sua estrutura urbana mais densa, sua infraestrutura técnica e informacional robusta e sua base consumidora mais ampla. Tais características tornam essas áreas polos atrativos para a oferta da EAD privada. Por trás da narrativa de expansão da educação a distância empreendida por corporações de ensino, está o interesse essencialmente mercantil de alcançar o maior número possível de consumidores. Esse movimento resulta no esvaziamento do verdadeiro sentido da Educação, que, ao ser desviada de sua função social-emancipadora e transformada em um bem mercantilnegociável, perde sua essência e é transmutada em mera atividade instrucional. 4 A mercantilização da educação a distância versus a valorização do saber geográfico Ainda que majoritariamente ofertada por instituições públicas, a formação docente em Geografia no Brasil ganha hoje maior capilaridade territorial via modalidade EAD, a qual é predominantemente ofertada pelo sistema privado (VIAN, 2024). A expansão do acesso ao ensino superior por meio da EAD atingiu regiões antes marginalizadas, o que, à primeira vista, pode parecer um avanço expressivo no combate à defasagem educacional do país. No entanto, essa visão se revela limitada por focar apenas na superfície do fenômeno, negligenciando os aspectos mais ocultos dessa expansão territorial, que é predominantemente movida por interesses mercantis. No dizer de Girotto (2024, p. 25): [...] a lógica que conduz o processo de espacialização da EAD privada no Brasil é a mesma que sustenta a expansão do ensino presencial privado, ou seja, pautada menos no direito e na busca pela equidade de acesso e oportunidades e mais na lógica mercantil que rege os interesses dos grupos e conglomerados que tem dominado este setor no país. Considerando tal quadro, Araújo e Jezine (2021, p. 12) advogam que “a expansão da EaD deve ser analisada no contexto das crescentes contradições entre capital e trabalho”. Nesse cenário, os docentes são os mais afetados por essa rápida expansão, enfrentando a precarização das suas condições de trabalho e o aumento da exploração (SANTOS; PIOLLI, 2017; BELLINASO; NOVAES, 2018; MANCEBO, 2020). Esse processo gera um custo social significativo, que se reflete, inclusive, na qualidade do ensino ofertado. A qualidade do ensino, em particular, é outro aspecto que desafia a ideia de que a nova configuração territorial dos cursos de licenciatura em Geografia a distância promove a democratização