scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

LIVING WITH CHRONIC PAIN IN THE PERIPHERAL CONTEXT OF FORTALEZA: A PHENOMENOLOGICAL STUDY WITH WOMEN

SOARES, Marianna Facó; AUGUSTO, Kristopherson Lustosa; BLOC, Lucas Guimarães

Abstract

Chronic pain can be understood as a complex, multidimensional phenomenon involving biological, psychological, and social components. Among the most affected populations, women stand out, especially those living in contexts of social vulnerability, where access to care is limited and suffering tends to be rendered invisible. This study examines how the experience of chronic pain is lived by women residing in peripheral contexts, considering its meanings, relational impacts, and possibilities for care. The aim of the article was to understand the experience of chronic pain among women from the Caça e Pesca community in Fortaleza, using a critical phenomenological approach. This is a qualitative study grounded in the critical phenomenological method and supported by ethnographic procedures. Phenomenological interviews were conducted with eight women participating in a community project for chronic pain care, and fifteen field diaries produced in psychological listening groups were examined. The data were subjected to critical phenomenological analysis, guided by the understanding of meanings emerging from lived experience and its social, cultural, and affective dimensions. The results indicated that chronic pain is marked by feelings of anger, entrapment, and loneliness, affecting self-perception and interpersonal relationships. Religiosity appears as an element of support and comfort, while medical treatment was often characterized by neglect and the absence of adequate public policies. It is concluded that the experience of chronic pain for these women is simultaneously physical and existential, reflecting gender inequalities and disparities in access to care. The findings highlight the need for interdisciplinary policies that expand the recognition and acknowledgment of chronic pain as a public health issue.

Full text

www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 32 O Boletim de Conjuntura (BOCA) publica ensaios, artigos de revisão, artigos teóricos e empíricos, resenhas e vídeos relacionados às temáticas de políticas públicas. O periódico tem como escopo a publicação de trabalhos inéditos e originais, nacionais ou internacionais que versem sobre Políticas Públicas, resultantes de pesquisas científicas e reflexões teóricas e empíricas. Esta revista oferece acesso livre imediato ao seu conteúdo, seguindo o princípio de que disponibilizar gratuitamente o conhecimento científico ao público proporciona maior democratização mundial do conhecimento. BOLETIM DE CONJUNTURA BOCA Ano VII | Volume 24 | Nº 71 | Boa Vista | 2025 http://www.ioles.com.br/boca ISSN: 2675-1488 www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 33 VIVER COM DOR CRÔNICA NA PERIFERIA DE FORTALEZA: UM ESTUDO FENOMENOLÓGICO COM MULHERES Marianna Facó Soares 1 Kristopherson Lustosa Augusto 2 Lucas Guimarães Bloc3 Resumo A dor crônica pode ser compreendida um fenômeno complexo, de natureza multidimensional, que envolve componentes biológicos, psicológicos e sociais. Entre as populações mais afetadas, destacam-se as mulheres, especialmente aquelas que vivem em contextos de vulnerabilidade social, onde as condições de cuidado são restritas e o sofrimento tende a ser invisibilizado. Questiona-se nesse estudo como a experiência de dor crônica é vivida por mulheres residentes em contexto periférico, considerando seus significados, impactos relacionais e possibilidades de cuidado. O objetivo do artigo foi compreender a experiência de dor crônica vivida por mulheres da Comunidade do Caça e Pesca, em Fortaleza, a partir de uma abordagem fenomenológica crítica. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, fundamentada no método fenomenológico crítico, associada a procedimentos etnográficos. Foram realizadas entrevistas fenomenológicas com oito mulheres participantes de um projeto comunitário de cuidado em dor crônica e examinados quinze diários de campo produzidos em grupos de escuta psicológica. Os dados foram submetidos à análise fenomenológica crítica, orientada pela compreensão dos significados emergentes na experiência vivida e seus atravessamentos sociais, culturais e afetivos. Os resultados indicaram que a dor crônica é marcada por sentimentos de raiva, aprisionamento e solidão, afetando a percepção de si e as relações interpessoais. A religiosidade aparece como elemento de sustentação e de conforto, enquanto o tratamento médico foi frequentemente caracterizado pela negligência e pela ausência de políticas públicas adequadas. Conclui-se que a experiência de dor crônica, para essas mulheres, é simultaneamente física e existencial, refletindo desigualdades de gênero e de acesso ao cuidado. Os achados evidenciam a necessidade de políticas interdisciplinares que ampliem o reconhecimento e o acolhimento da dor crônica como fenômeno de saúde pública. Palavras-chave: Dor Crônica; Fenomenologia; Mulher; Periferia. Abstract Chronic pain can be understood as a complex, multidimensional phenomenon involving biological, psychological, and social components. Among the most affected populations, women stand out, especially those living in contexts of social vulnerability, where access to care is limited and suffering tends to be rendered invisible. This study examines how the experience of chronic pain is lived by women residing in peripheral contexts, considering its meanings, relational impacts, and possibilities for care. The aim of the article was to understand the experience of chronic pain among women from the Caça e Pesca community in Fortaleza, using a critical phenomenological approach. This is a qualitative study grounded in the critical phenomenological method and supported by ethnographic procedures. Phenomenological interviews were conducted with eight women participating in a community project for chronic pain care, and fifteen field diaries produced in psychological listening groups were examined. The data were subjected to critical phenomenological analysis, guided by the understanding of meanings emerging from lived experience and its social, cultural, and affective dimensions. The results indicated that chronic pain is marked by feelings of anger, entrapment, and loneliness, affecting self-perception and interpersonal relationships. Religiosity appears as an element of support and comfort, while medical treatment was often characterized by neglect and the absence of adequate public policies. It is concluded that the experience of chronic pain for these women is simultaneously physical and existential, reflecting gender inequalities and disparities in access to care. The findings highlight the need for interdisciplinary policies that expand the recognition and acknowledgment of chronic pain as a public health issue. Keywords: Chronic Pain; Peripheral Context; Phenomenology; Women. 1 Graduanda em Psicologia pela Universidade de Fortaleza (Unifor). E-mail: [email protected] 2 Professor da Universidade Federal do Ceará (UFC). Doutor em Ciências Médicas. E-mail: k[email protected] 3 Professor da Universidade de Fortaleza (Unifor). Doutor em Psicopatologia. E-mail: [email protected] www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 34 INTRODUÇÃO A dor crônica é um fenômeno complexo e multidimensional que desafia os limites da compreensão biomédica tradicional. Diferentemente da dor aguda, que se relaciona diretamente a um evento lesivo, a dor crônica persiste por mais de três meses e pode estar ligada a condições fisiopatológicas, abrangendo dimensões físicas, emocionais, sociais e existenciais. Essa persistência não se explica apenas por mecanismos fisiológicos, mas também por fatores psicológico e culturais que moldam o modo como os sujeitos percebem, expressam e enfrentam o sofrimento. O presente estudo tem como tema a experiência vivida da dor crônica em mulheres residentes na Comunidade do Caça e Pesca, na cidade de Fortaleza, estado do Ceará. Inseridas em um contexto de vulnerabilidade social, suas histórias revelam a sobreposição de papéis sociais e o acúmulo de responsabilidades domésticas e afetivas, fatores que agravam o sofrimento físico e ampliam a sensação de desamparo. A escolha desse campo empírico parte da compreensão de que a dor crônica, em tais condições, não é apenas um fenômeno médico, atravessando sua própria existência no mundo, o que implica em uma nova forma de experienciar seu tempo, seu contato com o outro e seu contato com o próprio corpo. A justificativa deste estudo fundamenta-se em duas dimensões principais. No plano científico, busca-se contribuir para o aprofundamento do debate nacional e internacional sobre a dor crônica, sob uma perspectiva fenomenológica crítica que articula corpo, subjetividade e contexto sociocultural. No plano social, o estudo se justifica pela urgência de dar visibilidade às experiências de sofrimento crônico em contextos periféricos, onde o acesso ao cuidado especializado é escasso e as políticas públicas se mostram insuficientes para atender às necessidades de saúde integral. O problema que orienta a pesquisa parte do questionamento de como a experiência de dor crônica é vivida por mulheres residentes em contexto periférico, considerando seus significados, impactos relacionais e possibilidades de cuidado. Essa questão orienta o olhar para o sentido que essas mulheres atribuem à dor, assim como de que forma essa dor atravessa sua experiência diária. A partir desse problema, o estudo tem como objetivo geral compreender a experiência vivida de dor crônica em mulheres residentes na Comunidade do Caça e Pesca, em Fortaleza (CE), à luz do método fenomenológico crítico. Os objetivos específicos consistem em: (i) identificar os sentidos e significados que compõem a experiência de dor; (ii) analisar as implicações da dor nos modos de relações; e (iii) discutir como as práticas de cuidado e as políticas públicas influenciam na experiência de dor crônica. Do ponto de vista metodológico, trata-se de uma pesquisa qualitativa de base fenomenológica crítica, centrada na compreensão do sentido da experiência vivida. A coleta de dados ocorreu entre www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 35 mulheres participantes do Projeto Pro-Sante, iniciativa comunitária de cuidado à dor crônica localizada na Praia do Futuro II. Foram realizadas entrevistas fenomenológicas com oito mulheres e analisados quinze diários de campo produzidos durante grupos de escuta psicológica. O procedimento de análise envolveu a descrição e interpretação compreensiva dos relatos, buscando evidenciar os sentidos que emergem na experiência da dor e suas articulações com o contexto social. A opção pelo método fenomenológico crítico fundamenta-se na possibilidade de compreender a dor não apenas como evento biológico, mas como expressão encarnada de sua experiência vivida. O texto organiza-se em quatro seções, além desta introdução. A segunda seção apresenta o referencial teórico-conceitual, que discute a dor crônica e a dor crônica em mulheres a partir do estado internacional da arte. A terceira seção descreve o percurso metodológico, detalhando as bases fenomenológicas críticas e os procedimentos de coleta e análise. A quarta seção expõe e interpreta os resultados, estruturados em eixos temáticos que expressam os significados centrais da experiência de dor — sentimentos de raiva, aprisionamento, religiosidade e negligência no cuidado. Por fim, a quinta seção reúne as considerações finais, destacando as implicações do estudo para a ampliação das políticas de saúde, o fortalecimento da escuta clínica e o reconhecimento social da dor crônica como fenômeno existencial e político. DOR CRÔNICA: FUNDAMENTOS E PERSPECTIVAS INTERNACIONAIS A compreensão contemporânea da dor crônica ultrapassa a visão de cunho simplesmente sintomatológico ou como um sinal fisiológico, passando a ser concebida como uma experiência complexa e multidimensional. Desde 2020, houve reformulação proposta pela International Association for the Study of Pain (IASP), a partir da qual a dor, em sua generalidade, passou a ser caracterizada como “uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada, ou semelhante àquela associada, a uma lesão tecidual real ou potencial” (RAJA et al. 2020, p.2). Esta nova perspectiva marca um olhar que envolve também aspectos culturais, sociais, afetivos, cognitivos e econômicos para a pessoa com dor. A categorização e a definição do conceito de dor são fundamentais para o enfrentamento dessa condição e para a elaboração de políticas públicas e estratégias de tratamento. Além disso, contribuem para assegurar ao paciente e aos profissionais uma abordagem de cuidado e manejo integrados (CLAUW et al., 2019). Inclusive, a revisão atual do conceito de dor incorpora diretrizes relacionadas ao manejo clínico, enfatizando a necessidade de que o relato doloroso seja respeitado. Além disso, passa-se a reconhecer que a expressão verbal nem sempre traduz de forma plena a experiência vivida, por se tratar www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 36 de um fenômeno pessoal e adaptativo, com potenciais repercussões na funcionalidade, no bem-estar social e na saúde psicológica dos indivíduos (RAJA et al., 2020; SANTANA et al., 2020; COHEN et al., 2021). Outro resultado decorrente dos esforços para a reformulação do conceito de dor, de modo a contemplar de forma mais abrangente a experiência dolorosa, foi a inclusão da categoria “dor crônica” na 11ª edição da Classificação Internacional de Doenças (CID-11) (RAJA et al., 2020). Barke et al. (2022) apontam a dificuldade de diagnóstico da dor crônica a partir da CID-10, uma vez que essa classificação não contemplava sua natureza multifatorial. Nessa perspectiva, o diagnóstico era frequentemente direcionado para causas exclusivamente teciduais e, na ausência de evidências orgânicas, era deslocado para o campo dos transtornos mentais. A CID-11 acrescenta a definição de dor crônica como aquela dor que “persiste ou é recorrente por mais de 3 meses”, de código MG30. Sendo esta uma dor persistente, autores como Kose et al. (2022) tratarão a dor crônica como um adoecimento “afetivo-motor” (p.57), por impactar diretamente na qualidade de vida, nos aspectos psicológicos e nas condições diárias. No caso da CID-11, ainda não há uma sistematização clara e detalhada acerca dos tipos e das possíveis etiologias da dor crônica. Em 2019, a IASP, por meio de um grupo de especialistas, propôs uma classificação e caracterização para o conceito, os fatores envolvidos e as diferentes manifestações da dor crônica (TREEDE et al., 2019). A classificação se divide em dores crônicas primárias, quando não relacionadas a condições fisiologicamente explicáveis, mas com sofrimento emocional e incapacidade funcional substancial, e dores crônicas secundárias, aquelas que podem inicialmente serem consideradas como sintomas de um adoecimento fisiológico primário, mas que pode persistir até mesmo após tratamento bem-sucedido (TREEDE et al., 2019; KOSE et al., 2022). Em trabalhos atuais, na perspectiva da psicopatologia fenomenológica, podemos observar a tentativa de compreender o fenômeno a partir da experiência vivida por pessoas com dores crônicas e que tais experiência estão sempre atravessadas pelo mundo em que vivem, ou seja, sua compreensão exige que sejam situadas na realidade sobre a qual são vividas (GRÜNY, 2009; SVENAEUS, 2015; MIGLIO; STANIER, 2022; STANIER; MIGLIO, 2021; JESUS, 2022; BÄCKRYD, 2023). Bäckryd (2023) destaca que a dor é uma sensação individual, porém, afetada pelo mundo, e que esta não deve ser compreendida como algo externo à pessoa. Sob esse olhar, a psicopatologia fenomenológica possibilita compreender a dor crônica a partir também dos seus impactos na vida cotidiana, nas relações, as alterações de tempo “antes da dor” e “depois da dor” (JESUS, 2022), a espacialidade vivida e os aspectos do tratamento e das relações terapêuticas. www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 37 DOR CRÔNICA EM MULHERES: DETERMINANTES BIOLÓGICOS, PSICOSSOCIAIS E CULTURAIS Considera-se que há uma prevalência da incidência de dor crônica em mulheres e idosos (PIERETTE et al., 2012; CASALE et al., 2021; AGUIAR et al., 2021; MULLACHERY et al., 2023). A relação entre gênero e dor crônica é complexa e deve ser observada e discutida com cuidado, pois diversos aspectos atravessam essa relação, como os contextos econômicos, sociais e biológicos (VIEIRA et al., 2012; GREENSPAN et al., 2007). Outro ponto ainda de relevância na literatura da dor crônica em mulheres são os aspectos psicológicos que estão associados, como depressão e ansiedade (MUCHOWSKI, 2025). LeResche (2011) expõe que a diferenciação da dor entre os sexos começa a aparecer desde a adolescência quando, devido a puberdade, as meninas começam a sentir dores que podem ser simultâneas e recorrentes. A pesquisa da autora vem também indicar como o tratamento acaba sendo diferenciado de acordo com o sexo. Contudo, as explicações biológicas acerca da puberdade, das alterações hormonais são insuficientes para compreender a complexidade dessa experiência. Rice et al. (2024) discutem que, com frequência, os estudos sobre dor crônica não contemplam de modo suficiente os determinantes socioeconômicos envolvidos, ainda que os próprios dados indiquem maior incidência desse sofrimento entre populações em situação de pobreza. Dessa forma, observa-se que a condição de ser mulher, associada à vivência em contextos de vulnerabilidade social, aumenta a suscetibilidade ao adoecimento. Também é possível identificar estudos que evidenciam o caráter de negligência e silenciamento da dor da mulher, o que, frequentemente, a conduz à vergonha e ao silenciamento de si (WERNER et al., 2004; RICE et al., 2024). Para além do sexo e das condições socioeconômicas, há ainda outro fator que intensifica esse estigma: a raça. Cousin et al. (2022) destacam que mulheres negras são, recorrentemente, tratadas como aquelas que são resilientes e conseguem suportar e superar suas dores físicas e psicológicas, o que resulta em uma intensificação do sofrimento. Um relatório norte-americano reuniu diversos profissionais da saúde, como médicos, psicólogos e enfermeiros, com o objetivo de elucidar questões relativas à dor crônica em mulheres, destacando pontos relevantes dessa especificidade e oferecendo diretrizes para o tratamento (HEALTHYWOMEN, 2020). Ela enfatiza a necessidade de considerar as implicações decorrentes da desconsideração do sexo nas práticas clínicas e indica que o problema não se restringe à ausência de tratamento, mas sim à falta de um cuidado adequado e especializado. www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 38 Políticas públicas têm avançado para a promoção de cuidado e construção de direitos para pessoas com dor crônica, mas é um contexto que ainda requer muito cuidado, estudo e compreensão dos fenômenos vivenciados, além da dificuldade de aspectos sociais, econômicos e raciais que atravessam essa experiência e as possibilidades de cuidado. Seu tratamento é, em sua maioria, multidisciplinar, envolvendo tratamentos médicos, medicamentosos, psicológicos, fisioterapêuticos e dentre outras necessidades particulares (KANEMATSU et al., 2022; OLIVEIRA et al., 2023). O referencial teórico aqui destacado sobre dor crônica em mulheres o evidencia como um fenômeno multifacetado, que conjuga desigualdade de gênero, vulnerabilidade social e fatores biológicos e subjetivos. Essa multiplicidade exige abordagens interdisciplinares e políticas de saúde sensíveis ao gênero, capazes de reconhecer o sofrimento feminino em sua singularidade e historicidade. MÉTODO Desenho do Estudo Trata-se de um estudo qualitativo (SILVA et., 2025), de cunho fenomenológico (TROCCOLI, 2025), com a utilização de entrevistas fenomenológicas e diários de campo produzidos a partir das experiências da autora principal e facilitadora dos Grupos de Escuta. Os diários de campo foram produzidos a partir da experiência de facilitação e também sob uma perspectiva de pesquisa etnográfica. Mattos (2011, p. 54) aponta que “a etnografia é a escrita do visível” e partimos dessa concepção para pensar o diálogo do campo com os pesquisadores. A etnografia não é uma simples descrição do que se vê, mas uma descrição do visível a partir de uma qualidade de observação, da sensibilidade de quem observa e do conhecimento acerca do campo estudado (MATTOS, 2011). É o caráter mundano e de entrelaçamento entre aquilo que é visível do campo e o invisível da experiência do observador que permite à etnografia ser agregada a outros métodos. Logo, usaremos a etnografia em interlocução ao método fenomenológico crítico (MOREIRA, 2004; MELO et al. 2018), objetivando o enriquecimento da compreensão dos modos de experiência e buscando uma metodologia não apenas de exposição de fatos, mas de abertura de novas possibilidades. Pretto (2022), ao pensar o diálogo entre métodos fenomenológicos e a etnografia, aponta a importância do olhar não só para as dinâmicas e modos de funcionamento, mas também para as experiências e significações a partir delas. Para Pretto (2022), toda informação é relevante no contexto da pesquisa e a diversidade de cenários possíveis de atuação e pesquisa permite a abundância de métodos. Høffding et al. (2022) apontam como métodos etnográficos são importantes para contemplar o meio onde os dados são coletados. www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 39 Trazemos neste artigo uma lente mundana que busca entender os múltiplos contornos (sociais, culturais, biológicos, políticos, entre outros) que marcam a experiência de mulheres com dor crônica (MOREIRA; BLOC, 2021). Buscamos situar essa experiência no contexto sobre o qual ele é vivido e no corpo que é sede dessa experiência. (MERLEAU-PONTY 1945/2018, p. 268). Assim, este artigo tem como objetivo compreender a experiência de dor crônica vivida por mulheres da Comunidade do Caça e Pesca em Fortaleza, tendo em vista que são vivências atravessadas por seu corpo, pelo mundo vivido, pela sua cultura e pelo outro. Participantes e Local da Pesquisa Os pesquisadores estavam inseridos no Projeto de Prevenção de Dano Articular e Controle da Dor Crônica (Pro-Sante), projeto de extensão desenvolvido pelo curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará e com a colaboração de pesquisadores do Laboratório de Psicopatologia e Clínica HumanistaFenomenológica - APHETO, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade de Fortaleza. Este projeto tem como finalidade a promoção e prevenção ao dano articular, controle de dor crônica e osteoporose. Está situado na Comunidade do Caça e Pesca, em Fortaleza, Ceará. A comunidade está localizada na faixa litorânea da cidade de Fortaleza, localizada no bairro Praia do Futuro II, que contém não apenas a Comunidade do Caça e Pesca, mas também as comunidades 31 de Março, Embratel, Favela dos Cocos (Figura 1). O Projeto atende, então, não exclusivamente as pessoas da Comunidade em que está inserido fisicamente, mas todas as Comunidades do entorno, as do bairro Praia do Futuro II como algumas pessoas da Comunidade Luxou, do bairro vizinho, Praia do Futuro I onde também se localiza a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) que atende a região. Segundo Censo de 2010 a população local dos dois bairros somava em 18.587 pessoas, ainda sem informações confirmadas do Censo de 2022, a estimativa é que se teriam em 2022 o total de 16.718 pessoas devido a uma queda de crescimento populacional no bairro Praia do Futuro I. O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), de ambos os bairros é considerado muito baixo, com renda média mensal de 1,7 salários mínimos. Os bairros também são hoje locais faccionados, havendo muitas vezes confrontos entre grupos rivais e que acabam envolvendo a população em situações de violência e vulnerabilidade ainda maior. www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 40 Figura 1 - Mapa georreferenciado do local de pesquisa, mostrando a localização do Projeto Pro-Sante e os limites aproximados dos bairros Praia do Futuro I (em vermelho) e Praia do Futuro II (em amarelo), em Fortaleza (CE) Fonte: Elaboração própria. Adaptada de Google Earth (2025). O Projeto, então, busca acolher a esse grupo de pessoas que vivem com dores crônicas e estão inseridas neste contexto. Com o caráter multidisciplinar e voluntário, estão presentes no projeto profissionais da reumatologia, psicologia, endocrinologia e geriatria. Como prática na espera do atendimento médico, grupos de escuta psicológica (BLOC et al., 2022), são realizados, tendo em média de 12 a 15 pacientes, na sua maioria mulheres acima de 50 anos. Os grupos se voltam para o convite à descrição da experiência de dor crônica pelos pacientes, a partir de uma pergunta disparadora: “Como é viver com dor crônica?”. Para a participação no estudo, foram adotados os seguintes critérios de inclusão: ser do gênero feminino, estar há no mínimo três meses do Projeto Pro-Sante e ter idade a partir de 18 anos. A escolha pelo gênero deu-se pela maior incidência de dor crônica em mulheres, que se manifestou também na amostra participante do local de pesquisa. Foram excluídas da pesquisa as mulheres que tinham algum diagnóstico psiquiátrico grave (como esquizofrenia, transtorno bipolar, etc.) e/ou estivessem em situação de crise psicológica, assim como aquelas que, mesmo em atendimento médico pelo projeto, não participaram dos grupos de escuta. Oito mulheres foram entrevistadas e optamos por utilizar nomes fictícios (Virgínia, Elvira, Hilda, Zélia, Cora, Clarice, Sylvia e Lygia) para que fossem preservadas suas identidades. As pacientes participantes tinham entre 63 e 75 anos e tinham diagnósticos diversos de dor crônica (Quadro 1). Todas www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 47 mobiliza é impedida pela dor, que diante da impossibilidade do fazer, trabalhar, cuidar, sentem-se inúteis e perdem, por vezes, o sentido da vida. Zélia e Cora falam sobre como era a vida antes e a partir das dores, em seus papéis de mulheres, esposas, mães e avós é a mulher que tinha que fazer, aí quer dizer que aquele, aquele peso todo era pra mulher, era filho, ia buscar filho no colégio, ia deixar, levava para o médico, ia assistir reunião do colégio, o marido não ia não, tava trabalhando, quando chegava tava cansado, quer dizer, que a gente, que a mulher não cansava, né? (Cora) tinha que fazer as coisas, almoço, é arrumar a casa, lavar roupa, tudo, tudo e ainda trabalho na casa do meu irmão (Zélia) em termos de relação, né, eu sempre chateada, sempre com dor, sempre incomodada, ali ele ficava triste, ficava chateado e vinha na minha cabeça, ‘mas é também muito chato, a gente ficar com, com uma parceira da pessoa se a gente não tá preparada, não tá bem’, é bom quando a gente tá bem, né? (Sylvia) A dor, então, não é apenas um constructo neurofisiológico, ela é da experiência pessoal, social, política, contextual e tudo isso afeta a própria dor e a forma de vivenciá-la (MIGLIO; STANIER, 2022). Na fala de Cora vemos como a dor também é histórica e atravessada por silenciamentos. Em Zélia observamos o entrelaçar socioeconômico de mulheres que precisam trabalhar, cuidar da casa e cuidar do outro, pois as condições de possibilidade estão reduzidas, assim como as redes de apoio. Por fim, Sylvia aborda sobre uma dor que afeta e é afetada pela relação e não-relação matrimonial. Rice et al. (2024) indica a importância das relações diante o ser-mulher com dor crônica, pois neste caso a dor é entrelaçada as responsabilidades, preocupações e culpa para com os outros. A experiência de dor na relação com o outro é, então, ambígua ao mesmo tempo em que há angústia diante de certa dependência, há também uma presença que parece, na experiência das pacientes, contribuir para o alívio dessa dor. Cora aponta que, por vezes, uma simples conversa alivia suas dores conversando comigo, às vezes eu tô assim tão cheia de dor, quando dá fé passa, elas pergunta ou pergunta o outro, senta mais eu, ai uma diz que vai fazer massagem em mim, pega aqui de brincadeirinha (...) eu acho tão bom, sinto mais nada, de jeito nenhum Virgínia diz que o outro ajuda a não pensar na dor, a distrair se você não tiver um, um conjunto de gente que lhe bote pra cima, que ajude você a diminuir a dor, que ajude você não pensar na dor naquele momento, isso é muito bom, a solidão é um negócio que não é bom pra ninguém Miglio e Stanier (2022) apontam que aspectos como isolamento, solidão e ruminação têm sido www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 48 associados a fatores que podem intensificar a dor, aumentando o sentimento de desamparo. Porém, esse amparo e cuidado do outro, que aponta outro olhar além da dor, aparece também além dos seres humanos. Os animais e as plantas também são reconhecidas como um caminho de saída da solidão. Durante um grupo, quando algumas pacientes falavam sobre o cuidado com as suas plantas, como elas pareciam até mesmo escutá-las, Virgínia fala: “resolvi criar uns cachorros, os meus gatinhos, eu chego em casa e aquela alegria, posso ta com a dor que eu tiver, ai eu me deito, eles vêm, pula em cima de mim, ai eu digo ‘ai meu Deus do céu, só vocês mesmo”. Mesmo diante daquilo que para o humano seria inutilidade, encontram nesse outro ser vivo uma nova forma de utilidade. Byung-Chul Han (2021) ressalta o quanto a dor reflete as rejeições socioeconômicas que vão inscrevendo-se tanto no psíquico como também no corpo. Para o autor, as rejeições, distorções e conjunturas sociais fortalecem as dores, onde a invalidação, os acontecimentos do dia a dia, aparecem no corpo enquanto dor. Sylvia relembra o tempo em que cuidava da mãe doente, relata que pedia a Deus - “oh, meu Deus, tomara que a dor da minha mãe passe pra mim” - e relata ainda que “aí na minha imaginação, eu estava passando, vivendo o que ela viveu”. Na dor, o ser parece gritar sua existência no mundo, demonstrando a facticidade desse estar no mundo. Elvira menciona que passou muitos anos trabalhando mesmo com dor, “eu precisava trabalhar, né, tomava remédio”. Para Virgínia, o mesmo acontece “eu tenho que ficar deitada, mas eu preciso trabalhar, eu chego lá me acabando de dor” A dor, nessas mulheres, aponta para a ambiguidade do precisar do outro e também precisar de si mesma, aceitar a dor e, ao mesmo tempo, lutar contra ela. A experiência de dor dessas mulheres é solitária e intensa, mas se dá situada no mundo, diante das suas lutas que vão para além da própria dor. A luta também é com e pelo outro. “Eu não tô sozinha, tô com Deus”: o atravessamento da espiritualidade na experiência de dor Nesta terceira categoria podemos observar que a relação das pacientes com a figura divina se mostra essencial na forma de compreensão da doença e de suas próprias dores. Virgínia afirma: “como diz: Deus dá o frio, dá o cobertor conforme o frio, foi o que Ele me deu”. Nos relatos das pacientes, Deus surge como aquele que as conhece e conhece também seus limites. Elvira coloca o sentido na vontade de Deus, não só da sua vida e dores, mas também como justificativa dos acontecimentos inexplicáveis: “eu não choro não, porque eu acho que quando é aquela morte que Deus, ‘chegou a hora de ir’... ele foi cedo, foi, com 64 anos, mas fazer o que, né? nada, só tem que agradecer a Deus”. www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 49 A figura de Deus aparece, muitas vezes, como suporte e força para o enfrentamento da dor e das situações difíceis, significando uma abertura maior para mudanças, sejam elas boas ou ruins (ALVES et al. 2022). O modo descrito pelas pacientes nos remete àquilo descrito por Saint Aubert (2023) como sustentação na busca por proteção daquilo que é destrutivo na indeterminação e também por uma libertação das determinações que sufocam. Neste sentido, a relação das pacientes com Deus contribui para suportar a indeterminação do futuro incerto de dor e de suas realidades difíceis. Elvira aponta que Deus é o que resta diante das possibilidades, “pedir a Deus pra tirar as dor, porque é a única coisa”. Ele surge como possível como a única saída para tentar aguentar a dor. A dor crônica e a espiritualidade, traduzida aqui em uma religião e em um Deus, se entrelaçam trazendo a elas uma lente para enxergar os significados dessa existência (SILVA; MOURA, 2023). A espiritualidade aparece como importante no manejo de pessoas com dor, tornando-se ferramenta de auxílio, sustentação e prática que elas diziam usar para “parar de pensar na dor”. Essa relação criada entre a pessoa com dor e Deus, favorece a abertura de possibilidades e a esperança, através da fé pela cura como também das oportunidades de socialização, de movimento e de apoio as quais a espiritualidade convoca (SANTOS; CASTRO, 2019; GOMES et al. 2019; ALVES et al. 2022). As pacientes se mostram integrantes nessa relação, seja pedindo, seja agradecendo. Como aborda Cora, “agradeço a Deus, todo dia, toda hora”, nos grupos, algumas pacientes corroboraram e ainda afirmaram a necessidade de agradecer a Deus mesmo na dor, uma das pacientes afirmou: “a gente segura na mão de Deus e confia”, no grupo uma das pacientes afirmava que sua maior gratidão se dá em ir a igreja, e seu maior desejo é o de poder voltar a ajoelhar-se. É importante observar que há, mesmo diante da dor e das dificuldades, a atitude da própria paciente de ir ao encontro da “mão de Deus”. Saint Aubert (2017, p. 367) afirma que “a sustentação não se realiza em uma pura passividade, ela implica o despertar ou o acordar de nosso próprio dinamismo” e é nessa não-passividade que a sustentação em Deus se firma. Mesmo diante dos aspectos positivos da relação com Deus, a culpa e a sensação de não reciprocidade aparecem. Não apenas pontos positivos aparecem nessa relação entre paciente com dor e a espiritualidade, mas o questionamento e dúvida aparecem (GOMES et al. 2019), uma ambiguidade aparece nessa relação que, por mais potencialmente positiva que pareça, acaba trazendo consigo um certo sofrimento e dor existencial. Hilda e Sylvia afirmam que chegaram a duvidar e questionar Deus, sentindose abandonadas, até mesmo, por ele. Hilda relata: “cheguei bem aqui em frente, antes de chegar no posto, eu, ‘Senhor, o Senhor se esqueceu de mim, tanto que eu te amo, ainda vem, né? Senhor, eu confio tanto em ti, tu esqueceu de mim?’ eu disse, eu depois me arrependi tanto que eu disse isso”. Já Sylvia fala que durante os momentos de dor chegava a falar mal de Deus e questionar a Deus, www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 50 eu ficava revoltada e dizia essas coisas, mas depois eu mesma com o conhecimento que eu tenho na palavra de Deus, que acompanho com o grupo de oração e tudo, aí eu pedia perdão depois, pedia, ‘Senhor, existe tantas pessoas internadas’ (...) eu começava a pedir perdão a Deus por isso, tá entendendo? Saint Aubert (2017) traz que a relação de sustentação, apesar de fundamental, é frágil. Essa relação de sustentação das pacientes com Deus, apesar de fundamental, parece, em alguns momentos, oscilar, o que abre margem para a desconfiança, mas não para o abandono da relação espiritual. Há, em alguns momentos, a dúvida e o questionamento sobre esse Deus e sobre sua ajuda, mas que Clarice relata que, ao relembrar o que passou, há algo que a sustentou: “a gente passa por tanta coisa na vida da gente, que só Deus mesmo, depois a gente vai pensar, né, que a gente passou”. Para Cora, e para muitas delas, Deus é sua sustentação e sua força, a razão não só de conseguir levantar-se, mas também de não cair, “e eu não caio por pouca coisa não, caio não, porque eu digo ‘meu Deus vai me dar força e coragem, eu vou me levantar, eu não vou fraquejar que Deus ainda me dá força, eu vou me levantar e agora’ e me levanto mesmo”. “Eu tenho minha vidinha assim, eu não tinha”: o tratamento (in)adequado à dor crônica Na quarta categoria podemos notar que um dos fatores que atravessam a experiência de dor das pacientes é o tratamento, ou mesmo, a sua falta de modo adequado. Devido à realidade socioeconômica, elas dependem da rede pública de saúde e de atenção primária que ainda possui falhas, apesar da luta por garantias, principalmente, através de leis que garantem o atendimento e o cuidado. Durante muitos grupos se multiplicam falas sobre a displicência por parte dos órgãos de saúde pública e seus profissionais, como na fala de Clarice: eu fui no UPA, mas aí lá no UPA eles também não aceitaram né? (...) eles passa um remédio assim, paracetamol, é, é, dipirona, essas coisas assim, aí, mas eles não passava dor não Em um dos grupos uma paciente questiona a medicação orientada e diz: “se for pra tomar dipirona, eu tomo em casa”. Porém, é importante frisar que essa não é apenas uma questão que diz somente do cuidado individual de cada profissional da saúde que as atendeu, mas também sobre a falta de políticas públicas em saúde, a falta de promoção à saúde especializada em dor. Kanematsu et al. (2022) apontam que há nos índices uma maior prevalência de pacientes com dores crônicas que procuram por atendimento tanto na atenção primária, quanto no atendimento de urgência, ocasionando o maior uso de medicamentos, principalmente analgésicos. www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 51 Clarice justifica a procura a Unidade de Pronto Atendimento, mesmo diante da falta de cuidado médico, a partir da necessidade de analgesia que funcionasse de mais imediato você espera muito, muito, muito que… os atendimentos no UPA só Jesus na causa, aí quando você chega lá no médico, você se vendo de dor, o médico vem passar dipirona, mas assim eles passam muito na veia, né? é, é, é bom, passa logo, ali, naquele momento, mas quando dá 24h volta tudo de novo Diante das poucas possibilidades de alívio da dor, essa ainda é uma das que resta a elas. Porém, as pacientes apontam que a recorrência da falta de cuidado e da negligência sofrida, causava um sofrimento a mais. Virgínia aponta que os médicos sequer investigaram sua condição: “mas nunca me pediram exame de sangue, não me pediram nada”. Sylvia fala que “ia revoltando, você vai no médico e, e não tem solução nenhuma e não sei o que” e relata ainda sobre erros do tratamento que foram questionados por outros profissionais mais especializados: “ela me informou assim, ‘quando a pessoa está com crise de dor assim, a pessoa não passa esse tipo de remédio, passa esse, mas eu não questionar seu médico'”. Essa não é uma realidade apenas brasileira, podemos observar em estudos como Rice et al. (2024) onde os relatos de negligência, invalidação e falta de cuidado e atenção acontecem. Os autores apontam que vários são os motivos que envolvem esses acontecimentos, desde a falta de referências fisiopatológicas de alguns tipos de dores, a vulnerabilidade social e o gênero. É importante frisar que a negligência, a falta de tratamento à pacientes com dores crônicas significa, a partir desta Declaração de Montreal (2010), pode ser considerado um ato análogo à tortura. Lisboa et al. (2016) apontam ser a Declaração de Montreal o único documento que traz o tratamento da dor como uma questão de saúde pública. Mesmo que o Brasil participe da Declaração de Montreal, o estudo de Prudente et al. (2020) aponta a falta de conhecimento e manejo na atenção primária na relação com pacientes com dores crônicas. É no cuidado especializado e individualizado que as pacientes percebem a melhora e mudança. Virgínia diz que “graças ao doutor, eu sei o que é que eu tenho, eu sei que se eu não tiver aqueles remédio, a inflamação vai acumulando cada vez mais”, Elvira também aponta a mudança do seu estado de dor após os atendimentos no projeto “depois que eu vim pra ele, aí eu, eu senti que eu, que eu podia usar o sutiã, que não estava mais com aquela [dor]”. Durante alguns grupos, diante a chegada do médico responsável, há falas de algumas pacientes com expressões como “meu anjo”, “ele é tudo pra mim”, as pacientes falam também nos grupos da importância de que aquele médico ouve suas dores, passa exames, remédios e sandálias. Jesus (2022) aborda que é a relação doente-cuidador uma das únicas possibilidades de relação interpessoal nos www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 52 indivíduos com dores crônicas. O autor assinala que na proximidade e acessibilidade de encontrar os sintomas e a doença, a relação não se perca. É necessário salientar que essa relação se constrói desde o sentido e objetivo de criação do projeto, o que a torna de mútua constituição. Há na elaboração do projeto um cuidado e atenção singularizado para aquele público e para aquelas pacientes, compreendendo-as não apenas biologicamente como pessoas com dor crônica, mas como mulheres, mães, olhando para sua história e suas condições atuais. Essa singularização aparece na busca por um cuidado mais abrangente, não apenas médico, mas também psicológico, fisioterapêutico, entre outros. A importância da relação e do cuidado da equipe para com as pacientes se mostra quando elas expressam que a existência dos atendimentos do grupo é de extrema importância, ter quem as olhe no olho, as escute e as acolha. Porém, ainda que diante todo o cuidado e melhora, mesmo aquelas que estão a dois anos no projeto, como Virgínia, Sylvia e Elvira, não tem uma remissão completa de suas dores. eu já subo uma escada, nem que eu demore pra descer, mas eu subo, né? posso lavar minhas roupa, porque antes eu não lavava esfregando a mão, e dói, não vou dizer que não dói, não. (Virgínia) se eu chegar e for varrer a casa, passar pano, de noite, eu não vou dormir porque é uma coisa que mesmo tomando remédio (Elvira) eu caminho agora, eu caminho normal, tem dias que eu tô mais ou menos, sinto mais dor mas eu melhorei bastante (Zélia) o que eu já passei e o que eu tô vivendo hoje, eu percebo assim, uma diferença muito, muito grande. (Sylvia) Entretanto, é possível perceber que a melhora já é para elas uma vitória. Sylvia diz ainda que “eu posso dizer que eu tô curada, eu posso dizer assim de 10, eu vou botar 9, certo? e me levantou mais a auto estima, assim, por exemplo, eu já to me entrosando mais assim com as pessoas”. Não é a remissão da dor, a cura, mas a expansão das condições de possibilidade, de estar com o outro, de poder voltar a fazer suas atividades. Grüny (2009) assinala que não é a impotente tentativa de fugir da dor apenas uma reação, mas que esta faz parte dela e o fato de não conseguir fugir dela é o que a torna tão perturbadora. Porém, o que as pacientes trazem é também uma conversão dessa experiência que, diante da melhora (e não sem ela), há uma abertura novamente ao mundo e seu contato com o outro é novamente possível (MIGLIO; STANIER, 2022). Um tratamento digno, observando as particularidades de cada uma, cuidadoso, técnico e acolhedor, gera abertura às condições de possibilidade, à vida e ao mundo. Sylvia termina dizendo que “a gente passa por esses tropeços todos, mas depois a gente vence”, é uma fala de esperança e fé de que mesmo com a www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 53 dor há possibilidades. Viver com dor não pode resumir apenas a dor, mas deve também incluir, de modo significativo, viver. CONCLUSÃO A experiência de dor crônica vivida por mulheres na Comunidade do Caça e Pesca revela um fenômeno complexo, atravessado por dimensões biológicas, sociais, culturais, políticas e existenciais. A partir das categorias podemos observar que a dor, para além de um evento fisiológico, se constitui como uma experiência encarnada que reorganiza o modo de ser-no-mundo dessas mulheres, afetando suas relações e sua percepção de si. A primeira categoria demonstrou como a dor se coloca, muitas vezes, em uma forma de vida alienada, centrada no próprio corpo e na própria dor. A segunda categoria abordou como a relação com o outro é afetada pela vivência de alienação na dor, pela falta de compreensão e pelo contexto próprio de cada mulher, especialmente em seus papéis de gestora e dona de casa. Esses elementos evidenciam sentimentos de solidão e afastamento. A terceira categoria enfatizou a centralidade do contexto religioso para essas mulheres. A religiosidade aparece, por um lado, como sustentação, forma de compreensão da experiência e espaço de acolhimento; por outro, pode também emergir marcada por sentimentos de abandono, dúvidas e questionamentos sobre o sentido e a necessidade do sofrimento. Por fim, destacou-se a presença e ausência do cuidado institucional, das políticas públicas e do cuidado em saúde, a negligência vivida e o acolhimento e cuidado a partir da vivência do projeto. Ao articular os resultados empíricos com o debate teórico internacional, é possível observar que as experiências relatadas pelas participantes dialogam com perspectivas fenomenológicas contemporâneas (GRÜNY, 2009; SVENAEUS, 2015; MIGLIO; STANIER, 2022; BÄCKRYD, 2023), que compreendem a dor crônica como uma forma de alienação corporal e de descontinuidade temporal. Do mesmo modo, os achados empíricos aproximam-se das análises de Rice et al. (2024) e Werner et al. (2004) quanto à interseccionalidade entre gênero, vulnerabilidade social e invisibilidade do sofrimento feminino, reforçando a necessidade de uma abordagem crítica e situada do adoecimento. Dessa triangulação entre dados empíricos, teoria fenomenológica e contexto sociocultural, propõese uma ampliação metodológica: compreender a dor crônica como experiência intersubjetiva, histórica e política. Porém, surgem como limitações o fato de que a partir da experiência dessas mulheres, não esgotamos a compreensão de todas, podendo divergir pela sua cultura, condição socioeconômica, raça e idade. www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 54 Conclui-se, portanto, que a dor crônica vivida por mulheres em contextos periféricos é multidimensional, demandando políticas públicas interdisciplinares que reconheçam o sofrimento como questão de saúde e de justiça social. A continuidade de pesquisas com base nessa triangulação teóricometodológica — articulando fenomenologia crítica, estudos de gênero e etnografia do cuidado — constitui um avanço necessário para o aprofundamento do debate científico e para o fortalecimento das práticas clínicas e comunitárias no campo da saúde. REFERÊNCIAS AGUIAR, D. P. et al. “Prevalence of chronic pain in Brazil: systematic review”. Brazilian Journal Of Pain, vol. 4, n. 3, 2021. ALVES, M. E. S. et al. “Spirituality and religiosity in hospitalized patients with chronic pain”. Research, Society and Development, vol. 11, n. 13, 2022. BÄCKRYD, E. “Dor crônica e tempo – uma análise teórica”. Journal of Pain Research, vol. 16, 2023. BARKE, A. et al. “Classification of chronic pain for the International Classification of Diseases (ICD11): results of the 2017 international World Health Organization field testing: Results of the 2017 international World Health Organization field testing”. Pain, vol. 163, n. 2, 2022. BLOC, L. et al. Virtual clinical listening groups for psychological intervention with university students in the COVID-19 pandemic. Frontiers in Psychiatry, vol. 13, 2022. BRASIL. Censo Demográfico 2010: resultados gerais da amostra. Rio de Janeiro: IBGE, 2011. Disponível em: <www.ibge.gov.br>. Acesso em: 06/08/2025. CARDOZO, R. M. et al. “Noção de corpo sob a ótica dos fisioterapeutas: uma pesquisa fenomenológica crítica”. Saúde e Sociedade, vol. 31, 2022. CASALE, R. et al. “Pain in Women: A Perspective Review on a Relevant Clinical Issue that Deserves Prioritization”. Pain Therapy, vol. 10, 2021. CLAUW, D. J. et al. “Reframing chronic pain as a disease, not a symptom: rationale and implications for pain management”. Postgraduate Medicine, vol. 131, n. 3, 2019. COHEN, S. P. et al. “Chronic pain: an update on burden, best practices, and new advances”. Lancet, vol. 397, n. 10289, 2021. GOMES, M. V. et al. “‘Waiting for a miracle’: Spirituality/Religiosity in coping with sickle cell disease”. Revista Brasileira de Enfermagem, vol. 72, n. 6, 2019. GREENSPAN, J. D. et al. “Studying sex and gender differences in pain and analgesia: a consensus report”. Pain, vol. 132, n. 1, 2007. GRÜNY, C. “Zwischen Aspirin und Algodizee: zum Problemfeld Schmerz und Sinn”. Psychologie und Gesellschaftskritik, vol. 33, n. 3, 2009. www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 55 GUVEN KOSE, S. et al. “Chronic Pain: An Update of Clinical Practices and Advances in Chronic Pain Management”. The Eurasian Journal of Medicine, vol. 54, n. 1, 2022. HAN, B. C. Sociedade Paliativa: a dor hoje. Petrópolis: Editora Vozes, 2021. HEALTHY WOMEN. “Science, Innovation and Technology Summit: Chronic Pain in Women—Focus on Treatment, Management and Barriers”. Healthy Women [2020]. Disponível em: <www.healthywomen>. Acesso em: 23/09/2025. HØFFDING, S. et al. “Can we trust the phenomenological interview? Metaphysical, epistemological, and methodological objections”. Phenomenology and the Cognitive Sciences, vol. 21, n. 1, 2022. IASP - International Association for the Study of Pain. Declaration of Montreal Declaration that Access to Pain Management Is a Fundamental Human Right. Montreal: IASP, 2010. Disponível em: <www.iasp-pain.org>. Acesso em: 12/04/2025. JESUS, L. P. Dor Crônica: uma visão fenomenológica. In: TAMELINI, M.; MESSAS, G. (eds.). Fundamentos de Clínica Fenomenológica. São Paulo: Manole, 2022. KANEMATSU, J. S. et al. “Impacto da dor na qualidade de vida do paciente com dor crônica”. Revista de Medicina, vol. 101, n. 3, 2022 KROEF, R. F. S. et al. “Diário de Campo e a Relação do(a) Pesquisador(a) com o Campo-Tema na Pesquisa-Intervenção”. Estudos e Pesquisas em Psicologia, vol. 20, n. 2, 2020. LERESCHE, L. “Defining gender disparities in pain management”. Clinical Orthopaedics and Related Research, vol. 469, n. 7, p. 1871-1877, 2011. LISBOA, L. V. et al. “O alívio da dor como forma de legitimação dos direitos humanos”. Revista Dor, vol. 17, n. 1, 2016. MATTOS, C. L. G. “A abordagem etnográfica na investigação científica”. In: MATTOS, C. L. G. Etnografia e educação: conceitos e usos. João Pessoa: Editora da UEPB, 2011. MELO, A. K. et al. “O método fenomenológico em pesquisas de estudo de caso clínico”. In: COSTA, A. P. et al. (eds.). Atas do 7o Congresso Ibero-Americano em Investigação Qualitativa: Investigação Qualitativa na Saúde. Aveiro: Ludomedia, 2018. MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Editora WMF, 2018. MIGLIO, N.; STANIER, J. “Beyond pain scales: A critical phenomenology of the expression of pain”. Frontiers in Pain Research, vol. 3, 2022. MONTEIRO, V. et al. “What is it like to be in alcohol addiction recovery? A dialectical phenomenological analysis”. Psychopathology, vol. 57, n. 5, 2024. MOREIRA, V. “O método fenomenológico de Merleau-Ponty como ferramenta crítica na pesquisa em psicopatologia”. Psicologia: Reflexão e Crítica, vol. 17, n. 3, 2004. MOREIRA, V.; BLOC, L. Fenomenologia Clínica. Rio de Janeiro: Edições IFEN, 2021. MUCHOWSKI, K. “Chronic Pain Syndromes in Women”. Primary Care, vol. 52, n. 2, 2025. www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 56 MULLACHERY, P. H. et al. “Prevalence of pain and use of prescription opioids among older adults: results from the Brazilian Longitudinal Study of Aging (ELSI-Brazil)”. Lancet Regional Health. Americas, vol. 20, n. 100459, 2023. OLIVEIRA, L. B. et al. “Abordagens multidisciplinares no tratamento da dor crônica: perspectivas e desafios”. Brazilian Journal of Health Review, vol. 6, n. 4, 2023. PACHECO, C.; FOSSA, P. Phenomenological-Hermeneutical Approach to Borderline Personality Disorder. Leeds: Emerald Publishing Limited, 2025. PIERETTE, S. et al. “Gender differences in pain and its relief”. Annali dell'Istituto Superiore di Sanità, vol. 52, n. 2, 2016. PRETTO, Z. “Método fenomenológico e dialético existencialista e a etnografia: compreendendo modos de vida”. In: PRETTO, Z. et al. Existencialismo e ciência princípios metodológicos na pesquisa. Santa Maria: Arco Editores, 2022. PRUDENTE, M. P. et al. “Tratamento da dor crônica na atenção primária à saúde”. Brazilian Journal of Development, vol. 6, n. 7, 2020. QUIRINO, R. C. et al. “Violence, suffering and subversion: notes from a qualitative study about schooling trajectories of Brazilian young homosexuals”. Journal of Homosexuality, vol. 69, n. 14, 2021. RAJA, S. N. et al. “The revised International Association for the Study of Pain definition of pain: concepts, challenges, and compromises: Concepts, challenges, and compromises”. Pain, vol. 161, n. 9, 2020. RICE, K. et al. “Gendered Worlds of Pain: Women, Marginalization, and Chronic Pain”. The Journal of Pain, vol. 25, n. 11, 2024. ROSSATTO, C. A. et al. “Por uma educação libertadora: o brincar como direito humano”. Periferia, vol. 16, n. 1, 2024. RUBIO-GARRIDO, A. et al. “Experience of families during admission of their minors to a paediatric intensive care unit: a phenomenological study”. Scandinavian Journal of Caring Sciences, vol. 39, 2025. SAINT AUBERT, E. “Introdução à noção de sustentação”. Aoristo - International Journal of Phenomenology, Hermeneutics and Metaphysics, vol. 1, n. 2, 2017. SAINT AUBERT, E. “Portances de la reconnaissance”. DoisPontos, vol. 20, n. 1, 2023. SANTOS, N. R. S.; CASTRO, M. M. C. “Dor Crônica: compreensão do idoso oncológico hospitalizado e suas estratégias de enfrentamento”. Revista Psicologia, Diversidade e Saúde, vol. 8, n. 2, 2019. SILVA, M. G. S. et al. “Plano de parto como tecnologia educacional potente no pré-natal: uma interface com a fenomenologia”. Boletim de Conjuntura (BOCA), vol. 21, n. 62, 2025. SILVA, R. F. N.; MOURA, R. R. “Espiritualidade e sentido de vida em pacientes com dor crônica no contexto de cuidados paliativos”. Revista Fragmentos de Cultura - Revista Interdisciplinar de Ciências Humanas, vol. 33, 2023.