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www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 120 O Boletim de Conjuntura (BOCA) publica ensaios, artigos de revisão, artigos teóricos e empíricos, resenhas e vídeos relacionados às temáticas de políticas públicas. O periódico tem como escopo a publicação de trabalhos inéditos e originais, nacionais ou internacionais que versem sobre Políticas Públicas, resultantes de pesquisas científicas e reflexões teóricas e empíricas. Esta revista oferece acesso livre imediato ao seu conteúdo, seguindo o princípio de que disponibilizar gratuitamente o conhecimento científico ao público proporciona maior democratização mundial do conhecimento. BOLETIM DE CONJUNTURA BOCA Ano VII | Volume 24 | Nº 71 | Boa Vista | 2025 http://www.ioles.com.br/boca ISSN: 2675-1488
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 121 BLOCKCHAIN NO SETOR PÚBLICO: UM ESTUDO BIBLIOMÉTRICO 1 Amanda Tavares de Goes 2 Helga Cristina Hedler 3 Eduardo Amadeu Dutra Moresi 4 Resumo Este estudo realiza uma análise bibliométrica da produção acadêmica sobre blockchain na administração pública e na governança digital. O objetivo é mapear a estrutura temática, os principais autores, fontes e países, bem como identificar lacunas e tendências de pesquisa. Utilizou-se método teórico-dedutivo, com abordagem descritivo-exploratória, a partir de 1.867 documentos indexados na Scopus entre 2016 e 2025, selecionados mediante critérios de inclusão e exclusão alinhados ao protocolo PRISMA 2020. Aplicaram-se procedimentos de bibliometria e análise de redes com apoio do Bibliometrix, VOSviewer e Gephi, contemplando indicadores de desempenho, coocorrência de palavras-chave, cocitação de referências e elaboração de mapa temático. Os resultados indicam crescimento consistente da literatura, com ênfase em temas como segurança digital, privacidade, governo eletrônico, Internet das Coisas (IoT) e inteligência artificial. Quatro pilares temáticos foram identificados: (i) fundamentos técnicos e financeiros da tecnologia, incluindo criptografia, consenso e criptoativos; (ii) aplicações em governo e serviços públicos, associando blockchain, smart contracts e registros distribuídos à transparência, confiança, transformação digital e auditoria; (iii) convergência tecnológica com IoT, inteligência artificial, cibersegurança e aprendizado de máquina; e (iv) domínios setoriais e nichos especializados, como saúde, identidade digital, mercados imobiliários, cadeias de suprimentos e sustentabilidade alimentar. Persistem lacunas em métricas quantitativas e análises empíricas de impacto, especialmente quanto à redução de fraudes, à eficiência administrativa e à avaliação de custo-benefício. Os achados ressaltam o papel da blockchain como infraestrutura de confiança distribuída, ao mesmo tempo em que evidenciam a necessidade de pesquisas aplicadas que fortaleçam interoperabilidade, padronização técnica e segurança jurídica e apoiem a formulação de políticas públicas eficientes. Palavras-chave: Bibliometria; Blockchain; Cibersegurança; Governança Digital. Abstract This study conducts a bibliometric analysis of academic production on blockchain in public administration and digital governance. The aim is to map the thematic structure, leading authors, sources and countries, as well as to identify research gaps and emerging trends. A theoretical-deductive method with a descriptive-exploratory approach was adopted, based on 1,867 documents indexed in Scopus between 2016 and 2025, selected according to inclusion and exclusion criteria consistent with the PRISMA 2020 protocol. Bibliometric and network-analysis procedures were applied using Bibliometrix, VOSviewer and Gephi, covering performance indicators, keyword co-occurrence, reference co-citation and thematic mapping. The results show consistent growth of the literature, with emphasis on topics such as digital security, privacy, electronic government, the Internet of Things (IoT) and artificial intelligence. Four thematic pillars were identified: (i) technical and financial foundations of the technology, including cryptography, consensus mechanisms and crypto-assets; (ii) applications in government and public services, associating blockchain, smart contracts and distributed ledgers with transparency, trust, digital transformation and auditing; (iii) technological convergence with IoT, artificial intelligence, cybersecurity and machine learning; and (iv) sectorspecific domains and niche applications, such as health, digital identity, real-estate markets, supply chains and food sustainability. Gaps remain in quantitative metrics and empirical impact assessments, particularly regarding fraud reduction, administrative efficiency and cost–benefit evaluation. The findings highlight blockchain’s role as a distributed trust infrastructure while underscoring the need for applied research to strengthen interoperability, technical standardization and legal certainty, and to support the formulation of efficient public policies. Keywords: Bibliometrics; Blockchain; Cybersecurity; Digital Governance. 1 A presente pesquisa contou com apoio institucional do Fundo da Receita Tributária do Distrito Federal - PRÓ-RECEITA. 2 Mestranda em Governança, Tecnologia e Inovação pela Universidade Católica de Brasília (UCB). E-mail: [email protected] 3 Doutora em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações pela Universidade de Brasília (UNB). E-mail: [email protected] 4 Doutor em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília (UNB). E-mail: [email protected]cb.br
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 122 INTRODUÇÃO A expansão da tecnologia blockchain além do setor financeiro tem impulsionado seu debate em políticas públicas, administração pública e governança digital. Em termos gerais, a blockchain é um livrorazão distribuído que registra transações em blocos encadeados de forma imutável, validados por uma rede peer-to-peer por meio de algoritmos criptográficos e mecanismos de consenso, sem uma autoridade central. Essas propriedades de integridade, rastreabilidade e resiliência a alterações conferem à tecnologia potencial para lidar com informações sensíveis e processos críticos, especialmente em contextos com riscos de fraude, opacidade informacional e baixa confiança institucional. No setor público, a blockchain está associada à modernização da gestão estatal e à governança digital. A governança digital busca aumentar transparência, eficiência, coordenação interorganizacional e participação cidadã por meio de tecnologias digitais. As aplicações incluem licitações eletrônicas, arrecadação e fiscalização tributária, monitoramento de gastos públicos, gestão de registros imobiliários, cadastros sociais e serviços de identidade digital. A tecnologia é discutida como componente de arquiteturas de dados mais amplas, integrando governo eletrônico, dados abertos, identidade digital, Internet das Coisas e inteligência artificial. O objetivo é construir arranjos de governança em rede e fortalecer mecanismos de accountability. Apesar do crescente interesse, a literatura sobre blockchain na administração pública permanece dispersa e fragmentada em diferentes áreas, periódicos e comunidades de pesquisa. Essa fragmentação dificulta a compreensão dos temas centrais, aplicações maduras, lacunas analíticas e evidências empíricas para orientar decisões de investimento, desenho regulatório e escolhas de arquitetura tecnológica por gestores públicos. Um problema central é avaliar se a difusão da blockchain em discursos e iniciativas governamentais está acompanhada de um corpo de conhecimento científico capaz de fundamentar sua adoção em políticas e serviços públicos. A questão norteadora deste estudo é: quais são os pilares temáticos, tendências e lacunas na produção científica sobre blockchain na administração pública? Ao responder, pretende-se compreender quais temas dominam a pesquisa e em que medida dialogam com desafios de governança digital, segurança da informação, transparência, controle e prestação de serviços em diferentes níveis de governo. O objetivo do estudo é analisar a literatura internacional sobre blockchain na administração pública. O estudo visa identificar os principais temas, lacunas, padrões de colaboração científica e oportunidades de pesquisa sobre o uso da tecnologia no setor público. Especificamente, busca-se: (i) caracterizar o crescimento e a distribuição da produção acadêmica; (ii) mapear os eixos temáticos do campo; (iii) identificar convergências e lacunas em aplicações governamentais de blockchain; e (iv)
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 123 sintetizar uma perspectiva analítica que destaque forças, fraquezas, oportunidades e ameaças associadas à adoção da tecnologia no setor público. Realiza-se um estudo bibliométrico teórico-dedutivo, com caráter descritivo-exploratório, a partir de 1.867 documentos indexados na Scopus entre 2016 e 2025. A seleção do corpus segue critérios de inclusão e exclusão orientada pelo protocolo PRISMA 2020 (PAGE et al., 2021), contemplando publicações sobre blockchain em administração e governança pública. A análise de dados usa os softwares Bibliometrix, VOSviewer e Gephi, combinando indicadores de desempenho científico, redes de coocorrência de termos e estruturas de cocitação. O artigo está organizado em cinco seções, além desta introdução: referencial teórico; metodologia; resultados; discussão dos resultados; e conclusão, destacando contribuições, limitações, implicações para políticas públicas e agenda de pesquisas futuras. REFERENCIAL TEÓRICO A blockchain é uma inovação tecnológica que atrai atenção por sua capacidade de transformar processos de registro e validação em ambientes digitais, especialmente em áreas vulneráveis a fraudes e corrupção, como o setor público (NARAYANAN et al., 2016; SWAN, 2015). Originalmente proposta por Nakamoto (2008) como a tecnologia subjacente ao Bitcoin, a blockchain transcendeu suas aplicações iniciais em criptomoedas e passou a ser discutida como infraestrutura para uma variedade de serviços governamentais, registros oficiais e sistemas de gestão de dados públicos (UNDERWOOD, 2016). A tecnologia tem potencial para impactar diretamente a qualidade da informação contábil, ao introduzir novos padrões de integridade, rastreabilidade e auditabilidade de registros financeiros e fiscais (LUCENA FILHO et al., 2025). Do ponto de vista técnico, a blockchain pode ser entendida como uma estrutura de dados distribuída, composta por blocos criptograficamente protegidos e encadeados em uma linha temporal imutável (YUAN; WANG, 2016). Cada bloco armazena um conjunto de transações validadas e contém o hash criptográfico do bloco anterior, o que cria uma cadeia resistente a modificações arbitrárias (IANSITI; LAKHANI, 2017). A validação é distribuída entre os participantes da rede, eliminando a necessidade de uma autoridade central única para controle ou verificação dos dados. Essa arquitetura descentralizada assegura a integridade dos registros, facilita a rastreabilidade de operações e reduz a dependência de intermediários, características particularmente relevantes em contextos governamentais que exigem confiança institucional e transparência na gestão de recursos públicos (NARAYANAN et al., 2016). A segurança da blockchain é sustentada por técnicas criptográficas e protocolos de consenso que regulam a inclusão de novos blocos na cadeia. A criptografia assimétrica permite a geração de chaves
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 124 públicas e privadas que viabilizam assinaturas digitais, autenticando transações e conferindo não repúdio às operações. Protocolos de consenso como Proof of Work (PoW) e Proof of Stake (PoS) coordenam a concordância entre os participantes sobre o estado do livro-razão, mitigando a possibilidade de registros fraudulentos (KSHETRI, 2017). Essas propriedades ajudam a tornar a infraestrutura resistente a ataques cibernéticos e a adulteração de dados, o que tem implicações diretas em ambientes que lidam com informação sensível, como cadastros tributários, registros imobiliários e sistemas de benefícios sociais (CHAABOUNI; JAYAPRAKASH, 2024; SABERI et al., 2019). Além de sua estrutura básica, a literatura destaca a importância da classificação das blockchains em públicas, privadas e de consórcio. Redes públicas, como Bitcoin, são abertas à participação de qualquer usuário, priorizando transparência, mas com menor controle institucional sobre quem valida e lê as transações (NAKAMOTO, 2008). Em contraste, blockchains privadas e consorciadas restringem o acesso a organizações ou nós autorizados, o que permite maior aderência a requisitos de sigilo, governança corporativa e compliance regulatório (ALKETBI; NASIR; ABU TALIB, 2020). No contexto de governos e administrações públicas, blockchains de consórcio têm se destacado por permitir a colaboração entre múltiplas agências, preservando níveis adequados de privacidade, gestão de permissões e responsabilização institucional (LYKIDIS; DROSATOS; RANTOS, 2021; TAN; MAHULA; CROMPVOETS, 2022). Sobre essa infraestrutura distribuída, emergem os contratos inteligentes (smart contracts), considerados um dos elementos mais transformadores da blockchain. Eles são programas autoexecutáveis armazenados na própria cadeia, capazes de automatizar a execução de regras e procedimentos com base em condições pré-definidas (CHRISTIDIS; DEVETSIKIOTIS, 2016). Na prática, isso permite configurar fluxos administrativos em que pagamentos, concessões de direitos, atualização de registros ou emissão de documentos ocorrem automaticamente quando critérios são satisfeitos. Em serviços públicos, contratos inteligentes têm sido explorados em licitações eletrônicas, votação digital, sistemas de concessão de benefícios, gestão de registros e execução de convênios, reduzindo a necessidade de intermediários, abreviando prazos e diminuindo espaços para intervenção discricionária (HUH; CHO; KIM, 2017; KHAN; ARSHAD; KHAN, 2018; SINGH et al., 2024). A literatura trata a blockchain como caso específico de distributed ledger technology (DLT), conceito que abrange sistemas em que múltiplos nós mantêm réplicas sincronizadas de um livro-razão compartilhado (ØLNES; UBACHT; JANSSEN, 2017). Em DLTs, não há uma hierarquia central rígida, mas sim mecanismos de coordenação distribuída que asseguram a consistência dos dados entre os participantes. Essa característica amplia as possibilidades de uso em arranjos interorganizacionais complexos, permitindo que órgãos de diferentes esferas federativas, autarquias, tribunais de contas e
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 125 entidades privadas compartilhem informações de forma auditável e verificável, sem depender de um único repositório central. No campo da contabilidade e da auditoria pública, isso se traduz em oportunidades para novos modelos de reconciliação de dados, trilhas de auditoria contínua e monitoramento em tempo quase real de execuções orçamentárias e financeiras (ANDRADE SIMÕES et al, 2021; LUCENA FILHO et al., 2025). Diversos estudos enfatizam que a combinação entre segurança, transparência e eficiência abre um conjunto de aplicações potenciais no setor público (SABERI et al., 2019; LUCENA FILHO et al., 2025; HENRIQUE; SANTOS; SAPORITO, 2022). A imutabilidade dos registros facilita o rastreamento de fluxos financeiros e logísticos, reduzindo a assimetria de informação entre Estado, fornecedores e sociedade. A rastreabilidade de cadeias de suprimentos, pode fortalecer políticas de compras públicas sustentáveis e a verificação de critérios ambientais em contratos governamentais (SABERI et al., 2019). Na perspectiva contábil, a blockchain pode contribuir para a qualidade da informação, tanto ao elevar a confiabilidade dos dados quanto ao permitir novos formatos de evidência digital para auditoria e fiscalização de receitas e despesas públicas (LUCENA FILHO et al., 2025; HENRIQUE; SANTOS; SAPORITO, 2022). Ao mesmo tempo, a blockchain é incorporada ao debate sobre governança digital e transformação do Estado. Governança digital é entendida como o uso estruturado de tecnologias digitais para ampliar transparência, eficiência, coordenação interorganizacional e participação cidadã na gestão pública (PAIXÃO et al., 2024). A blockchain é vista, nesse contexto, como componente de um conjunto mais amplo de ferramentas que inclui governo eletrônico, dados abertos, identidade digital e serviços baseados em plataformas. Autores argumentam que a tecnologia pode habilitar modelos de governança em rede, com maior distribuição de poder informacional entre órgãos, maior auditabilidade das decisões e reforço dos mecanismos de accountability perante a sociedade (ØLNES; UBACHT; JANSSEN, 2017; TAN; MAHULA; CROMPVOETS, 2022). Estudos de revisão e análises bibliométricas internacionais têm buscado sistematizar esse campo emergente, mapeando tanto aplicações quanto desafios da blockchain em governos e cadeias de suprimentos (SABERI et al., 2019; CAGIGAS et al., 2021; ØLNES; UBACHT; JANSSEN, 2017; TAN; MAHULA; CROMPVOETS, 2022; ANDRADE SIMÕES et al., 2021; LUCENA FILHO et al., 2025). Em geral, esses trabalhos apontam que a maior parte da produção ainda se concentra em propostas conceituais, estudos de viabilidade e projetos-piloto, com menor presença de avaliações empíricas robustas sobre impacto em políticas públicas e desempenho institucional (SABERI et al., 2019; CAGIGAS et al., 2021). No contexto do governo eletrônico, pesquisas destacam que as iniciativas baseadas em blockchain permanecem, em grande medida, circunscritas a experimentos em votação
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 126 eletrônica, gestão documental, rastreabilidade de ativos e serviços de identidade digital, frequentemente em escala limitada e com monitoramento incipiente de resultados (ØLNES; UBACHT; JANSSEN, 2017; TAN; MAHULA; CROMPVOETS, 2022). De forma similar, trabalhos com foco em finanças públicas e contabilidade enfatizam o potencial da tecnologia para reforçar trilhas de auditoria e a qualidade da informação, mas também reconhecem lacunas quanto à mensuração de ganhos efetivos em controle, transparência e arrecadação (ANDRADE SIMÕES et al., 2021; LUCENA FILHO et al., 2025). Uma vertente crítica da literatura chama atenção para assimetrias entre as promessas atribuídas à blockchain e os resultados efetivamente observados em implementações públicas. São destacados, por exemplo, desafios de governança de redes permissionadas, custos de implantação e manutenção, dificuldades de integração com sistemas legados e incertezas regulatórias, especialmente em ambientes federativos complexos (KSHETRI, 2017; LYKIDIS; DROSATOS; RANTOS, 2021; CAGIGAS et al., 2021). Alguns autores argumentam que, em diversos casos, bancos de dados tradicionais com bons mecanismos de controle de acesso e trilhas de auditoria seriam suficientes para atender a parte das necessidades de transparência e integridade, tornando o uso de blockchain uma escolha que precisa ser justificada por requisitos específicos de descentralização, imutabilidade e coordenação interorganizacional (VERMA; KUMAR, 2022; TAN; MAHULA; CROMPVOETS, 2022). Essa perspectiva reforça a importância de avaliar criticamente se a adoção da tecnologia está de fato agregando valor público ou apenas replicando soluções existentes com maior complexidade técnica. A convergência entre blockchain e outras tecnologias digitais aparece como tendência nas pesquisas recentes. A integração com Internet das Coisas (IoT) permite que sensores e dispositivos conectados alimentem redes blockchain com dados em tempo real sobre infraestrutura urbana, mobilidade, saúde e segurança, criando trilhas de auditoria para eventos físicos, serviços e ativos públicos (HUH et al., 2017; ZHANG; WEN, 2018; BISWAS; MUTHUKKUMARASAMY, 2016). A combinação com inteligência artificial amplia essa capacidade ao possibilitar a análise preditiva, a detecção de anomalias e a automação de decisões em sistemas complexos de gestão urbana e de políticas públicas (BANABILAH et al., 2022). Em cidades inteligentes, essa tríade blockchain–IoT–IA viabiliza plataformas integradas de gestão municipal e estadual, com potencial para melhorar planejamento urbano, logística de serviços, monitoramento ambiental e qualidade da prestação de serviços públicos (SILVA et al., 2024; SÁ et al., 2025). Essa convergência tecnológica, contudo, intensifica os desafios de privacidade, proteção de dados e segurança cibernética. A transparência intrínseca da blockchain precisa ser compatibilizada com o sigilo de dados pessoais e empresariais, em especial sob a vigência de normas como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) no contexto brasileiro (LUCENA FILHO et al., 2025). Técnicas de criptografia avançada
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 127 e abordagens como zero-knowledge proofs permitem comprovar a veracidade de informações sem expor dados sensíveis, oferecendo caminhos para equilibrar transparência e privacidade (ØLNES; UBACHT; JANSSEN, 2017). O aprendizado federado surge como outra resposta, permitindo que dados permaneçam armazenados localmente enquanto apenas parâmetros de modelos de machine learning são compartilhados entre organizações, preservando privacidade em arranjos colaborativos de análise de dados (SHENOY et al., 2025). Esses instrumentos são centrais para que a adoção de blockchain e de análises avançadas de dados no setor público não comprometa direitos fundamentais. Por fim, a literatura destaca que a adoção da blockchain na administração pública não é apenas uma decisão tecnológica, mas institucional e regulatória. A implementação de sistemas baseados em blockchain exige marcos normativos claros, que definam a validade jurídica de registros digitais imutáveis, estabeleçam responsabilidades por falhas de sistemas e articulem a tecnologia com princípios de transparência, eficiência e proteção de direitos (CAGIGAS et al., 2021). Também requer capacidades estatais em termos de infraestrutura, competências técnicas, governança de dados e cultura organizacional voltada à inovação (VERMA; KUMAR, 2022). Sem esses elementos, a tecnologia corre o risco de permanecer confinada a provas de conceito e projetos piloto, sem se traduzir em melhorias concretas em governança, prestação de contas e qualidade dos serviços públicos. À luz desse panorama, o referencial teórico sobre blockchain na administração pública combina, portanto, uma visão promissora da tecnologia como infraestrutura de confiança para governança digital com evidências ainda fragmentadas sobre resultados concretos em políticas e serviços. Há um corpo crescente de estudos conceituais, aplicações exploratórias e análises setoriais, mas ainda carece de sínteses sistemáticas que organizem os principais pilares temáticos, explicitem lacunas de pesquisa e situem o estágio de maturidade do campo em termos conceituais e empíricos. Nesse contexto, torna-se relevante realizar estudos bibliométricos que mapeiem de forma estruturada a produção científica sobre blockchain no setor público, identificando como esses debates se distribuem, quais agendas se consolidam e quais espaços permanecem abertos para investigações futuras, o que constitui precisamente o foco do presente trabalho. METODOLOGIA Esta pesquisa utiliza método teórico-dedutivo, partindo de conceitos consolidados sobre blockchain, governança digital e bibliometria para interpretar, à luz da literatura, o comportamento da produção científica sobre o tema (CAGIGAS et al., 2021). Quanto aos fins, caracteriza-se como pesquisa descritivo-exploratória, pois busca descrever o campo e explorar suas principais agendas, lacunas e
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 128 tendências, sem testar hipóteses causais. Quanto aos meios, é pesquisa bibliográfica e documental, baseada em metadados de publicações indexadas em base de dados científica, com aplicação de procedimentos bibliométricos e análise de redes para mapear estrutura temática, desempenho científico e relações entre autores, fontes e conceitos (ARIA; CUCCURULLO, 2017). O levantamento de dados foi realizado na base Scopus, escolhida por sua ampla cobertura internacional, padronização de metadados e recursos de filtragem que facilitam a replicação de estudos bibliométricos, em linha com pesquisas recentes em administração pública e governança digital (CAGIGAS et al., 2021). A coleta ocorreu em 26 de maio de 2025, considerando o período de 2016 a 2025, que corresponde à fase de consolidação da literatura sobre blockchain além das aplicações financeiras. A estratégia de busca combinou, em expressão booleana, termos relacionados à tecnologia com termos ligados ao setor público e à governança digital, além de palavras associadas a transparência, rastreabilidade, auditoria e desempenho. A identificação na base foi realizada a partir da expressão de busca: TITLE-ABS-KEY ((“blockchain" OR "distributed ledger technology" OR "smart contracts”) AND (“public administration" OR "public sector" OR "government" OR "e-government" OR "digital government" OR "public procurement" OR "tax administration" OR "government services”) AND (“transparency" OR "accountability" OR "traceability" OR "audit trail" OR "security" OR "efficiency" OR "data integrity”)). A consulta inicial retornou 2.333 registros, que compõem o universo bruto identificado sobre o tema. O processo de seleção do corpus seguiu as etapas do protocolo PRISMA 2020 para revisões sistemáticas, adaptado a estudos bibliométricos (PAGE et al., 2021). Na fase de identificação, consideraram-se todos os documentos localizados pela expressão de busca na Scopus, sem restrição inicial. Em seguida, aplicou-se um filtro para delimitar o corpus ao período de 2016 a 2025. Depois, foi realizada uma filtragem por tipo de documento (article (802), conference paper (1031), conference review (47) e review (121)). Por fim, o corpus foi refinado pelas áreas temáticas de interesse: Computer Science (1.441), Engineering (799), Decision Sciences (494), Social Sciences (307), Business, Management and Accounting (287), Mathematics (374), Economics, Econometrics and Finance (76). Vale ressaltar que um mesmo documento pode ser classificado em mais de uma área do conhecimento, pois os grupos não são excludentes. Após esses critérios de inclusão e exclusão, a amostra final foi composta por 1.867 documentos, que constituem o corpus analisado neste estudo. A Figura 1 apresenta o diagrama PRISMA 2020 com o fluxo de identificação, triagem e inclusão dos documentos. Os metadados dos 1.867 documentos foram exportados da Scopus em formato compatível com o Bibliometrix, incluindo informações sobre título, resumo, autores, afiliações, palavras-chave, ano de
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 135 tecnológica. Os resultados mostram que fundamentos técnicos, confiança e transparência em governo, bem como a convergência com IoT, IA e cibersegurança, ocupam posições centrais, enquanto aplicações mais específicas em digitalização setorial, aprendizado de máquina e contextos como saúde e imóveis aparecem como fronteiras ainda em desenvolvimento, o que é retomado na discussão. A análise mapa de calor da Rede de Cocitação de Referências Citadas (Figura 4) permite identificar o núcleo intelectual que sustenta o campo. Figura 4 – Mapa de calor da Rede de Cocitação de Referências Citadas Fonte: Elaboração própria. A partir da rede de cocitação (Figura 4), foram calculadas medidas de centralidade (Tabela 3), destacando os trabalhos mais influentes na estrutura das referências. O artigo de Satoshi Nakamoto (2008) ocupa posição central, refletindo o papel fundacional da proposta original de blockchain para criptomoedas, que, embora focada no setor financeiro, tornou-se referência transversal para diferentes domínios de aplicação. Em torno desse trabalho gravitam contribuições teóricas que discutem o potencial disruptivo da tecnologia e seus impactos em modelos de negócio e estruturas de confiança distribuída, como o estudo de Iansiti e Lakhani (2017). Entre as referências voltadas especificamente ao setor público, destacam-se trabalhos de Ølnes, Ubacht e Janssen (2017), que analisam oportunidades e limitações da blockchain em governo eletrônico, e estudos que discutem sua adoção em contextos regulatórios e institucionais complexos (TAN; MAHULA; CROMPVOETS, 2022; CAGIGAS et al., 2021). Esses autores ajudam a consolidar a ponte entre fundamentos técnicos e aplicações em governança digital, explorando a viabilidade da tecnologia
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 136 em ambientes marcados por múltiplos atores, marcos legais rígidos e requisitos de transparência e prestação de contas. Em paralelo, artigos publicados em periódicos de gestão e tecnologia avaliam a blockchain como infraestrutura de confiança em cadeias de valor, aproximando debates sobre inovação, riscos e coordenação interorganizacional. Tabela 3 – Métricas de rede de cocitação de referências citadas Documento Tema Centralidade Autovetor Nakamoto, S. (2008). Bitcoin: A peer-to-peer electronic cash system. White-paper do Bitcoin 1,000 Swan, M. (2015). Blockchain: Blueprint for a new economy. Livro fundacional sobre blockchain e economia 0,751 Olnes, S., Ubacht, J., Janssen, M. (2017). Blockchain in government: Benefits and implications. Blockchain no setor público (eGov) 0,559 Christidis, K., Devetsikiotis, M. (2016). Blockchains and smart contracts for the Internet of things. Smart-contracts e IoT 0,487 Tapscott, D., Tapscott, A. (2016). Blockchain Revolution: How the technology behind Bitcoin is changing money, business and the world. Livro “Blockchain Revolution” 0,292 Iansiti, M., Lakhani, K. R. (2017). The truth about blockchain. Impacto empresarial (HBR) 0,256 Underwood, S. (2016). Blockchain beyond Bitcoin. Aplicações além de criptomoedas 0,232 Cagigas, D., Clifton, J., Díaz-Fuentes, D., Fernández-Gutiérrez, M. (2021). Blockchain for public services: A systematic literature review. Revisão sistemática em serviços públicos 0,224 Narayanan, A., Bonneau, J., Felten, E., Miller, A., Goldfeder, S. (2016). Bitcoin and cryptocurrency technologies: A comprehensive introduction. Livro acadêmico sobre criptomoedas 0,219 Tan, E., Mahula, S., Crompvoets, J. (2022). Blockchain governance in the public sector. Governança de blockchain no setor público 0,212 Fonte: Elaboração própria. O historiográfico (Figura 5), complementa essa visão ao explicitar a evolução temporal e a articulação entre as principais linhas de pesquisa. Os resultados mostram que estudos iniciais se concentraram na definição conceitual da tecnologia e em análises de viabilidade, seguidos por um segundo momento marcado por propostas de uso em e-government, serviços digitais e cadeias de suprimentos. Em anos mais recentes, observa-se o fortalecimento de trabalhos que combinam blockchain com cibersegurança, privacidade e proteção de dados, bem como o surgimento de revisões e estudos bibliométricos que buscam organizar a literatura e sistematizar conhecimentos dispersos. No contexto aplicado, sobressaem contribuições que exploram a tecnologia em identidades digitais, auditoria contínua, rastreabilidade logística e governança fiscal, sugerindo que o campo avança de discussões
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 137 predominantemente conceituais para aplicações mais próximas de problemas concretos de gestão pública, ainda que com lacunas importantes de avaliação empírica. Figura 5 – Historiográfico Fonte: Elaboração própria. O Bibliometrix permite identificar os documentos mais influentes dentro de um corpus específico, com base no número de citações globais (GCS – Global Citation Score). Essa métrica é utilizada para compreender quais publicações tiveram maior impacto na comunidade científica internacional. A Tabela 4 apresenta os documentos mais citados do corpus, refletindo aqueles que obtiveram maior reconhecimento acadêmico. Os artigos contemplam uma variedade de abordagens sobre o uso da tecnologia blockchain em contextos como gestão da cadeia de suprimentos, segurança da informação, cidades inteligentes e modelos de negócios digitais. O estudo mais citado foi o de Saberi et al. (2019), com 2.547 citações, que examina as interrelações entre blockchain e gestão sustentável da cadeia de suprimentos, propondo uma agenda de pesquisa e identificando barreiras à sua implementação. Em seguida, Yuan e Wang (2016), com 1.035 citações, apresentam uma revisão sobre o estado da arte do blockchain e suas tendências, sendo uma das referências fundacionais no tema. Huh et al. (2017) analisaram o uso de blockchain para gerenciar dispositivos IoT, com foco em segurança e contratos inteligentes, somando 807 citações. Kshetri (2017), com 540 citações, aborda o papel da blockchain na cibersegurança e proteção da privacidade, evidenciando aplicações em contextos governamentais e corporativos. As contribuições de Biswas e Muthukkumarasamy (2016) (513 citações) e Ahram et al. (2017) (491 citações) reforçam a aplicabilidade da tecnologia em cidades inteligentes e inovações em engenharia, respectivamente, destacando os ganhos em confiabilidade e rastreabilidade dos dados.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 138 Tabela 4 – Artigos com maior número de citações globais Documento Total de Citações Globais Saberi, S., Kouhizadeh, M., Sarkis, J., Shen, L. (2019). Blockchain technology and its relationships to sustainable supply chain management. 2547 Yuan, Y., Wang, F.-Y. (2016). Blockchain: The state of the art and future trends. 1035 Huh, S., Cho, S., Kim, S. (2017). Managing IoT devices using blockchain platform. 807 Kshetri, N. (2017). Blockchain's roles in strengthening cybersecurity and protecting privacy. 540 Biswas, K., Muthukkumarasamy, V. (2016). Securing smart cities using blockchain technology. 513 Ahram, T., Sargolzaei, A., Sargolzaei, S., Daniels, J., Amaba, B. (2017). Blockchain technology innovations. 491 Dubey, R., Bryde, D. J., Blome, C., Gunasekaran, A. (2020). Blockchain technology for enhancing swift-trust, collaboration and resilience within a humanitarian supply chain setting. 473 Banabilah, S., Aloqaily, M., Alsayed, E., Malik, N., Jararweh, Y. (2022). Federated learning review: Fundamentals, enabling technologies, and future applications. 334 Zhang, Y., Wen, J. (2018). The IoT electric business model: Using blockchain technology for the Internet of things. 328 Kouhizadeh, M., Sarkis, J. (2020). Blockchain practices, potentials, and perspectives in greening supply chains. 306 Fonte: Elaboração própria. Ainda no campo da logística, Dubey et al. (2020) investigam como a blockchain pode fomentar confiança ágil (swift-trust) e resiliência em cadeias humanitárias, totalizando 473 citações. Em uma perspectiva tecnológica, Banabilah et al. (2022) (334 citações) analisaram o potencial do aprendizado federado aliado à blockchain para garantir segurança e descentralização em aplicações futuras. Com 328 citações, Zhang e Wen (2018) propõem um modelo de negócios baseado em IoT e blockchain, voltado à eletrificação inteligente. Por fim, Kouhizadeh e Sarkis (2020) (306 citações) discutiram práticas e oportunidades para tornar cadeias de suprimentos mais sustentáveis por meio da blockchain, apontando perspectivas promissoras para a chamada supply chain verde. Esses documentos evidenciam a diversidade de aplicações e o potencial transformador da tecnologia blockchain em diferentes domínios, consolidando-a como um tema transversal e em expansão dentro da literatura científica. A Tabela 5 apresenta os documentos com o maior número de citações locais no corpus analisado. Essa métrica quantifica o número de vezes que um artigo foi citado por outros documentos dentro do mesmo conjunto bibliográfico, oferecendo uma medida de influência interna ao universo temático delimitado pela pesquisa. Diferente das citações globais, que indicam impacto geral na literatura, as
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 139 citações locais são essenciais para entender a relevância de um estudo em contextos específicos, como a aplicação da tecnologia blockchain em governos e cadeias de suprimentos. Tabela 5 – Artigos com maior número de citações locais Documento Total de citações locais Saberi, S., Kouhizadeh, M., Sarkis, J., Shen, L. (2019). Blockchain technology and its relationships to sustainable supply chain management. 52 Alketbi, A., Nasir, Q., Abu Talib, M. (2020). Novel blockchain reference model for government services: Dubai government case study. 22 Cagigas, D., Clifton, J., Díaz-Fuentes, D., Fernández-Gutiérrez, M. (2021). Blockchain for public services: A systematic literature review. 21 Ahram, T., Sargolzaei, A., Sargolzaei, S., Daniels, J., Amaba, B. (2017). Blockchain technology innovations. 16 Alketbi, A., Nasir, Q., Abu Talib, M. (2020). Novel blockchain reference model for government services: Dubai government case study. 16 Kshetri, N. (2017). Blockchain's roles in strengthening cybersecurity and protecting privacy. 16 Huh, S., Cho, S., Kim, S. (2017). Managing IoT devices using blockchain platform. 14 Khan, K. M., Arshad, J., Khan, M. M. (2018). Secure digital voting system based on blockchain technology. 13 Dubey, R., Bryde, D. J., Blome, C., Gunasekaran, A. (2020). Blockchain technology for enhancing swift-trust, collaboration and resilience within a humanitarian supply chain setting. 12 Khan, K. M., Salah, K. (2020). Investigating performance constraints for blockchain based secure e-voting system. 10 Fonte: Elaboração própria. O documento com maior número de citações locais é o de Saberi et al. (2019), com 52 referências internas, evidenciando seu papel fundamental na discussão sobre a integração entre blockchain e gestão sustentável da cadeia de suprimentos. O artigo propõe uma agenda de pesquisa e identifica barreiras estruturais e institucionais que limitam a adoção da tecnologia nesse contexto. Em seguida, destaca-se o trabalho de Alketbi, Nasir e Abu Talib (2020), citado localmente em 22 e 16 ocasiões distintas, o que demonstra sua centralidade na discussão sobre modelos de referência para serviços governamentais baseados em blockchain, com ênfase no estudo de caso do governo de Dubai. O estudo sistemático de Cagigas et al. (2021), com 21 citações locais, compila evidências sobre a adoção da blockchain no setor público, categorizando benefícios, desafios e lacunas de pesquisa. Já Ahram et al. (2017), com 16 citações, abordam inovações associadas à tecnologia blockchain em gestão e engenharia, com aplicações voltadas à confiabilidade e integridade de dados.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 140 Outros documentos de destaque incluem Kshetri (2017), com 16 citações, cuja contribuição foca na cibersegurança e proteção de dados, e Huh et al. (2017), com 14 citações, que exploraram o uso da blockchain na gestão de dispositivos IoT, um tema-chave para ambientes públicos inteligentes e conectados. O tema da votação eletrônica segura também se faz presente com os estudos de Khan, Arshad e Khan (2018) e Khan e Salah (2020), que obtiveram 13 e 10 citações locais, respectivamente. Ambos discutem as possibilidades e os desafios da implementação de sistemas de e-voting com tecnologia blockchain, abordando questões de verificabilidade, desempenho e escalabilidade. Por fim, o artigo de Dubey et al. (2020), com 12 citações locais, contribui com uma abordagem voltada para cadeias de suprimento humanitárias, destacando como a blockchain pode fortalecer a confiança, a colaboração e a resiliência operacional nesses contextos. Esses resultados demonstram que, dentro do corpus estudado, os temas de maior repercussão local giram em torno da transformação digital no setor público, sustentabilidade logística e segurança cibernética, com o blockchain figurando como uma tecnologia transversal de grande potencial disruptivo. A análise de citações locais, portanto, revela não apenas os estudos mais influentes, mas também os núcleos conceituais centrais que sustentam a literatura analisada. A análise de artigos-chave a partir da bibliometria revelou cinco estudos que se destacam tanto pelo volume de citações (globais e locais) quanto pela capacidade de orientar as discussões teóricas e práticas sobre blockchain no setor público e em cadeias de suprimentos. A síntese dos artigos e sua centralidade no corpus podem ser encontradas na tabela 6. Tabela 6 – Síntese dos artigos-chave e sua centralidade no corpus Artigo Principais contribuições Saberi, S., Kouhizadeh, M., Sarkis, J., Shen, L. (2019) Maior número de citações globais (2547) e locais (52) no corpus; estabelece agenda de pesquisa e barreiras para adoção sustentável da tecnologia. Yuan, Y., Wang, F.-Y. (2016) Artigo fundacional que mapeia princípios, métodos e direções futuras; base conceitual para grande parte dos estudos posteriores. Huh, S., Cho, S., Kim, S. (2017) Integra blockchain e IoT, focando em autenticação e smart-contracts; alto impacto (807 citações globais) e relevância para governo digital descentralizado. Kshetri, N. (2017) Referência-chave em cibersegurança e privacidade, temas recorrentes nos clusters “blockchain–privacy–decentralised”. Alketbi, A., Nasir, Q., Abu Talib, M. (2020) Modelo de referência aplicado a serviços públicos; segundo maior total de citações locais (22) e ponto de partida para padrões de arquitetura governamental. Fonte: Elaboração própria. Esses artigos convergem em quatro pilares analíticos que sustentam este estudo:
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 141 • Sustentabilidade e cadeia de suprimentos – Saberi et al. (2019) demonstraram o potencial da blockchain em alinhar transparência logística e objetivos ESG (Environmental, Social e Governance). • Fundamentos conceituais da tecnologia – Yuan e Wang (2016) ofereceram o arcabouço técnico que ancora grande parte das pesquisas subsequentes. • Integração com IoT e cidades inteligentes – Huh et al. (2017) comprovaram a aplicabilidade em infraestruturas públicas conectadas. • Cibersegurança, privacidade e governo eletrônico – Kshetri (2017) e Alketbi et al. (2020) fortaleceram a discussão sobre segurança e modelos de referência para serviços digitais. A frequência com que esses estudos são citados, tanto global quanto localmente, confirma sua condição de referência para compreender o estado da arte e projetar futuras trajetórias de pesquisa em blockchain para governança. DISCUSSÃO A análise bibliométrica confirma que a tecnologia blockchain é central na pesquisa sobre governo digital. Ela articula conceitos como descentralização, imutabilidade e segurança com as demandas do setor público por transparência, rastreabilidade e accountability. As redes de coocorrência indicam que a palavra-chave "blockchain" é um nó estruturante, em torno do qual gravitam termos associados a contratos inteligentes, segurança e Internet das Coisas. Essa configuração evidencia uma evolução: a blockchain deixou de ser encarada como uma infraestrutura técnica e passa a integrar discussões sobre modelos de governança e desenho institucional. Isso está em consonância com os argumentos de Swan (2015) e Iansiti e Lakhani (2017), que destacam o potencial transformador das arquiteturas de registros distribuídos. O mapa temático e as redes de cocitação revelam quatro pilares analíticos que organizam o campo. O primeiro reúne os fundamentos técnicos e financeiros da tecnologia, incluindo termos como “cryptocurrency”, “cryptoraphyg”, “consensus” e conceitos associados à integridade de dados e detecção de anomalias. Esse pilar consolida a base conceitual sobre funcionamento da blockchain, segurança criptográfica e mecanismos de consenso distribuído, a partir da qual se desdobram as demais agendas de pesquisa. O segundo pilar concentra-se na aplicação da blockchain em governo e serviços públicos, articulando “blockchain”, “smart contracts”, “distributed ledger technology”, “transparency”, “trust”, “government”, “public sector”, “digital transformation” e “auditing”. Ele traduz a tecnologia em modelos de governança digital, confiança em registros públicos, prestação de serviços digitais e mecanismos de controle e prestação de contas. O terceiro pilar corresponde à convergência tecnológica com IoT, inteligência artificial e cibersegurança, evidenciada pela presença de “internet of things”, “artificial intelligence”,
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 142 “cybersecurity”, “machine learning”, “digital economy” e “innovation” como temas centrais ou emergentes. Esse eixo indica que a blockchain é analisada em conjunto com outras tecnologias digitais, compondo arquiteturas integradas para gestão de dados, automação de decisões e proteção de infraestruturas críticas. Por fim, o quarto pilar agrupa domínios setoriais e nichos especializados, como “electronic health record”, “security and privacy” em saúde, “biometrics”, “identity verification”, “real estate”, “private blockchain” e tópicos ligados a desafios e barreiras de adoção (“challenge”, “systematic literature review”, “barrier”). Esses temas apresentam alta coesão interna, mas menor influência sobre o restante da literatura, refletindo aplicações concentradas em contextos específicos – saúde, identidade digital, setores regulados e cadeias de suprimentos com foco em sustentabilidade e food supply – em que a blockchain responde a requisitos particulares de rastreabilidade, privacidade e conformidade regulatória. Os achados reforçam a percepção de maturidade do campo, com um núcleo conceitual consolidado e frentes aplicadas em expansão. Estudos como Alketbi et al. (2020), Khan et al. (2018, 2020) e Cagigas et al. (2021) destacam a emergência de estudos-pilotos governamentais em serviços, votação eletrônica e gestão documental, mas enfatizam a distância entre provas de conceito e adoção em larga escala. Este estudo amplia essa leitura ao mostrar que, embora temas relacionados à segurança, criptografia e cibersegurança apresentem alta densidade e centralidade, áreas vitais à formulação de políticas públicas, auditoria governamental e avaliação de impacto permanecem configurações temáticas de nicho ou emergentes, indicando oportunidades para aprofundamento teórico e empírico. A partir dessa análise, sintetiza-se uma perspectiva SWOT quanto ao uso da blockchain no setor público. A análise distingue forças e fraquezas (ambiente interno) e oportunidades e ameaças (ambiente externo). Entre as forças destacam-se a capacidade da tecnologia para prover trilhas de auditoria imutáveis, fortalecer a integridade dos registros e viabilizar contratos inteligentes em cadeias de suprimentos, serviços públicos e transferências intergovernamentais. A centralidade dos trabalhos de Saberi et al. (2019), Yuan e Wang (2016) e Kshetri (2017) demonstra que a comunidade científica reconhece a blockchain como componente estrutural no desenvolvimento de arquiteturas para governos digitais, especialmente em contextos que exigem confiança distribuída e verificação independente. As fraquezas incluem limitações de escalabilidade, desafios de interoperabilidade e um estágio incipiente de maturidade institucional. Grande parte do corpus foca em protótipos e propostas conceituais, com escassez de avaliações rigorosas de custo-benefício, impactos regulatórios e comparações de desempenho. Além disso, existem dificuldades para a integração com sistemas legados, carência de competências técnicas e jurídicas, e falta de métricas causais robustas que associem o uso da blockchain a resultados concretos em políticas públicas (FALWADIYA et al., 2022; CAGIGAS et al., 2021). Isso
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 143 sugere que, apesar do discurso favorável, a produção empírica para decisões de investimento e regulação é insuficiente. Oportunidades incluem interoperabilidade interorganizacional, uso de ontologias jurídico-fiscais para automatização de contratos inteligentes e integração com IoT e aprendizado federado, especialmente em cidades inteligentes e saúde digital (HUH et al., 2017; TAN; MAHULA; CROMPVOETS, 2022). A frequência de temas ligados a rastreabilidade, transparência e verificação ambiental reforça o potencial da blockchain para apoiar políticas de compras sustentáveis, cadeias de suprimentos críticas e instrumentos inovadores de accountability (SABERI et al., 2019; DUBEY et al., 2020). O uso em votação eletrônica, registros digitais e serviços públicos indica uma abertura para aprofundar modelos de governança que combinem blockchains permissionadas, padrões abertos para interoperabilidade e supervisão regulatória. A literatura destaca entre as ameaças riscos de concentração tecnológica, dependência de fornecedores exclusivos e lock-in em plataformas proprietárias, além de incertezas regulatórias sobre validade jurídica e gestão de dados pessoais, envolvendo soberania digital (KHAN; SALAH, 2020; ALKETBI et al., 2020). A segurança é crucial: a imutabilidade da blockchain, essencial à auditoria, pode ser incompatível com o direito ao esquecimento e requisitos de anonimização em bases sensíveis (KSHETRI, 2017). A adoção indiscriminada de blockchains públicas ou híbridas em serviços governamentais pode ampliar vulnerabilidades a ataques, sem políticas adequadas para gestão de chaves, governança de dados e resposta a incidentes. A Figura 6 apresenta uma matriz SWOT. Nela, forças como integridade, rastreabilidade e automação por contratos inteligentes contrastam com fraquezas técnicas e institucionais como escalabilidade e carência de capacitação. A matriz também mostra oportunidades em sustentabilidade, cidades inteligentes e auditoria, e ameaças de riscos regulatórios e dependência tecnológica. Os resultados indicam que a blockchain no setor público está em um momento decisivo. Há um arcabouço sólido de conhecimento técnico e aplicações relevantes nas cadeias de suprimentos, segurança e cidades inteligentes, mas persistem lacunas críticas que demandam avanços em métricas de avaliação, governança, interoperabilidade e regulação. A consolidação dos quatro pilares — sustentabilidade, fundamentos conceituais, integrações tecnológicas e segurança — pode embasar pesquisas e políticas públicas mais maduras, efetivas e socialmente responsáveis. O futuro da blockchain na gestão pública depende da combinação de avanços tecnológicos, políticas públicas eficazes e capacitação institucional, que consolidem a tecnologia como infraestrutura fundamental para governos digitais e inclusivos.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 144 Figura 6 - Matriz SWOT da adoção da tecnologia blockchain no setor público Fonte: Elaboração própria. CONCLUSÃO A análise bibliométrica de 1.867 documentos revelou que a tecnologia blockchain consolidou-se como tema central nas agendas internacionais de pesquisa sobre governo digital e administração pública. As redes de coocorrência, o mapa temático e a cocitação evidenciaram que o campo se organiza em torno de quatro pilares principais: (i) fundamentos técnicos e financeiros da tecnologia, incluindo criptografia, mecanismos de consenso, integridade de dados e criptoativos; (ii) aplicações em governo e serviços públicos, em que blockchain, smart contracts e tecnologias de registros distribuídos são associados a transparência, confiança, setor público, transformação digital e auditoria; (iii) convergência tecnológica com Internet das Coisas, inteligência artificial, cibersegurança e aprendizado de máquina, compondo arquiteturas integradas de governança digital; e (iv) domínios setoriais e nichos especializados, como registros eletrônicos em saúde, biometria, identidade digital, mercados imobiliários, cadeias de suprimentos e sustentabilidade alimentar. Esses resultados indicam que a blockchain é tratada como infraestrutura de confiança distribuída, articulando debates técnicos e institucionais em torno de transparência, integridade de registros e coordenação interorganizacional em ambientes públicos. O estudo apresenta limitações que delimitam o alcance de suas conclusões e, ao mesmo tempo, abrem uma agenda clara de pesquisas futuras. A utilização exclusiva da Scopus pode ter subestimado a