Revista Novos Desafios - v. 5, n. 2, 2025, p. 01-12 ISSN 2764-1724 DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17649500 1 CULTURAS ALTERNATIVAS À MONOCULTURA DE SOJA NO NORTE DO BRASIL: PERSPECTIVAS PARA O GERGELIM E O ARROZ DE TERRAS ALTAS ALTERNATIVE CROPS TO SOYBEAN MONOCULTURE IN NORTHERN BRAZIL: PERSPECTIVES FOR SESAME AND UPLAND RICE Ana Taynara Araújo PEREIRA ORCID: https://orcid.org/0009-0006-6283-9241 Instituto Educacional Santa Catarina Faculdade Guaraí (IESC/FAG) E -mail:
[email protected] Guilherme Silva BRANQUINHO ORCID: https://orcid.org/0009-0000-3778-7351 Instituto Educacional Santa Catarina Faculdade Guaraí (IESC/FAG) E -mail: guilhermesil[email protected] Israel Barbosa LIMA ORCID: https://orcid.org/ 0009-0000-1774-870X Instituto Educacional Santa Catarina Faculdade Guaraí (IESC/FAG) E -mail:
[email protected] Carla Regina Rocha GUIMARÃES ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2428-4709 Instituto Educacional Santa Catarina Faculdade Guaraí (IESC/FAG) E -mail:
[email protected] Rosângela Aparecida Pereira de OLIVEIRA ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0047-7242 Instituto Educacional Santa Catarina Faculdade Guaraí (IESC/FAG) E-mail:
[email protected] RESUMO A monocultura da soja consolidou-se como um dos pilares do agronegócio brasileiro, especialmente no Norte do país, gerando ganhos expressivos em exportações, mas também impactos socioambientais significativos. O modelo produtivo baseado em grandes extensões homogêneas contribui para a degradação do solo, o aumento de conflitos fundiários e a dependência do mercado externo. Nesse contexto, este trabalho, de caráter bibliográfico, analisou alternativas viáveis à soja, com ênfase no gergelim e no arroz de terras altas. O gergelim, pela sua adaptabilidade e pela crescente demanda internacional, destaca-se como opção de diversificação de segunda safra, apresentando baixo custo de implantação e bom potencial econômico. Já o arroz de terras altas sobressai-se pela contribuição à segurança alimentar e pelo uso em sistemas produtivos sustentáveis, com cultivares modernas adaptadas a condições adversas. A revisão evidenciou que a integração dessas culturas em sistemas diversificados fortalece a resiliência agrícola e contribui para a sustentabilidade regional. Conclui-se que o fortalecimento de cadeias produtivas alternativas é estratégico para reduzir os riscos da monocultura e promover o desenvolvimento equilibrado no meio rural. Palavra-chave: Monocultura de soja. c. Arroz de terras altas. Sustentabilidade agrícola. Diversificação produtiva. ABSTRATC Soybean monoculture has become one of the cornerstones of Brazilian agribusiness, especially in the North, generating significant export revenues but also producing socio-environmental impacts. The production model based on large homogeneous areas contributes to soil degradation, land
Revista Novos Desafios - v. 5, n. 2, 2025, p. 01-12 ISSN 2764-1724 DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17649500 2 conflicts, and dependence on external markets. In this context, this bibliographic study analyzed viable alternatives to soybean, focusing on sesame and upland rice. Sesame, due to its adaptability and increasing international demand, stands out as a second-crop diversification option, with low implementation costs and strong economic potential. Upland rice, in turn, is distinguished by its contribution to food security and its use in sustainable production systems supported by modern cultivars adapted to adverse conditions. The review showed that integrating these crops into diversified systems strengthens agricultural resilience and promotes regional sustainability. It is concluded that fostering alternative production chains is a strategic pathway to mitigate monoculture risks and promote balanced rural development. Keywords: Soybean monoculture. Sesame. Upland rice. Agricultural sustainability. Productive diversification. INTRODUÇÃO A agricultura brasileira avançou com força nas últimas décadas, especialmente pela expansão de poucas culturas que dominam grandes áreas produtivas. Entre elas, a soja ocupa lugar central, sobretudo no Norte do país, onde seu cultivo se consolidou como motor econômico regional. Apesar dos ganhos em exportação e da importância para o agronegócio, o modelo baseado em monoculturas tem despertado preocupação crescente, já que seus impactos ambientais e sociais se tornam cada vez mais evidentes (Andrade; Silva, 2023). À medida que novas áreas são abertas para o cultivo, aumentam também a pressão sobre ecossistemas frágeis da Amazônia e o debate sobre a sustentabilidade desses sistemas produtivos (MONTEIRO et al., 2024). Embora lucrativa, a expansão da soja carrega desafios estruturais. A dependência de insumos químicos, a queda gradual da fertilidade do solo e a perda de biodiversidade revelam limitações importantes (SAITH; SANTOS; VILARINHO, 2024). Além disso, um sistema tão concentrado deixa produtores vulneráveis às oscilações do mercado internacional e às mudanças do clima, fatores que afetam diretamente a estabilidade econômica da região (Embrapa, 2023). Diante desse quadro, abre-se espaço para discutir modelos agrícolas mais diversos, adaptados às dinâmicas locais e capazes de reduzir riscos sem comprometer a produtividade (MONTEIRO et al., 2024). Nesse processo, culturas alternativas ganham relevância. O gergelim, por exemplo, tem avançado rapidamente no Brasil, alcançando crescimento superior a 200% em área plantada nos últimos anos (EMBRAPA, 2021). Sua rusticidade, associada ao bom desempenho em regiões como o Cerrado e a Amazônia, somada à crescente demanda internacional, especialmente da China, o coloca entre as opções mais promissoras para diversificação produtiva (AGÊNCIA GOV, 2024). Outro cultivo que ressurge como alternativa sólida é o arroz de terras altas. Tradicional no interior brasileiro, ele tem se fortalecido com o desenvolvimento de novas cultivares capazes de manter boa produtividade mesmo sob condições menos favoráveis, como baixa fertilidade do solo e variações climáticas acentuadas (GARCIA et al., 2024). O avanço de técnicas como o plantio direto e a adaptação ao ambiente do Cerrado ampliam seu potencial dentro de sistemas diversificados, além de contribuir para a segurança alimentar (LACERDA; NASCENTE, 2021). Ao avaliar essas alternativas, não se trata apenas de comparar retornos econômicos, mas de compreender como cada cultura pode fortalecer a resiliência da agricultura regional. O gergelim tende a se destacar pelo baixo custo de implantação e pela forte inserção no mercado internacional (CHRISTO et al., 2024). Já o arroz de terras altas, voltado majoritariamente ao abastecimento interno, oferece estabilidade produtiva e reduz a dependência de insumos externos (FURTINI et al., 2022). Em conjunto, ambas as culturas
Revista Novos Desafios - v. 5, n. 2, 2025, p. 01-12 ISSN 2764-1724 DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17649500 3 apresentam potencial para complementar a soja e reduzir vulnerabilidades enfrentadas pelos produtores (EMBRAPA AGROSSILVIPASTORIL, 2024). A literatura recente confirma que sistemas diversificados são mais sustentáveis e apresentam maior capacidade de adaptação ao longo do tempo, especialmente em regiões sensíveis como Amazônia e Cerrado (EMBRAPA, 2023). Estratégias que combinam diferentes culturas favorecem a conservação do solo, ampliam a ciclagem de nutrientes e fortalecem economicamente pequenos e médios produtores (MONTEIRO et al., 2024). Nesse sentido, analisar o papel do gergelim e do arroz de terras altas como alternativas à monocultura de soja revela caminhos possíveis para o desenvolvimento agrícola no Norte do Brasil. Diante desse cenário, este trabalho tem como objetivo analisar o potencial do gergelim e do arroz de terras altas como opções sustentáveis à monocultura da soja no Norte brasileiro, considerando aspectos de manejo, produção e viabilidade econômica. Para atingir esse propósito, realizou-se uma revisão bibliográfica baseada em publicações nacionais e internacionais, consultando bases como SciELO, Periódicos CAPES e repositórios da Embrapa. O levantamento abrangeu o período de 2020 a 2025 e utilizou descritores como “soja”, “monocultura”, “gergelim”, “arroz de terras altas” e “culturas alternativas”. Foram selecionados artigos científicos, documentos técnicos e obras de referência em português e inglês, garantindo atualidade e consistência às informações analisadas. REVISÃO DE LITERATURA A monocultura da soja no Norte do Brasil A soja tornou-se, ao longo das últimas décadas, uma das culturas mais relevantes do país, tanto pela força econômica quanto pela expressiva participação nas exportações do agronegócio. Inicialmente concentrada nas regiões Sul e Centro-Oeste, a cultura avançou rapidamente para o Norte, impulsionada pela busca por novas áreas produtivas e pelo estímulo de políticas públicas voltadas à expansão agrícola. Esse movimento ampliou a competitividade brasileira no cenário internacional, mas também trouxe uma série de preocupações socioambientais que vêm ganhando espaço no debate acadêmico (ANDRADE; SILVA, 2023). Do ponto de vista econômico, o cultivo da soja contribuiu para dinamizar cadeias produtivas inteiras, envolvendo transporte, armazenamento, insumos e processamento industrial. Ainda assim, o fato de o setor depender fortemente de um único produto expõe agricultores e regiões produtoras às oscilações do mercado externo, sobretudo em função da dependência comercial da China. Esse modelo, apesar de lucrativo, revela uma estrutura frágil sempre que há instabilidade global ou flutuações de preço (ANDRADE; SILVA, 2023). A chegada da soja ao Norte ocorreu de forma acelerada, transformando territórios ocupados historicamente por comunidades tradicionais, agricultores familiares e povos indígenas. A disputa por terra intensificou conflitos fundiários e ampliou tensões em torno da segurança alimentar e da proteção ambiental. Diversos estudos indicam que o avanço desordenado do agronegócio contribui para acirrar o debate sobre o futuro da Amazônia, cuja preservação tem importância global (MONTEIRO et al., 2024). O crescimento da área cultivada acompanha o avanço da fronteira agrícola, ampliando o desmatamento e pressionando ecossistemas que já operam no limite. Em muitos casos, esse avanço segue modelos de produção focados exclusivamente no mercado externo, priorizando ganhos imediatos em detrimento do ordenamento territorial.
Revista Novos Desafios - v. 5, n. 2, 2025, p. 01-12 ISSN 2764-1724 DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17649500 4 Grandes empresas e cooperativas têm papel central nessa dinâmica, aumentando a concentração fundiária e reduzindo o espaço para atividades agrícolas diversificadas (MONTEIRO et al., 2024). Sob a perspectiva espacial, observa-se que a soja se expande de forma seletiva pela Amazônia Legal, ocupando áreas antes destinadas à pecuária ou à produção de subsistência. Essa expansão não ocorre de maneira uniforme, pois tende a se concentrar em regiões próximas a rodovias, portos e polos de escoamento, elementos que reduzem custos logísticos e influenciam diretamente a competitividade. Esse padrão contribui para a homogeneização da paisagem e para a redução da diversidade agrícola regional (SAITH; SANTOS; VILARINHO, 2024). Além disso, os estudos recentes apontam que grande parte da expansão ocorre justamente sobre áreas ambientalmente sensíveis, o que aumenta a pressão internacional para que o Brasil adote práticas mais transparentes e sustentáveis. À medida que a cultura avança para regiões remotas, cresce também o custo de transporte e armazenamento, reduzindo parte da rentabilidade que parecia garantida no campo. Esses fatores tornam evidente a necessidade de políticas que conciliem a produção agrícola com a conservação dos ecossistemas amazônicos (SAITH; SANTOS; VILARINHO, 2024). Embora a soja tenha papel inegável na economia nacional, há consenso de que o modelo de monocultura impõe limites consideráveis à sustentabilidade. O uso contínuo de insumos químicos, associado ao cultivo sucessivo, favorece processos de degradação física e química do solo, perda de fertilidade e redução dos serviços ecossistêmicos essenciais para o próprio funcionamento da agricultura (EMBRAPA, 2023). A longo prazo, esses impactos comprometem a capacidade produtiva e aumentam os riscos enfrentados pelos agricultores. Para reduzir tais vulnerabilidades, a literatura destaca a importância de sistemas mais diversificados e integrados, que conciliem produtividade e conservação ambiental. Estratégias como rotação de culturas, sistemas consorciados e inserção de espécies adaptadas ao clima regional têm se mostrado eficazes na restauração do solo, no controle de pragas e na melhoria da resiliência produtiva. Tais práticas, já amplamente utilizadas no Cerrado, mostram-se aplicáveis também às áreas em expansão no Norte (EMBRAPA, 2023). Nesse sentido, analisar a monocultura da soja implica reconhecer tanto seus benefícios econômicos quanto suas fragilidades socioambientais. A expansão acelerada exige um planejamento territorial mais cuidadoso e a busca por alternativas que reduzam a dependência exclusiva dessa cultura. É nesse contexto que entram opções como o gergelim e o arroz de terras altas, capazes de ampliar a estabilidade econômica da região e promover modelos mais equilibrados de desenvolvimento agrícola (EMBRAPA, 2023). Impactos da monocultura de soja Os efeitos da monocultura de soja no Norte do Brasil vão muito além dos resultados produtivos e alcançam dimensões sociais que raramente aparecem nos discursos oficiais do agronegócio. O avanço de grandes áreas cultivadas provoca um estreitamento das oportunidades para pequenos agricultores e comunidades locais, uma vez que a renda gerada pelo setor tende a se concentrar em grupos empresariais com maior capacidade de investimento. Em consequência, muitos produtores familiares perdem espaço e enfrentam dificuldades para manter suas atividades no campo (ANDRADE; SILVA, 2023). Esse quadro ajuda a explicar o aumento do êxodo rural em várias regiões. A lógica produtiva da soja, altamente dependente de tecnologia, mecanização e insumos caros, inviabiliza a permanência de agricultores que não conseguem competir nesses termos. A
Revista Novos Desafios - v. 5, n. 2, 2025, p. 01-12 ISSN 2764-1724 DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17649500 5 migração para centros urbanos acaba sendo a alternativa mais frequente, mas ela não resolve o problema de fundo: a perda de práticas agrícolas tradicionais e a redução da diversidade cultural associada ao modo de vida rural. É um processo silencioso, porém profundo, que fragiliza as comunidades e aprofunda desigualdades regionais (ANDRADE; SILVA, 2023). Outro aspecto crítico envolve a precarização do trabalho. Como os cultivos de soja funcionam com forte mecanização, a demanda por mão de obra permanente é baixa. As contratações se concentram em períodos específicos, em geral com vínculos temporários e remuneração reduzida. Em alguns casos, investigações apontam informalidade e o descumprimento de direitos trabalhistas, elementos que reforçam a vulnerabilidade dos trabalhadores empregados nesse segmento (MONTEIRO et al., 2024). Os conflitos pelo uso da terra também se intensificam com a expansão do agronegócio. Em várias áreas do Norte, o avanço das plantações afeta diretamente territórios ocupados por povos indígenas, comunidades quilombolas e pequenos agricultores, gerando disputas que extrapolam a esfera produtiva. Essas tensões envolvem questões jurídicas, políticas e territoriais, comprometendo a governança e dificultando a implementação de medidas públicas que garantam segurança e justiça no campo (MONTEIRO et al., 2024). Do lado ambiental, a monocultura exerce pressão contínua sobre os ecossistemas amazônicos. A abertura de novas áreas provoca fragmentação florestal, perda de habitats e redução significativa da biodiversidade. Esses danos não se manifestam de forma isolada; eles se acumulam ao longo do tempo, alterando ciclos ecológicos essenciais e tornando os ambientes mais vulneráveis à ação de espécies invasoras. O impacto final é a diminuição da capacidade natural de regeneração, prejudicando o equilíbrio ambiental da região (EMBRAPA, 2023). A utilização intensiva de agrotóxicos e fertilizantes, característica do cultivo de soja, representa outro desafio importante. A contaminação de solos e águas resulta não apenas em desequilíbrios ambientais, mas também em riscos à saúde de comunidades vizinhas. Pesquisas relatam aumento de casos de intoxicação e doenças relacionadas à exposição a produtos químicos, o que eleva o custo social e demanda vigilância contínua das autoridades sanitárias e ambientais (EMBRAPA, 2023). No plano territorial, a expansão da soja substitui sistemas agrícolas diversos por grandes extensões homogêneas e mecanizadas. Áreas antes dedicadas à produção de alimentos básicos, como mandioca, hortaliças ou pequenas criações, acabam cedendo espaço ao grão destinado majoritariamente à exportação. Esse processo compromete a soberania alimentar local e torna a economia agrícola regional mais dependente de um único produto, ampliando a vulnerabilidade frente às mudanças climáticas ou oscilações de mercado (SAITH; SANTOS; VILARINHO, 2024). As transformações territoriais também atingem a infraestrutura da região. O escoamento da produção depende de estradas, ferrovias e portos, obras que impactam diretamente o ambiente e, muitas vezes, acabam deslocando populações inteiras. Embora esses investimentos sejam apresentados como iniciativas de desenvolvimento, nem sempre correspondem às necessidades das comunidades locais. Além disso, o custo logístico elevado, especialmente em áreas mais remotas, evidencia uma dependência excessiva de um modelo produtivo de grande escala (SAITH; SANTOS; VILARINHO, 2024). Diante do conjunto desses impactos, torna-se inevitável repensar o papel da soja no Norte do Brasil. O modelo atual prioriza ganhos imediatos e ignora, em grande medida, a dimensão socioambiental. A literatura aponta que práticas de diversificação, rotação de culturas e valorização de sistemas produtivos regionais podem mitigar parte desses
Revista Novos Desafios - v. 5, n. 2, 2025, p. 01-12 ISSN 2764-1724 DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17649500 6 problemas, além de fortalecer a resiliência agrícola. São caminhos possíveis e urgentes para equilibrar produção, conservação ambiental e justiça social (EMBRAPA, 2023). O gergelim como alternativa agrícola Nos últimos anos, o gergelim passou a ocupar um espaço cada vez maior na agricultura brasileira, principalmente em regiões onde a soja domina o cenário produtivo. A ampliação da área plantada, que ultrapassou os 200% em apenas um ano, evidencia não só a força da demanda interna e externa, mas também a capacidade dessa cultura de se adaptar às condições climáticas e edáficas típicas do Norte e do Centro-Oeste (EMBRAPA, 2021). Esse avanço demonstra que o gergelim deixou de ser uma cultura marginal para tornar-se alternativa real dentro das estratégias de diversificação agrícola. Uma das razões para seu crescimento está ligada ao conjunto de características agronômicas que o tornam especialmente atrativo. O ciclo relativamente curto, variando entre 90 e 120 dias, e a baixa exigência em fertilidade do solo permitem que seja cultivado tanto em áreas marginais quanto em sistemas rotacionados. Em regiões onde o clima impõe desafios constantes e o uso de insumos precisa ser racionalizado, o gergelim oferece vantagens claras ao produtor e ao ambiente, favorecendo sistemas mais equilibrados e menos dependentes de insumos externos (EMBRAPA ALGODÃO, 2023). A diversidade de respostas produtivas entre soja e gergelim pode ser visualizada na Tabela 1, que reúne alguns dos principais indicadores comparativos adotados na literatura para avaliar o potencial de cada cultura em regiões tropicais. Tabela 1 – Comparativo produtivo e econômico entre soja e gergelim Indicador Soja Gergelim Ciclo produtivo (dias) 110–130 90–110 Produtividade média (kg/ha) 3.200–3.600 800–1.200 Custo médio de produção (R$/ha) 5.000–5.500 2.800–3.500 Fonte: Embrapa (2023). Do ponto de vista do manejo, a cultura exige certa atenção ao preparo do solo, já que a drenagem inadequada compromete o estabelecimento das plantas. Práticas como plantio direto, adubação equilibrada e manejo cuidadoso da umidade são essenciais para alcançar produtividades competitivas. Em diversas regiões, o gergelim tem sido integrado a sistemas agrícolas que buscam recuperar áreas degradadas, oferecendo cobertura vegetal e contribuindo para a melhoria da estrutura do solo (EMBRAPA, 2024). Outro elemento decisivo para a expansão do cultivo é a qualidade dos grãos. Pesquisas realizadas em Mato Grosso mostram que o método de colheita interfere diretamente na pureza, na umidade e na composição nutricional, atributos que se tornaram cruciais para atender exigências de mercados internacionais cada vez mais rigorosos. Isso reforça a importância da fase de pós-colheita como determinante não apenas da qualidade final, mas também do valor comercial alcançado pelo produto (EMBRAPA AGROSSILVIPASTORIL, 2022). A inserção do gergelim na segunda safra é hoje uma prática consolidada em diversas regiões produtoras. Em Mato Grosso, por exemplo, a cultura se ajustou bem aos intervalos deixados por soja e milho, permitindo que o produtor utilize melhor a área ao longo do ano e reduza períodos de ociosidade. Além disso, a rotação com grãos tradicionais auxilia na quebra do ciclo de pragas e na manutenção da fertilidade do solo, o que fortalece sistemas produtivos mais duráveis e eficientes (EMBRAPA AGROSSILVIPASTORIL, 2024).
Revista Novos Desafios - v. 5, n. 2, 2025, p. 01-12 ISSN 2764-1724 DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17649500 7 No campo econômico, o gergelim tem demonstrado desempenho competitivo, especialmente em sistemas de segunda safra. Como parte da infraestrutura já está instalada após a colheita principal, os custos de produção tendem a ser menores, o que eleva as margens de rentabilidade. O mercado internacional, sobretudo no setor de alimentos e óleos vegetais, tem contribuído para manter preços atrativos e incentivar novos produtores a incluí-lo em seus sistemas de produção (CHRISTO et al., 2024). A ampliação da presença do Brasil no mercado global é outro indicativo da força crescente dessa cadeia produtiva. O acordo firmado com a China em 2024 consolidou o país como fornecedor relevante, abrindo portas para novos mercados e reforçando a importância estratégica da cultura dentro do agronegócio nacional (AGÊNCIA GOV, 2024). Essa internacionalização mostra que o gergelim, além de contribuir para sistemas agrícolas mais sustentáveis, projeta o Brasil de forma competitiva nas redes de comércio mundial. O gergelim surge como alternativa sólida à monocultura da soja no Norte do Brasil. Seu avanço recente, somado à adaptabilidade, ao baixo custo produtivo e à crescente demanda externa, confirma sua relevância econômica e ambiental. Para consolidar esse caminho, é fundamental investir em tecnologias de manejo, aprimorar a qualidade do grão e fortalecer a inserção do produto em mercados internacionais, elementos essenciais para ampliar sua contribuição à diversificação agrícola nacional (EMBRAPA ALGODÃO, 2023; AGÊNCIA GOV, 2024). O arroz de terras altas como alternativa O arroz de terras altas tem assumido posição cada vez mais relevante nas discussões sobre diversificação agrícola no Brasil, especialmente nas regiões onde o cultivo irrigado não é viável. Por ser adaptado a condições de sequeiro, o sistema se torna acessível a pequenos e médios produtores, que frequentemente enfrentam limitações estruturais e climáticas. O avanço no desenvolvimento de cultivares mais tolerantes ao estresse ambiental permitiu que o cultivo alcançasse níveis de produtividade competitivos, mesmo em áreas marcadas por solos menos férteis ou por variações climáticas acentuadas. Ensaios recentes confirmam que diversas linhagens mantêm desempenho estável sob tais condições (GARCIA et al., 2024). Durante muitos anos, uma das principais fragilidades do arroz de sequeiro foi a baixa tolerância a temperaturas extremas. Esse obstáculo, no entanto, vem sendo mitigado graças ao lançamento de materiais genéticos capazes de manter produtividade sob frio moderado, característica especialmente útil em áreas de Cerrado e zonas de transição amazônica. Essas melhorias ampliam o alcance geográfico do cultivo e oferecem uma alternativa mais estável para agricultores que lidam com altos riscos climáticos, contribuindo para maior segurança produtiva (GARCIA et al., 2024). As diferenças estruturais entre a soja e o arroz de terras altas são sintetizadas na Tabela 2, que reúne indicadores essenciais de exigência hídrica, produtividade e adaptabilidade ambiental. Tabela 2 – Indicadores agronômicos comparativos entre soja e arroz de terras altas Indicador Soja Arroz de terras altas Exigência de água Alta Média a baixa Produtividade média (kg/ha) 3.200–3.600 2.500–3.000 Adaptação a diferentes solos Média Alta Fonte: Lacerda; Nascente (2021).
Revista Novos Desafios - v. 5, n. 2, 2025, p. 01-12 ISSN 2764-1724 DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17649500 8 Um marco decisivo para a consolidação do arroz de terras altas foi o lançamento da cultivar BRS A502, resultado de programas de melhoramento genético voltados para sistemas intensivos e sustentáveis. Essa cultivar apresenta resistência ampliada a pragas e doenças, além de responder bem em ambientes onde práticas conservacionistas, como o plantio direto, são adotadas. Seu ciclo relativamente curto facilita a inclusão em esquemas de rotação, permitindo ao produtor aproveitar melhor a área disponível e aumentar a rentabilidade, inclusive em propriedades de menor escala (FURTINI et al., 2022). O conjunto de tecnologias voltadas para esse sistema também ampliou suas possibilidades de expansão. Técnicas como plantio direto, manejo rigoroso da fertilidade do solo e controle integrado de pragas vêm sendo ajustadas à realidade do Norte, onde solos mais ácidos e de baixa fertilidade representam desafios permanentes. A adoção dessas práticas ajuda a estabilizar a produtividade e dá maior previsibilidade ao cultivo, aspecto fundamental para agricultores que operam em condições adversas (LACERDA; NASCENTE, 2021). Além da eficiência produtiva, o plantio direto agrega benefícios ambientais relevantes. A manutenção da palhada contribui para conservar a umidade, reduzir a erosão e favorecer a ciclagem de nutrientes. Experiências conduzidas no Cerrado mostram que essa tecnologia, quando bem manejada, supera o desempenho de sistemas convencionais, reafirmando seu potencial para áreas onde a sustentabilidade é condição indispensável para a continuidade da atividade agrícola (LACERDA; NASCENTE, 2021). Do ponto de vista econômico, contudo, o arroz de terras altas não está isento de desafios. Os custos de produção aumentaram nos últimos anos, pressionados pelo preço de insumos e pela demanda maior por mecanização. Relatórios técnicos registraram incrementos significativos nos custos médios por hectare em 2022, o que exige planejamento e maior eficiência no uso de recursos. Ainda assim, a importância do arroz para o abastecimento interno mantém o cultivo atrativo, especialmente em regiões com dependência elevada de alimentos básicos (EMBRAPA, 2022). O papel estratégico do arroz de terras altas não se limita ao retorno financeiro. Inserido em sistemas produtivos dominados pela soja, ele contribui para ampliar a segurança alimentar, distribuir riscos e melhorar a estrutura do solo por meio da rotação. Em áreas onde predomina o monocultivo, sua presença ajuda a quebrar ciclos de pragas e reduzir a pressão ambiental exercida por sistemas altamente especializados. Assim, funciona tanto como cultura comercial quanto como componente-chave de sistemas agrícolas sustentáveis (FURTINI et al., 2022). Nesse conjunto de fatores, o arroz de terras altas se firma como alternativa sólida para a agricultura do Norte do Brasil. A combinação entre avanços tecnológicos, capacidade de produção em ambientes desafiadores e contribuição direta para a estabilidade dos sistemas diversificados reforça sua importância estratégica. O fortalecimento dessa cadeia depende, sobretudo, da ampliação do acesso a cultivares adaptadas, da assistência técnica contínua e do estímulo a práticas conservacionistas, consolidando-o como peça essencial no redesenho produtivo regional (LACERDA; NASCENTE, 2021; EMBRAPA, 2022). Comparação de viabilidade entre soja, gergelim e arroz de terras altas A comparação entre soja, gergelim e arroz de terras altas exige considerar mais que produtividade. Elementos como sustentabilidade, estabilidade de mercado e capacidade de adaptação às condições locais também pesam na avaliação. A soja continua ocupando posição central na economia do agronegócio brasileiro pela elevada capacidade de exportação e pela infraestrutura consolidada que sustenta sua cadeia produtiva. No
Revista Novos Desafios - v. 5, n. 2, 2025, p. 01-12 ISSN 2764-1724 DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17649500 9 entanto, essa liderança revela fragilidades quando se observa a dependência excessiva de um único produto e os impactos socioambientais que acompanham seu avanço territorial no Norte (ANDRADE; SILVA, 2023). Embora apresente margens de lucro consistentes, a soja opera fortemente vinculada ao mercado externo, especialmente ao ritmo das importações chinesas. Essa dependência expõe os produtores a oscilações de preço, flutuações cambiais e barreiras comerciais que podem comprometer o retorno financeiro em determinados ciclos. Por isso, cresce o entendimento de que a diversificação agrícola não é apenas uma alternativa desejável, mas uma estratégia necessária para reduzir vulnerabilidades e ampliar a segurança econômica das regiões produtoras (ANDRADE; SILVA, 2023). A dimensão socioambiental também pesa nesse diagnóstico. O avanço da soja é apontado como um dos fatores que mais suscitam conflitos socioambientais na Amazônia, envolvendo disputas fundiárias, pressão sobre territórios de comunidades tradicionais e desafios à governança territorial. A transformação acelerada desses espaços afeta diretamente modelos de ocupação, enfraquece iniciativas de inclusão social e aumenta pressões internacionais por práticas produtivas mais equilibradas (Monteiro et al., 2024). Essas diferenças tornam-se mais visíveis quando sintetizadas na Tabela 3, que reúne indicadores centrais de viabilidade econômica, ambiental e social para cada cultura. Tabela 3 – Viabilidade geral das culturas analisadas no Norte do Brasil Indicador Soja Gergelim Arroz de terras altas Retorno econômico estimado (R$/ha) 1.000– 1.300 900– 1.100 700–900 Sustentabilidade ambiental Média Alta Alta Potencial de diversificação Baixo Alto Médio Fonte: Embrapa (2023). Do ponto de vista territorial, a soja promove mudanças expressivas na ocupação da terra, substituindo sistemas diversos por extensas áreas homogêneas. Estudos recentes mostram que essa expansão tende a se concentrar em regiões com facilidade logística, enquanto áreas periféricas enfrentam altos custos de transporte, o que reduz a competitividade e acentua desigualdades produtivas (SAITH; SANTOS; VILARINHO, 2024). É nesse cenário que o gergelim se destaca como alternativa robusta. Seu ciclo curto, aliado ao baixo custo de implantação, o torna atraente para regiões com limitações estruturais. Pesquisas apontam que, especialmente na segunda safra, o gergelim alcança retornos econômicos comparáveis aos de grãos tradicionais, com a vantagem adicional da demanda internacional crescente, o que reforça seu valor estratégico dentro de sistemas diversificados (CHRISTO et al., 2024). A versatilidade de uso também contribui para sua viabilidade. O gergelim abastece segmentos distintos, como a indústria de óleos, o setor alimentício e o mercado cosmético, o que reduz a dependência de um único nicho consumidor. Essa amplitude de inserção confere maior estabilidade ao produtor e amplia as possibilidades de renda em regiões marcadas pela predominância da soja (CHRISTO et al., 2024). O arroz de terras altas, por sua vez, ocupa outro lugar na lógica produtiva: sua principal força está relacionada à segurança alimentar e à capacidade de integrar sistemas de cultivo mais equilibrados. As cultivares modernas têm mostrado resistência a condições ambientais adversas, incluindo baixas temperaturas e solos de menor fertilidade, o que