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DEPRESSIVE AND ANXIETY SYMPTOMS IN HEALTHCARE PROFESSIONALS FROM EMERGENCY CARE UNITS IN THE CONTEXT OF THE COVID-19 PANDEMIC

DANTAS, Ana Patrícia de Queiroz Medeiros; QUEIROZ, Salomão Israel Monteiro Lourenço; SOUSA, Lucas Cavalcante de; GUERRA, Eliana Costa; FERREIRA, Maria Angela Fernandes

Abstract

This study aims to analyze depressive and anxiety symptoms among healthcare professionals working in Emergency Care Units (UPAs) in Natal, Brazil, in the context of COVID-19 pandemic, identifying prevalence rates and associated factors. A quantitative, cross-sectional study was conducted with 172 healthcare professionals. Data were collected in the second half of 2022 and included sociodemographic, occupational, and clinical information, along with the application of instruments to assess depressive (BDI) and anxiety (BAI) symptoms. The results showed that approximately 29% of participants presented moderate to severe anxiety symptoms, and 16% presented moderate to severe depressive symptoms. Multivariate analysis revealed significant associations between depressive symptoms and burnout subscales, especially emotional exhaustion (p = 0.034) and low personal accomplishment (p = 0.003). Additionally, factors such as Black and Brown race/color (p = 0.006) and mixed or night work shifts (p = 0.044) were significantly associated with more severe depressive symptoms. Regarding moderate/severe anxiety symptoms, significant associations were found with race (Black and Brown individuals) (p = 0.031), insufficient Personal Protective Equipment (PPE) (p = 0.016), loss of family members to COVID-19 (p = 0.032), and the presence of clinical comorbidities (p = 0.044). This study highlights the urgent need for public policies aimed at promoting the mental health of frontline healthcare workers, with a focus on racial equity, workplace safety, and psychosocial support.

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www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 70, Boa Vista, 2025 211 O Boletim de Conjuntura (BOCA) publica ensaios, artigos de revisão, artigos teóricos e empíricos, resenhas e vídeos relacionados às temáticas de políticas públicas. O periódico tem como escopo a publicação de trabalhos inéditos e originais, nacionais ou internacionais que versem sobre Políticas Públicas, resultantes de pesquisas científicas e reflexões teóricas e empíricas. Esta revista oferece acesso livre imediato ao seu conteúdo, seguindo o princípio de que disponibilizar gratuitamente o conhecimento científico ao público proporciona maior democratização mundial do conhecimento. BOLETIM DE CONJUNTURA BOCA Ano VII | Volume 24 | Nº 70 | Boa Vista | 2025 http://www.ioles.com.br/boca ISSN: 2675-1488 www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 70, Boa Vista, 2025 212 SINTOMAS DEPRESSIVOS E ANSIOSOS EM PROFISSIONAIS DE SAÚDE DAS UNIDADES DE PRONTO ATENDIMENTO NO CONTEXTO DA PANDEMIA DA COVID-19 Ana Patrícia de Queiroz Medeiros Dantas 1 Salomão Israel Monteiro Lourenço Queiroz 2 Lucas Cavalcante de Sousa 3 Eliana Costa Guerra 4 Maria Angela Fernandes Ferreira 5 Resumo Este estudo tem como objetivo analisar os sintomas depressivos e ansiosos em profissionais de saúde das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) de Natal no contexto da pandemia da COVID-19, identificando prevalências e fatores associados. Realizou-se uma pesquisa quantitativa, transversal, com a participação de 172 profissionais de saúde. A coleta de dados ocorreu no segundo semestre de 2022 e incluiu informações sociodemográficas, ocupacionais e clínicas dos participantes, bem como a aplicação dos instrumentos de avaliação de sintomas depressivos (BDI) e ansiosos (BAI). Os resultados mostraram que aproximadamente 29% dos participantes apresentaram sintomas ansiosos moderados a severos, e 16% apresentaram sintomas depressivos moderados a severos. A análise multivariada revelou associações significativas entre os sintomas depressivos e as subescalas de burnout, especialmente a exaustão emocional (p=0,034) e a baixa realização pessoal (p=0,003). Além disso, pretos e pardos (p=0,006) e jornada de trabalho mistas e noturnas (p=0,044) estiveram significativamente associados a sintomas depressivos mais acentuados. Com relação aos sintomas ansiosos moderados/severos foi encontrado associação com a raça (pardos e pretos) (p= 0,031), insuficiência de Equipamentos de Proteção Individual (p=0,016), a perda de familiares por COVID-19 (p=0,032) e à presença de comorbidades clínicas (p=0,044). Este estudo evidencia a necessidade urgente de políticas públicas voltadas à promoção da saúde mental dos trabalhadores da linha de frente, com foco na equidade racial, segurança no trabalho e suporte psicossocial. Palavras-chave: COVID-19; Depressão; Pessoal de Saúde; Transtornos de Ansiedade. Abstract This study aims to analyze depressive and anxiety symptoms among healthcare professionals working in Emergency Care Units (UPAs) in Natal, Brazil, in the context of COVID-19 pandemic, identifying prevalence rates and associated factors. A quantitative, cross-sectional study was conducted with 172 healthcare professionals. Data were collected in the second half of 2022 and included sociodemographic, occupational, and clinical information, along with the application of instruments to assess depressive (BDI) and anxiety (BAI) symptoms. The results showed that approximately 29% of participants presented moderate to severe anxiety symptoms, and 16% presented moderate to severe depressive symptoms. Multivariate analysis revealed significant associations between depressive symptoms and burnout subscales, especially emotional exhaustion (p = 0.034) and low personal accomplishment (p = 0.003). Additionally, factors such as Black and Brown race/color (p = 0.006) and mixed or night work shifts (p = 0.044) were significantly associated with more severe depressive symptoms. Regarding moderate/severe anxiety symptoms, significant associations were found with race (Black and Brown individuals) (p = 0.031), insufficient Personal Protective Equipment (PPE) (p = 0.016), loss of family members to COVID-19 (p = 0.032), and the presence of clinical comorbidities (p = 0.044). This study highlights the urgent need for public policies aimed at promoting the mental health of frontline healthcare workers, with a focus on racial equity, workplace safety, and psychosocial support. Keywords: Anxiety Disorders; COVID-19; Depression; Health Personnel. 1 Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Doutora em Saúde Coletiva. E-mail: [email protected] 2 Doutor em Patologia Oral pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). E-mail: [email protected] 3 Doutorando em Ciências Odontológicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. E-mail: [email protected] 4 Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Doutora em Sociologia. E-mail: [email protected] 5 Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Doutora em Odontologia. E-mail: [email protected] www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 70, Boa Vista, 2025 213 INTRODUÇÃO Os quadros depressivos e os transtornos de ansiedade constituem transtornos mentais com alta prevalência na população geral, afetando também, de forma significativa, os profissionais de saúde. A atuação em serviços de urgência e emergência impõe a esses trabalhadores demandas intensas, longas jornadas, tomada de decisão sob pressão e contato frequente com situações de sofrimento e morte – fatores que contribuem para o aumento do estresse ocupacional. Os adoecimentos mentais foram agravados na população geral e em profissionais de saúde a partir da pandemia da COVID-19. Ao longo do período pandêmico, o Centro de Referência de Saúde do Trabalhador (CEREST-Natal) passou a receber, com frequência crescente, relatos de sofrimento psíquico provenientes de vários profissionais de saúde, principalmente de trabalhadores provenientes das Unidades de Pronto Atendimento (UPA) de Natal, revelando o impacto dos desafios impostos pela crise sanitária, numa classe já fragilizada. A partir das demandas identificadas nas escutas clínicas e nas ações de vigilância em saúde do trabalhador, a equipe do CEREST-Natal em articulação com o grupo de pesquisa de saúde do trabalhador do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (PPGSCol) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), propôs investigar a magnitude do problema. O objetivo do estudo consiste em estimar a prevalência de sintomas depressivos e ansiosos entre profissionais de saúde das UPAs de Natal, com a finalidade de subsidiar outros projetos e ações de saúde do CEREST-Natal. O artigo foi estruturado em seções, iniciando com a introdução, em que consta uma breve elucidação sobre o estudo, identificando seu objetivo e justificativa. A seguir, a fundamentação teórica discute os principais achados da literatura sobre a prevalência dos sintomas depressivos e ansiosos em profissionais de saúde, no contexto da COVID-19. Logo após, a metodologia detalha o delineamento da pesquisa, seguido por apresentação dos resultados a partir de tabelas, gráficos e descrição das análises estatísticas e discussão. Por fim, as considerações finais fazem uma síntese dos resultados, apontam as implicações para as ações em Saúde do Trabalhador e sugerem direções para futuras pesquisas e intervenções. REFERENCIAL TEÓRICO-CONCEITUAL A depressão e os transtornos de ansiedade figuram entre os transtornos mentais mais prevalentes no mundo, impactando significativamente a funcionalidade e a qualidade de vida das pessoas. Em todo o www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 70, Boa Vista, 2025 214 mundo, estima-se que cerca de 280 milhões de pessoas, de todas as idades, sofram com a depressão. Estatisticamente as mulheres são mais afetadas que os homens e está associada a importante sofrimento psicológico, prejuízos sociais e ocupacionais, sendo considerada a quarta principal causa de morte entre pessoas com idade entre 15 e 29 anos (WHO, 2023). No caso específico dos transtornos de ansiedade, estudos como o National Comorbidity Study revelam uma magnitude igualmente preocupante. Estima-se que um em cada quatro indivíduos atenda aos critérios diagnósticos para pelo menos um transtorno de ansiedade ao longo da vida. As mulheres apresentam maior vulnerabilidade, com prevalência de 30,5%, em comparação aos 19,2% entre os homens (KAPLAN; SADOCK, 2017). A gênese desses transtornos envolve disfunções nos circuitos cerebrais relacionados à resposta ao perigo, sendo influenciada por fatores genéticos, ambientais e suas interações epigenéticas. Além disso, os transtornos de ansiedade frequentemente apresentam comorbidade com outros transtornos mentais, especialmente a depressão (PENNINX et al., 2021). Os transtornos depressivos e de ansiedade aumentaram de forma substancial durante 2020 devido à pandemia da COVID-19. Mesmo antes da pandemia, esses transtornos já figuravam entre as principais causas de morbidade em todo o mundo, apesar da existência de estratégias de intervenção capazes de reduzir seus efeitos. Estima-se o aumento de 53,2 milhões de casos adicionais de transtorno depressivo maior em todo o mundo em 2020 devido aos efeitos da COVID-19, um aumento de 27,6%. Com relação aos transtornos de ansiedade, estima-se um incremento de 76,2 milhões de casos adicionais em 2020 devido à pandemia da COVID-19, o que representa um aumento de 25,6% de forma global. Tal elevação esteve associada tanto ao aumento das taxas de infecção por COVID-19 quanto à diminuição da mobilidade humana (SANTOMAURO et al., 2021). Paralelamente ao agravamento geral da saúde mental, a pandemia também intensificou riscos psicossociais nos ambientes laborais. O modelo de Desequilíbrio Esforço-Recompensa, proposto por Siegrist, ajuda a compreender esse fenômeno. Um estudo francês envolvendo mais de 8.000 trabalhadores demonstrou que o desequilíbrio entre esforço e recompensa piorou significativamente durante o final do segundo período de confinamento (DELAMARRE et al., 2022). Esses achados dialogam com literatura prévia, que já evidenciava que ambientes com altas demandas e baixo controle aumentam exponencialmente a probabilidade de exaustão emocional – em até onze vezes em comparação a contextos de menor demanda (JONGE et al., 2000). Com a pandemia, tais condições se tornaram ainda mais críticas. A população em geral foi gravemente afetada, mas os profissionais de saúde da linha de frente destacaram-se como um dos grupos mais vulneráveis ao desenvolvimento de sintomas psiquiátricos (TREADWAY et al., 2020). Revisões www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 70, Boa Vista, 2025 215 sistemáticas demonstram aumento acentuado de sintomas depressivos e ansiosos entre esses trabalhadores (VINDEGAARD; BENROS, 2020). A pandemia da COVID-19 tem sido associada a estressores ocupacionais, que além de contribuir para a infecção, podem dar origem ao sofrimento psíquico dos profissionais de saúde. Nos Estados Unidos, um estudo com 2.040 profissionais de saúde revelou que ter sido infectado por COVID-19 foi associado a níveis significativamente mais altos de depressão, ansiedade e burnout. Outros fatores como estar em isolamento, morar sozinho e tratar um número maior de pacientes com COVID-19 foram associados a níveis significativamente mais altos de sintomas depressivos. Passar mais de 50% das horas de trabalho em contato direto com esses pacientes também foi associado a níveis mais altos de depressão, ansiedade e burnout em relação a indivíduos que passaram menos de 25% das horas de trabalho em contato próximo com pacientes com COVID-19 (FIREW et al., 2020). Uma pesquisa realizada com 2029 profissionais de um hospital especializado em COVID-19, no sul de Taiwan, avaliou o impacto da pandemia em relação a transtornos de humor e Burnout em profissionais de saúde. O estudo revelou que os enfermeiros tiveram o mais alto índice de transtornos de humor e burnout. Com relação ao local de trabalho, os que trabalhavam no pronto-socorro e na UTI/alas de isolamento tinham um risco maior para transtorno do humor. Trabalhar no pronto-socorro foi identificado como o único fator de risco independente para transtorno do humor moderado a grave. Entre as medidas consideradas mais importantes para reduzir o estresse ocupacional, destacaram-se mais descanso (76,7%), gratificações (63,4%) e equipamentos de proteção individual suficientes (55,3%) (LIN et al., 2021). É importante destacar que crises sanitárias tendem a exacerbar desigualdades estruturais já existentes, especialmente aquelas relacionadas a gênero e raça. No contexto do SUS, mulheres negras historicamente ocupam postos de trabalho mais precarizados e com menor acesso a recursos laborais, o que as expõe de forma desproporcional às condições adversas ampliadas durante a pandemia, como escassez de insumos e intensificação das demandas assistenciais. Estudos indicam que as desigualdades de gênero e raça se refletiram também nos impactos sobre a saúde mental durante a pandemia, com mulheres negras apresentando maior vulnerabilidade em comparação a outros grupos (MAGRI; FERNANDEZ; LOTTA, 2022). Um estudo transversal seriado multicêntrico realizado com 30.520 participantes em 20 países, ao longo de 2 anos, investigou a associação entre sintomas depressivos entre profissionais de saúde e as taxas médias de incidência e mortalidade por COVID-19. Para isso foram utilizados dados da primeira e da segunda onda da COVID-19. Este estudo constatou que o aumento nas taxas diárias de incidência da COVID-19 estava associado ao agravamento dos sintomas depressivos entre profissionais de saúde em www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 70, Boa Vista, 2025 216 20 países, incluindo países de alta renda e países de baixa e média renda, independentemente do país de residência. Além disso, é importante ressaltar que esta associação persistiu durante 2 anos. As razões para a associação ao longo de 2 anos incluem uma maior carga de trabalho com o aumento da incidência da COVID-19 e a exaustão devido a pandemia da COVID-19 prolongada, combinadas com a sensação de não serem valorizados pela gestão ou mesmo pelos pacientes num ambiente com falta de pessoal durante e após a pandemia da COVID-19 (ASAOKA et al., 2024). Foi constatado ainda que à medida que a taxa de mortalidade da COVID-19 aumentava, os sintomas depressivos pioravam entre profissionais de saúde em 20 países. Algumas razões para a observação dessa associação, mesmo dois anos após o início da pandemia da COVID-19, incluem sofrimento moral, decisões clínicas difíceis em relação a pacientes com COVID-19 e experiências traumáticas repetidas com a morte de pacientes ao longo da pandemia. Os resultados confirmam a evolução dos sintomas depressivos ao longo do tempo e a necessidade de apoio em saúde mental para os profissionais de saúde durante e após a pandemia da COVID-19 (ASAOKA et al., 2024). Outro estudo transversal realizado com 639 participantes da Áustria, Alemanha e Suíça comparou a saúde mental de profissionais de saúde ao longo do primeiro e segundo ano da pandemia da COVID-19 (comparação de uma amostra de maio a julho de 2020 com uma amostra de março a junho de 2021). Os resultados mostram que os sintomas de saúde mental, particularmente depressão e ansiedade, persistem entre os profissionais de saúde no segundo ano da pandemia e que as taxas de prevalência de sintomas são maiores entre a equipe de enfermagem em comparação com médicos e paramédicos, além de demonstrar que o clima de equipe está associado aos resultados de saúde mental. Verificou-se altos níveis de sintomas de depressão (com 71,7% dos profissionais de saúde preenchendo os critérios para pelo menos um diagnóstico suspeito) e ansiedade (38,3% pelo menos suspeitos) (DUDEN et al., 2023). De forma geral, a pandemia trouxe incertezas sobre o vírus, limitações no tratamento, escassez de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), sobrecarga de trabalho e outras fontes de estresse que impactaram negativamente a saúde mental dos trabalhadores da saúde (PFEFFERBAUM; NORTH, 2020). Os profissionais de saúde que contraíram COVID-19 relataram níveis mais altos de sintomas depressivos e sintomas de ansiedade (FIREW et al., 2020). Outros estudos internacionais reforçam esses achados. Na Polônia, 23,1% dos enfermeiros avaliados apresentaram sintomas graves ou muito graves de depressão, sendo o contato com pacientes suspeitos de infecção por SARS-CoV-2 um preditor significativo de sintomas depressivos. Além disso, mulheres apresentaram maior frequência de sintomas depressivos em comparação aos homens (DZIEDZIC et al., 2022). Na China, um ano após o início da pandemia, 26,7% dos profissionais de saúde apresentaram depressão, 33,4% ansiedade e 14,8% estresse, com os enfermeiros obtendo as pontuações www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 70, Boa Vista, 2025 217 mais altas nas subescalas de depressão e estresse. Os principais fatores de risco incluíram longas jornadas de trabalho, contato próximo com pacientes infectados e exposição à violência durante o atendimento (GONZALEZ MENDEZ et al., 2022). Na Turquia, 16,5% dos profissionais de saúde avaliados apresentaram escores no Beck Depression Inventory (BDI) compatíveis com depressão moderada a grave. A análise dos sintomas de ansiedade mostrou que 14% dos participantes apresentaram ansiedade moderada a grave de acordo com os escores do Beck Anxiety Inventory (BAI). Os enfermeiros apresentaram escores mais elevados de depressão e ansiedade em comparação aos médicos. (BESIRLI et al., 2021). Já na Grécia, 25,5% dos enfermeiros apresentaram depressão leve, 13,5% moderada e 7,6% grave, a partir do Beck Depression Inventory (BDI) enquanto 47,1% apresentaram sintomas de burnout segundo o Copenhagen Burnout Inventory (CBI). Houve uma correlação significativa entre burnout e depressão (r = 0,66), sendo o burnout considerado um fator contribuinte para a depressão (PACHI et al., 2022). Em nível global, uma pesquisa realizada com 1.416 profissionais de saúde (70,8% médicos, 26,2% enfermeiros) de 75 países, utilizando o Beck Anxiety Inventory (BAI), indicou que os níveis de ansiedade variaram entre leve (27,5%), moderada (20,3%) e grave (16,7%). O coeficiente de confiabilidade (alfa de Cronbach) da escala de ansiedade de 21 itens foi de 0,936, destacando que a consistência interna foi alta. Os escores do BAI diminuíram significativamente com a idade avançada do profissional de saúde. Além disso, houve associação significativa entre maior ansiedade e fatores como ser do sexo feminino, ser enfermeiro(a), trabalhar com pacientes com COVID-19, ter doenças crônicas ou transtornos mentais prévios, além da percepção de inadequação dos EPIs disponíveis (CAG et al., 2021). Resultados semelhantes foram sintetizados em uma metanálise com 458.754 participantes, que encontrou prevalências agrupadas de 28,5% para depressão e 28,7% para ansiedade entre profissionais de saúde — taxas superiores às da população geral e persistentes ao longo do tempo. No que diz respeito à ansiedade, as maiores taxas foram encontradas em enfermeiros, médicos, pessoal de apoio e estudantes da área da saúde, todos com funções que envolvem contato intenso com pacientes e, portanto, maior risco de infecção por COVID-19. As mulheres foram mais impactadas do que os homens em diversos desfechos, com evidências consistentes em relação à insônia, à depressão e à ansiedade. Além disso, uma importante constatação foi que as taxas de prevalência permaneceram em níveis preocupantes e persistiram entre os profissionais de saúde hospitalares ao longo do tempo. (LEE et al., 2023). Uma revisão abrangente e meta-análise de 87 meta-análises, incluindo 1846 artigos não sobrepostos, que examinaram a saúde mental dos profissionais de saúde durante a pandemia da COVID19 encontrou uma prevalência de 30% de sintomas depressivos entre enfermeiros e médicos e 32% para os profissionais de linha de frente. Com relação aos sintomas de ansiedade, a prevalência foi de 34% em www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 70, Boa Vista, 2025 218 enfermeiros, 27% em médicos e 30% em profissionais da linha de frente. Foram avaliados além desses, diversos problemas de saúde mental e as taxas de prevalência foram semelhantes entre todos os profissionais de saúde, independentemente da categoria profissional e do sexo, com poucas exceções (BOUCHER et al., 2025). Na Etiópia, uma metanálise realizada com 08 estudos observacionais encontrou uma prevalência agrupada de ansiedade, entre os profissionais de saúde, durante a pandemia da COVID-19, de 46%. Nesse estudo, as profissionais de saúde do sexo feminino apresentavam 1,89 vezes mais chances de desenvolver ansiedade do que os profissionais do sexo masculino durante a pandemia (HASEN; SEID; MOHAMMED, 2023). No Nordeste brasileiro, mais especificamente no Ceará, avaliaram 189 profissionais de saúde (48,2% enfermeiros e 51,8% técnicos de enfermagem) de uma maternidade, a partir de um estudo do tipo transversal. A prevalência de sintomatologia depressiva foi 29,6%, sendo mais prevalente no sexo feminino (30,2%). Com relação aos sintomas ansiosos, 40,2% apresentaram sintomatologia de ansiedade a partir da Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão (HAD). A maioria dos profissionais de saúde entrevistados (62,6%; n=117) estava atuando em setores da linha de frente, atendendo pacientes com suspeita ou casos confirmados da COVID-19. Os profissionais que trabalhavam nos setores da emergência, clínica obstétrica e UTI materna foram os mais expostos ao risco de ter depressão (RIBEIRO et al., 2022). De forma geral, as evidências acumuladas demonstram que os profissionais de saúde constituem um grupo particularmente vulnerável ao desenvolvimento de sintomas depressivos e ansiosos no contexto da COVID-19. Esse risco tende a ser ainda maior em serviços de alta complexidade e ritmo acelerado, como as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), caracterizadas pelo funcionamento ininterrupto, altas demandas assistenciais, longas jornadas de trabalho, insuficiência de materiais e equipamentos e manejo frequente de casos graves, muitas vezes com desfecho fatal (MOTA et al., 2020). Tais condições configuram um ambiente de trabalho com elevada carga física e emocional, reforçando a importância de investigar fatores associados ao sofrimento psíquico nesse cenário. METODOLOGIA O presente estudo é do tipo quantitativo, com delineamento transversal (FARIAS et al., 2024). Tal modelo de estudo permite a observação de uma determinada situação de saúde, considerando causa-efeito, em um único recorte de tempo. Nesse sentido, a “causa” (exposição ao risco) e o “efeito” (doença) são observados ao mesmo tempo em uma determinada amostra (MEDRONHO, 2019). www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 70, Boa Vista, 2025 219 A população do estudo foi composta por profissionais de saúde - enfermeiros, técnicos/auxiliares de enfermagem e médicos atuantes nas quatro Unidades de Pronto Atendimento de Natal/RN, Brasil. Tais unidades funcionam em tempo integral (24 horas/todos os dias da semana) e fazem parte da rede de urgências e emergências municipal. A amostra foi calculada com base na população total de 589 profissionais dessas categorias, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde de Natal. Adotando-se uma frequência antecipada de 20%, com a precisão absoluta de 5% e intervalo de confiança de 95%, chegou-se ao número de 174 participantes. Os profissionais foram selecionados aleatoriamente entre as quatro unidades (DANTAS et. al. 2025). Foram incluídos no estudo os profissionais que consentiram em participar e responderam pelo menos 80% do questionário. Dois profissionais foram excluídos: um por não ter assinado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e outro por preenchimento insuficiente das respostas. Inicialmente, foram realizadas reuniões com as direções das UPAs e com os profissionais de saúde, conduzidas pela pesquisadora e pela equipe do CEREST-Natal, para apresentação do estudo e esclarecimento de dúvidas. A coleta de dados ocorreu entre julho e dezembro de 2022, por meio do envio de um consolidado de questionário em que incluía um questionário elaborado pelas autoras com dados sociodemográficos e ocupacionais, questões sobre saúde clínica e histórico de transtornos mentais, bem como os instrumentos Maslach Burnout Inventory-Human Services Survey (MBI-HSS), Beck Depression Inventory (BDI) e Beck Anxiety Inventory (BAI). Os questionários foram disponibilizados via link no whattsapp ou por QR code e respondidos após assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) através da plataforma de formulários do Google®. A mensuração dos sintomas depressivos e ansiosos em contextos clínicos e de pesquisa é frequentemente realizada por meio dos instrumentos Beck Depression Inventory (BDI) e Beck Anxiety Inventory (BAI). O Beck Depression Inventory (BDI) é uma escala de autoavaliação com tradução para vários idiomas, validado em diferentes países e mede as manifestações cognitivas, emocionais, comportamentais e físicas da depressão de uma pessoa na última semana. É constituído por 21 itens, incluindo sintomas e atitudes com pontuações que variam de 0 a 3 (BECK et al., 1961). Apresenta como pontos de corte <10 sem depressão ou depressão mínima; 10 -18 depressão leve a moderada; 19-29 depressão moderada a grave; 30-63 depressão grave (GORENSTEIN; ANDRADE; ZUARDI, 2008). A versão em português apresenta alta consistência interna (α = 0,88) e é validada para uso em amostras clínicas e não clínicas. (GORENSTEIN; ANDRADE; ZUARDI, 2008). www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 70, Boa Vista, 2025 226 expostos a condições de trabalho precárias, o que impacta diretamente sua saúde mental (MAGRI; FERNANDEZ; LOTTA, 2022). Evidências internacionais mostram que profissionais de saúde negros e pertencentes a grupos raciais e étnicos minoritários vivenciaram níveis elevados de estresse racial durante a pandemia. Assim como aponta a literatura, nossos achados reforçam a necessidade de desenvolver ações institucionais voltadas à equidade e à justiça social como componentes essenciais para o bem-estar desses trabalhadores historicamente marginalizados (MANGURIAN et al., 2023). Os EPIs insuficientes e a perda de familiares por COVID-19 também foram associados a sintomas ansiosos moderados e severos. A insuficiência de EPIs foi um dos principais fatores de risco para sintomas ansiosos, como demonstrado em diversas investigações internacionais (CAG et al., 2021; CLEMENTESUÁREZ et al., 2021; LEE et al., 2023). O medo constante de contaminação, agravado por notícias de adoecimento e óbito de colegas, alimentou um clima de insegurança e temor, impactando diretamente a saúde mental dos profissionais (ZHANG et al., 2021). Além desses fatores contextuais, as comorbidades clínicas foram associadas a sintomas ansiosos moderados a severos, o que pode ser visto de forma semelhante em outros estudos (CAG et al., 2021; FONSECA et al., 2021). Independente da pandemia, já existe uma correlação estabelecida na literatura entre algumas doenças crônicas, como doenças cardiovasculares, diabetes e sintomas ansiosos (FISHER et al., 2008; HOLT et al., 2013). Durante a pandemia, os portadores de comorbidades clínicas fizeram parte da população de risco para COVID-19, gerando medo excessivo em ser contaminado, agravando mais ainda o risco de sintomas ansiosos (FONSECA et al., 2021). Em relação à prevalência de sintomas depressivos moderados a severos encontrada no estudo, foi inferior à que foi encontrada na literatura (PAPPA et al., 2020; GEBREEYESUS et al., 2021; MOSER et al., 2021; SANTOS et al., 2021), o que provavelmente se deve ao período de coleta, visto que o nosso estudo foi realizado no segundo semestre de 2022, enquanto vários outros estudos foram realizados durante o período de 2020, na vigência da primeira onda do surto da COVID-19, considerado o período mais estressante e de maior incerteza para os profissionais, ocasionando um impacto direto na saúde mental. Um outro estudo também realizado dois anos após o surto inicial da COVID-19 encontrou resultados próximos (LIU et al., 2022). De modo complementar, Cyr et al. (2022) observaram que, embora os níveis de ansiedade tenham permanecido relativamente estáveis aos 3 e 12 meses após o início da pandemia, os sintomas depressivos apresentaram queda significativa ao longo do tempo. Esses achados corroboram os resultados do presente estudo, sugerindo que a redução do impacto emocional relacionado à fase inicial da pandemia pode explicar as prevalências mais baixas identificadas. www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 70, Boa Vista, 2025 227 Quanto aos fatores que influenciaram os sintomas depressivos, destacam-se as pessoas pretas, pardas e com diagnóstico de burnout. Esse era um resultado esperado na medida em que a síndrome de burnout é considerada um fator de risco para morbidade psiquiátrica, principalmente a depressão (LIN et al., 2021; SANTOS et al., 2021; PACHI et al., 2022; RYAN et al., 2023). Importante pontuar que após um levantamento realizado nesses mesmos profissionais da UPA foi verificado um alto índice de burnout (51,2%), com destaque para a dimensão da exaustão emocional (DANTAS et. al. 2025). Considerando que a depressão é um transtorno psiquiátrico que pode evoluir para quadros graves, inclusive com risco de desfecho fatal por suicídio, a associação entre burnout e sintomas depressivos merece atenção especial, dada sua gravidade e a necessidade urgente de medidas de intervenção. Além disso, alguns fatores ocupacionais também aumentaram o risco de sintomas depressivos moderados a severos, como jornadas de trabalho noturnas e mistas, possivelmente em razão da forte relação entre condições laborais adversas, exaustão e depressão (RYAN et al., 2023). Embora a literatura demonstre uma relação estatisticamente significativa entre burnout e depressão, bem como entre burnout e ansiedade, trata-se de construtos distintos, ainda que interligados. Eles compartilham algumas características em comum e, provavelmente, podem se desenvolver de maneira concomitante (KOUTSIMANI; MONTGOMERY; GEORGANTA, 2019). Muitos profissionais de saúde apresentam sintomas depressivos e ansiosos de forma silenciosa, sem buscar tratamento adequado, o que compromete tanto sua qualidade de vida quanto sua capacidade laboral. Um estudo recente identificou que sintomas de ansiedade e depressão estão associados à menor capacidade de trabalho, maiores níveis de estresse e menor satisfação profissional entre trabalhadores da saúde (MAGNAVITA; MERAGLIA; RICCÒ, 2024). Esses achados dialogam com o Modelo de Desequilíbrio entre Esforço e Recompensa, segundo o qual contextos laborais caracterizados por altas demandas e recompensas insuficientes, como falta de reconhecimento, instabilidade ou escasso apoio institucional, elevam o risco de sofrimento psicológico. Esse padrão torna-se particularmente evidente nas UPAs, ambientes marcados por intenso volume assistencial, pressão constante e recursos limitados, favorecendo o surgimento e a manutenção de sintomas psíquicos (MOTA et al., 2020). Os impactos na saúde mental em profissionais de saúde observados direcionam para a necessidade do desenvolvimento de estratégias de saúde mental que possam fornecer apoio psicológico, mitigar a fadiga emocional, reduzir o isolamento e aumentar a resiliência em futuras crises sanitárias. Além de reduzir o estigma do sofrimento psicológico e facilitar o acesso ao tratamento quando necessário, replicando e melhorando estratégias exitosas já utilizadas na pandemia da COVID-19 como a Cope www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 70, Boa Vista, 2025 228 Columbia do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Columbia e o UCSF Cope da Universidade da Califórnia, São Francisco (UCSF) (MANGURIAN et al., 2023). Ambos os programas realizavam treinamento em resiliência e redução do estresse, apoio entre pares e a normalização do suporte à saúde mental, abordaram os estressores cumulativos da instabilidade racial e política, criaram parcerias estratégicas com outros departamentos clínicos, Recursos Humanos e programas de assistência aos trabalhadores avaliaram os componentes do programa e criaram recursos para o autogerenciamento dos profissionais de saúde. (MANGURIAN et al., 2023) Poucos estudos avaliaram o impacto de longo prazo da pandemia na saúde mental dos profissionais de saúde, uma vez que a maioria das pesquisas se concentrou nos primeiros dois anos da COVID-19. Entretanto, investigações que analisaram períodos posteriores identificaram a permanência de prevalências elevadas de sintomas depressivos e ansiosos, associados à persistência de múltiplos estressores — incluindo a continuidade da pandemia, a exaustão acumulada (manifestada também pelos altos índices de burnout) e fatores ocupacionais adversos (MCGUINNESS et al., 2023; ASAOKA et al., 2024). Nesse contexto, a presença contínua de sofrimento psíquico entre os trabalhadores das UPAs sugere que os impactos da pandemia extrapolam o período epidêmico. Isso reforça a necessidade de políticas institucionais permanentes de cuidado em saúde mental, com ênfase no redimensionamento adequado das equipes, na adoção de práticas que promovam maior satisfação no trabalho e na implementação de estratégias que favoreçam um equilíbrio mais saudável entre esforço e recompensa. Como limitações deste estudo, destaca-se que a amostra predominantemente feminina reflete o perfil esperado da força de trabalho em saúde, conforme descrito em diversas pesquisas conduzidas durante a pandemia (TREADWAY et al., 2020; KAPETANOS et al., 2021; CYR et al., 2022; FIREW et al., 2020). Embora essa distribuição seja característica do setor, ela limita a possibilidade de realizar análises comparativas mais equilibradas entre os gêneros, caso o objetivo fosse explorar diferenças de forma mais aprofundada. Além disso, o delineamento transversal impede estabelecer relações de causalidade entre os fatores analisados e os sintomas ansiosos e depressivos (THIESE, 2014). A coleta realizada em um único município também pode limitar a generalização dos achados para outros contextos assistenciais. Apesar dessas limitações, o estudo apresenta como fortaleza o uso de instrumentos validados amplamente utilizados na literatura internacional, o que reforça a confiabilidade dos achados e possibilita comparações com outros contextos assistenciais. Além do foco em profissionais de UPAs, um cenário crítico e pouco investigado na literatura, o que contribui para suprir lacunas importantes sobre saúde mental em serviços de urgência. www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 70, Boa Vista, 2025 229 A partir do que foi discutido anteriormente, depreende-se que a saúde mental dos trabalhadores da linha de frente, especialmente em contextos de alta pressão e vulnerabilidade, é afetada por uma multiplicidade de fatores individuais, sociais e no ambiente de trabalho, com alta prevalência de sintomas depressivos e ansiosos. As evidências reforçam a necessidade de políticas públicas e estratégias institucionais que promovam a saúde mental, com especial atenção a grupos em maior risco, como trabalhadores pretos e pardos, com comorbidades clínicas ou submetidos a condições de trabalho precárias. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo evidencia que, mesmo dois anos após o início da pandemia da COVID-19, os profissionais de saúde das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) de Natal continuaram a apresentar níveis preocupantes de sofrimento psíquico, especialmente no que se refere aos sintomas ansiosos. A prevalência de sintomas ansiosos moderados a severos em aproximadamente um terço dos participantes, e de sintomas depressivos moderados a severos em cerca de 16%, demonstra que os efeitos da crise sanitária se mantiveram de forma persistente na saúde mental desses trabalhadores. Os achados reforçam que os sintomas depressivos e ansiosos entre profissionais de saúde têm origem multifatorial, envolvendo desde condições estruturais do ambiente laboral até vulnerabilidades individuais. A pandemia ampliou desigualdades e fragilidades já presentes nos sistemas de saúde, sobretudo em serviços de pronto atendimento, caracterizados por alta demanda assistencial e recursos limitados. Fatores étnico-raciais (particularmente entre profissionais pardos e pretos), presença de comorbidades clínicas, perda de familiares por COVID-19, condições inadequadas de trabalho — como insuficiência de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) — e a realização de jornadas mistas ou noturnas mostraram-se associados a piores desfechos emocionais. Ademais, observou-se uma associação significativa entre sintomas depressivos e dimensões da síndrome de burnout, especialmente exaustão emocional e baixa realização pessoal, reforçando a necessidade de intervenções estruturais que atuem diretamente sobre as condições de trabalho. Esses resultados destacam a urgência da implementação de políticas públicas e institucionais voltadas à promoção da saúde mental dos trabalhadores da linha de frente, com especial atenção às dimensões de equidade racial, segurança no trabalho e prevenção de riscos psicossociais. Também se faz necessário ampliar o acesso a serviços de cuidado psicológico de forma contínua, reconhecendo que os efeitos emocionais da pandemia persistem e não se limitam ao período crítico da emergência sanitária. www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 70, Boa Vista, 2025 230 Como limitações do estudo, destaca-se o tamanho da amostra, especialmente a baixa proporção de profissionais do sexo masculino — um reflexo do perfil predominante da força de trabalho em saúde. Ademais, o delineamento transversal não permite estabelecer relações de causa e efeito entre os fatores analisados e os desfechos emocionais observados. Por fim, proteger a saúde mental dos profissionais das UPAs é uma estratégia essencial não apenas para o bem-estar individual desses trabalhadores, mas também para a manutenção da qualidade assistencial e da segurança da população em contextos de crise. O fortalecimento de políticas intersetoriais que reconheçam o sofrimento psíquico como dimensão central da saúde do trabalhador é urgente. Embora a crise sanitária da COVID-19 tenha arrefecido, suas consequências emocionais permanecem no cotidiano das unidades de urgência – exigindo respostas contínuas, efetivas e sustentáveis. REFERÊNCIAS ASAOKA, H. et al. “Association of depressive symptoms with incidence and mortality rates of COVID19 over 2 years among healthcare workers in 20 countries: multi-country serial cross-sectional study”. BMC Medicine, vol. 22, n. 1, 2024. BECK, A. T. et al. “An Inventory for Measuring Clinical Anxiety: Psychometric Properties”. Journal of Consulting and Clinical Psychology, vol. 56, n. 6, 1988. BECK, A. T. et al. “An Inventory for Measuring Depression”. Archives of General Psychiatry, vol. 4, n. 6, 1961. 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