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Blockchain na Saúde Pública: Uma Revisão da Literatura sobre o uso da Tecnologia para Prontuários Eletrônicos Blockchain in Public Health: A Literature Review on the Use of Technology for Electronic Health Records Brenda Laudano Lima1, Sérgio Sampaio Spínola1, Joberto S. B. Martins1 1Universidade Salvador (UNIFACS) Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional e Urbano (PPDRU) Programa de Pós-Graduação em Sistemas e Computação (PPGCOMP) Av. Tancredo Neves, 2131 — 41820-021 — Salvador — BA — Brasil [email protected], [email protected] [email protected] 1. INTRODUÇÃO Inicialmente pensada para o setor financeiro, blockchain é uma tecnologia descentralizada, imutável, transparente e segura que opera como um conjunto de blocos, onde cada bloco pode ser entendido como uma página para registro das transações realizadas. Estes ligam-se uns aos outros, em ordem cronológica, através de nós, resultando num livrorazão público de registros digitais (ledger) protegidos por criptografia e assinaturas (hash) (Capece e Lorenzi (2020); Hashim, Shuaib e Sallabi (2021); Husnain et al. (2024) Bessa e Martins (2019)). Conforme os mesmos autores, os blocos são validados por um conjunto de computadores em rede, fazendo com que os dados registrados não possam ser alterados, dificultando a ocorrência de fraudes e mantendo o sigilo das informações armazenadas. Tais características despertaram o interesse de outras áreas, a exemplo da saúde pública Hu et al. (2023). Hashim, Shuaib e Sallabi (2021) pontuam que as peculiaridades da blockchain a transformaram numa ferramenta com grande potencial para inovar em todo o sistema de saúde e otimizar a qualidade da assistência, uma vez que este campo carece de estratégias para a melhoria do gerenciamento e compartilhamento seguro dos registros médicos entre prestadores de serviço e pacientes. Os sistemas de prontuário eletrônico que operam atualmente apresentam limitações significativas, tais como a falta de segurança no compartilhamento de informações, o risco de fraudes e de acessos por pessoas não autorizadas, atrasos e erros decorrentes do processo manual de inserção dos dados nos sistemas e o transtorno enfrentando pelos pacientes ao armazenar e transportar relatórios sempre que precisam buscar atendimento médico em unidades ou especialistas diferentes. Para Husnain et al. (2024), a tecnologia blockchain possui condições ideais para o enfrentamento destes problemas. Isto posto, este trabalho traz um levantamento das informações presentes na literatura científica sobre a utilização da blockchain em prontuários eletrônicos. Em termos de estrutura, este estudo está organizado em quatro seções, sendo a primeira esta Introdução, seguida pelos Procedimentos Metodológicos, Discussão e Considerações Finais. 2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS A realização deste estudo foi motivada pela seguinte questão norteadora: Quais informações estão presentes na literatura científica no que diz respeito à utilização da tecnologia
blockchain como recurso para o gerenciamento e utilização de prontuários eletrônicos? Com o intuito de responder ao questionamento, optou-se por uma pesquisa com abordagem qualitativa, do tipo exploratória, fundamentada em análise bibliográfica. Desse modo, foram definidas três bases de dados: PubMed, Scopus e Web of Science e foram eleitos três descritores, a saber: “Blockchain”, “Saúde Pública” e “Prontuário Eletrônico”. Estes, foram combinados utilizando o operador booleano “AND” e todos os descritores estiveram acompanhados por aspas com a finalidade de aumentar a precisão dos achados, resultando nas seguintes combinações: • “Blockchain” AND “Saúde Pública”; “Blockchain” AND “Prontuário Eletrônico” e • “Blockchain” AND “Saúde Pública” AND “Prontuário Eletrônico” Em sequência, os descritores foram traduzidos para o inglês a fim de possibilitar a identificação de um número maior de artigos. Estes foram: “Blockchain”, “Public Health”e“Electronic Health Record”, aplicando o mesmo operador booleano e as mesmas combinações entre eles. Todas as buscas recorreram ao espaço “busca avançada” nas bases de dados. Além disso, aplicou-se parâmetros para a inclusão dos textos no estudo. Foram aceitos somente artigos escritos em português, inglês ou espanhol, disponíveis na íntegra, independente do ano em que foram publicados. Os artigos duplicados foram descartados, assim como os artigos que não tinham aderência ao tema e os artigos que haviam realizado uma revisão do estado da arte. 3. DESENVOLVIMENTO Esta seção divide-se em duas subseções, sendo a primeira “Informações gerais sobre os artigos encontrados” que se dedica ao detalhamento do percurso trilhado para a escolha dos artigos e a segunda “Debate desenvolvido com base nos artigos científicos ligados às categorias” que traz uma discussão entre as produções incluídas no estudo. 3.1. Informações gerais sobre os artigos encontrados Para garantir o rigor e a transparência do processo de busca e seleção dos artigos, ilustramse o caminho percorrido e os critérios utilizados para este fim (Figura 1). A primeira etapa, rastreamento, identificou 1.632 artigos provenientes de três bases de dados: Web of Science (23,5%), PubMed (18,5%) e, majoritariamente, a SCOPUS (58%). Todos os artigos seguiram para a etapa de seleção, na qual foram considerados três critérios que resultaram na exclusão de 95,5% dos artigos: artigos repetidos, leitura do título que excluiu as produções que não se alinhavam com o objetivo deste estudo e leitura do resumo que excluiu os artigos de revisão e aqueles que não apresentaram contribuições usando blockchain. Os artigos restantes, seguiram para a etapa de elegibilidade, onde foram excluídos os artigos que não apresentaram novas contribuições para uma arquitetura baseada em blockchain para prontuários eletrônicos. Assim, somente 1,2% dos artigos encontrados atenderam aos critérios para compor este estudo. No que diz respeito às informações gerais sobre as publicações, todos os artigos incluídos encontram-se escritos em inglês. Em relação à periodicidade, vale ressaltar que não foram aplicados filtros para o ano de publicação. Entretanto, ainda que esse critério não tenha sido utilizado, as buscas resultaram em estudos publicados recentemente e, considerando apenas os incluídos, todos foram publicados nos últimos cinco anos (2020 a 2025). Isso sinaliza um gap de pesquisas para prontuários baseados na tecnologia blockchain e a necessidade de explorar novas alternativas para esse segmento. Além disso, não 2
Figura 1. Percurso para rastreamento dos artigos incluídos (Autores (2025)) houve um padrão em relação ao quantitativo de publicações por ano, mas foi percebido que o ano de 2022 concentrou 33% das publicações. Outra observação a ser feita é que as publicações partiram de diversos periódicos, mas a maioria dos artigos estão publicados em periódicos da área médica. 3.2. Debate desenvolvido com base nos artigos científicos ligados às categorias Para nortear esta discussão, os artigos foram analisados considerando três questões centrais: os problemas que os autores buscaram superar em relação ao uso de prontuários eletrônicos, as vantagens apresentadas pelas propostas desenvolvidas e as desvantagens identificadas nos modelos propostos. A partir desta análise, foram levantadas as seguintes observações. De modo geral, os autores destacam que suas pesquisas foram motivadas pela necessidade de superar as limitações presentes nos sistemas de prontuário eletrônico que operam atualmente. Entre essas fragilidades, ressaltam-se: a ausência de segurança e de transparência quanto ao acesso aos registros médicos (Amanat et al. (2022); Costa et al. (2022); Gao et al. (2022) ; Nie et al. (2022); Panigrahi, Nayak e Paul (2022); Guo et al. (2023); Pampattiwar e Chavan (2025)), a falta de interoperabilidade entre os diferentes sistemas (Cadoret et al. (2020); Lee et al. (2020); Bran et al. (2024); Husnain et al. (2024); Sonkamble et al. (2024)), a ocorrência de erros humanos Capece e Lorenzi (2020) e a falta de autonomia e controle de uso e acesso por parte dos pacientes em relação ao seu próprio histórico médico Kalita, Boro e Bhattacharyya (2025). Dentre esses aspectos, Amanat et 3
al. (2022) enfatizam que a insegurança dos dados do mundo real é o principal desafio a ser enfrentado pelas estratégias que recorrem à blockchain. Outros estudos foram desenvolvidos com a finalidade de solucionar os gargalos identificados nas estratégias que adotaram a própria tecnologia em questão. Entre eles, destacam-se os trabalhos de Gutiérrez et al. (2020) e Li et al. (2022), voltados à criação de modelos para assegurar a resiliência dos dados dos prontuários caso ocorram falhas na conexão das redes, Kim et al. (2020), por sua vez, concentraram-se na redução dos custos relacionados ao uso da blockchain, especialmente no que se refere ao armazenamento de dados. Já Hashim, Shuaib e Sallabi (2021) e Díaz e Kaschel (2023) buscaram expandir a capacidade de armazenamento e processamento da tecnologia sem comprometer a velocidade nem elevar os custos. Além disso, Hu et al. (2023) propuseram uma arquitetura de blockchain editável, desenvolvida em conformidade com o Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR), legislação europeia que assiste aos indivíduos o direito de solicitar a remoção de seus dados das bases em que foram inseridos, independente da característica de imutabilidade do sistema. Todos os autores consideraram que, em alguma medida, conseguiram desenvolver soluções para os problemas já comentados nos parágrafos anteriores. Entre essas iniciativas, destacam-se o trabalho de Lee et al. (2020), que ao buscar superar a falta de interoperabilidade, desenvolveram a primeira plataforma de prontuário eletrônico capaz de viabilizar a troca de dados médicos entre diferentes regiões localizadas no Sudeste Asiático, e o de Sonkamble et al. (2024) que propuseram uma arquitetura para a troca segura de prontuários entre duas redes blockchain: Ethereum e a Hyperledger Fabric. Associam-se a esses esforços os estudos que desenvolveram uma arquitetura com canais de armazenamento fora da blockchain visando aumentar a escalabilidade da tecnologia (Kim et al. (2020); Díaz e Kaschel (2023); Bran et al. (2024); Pampattiwar e Chavan (2025)), além de Li et al. (2022) que construíram um modelo com capacidade para superar a instabilidade na conectividade da rede das instituições médicas. Para além das vantagens já mencionadas, Capece e Lorenzi (2020) destacam a redução dos custos no âmbito da saúde. Isso porque a facilidade de acesso e confiabilidade das informações médicas evita a realização de exames duplicados ou desnecessários, que em muitos casos são solicitados pela ausência de registros completos e legíveis ou pela dificuldade de acesso ao histórico do paciente. Assim, além de otimizar recursos financeiros, as estratégias com blockchain favorecem a eficiência do sistema de saúde e reduzem desconfortos para os pacientes. Em que pese os avanços alcançados nos estudos, alguns autores também expuseram desvantagens observadas nos modelos propostos. Entre elas, destacam-se a elevada demanda por espaço de armazenamento, sem que haja comprometimento da segurança dos dados (Amanat et al. (2022); Li et al. (2022)), o aumento do tempo de latência (Bran et al. (2024); Husnain et al. (2024); Sonkamble et al. (2024)) e o custo elevado para a implementação do sistema (Gutiérrez et al. (2020); Boumezbeur e Zarour (2022); Nie et al. (2022); Ramachandran (2024); Kalita, Boro e Bhattacharyya (2025)). Além das desvantagens, alguns autores apontaram os desafios relacionados ao uso da tecnologia blockchain em prontuários eletrônicos, tais como a dificuldade de aceitação por parte dos profissionais que demonstram resistência a mudanças, o que podem comprometer muito a implementação e o êxito da tecnologia (Cadoret et al. (2020)). Soma-se a isso o fato de que a blockchain, apesar de todo o seu potencial no âmbito da saúde, não elimina a necessidade de atuação humana no processo de digitalização dos registros em papel, mantendo a possibilidade de ocorrência de erros ou imprecisões nas informações 4
armazenadas (Capece e Lorenzi (2020)). Para Lee et al. (2020) a necessidade de ampliação dos recursos materiais (hardware) também mostrou-se como um desafio importante. 4. Considerações Finais Tendo sido cumprido o objetivo de identificar as informações disponíveis na literatura sobre a utilização da tecnologia blockchain como recurso para a elaboração de prontuários eletrônicos, foram depreendidas as seguintes considerações. Existem muitas iniciativas dedicadas para essa finalidade, nas quais os autores recorreram à blockchain principalmente para solucionar os problemas relacionados à insegurança e a falta de interoperabilidade dos prontuários. Entretanto, também foram identificados alguns gargalos que dificultam a utilização da tecnologia em larga escala e aumentam os custos de sua implementação. Esses desafios abrem espaço para novos estudos com o intuito de propor alternativas para superar tais obstáculos, atender às necessidades específicas dos sistemas de saúde e, ao mesmo tempo, preservar as características essenciais da blockchain. Referências AMANAT, A. et al. Blockchain and cloud computing-based secure electronic healthcare records storage and sharing. v. 10, 2022. ISSN 2296-2565. Publisher: Frontiers. Disponível em: <https://www.frontiersin.org/journals/public-health/articles/10.3389/ fpubh.2022.938707/full>. BESSA, E. E.; MARTINS, J. S. B. A blockchain-based educational record repository. In: ADVANCE 2019 - International Workshop on ADVANCEs in ICT Infrastructures and Services. Université Paris-Saclay Évry, 2019. p. 1–8. Disponível em: <https://arxiv.org/abs/1904.00315v1>. BOUMEZBEUR, I.; ZAROUR, K. Privacy preservation and access control for sharing electronic health records using blockchain technology. v. 11, p. 105–122, 2022. BRAN, E. et al. Interoperability blockchain, InterPlanetary file system and health level 7 framework for electronic health records. v. 20, n. 15, p. 60–78, 2024. ISSN 2626-8493. Disponível em: <https://online-journals.org/index.php/i-joe/article/view/51515>. CADORET, D. et al. Proposed implementation of blockchain in british columbia’s health care data management. v. 22, n. 10, p. e20897, 2020. Disponível em: <https://www.jmir.org/2020/10/e20897>. CAPECE, G.; LORENZI, F. Blockchain and healthcare: Opportunities and prospects for the EHR. v. 12, n. 22, p. 9693, 2020. ISSN 2071-1050. Publisher: Multidisciplinary Digital Publishing Institute. COSTA, T. B. d. S. et al. Blockchain-based architecture design for personal health record: Development and usability study. v. 24, n. 4, p. e35013, 2022. Company: Journal of Medical Internet Research Distributor: Journal of Medical Internet Research Institution: Journal of Medical Internet Research Label: Journal of Medical Internet Research Publisher: JMIR Publications Inc., Toronto, Canada. Disponível em: <https://www.jmir.org/2022/4/e35013>. DíAZ, ; KASCHEL, H. Scalable electronic health record management system using a dual-channel blockchain hyperledger fabric. v. 11, n. 7, p. 346, 2023. ISSN 2079-8954. Publisher: Multidisciplinary Digital Publishing Institute. Disponível em: <https://www.mdpi.com/2079-8954/11/7/346>. GAO, Y. et al. Blockchain-based multi-hop permission delegation scheme with controllable delegation depth for electronic health record sharing. v. 2, n. 4, p. 100084, 2022. ISSN 2667-2952. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/ pii/S2667295222000368>. 5
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