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Albert Einstein: Entre a Hagiografia e o Libelo Juliano Carvalho Bento1 26 de novembro de 2025 omniscientiæ 010-1r Setenta anos após a morte do físico Albert Einstein (1879-2025), sua imagem e frases de efeito seguem amplamente exploradas na cultura de massa, enquanto seu legado científico permanece inconteste. Observa-se, contudo, que o debate público tende a oscilar entre duas modalidades de notícia: de um lado, a confirmação ou refutação de teorias físicas; de outro, a exploração sensacionalista de cartas e diários pessoais, frequentemente marcada por anacronismos morais e mitificações diversas. O objetivo do texto é problematizar essas leituras, propondo “dar a Einstein a oportunidade de errar”: reconhecer sua falibilidade ética sem recorrer nem à hagiografia nem ao linchamento simbólico. Assim, o ensaio argumenta que projetar expectativas de irrepreensibilidade em grandes cientistas gera imagens frágeis, mais reveladoras de nossas próprias demandas morais do que da complexidade histórica de suas vidas . DOI: doi.org/10.5281/zenodo.17620549 1 Doutorando em Ensino de Ciências com ênfase em Física (PIEC – USP), Mestrado em Engenharia Elétrica (FEEC – UNICAMP), Bacharelado e Licenciatura em Física (IFGW – UNICAMP). Professor de Física e Matemática.
1 Introdução “Não seja tão severo comigo. De tempos em tempos, todo mundo precisa fazer um sacrifício no altar da estupidez2.” Einstein. Recentemente, tive a honra de ser convidado para colaborar com o livro “Revolução Científica — Fatos e Ficções”, sob a organização do Prof. Gildo Magalhães da USP. De modo geral, esse projeto buscou analisar diversas obras cinematográficas sobre o tema de modo a confrontá-los com episódios da história da ciência. Além disso, sob uma perspectiva mais externalista, foi analisado se realmente houve uma “revolução” científica, debatendo se essa não seria mais uma evolução natural da técnica e de um contexto econômico, político e social específico, do que da quebra pura de um paradigma filosófico vigente. Minha contribuição para com tal obra foi a produção de dois capítulos que, por consequência, centraram-se em dois filmes específicos: Galileo (1968) — uma cinebiografia sobre Galileu Galilei (1564-1642) — e Cartesius (1974) — o equivalente dito a René Descartes (1596-1650). A investigação para a composição de tais obras decerto foi muito instigante para um físico como eu, pois evidenciou a existência de grandes mitificações — anacronismos que interpretam figuras históricas sob lentes ideológicas contemporâneas — em torno dessas emblemáticas figuras. A origem dessas “lendas” dependem muito do local e da época em que foram construídas. Porém, o que foi possível de se notar é que muitas dessas se consolidaram no século 19 a partir da necessidade de “santificar secularmente” tais indivíduos, herança essa de uma filosofia positivista profundamente enraizada na ciência e na sociedade. Mais particularmente, esses mitos possuem os mais diversos tipos de vieses e finalidades como, por exemplo, o disfarce de alguns desvios sob uma roupagem heróica, como quando no livro “Diálogo sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo” (1632), Galileu introduz um personagem ingênuo e tolo defendendo o sistema geocêntrico — denominado Simplicio —, numa possível sátira ao então pontífice (ou personalidades eclesiásticas) que contribuiu decisivamente para seu julgamento em 1633. Esse gesto de Galileu que é reverberado como um “uma corajosa afronta da razão perante a fé”, na realidade, foi uma atitude de arrogância intelectual totalmente evitável, visto que o papa, que até então era seu amigo, diante dessa postura, nada pode fazer para que os rivais de Galileu (que não eram só eclesiásticos, mas acadêmicos também) formalizassem esse processo contra ele3. 2 Carta destinada a Max Born e Hedi Born (o casal) datada de 9 de setembro de 1920. CALAPRICE, Alice (org.). The Ultimate Quotable Einstein. Princeton: Princeton University Press, 2011, p. 9. 3 A questão é bem mais complexa do que aqui exposta e vale uma recomendação de aprofundamento sobre o tema.
Albert Einstein: Entre a Hagiografia e o Libelo Já em outros cenários, a mitificação pode se dar contra o protagonista: como quando se enfatiza um aparente erro do mesmo (geralmente relacionado a um costume culturalmente aceito de um local e/ou época), a fim de destituir sua autoridade sobre o assunto. Um exemplo simples desse caso é a crítica vazia pela excessiva bajulação que filósofos e pensadores da época faziam a aristocratas através de longas dedicatórias e elogios entusiasmados, apenas para obter favores e pensão 4 . O que sabemos é que, na realidade, esse tipo de adulação era comum no contexto dos séculos 16 e 17 para uma finalidade específica: garantir proteção, hospedagem e, principalmente, apoio financeiro (algo parecido com o que nós cientistas fazemos em relação a agência de fomento à pesquisa, diga-se de passagem). Por fim, uma forma recorrente — e especialmente nociva — de mitificação consiste em relativizar “condutas questionáveis” de personalidades, nos mais diversos âmbitos, a fim de preservar uma narrativa “hagiográfica” 5 para algum fim (favorecimento de ideologias, busca de referência ideológica, propaganda etc.). Esse expediente apaga a falibilidade humana e, com o tempo, tende a ruir quando informações antes ocultas surgem — não raro sob viés sensacionalista ou distorcido, gerando alvoroço em torno da figura. Com isso, tal postura favorece o surgimento do “contraponto hagiográfico”, isto é, teses e leituras que beiram ao libelo 6 — textos agressivamente acusatórios, duros, muitas vezes injustos ou desequilibrados, em que o autor parece mais interessado em atacar ou difamar certa pessoa do que em analisar, com equilíbrio, o contexto e as circunstâncias em que eventuais erros dessa personalidade se deram. Em suma, o que se observa é que para manter um suposto equilíbrio diante de exageros positivos, surgem ataques, por vezes descomedidos, notados com frequência em alguns textos jornalísticos, biografias e, por vezes, em artigos científicos. Nesse horizonte, poucos tem sofrido na atualidade com essa situação quanto o físico Albert Einstein (1879-1955). 1.1 Mitografia Einsteiniana Passados exatos setenta anos de sua morte, sua figura ainda gera grande curiosidade e seus escritos não científicos, bem como máximas e pensamentos, são reproduzidos em filmes, séries televisivas e livros afora. Seu impacto na 4 Isso é verificado em muitos pensadores como nos citados Descartes e sua relação com a Rainha Cristina da Suécia, e Galileu com os Medici. 5 “Hagiográfico” significa, literalmente, “relativo à hagiografia”, que é a escrita da vida dos santos (do grego hagios significando “santo”). No uso comum hoje, especialmente em história, biografia e crítica, “hagiográfico” virou adjetivo para um texto que retrata alguém de forma excessivamente elogiosa, idealizada, quase sem defeitos, como se fosse um santo. 6 Historicamente, um libelo era uma peça escrita de acusação num processo (especialmente eclesiástico ou inquisitorial) ou um documento que formalizava a acusação. 3
Albert Einstein: Entre a Hagiografia e o Libelo ciência e na sociedade foi notório, não existindo dúvidas sobre sua capacidade de intuir o mundo físico7casado com seu grande carisma. Diante dessa vida profícua, é natural que surjam curiosidades sobre o que Einstein pensava em temas além física, bem como sobre seu comportamento diante de certas situações. Esse interesse alimentou (e ainda alimenta) debates sobre suas perspectivas acerca de filosofia, ética, educação, música, política e sua relação com a religião e de sua ideia de Deus, tema que discuti no ensaio “O Deus de Einstein e a Carta Einstein-Gutkind” (2022)8. Entretanto, hoje dois tipos de notícia têm ganhado repercussão a seu respeito: quando se comprova/refuta alguma de suas teorias, e quando se explora alguma polêmica ligada a atos ou declarações presentes em suas cartas e diários de âmbito pessoal. O problema, sobretudo neste segundo caso, é que as matérias costumam vir marcadas por anacronismos grosseiros e mitificações de toda ordem, produzindo comoção desproporcional em torno de sua figura. Um exemplo recente foi uma matéria do jornal Washington Post onde Jimena Canales 9 , uma historiadora da ciência e escritora de livros científicos, analisou uma recente obra sobre Einstein denominada I Am a Part of Infinity: The Spiritual Journey of Albert Einstein, de Kieran Fox 10 , que busca, de acordo com nota do próprio livro, apresentar: (...) a primeira exploração aprofundada da espiritualidade de Einstein, mostrando como ele se inspirou em uma deslumbrante diversidade de pensadores — de Pitágoras a Platão, de Schopenhauer a Spinoza, dos Upanixades a Mahatma Gandhi — para criar um sistema inédito em que o misticismo se encontrava com a matemática, a realidade era reverenciada e a mente humana era honrada como um espelho do infinito. Não era apenas uma nova maneira de ver o mundo. Einstein nos conclamava a comungar com o cosmo, a tratar cada ser vivo com compaixão, a canalizar a força que permeia todas as coisas e colocá-la a serviço de fins puros11. 7 A título de exemplo, sua teoria da relatividade restrita (1905) é fundamental para o funcionamento do GPS e para a produção de energia nuclear; a relatividade geral (1915) corrige os relógios dos satélites e orienta o estudo de lentes gravitacionais, buracos negros e ondas gravitacionais previsto pelos seus estudos foram detectados; o efeito fotoelétrico (1905) deu origem às células solares e aos sensores ópticos; a teoria da radiação (1917) é a base de todos os lasers; o exame do movimento browniano (1905) confirmou a existência de átomos e embasa modelos de difusão em diversas áreas; e, por fim, as estatísticas de Bose–Einstein (1924–25) tornaram possível a criação de condensados de Bose–Einstein, abrindo caminho para pesquisas em superfluidez e supercondutividade. 8 A referência ao meu ensaio é apenas ilustrativa e não pretende atribuir-lhe primazia sobre estudos mais abrangentes. 9 CANALES, Jimena. His search for spiritual meaning. The Washington Post, Washington, D.C., 31 mar. 2025. Review of: FOX, Kieran. I Am a Part of Infinity: The Spiritual Journey of Albert Einstein. New York: Basic Books, 2025. Disponível em: <https://www.washingtonpost.com/ books/2025/03/31/einstein-spirituality-infinity-kieran-fox-review/>. Acesso em 5 nov. 2025. 10 Segundo o site da editora do livro, Kieran Fox formou-se em Medicina em Stanford e é doutor em neurociência cognitiva pela Universidade da Colúmbia Britânica. Atualmente, atua como médico-cientista na Universidade da Califórnia, em São Francisco (UCSF), onde pesquisa os mecanismos neurais e o potencial terapêutico da meditação e das substâncias psicodélicas. 11 Contra-Capa do Livro. 4
Albert Einstein: Entre a Hagiografia e o Libelo Ao que tudo indica (ainda não me foi possível ter acesso ao conteúdo total do livro), esse busca desenvolver aspectos da sua crença, espiritualidade e religiosidade com base em outros pensadores. Entretanto, o que observamos no texto é que Canales, ao invés de se aprofundar nessa temática (contrapondo ou não ao que é dito no livro), essa concentrou-se mais em exaltar aspectos pessoais e íntimos da vida de Albert Einstein — infidelidades, conflitos familiares e especulações sobre sua conduta ética — em mais da metade do artigo, do que tecer a crítica a obra de Kieran. É claro que ambas perspectivas flertam entre si (não podemos separar o pensamento de suas ações), todavia, tal escolha narrativa reforça uma tendência comum na historiografia popular de Einstein: reduzir a análise de suas ideias a traços de sua biografia íntima, criando uma espécie de reducionismo biográfico12. E mais: nas poucas vezes que ela buscou voltar a temática, acabou por cometer alguns equívocos. A título de exemplo, em determinado momento afirma que Einstein “tentou se transformar em um líder espiritual, quase duas décadas após ser consagrado por suas conquistas científicas”, fundando assim “um movimento chamado Religião Cósmica, que atraiu poucos adeptos”. Einstein, ao que tudo indica, nunca criou nem organizou um movimento, seita, ou grupo religioso chamado Religião Cósmica. O termo aparece em artigos, palestras e livros (principalmente no ensaio “Religion and Science”, 1930, e no livro “The World as I See It”, 1934), onde ele descreve uma atitude emocional e filosófica relacionada à pesquisa científica, bem como ao universo, não uma instituição. Ele sempre insistiu que não era religioso no sentido tradicional e rejeitava a ideia de “Deus pessoal”, chamando sua postura de Religião Cósmica justamente para distinguila da religião organizada. Além disso, dizer “quase duas décadas após ser consagrado por suas conquistas científicas” é impreciso. Einstein recebeu o Nobel em 1921 e começou a escrever sobre religião em 1929/30 — ou seja, em torno de oito anos depois, não décadas. Assim, embora não cometa impropriedades factuais no que se refere às questões íntimas de Einstein — mesmo utilizando rumores para reforçar o texto, como a alegação de sífilis ou de que sua neta era, na realidade, sua filha —, por se tratar de uma resenha de cunho filosófico, essa ficou aquém do esperado. 1.2 Neutralidade Científica? Todavia, é importante salientar que isso ocorreu com uma historiadora extremamente renomada e premiada, que estudou e leciona em alguns dos principais centros de história da ciência do mundo e, ademais, escreve para um jornal muito conhecido. Esse tipo de análise pode muito bem ter sido deliberado, e não 12 A fim de estabelecer um paralelismo, seria como se, mutatis mutandis, ao pretendermos analisar a transcendência, a religiosidade e a possibilidade de reforma íntima que emanam de obras como “A Conversão de São Paulo” e “A Crucificação de São Pedro”, na Basílica de Santa Maria del Popolo, abríssemos mão desse propósito e nos detivéssemos exclusivamente no fato de que Caravaggio era violento, se envolvia em escândalos, matou um homem em uma briga e utilizava cortesãs como modelos para suas pinturas religiosas, com o intuito de desqualificar qualquer sentimento suscitado por sua pintura. 5
Albert Einstein: Entre a Hagiografia e o Libelo necessariamente equivocado (ainda que possa incorrer em algumas imprecisões, como vimos). O motivo disso se dá no fato de que qualquer estudioso carrega em si crenças, ideologias, visões de mundo e perspectivas culturais que influenciam sua forma de analisar o objeto de estudo. Esses vieses, ainda que atuem de modo inconsciente, não desqualificam necessariamente o que se busca afirmar. É fundamental reconhecer sua existência, como vários autores — entre eles o Prof. Hilton Japiassú — já o fizeram ao problematizar a própria ideia de neutralidade científica. Esse tipo de permissão, longe de enfraquecer o empreendimento científico, contribui para evidenciar em que medida algo de nós mesmos reverbera na pesquisa científica, tornando-nos também objeto dessas investigações. Assim, ao reconhecermos que há uma inevitável dimensão humana na produção do conhecimento, torna-se possível identificar aqueles vieses, ideologias, opiniões e ímpetos interpretativos que nos auxilia a melhor notar se a qualidade e a integridade da pesquisa está sendo ou não comprometida por esses. Tal reconhecimento aproxima-se das críticas já formuladas à ideia de uma neutralidade científica absoluta — seja na discussão sobre “ciência normal” e paradigmas em Kuhn, na noção de “estilo de pensamento” em Fleck, nas rupturas epistemológicas de Bachelard ou nas análises sobre o habitus científico em Bourdieu. Ao explicitar esses condicionantes, podemos trabalhá-los de forma mais consciente e sistemática, tornando-nos pesquisadores mais autoconscientes e reflexivos — não em função do atual status quo, mas justamente de um status quo que se deixa desconstruir à luz dessa perspectiva crítica. No escopo aqui abordado, muitas hagiografias e libelos aparecem, em grande medida, como frutos desses mesmos processos de projeção, seleção e silenciamento, e não apenas como “desvios” individuais ou falhas morais isoladas. Entretanto, muitas vezes tais interpretações podem passar do ponto, de modo que hipérboles e distorções acabem por se cristalizar como especulação. 1.3 Erros Invalidando Acertos Seja como for, em reação a um tipo de análise — que contrapõe elementos hagiográficos de Einstein com um libelo acusatório vazio — que nasceu a motivação para este ensaio: proporcionar a Einstein a oportunidade de errar. Como advertia Bertolt Brecht (1898-1956), “pobre do povo que precisa de heróis” — isto é, infelizes aqueles que alçam indivíduos a pedestais morais supondo-os infalíveis, quando nunca o foram. E, diante de deslizes expostos — acrescentamos —, tendemos a castigá-los com violência ou, pior, a usar seus tropeços como álibi para nossos próprios desvios, tomando-os como sinônimo de conduta aceitável. Observe que não buscamos “passar pano” para as atitudes de Einstein (algumas delas são realmente questionáveis 13 ), mas sempre contrapô-las a seus 13 Cumpre notar também que suas faltas mais graves situam-se no plano ético-afetivo privado — padrão de infidelidade, problemas no casamento, faltas com a esposa (como a carta com as “condições” de convivência, a frieza instrumental com a primeira esposa etc.), falhas como pai (distância, assimetria de cuidado), entre outras —, que embora sejam graves, não estão 6
Albert Einstein: Entre a Hagiografia e o Libelo acertos e à evolução de pensamento, quando houve (vide Seção 5.1). Além disso, é importante estabelecer um equilíbrio historiográfico, para que não reduzamos o ser humano a seus erros. É possível inspirar-nos ainda em Einstein sem incorrermos em suas faltas, buscando compreender os motivos subjacentes às ações humanas para que, idealmente, não as repitamos. Afinal, não é isso que desejaríamos que fizessem conosco no futuro? Temos sido, em certa medida, excessivamente “popperianos” em nossos julgamentos, nos quais muitas vezes um único erro parece bastar para invalidar toda uma bela “teoria” de vida. Em suma, e de forma mais pragmática, nosso propósito aqui é compreender como tais visões (positivas ou não) sobre Einstein foram construídas, analisar se essas são confiáveis e, por fim, propor fontes mais seguras, cientes de que sempre haverá interpretações, vieses e ideologias por detrás de quem as estuda. 2 Meta-Biografia de Einstein Desse modo, necessitamos agora compreender a lupa através da qual enxergamos o pai da relatividade, e por onde muitos jornalistas, pensadores e escritores se fundamentam para tecer suas visões. Só assim poderemos reconhecer os arquétipos que se sedimentaram em torno de sua figura ao longo dos anos e que alguns buscam desconstruir ou enaltecer. Assim, o primeiro pensamento lógico para realizar essa tarefa seria recorrer as diversas biografias existentes sobre Einstein. Para isso, uma vertente particularmente instigante que tem ganhado espaço na História da Ciência nas últimas décadas é a dos chamados estudos metabiográficos. De modo geral, a diferença entre uma biografia e uma metabiografia está em seu foco: enquanto a primeira se concentra na personalidade biografada, a segunda volta o olhar para o próprio biógrafo. Assim, esse tipo de abordagem torna explícito o processo de construção do relato biográfico, permitindo ao leitor avaliar com maior consciência o grau de objetividade, as limitações das fontes e as intenções do autor. Além disso, os estudos metabiográficos ajudam a identificar quais documentos foram privilegiados em cada período e de que modo determinados autores decidiram estruturar — ou omitir — certos episódios, a fim de sustentar suas interpretações. Como Einstein possui uma enorme quantidade de biografias dos mais diversos tipos (de quase “hagiografias” a desconstrução total do mito), esse tipo de análise pode ser muito elucidativa. Posto isso, recorreremos agora a um importante trabalho de Beate Ceranski 14 que detém o título “Albert Einstein no âmbito de crimes hediondos (assassinato, abusos sexuais, crimes de guerra etc.). Nesses últimos casos, entraríamos em análises mais complexas acerca do quanto é, ou não, possível separar o autor de sua obra, como ocorre com outras individualidades. 14 Beate Ceranski é acadêmica sênior (apl. Prof. Dr. rer. nat.) e Akademische Oberrätin no Instituto de História da Universidade de Stuttgart, onde coordena o gerenciamento de cursos e a orientação acadêmica da Seção de História da Ciência e Tecnologia (GNT). Formada em Física, Matemática e Teologia Evangélica pela Universität Bonn, obteve o doutorado em História da Ciência na Universität Hamburg. Seus principais interesses de pesquisa abrangem a história 7
Albert Einstein: Entre a Hagiografia e o Libelo e Marie Curie na comparação de sua biografia e meta-biografia 15 ” (tradução livre do alemão). Embora nesse caso a autora tenha se concentrado em criar um paralelo entre Einstein e Curie — visto o artigo pertencer a uma coleção de textos sob o título “Carreiras acadêmicas de mulheres cientistas nas ciências naturais, ontem e hoje” —, ela em um primeiro momento analisou isoladamente ambas personalidades antes de desenvolver tal comparação. E é exatamente esse subtítulo que traduzimos e trazemos a seguir. Vejamos: Parte I — Esboço meta-biográfico de Albert Einstein por Beate Ceranski Quando Albert Einstein faleceu em 1955, já decorriam mais de três décadas de intenso interesse público e midiático em torno de sua pessoa. Algumas de suas descobertas mais marcantes, reconhecidas cerca de meio século antes, ainda inspiravam debates. Em seu annus mirabilis de 1905, Einstein publicou três artigos revolucionários — cada um deles de importância singular —, dos quais o estudo sobre o efeito fotoelétrico lhe garantiu, anos depois, o Prêmio Nobel. À época, porém, ele era apenas um funcionário do Escritório de Patentes suíço, completamente desconhecido na comunidade de físicos. Gradualmente, suas contribuições atraíram convites de diferentes universidades, até que, em 1914, ingressou na Academia de Berlim. Sua esposa Mileva e os dois filhos — e a enigmática trajetória de Lieserl, filha nascida fora do casamento — voltaram a Zurique logo após o parto, embora o divórcio só tenha sido oficializado em 1919. Pouco depois, Einstein explicou à prima Elsa, com quem mantivera longa relação, os motivos desse desenlace [6]. Em Berlim, Einstein concluiu, em 1915, sua Teoria da Relatividade Geral — sucedendo à Relatividade Especial de 1905 —, mas o reconhecimento público só viria no final daquele ano, quando uma expedição britânica, durante o eclipse solar de novembro, confirmou a deflexão da luz prevista por sua teoria. De um dia para o outro, ele e suas ideias conquistaram as manchetes, embora logo tivessem de enfrentar uma campanha polemista “antirrealista”, protagonizada por grupos marginalizados da física alemã, com reverberação até na assembleia de Bad Nauheim em 1920. [7] Nos anos seguintes, Einstein embarcou em longas viagens defendendo o pacifismo e o sionismo. Em 1933, aceitou o convite de Princeton e exilou-se definitivamente nos Estados Unidos, onde buscou unir gravitação e eletromagnetismo em uma teoria unificada, sem, contudo, obter sucesso antes de sua morte, em 1955. Já em vida, a repentina projeção de Einstein estimulou intensa produção biográfica em duas vertentes distintas. De um lado, colegas e colaboradores do ensino superior, história de gênero na ciência e tecnologia, microfísica (da pesquisa em radioatividade à física de altas energias) e historiografia da ciência e tecnologia — além de projetos de digitalização de acervos universitários (FONTE: <https://www.hi.uni-stuttgart. de/institut/team/Ceranski-00001/>). 15 CERANSKI, Beate. “Genie und Besessenheit. Albert Einstein und Marie Curie im Vergleich ihrer Biographie und Metabiographie”. In: PASCHER, U.; STEIN, P. (org.). Akademische Karrieren von Naturwissenschaftlerinnen gestern und heute. Wiesbaden: Springer Fachmedien Wiesbaden, 2013. DOI: 10.1007/978-3-531-19544-5_3. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1007/ 978-3-531-19544-5_3>. Acesso em: 27 jul. 2025. 8
Albert Einstein: Entre a Hagiografia e o Libelo empenharam-se em divulgar sua pessoa e sua física num tom popular, explicando a relatividade sem prescindir de uma introdução aos princípios físicos e matemáticos. [8] Do outro, jornalistas e escritores — entre eles Antonina Vallentin, amiga de Elsa — propuseram narrativas acessíveis, contrastando o gênio de Einstein com seu comportamento distraído e sua indiferença aos bens materiais. [9] Em ambas as abordagens, a vida familiar de Einstein aparecia apenas de forma breve, e a primogênita Lieserl permanecia praticamente ausente dos relatos. Só no fim dos anos 1970, com a profissionalização da história da ciência, esse panorama começou a mudar. Um dos grandes projetos dessa fase foi a edição crítica das Collected Papers of Albert Einstein, iniciativa tolhida por longas disputas com os curadores do espólio — Otto Nathan e Helene Dukas — que receavam a divulgação de cartas que mencionassem Mileva e Lieserl. [10] Após a morte de Nathan em 1987, finalmente foram publicadas as correspondências trocadas entre Einstein e Mileva, revelando alusões à colaboração dela nos primeiros trabalhos de relatividade. [11] Esse material incentivou a então nascente pesquisa em história de gênero, evidenciando injustiças históricas na atribuição de descobertas científicas. [12] Revistas feministas, como a EMMA, e veículos de circulação ampla, como a DIE ZEIT, passaram a questionar se Mileva podia ser considerada “mãe da relatividade”. [13] Desde o início dos anos 1990, nenhuma biografia acadêmica de Einstein ignora essa polêmica, ainda que a maioria dos historiadores hoje não atribua a Mari´c um papel científico decisivo. [14] Com o “Ano Mundial da Física” de 2005 e o “Einsteinjahr”, sua imagem voltou a ser reformulada. Novos detalhes de sua vida privada vieram à tona — especulações sobre amantes, filhos ocultos e o destino de seu cérebro sob custódia da CIA —, substituindo o retrato do gênio doméstico das primeiras biografias por uma figura mais complexa e controversa. [15] Assim, a recepção de Einstein se desenha em pelo menos duas épocas: a fase heroizante, em que sua física era exaltada e a vida pessoal apenas sugerida, e a fase investigativa, marcada pela exploração de fontes íntimas e pelos debates de gênero. Hoje, sua personalidade surge em luz ambivalente, mas seu nome e sua fisionomia permanecem ícones universais da ciência — quase uma marca registrada, desvinculada dos detalhes do próprio trabalho científico. [16] [NOTAS DE RODAPÉ DO TEXTO16] 6. Sobre a primeira esposa de Einstein, Mileva, cf. Bürki 2007; estudo pioneiro (tendência hagiográfica) de Trubuhovi´c-Gjuri´c 1983/1993; e relato comovente em Highfield & Carter 1993. 7. Detalhes nos capítulos correspondentes das biografias especializadas; Kleinert 1993; cartas de Einstein a Max e Hedwig Born em Einstein/Born 1969. 8. Philipp Frank, biografia de Einstein herdeiro de sua cátedra em Praga. 9. Vallentin 1955. Vallentin publicou também estudos sobre Picasso, Goya, Heine e H.G. Wells. 16 Os artigos e referências trazidos pela autora deixarei ao encargo do leitor buscar na obra original, por não ser de nosso interesse direto aqui. 9
Albert Einstein: Entre a Hagiografia e o Libelo 16. Einstein’s Clocks, Poincaré’s Maps: Empires of Time (Peter Galison, 2003). Classificação: intermediário. Observação: Estudo histórico em inglês sobre a relação entre tecnologias de sincronização de relógios, cartografia e a gênese da relatividade especial. Não é biografia no sentido estrito, mas reposiciona Einstein em redes técnicas e institucionais, relativizando a imagem do “gênio isolado” sem cair em demonização. 17. Einstein: A Biography (Jürgen Neffe, 2005). Classificação: intermediário. 4ª Geração . Observação: Biografia geral, originalmente em alemão, com edição brasileira (Einstein: uma biografia). Trabalha bastante o contexto político e cultural, bem como a recepção das ideias de Einstein, abordando ambivalências pessoais e contradições sem tom panfletário. 18. The Einstein File: J. Edgar Hoover’s Secret War Against the World’s Most Famous Scientist (Fred Jerome, 2002). Classificação: intermediário (fortemente crítico ao aparato estatal, positivo em relação a Einstein). 4ª Geração . Observação: Primeiro grande livro de Fred Jerome sobre Einstein, baseado no volumoso dossiê do FBI obtido via Freedom of Information Act. Reconstrói a campanha de vigilância e difamação conduzida por J. Edgar Hoover contra Einstein, enfatizando o engajamento político do físico (antifascismo, defesa dos direitos civis, posições de esquerda). Outros livros de Jerome sobre Einstein incluem Einstein on Race and Racism (com Rodger Taylor, 2005), centrado na atuação antirracista de Einstein, e Einstein on Israel and Zionism (2008), que discute suas posições sobre sionismo, Israel e o Oriente Médio, além de edições atualizadas e traduzidas de The Einstein File em outros idiomas (todas fortemente positivas em relação a Einstein) . 19. Einstein: His Life and Universe (Walter Isaacson22, 2007). Classificação: intermediário (levemente hagiográfico). 5ª Geração . Observação: Uma das biografia mais famosas da atualidade escrita originalmente em inglês, com edição brasileira Einstein: sua vida, seu universo. Altamente narrativa, muito documentada, equilibra vida científica e pessoal, reconhece falhas, mas tende a compor um retrato global bastante positivo de Einstein. 20. Einstein’s Mistakes: The Human Failings of Genius (Hans C. Ohanian, 2008). Classificação: intermediário (puxando ao libelo). 5ª Geração . Observação: Estudo crítico que organiza a narrativa em torno dos “erros” de Einstein, técnicos e pessoais. A parte física é densa e informativa, mas o estilo é frequentemente irônico e impaciente, sobretudo quando trata da personalidade, o que aproxima o conjunto de um libelo contra o “mito Einstein”, mesmo sem ser um panfleto puro. 22 Isaacson é um famoso jornalista e escritor norte-americano, tendo sido presidente e diretor executivo do Instituto Aspen e da CNN, além de editor da revista Time. 16
Albert Einstein: Entre a Hagiografia e o Libelo 21. Einstein’s Greatest Mistake: The Life of a Flawed Genius (David Bodanis, 2016). Classificação: intermediário. 5ª Geração . Observação: Biografia ensaística que organiza a vida de Einstein em torno de sua “maior falha” (a recusa em aceitar a interpretação dominante da mecânica quântica). O livro enfatiza a combinação de brilhantismo e teimosia, explorando também falhas pessoais (especialmente em relações afetivas). O tom é crítico, mas não hostil; busca apresentar um “gênio imperfeito” para público amplo, com menos detalhe técnico e histórico que pais, Clark ou Fölsing, porém com maior ênfase na falibilidade humana. Ed. brasileira: “Einstein: biografia de um gênio imperfeito” (Zahar). 22. Na Pista de Einstein: Da intuição à descoberta das ondas gravitacionais (Antonio Acín; Eduardo Acín, 2016). Classificação: intermediário (divulgação científica, levemente hagiográfico). Observação: Obra originalmente publicada em português (Portugal), pela Atlântico Press / Bonalletra, dentro da coleção “Descobrir a Ciência”. Apresenta a relatividade restrita e geral e a história que culmina na detecção de ondas gravitacionais, em linguagem acessível, tratando Einstein sobretudo como figura intelectual admirável e guia conceitual. Foca muito mais nas ideias e no contexto científico do que em sua biografia íntima; o aspecto “biográfico” aparece em função da trajetória intelectual. 23. Einstein in Time and Space: A Life in 99 Particles (Samuel Graydon, 2023). Classificação: intermediário (biografia-mosaico, com ênfase nas contradições). Observação: Biografia em inglês construída em 99 vinhetas curtas, escrita pelo editor de ciência do Times Literary Supplement. A proposta é recompor Einstein em “partículas” — do dropout e refugiado ao mito pop — destacando tanto o gênio científico quanto aspectos incômodos (infidelidades, ambiguidades políticas), sem cair nem na hagiografia nem no libelo. Edição brasileira: Einstein no espaço-tempo: A vida de um gênio em 99 partículas (Rio de Janeiro: Sextante, 2024), que mantém o formato em 99 histórias e explora explicitamente a natureza múltipla e contraditória do personagem. Podemos notar nesse corpus de biografias e obras afins sobre Einstein que mapeamos (algumas dessas só foram publicadas no Brasil, servindo também para uma visão mais local de Einstein) que, com o tempo, houve um amadurecimento em relação a leituras excessivamente positivas ou depreciativas. Assim, observa-se que a maior parte dos títulos situa-se numa zona intermediária entre hagiografia e libelo. No caso, em torno de dois terços do total, combinam o reconhecimento inequívoco da centralidade de Einstein na física do século 20 com uma disposição, em graus variados, para explorar suas ambiguidades morais, afetivas e políticas: é o caso, por exemplo, das grandes biografias “clássicas” (Pais, Clark, Fölsing, Neffe, Frank, Brian, Isaacson), de leituras temáticas (Jammer, Jerome, Jerome & Taylor, Bodanis, Graydon) e de estudos contextualistas ou meta-críticos (Galison, Holton, Friedman & Donley). Em contraste, um subconjunto menor, mas historicamente importante, configura 17
Albert Einstein: Entre a Hagiografia e o Libelo o polo hagiográfico, no qual Einstein é convertido em modelo quase edificante — quer como gênio moral e espiritual (Hoffmann & Dukas, Vallentin, Rohden, Brown, coletâneas de “pensamento vivo”), quer como sábio religioso ou profeta laico — por meio de uma seleção de episódios que tende a atenuar conflitos conjugais, falhas de paternidade e ambivalências políticas, subordinando o biográfico à função exemplar. Na outra extremidade, encontram-se os textos que se aproximam do libelo, seja dirigindo o ataque à própria teoria (como o famoso panfleto coletivo “Hundert Autoren gegen Einstein”), seja explorando com ênfase desproporcional a esfera íntima e as “falhas de caráter” (como em Highfield & Carter), seja ainda reorganizando a trajetória em torno de “erros” e “falhas” de forma quase sistemática (caso de Ohanian 23 , que ocupa uma posição limítrofe entre crítica informada e um aparente ressentimento). Transversalmente, contudo, esses três regimes de escrita convergem em alguns eixos recorrentes — o annus mirabilis e a construção do “gênio”, a vida conjugal e familiar como diagnóstico de caráter, o engajamento político e o problema do pacifismo, a religiosidade “cósmica” e a transformação de Einstein em ícone cultural — de modo que o debate biográfico sobre o personagem se torna, ao mesmo tempo, um laboratório privilegiado para observar a produção e a contestação de mitos científicos, bem como a tensão permanente entre celebração, denúncia e contextualização histórica na historiografia da ciência. 4 Alternativas Biográficas: CPAE Em seu testamento, Einstein legou seu espólio literário e seus papéis pessoais à Universidade Hebraica de Jerusalém, que hoje abriga o Albert Einstein Archives, em Givat Ram, com dezenas de milhares de manuscritos, cartas e documentos ligados à sua vida e obra24. Em 1977, a Princeton University Press e o Einstein Papers Project (EPP) iniciaram a edição crítica dos escritos e da correspondência de Einstein, que vem sendo publicada desde 1987 sob o título The Collected Papers of Albert Einstein (CPAE), em volumes documentais na língua original acompanhados de um volume paralelo em tradução inglesa e extensa anotação crítica. 25 Até o momento, essa série cobre de forma sistemática a trajetória do físico desde a juventude até o período entre-guerras, organizando artigos científicos, cadernos de pesquisa, palestras e correspondência em uma cronologia unificada. Paralelamente à edição impressa, esse material foi progressivamente migrado para o ambiente digital, dando origem a um conjunto de bases de dados 23 Sobre esse, realizaremos um ensaio separado. 24 ALBERT EINSTEIN ARCHIVES. Albert Einstein Archives. Jerusalém: The Hebrew University of Jerusalem, [s.d.]. Arquivo que abriga o espólio literário de Einstein, legado à Universidade Hebraica por disposição testamentária do próprio autor; catálogo e fac-símiles acessíveis via portal “Einstein Archives Online”. 25 EINSTEIN PAPERS PROJECT. The Collected Papers of Albert Einstein. Princeton: Princeton University Press, 1987—. 18
Albert Einstein: Entre a Hagiografia e o Libelo que hoje estrutura praticamente toda a pesquisa séria sobre Einstein. O Einstein Archives Online, fruto da colaboração entre a Universidade Hebraica, o Caltech e aPrinceton University Press Press, oferece um banco de dados com dezenas de milhares de registros arquivísticos e milhares de documentos digitalizados em fac-símile, com metadados que permitem pesquisa por data, remetente, destinatário, local, tipo de documento e outros campos relevantes 26 . Complementarmente, a plataforma Digital Einstein Papers, mantida pela Princeton University Press em conjunto com o EPP, disponibiliza em formato pesquisável o conteúdo integral dos volumes já publicados dos CPAE (texto na língua original, tradução inglesa e aparato crítico), com links cruzados para os registros correspondentes no Einstein Archives Online27. Do ponto de vista historiográfico, o papel combinado dos CPAE e dessas bases digitais é duplamente interessante. Por um lado, eles funcionam como instância de controle para qualquer narrativa biográfica ou interpretação filosófica: debates sobre a participação de Mileva Mari´c, sobre a prioridade de E=mc2 , sobre o pacifismo de Einstein antes e depois de 1933 ou sobre sua relação com o sionismo e com o FBI podem ser ancorados em séries extensas de documentos primários, ordenados e anotados, em vez de depender exclusivamente de memórias tardias ou anedotas de segunda mão. 28 Por outro lado, esse aparato editorial-arquivístico fomenta um tipo de trabalho micro-histórico, em que se pode seguir a gênese de um artigo através de rascunhos sucessivos, confrontar cartas enviadas e recebidas em um mesmo período ou relacionar notas de cálculo em cadernos com exposições feitas em correspondência privada. Não é exagero afirmar que a passagem da biografia de Einstein de um estágio predominantemente hagiográfico ou polêmico para uma fase de crítica documentada — na qual se situam, ainda que com diferentes vieses, autores como Fölsing, Neffe, Galison, Holton, Bodanis, Graydon e outros — só se tornou plenamente possível porque esse conjunto de edições, arquivos e bases de dados fornece uma infraestrutura estável sobre a qual construir, contestar e refinar interpretações. Por conseguinte, sempre que novos documentos, notícias ou leituras críticas pretendam contestar aspectos estabelecidos da biografia de Einstein, ou quando determinadas narrativas se revelarem excessivamente hiperbólicas —- seja na exaltação, seja na condenação de seus erros e acertos —-, é sugerido recorrermos prioritariamente a esse corpus documental como instância de verificação 26 EINSTEIN ARCHIVES ONLINE. Einstein Archives Online. [S.l.]: The Hebrew University of Jerusalem; Caltech; Princeton University Press, 2003—. Base de dados digital gratuita com registros arquivísticos e documentos digitalizados relativos à vida e à obra de Albert Einstein, integrada aos identificadores usados nos Collected Papers of Albert Einstein. Disponível em: <https://einsteinpapers.press.princeton.edu/eaon-line>. 27 DIGITAL EINSTEIN PAPERS. The Collected Papers of Albert Einstein: The Digital Edition. Princeton: Princeton University Press, 2014—. Plataforma digital que disponibiliza on-line, em formato pesquisável, o conteúdo dos volumes dos Collected Papers of Albert Einstein, com textos em língua original, tradução inglesa e aparato crítico, vinculados aos registros do Einstein Archives Online. Disponível em: <https://einsteinpapers.press.princeton.edu>. 28 Cf. EINSTEIN PAPERS PROJECT. The Collected Papers of Albert Einstein. Princeton: Princeton University Press, 1987—; EINSTEIN ARCHIVES ONLINE. Einstein Archives Online. [S.l.]: The Hebrew University of Jerusalem; Caltech; Princeton University Press, 2003—. 19
Albert Einstein: Entre a Hagiografia e o Libelo e retificação interpretativa em nossos trabalhos vindouros sobre o físico alemão. 5 Coletânea: Diários de Viagem Além disso, nas últimas décadas, a edição sistemática dos escritos de Einstein foi acompanhada por um esforço específico de publicação de suas anotações de viagem, que passaram a ocupar lugar próprio na historiografia do autor. A partir de manuscritos conservados no citado Albert Einstein Archives, em Jerusalém, e no âmbito do próprio Einstein Papers Project, Ze’ev Rosenkranz — antigo curador do arquivo e hoje editor sênior do projeto — organizou e anotou os Travel Diaries, convertendo cadernos privados em volumes críticos destinados tanto ao público especializado quanto a leitores mais amplos29. O primeiro grande fruto desse esforço foi “The Travel Diaries of Albert Einstein: The Far East, Palestine, and Spain, 1922-1923”, publicado pela Princeton University Press em 2018, com fac-símiles, transcrição diplomática, tradução inglesa e aparato crítico extenso, que enquadra a longa viagem de Einstein à Ásia e ao Oriente Médio logo após o recebimento do Prêmio Nobel 30 . Mais recentemente, o mesmo editor publicou “The Travel Diaries of Albert Einstein: South America, 1925”, cobrindo a tournée de conferências na Argentina, no Brasil e no Uruguai, igualmente em edição bilíngue, anotada e acompanhada de documentação suplementar (cartas, discursos, fotografias), com lançamento em 2023 31 . Esses volumes se somam, portanto, à edição dos CPAE, mas com um recorte temático e material próprio, centrado na escrita diarística e no registro imediato de impressões em trânsito. O impacto desses diários na imagem pública e acadêmica de Einstein foi significativo, em especial no caso do caderno relativo à viagem ao Extremo Oriente. Como Einstein não esperava que tais anotações fossem publicadas, esse revelou passagens com juízos depreciativos sobre chineses, japoneses, indianos e moradores do Ceilão. Já o diário da América do Sul, embora menos polêmico nesse aspecto, fornece um panorama detalhado das percepções de Einstein sobre as elites científicas e culturais de Buenos Aires, Rio de Janeiro e Montevidéu, sobre a recepção midiática de sua figura e sobre o uso político-simbólico de sua visita em contextos locais, algo que a crítica recente tem explorado para repensar as relações centro-periferia na circulação da relatividade 32 . Em ambos os casos, a 29 Cf. EINSTEIN PAPERS PROJECT. Einstein Papers Project. Pasadena: California Institute of Technology, [s.d.]. Disponível em: <https://www.einstein.caltech.edu>. Acesso em: [14 nov. 2025]. 30 EINSTEIN, Albert. The Travel Diaries of Albert Einstein: The Far East, Palestine, and Spain, 19221923. Ed. Ze’ev Rosenkranz. Princeton: Princeton University Press, 2018. 31 EINSTEIN, Albert. The Travel Diaries of Albert Einstein: South America, 1925. Ed. Ze’ev Rosenkranz. Princeton: Princeton University Press, 2023. Cf. também a edição brasileira: EINSTEIN, Albert. Os diários de viagem de Albert Einstein: América do Sul, 1925. Trad. port. São Paulo: Editora Unesp, 2024. 32 Cf. resenha em FOREWORD REVIEWS. The Travel Diaries of Albert Einstein: South America, 1925. Foreword Reviews, Traverse City, 15 fev. 2023. Disponível em: <https://www. forewordreviews.com/reviews/the-travel-diaries-of-albert-einstein/>. Acesso em: 14 nov. 20
Albert Einstein: Entre a Hagiografia e o Libelo escrita diarística, menos filtrada do que a correspondência e distante do estilo ensaístico dos textos públicos, traz à tona um Einstein mais imediato, por vezes irreverente, por vezes tenso, que observa paisagens, hábitos, corpos e rituais com o olhar de um europeu de sua época. Do ponto de vista historiográfico, esses diários de viagem cumprem ao menos três funções decisivas. Primeiro, ampliam o repertório de fontes primárias para avaliar a trajetória intelectual e política de Einstein, permitindo rastrear, com maior precisão, a evolução de suas atitudes em relação a “povos colonizados”, culturas não europeias e comunidades judaicas da diáspora 33 . Segundo, oferecem material privilegiado para estudos de micro-história das viagens científicas: rotinas de bordo, contatos institucionais, conferências, bastidores de recepções oficiais e dinâmicas de sociabilidade intelectual. Por fim, funcionam como um contrapeso importante às narrativas estritamente hagiográficas ou estritamente acusatórias, uma vez que mostram simultaneamente o cientista engajado que viaja como representante de uma ciência em expansão global e o indivíduo atravessado por estereótipos, preconceitos e tensões morais de seu tempo. 5.1 Polêmica na Viagem pelo Brasil Um adendo interessante ainda sobre as viagens de Einstein pela América do Sul, diz respeito a possivelmente a maior das peccata minuta de Einstein para com nós brasileiros. Essa advém de uma nota em seu diário ao visitar o Brasil (que consta no “The Travel Diaries”), em que cientista escreveu que “aqui sou uma espécie de elefante branco para os demais; eles são macacos para mim”. Obviamente, essa frase desprovida de contexto, gera impacto, sobretudo pela forma como a mídia a noticiou. Além disso, por hoje vivenciarmos uma era onde só se lê os títulos das matérias, o famoso clickbait se tornou uma estratégia para atrair a atenção do leitor para seu texto, em títulos chamativos como a da BBC Brasil: Em visita ao Brasil, Albert Einstein disse que brasileiros eram ’fofinhos’ e comparou povo a ’macacos’. E não somente essa mídia, mas diversos outros veículos de notícia reverberaram tal frase de maneira similar desde a primeira publicação dos “The Travel Diaries” onde outras frases foram reverberadas acerca de outros povos. Por conta disso, em uma curta pesquisa realizada em mecanismo de buscas online — estamos em 2025 —, notaremos que sua figura vem sendo associada a xenofobia, racismo e misoginia 34 . Isso levanta a pergunta: como Einstein migrou de um grande humanitário pacifista para tais adjetivos? 2025. 33 Sobre o uso dos diários na discussão sobre racismo e xenofobia em Einstein, ver, por exemplo, ROSENKRANZ, Ze’ev. The Travel Diaries of Albert Einstein: The Far East, Palestine, and Spain, 1922-1923. Introdução. Princeton: Princeton University Press, 2018. 34 V., por exemplo, EINSTEIN, Albert. The Travel Diaries of Albert Einstein: The Far East, Palestine, and Spain, 1922-1923. Ed. Ze’ev Rosenkranz. Princeton: Princeton University Press, 2018; e a repercussão jornalística em TAYLOR, Adam. Einstein’s travel diaries reveal racist attitudes. The Washington Post, Washington, 13 jun. 2018; e em artigo de Alison Flood, “Einstein’s travel diaries reveal ‘shocking’ xenophobia”, The Guardian, Londres, 13 jun. 2018. 21
Albert Einstein: Entre a Hagiografia e o Libelo Entretanto, não precisamos ir tão longe para entender o que ocorreu: basta, simplesmente lermos as matérias dos principais portais de notícia — o leitor pode escolher qualquer um desses, já que houve uma grande falta de empenho em buscar inovar o assunto que é replicado de igual forma em todos os canais — para observarmos que essa é totalmente relativizada no próprio texto. Diante disso, façamos aqui um exercício de analisarmos toda a citação que envolve essa frase contida no livro, a fim de melhor capturar o contexto envolto nessa afirmação nas palavras de Einstein (grifos e tradução nossa do inglês, e não do alemão): 6. Passeio com Silvamello na parte alta da cidade. Pessoa inteligente e decente, que me apresentou às pequenas intrigas da faculdade. A linguagem tem mais peso aqui do que a observação. Ao meio - dia, no pub do porto superior. Prato de peixe picante. À tarde, visitas ao presidente, ao ministro da Educação e ao prefeito. Por volta das 16h30, primeira palestra no Clube dos Engenheiros, em um salão superlotado, com o barulho da rua entrando pelas janelas abertas. Só por razões acústicas a comunicação era impossível. Pouco sentido científico. Aqui sou uma espécie de elefante branco para os outros; eles são macacos para mim. À noite, sozinho no hotel, nu no meu quarto, desfruto da vista da baía com inúmeras ilhas verdes e parcialmente rochosas ao luar. 7. Visita ao Museu de História Natural. Animais e antropologia como foco principal. Beleza do desenho da coluna vertebral de uma cobra. Cultura dos índios, múmias em miniatura, flechas envenenadas. Magnífico jardim em frente ao museu. Estatísticas sobre mistura racial. Negros gradualmente desaparecendo pela miscigenação, devido à falta de poder de resistência dos mulatos. Índios, relativamente, menos numerosos. Ao meio-dia, na casa do Prof. Castro. Autêntico macaco, mas companhia interessante: arqueólogo russo, jornalista perspicaz, escritora atraente, inteligente e um tanto arrogante. À tarde, Academia de Ciências. Esses sujeitos são palestrantes fenomenais. Quando elogiam alguém, elogiam — eloquência. Acredito que tanta tolice e irrelevância tenham realmente algo a ver com o clima. Mas o povo não pensa assim. 8. Visita matinal ao Instituto de Biologia. Anatomia patológica. Insetos transmissores de doenças: Trypanosoma ao microscópio. À tarde, palestra na Escola de Engenharia. Calor intenso em auditório superlotado. À noite, convite para o clube alemão "Germania". Jantar aconchegante. (págs. 159 - 163) Observe que a palavra “macaco” também foi utilizada para se referir a um certo Prof. Castro. No caso, trata-se de Aloysio de Castro (1881 - 1959), médico, professor brasileiro e ocupante da Cadeira n º 5 da Academia Brasileira de Letras. Um detalhe muito importante é que Castro era caucasiano, o que, num primeiro momento, afasta a conotação racial do termo. Voltando agora para o contexto em que a frase principal em análise foi escrita, nota - se que Einstein a utilizou para descrever aqueles que assistiam à sua primeira palestra no Brasil, mais especificamente no Clube dos Engenheiros, no Rio de Janeiro. Ele relata que era quase impossível comunicar - se no local por conta das condições do ambiente. Além disso, na foto que consta na página 159 do livro de Rosenkranz e que 22
Albert Einstein: Entre a Hagiografia e o Libelo retrata esse momento, encontravam - se no local jornalistas, figuras de autoridade e provavelmente alguns cientistas — e, novamente, todos praticamente caucasianos. Ou seja, não era uma palestra para interessados em suas pesquisas, mas por sua personalidade — que, por sinal, já era bem famosa35. Em suma, podemos observar que Einstein não utilizou o termo para descrever todos os brasileiros de forma geral ou uma parcela específica da população: apenas se referiu aqueles que ali estavam. Além disso, não se tratava de uma injúria racial, mas, sim, um indicativo que Einstein se sentia numa posição de superioridade intelectual e cultural em relação àquelas pessoas — ainda assim um juízo de valor pejorativo, embora não no sentido usual do termo hoje. Além disso, ainda é possível extrair mais algumas informações desse encontro. 5.1.1 O Livro de Tolmasquim Algo digno de nota, é que esse diário já havia sido publicado anos antes aqui no Brasil sob o título “Einstein — O Viajante da Relatividade na América do Sul” (2003) de Alfredo Tiomno Tolmasquim 36 , mas somente agora com esta nova edição internacional, essa frase ganhou destaque. Tolmasquim, no caso, utilizou o termo “tolos” (tradução mais próxima ao que Einstein se referia) ao invés de “macacos” em sua tradução em seu livro de 2003, o que evidencia o caráter polemista dos veículos de notícia atuais ao fazer traduções ipsis litteris para gerar comoção. O autor ainda narrou como foi esse momento (p. 133-135) no Clube dos Engenheiros: A próxima parada seria no Clube de Engenharia, onde Einstein faria sua primeira conferência sobre a Relatividade. Encontrou um salão superlotado por embaixadores, oficiais do exército, representantes dos ministros e engenheiros — muitos deles acompanhados de esposas e filhos. No fundo, era como se estivessem prontos para assistir a uma exibição artística. (...) Einstein logo percebeu com nitidez que estava diante de um público muito diversificado: havia uma grande quantidade de pessoas leigas, sem um conhecimento mínimo em mecânica que lhes permitisse entender toda aquela explicação. Mas ele proferiu sua palestra assim mesmo, dentro do que estava previsto. A rigor, a presença de curiosos em suas palestras não era nenhuma 35 Devemos lembrar que física como campo de pesquisa universitária organizado no Brasil começou depois em 1934, com a criação da USP (FFCL) e a chegada de Gleb Wataghin, que estruturou grupos de pesquisa e formou a primeira geração de físicos brasileiros. Antes disso, haviam somente disciplinas específicas de Física em cursos de Medicina. 36 Segundo consta no próprio livro de 2003, Alfredo Tolmasquim nessa época era “(...) pesquisador titular e diretor do Museu de Astronomia e Ciências Afins/Mast, no Rio de Janeiro, onde desenvolve estudos sobre a história da ciência no Brasil. É também pesquisador visitante do Instituto Max Planck de História da Ciência, em Berlim, Alemanha, e secretário da Comissão de Bibliografia e Documentação da Divisão de História da Ciência da Sociedade Internacional de História e Filosofia da Ciência. Começou a trabalhar sobre a visita de Einstein à América do Sul durante seu pós-doutorado na Universidade Hebraica de Jerusalém, em 1993, e desde então tem realizado palestras e publicado artigos em revistas científicas sobre o tema”. 23
Albert Einstein: Entre a Hagiografia e o Libelo novidade para ele. Logo após a fama, em 1920, suas palestras na Universidade de Berlim tinham se tornado uma espécie de atração local. Incontáveis curiosos lotavam todos os lugares do auditório, onde permaneciam alguns minutos só para ouvi-lo e depois iam embora. Einstein chegou a instituir um pequeno intervalo, após 20 ou 30 minutos de exposição, para que os curiosos se retirassem e ele pudesse então continuar a dar a palestra para os alunos 37 . Em entrevista realizada para a revista “Pesquisa FAPESP”, sob o título “Alfredo Tolmasquim: um cientista nos trópicos”, o entrevistador Neldson Marcolin afirma: Einstein desembarcou no Rio no dia 21 de março, ficou apenas um dia e embarcou para Buenos Aires, onde chegou dia 24. Um mês depois foi para Montevidéu, ficou uma semana e, em seguida, voltou ao Rio para ficar mais uma semana. “Ele escreveu suas impressões em um diário de viagem que indica como seu estado de espírito foi se alterando durante a estadia na América do Sul”, disse o pesquisador. “No primeiro dia achou tudo maravilhoso, mas na volta para a Alemanha, quase dois meses depois, não suportava mais o calor, a comida e as homenagens.” Uma das primeiras anotações quando ele chega ao Rio, antes de ir para a Argentina, é: “O Jardim Botânico, bem como a flora de modo geral, supera o sonho das mil e uma noites. Tudo vive e cresce a olhos vistos por assim dizer. Deliciosa mistura étnica nas ruas: português, índio, negro, com todos os cruzamentos. Espontâneas como plantas, subjugados pelo calor. Experiência fantástica! Indescritível abundância de impressões em poucas horas”. Semanas depois, sozinho, sem muitos interlocutores científicos, assediado pela imprensa, participando de inúmeros eventos, solenidades e discursos, o humor dele foi mudando sensivelmente. “A palestra que deu no Clube de Engenharia do Rio, por exemplo, foi uma catástrofe.” O público era composto de militares e diplomatas com as esposas e filhos. O calor era grande, a sala estava superlotada e a janela teve de ser aberta. Piorou, porque havia o barulho da rua. Einstein deu a palestra em francês e desenhou uma série de fórmulas no quadro. Depois escreveu no diário: “Compreensão impossível a começar pela acústica. Pouco sentido científico. Eu sou um tipo de elefante branco para os outros, eles para mim uns tolos”. Na segunda palestra na Escola Politécnica, apesar do grande número de pessoas, restringiram a entrada e o evento foi mais agradável38. Notamos que havia uma mistura de vários componentes que teria afetado o humor de Einstein durante sua viagem, como a comida, o excesso de homenagens e principalmente o calor. Ademais, como Tolmasquim expõe, no Clube de Engenharia — onde a famigerada frase foi proferida — o publico era 37 TOLMASQUIM, Alfredo Tiomno. Einstein – O Viajante da Relatividade na América do Sul. Rio de Janeiro: Vieira & Lent, 2003. 38 MARCOLIN, Neldson. Alfredo Tolmasquim: um cientista nos trópicos. Humor de Einstein foi se alterando durante a viagem à América do Sul. Pesquisa FAPESP, São Paulo, fev. 2009. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/alfredo-tolmasquim-um-cientista-nos-tropicos/. Acesso em: 8 ago. 2025. 24
Albert Einstein: Entre a Hagiografia e o Libelo formado principalmente por militares e diplomatas com suas respectivas famílias — pessoas que realmente não eram versadas no assunto —, fora a presença constante de diversos curiosos que entravam e saiam do ambiente, atrapalhando a palestra, além do calor excessivo, o barulho externo. Ou seja, um caos completo. Assim, embora não se justifique, é compreensível que o físico estivesse aborrecido com o incidente, pois não se tratava de uma palestra para seus pares, mas para com um público totalmente leigo. 5.1.2 O “Male & Imperial Gaze” Posto isso, podemos agora analisar o contexto filológico do uso dessa palavra. A frase original em alemão “Für die anderen bin ich eine Art weißer Elefant; für mich sind sie Affen” indicando que não houve erros de tradução, pois Affe (plural Affen) designa um mamífero da ordem dos primatas. Porém, na linguagem coloquial alemã do início do século 20, essa palavra era usada figurativamente a alguém considerado tolo, mas também a uma “pessoa primitiva”, simplória ou que “faz palhaçadas”. Para entender melhor sua frase, conforme Rosenkranz comenta nos “The Travel Diaries”, Einstein se revestia de uma combinação de “male gaze” patriarcal e de “imperial gaze” colonial, reduzindo tanto as paisagens quanto as pessoas a objetos de curiosidade ou de suposta superioridade. Por exemplo, seus encontros eram marcados por preconceitos culturais, estereotipando tais povos como superficiais, materialistas e intelectualmente inferiores. Chegou a definir os chineses, por exemplo, como “uma gente trabalhadora, asquerosa e obtusa”. Na Argentina reforçou esteriótipos como superficiais, materialistas e moralmente inferiores (“espanhóis”, “indígenas”), vistos como “fios” de uma Europa do Sul atraente porém inferior. O Uruguai despertou sua admiração, por lembrar a Europa Central/Norte, sendo considerados autênticos e modestos. Já no Brasil critica o excesso de forma sobre o conteúdo e pela provável “incapacidade intelectual” atribuída ao clima tropical; ao mesmo tempo, associados ao exotismo e à ostentação, mas também elogiados em parte pela miscigenação, como notamos aqui: Ele aprova entusiasticamente a composição multirracial do Brasil: “A miscelânea de povos nas ruas é deliciosa: português, índio, negro e todo o resto, de maneira vegetal e instintiva, amansado pelo calor.” (p. 65) Assim, ao sentir-se tratado como “elefante branco”, reforçava sua identidade europeia e a relação Eu/Outro, experimentando isolamento e esgotamento social, porém sem componente racial. Isso se percebe também em seu trato com as mulheres sul - americanas: mesmo buscando conexão intelectual, persistia a exotização e a condescendência do “male gaze”. Entretanto, é importante ressaltar que esse sentimento de superioridade europeia desfez em parte já no início dos anos 1930, com a ascensão de Hitler e a implantação das leis antijudaicas. Einstein teve que renunciar à cidadania 25