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Reúso de Dados Abertos como Recursos Educacionais Abertos (REAs): uma revisão de literatura sobre o potencial pedagógico dos Dados Abertos

Vieira Dann, Eva Priscila; Groposo Pavão, Caterina

Abstract

[73] Este estudo apresenta uma abordagem inicial e exploratória sobre o potencial pedagógico dos Dados Abertos quando reutilizados como Recursos Educacionais Abertos (REAs). A Educação Aberta (EA) tem se consolidado como movimento relevante na democratização do conhecimento, por meio das Práticas Educacionais Abertas (PEAs). Quando acessíveis, interoperáveis e pedagogicamente adaptados, dados abertos tornam-se recursos interessantes para promover habilidades como literacia em dados, aprendizagem baseada em evidências e autonomia investigativa dos estudantes (Atenas, 2015). Embora os dados abertos não se qualifiquem automaticamente como REAs, sua utilização em contextos educacionais amplia a diversidade de recursos disponíveis e contribui para uma educação mais transversal e conectada com questões sociais. No entanto, seu uso permanece pouco explorado, o que ignora o potencial dos dados enquanto recursos de aprendizagem. Assim, este estudo consistiu em uma revisão bibliográfica que mapeou a relação entre dados abertos e REAs no contexto educacional. O objetivo foi analisar a forma que os dados abertos vêm sendo utilizados como REAs, identificando abordagens que promovam essa integração. A pesquisa foi realizada em março de 2025 e seguiu as diretrizes adaptadas de Kitchenham e Charters (2007). A ferramenta Parsifal foi utilizada para automatização do processo. A busca de itens foi realizada no Portal de Periódicos da Capes, com adoção da expressão de busca "open data" AND ("open educational resources" OR "OER"). Além das questões de pesquisa, foram definidos critérios de inclusão e exclusão para análise dos itens recuperados, que passaram pelas atividades de pré-seleção; seleção e organização dos dados extraídos dos itens selecionados, visando reutilização futura. Assim, a coleta resultou em 54 publicações, das quais 10 foram analisadas. Destaca-se que a limitação do número de estudos encontrados evidenciou uma lacuna importante na literatura, reforçando o caráter exploratório desta investigação. A análise demonstrou que os dados abertos podem ser reutilizados como REAs para promover aprendizagem baseada em práticas investigativas, permitindo que os alunos explorem informações reais e contextualizadas em diferentes disciplinas (Atenas et al., 2015; Atenas et al., 2023a; Belgiu et al., 2015). Além disso, a inclusão de dados abertos no ensino incentiva a transversalidade do conhecimento, pois os alunos aprendem a relacionar informações de fontes e domínios distintos (Atenas et al., 2020; Bakermans, 2024; Littlejohn, A.; Pegler, 2014), o que enriquece os currículos e prepara os estudantes para lidar com a complexidade de um mundo cada vez mais orientado pelos dados (Atenas et al., 2023a). O uso de dados abertos como REAs também fortalece a EA, por democratizar o acesso a recursos de qualidade e fomentar a colaboração entre instituições (Atenas et al., 2015). Professores podem adaptar e compartilhar materiais com base nesses dados, criando atividades personalizadas que atendam às necessidades de seus alunos (Abernathy, 2023). Essa flexibilidade pedagógica contribui para uma educação mais inclusiva e alinhada aos princípios da EA e da Ciência Aberta (CA), e ainda às demandas relacionadas ao letramento em dados, pensamento estatístico e capacidade de argumentação (Atenas et al., 2023a; 2023b). A curadoria de dados, especialmente pela seleção de fontes confiáveis e criação de guias pedagógicos que auxiliem docentes na sua aplicação em sala de aula, a acessibilidade dos formatos e a capacitação docente são apontadas como condições essenciais para viabilizar o uso efetivo dos dados abertos como REAs (Atenas et al., 2020; Belgiu et al., 2015; Abernathy, 2023; Atenas et al., 2023b). Por fim, a integração de dados abertos como REAs deve estar alinhada ao desenvolvimento de competências digitais e críticas nos alunos, o que requer a criação de atividades que incentivem a exploração autônoma, a colaboração e a reflexão sobre o impacto social dos dados abertos (Knight et al., 2023). Conclui-se que, embora este estudo represente uma etapa inicial baseada em revisão de literatura, seus achados podem subsidiar pesquisas futuras e fomentar discussões sobre o potencial dos dados abertos na EA e suas práticas, nas estratégias de curadoria, nos modelos de capacitação docente e nas metodologias para agregação dos dados abertos aos currículos. Além disso, pode orientar educadores na inclusão de conjuntos de dados abertos em suas práticas e fornecer subsídios para o desenvolvimento de políticas institucionais voltadas à EA.

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Reúso de Dados Abertos como Recursos Educacionais Abertos (REAs): uma revisão de literatura sobre o potencial pedagógico dos Dados Abertos Eva Priscila Vieira Dann Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil [email protected] https://orcid.org/0000-0001-5707-7488 Caterina Groposo Pavão Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil [email protected]gs.br https://orcid.org/0000-0003-3712-7200 Palavras-chave Dados abertos, Recursos educacionais abertos, Educação aberta Introdução A Educação Aberta (EA) tem se consolidado como um movimento relevante no cenário educacional ao promover o acesso e a democratização do conhecimento através das Práticas Educacionais Abertas (PEAs). Tal perspectiva se articula com os princípios da Ciência Aberta (CA), da qual a EA e os dados abertos são dimensões interdependentes voltadas à ampliação do acesso, da transparência e da participação na produção de conhecimento. Conforme Atenas (2015), dados abertos são reconhecidos como recursos essenciais para as comunidades científicas e de pesquisa, pois promovem transparência nos processos investigativos, fortalecem o avanço do conhecimento e a reprodutibilidade dos estudos, além de servirem como referência para boas práticas de pesquisa aberta na academia. Quando acessíveis, interoperáveis, reutilizáveis e adaptados pedagogicamente, os conjuntos de dados ultrapassam sua função original, tornando-se REAs com significativo potencial educacional, aprimorando as experiências dos alunos e contribuindo para o desenvolvimento de habilidades como as relacionadas a atividades de ensino e aprendizagem baseadas em evidências, à literacia em dados e à autonomia investigativa dos estudantes (Atenas, 2015). Embora os dados abertos não se qualifiquem automaticamente como REAs, sua utilização em contextos educacionais amplia a diversidade de recursos disponíveis e contribui para uma educação mais transversal e conectada com questões sociais. No entanto, apesar de essa distinção conceitual ser pertinente, seu uso permanece pouco explorado, o que ignora o potencial dos dados enquanto recursos de aprendizagem. Enquanto as discussões sobre dados abertos concentram-se majoritariamente em aspectos como licenciamento e armazenamento, há poucas abordagens voltadas ao seu uso prático na educação. Da mesma forma, ainda que o conceito de REA seja amplo e flexível, grande parte das pesquisas destaca os materiais produzidos por professores, desconsiderando outras fontes, como os próprios dados abertos (Atenas; Havermann, 2015). Este estudo apresenta uma abordagem inicial e exploratória sobre o potencial pedagógico dos dados abertos quando reutilizados como REAs. Assim, o trabalho consistiu em uma revisão bibliográfica que mapeou a relação entre dados abertos e REAs no contexto educacional. O objetivo foi analisar a forma que os dados abertos vêm sendo utilizados como recursos educativos, identificando abordagens que promovam essa integração. Nesse sentido, compreender a maneira que os dados abertos podem ser reutilizados como REAs nos processos de ensino e aprendizagem e quais estratégias favorecem sua incorporação, permite não apenas ampliar a adoção das PEAs, mas também fortalecer a EA e a CA. Entende-se que os resultados deste estudo podem subsidiar pesquisas futuras e fomentar discussões sobre o potencial dos dados abertos na EA e suas práticas. Metodologia A pesquisa foi conduzida em março de 2025, através de revisão bibliográfica, cujo propósito era recuperar publicações que evidenciassem o uso de conjunto de dados abertos como REAs. O protocolo da revisão norteou-se pelas diretrizes de Kitchenham e Charters (2007), adaptadas para este trabalho. A fim de automatizar o processo, utilizou-se a ferramenta web Parsifal, que auxiliou na extração e registro de informações. A Tabela 1 apresenta as questões de pesquisa: Tabela 1 Questões de pesquisa. QP1 De que maneira os dados abertos podem ser utilizados como recursos educacionais abertos (REAs) para enriquecer práticas pedagógicas em diferentes áreas do conhecimento? QP2 Quais estratégias e condições favorecem a adoção e a integração de dados abertos como REAs no ensino, considerando aspectos como curadoria, acessibilidade e desenvolvimento de competências? Fonte. Dados da pesquisa (2025). A busca foi realizada no Portal de Periódicos da Capes, por meio das palavras-chave em inglês dados abertos e recursos educacionais abertos, combinadas com os operadores booleanos AND e OR. Dessa forma, a expressão de busca elaborada foi "open data" AND ("open educational resources" OR "OER"). Os critérios de inclusão e exclusão utilizados se encontram listados na Tabela 2: Tabela 2 Critérios de inclusão e exclusão. Critérios de inclusão Critérios de exclusão CI1. Estudos (artigos, livros, capítulos de livros, anais de eventos) que investiguem a relação entre dados abertos e REAs no contexto educacional CI2. Publicações que abordem estratégias pedagógicas, desafios e impactos do uso de dados abertos como REAs CI3. Estudos escritos em inglês, português ou espanhol CI4. Os termos da expressão de busca aparecem no título, resumo ou palavras-chave CE1. Teses e dissertações, notas, manuais, relatórios técnicos, resenhas e editoriais CE2. Estudos que tratam apenas de dados abertos ou apenas de REAs, sem explorar a interseção entre ambos CE3. Publicações que não abordem aspectos educacionais ou pedagógicos do uso de dados abertos CE4. Estudos não escritos em inglês, português ou espanhol CE5. Estudos que não foi possível o acesso CE6. Estudos cujo conteúdo se mostre irrelevante para a pesquisa Fonte. Dados da pesquisa (2025). Os itens recuperados passaram pelas seguintes atividades: (1) pré-seleção, por meio da leitura dos títulos, resumos e palavras-chave, com descarte das publicações que apresentaram pelo menos um dos critérios de exclusão estabelecidos; (2) seleção, onde foi efetuada a leitura integral dos textos selecionados na etapa anterior; e (3) extração e documentação dos dados das publicações selecionadas, devidamente organizadas em planilha no formato .CSV, visando reutilização futura1. Foram extraídos os seguintes dados: título, ano de publicação, periódico, autor(es), resumo, palavras-chave. Após a realização dos procedimentos descritos na seção anterior, a análise identificou 54 publicações, das quais 38 foram rejeitadas na pré-seleção e 6 na seleção, restando 10 publicações para as discussões e análise final (Tabela 3). Não foram identificados estudos duplicados que exigissem descarte. A limitação do número de estudos encontrados indica que a pesquisa sobre essa temática ainda é pouco explorada, evidenciando uma lacuna importante na literatura, o que reforça o caráter exploratório desta investigação. Os estudos analisados foram publicados entre 2014 e 2024, abrangendo pesquisadores de diferentes países, como Reino Unido, Alemanha, Dinamarca, Letônia, Áustria, EUA, Austrália, Uruguai, México e Argentina. 1 Todos os dados gerados na investigação foram depositados no Repositório Comum de Dados de Pesquisa, o Deposita Dados (Dann; Pavão, 2025). Tabela 3 Publicações selecionadas. Nº Autor(es) Título Ano [1] Atenas, J. et al. Critical Data Literacy in Higher Education: Teaching and Research for Data Ethics and Justice 2023 [2] Atenas, J. et al. Critical data literacy in praxis: An open education approach for academic development 2023 [3] Atenas, J. et al. Critical literacies for a datafied society: academic development and curriculum design in higher education 2020 [4] Saddiqa, M. et al. Enterprise Architecture Oriented Requirements Engineering for Open Data Usage in Schools 2019 [5] Bakermans, M. H. Integrating open education practices with data analysis of open science in an undergraduate course 2024 [6] Knight, S. et al. Inverting {{Citation needed}}: critical design reflection of a citation learning game 2023 [7] Atenas, J. et al. Open Data as Open Educational Resources: Towards transversal skills and global citizenship 2015 [8] Belgiu, M. et al. Open Geospatial Education 2015 [9] Littlejohn, A.; Pegler, C. Reusing resources: open for learning 2014 [10] Abernathy, D. The next layer: Towards open pedagogy in geospatial education 2023 Fonte. Dados da pesquisa (2025). Assim, os resultados obtidos com esta revisão forneceram a base para as discussões que se seguem na próxima seção, onde são analisadas as implicações pedagógicas e as estratégias de implementação identificadas. Resultados A análise das publicações demonstrou que existem padrões e tendências no uso pedagógico dos dados abertos. Boa parte das experiências relatadas ocorre no ensino superior, com foco em cursos de ciências sociais, ambientais, computação e geoinformação (Atenas et al., 2015; Belgiu et al., 2015; Bakermans, 2024). Ainda são escassos os estudos que tratam da aplicação dos dados abertos em níveis básicos de ensino, como apontam Saddiqa et al. (2019), o que evidencia uma lacuna de implementação e, simultaneamente, uma oportunidade de expansão das PEAs nos mais variados cenários. Do ponto de vista institucional, diferentes estudos ressaltam que a consolidação dessa prática depende de condições como infraestrutura tecnológica, que garanta acesso e interoperabilidade dos dados; políticas de formação docente que contemplem a análise ética e crítica dos dados; e incentivos institucionais e políticas públicas que valorizem a reutilização de dados como REAs (Atenas & Havemann, 2015; Atenas et al., 2023b). A ausência de qualquer desses elementos causa limitação do impacto pedagógico das iniciativas, restringindo-as a experiências pontuais ou individuais. Também foi observado que os dados abertos podem ser incorporados como REAs para promover uma aprendizagem baseada em práticas investigativas, permitindo que os alunos explorem informações reais e contextualizadas em diversas disciplinas (Atenas et al., 2015). Em ciências sociais, por exemplo, conjuntos de dados públicos podem ser usados para analisar tendências demográficas ou políticas, desenvolvendo habilidades críticas de interpretação Atenas et al., 2023a). Em áreas como geografia ou ciências ambientais, a utilização de dados geoespaciais possibilita a criação de projetos práticos que conectam teoria e realidade, estimulando o engajamento dos estudantes (Belgiu et al., 2015). A inclusão de dados abertos no ensino incentiva a transversalidade do conhecimento, pois os alunos aprendem a relacionar informações de diferentes fontes e domínios (Atenas et al., 2020). Em cursos de saúde, dados epidemiológicos podem ser empregados para discutir questões de saúde pública (Bakermans, 2024), enquanto em humanidades, arquivos digitais abertos facilitam pesquisas históricas ou literárias (Littlejohn; Pegler, 2014). Trata-se de um tipo de abordagem que pode aperfeiçoar os currículos e preparar os estudantes para lidar com a complexidade de um mundo cada vez mais orientado pelos dados (Atenas et al., 2023a). O uso de dados abertos como REAs pode fortalecer a EA ao democratizar o acesso a recursos de qualidade e fomentar a colaboração entre instituições (Atenas et al., 2015). Professores podem adaptar e compartilhar materiais com base nesses dados, criando atividades personalizadas que atendam às necessidades de seus alunos (Abernathy, 2023). Tal flexibilidade pedagógica contribui para uma educação mais democrática, o que coaduna-se aos princípios e práticas da EA e da CA, bem como às demandas recentes sobre letramento de dados e cidadania (Atenas et l., 2023b). No entanto, para que o uso de dados abertos como REAs alcance seu potencial transformador, é necessário que determinados aspectos estruturais e pedagógicos sejam considerados. A curadoria de dados, a acessibilidade dos formatos e a capacitação docente são apontadas como condições essenciais para viabilizar o uso efetivo dos dados abertos como REAs (Saddiqa et al., 2019; Atenas et al., 2020; Belgiu et al., 2020; Atenas et al., 2023b). A curadoria de dados é vista como um processo que vai além da simples seleção e organização de informações. Trata-se de uma prática crítica, que envolve a garantia da qualidade, da relevância e da contextualização dos conjuntos de dados disponíveis (Saddiqa et al., 2019). Isso inclui a identificação de fontes confiáveis, a verificação da atualidade desses dados, a adequação dos formatos e a elaboração de guias pedagógicos que apoiem os docentes na aplicação didática dos conjuntos de dados (Atenas et al., 2020). A curadoria também deve levar em conta as especificidades de cada área do conhecimento, assegurando que os dados escolhidos dialoguem com os objetivos de aprendizagem e com o nível de compreensão dos estudantes (Belgiu et al., 2015). Outro aspecto interessante diz respeito à acessibilidade dos conjuntos de dados, já que eles precisam estar disponíveis em formatos abertos, interoperáveis e acompanhados de metadados claros, além de ferramentas que facilitem sua visualização e interpretação, para que possam ser efetivamente reutilizados nos mais diferentes contextos, incluindo os contextos e práticas de ensino-aprendizagem (Abernathy, 2023). A falta desses elementos tende a dificultar a adoção dos dados no contexto educacional, tornando o processo dependente de competências técnicas que nem sempre estão presentes entre as habilidades do corpo docente. Nesse sentido, é possível depreender que o uso de dados abertos requer não apenas domínio técnico, mas também compreensão ética e crítica acerca do manejo e da interpretação dessas informações, o que reforça a necessidade de capacitação docente (Atenas et al., 2023b). Programas de formação voltados a educadores tendem a oportunizar o desenvolvimento de habilidades em análise de dados, em metodologias de ensino baseadas em projetos e em práticas colaborativas, ampliando as possibilidades de adoção e reutilização dos dados e mitigando desigualdades de acesso e de uso (Knight et al., 2023). O reúso de dados abertos como REAs deve estar ainda de acordo com o desenvolvimento de competências digitais e críticas nos alunos, como letramento de dados, pensamento estatístico e capacidade argumentativa (Atenas et al., 2023a). Para tanto, é necessário a proposição de atividades pedagógicas que estimulem a exploração autônoma, a colaboração e a reflexão sobre o impacto social e político dos dados (Knight et al., 2023). A combinação de infraestrutura adequada, formação docente e abordagens pedagógicas inovadoras, promovida pelas instituições de ensino, pode transformar os conjuntos de dados em recursos educacionais relevantes e alinhados às demandas educacionais e institucionais contemporâneas (Saddiqa et al., 2019). Observou-se também que as publicações analisadas possuem uma abordagem convergente quanto à valorização da literacia e da alfabetização crítica em dados (critical data literacy), noção que ultrapassa o domínio técnico das ferramentas de análise, pois envolve a capacidade de compreender a origem, a estrutura e os significados sociais e éticos dos dados (Atenas et al., 2020; 2023a; 2023b). A literacia crítica busca formar sujeitos capazes de questionar como e por que certos dados são produzidos, compartilhados e utilizados, reconhecendo que os conjuntos de dados não são neutros, mas produtos de escolhas metodológicas, políticas e culturais. Nesse sentido, concorda-se quando os autores afirmam que cada conjunto de dados carrega uma intencionalidade, refletindo as prioridades, as conjunturas e as assimetrias de poder dos sistemas/sujeitos que os geram. Assim, trabalhar com dados abertos como REAs não se trata somente de reutilizar materiais disponíveis em repositórios, mas desenvolver uma consciência crítica sobre as condições de produção desses dados e suas implicações sociais. Essa abordagem contribui na formação de estudantes com pensamento ético e reflexivo, bem como na oferta de uma educação orientada pela justiça de dados e pela cidadania digital (Atenas et al., 2023a; Knight et al., 2023). Outro aspecto relevante identificado na literatura diz respeito à forma como os dados abertos são integrados às práticas pedagógicas. As experiências descritas recorrem com frequência à aprendizagem baseada em projetos, à pedagogia aberta e à investigação orientada por dados (Bakermans, 2024; Abernathy, 2023). São metodologias que estimulam a autonomia dos estudantes e aproximam a educação de problemas reais, permitindo que os alunos compreendam os dados como artefatos culturais e como instrumentos de ação social. Em cursos de geoinformação e ciências ambientais, por exemplo, essa integração possibilita o desenvolvimento simultâneo de competências analíticas, técnicas e críticas (Belgiu et al., 2015; Abernathy, 2023). Por fim, os resultados revelam que a reutilização de dados abertos como REAs ainda é uma prática que necessita ser consolidada, caracterizando-se por atividades de cunho experimental e de pouca padronização metodológica. Entretanto, as evidências analisadas indicam que o potencial pedagógico é significativo, sobretudo quando as práticas de EA e CA são vinculadas, no que diz respeito à literacia crítica em dados e à formação discente para a cidadania digital. Esse movimento reforça a necessidade de desenvolver não apenas REAs, mas também ecossistemas e infraestruturas de suporte que garantam o uso ético, contextualizado e significativo dos conjuntos de dados, consolidando dessa forma uma cultura educacional mais transparente, colaborativa e socialmente engajada. Implicações e conclusões Esta revisão evidenciou que os dados abertos, quando transformados em REAs, oferecem oportunidades significativas para a inovação pedagógica e o desenvolvimento de competências digitais e críticas. Os achados revelaram tanto o potencial interdisciplinar desses recursos quanto os desafios práticos para sua implementação em contextos educacionais distintos. A possibilidade de trabalhar com conjuntos de dados reais e contextualizados favorece abordagens investigativas, estimula o engajamento dos estudantes e contribui para uma aprendizagem mais ativa, conectada com questões sociais e científicas da contemporaneidade. Também foi possível observar que a reutilização de conjuntos de dados abertos como REAs demanda infraestruturas de ordens tecnológica e política, além de uma perspectiva pedagógica crítica que reconheça a intencionalidade presente nos conjuntos de dados e promova a alfabetização e a literacia crítica em dados. Trata-se de uma abordagem que poderá favorecer a formação de sujeitos capazes de interpretar, questionar e utilizar os dados de maneira ética, alinhando-se aos princípios da EA e da CA, contribuindo assim para uma cultura educacional mais reflexiva, colaborativa e socialmente engajada. Conclui-se que, embora este estudo represente uma etapa inicial baseada em revisão de literatura, seus achados podem subsidiar pesquisas futuras e fomentar discussões sobre o potencial dos dados abertos na EA e suas práticas, nas estratégias de curadoria, nos modelos de capacitação docente e nas metodologias para agregação dos dados abertos aos currículos. Além disso, pode orientar educadores na inclusão de conjuntos de dados abertos em suas práticas e fornecer subsídios para o desenvolvimento de políticas institucionais voltadas à EA. Referências Abernathy, D. R. (2023). The next layer: Towards open pedagogy in geospatial education. Transactions in GIS, 27, 1467–1478. https://doi.org/10.1111/tgis.13081 Atenas, J. (2015). The 21st Century’s Raw Material: Using Open Data as Open Educational Resources. Open Education Working Group. https://education.okfn.org/the-21st-centurys-raw-material-using-open-data-as-open-educational-resources/ Atenas, J., & Havemann, L. (Eds.). (2015). 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