CROSSROADS, THE HISTORIC BLACK IDENTITY OF THE URBAN SPACE OF THE CENTRO NEIGHBORHOOD OF SANTOS
Abstract
This work traces the formation of Brazilian culture based on the experiences of the black population and the occupation of urban space between the 16th and 20th centuries It focuses primarily on the Centro neighborhood of Santos city. In response to the process of covering up the black identity in the neighborhood, a project is developed for an open-air cultural center to preserve and celebrate afro-brazilian culture, introducing it into the territory as a vital element of the city.
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____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 432 (Ciências Sociais) ENCRUZILHADAS, A IDENTIDADE HISTÓRICA NEGRA DO ESPAÇO URBANO DO CENTRO DE SANTOS CROSSROADS, THE HISTORIC BLACK IDENTITY OF THE URBAN SPACE OF THE CENTRO NEIGHBORHOOD OF SANTOS Mariana Losso da Silva, Jaqueline Fernández Alves Universidade Santa Cecília, Faculdade Ciências Exatas, Arquitetura e Engenharia, Curso de Arquitetura e Urbanismo E-mail para contato: [email protected] RESUMO – O presente trabalho traça a formação da cultura brasileira a partir das vivências da população negra e a ocupação no espaço urbano, entre os séculos XVI e XX e tem como objeto principal o bairro do Centro da cidade de Santos. Em contrapartida ao processo de acobertamento da identidade negra no bairro, elabora-se um projeto de um centro cultural a céu aberto para a preservação e celebração da cultura afro-brasileira, introduzindo-a no território como elemento vital da cidade. Palavras-chave: População negra; Resistência cultural; Espaço Urbano; Identidade. ABSTRACT – This work traces the formation of Brazilian culture based on the experiences of the black population and the occupation of urban space between the 16th and 20th centuries It focuses primarily on the Centro neighborhood of Santos city. In response to the process of covering up the black identity in the neighborhood, a project is developed for an open-air cultural center to preserve and celebrate afro-brazilian culture, introducing it into the territory as a vital element of the city. Keywords: Black population; Cultural resistance; Urban space; Ocupation. 1 INTRODUÇÃO O Brasil possui a maior população afrodescendente fora do continente africano, sendo aproximadamente 56% dos brasileiros autodeclarados negros. Essa presença é resultado da diáspora africana, quando cerca de quatro milhões de pessoas negras escravizadas foram introduzidas no país (IBGE, 2000, tradução nossa). Após um processo de apagamento
____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 433 (Ciências Sociais) identitário (que acontece até os dias de hoje) a população negra brasileira, livre e escravizada, encontrou meios de ocupar o espaço urbano para se apropriar de suas culturas. Dessa forma, cria-se um vasto território de base afrodescendente, o Brasil. Em muitas cidades, acontecem manifestações da cultura afro-brasileira, porém, muitas de suas histórias contam que, a população negra entre os séculos XVI e XX, não ocupavam territórios além de senzalas, quilombos, engenhos e periferias, por exemplo. A presença da população negra em territórios outros, encoberta por camadas de planejamento racista e excludente (Observatório das Metrópoles, tradução nossa), moldou costumes urbanos, sociais, arquitetônicos, artísticos, juntos em um processo de resistência cultural que deu lugar ao que as cidades são hoje. Um exemplo significativo é a cidade de Santos, que abrigou uma vasta presença negra no território considerado hoje o bairro do Centro, de onde se desenvolveu. De acordo com o Jornal Nexo em 2015, Santos é uma das cidades mais segregadas do país (Jornal Nexo apud Lab Procomum, 2020, tradução nossa). Dessa forma, o presente trabalho faz um resgate da presença negra histórica no espaço urbano do Centro de Santos, entre os séculos XVI e XX. O objetivo principal é reinserir o patrimônio material e imaterial negro como elementos vitais da identidade e do desenvolvimento do bairro. Para isso, será proposto um projeto arquitetônico de um centro cultural em formato de praça, que dará acesso à cultura, educação, arte e lazer, buscando também a revitalização de um território marginalizado. A estrutura teórica deste trabalho se desenvolve em três capítulos: o primeiro traça o apagamento cultural imposto pela diáspora africana e depois, a resistência cultural. No segundo, é apresentada a história de como surgiram os territórios negros da cidade de Santos, partindo para o terceiro, que resgata a presença negra em lugares do bairro do Centro. 2 MATERIAIS E MÉTODOS Para a realização do presente trabalho, o método de pesquisa adotado foi o descritivo, para traçar o processo de resistência cultural da população negra no Brasil e a formação da cultura brasileira a partir de vivências e da ocupação no espaço urbano após a diáspora africana. Para o desenvolvimento sobre o território principal do trabalho, o Centro de Santos, adota-se também as abordagens quantitativa e qualitativa, para mapear edificações e entender a influência da presença negra em suas histórias e procedimentos de revisões bibliográficas como livros, sites especializados e artigos e de coleta de dados em roteiros turísticos.
____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 434 (Ciências Sociais) 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO A diáspora africana O tráfico transatlântico de pessoas do continente africano - conhecido como a diáspora africana - resultou em aproximadamente 4 milhões de pessoas escravizadas introduzidas no Brasil entre os séculos XVI e XIX, representando mais de um terço do número total de pessoas negras sequestradas nesse período (IBGE). A diáspora representou uma ruptura geográfica e identitária violenta, dentre muitos outros processos de desumanização. Desembarcando principalmente nas cidades de Recife, Rio de Janeiro e Salvador, a população negra se originava majoritariamente da África Ocidental, Central e Oriental, territórios que atualmente são os países de Senegal, Benin, Nigéria, Angola e Moçambique, com destaque para os povos iorubá e igbo (Slave Voyages). Como desenvolve Abdias Nascimento em seu livro “O Genocídio do Negro Brasileiro”, as pessoas escravizadas foram submetidas a um minucioso processo de apagamento cultural. No entanto, apesar da opressão, essas pessoas — também em estado de sobrevivência — preservaram e introduziram sua cultura ao longo dos séculos. A partir de muita resistência e da significativa presença da população negra, se formou a cultura brasileira em sua essência. As tradições africanas e a terra desconhecida Nas cidades brasileiras, o negro que era escravizado tinha seu espaço definido pela senzala e pelas regras de hierarquia, que representava submissão e violência. Apesar disso, nessa disposição, se desenvolveu territórios negros, onde a memória coletiva e a afirmação identitária fundamentava a resistência cultural e para a sobrevivência em novas terras (Rolnik, 1989, tradução nossa). Aos poucos, o espaço urbano também se tornava território negro com a expansão do trabalho escravo para fora da senzala e com a liberdade e fuga de ex-escravizados. Essa ocupação não representa apenas a opressão, mas também a construção da singularidade e elaboração de um repertório comum. (Rolnik, 1989, tradução nossa). O conceito de Quilombismo, desenvolvido por Abdias Nascimento (1981), se baseia em uma proposta política de mobilização social da população negra do Brasil, de resistência física e cultural, que abrange todos os grupos sociais oprimidos e se fundamenta nos valores
____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 435 (Ciências Sociais) comunitários africanos, opondo-se ao colonialismo, que não se limita aos territórios, mas abrange o senso de comunidade, resistindo à gentrificação e ao genocídio. Vivências em Santos O porto da antiga região de Enguaguaçu era no atual Estuário de Santos, nas proximidades do Outeiro de Santa Catarina, onde havia uma capela, sendo considerada a primeira edificação e marco inicial da Vila de Santos, instituída em 1546 e atualmente é o território do bairro do Centro. A chegada da população negra na antiga Vila de Santos foi pelo porto, a partir da busca pela mão de obra escravizada em engenhos de cana de açúcar. No território existia o Engenho São Jorge dos Erasmos, o Engenho de São João e o Engenho da Madre de Deus (Muniz, 2008, p. 20, 21 e 24, tradução nossa). O açúcar havia se tornado a grande riqueza de um território fronteiriço, a Vila de São Vicente (Barroso apud Muniz, 2008, p. 24, tradução nossa). Figura 1: Mapa de indicação de antigos territórios negros em Santos. No começo do século XVIII, a população negra da Vila de Santos era aproximadamente 47% da população total e em meados do século XIX, 31% (Muniz, 2008, p. 28, tradução nossa). Nessa época, o território foi elevado a cidade e nela começaram a surgir os quilombos (Figura 4). Em 1886, dois anos antes da abolição da escravatura no Brasil, a cidade apresentava características abolicionistas significativas, como os grandes feitos em prol da
____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 436 (Ciências Sociais) libertação de escravizados que a antiga Sociedade Emancipadora 27 de Fevereiro havia conquistado (Muniz, 2008, p. 59 e 63, tradução nossa). No começo do século XX, outros territórios negros começaram a ser instituídos (Figura 1), mas a população negra do território estava presente desde o começo de seu desenvolvimento. Um recorte do Centro (Figura 2) Fonte do Itororó: a fonte se originou no começo do povoamento de Enguaguaçu (Muniz, 2008, p. 29, tradução nossa). Mais tarde, servia para escravizados abastecerem a casa de seus senhores. Após a abolição da escravatura, os negros que não conseguiam arranjar trabalho, ganhavam dinheiro transportando barris de água abastecidos pela fonte (Sousa apud Muniz, 2008, p. 29, tradução nossa). Igreja Nossa Senhora do Rosário (dos Homens Pretos): uma das funções da antiga irmandade da igreja, a partir do século XVII, era ajudar os escravizados “fugidos” que chegavam a Santos. Até o pós abolição da escravatura, a irmandade ajudava a população negra a se estabelecer na cidade (Muniz, 2008, p. 51, tradução nossa). Casa do Trêm Bélico: a antiga Casa do Trem Real fez parte da história da revolta militar que aconteceu em 1821, comandada por Francisco José das Chagas (Chaguinhas), homem negro que na época era cabo do batalhão de Santos. O motivo da revolta foi a falta de salário há anos. Assim, parte do batalhão invadiu a casa, se muniram com armas que ali eram guardadas e foram protestar pela cidade¹. ¹ Informações obtidas na Segunda Caminhada Chaguinhas, em Santos, em 14 de setembro de 2024. Praça Mauá: a praça abrigou o antigo Largo da Misericórdia que foi ponto comercial para quitandeiros negros (Muniz, 2008, p. 29, tradução nossa). Praça da República: A praça abrigou o antigo Largo da Matriz, onde existiu uma quitanda cuja dona era Brandina Fiuza, mulher negra que recebia cartas sobre escravizados “fugidos” de outras cidades que estariam indo até Santos para se refugiarem e assim preparava suas chegadas². ² Informações obtidas na Caminhada mulheres negras: histórias e memórias do cotidiano santista, em Santos, em 8 de março de 2025. Teatro Guarany: poucos anos antes da abolição da escravatura, o teatro foi palco para reuniões e eventos de cunho abolicionista, como o organizado por José do Patrocínio, que foi
____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 437 (Ciências Sociais) jornalista e uma das figuras mais importantes do movimento abolicionista no Brasil (Fundação Arquivo e Memória de Santos, 2022; Muniz, 2008, p. 63, tradução nossa). Bolsa do Café: poucos anos antes da abolição da escravatura, o teatro foi palco para reuniões e eventos de cunho abolicionista, como o organizado por José do Patrocínio, que foi jornalista e uma das figuras mais importantes do movimento abolicionista no Brasil (Fundação Arquivo e Memória de Santos, 2022; Muniz, 2008, p. 63, tradução nossa). Porto: o canal do porto de Santos, mais conhecido como estuário, foi o meio de chegada da população negra escravizada (Fundação Arquivo e Memória de Santos). Mais tarde, na era dourada do café, trabalhadores negros estavam presentes no porto em grande número. Figura 2: Mapa de antigos territórios negros no Centro. 4 CONCLUSÃO Este trabalho teve como principal resultado evidenciar a vitalidade da população negra no Centro de Santos, entre os séculos XVI e XX, para o desenvolvimento cultural e da identidade urbana do território e resgatou histórias de personagens negros e eventos de cunho abolicionistas e de resistência racial que são reinseridos na narrativa de sua formação. 5 REFERÊNCIAS Fundação Arquivo E Memória De Santos. VILA DE SANTOS. Disponível em: https://www.fundasantos.org.br/page.php?82. Acesso em: 18 jun. 2025.
____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 438 (Ciências Sociais) Fundação Arquivo E Memória De Santos. 140 ANOS DO TEATRO GUARANY, 2022. Disponível em: https://www.fundasantos.org.br/news.php?extend.1538.21. Acesso em: 31 de maio de 2025. Google Maps. Disponível em: https://maps.google.com/. Acesso em: 14 jul. 2025. IBGE. Território Brasileiro e povoamento. Disponível em: https://brasil500anos.ibge.gov.br/territorio-brasileiro-epovoamento/negros#:~:text=Presen%C3%A7a%20negra,ter%C3%A7o%20de%20todo%20co m%C3%A9rcio%20negreiro. Acesso em: 18 jun. 2025. Labprocomum. Um laboratório para evidenciar o protagonismo negro na Baixada Santista, 2020. Disponível em: https://lab.procomum.org/2020/09/24/um-laboratorio-para-evidenciaro-protagonismo-negro-na-baixada-santista/. Acessso em: 18 jun. 2025 Memórias, Narrativas E Tecnologia. Bacia do Macuco. Disponível em: https://mapamnt.procomum.org/mapa/bacia-do-macuco/. Acesso em: 31 de maio de 2025. Memórias, Narrativas E Tecnologia. Monte Serrat: um pedaço do nordeste aos pés da santa negra. Disponível em: https://mapamnt.procomum.org/mapa/monte-serrat-um-pedaco-donordeste-aos-pes-da-santa-negra/. Acesso em: 31 de maio de 2025. Memórias, Narrativas E Tecnologia. O Quilombo do Pai Felipe, rei africano e batuqueiro. Disponível em: https://mapamnt.procomum.org/mapa/o-quilombo-do-pai-felipe-rei-africanoe-batuqueiro/. Acesso em: 31 de maio de 2025. Muniz, J. O NEGRO NA HISTÓRIA DE SANTOS. Santos: Instituto Histórico e Geográfico de Santos, 2008. Nascimento, A. O GENOCÍDIO DO NEGRO BRASILEIRO Processo de um Racismo Mascarado. 3ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2016. Nascimento, A. O QUILOMBISMO Documentos de uma Militância Pan-Africanista. Petrópolis: Editora Vozes, 1980. Rolnik, K. Territórios Negros nas Cidades Brasileiras (etnicidade e cidade em São Paulo e Rio de Janeiro), 2013. Disponível em: https://raquelrolnik.wordpress.com/wpcontent/uploads/2013/04/territc3b3rios-negros.pdf. Acesso em 18 jun. 2025. Slave Voyages. Echoes: The SlaveVoyages Blog - 9. Volume and direction of the transAtlantic slave trade, 2010. Disponível em: https://www.slavevoyages.org/blog/-volume-anddirection-of-the-transatlantic-slave-trade/123. Acesso em: 14 jul. 2025.