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VILA SOCÓ TRAGEDY AND LOCAL MEDIA: COVERAGE BY PRINTED NEWSPAPERS A TRIBUNA AND CIDADE DE SANTOS

Alves, Amanda; Souza, Gabriella; Veronez, Marcelo

Abstract

A massive fire in 1984 caused a tragedy in Vila Socó, Cubatão. Official figures claimed 93 lives, while unofficial figures claimed over 500. The focus was on Brazil's largest state-owned company, Petrobras. The research analyzed the coverage of the main print newspapers in Baixada Santista at the time—A Tribuna and Cidade de Santos—published over a month after the disaster. The aim was to understand the behavior of these two media outlets and their editorial lines, with particular emphasis on the disclosure of those responsible for the fire. After all, Brazil was experiencing the final period of the military dictatorship, and a rumor spread as quickly as the fire that residents had drilled holes in Petrobras-owned fuel pipelines to steal fuel.

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____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 341 (Ciências Sociais) TRAGÉDIA DA VILA SOCÓ E MÍDIA LOCAL: A COBERTURA DOS JORNAIS IMPRESSOS A TRIBUNA E CIDADE DE SANTOS VILA SOCÓ TRAGEDY AND LOCAL MEDIA: COVERAGE BY PRINTED NEWSPAPERS A TRIBUNA AND CIDADE DE SANTOS Amanda Amiki Alves, Gabriella Silva de Souza e Marcelo Henrique Gazolli Veronez Universidade Santa Cecília, Faculdade de Ciências da Educação e Sociais Aplicadas, Curso de Jornalismo E-mail para contato: [email protected] e [email protected] RESUMO – Um incêndio de grandes proporções em 1984 gerou uma tragédia na Vila Socó, em Cubatão. Segundo informações oficiais vitimou 93 pessoas, e extraoficiais mais de 500. No foco a maior empresa estatal brasileira, a Petrobras. A pesquisa buscou analisar a cobertura jornalística realizada pelos principais jornais impressos da Baixada Santista à época, A Tribuna e Cidade de Santos, através das edições publicadas ao longo de um mês após o desastre, a fim de compreender o comportamento dessas duas mídias e das linhas editoriais adotadas, com especial destaque à divulgação de responsáveis pelo incêndio, afinal, o Brasil vivia o período final da ditadura militar e um boato se espalhou tão rápido quanto o fogo, dos moradores terem furado os dutos de combustível para furtar o produto, dutos estes de propriedade da Petrobras. Palavras-chave: A Tribuna; Cidade de Santos; Vila Socó; Incêndio; Petrobras; Fake news. ABSTRACT – A massive fire in 1984 caused a tragedy in Vila Socó, Cubatão. Official figures claimed 93 lives, while unofficial figures claimed over 500. The focus was on Brazil's largest state-owned company, Petrobras. The research analyzed the coverage of the main print newspapers in Baixada Santista at the time—A Tribuna and Cidade de Santos—published over a month after the disaster. The aim was to understand the behavior of these two media outlets and their editorial lines, with particular emphasis on the disclosure of those responsible for the fire. After all, Brazil was experiencing the final period of the military dictatorship, and a rumor spread as quickly as the fire that residents had drilled holes in Petrobras-owned fuel pipelines to steal fuel. Keywords: A Tribuna; Cidade de Santos; Vila Socó; Fire; Petrobras; Fake News. ____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 342 (Ciências Sociais) 1 INTRODUÇÃO A Vila Socó, hoje Vila São José em Cubatão, formava uma comunidade à margem da Rodovia Anchieta, consistente de barracos de madeira em cima do mangue (palafitas), onde instalados dutos de ligação da Refinaria Presidente Bernardes de Cubatão (RPBC) ao terminal portuário da Alemoa, em Santos, utilizados para transporte de combustível, portanto, produtos altamente inflamáveis e perigosos. A ocupação era irregular, mas tolerada pelo Poder Público. Diante da pouca infraestrutura, para se tornar acessível os moradores construíam pontes de madeira para a passagem das pessoas em meio à Vila. Na madrugada entre os dias 24 e 25 de fevereiro, segundo a jornalista Ágata Luz (Luz, 2024) se deu o rompimento da tubulação da Petrobrás que espalhou cerca de 700 mil litros de produto inflamável. O fogo iniciou duas horas após devido ao contato com alguma fonte de calor e rapidamente se alastrou nas instalações de madeira. Os estudos técnicos ocorridos confirmaram que a estatal negligenciou procedimentos de manutenção e ocorreu um equívoco na operação de bombeamento de combustível, tendo a linha sido pressurizada na refinaria sem que as válvulas nos tanques do terminal tivessem sido abertas, o que aumentou a pressão na tubulação e causou o vazamento, cujos dutos estavam mal-conservados. A matéria do portal Agência Brasil revelou os números oficiais: “Vila Socó: há 40 anos, incêndio matou pelo menos 93 pessoas” (Cruz, 2024). Todavia, estimativas não oficiais de testemunhas indicam que o número real pode ter sido significativamente maior, ultrapassando 500 mortes. O na época vereador de Cubatão Dojival Vieira dos Santos relatou para o Jornal GGN (Santos, 2014) o encontro que teve naquela ocasião com moradores da Vila Socó, os quais afirmaram que o número de mortos era muito maior do que o divulgado, e que o governo da época teria elaborado uma “operação abafa”, a fim de reduzir a contagem de mortos e o impacto da tragédia. Anos após o incêndio o ex-presidente da Petrobrás à época Shigeaki Ueki, ainda confirma o número menor de mortes e acredita que outras divulgações são apenas estimativas sem comprovações. Além disso, rebate informações de mais de 200 crianças tenham sido queimadas e reduzidas a cinzas: “Por que as famílias dessas crianças ou os parentes dos mais de 500 mortos ____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 343 (Ciências Sociais) não procuraram a comissão de indenização? Essa indenização, na época, fez com que as famílias ficassem satisfeitas” (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, 2014) De acordo com o Sindicato dos Petroleiros (SINDIPETRO-LP), na matéria intitulada "Uma tragédia e muitas lições: 35 anos do incêndio da Vila Socó", publicada em seu site em 2019 (SINDIPETRO, 2019), a tragédia resultou na criação de um mito ainda presente na Baixada Santista e que se alastrou rapidamente, cuja versão responsabiliza os moradores da Vila Socó pelo incêndio, deles terem aberto buracos nos dutos para furtar combustível, fato não constatado pelos estudos técnicos desenvolvidos no local. A permanência dessa ideia até hoje demonstra a capacidade de influência de empresas estatais como a Petrobras no período da ditadura, já que essa história teria sido criada para minimizar a responsabilidade da empresa no caso. Em uma entrevista para o portal Agência Brasil, o ex-vereador à época Dojival Vieira dos Santos relatou que a prefeitura e a empresa foram avisadas pelos moradores da Vila sobre o forte cheiro de gasolina. Ele afirma que o vazamento durou 12 horas e que "seria possível retirar toda a população, assim evitando a catástrofe"(Santos, 2024), o que não ocorreu. Diante dos fatos, o objetivo da pesquisa é analisar a cobertura jornalística realizada pelos principais jornais impressos da Baixada Santista à época, A Tribuna e Cidade de Santos, a fim de compreender o comportamento dessas duas mídias e das linhas editoriais adotadas, com especial destaque à divulgação de responsáveis pelo incêndio, afinal, o Brasil vivia o período final da ditadura militar e um boato se espalhou tão rápido quanto o fogo, dos moradores terem furado os dutos de combustível para furtar o produto, dutos estes de propriedade da Petrobras. 2 MATERIAIS E MÉTODOS Análise das edições do período de 1 mês, sucessivo ao incêndio, dos jornais impressos A Tribuna e Cidade de Santos, focando em estudos quantitativos e qualitativos dos materiais da época. Utilizou-se o acervo digitalizado instalado no site do Instituto Histórico e Geográfico de Santos. Foram assistidos e analisados documentários, vídeos, textos e matérias produzidas sobre reuniões das autoridades envolvidas com o caso, a fim de compreender o comportamento dessas duas mídias e das linhas editoriais adotadas, com especial destaque à divulgação de responsáveis pelo incêndio em face do Brasil viver, na época dos fatos, o período final da ____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 344 (Ciências Sociais) ditadura militar e um boato ter se espalhado tão rápido quanto o fogo, dos moradores terem furado os dutos de combustível para furtar o produto, dutos estes de propriedade da Petrobras. 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO A Tribuna, atualmente com 131 anos de vida, nasceu em 26 de março de 1894 como Jornal Impresso. Posteriormente se expandiu a outras áreas da comunicação, como rádio e TV, sendo afiliada da Rede Globo de Televisão atualmente. No ano do incêndio o veículo costumava adotar um tom de neutralidade em suas reportagens e editoriais, priorizando a cobertura de fatos e a divulgação das dificuldades sociais. Eventuais críticas a autoridades ou empresas envolvidas em tragédias, como no caso da Vila Socó, normalmente eram feitas com precaução, muitas vezes dedicando mais espaço para a voz oficial de fontes governamentais. Porém, algo surpreendente por se tratar do período da ditadura, ao longo da pesquisa foi possível identificar ter A Tribuna tomado a iniciativa de divulgar abertamente os fatos e ainda publicar artigos de opinião cobrando posturas da Petrobrás e funcionários do governo da época. O jornal Cidade de Santos nasceu em 01 de julho de 1967 e teve a última edição em 15 de setembro de 1987, de um total de 76.713 edições. Por ser um veículo de mídia menor e estar funcionando durante um período de censura, prezava por uma cautela política, porém, segundo o jornalista Helder Marques (Marques, Marco Zero, Youtube, 2024) que trabalhou no jornal, se caracterizava por ser oposição ao regime militar, com tom crítico e irreverente. A cobertura da tragédia foi em grande parte focada nas informações das autoridades, fato que não impediu o jornal de publicar artigos de opinião sobre as acusações à empresa estatal e ao governo da época. Segundo Moura “durante as gravações, conheci muitas histórias impactantes e, se há algo que me revolta até hoje, foi como esse processo foi conduzido na época da tragédia. Houve omissão total” (Uma Tragédia Anunciada, Youtube, 2014). Nesse contexto, o caso expôs também os limites da apuração jornalística frente à ausência de transparência das autoridades, o qual ambos os jornais, como não poderia deixar de ser, basearam as informações. Possível constar terem os dois jornais mantido suas respectivas linhas editoriais durante o período, avançando um pouco além do normal no tom crítico a favor da população da Vila ____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 345 (Ciências Sociais) Socó e expondo a estatal Petrobras, em clara demonstração do momento final da ditadura, algo impensável de ocorrer, por exemplo, nos anos de chumbo 1 do governo do Presidente Médici. A análise das edições focou no período de 26 de fevereiro a 27 de março de 1984, ou seja, 31 dias, os resultados divididos em quantitativos e qualitativos. No tocante aos quantitativos o jornal A Tribuna mencionou a tragédia na primeira página em 18 edições e fez 30 menções nas páginas seguintes, ausente referência apenas em 20 de março. O jornal Cidade de Santos fez 23 menções na primeira página e 48 menções nas páginas seguintes, porém no intervalo de 5 e 6 de março nada falou sobre o assunto. Nas referidas edições de ambos os jornais foram publicadas entre 70 e 100 fotos, média entre 2 a 3 fotos por edição, evidenciando a importância da linguagem visual na composição editorial. Foi identificado que, em média, cerca de 10 fotos eram selecionadas para ocupar a capa das edições, posição de máximo destaque em cada edição. Qualitativamente a análise da cobertura jornalística do incêndio da Vila Socó nos jornais A Tribuna e Cidade de Santos revela não apenas o foco atribuído à tragédia pela imprensa regional, mas também a forma como o contexto político e social do período moldou a narrativa. Os dados quantitativos mostram que ambos os veículos dedicaram espaço expressivo para a cobertura do incêndio, dedicando ao caso relevante quantidade de matérias, fotos e capas em apenas um mês. O uso de imagens e a publicação de artigos de opinião intensificaram a dimensão dramática e crítica da cobertura. Do ponto de vista qualitativo os jornais diferiram um pouco em suas estratégias de enquadramento. O jornal A Tribuna manteve postura institucional mediante a publicação de relatórios técnicos e concedendo destaque a fontes públicas quanto aos dados do caso, como o número de mortes, ainda que cobrasse de forma clara o presidente da Petrobrás, Shigeaki Ueki. Além disso, afirmou a falta de responsabilidade dos representantes da estatal antes da tragédia, como mostra a imagem: 1 Os anos de chumbo foram o período mais repressivo da ditadura militar no Brasil, estendendose basicamente do fim de 1968, com a edição do AI-5 em 13 de dezembro daquele ano, até o final do Governo Médici, em março de 1974 ____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 346 (Ciências Sociais) Figura 1: Matéria afirmando o descaso antes do ocorrido. Fonte: Acervo digitalizado A Tribuna Conforme revelado pelo ex-vereador Dojival Vieira dos Santos à Comissão da Verdade (Santos, 2014), de acordo com um sobrevivente que trabalhou no resgate dos corpos, eram colocados três a quatro corpos no mesmo caixão, ou seja, o número de vítimas fatais foi muito maior do que divulgado oficialmente. Conforme relatado na imagem 2, A Tribuna divulgou em uma de suas capas o suposto número verdadeiro de vítimas fatais (631 pessoas), o qual foi obtido junto ao Instituto Médico Legal, dado contrário à fonte das autoridades, que mantinham a versão do número de 93: Figura 2: Capa divulgando o número por fontes públicas. Fonte: Acervo digitalizado A Tribuna ____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 347 (Ciências Sociais) Apagado o incêndio, enterrados os corpos, A Tribuna anteve a cobertura do andamento das investigações e em nenhum se omitiu de publicar os fatos. Como demonstra a imagem 3, o jornal não deixava de divulgar os possíveis culpados, como o presidente da Petrobrás, mantendo linha editorial cautelosa pelo momento da ditadura, mas mostrando a realidade. Figura 3: A Tribuna divulgava cada passo do processo. Fonte: Acervo digitalizado A Tribuna O Jornal Cidade de Santos adotou postura cautelosa devido ao seu tamanho e em face da ameaça de censura na época, o que não o impediu de executar a cobertura com postura crítica, ____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 348 (Ciências Sociais) algo que o destacou na época, tornando o veículo um símbolo de resistência local, por conversar diretamente com a grande massa, dar voz ao povo, publicar imagens reveladoras do morticínio e se posicionar culpando a Petrobrás diante da tragédia. A imagem 4 mostra isso: Figura 4: Acusação à refinaria. Fonte: Acervo digitalizado Cidade de Santos O Cidade de Santos também foi responsável por noticiar críticas feitas ao comportamento dos Prefeitos das cidades da Baixada Santista, apontando sobre a ausência de cobrança em face da má manutenção dos dutos, promessa da Petrobrás não cumprida. ____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 349 (Ciências Sociais) Figura 5: Os dutos periculosos. Fonte: Acervo digitalizado Cidade de Santos A falta de manutenção dos dutos além de resultar na grande tragédia do incêndio, também cultivou um mito que atingiu as próprias vítimas do ocorrido. Até hoje se mantém viva notícia