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Nobel de Física de 2025, Consciência e Heterodoxias

Carvalho Bento, Juliano

Abstract

O texto toma como ponto de partida o Prêmio Nobel de Física de 2025, concedido a John Clarke, Michel H. Devoret e John M. Martinis pela observação de tunelamento quântico macroscópico e de níveis de energia discretos em circuitos supercondutores, para discutir o alcance e os limites do reducionismo na física contemporânea. Ao mostrar como efeitos quânticos típicos do microscópico se tornam acessíveis em dispositivos macroscópicos, o caso ilustra o sucesso da mecânica quântica em fundamentar tecnologias como a computação quântica e reforça a ambição de explicar sistemas cada vez mais complexos a partir de graus de liberdade elementares. A partir daí, o artigo interroga se e como essa estratégia pode ser estendida à mente e à consciência, sugerindo apenas de modo programático a possibilidade de níveis emergentes de descrição para fenômenos mentais, sem postular uma “nova física”, e defendendo a continuidade com o formalismo quântico padrão e com os critérios usuais e heterodoxos de testabilidade empírica.

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Nobel de F´ ısica de 2025 e a Consciˆ encia Heterodoxa Juliano Carvalho Bentoa omniscientiæ 012 1 de dezembro de 2025 DOI:.doi.org/10.5281/zenodo.17729003 aDoutorando em Ensino de Ciˆ encias com ˆ enfase em F´ ısica (PIEC – USP), Mestrado em Engenharia El´ etrica (FEEC – UNICAMP), Bacharelado e Licenciatura em F´ ısica (IFGW – UNICAMP). Resumo: O texto toma como ponto de partida o Prˆ emio Nobel de F´ ısica de 2025, concedido a John Clarke, Michel H. Devoret e John M. Martinis pela observac¸˜ ao de tunelamento quˆ antico macrosc´ opico e de n´ ıveis de energia discretos em circuitos supercondutores, para discutir o alcance e os limites do reducionismo na f´ ısica contemporˆ anea. Ao mostrar como efeitos quˆ anticos t´ ıpicos do microsc´ opico se tornam acess´ ıveis em dispositivos macrosc´ opicos, o caso ilustra o sucesso da mecˆ anica quˆ antica em fundamentar tecnologias como a computac¸˜ ao quˆ antica e reforc¸a a ambic¸˜ ao de explicar sistemas cada vez mais complexos a partir de graus de liberdade elementares. A partir da´ ı, o artigo interroga se e como essa estrat´ egia pode ser estendida ` a mente e ` a consciˆ encia, sugerindo apenas de modo program´ atico a possibilidade de n´ ıveis emergentes de descric¸˜ ao para fenˆ omenos mentais, sem postular uma “nova f´ ısica”, e defendendo a continuidade com o formalismo quˆ antico padr˜ ao e com os crit´ erios usuais e heterodoxos de testabilidade emp´ ırica. Sobre o omniscientiæ:doi.org/10.5281/zenodo.11262933. Introduc¸˜ ao Em 7 de outubro de 2025, o Prˆ emio Nobel de F´ ısica foi concedido conjuntamente a John Clarke, Michel H. Devoret e John M. Martinis pela descoberta do tunelamento quˆ antico macrosc´ opico e da quantizac¸˜ ao de energia em um circuito el´ etrico supercondutor1. Tal como ocorre todos os anos, diversos portais de not´ ıcias cient´ ıficas analisaram essa premiac¸˜ ao e destacaram alguns importantes pontos. Segundo a Nature, os experimentos de Clarke, Devoret e Martinis “descobriram a f´ ısica quˆ antica em es1NOBELPRIZE.ORG. Nobel Prize in Physics 2025. NobelPrize.org, 2025. Dispon´ ıvel em: https://www.nobelprize.org/prizes/physics/ 2025/summary/. Acesso em: 23 nov. 2025; THE ROYAL SWEDISH ACADEMY OF SCIENCES. The Nobel Prize in Physics 2025: their experiments on a chip revealed quantum physics in action. 2025. Dispon´ ıvel em: https://www.kva.se/en/news/ the-nobel-prize-in-physics-2025/. Acesso em: 23 nov. 2025. cala macrosc´ opica, abrindo caminho para a computac¸˜ ao quˆ antica”2. Em f´ ısica de alta energia e em tecnologia quˆ antica, esse Nobel tamb´ em foi amplamente lido como a consagrac¸˜ ao de uma s´ erie de experimentos que, ao testar a mecˆ anica quˆ antica em circuitos supercondutores com bilh˜ oes de el´ etrons, deram origem a um “ramo promissor da tecnologia de computac¸˜ ao quˆ antica”3. Ao mesmo tempo, tanto a an´ alise da APS Physics quanto a de jornais como o Le Monde insistiram na relevˆ ancia de seu car´ ater fundamental — “a descoberta do tunelamento quˆ antico macrosc´ opico em circuitos el´ etricos” e estudos “motivados pelo desejo de explorar a fron2GIBNEY, E.; CASTELVECCHI, D. Groundbreaking quantum-tunnelling experiments win physics Nobel. Nature, 646, 523–524, 2025. 3MILLER, J. L. Superconducting quantum circuits: At the heart of the 2025 Nobel Prize in Physics. Physics Today, 2025. 1 teira entre os mundos cl´ assico e quˆ antico”4. O pr´ oprio Devoret, em entrevista, sublinha que “o j´ uri, em vez disso, reconheceu o trabalho fundamental que levou ao crescimento dos desenvolvimentos em torno dessas m´ aquinas”5, reforc¸ando a percepc¸˜ ao de que a escolha de 2025 se distanciou da ˆ enfase mais ostensiva em inteligˆ encia artificial vista na premiac¸˜ ao anterior e retornou ao n´ ucleo da f´ ısica quˆ antica, precisamente na zona de tens˜ ao entre o microsc´ opico e o macrosc´ opico. Todavia, para entender realmente a relevˆ ancia dessa premiac¸˜ ao, bem como de tais conclus˜ oes, precisamos antes distinguir, de forma breve, como a energia se comporta em nosso mundo macrosc´ opico comparativamente ao dom´ ınio microsc´ opico (quˆ antico). 1 Breve Explicac¸˜ ao da F´ ısica Quˆ antica Se desejamos aquecer ´ agua em um fog˜ ao, o calor (energia t´ ermica transferida da chama para a panela e, por consequˆ encia, para a ´ agua) pode, em princ´ ıpio, assumir qualquer valor, como 300 J,300,01 J, 300,0000402 J, com in´ umeras casas decimais (lembrando que J representa joule, unidade de medida de energia). J´ a em muitos sistemas quˆ anticos microsc´ opicos, como el´ etrons ligados em um ´ atomo, essa liberdade “energ´ etica” n˜ ao existe: para que um el´ etron “suba” de um estado (um certo valor de energia espec´ ıfico) para outro, ele precisa absorver (ou emitir) uma quantidade bem definida de energia6. Ou seja, dentro de nossa analogia, se4SCHIRBER, M. Nobel Prize: Quantum Tunneling on a Large Scale. Physics, v. 18, 170, 2025; LAROUSSERIE, D. Nobel Prize in Physics honors three pioneers of the quantum computer. Le Monde, 7 out. 2025. 5LE BARS, S. Michel Devoret, 2025 Physics Nobel laureate: “I thought it was a prank. The quantum computer is not here yet”. Le Monde, 8 out. 2025. 6Em contraste, no caso de part´ ıculas praticamente livres — sem estarem presas por um potencial —, mesmo na descric¸˜ ao quˆ antica o espectro de energia pode ser cont´ ınuo, de modo que a quantizac¸˜ ao de n´ ıveis surge tipicamente em sistemas ligados, como ´ atomos, mol´ eculas ou certos tipos de circuitos supercondutores. ria como se quis´ essemos aquecer a ´ agua atrav´ es da chama, mas ela s´ o pudesse receber valores espec´ ıficos, como 300,00 J, 300,05 J,300,10 J, tornando os valores intermedi´ arios (como 300,06 J) simplesmente imposs´ ıveis de se obter. Foi justamente isso que Max Planck (1858-1947) percebeu nos prim´ ordios da f´ ısica quˆ antica, ao estudar a radiac¸˜ ao de corpo negro: para explicar o experimento, ele teve de supor que a energia n˜ ao podia variar de maneira cont´ ınua, mas apenas em “pacotes” discretos (os quanta, plural de quantum, que significa justamente “quantidade”), proporcionais ` a frequˆ encia da radiac¸˜ ao. A partir da´ ı, uma s´ erie de fenˆ omenos passou a ser compreendida nesse regime e revelou comportamentos incomuns quando comparados com a nossa intuic¸˜ ao macrosc´ opica cl´ assica. Entre esses, podemos citar, como exemplo o efeito fotoel´ etrico (no qual a luz retira el´ etrons de um metal somente se tiver frequˆ encia acima de um certo limiar, independentemente da intensidade); a superposic¸˜ ao e a interferˆ encia em experimentos de dupla fenda com el´ etrons individuais, em que a introduc¸˜ ao de um aparato de medida nas fendas altera o comportamento do sistema e modifica o padr˜ ao observado7; o car´ ater ondulat´ orio da mat´ eria (part´ ıculas tamb´ em pode ser compreendida como ondas de probabilidade); a supercondutividade / superfluidez, estados coletivos em que muitas part´ ıculas se comportam de modo coerente8; e o tunelamento quˆ antico. 7Superposic¸˜ ao (em f´ ısica) ´ e a ideia de que efeitos se somam quando acontecem ao mesmo tempo, sem “apagar” uns aos outros. Em ondas (´ agua, som, corda), se duas ondas passam pelo mesmo ponto, a deformac¸˜ ao total ´ e a soma das deformac¸˜ oes de cada uma (chamamos isso tamb´ em de interferˆ encia, que pode ser construtiva ou destrutiva). Em mecˆ anica quˆ antica, fala-se em um sistema em “superposic¸˜ ao de estados” para descrever uma situac¸˜ ao em que ele est´ a, ao mesmo tempo, em uma combinac¸˜ ao de diferentes possibilidades (por exemplo, em duas posic¸˜ oes ou dois n´ ıveis de energia). S´ o quando se faz uma medida ´ e que se obt´ em um resultado concreto; antes disso, o sistema ´ e descrito matematicamente como estando em superposic¸˜ ao desses estados. 8Em ondas (som, luz, ´ agua), ondas coerentes 2 Esse ´ ultimo ocorre quando uma part´ ıcula atravessa uma barreira de potencial9que, pela f´ ısica cl´ assica, seria intranspon´ ıvel por essa n˜ ao possuir energia suficiente para vencˆ e-la. Na descric¸˜ ao quˆ antica, por´ em, o car´ ater ondulat´ orio da mat´ eria faz com que a func¸˜ ao de onda da part´ ıcula se estenda um pouco para dentro da barreira e decaia ali em vez de ser simplesmente nula, o que implica uma probabilidade finita da part´ ıcula ser detectada do outro lado. 2 O Experimento Assim, chegamos finalmente ao experimento associado ao Nobel. A novidade do que foi descoberto est´ a no fato de temos aqui um circuito el´ etrico feito com materiais supercondutores10, operando a temperaturas t˜ ao baixas que a resistˆ encia el´ etrica se torna praticamente nula, que essa passa a se comportar de maneira tipicamente quˆ antica, e n˜ ao cl´ assica. Em oumantˆ em uma relac¸˜ ao de fase bem definida ao longo do tempo. Exemplo cl´ assico seria o laser que em todos os f´ otons tˆ em praticamente a mesma frequˆ encia e fases bem correlacionadas. Por sua vez, a luz de uma lˆ ampada comum ´ e incoerente, visto que cada “porc¸˜ ao” de luz tem fase e direc¸˜ ao distinta. J´ a em estados coletivos quˆ anticos (supercondutividade, superfluidez), dizemos que as part´ ıculas se comportam de forma coerente quando um grande n´ umero delas ocupa um mesmo estado quˆ antico e age como se fosse uma “onda ´ unica”. Isso permite coisas “estranhas” para a intuic¸˜ ao cl´ assica, como corrente el´ etrica sem resistˆ encia (supercondutor) ou fluido que escoa praticamente sem viscosidade (superfluido). 9Conforme aprendemos em f´ ısica elementar, a energia potencial ´ e aquela que um corpo possui em um determinado ponto do espac¸o em relac¸˜ ao a uma referˆ encia (altura, perto de outra carga, perto de um ´ ım˜ a etc.). J´ a um potencial (gravitacional, el´ etrico), se refere a um “mapa” que diz qu˜ ao energ´ etico ´ e cada ponto do espac¸o independente da part´ ıcula, carga etc. Assim, uma “barreira de potencial” pode ser descrita como uma regi˜ ao do espac¸o em que a energia potencial de uma part´ ıcula ´ e maior do que em regi˜ oes vizinhas, formando uma esp´ ecie de “muro” energ´ etico entre duas ´ areas de menor energia. 10Supercondutores s˜ ao materiais que, abaixo de uma temperatura cr´ ıtica caracter´ ıstica, apresentam resistˆ encia el´ etrica praticamente nula e expuls˜ ao (total ou quase total) do campo magn´ etico de seu interior (efeito Meissner), permitindo a existˆ encia de correntes persistentes sem dissipac¸˜ ao de energia. tras palavras, como a corrente pode circular sem dissipac¸˜ ao de energia, certas grandezas do circuito (como o fluxo magn´ etico e a fase associada ao estado supercondutor) obedecem claramente ` as leis da mecˆ anica quˆ antica em escala macrosc´ opica. Em geral, esses circuitos incluem trˆ es elementos-chave: junc¸˜ oes Josephson, que s˜ ao contatos entre dois supercondutores separados por uma barreira muito fina (isolante ou fraca) e que permitem a passagem de corrente sem queda de tens˜ ao; indutores, componentes que armazenam energia na forma de campo magn´ etico quando a corrente passa por eles e que se op˜ oem a variac¸˜ oes bruscas de corrente; e capacitores, componentes formados por duas placas condutoras separadas por um isolante, que armazenam energia na forma de campo el´ etrico, acumulando carga e se opondo a variac¸˜ oes bruscas de tens˜ ao. Em termos simples, eles mostraram que um circuito supercondutor nessas condic¸˜ oes pode se comportar como um “´ atomo artificial”: o grau de liberdade coletivo associado ` a fase supercondutora apresenta n´ ıveis de energia discretos e pode atravessar, por tunelamento, barreiras de potencial, exatamente como part´ ıculas microsc´ opicas. Utilizando jarg˜ oes f´ ısicos mais espec´ ıficos, o grupo observou que o tunelamento entre estados metast´ aveis11 e a quantizac¸˜ ao dos n´ ıveis de energia em regimes de corrente cr´ ıtica em um circuito supercondutor macrosc´ opico, torna concretos efeitos quˆ anticos em um sistema grande o suficiente para caber na palma da m˜ ao, 11Estados metast´ aveis s˜ ao estados de um sistema f´ ısico que n˜ ao correspondem ao m´ ınimo absoluto de energia (estado fundamental), mas que s˜ ao suficientemente est´ aveis para persistir por um tempo longo antes de decair. Podemos dizer que um estado metast´ avel fica preso em um “poc¸o” local: existe um estado de energia mais baixa dispon´ ıvel, mas para atingi-lo o sistema precisaria vencer ou atravessar uma barreira de potencial. Na f´ ısica cl´ assica, essa transic¸˜ ao costuma exigir uma flutuac¸˜ ao t´ ermica suficientemente grande. Conforme vimos, na mecˆ anica quˆ antica, isso pode ocorrer tamb´ em por tunelamento. 3 abrindo caminho para os qubits12 supercondutores hoje usados em computac¸˜ ao quˆ antica. 3 Decoerˆ encia Quˆ antica Avanc¸ando um pouco mais nas implicac¸˜ oes desse experimento, podemos dizer que esse se conecta diretamente ao problema da decoerˆ encia quˆ antica. Em termos simples, decoerˆ encia ´ e o processo pelo qual um sistema quˆ antico que est´ a em superposic¸˜ ao de estados comec¸a a perder esse car´ ater quˆ antico quando interage com o ambiente (por exemplo, com f´ otons t´ ermicos ou com vibrac¸˜ oes da rede cristalina)13. Essa interac¸˜ ao vai embaralhando e destruindo a coerˆ encia de fase entre os diferentes componentes da superposic¸˜ ao, isto ´ e, a relac¸˜ ao bem definida entre as “ondas de probabilidade” que descrevem cada possibilidade. Na linguagem mais formal da matriz densidade14, isso equivale a dizer que 12Oqubit (do inglˆ es quantum bit)´ e a unidade b´ asica de informac¸˜ ao em computac¸˜ ao quˆ antica. Diferente de um bit cl´ assico, que s´ o pode assumir os valores 0 ou 1, um qubit pode estar em uma superposic¸˜ ao desses dois estados ao mesmo tempo, com certas probabilidades associadas. Ao ser medido, ele fornece como resultado 0 ou 1, mas o comportamento antes da medida ´ e regido pelas leis da mecˆ anica quˆ antica. Al´ em disso, qubits podem ficar emaranhados (entangled), isto ´ e, correlacionados de modo t˜ ao forte que o estado de um n˜ ao pode ser descrito independentemente do outro, mesmo que estejam separados espacialmente. Esse car´ ater de superposic¸˜ ao e emaranhamento ´ e o que permite algoritmos quˆ anticos mais r´ apidos que os cl´ assicos em certas tarefas. Na pr´ atica, qubits podem ser implementados em sistemas f´ ısicos como ´ ıons presos, f´ otons, spins eletrˆ onicos ou circuitos supercondutores. 13F´ otons t´ ermicos s˜ ao part´ ıculas de luz associadas ` a radiac¸˜ ao emitida por qualquer corpo com temperatura acima do zero absoluto; j´ a as vibrac¸˜ oes da rede cristalina (ou fˆ onons) s˜ ao oscilac¸˜ oes coletivas dos ´ atomos que formam um s´ olido. Ambos funcionam como “reservat´ orios” de energia e de informac¸˜ ao, com in´ umeros graus de liberdade. 14A matriz densidade ´ e uma forma geral de descrever o estado de um sistema quˆ antico que pode estar em superposic¸˜ ao e/ou em mistura estat´ ıstica. Ela permite tratar, de maneira unificada, estados puros e mistos, sendo muito usada em teoria da decoerˆ encia e informac¸˜ ao quˆ antica. os chamados termos fora da diagonal15 v˜ ao sendo suprimidos com o tempo, de modo que o sistema passa a se comportar, do ponto de vista observ´ avel, como se fosse um sistema cl´ assico que est´ a “ou em um estado ou em outro”, e n˜ ao mais em uma superposic¸˜ ao quˆ antica bem definida. Certos estados – os chamados pointer states – tornam-se est´ aveis sob a ac¸˜ ao do ambiente, e o sistema passa a comportar-se como se estivesse em uma mistura cl´ assica de alternativas, e n˜ ao em uma superposic¸˜ ao quˆ antica. Nos experimentos de Clarke, Devoret e Martinis, o desafio central era justamente manter a coerˆ encia quˆ antica desse grau de liberdade coletivo macrosc´ opico por tempo suficiente para que o tunelamento e a quantizac¸˜ ao pudessem ser observados: isso exigiu, conforme vimos, temperaturas extremamente baixas, blindagem cuidadosa contra ru´ ıdo e um projeto de circuito que minimizasse o acoplamento a modos ambientais. Uma interessante consequˆ encia disso ´ e que a fronteira entre o quˆ antico e o cl´ assico n˜ ao ´ e fixada pelo tamanho do sistema, como se imaginava, mas pelo grau de controle sobre a decoerˆ encia: quando o ambiente ´ e bem controlado, at´ e mesmo circuitos macrosc´ opicos exibem, de forma n´ ıtida, as mesmas regras quˆ anticas que associamos a ´ atomos e part´ ıculas elementares16. 4 Mecˆ anica Quˆ antica e Consciˆ encia N˜ ao ´ e dif´ ıcil perceber que, se aceitarmos que o observador desempenha um papel nas medic¸˜ oes quˆ anticas e que a fronteira entre o cl´ assico e o quˆ antico 15Os elementos fora da diagonal principal da matriz densidade codificam justamente as correlac¸˜ oes de fase entre diferentes estados. Quando esses termos v˜ ao a zero, perde-se a informac¸˜ ao sobre a superposic¸˜ ao coerente, restando apenas uma mistura cl´ assica de probabilidades nos elementos da diagonal. 16ZUREK, Wojciech Hubert. Decoherence and the transition from quantum to classical. Physics Today, College Park, v. 44, n. 10, p. 36–44, 1991; ZUREK, Wojciech Hubert. Decoherence, einselection, and the quantum origins of the classical. Reviews of Modern Physics, College Park, v. 75, n. 3, p. 715–775, 2003. 4 talvez n˜ ao dependa apenas de escala, abre-se espac¸o tanto para a an´ alise dos limites da decoerˆ encia quˆ antica quanto para debates sobre poss´ ıveis relac¸˜ oes entre fenˆ omenos quˆ anticos, consciˆ encia humana e, at´ e mesmo, a mente entendida como um poss´ ıvel “computador quˆ antico”. E foi exatamente isso que alguns pesquisadores passaram a propor. Historicamente, a primeira formulac¸˜ ao sistem´ atica onde a consciˆ encia entra explicitamente na discuss˜ ao da mecˆ anica quˆ antica se deu com John von Neumann (1903-1957), em seu livro Mathematical Foundations of Quantum Mechanics (1932), ao mostrar que o chamado “colapso” da func¸˜ ao de onda poderia, em princ´ ıpio, ser colocado em qualquer ponto da cadeia de medic¸˜ ao, desde o sistema microsc´ opico at´ e a “percepc¸˜ ao subjetiva” do observador; embora ele n˜ ao diga, de forma expl´ ıcita, que a consciˆ encia causaria o colapso, abre a porta para essa leitura17. Poucos anos depois, Fritz London (1900-1954) e Edmond Bauer (1880-1963) defenderam, em um ensaio sobre a teoria da observac¸˜ ao, que o ato de consciˆ encia do observador – o momento em que ele toma ciˆ encia do resultado – desempenha um papel essencial na passagem de uma descric¸˜ ao em termos de superposic¸˜ ao para um resultado definido, aproximando-se mais diretamente da tese de que “algo mental” interv´ em no processo de medic¸˜ ao18. Mas, foi Eugene Wigner (1902–1995) quem radicalizou o assunto: em seu famoso ensaio Remarks on the Mind–Body Question (1961), ele sustenta que n˜ ao ´ e poss´ ıvel formular as leis da mecˆ anica quˆ antica de modo plenamente consistente sem fazer referˆ encia ` a consciˆ encia, sugerindo que o colapso est´ a ligado precisamente ao surgimento de um 17VON NEUMANN, John. Mathematical Foundations of Quantum Mechanics. Princeton: Princeton University Press, 1955. 18LONDON, Fritz; BAUER, Edmond. La th´ eorie de l’observation en m´ ecanique quantique. In: WHEELER, John A.; ZUREK, Wojciech H. (org.). Quantum Theory and Measurement. Princeton: Princeton University Press, 1983. p. 217–259. conte´ udo consciente19. Entretanto, em paralelo a essa linha que associa o colapso diretamente ` a consciˆ encia, surgiram estudos que enfatizaram uma perspectiva diferente: se tudo ´ e sistema f´ ısico (inclusive o observador), ent˜ ao a decoerˆ encia tamb´ em age sobre o c´ erebro, e isso ajudaria a explicar por que percebemos resultados “cl´ assicos” sem precisar invocar um colapso provocado pela mente. Nesse sentido, H. Dieter Zeh (19322018) foi um dos primeiros a formular a ideia de decoerˆ encia dinˆ amica no contexto do problema da medic¸˜ ao, ao analisar como sistemas macrosc´ opicos que funcionam como “aparelhos de medida” se acoplam a observadores, abrindo espac¸o para discutir o papel da observac¸˜ ao consciente20. J´ a Wojciech Hubert Zurek desenvolveu, nas d´ ecadas de 1980 e 1990, a teoria moderna da decoerˆ encia e da selec¸˜ ao de estados preferenciais e, em um artigo de 1991, tratou explicitamente a consciˆ encia como um processo f´ ısico sujeito ` a decoerˆ encia, mencionando que os estados do c´ erebro e dos neurˆ onios s˜ ao, em princ´ ıpio, igualmente afetados por esse mecanismo21. Posto isso, o fato ´ e que existe um grande problema em se propor que fenˆ omenos quˆ anticos interfiram diretamente nos processos mentais (e vice-versa). O principal deles decorre justamente daquilo que o experimento laureado com o Prˆ emio Nobel evidenciou: trata-se de um “experimento de limite”. Ou seja, ´ e muito dif´ ıcil manter um sistema de grandes dimens˜ oes em regime genuinamente quˆ antico, o que torna bastante improv´ avel que o c´ erebro funcione, em condic¸˜ oes normais, como um “computador quˆ antico coerente”. Como vimos, os experimentos com circuitos supercondutores 19WIGNER, Eugene P. Remarks on the mind–body question. In: WIGNER, Eugene P. Symmetries and Reflections: Scientific Essays. Bloomington: Indiana University Press, 1967. p. 171–184. 20ZEH, H. D. On the interpretation of measurement in quantum theory. Foundations of Physics, Dordrecht, v. 1, n. 1, p. 69–76, 1970. 21ZUREK, W. H. Decoherence and the transition from quantum to classical. Physics Today, New York, v. 44, n. 10, p. 36–44, 1991. 5 exigem temperaturas extremamente baixas, blindagem de ru´ ıdo e engenharia cuidadosa para preservar a coerˆ encia quˆ antica por frac¸˜ oes de segundo; j´ a o c´ erebro opera em um ambiente quente, ´ umido e barulhento, com trilh˜ oes de interac¸˜ oes eletroqu´ ımicas acontecendo a todo momento, cen´ ario em que a decoerˆ encia tende a ser muito r´ apida. Al´ em disso, o experimento mostra que qualquer sistema complexo fortemente acoplado ao ambiente — como o pr´ oprio c´ erebro — tende a se comportar, nas escalas relevantes para a experiˆ encia consciente, de modo efetivamente cl´ assico. 5 “Cura Quˆ antica”? ´ E imposs´ ıvel discutirmos esses assuntos e n˜ ao lembrar de um vasto conjunto de discursos populares sob r´ otulos como “psicologia quˆ antica”, “cura quˆ antica”, “coach quˆ antico22” e afins. No entanto, palestras motivacionais e marketing terapˆ eutico costuma operar em outro registro: termos como “superposic¸˜ ao”, “emaranhamento” ou “efeito do observador” s˜ ao empregados como met´ aforas vagas para estados emocionais, relac¸˜ oes interpessoais ou “poder do pensamento”, sem qualquer traduc¸˜ ao para o formalismo da mecˆ anica quˆ antica ou para modelos neurocient´ ıficos estabelecidos. Fala-se, por exemplo, em “colapsar a realidade desejada” ou “emaranhar-se com a prosperidade”, numa apropriac¸˜ ao ret´ orica que, em geral, n˜ ao resiste a uma an´ alise m´ ınima de consistˆ encia conceitual. Da mesma forma, r´ otulos como “cura quˆ antica” frequentemente misturam noc¸˜ oes de energia, vibrac¸˜ ao e consciˆ encia de modo sincr´ etico, sem especificar qual Hamiltoniana, que graus de liberdade, quais escalas de tempo ou mecanismos de decoerˆ encia estariam envolvidos nesse suposto processo terapˆ eutico. Quando confrontamos essas narrativas com os resultados consagrados pela f´ ısica o 22Esses, em geral, utilizam o vocabul´ ario da mecˆ anica quˆ antica de maneira metaf´ orica ou mesmo equivocada, muitas vezes desconectada de qualquer formalismo f´ ısico ou evidˆ encia emp´ ırica robusta. contraste se torna evidente. Para que um sistema macrosc´ opico exiba de forma controlada tais efeitos quˆ anticos, ´ e necess´ ario um ambiente extremamente regulado. A extrapolac¸˜ ao direta desses fenˆ omenos para processos mentais cotidianos, relac¸˜ oes humanas ou pr´ aticas terapˆ euticas baseadas em intenc¸˜ ao e pensamento positivo ignora precisamente essa fragilidade da coerˆ encia quˆ antica em sistemas complexos que, conforme afirmamos, s˜ ao quentes e fortemente acoplados ao ambiente, como o c´ erebro e o organismo humano. Do ponto de vista de epistemologia, o problema central com a maior parte dos discursos de “psicologia quˆ antica” e “cura quˆ antica” n˜ ao ´ e apenas terminol´ ogico, mas de certa forma metodol´ ogico: faltam hip´ oteses test´ aveis, protocolos experimentais controlados e crit´ erios de falseabilidade. A ret´ orica quˆ antica, nesses casos, funciona muitas vezes como um selo de prest´ ıgio cient´ ıfico deslocado, que legitima pr´ aticas heterogˆ eneas (de terapia alternativa a coaching motivacional) sem que se estabelec¸a um nexo demonstr´ avel entre o formalismo da mecˆ anica quˆ antica e os efeitos psicol´ ogicos ou cl´ ınicos alegados. Em contraste, mesmo as abordagens mais ousadas dentro do debate mente-quˆ antica procuram, pelo menos em princ´ ıpio, dialogar com dados neurobiol´ ogicos, modelagem matem´ atica e limites impostos por c´ alculos de decoerˆ encia, conforme veremos a seguir. 6 “Teorias F´ ısicas da Mente” Uma linha de pesquisa que tem buscado um elo entre os fenˆ omenos quˆ anticos e a mente ´ e a proposic¸˜ ao dos “microt´ ubulos de consciˆ encia”. Microt´ ubulos s˜ ao estruturas cil´ ındricas do citoesqueleto, formadas por pol´ ımeros de tubulina, que ajudam a manter a forma da c´ elula, organizar seu interior e permitir o transporte de ves´ ıculas e organelas ao longo do neurˆ onio. Em algumas propostas de ligac¸˜ ao entre f´ ısica quˆ antica e estudos da mente, sobretudo na teoria Orchestrated Objective Reduction (Orch OR), do tamb´ em laureado com o prˆ emio Nobel 6 Roger Penrose e de Stuart Hameroff23, os microt´ ubulos deixariam de ser apenas “andaimes estruturais” e passariam a desempenhar um papel central como poss´ ıveis portadores de informac¸˜ ao quˆ antica no c´ erebro. Essa ideia, por´ em, ´ e bastante controversa, pois c´ alculos de tempos de decoerˆ encia em ambiente cerebral sugerem que tais estados coerentes se perderiam extremamente r´ apido, antes de poderem influenciar processos neurais em escalas de tempo cognitivamente relevantes. Outra linha, iniciada por Luigi Ricciardi e Hiroomi Umezawa, tenta modelar o c´ erebro como um sistema de muitos corpos24 descrito por teoria quˆ antica de campos25, em que mem´ oria e estados mentais seriam associados a quebras espontˆ aneas de simetria e correlac¸˜ oes26 de longo alcance em um “campo cerebral’27. Mais recentemente, 23Na proposta Orch OR, cada d´ ımero de tubulina seria capaz de assumir diferentes estados conformacionais que funcionariam como algo an´ alogo aqubits, podendo entrar em superposic¸˜ ao e emaranhamento. A dinˆ amica quˆ antica em redes de microt´ ubulos seria ent˜ ao orquestrada e, em certos limiares, passaria por uma reduc¸˜ ao objetiva ligada a efeitos de gravidade quˆ antica, associada a eventos conscientes. 24Um sistema de muitos corpos em teoria quˆ antica de campos ´ e um modelo em que se tem uma quantidade gigantesca de part´ ıculas, mas em vez de descrevˆ e-las uma a uma, usa campos quˆ anticos e ferramentas do mesmo (operadores de criac¸˜ ao/aniquilac¸˜ ao, estados coletivos, parˆ ametros de ordem) para descrever o comportamento coletivo desse sistema. 25De modo sucinto, na mecˆ anica quˆ antica “simples”, se quantiza part´ ıculas (um el´ etron, dois el´ etrons. . . ). J´ a na teoria quˆ antica de campos, se quantiza campos: o campo eletrˆ onico, o campo eletromagn´ etico etc. Assim, as part´ ıculas aparecem como excitac¸˜ oes desses campos que podem: criar e aniquilar part´ ıculas, interagir entre si, se organizar em estados coletivos (condensados, fases ordenadas). 26Em f´ ısica, simetria quer dizer que as equac¸˜ oes n˜ ao privilegiam nenhuma direc¸˜ ao/opc¸˜ ao. Em uma quebra espontˆ anea de simetria as leis s˜ ao sim´ etricas, mas o sistema, ao se organizar, “escolhe” um dos estados poss´ ıveis. Correlac¸˜ ao ´ e, basicamente, quando o que acontece em uma parte do sistema est´ a ligado ao que acontece em outra. 27RICCIARDI, Luigi Maria; UMEZAWA, Hiroomi. Brain and physics of many-body problems. Kybernetik, v. 4, p. 44–48, 1967. Matthew P. A. Fisher propˆ os que spins nucleares de ´ atomos de f´ osforo em chamadas “mol´ eculas de Posner” poderiam atuar como “qubits neurais”, mantendo coerˆ encia quˆ antica por tempos relativamente longos e influenciando a probabilidade de disparo de neurˆ onios, esboc¸ando um mecanismo de processamento quˆ antico no c´ erebro.28 Por fim, h´ a uma fam´ ılia de trabalhos que conectam quˆ antica e mente em um plano mais formal e cognitivo, sem afirmar que o c´ erebro seja literalmente um computador quˆ antico: ´ e o caso da chamada “cognic¸˜ ao quˆ antica”, em que o formalismo probabil´ ıstico da teoria quˆ antica ´ e usado para modelar julgamentos, tomada de decis˜ ao e efeitos de contexto em psicologia, sugerindo que certos padr˜ oes de pensamento se ajustam melhor a uma estrutura de probabilidades “quˆ antica” do que ` as probabilidades cl´ assicas, embora isso n˜ ao implique, por si s´ o, que a base f´ ısica da consciˆ encia seja quˆ antica29 30. Uma conclus˜ ao parcial de tudo isso seria que, tanto nessas pesquisas quanto na maioria dos modelos neurocient´ ıficos atuais, os efeitos quˆ anticos s˜ ao considerados relevantes sobretudo na escala microsc´ opica (por exemplo, na estrutura molecular ou em canais iˆ onicos). Entretanto, a “dinˆ amica da consciˆ encia” costuma ser descrita como algo que aparece no n´ ıvel cl´ assico macrosc´ opico (redes neurais, sinapses etc.), emergindo do comportamento coletivo de muitos componentes mais fundamentais (quˆ anticos). Todavia, as leis e 28FISHER, Matthew P. A. Quantum cognition: the possibility of processing with nuclear spins in the brain. Annals of Physics, v. 362, p. 593–602, 2015. 29BUSEMEYER, Jerome R.; BRUZA, Peter D. Quantum Models of Cognition and Decision. Cambridge: Cambridge University Press, 2012. 30H´ a ainda linhas mais filos´ oficas/especulativas, como os trabalhos de Henry Stapp (uso do efeito Zeno quˆ antico para modelar “atenc¸˜ ao” e escolha consciente) e de John Eccles (sinapses como locais de amplificac¸˜ ao de eventos quˆ anticos), al´ em de discuss˜ oes gerais sobre se o colapso da func¸˜ ao de onda pode ter algum papel na relac¸˜ ao mente–mundo. Essas propostas s˜ ao minorit´ arias no neuro-mainstream e frequentemente criticadas por falta de mecanismos claros e de previs˜ oes test´ aveis. 7 padr˜ oes que regem essa dinˆ amica emergente (micro para o macro) n˜ ao s˜ ao nada ´ obvios, o que torna a sua an´ alise e modelagem um desafio. Em suma, o c´ erebro pode at´ e ser composto por elementos quˆ anticos, mas a dinˆ amica relevante da consciˆ encia aparece como um padr˜ ao coletivo em grande escala. Ao que tudo indica, temos aqui um problema que se relaciona diretamente com o debate sobre emergˆ encia vs. reducionismo. 7 Emergˆ encia vs. Reducionismo Esse tipo de tens˜ ao entre explicac¸˜ oes reducionistas e apelos a fenˆ omenos emergentes acompanha a filosofia da ciˆ encia pelo menos desde o fim do s´ eculo 19, quando autores j´ a apontavam que certas propriedades de sistemas complexos n˜ ao se deixam reduzir facilmente ao comportamento de suas partes isoladas. Na f´ ısica contemporˆ anea, essa discuss˜ ao ganha uma formulac¸˜ ao particularmente influente a partir do ensaio “More is Different” (1972), de Philip W. Anderson (1923-2020), em que se defende que novos n´ ıveis de organizac¸˜ ao exibem leis e regularidades pr´ oprias, que n˜ ao s˜ ao simplesmente “detalhes complicados” a serem extra´ ıdos das equac¸˜ oes microsc´ opicas j´ a conhecidas. Mais precisamente, no quadro reducionista, parte-se da ideia de que tudo o que acontece no n´ ıvel macrosc´ opico poderia, em princ´ ıpio, ser explicado pelas leis quˆ anticas microsc´ opicas: ´ atomos, mol´ eculas, neurˆ onios, mesas, estrelas e at´ e o c´ erebro seriam apenas arranjos cada vez mais complexos de sistemas quˆ anticos. Nessa vis˜ ao, a mecˆ anica quˆ antica (ou, mais fundamentalmente, a teoria quˆ antica de campos) seria a “camada ´ ultima” da realidade f´ ısica, e todos os fenˆ omenos cl´ assicos — temperatura, press˜ ao, elasticidade, comportamento de circuitos, at´ e processos biol´ ogicos — seriam, no limite, redut´ ıveis ao comportamento de muitos graus de liberdade quˆ anticos interagindo. Entretanto, existe um problema n˜ ao tanto l´ ogico, mas pr´ atico e conceitual: mesmo que as equac¸˜ oes microsc´ opicas sejam conhecidas, ´ e praticamente imposs´ ıvel derivar de fato toda a f´ ısica cl´ assica, a termodinˆ amica, a qu´ ımica, a neurociˆ encia, a biologia etc. diretamente delas. N˜ ao obstante, conceitos como temperatura, campo magn´ etico macrosc´ opico ou “estado consciente” n˜ ao aparecem de modo simples no formalismo de poucos corpos quˆ anticos, o que exigiria novas linguagens e n´ ıveis de descric¸˜ ao. J´ a a noc¸˜ ao de emergˆ encia entra justamente para lidar com esse descompasso. Dizemos que certos fenˆ omenos s˜ ao emergentes quando surgem apenas em sistemas compostos por muitos constituintes, e exibem leis e regularidades que n˜ ao s˜ ao ´ obvias olhando apenas para a dinˆ amica de poucas part´ ıculas. Em f´ ısica quˆ antica, exemplos cl´ assicos s˜ ao a supercondutividade e a superfluidez: elas obedecem, em ´ ultima an´ alise, ` a mecˆ anica quˆ antica dos el´ etrons e´ atomos individuais, mas o que observamos — corrente sem resistˆ encia, fluido quase sem viscosidade, estados coerentes macrosc´ opicos — exige uma teoria de muitos corpos, com novos conceitos (quebra de simetria, parˆ ametros de ordem, func¸˜ ao de onda coletiva) que n˜ ao fazem sentido para um ´ unico el´ etron isolado. Algo an´ alogo vale para a passagem do quˆ antico ao cl´ assico via decoerˆ encia: o “mundo cl´ assico” n˜ ao nega a teoria quˆ antica, mas emerge dela quando muitos graus de liberdade interagem e “apagam” coerˆ encias de fase. Aplicado ao debate mente–quˆ antica, o problema fica mais agudo: mesmo aceitando que o c´ erebro seja feito de sistemas quˆ anticos, permanece a quest˜ ao de se a consciˆ encia ´ e apenas um fenˆ omeno emergente cl´ assico (padr˜ oes em redes neurais, descritos por teorias efetivas) ou se seria necess´ ario invocar algum efeito quˆ antico fundamental espec´ ıfico (superposic¸˜ ao, entrelac¸amento de longo alcance etc.). 8“Question of Science” No segundo semestre de 2025, um novo podcast da BBC Studios para o Francis Crick Institute31 estreou no YouTube. Apresentado 31OFrancis Crick Institute ´ e um grande centro de pesquisa biom´ edica em Londres, batizado 8 pelo f´ ısico Brian Cox e intitulado A Question of Science, o programa re´ une, a cada epis´ odio, um painel de especialistas para discutir grandes quest˜ oes cient´ ıficas contemporˆ aneas com uma plateia ao vivo, cujas perguntas orientam o debate. A proposta ´ e combinar rigor, transparˆ encia e discuss˜ ao aberta para explicitar o que a ciˆ encia j´ a sabe, o que ainda n˜ ao sabe e quais caminhos podem se abrir a partir da´ ı32. No epis´ odio de 26 de novembro de 2025, o tema principal se debruc¸ou sobre o que ´ e a consciˆ encia e como compreender a experiˆ encia subjetiva a partir de processos f´ ısicos no c´ erebro33. Para isso, participaram quatro convidados: o neurocientista Anil Seth (universidade de Sussex), que lidera um grupo interdisciplinar dedicado h´ a anos ao estudo da consciˆ encia; a psiquiatra e pesquisadora Katharina Schmack (Francis Crick Institute), que investiga alucinac¸˜ oes e psicose como janelas para a experiˆ encia consciente; o neurocientista cognitivo Steve Fleming (University College London), especialista em metacognic¸˜ ao e em teorias de em homenagem a Francis Crick (1916-2004), um dos descobridores da estrutura do DNA. ´ E uma instituic¸˜ ao independente e sem fins lucrativos, resultado de uma parceria entre grandes universidades de Londres (UCL, King’s College,Imperial College) e agˆ encias/ONGs de pesquisa como o Medical Research Council, Cancer Research UK eWellcome Trust, inaugurada em 2016 e hoje considerada um dos maiores laborat´ orios biom´ edicos da Europa, com foco em compreender mecanismos fundamentais da vida e das doenc¸as, como cˆ ancer, enfermidades cardiovasculares, infecciosas e neurodegenerativas, visando melhorar diagn´ ostico, prevenc¸˜ ao e tratamento. FONTE: THE FRANCIS CRICK INSTITUTE. About us. Londres, 2024. Dispon´ ıvel em: https: //www.crick.ac.uk/about-us. Acesso em: 29 nov. 2025. Ver tamb´ em: WIKIP´ EDIA. Instituto Francis Crick. Dispon´ ıvel em: https://pt.wikipedia.org/ wiki/Instituto_Francis_Crick. Acesso em: 29 nov. 2025. 32A QUESTION OF SCIENCE. Podcast. Produc¸˜ ao: BBC Studios para The Francis Crick Institute, Londres, 2024–. Dispon´ ıvel em: https://www.crick. ac.uk/news-and-features/podcast. Acesso em: 29 nov. 2025. 33THE FRANCIS CRICK INSTITUTE. What Is Consciousness? – A Question of Science with Brian Cox. YouTube, 2025. V´ ıdeo (on-line). Dispon´ ıvel em: https://www.youtube.com/watch?v= aynzcAYnnJU. Acesso em: 29 nov. 2025. consciˆ encia baseadas em estudos de neuroimagem; e o fil´ osofo Alex O’Connor, apresentador do podcast Within Reason, que trabalha justamente na interface entre resultados emp´ ıricos e reflex˜ ao filos´ ofica. Logo no in´ ıcio, todos aceitaram uma definic¸˜ ao m´ ınima de consciˆ encia, inspirada em Thomas Nagel, que afirma que “an organism has conscious mental states if and only if there is something that it is like to be that organism”. Isto ´ e, um ser ´ e consciente se existe alguma experiˆ encia em primeira pessoa associada a ele. Essa concordˆ ancia inicial, no entanto, esconde divergˆ encias profundas. Anil, Katharina e Steve enfatizam que, embora n˜ ao possamos “ver” a consciˆ encia diretamente no c´ erebro, ´ e poss´ ıvel identificar correlatos neurais da consciˆ encia robustos: padr˜ oes de atividade que mudam sistematicamente conforme mudam as experiˆ encias relatadas. Essa linha de trabalho, consolidada desde a d´ ecada de 1990, foca justamente nesses correlatos neurais e em m´ etodos de psicof´ ısica para medir com precis˜ ao percepc¸˜ ao, imaginac¸˜ ao, confianc¸a nas decis˜ oes e assim por diante. Alex, por sua vez, insiste que isso, no m´ aximo, mapeia processos correlacionados, mas n˜ ao resolve o problema central no estudo da consciˆ encia: saber o que essa realmente ´ e. Em outras palavras, o n´ ucleo subjetivo da consciˆ encia permanece fora do alcance direto da metodologia cient´ ıfica. A discuss˜ ao avanc¸a para a relac¸˜ ao entre consciˆ encia e tempo/mem´ oria. Steve lembra que a experiˆ encia consciente n˜ ao ´ e um instante pontual, mas um fluxo que integra cerca de meio segundo de informac¸˜ oes; nesse intervalo, a ordem de est´ ımulos pode at´ e ser trocada sem que o sujeito perceba. Anil retoma a noc¸˜ ao de “presente especioso”, associada a William James (18421910)34, e utiliza exemplos cl´ ınicos, como o 34Conceito introduzido por William James para designar o fato de que o “agora” da experiˆ encia consciente n˜ ao ´ e um ponto instantˆ aneo no tempo, mas um pequeno intervalo que vivenciamos como se fosse um ´ unico presente. Quando ouvimos uma nota musical, uma palavra sendo pronunciada ou percebemos um movimento cont´ ınuo, n˜ ao experimenta9 em ´ ultima instˆ ancia, a pr´ opria experiˆ encia consciente? Entre campos quˆ anticos e a interac¸˜ ao entre entidades humanas vivas, desenhase uma profusa jornada que n˜ ao se restringe apenas a saberes estritamente f´ ısicos, biol´ ogicos ou sociol´ ogicos: h´ a toda uma constelac¸˜ ao de conhecimentos que emergem de n´ os mesmos, enquanto seres que nos constitu´ ımos justamente a partir dessas camadas de realidade. Al´ em disso, se intu´ ımos saberes religiosos, especulativos e metaf´ ısicos, isso tamb´ em faz parte da “f´ ısica dos objetos”, na medida em que, em uma postura estritamente reducionista, tudo isso seria tomado como express˜ ao de estruturas materiais subjacentes (neurais, biol´ ogicas, sociais). Ao mesmo tempo, diante da ideia de emergˆ encia, outros saberes devem igualmente cooperar para compreender uma realidade que escapa ` a simples reduc¸˜ ao de um organismo ao fato de ser “apenas vivo”: trata-se de dar conta de formas de experiˆ encia, sentido e auto-compreens˜ ao que n˜ ao se deixam esgotar por uma ´ unica camada descritiva do real. Voltando ao podcast, uma frase muito emblem´ atica utilizada para psicose, mas que poderia facilmente ser transposta para muitos das perspectivas n˜ ao ortodoxas levantadas (como mediunidade, EQM etc.) mutatis mutandis,´ e a de Katharina Schmack, quando afirma: (...) Pessoas que tˆ em psicose, quando vivem essas experiˆ encias, lhes parecem absolutamente reais, ou podem lhes parecer absolutamente reais, do mesmo modo que as nossas experiˆ encias, quando n˜ ao temos psicose, nos parecem reais. E ´ e por isso que eu n˜ ao gosto do termo “realidade normal” ou “realidade objetiva”, porque essas experiˆ encias s˜ ao t˜ ao v´ alidas enquanto experiˆ encias quanto quaisquer outras. Mas, com frequˆ encia – ou, pelo menos, quando as pessoas procuram ajuda, quando eu as vejo como psiquiatra – essas experiˆ encias foram levadas a um extremo. Elas se afastaram tanto do restante da sociedade, do restante de todas as outras pessoas, que se tornam disfuncionais, e as pessoas sofrem porque est˜ ao t˜ ao distantes daquilo que ´ e uma experiˆ encia consciente adaptativa. Isso tamb´ em nos mostra como precisamos, de fato, pensar em termos de “realidade compartilhada”, em vez de uma ´ unica “verdade absoluta” que estaria l´ a e seria a coisa correta. Isso diz muito sobre todos os temas aqui abordados, pois, em ´ ultima an´ alise, pensar sobre o ser e sobre o fato de que tantas vezes validamos apenas aquilo que uma determinada perspectiva considera “normal” ´ e uma atitude inevitavelmente enviesada. A pr´ opria “normalidade” dos processos depende de uma s´ erie de fatores e padr˜ oes sociologicamente constru´ ıdos (para o bem ou para o mal), a partir dos quais tamb´ em a ciˆ encia se fundamentou, evoluiu e se legitimou. 16