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__________________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 311 (Ciências Sociais) CASA DE ACOLHIMENTO PARA MENORES EM SITUAÇÃO DE VULNERABILIDADE. A NEUROARQUITETURA COMO VETOR DE ACOLHIMENTO. SHELTER FOR VULNERABLE MINORS. NEUROARCHITECTURE AS A SUPPORTIVE MEDIA. Helena Dias, Jaqueline Fernández Alves Universidade Santa Cecília, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo E-mail para contato: [email protected] RESUMO – Este trabalho teve como finalidade demonstrar como uma casa de acolhimento para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade pode ser concebida de forma acolhedora, contribuindo para a redução dos impactos emocionais associados à vivência de traumas. O projeto fundamentou-se nos princípios da neuroarquitetura, campo que estuda a influência dos ambientes construídos sobre o cérebro humano, propondo que espaços planejados de forma consciente podem gerar efeitos positivos no comportamento e bem-estar dos indivíduos (SOBRINHO; NEVES, 2020). Partindo da premissa de que a arquitetura pode favorecer o processo de cura emocional, o projeto buscou promover acolhimento, segurança, aprendizado, sociabilidade, senso de pertencimento e preservação da individualidade em um contexto de convivência coletiva. Ambientes frios e despersonalizados tendem a reforçar mecanismos de defesa nas crianças e adolescentes acolhidos, dificultando a reconstrução da autoestima e da confiança no outro (HILL; BERMAN, 2018). Em contrapartida, um ambiente cuidadosamente projetado sob a ótica da neuroarquitetura tem o potencial de romper barreiras emocionais iniciais, proporcionando suporte efetivo ao desenvolvimento psíquico e social dos jovens (KAPLAN; KAPLAN, 1989). Palavras-chave: Neuroarquitetura; Casa de acolhimento; Design humanizado; sociabilidade. ABSTRACT – This work aimed to demonstrate how a shelter for children and adolescents in situations of vulnerability can be designed in a welcoming way, contributing to the reduction of emotional impacts associated with the experience of
__________________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 312 (Ciências Sociais) trauma. The project was based on the principles of neuroarchitecture, a field that studies the influence of built environments on the human brain, proposing that consciously planned spaces can generate positive effects on individual behavior and well-being.Starting from the premise that architecture can support the process of emotional healing, the project sought to promote a sense of care, safety, learning, sociability, belonging, and the preservation of individuality within a collective living environment. It argued that cold, hostile, and depersonalized spaces tend to reinforce defense mechanisms in sheltered children and adolescents, hindering the reconstruction of self-esteem and trust in others. Conversely, an environment carefully designed through the lens of neuroarchitecture has the potential to break down initial emotional barriers, providing effective support for the psychological and social development of young people. Keywords: Neuroarchitecture; Shelter; Humanized design; Sociability 1 INTRODUÇÃO A projeção de uma casa de acolhimento para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, fundamentada nos princípios da neuroarquitetura, pode atuar como um agente modificador de comportamento, proporcionando amparo, proteção e desenvolvimento humano (SOBRINHO; NEVES, 2020). Esse projeto teve como base o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e os avanços científicos da neuroarquitetura, defendendo que um ambiente adequadamente projetado pode contribuir significativamente para a evolução positiva de menores que vivenciam traumas decorrentes da ruptura familiar (BRASIL, 1990). Dessa forma, orientada pela Drª Jaqueline Fernándes Alves, buscou-se criar um espaço que respeite a individualidade de cada criança, adolescente e funcionário, garantindo acessibilidade, conforto e segurança. A biofilia foi incorporada ao projeto com o intuito de maximizar o bem-estar dos usuários, promovendo um ambiente que favoreça o equilíbrio emocional e cognitivo dos acolhidos (KAPLAN; KAPLAN, 1989). Nesse contexto, a questão central investigada foi: quais estratégias arquitetônicas podem ser empregues para que o ambiente facilite o acolhimento e o desenvolvimento de crianças e adolescentes? A motivação para este estudo surgiu a partir da experiência profissional do autor em uma casa de acolhimento, onde foi constatada a ausência de um ambiente humanizado e acolhedor. O edifício, de características frias e impessoais, se assemelhava a um depósito de crianças, desconsiderando suas individualidades e necessidades emocionais. Cuidar da infância é investir no futuro, e a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 227, estabelece que:
__________________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 313 (Ciências Sociais) "É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão" (Brasil, 1988, p 125). Atualmente, o município de Santos conta com cinco casas de acolhimento para crianças e adolescentes, onde se busca oferecer uma rotina próxima da normalidade. No entanto, esses espaços ainda carecem de um ambiente projetado especificamente para proporcionar conforto e desenvolvimento aos acolhidos. Embora o ECA enfatize a importância de espaços arquitetônicos acolhedores, seguros e funcionais, ele não especifica diretrizes claras sobre como esses ambientes devem ser estruturados (BRASIL, 1990). Essa lacuna normativa justificou a busca por referenciais na neuroarquitetura, uma área de estudo que investiga a relação entre o ambiente construído e o comportamento humano (TAYLOR, 2006), identificando elementos que favorecem a sensação de segurança, a autoconfiança e a amenização de traumas. A casa de acolhimento deve ser um porto seguro, proporcionando equilíbrio emocional e auxiliando na preparação do menor para a vida adulta. Nesse sentido, a localização escolhida para o projeto foi o edifício onde atualmente se encontra o Educandário Santista, devido à sua proximidade com instituições educacionais e de saúde, além de oferecer fácil acesso e mobilidade. A ampla área disponível permite a criação de ambientes funcionais e humanizados, beneficiando tanto os acolhidos quanto os profissionais responsáveis pelo atendimento. Este trabalho demonstrou a viabilidade da aplicação dos princípios da neuroarquitetura para a promoção do desenvolvimento humano em espaços institucionais. Estudos indicam que o ambiente em que estamos inseridos influencia diretamente nosso comportamento, podendo atuar de maneira positiva ou negativa. Como arquitetos, temos o conhecimento técnico necessário para criar espaços que favoreçam o bem-estar e o desenvolvimento dos usuários. “Neuroarquitetar” implica pensar ambientes que proporcionem conforto, por meio da aplicação de conceitos como a biofilia (KAPLAN; KAPLAN, 1989), o uso de elementos naturais e o aproveitamento da luz natural, favorecendo o ciclo circadiano. Além disso, pesquisas na área já demonstraram que o cérebro humano arquiva lugares e não apenas espaços, ou seja, locais com significado e valor emocional. Portanto, o projeto
__________________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 314 (Ciências Sociais) buscará embasamento em legislações e normas federais, estaduais e municipais que regulamentam a construção de casas de acolhimento, alinhando essas diretrizes aos princípios da neuroarquitetura. 2 MATERIAIS E MÉTODOS Este estudo utilizou uma abordagem mista, combinando métodos qualitativos e quantitativos para uma compreensão abrangente do tema, que ainda é pouco explorado na literatura. A pesquisa foi estruturada em diferentes etapas metodológicas, permitindo uma análise detalhada e fundamentada. Inicialmente, foi realizada uma pesquisa bibliográfica e documental (KÜHL, 2014), por meio da revisão de livros, artigos científicos, dissertações, teses e documentos oficiais que abordam conceitos, teorias e estudos relacionados ao tema investigado. Essa etapa permitiu a construção de um referencial teórico sólido e a identificação de lacunas existentes na literatura. Em seguida, foi conduzido um estudo de caso, focado na análise de campo em contextos semelhantes ao do projeto proposto. A observação direta desses espaços forneceu subsídios para avaliar o desempenho e a viabilidade da proposta. A pesquisa de campo foi outro elemento central da metodologia, envolvendo a coleta de dados primários por meio de diferentes instrumentos: • Entrevistas semiestruturadas, aplicadas a especialistas, gestores e demais atores relevantes, visando obter perspectivas aprofundadas sobre o tema; • Observação direta, com registro de aspectos relevantes do ambiente estudado, auxiliando na interpretação dos dados coletados; • Análise documental, para examinar documentos institucionais, regulamentações e demais fontes que possam contribuir para a compreensão do objeto de estudo. Os dados obtidos foram analisados por meio da análise de conteúdo, uma técnica qualitativa que permitiu interpretar as informações coletadas a partir de categorias temáticas previamente definidas. Além disso, foi aplicada uma interpretação qualitativa dos achados, buscando compreender os significados subjacentes aos dados e estabelecer conexões com o referencial teórico.
__________________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 315 (Ciências Sociais) Essa abordagem metodológica garantiu uma investigação completa e detalhada, combinando diferentes fontes e técnicas para fornecer um embasamento robusto às conclusões do estudo. 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO O objetivo deste trabalho é a implantação de uma casa de acolhimento para menores em situação de vulnerabilidade, com base na neuroarquitetura como elemento fundamental do desenvolvimento emocional dos usuários (SOBRINHO; NEVES, 2020), onde facilitar a superação de traumas obtidos no decorrer de fatos desgastantes sejam amenizados por um ambiente confortador, verdadeiramente acolhedor e seguro, que proporcione bem-estar físico e emocional. Uma casa de acolhimento tem como embasamento leis que normatizam seu funcionamento e alguns pontos construtivos, mas deixa uma lacuna interessante para a prática da neuroarquitetura com agente desenvolvedor da evolução emocional, afetiva e cognitiva dos acolhidos e bem-estar dos servidores. É possível que um ambiente de convívio coletivo possa deixar de ser frio e impessoal e que esse mesmo ambiente possa ser projetado ou transformado no intento de fortalecer laços, desenvolver personalidade equilibrada, amenizar traumas criando memorias afetivas reconfortantes? Como e quais estratégias arquitetônicas podem ser usadas para que o ambiente possa facilitar o desenvolvimento de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade? A priorização do uso da luz natural contribui para a regulação do ciclo circadiano e estimula a produção de cortisol, hormônio essencial para o equilíbrio fisiológico e o controle do sono, o que resulta em melhor qualidade de descanso e maior capacidade de absorção cognitiva: conforme mostra a figura 1.
__________________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 316 (Ciências Sociais) Figura 1: Ciclo Circadiano A aplicação dos princípios da biofilia, por meio da utilização de elementos naturais como a madeira, a presença de pontos de água e vegetação, favorece o comportamento humano e promove sensações de bem-estar e acolhimento (KAPLAN; KAPLAN, 1989; SOBRINHO; NEVES, 2020): conforme mostra a figura 2. Figura 2: Área comum, sala de estar. Ambientes humanizados e sensorialmente equilibrados podem contribuir para o fortalecimento de vínculos e amenização de traumas (HILL; BERMAN, 2018). Em todo o mundo existem pessoas em situação de vulnerabilidade, muitas vezes essas pessoas são extraídas de suas famílias pela Justiça a fim de preservar sua integralidade física, psicológica e emocional, apesar disso, pode ser traumático, ser levado para um espaço desconhecido, frio e impessoal pode agravar esse trauma.
__________________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 317 (Ciências Sociais) 4 CONCLUSÃO A neuroarquitetura evidencia com base em estudos científicos, que o projeto arquitetônico exerce influência direta sobre o bem-estar dos indivíduos, sendo capaz de promover conforto, acolhimento e segurança aos usuários do espaço. Além disso, demonstra potencial para estimular o desenvolvimento cognitivo e emocional, reforçando a importância de uma concepção projetual orientada por princípios neurocientíficos (SOBRINHO; NEVES, 2020; TAYLOR, 2006). 5 REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE, Ciro Férrer Herbster. Neuroarquitetura residencial: projetando ambientes para o Ciclo de Setênios de Rudolf Steiner. ArchDaily Brasil, 22 dez. 2023. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/1011261/neuroarquitetura-residencial-projetando-ambientespara-o-ciclo-de-setenios-de-rudolf-steiner. Acesso em: 6 out. 2025. BARAKAT, Dr. | Instituto Dr. Barakat. Como funciona o ciclo circadiano. Blog do Dr. Barakat, 11 abr. 2021. Disponível em: https://www.drbarakat.com.br/como-funciona-o-ciclocircadiano/. Acesso em: 6 out. 2025. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 6 out. 2025. BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 16 jul. 1990. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso em: 6 out. 2025. BRASIL. CONANDA – Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Resolução nº 113, de 19 de abril de 2006. Dispõe sobre os parâmetros para a implementação e o funcionamento de serviços de acolhimento institucional. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 20 abr. 2006. KAPLAN, Rachel; KAPLAN, Stephen. The experience of nature: a psychological perspective. Cambridge: Cambridge University Press, 1989. SOBRINHO, Eduardo de Oliveira; NEVES, Rosana Maria de Souza. Neuroarquitetura: como a arquitetura influencia o cérebro humano. São Paulo: Senac, 2020. KÜHL, Beatriz Mugayar. Arquitetura e preservação: ensaios sobre a experiência moderna brasileira. São Paulo: Edusp, 2014.
__________________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 318 (Ciências Sociais) TAYLOR, R. The architecture of happiness: how buildings shape our emotions. London: HarperCollins, 2006. HILL, John; BERMAN, Mindy. Neuroarchitecture: designing with the brain in mind. New York: Routledge, 2018.