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Arte rupestre e problemas de conservação do sítio arqueológico Pinturas do Sol, Parque Nacional de Sete Cidades, Piauí, Brasil

Luis Carlos Duarte Cavalcante; Ellen Vitoria de Freitas Silva

Abstract

Neste trabalho investigou-se o sítio arqueológico Pinturas do Sol, localizado no Parque Nacional de Sete Cidades, Estado do Piauí, Brasil, com o objetivo de realizar um levantamento detalhado da arte rupestre e dos principais problemas de degradação que ameaçam sua preservação. Os dados obtidos em campo revelaram um acervo composto por 61 figuras discerníveis e 56 manchas de tinta sem contorno definido, majoritariamente elaborados na cor vermelha, havendo alguns motivos na cor amarela. Verificou-se a ocorrência de figuras soliformes e impressões de mãos em positivo, além de bastonetes e aglomerados de pontos ou dígitos. Observou-se marcante recorrência das figuras representadas, além de sobreposições. Os principais agentes de degradação do sítio são insetos construtores, como cupins e vespas, além do arenito suporte que enfrenta ações severas promovidas por fissuras, trincas e rachaduras.

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RESEARCH ARTICLE © ARQUEOLOGÍA IBEROAMERICANA 56 (2025): 186-197. ISSN 1989-4104. <https://www.laiesken.net/arqueologia/>. ARTE RUPESTRE E PROBLEMAS DE CONSERVAÇÃO DO SÍTIO ARQUEOLÓGICO PINTURAS DO SOL, PARQUE NACIONAL DE SETE CIDADES, PIAUÍ, BRASIL Rock Art and Conservation Problems from the Pinturas do Sol Archaeological Site, Sete Cidades National Park, Piauí, Brazil Luis Carlos Duarte Cavalcante, Ellen Vitoria de Freitas Silva Laboratório de Arqueometria e Arte Rupestre, Universidade Federal do Piauí (UFPI), Teresina, Piauí, Brasil (* [email protected]) Received: October 20, 2025. Accepted: November 24, 2025. Published: December 4, 2025. Edited & Published by Pascual Izquierdo [P. I. Egea]. Arqueol. Iberoam. Open Access Journal. Creative Commons License (CC BY 4.0). https://n2t.net/ark:49934/398. https://purl.org/aia/5621. Figura 1. Mapa do Parque Nacional de Sete Cidades com destaque para a localização do sítio investigado. Vista panorâmica de arenitos e da vegetação da área. Vista panorâmica lateral do sítio arqueológico Pinturas do Sol, mostrando o abrigo principal em forma de concha e o pequeno nicho, à esquerda. Detalhe frontal do abrigo rochoso principal. RESUMO . Neste trabalho investigou-se o sítio arqueológico Pinturas do Sol, localizado no Parque Nacional de Sete Cidades, Estado do Piauí, Brasil, com o objetivo de realizar um levantamento detalhado da arte rupestre e dos principais problemas de degradação que ameaçam sua preservação. Os dados obtidos em campo revelaram um acervo composto – 187 – ARQUEOL. IBEROAM. 56 (2025) • ISSN 1989-4104 por 61 figuras discerníveis e 56 manchas de tinta sem contorno definido, majoritariamente elaborados na cor vermelha, havendo alguns motivos na cor amarela. Verificou-se a ocorrência de figuras soliformes e impressões de mãos em positivo, além de bastonetes e aglomerados de pontos ou dígitos. Observou-se marcante recorrência das figuras representadas, além de sobreposições. Os principais agentes de degradação do sítio são insetos construtores, como cupins e vespas, além do arenito suporte que enfrenta ações severas promovidas por fissuras, trincas e rachaduras. PALAVRAS-CHAVE . Pinturas rupestres, problemas de conservação, Pinturas do Sol, Parque Nacional de Sete Cidades, Piauí, Brasil. ABSTRACT . In this work, the Pinturas do Sol archaeological site, located in the Sete Cidades National Park, Piauí State, Brazil, was investigated with the aim of conducting a detailed survey of the rock art and the main degradation problems that threaten its preservation. The data obtained in the field revealed a collection composed of 61 discernible figures and 56 paint stains without a defined outline, mostly in red, with some motifs in yellow. The occurrence of sunlike figures and positive handprints was observed, as well as rods and clusters of dots or digits. There was observed a striking recurrence of the depicted figures, as well as overlaps. The main agents of degradation at the site are building insects, such as termites and wasps, in addition to the sandstone substrate, which faces severe damage caused by fissures, cracks, and splits. KEYWORDS . Rock paintings, conservation problems, Pinturas do Sol, Sete Cidades National Park, Piauí, Brazil. INTRODUÇÃO O objeto central deste artigo é divulgar os dados obtidos no levantamento do sítio arqueológico Pinturas do Sol, com ênfase no detalhamento da arte rupestre nele encontrada e nos fatores que contribuem para a sua degradação, tendo em vista especialmente a exposição às ações severas dos agentes naturais, embora aqueles eventualmente causados em decorrência da ação humana também tenham sido catalogados. É fato que a arte rupestre encontrada no sítio Pinturas do Sol, localizado no Parque Nacional de Sete Cidades, Estado do Piauí, Brasil, constitui evidência inequívoca da atividade de grupos humanos pré-coloniais na região, representando uma importante janela para a compreensão do passado. Breve histórico sobre o Parque Nacional de Sete Cidades O Parque Nacional de Sete Cidades foi criado por meio do Decreto Federal n.º 50.744, de 8 de junho de 1961 (Brasil 1961), objetivando conservar a biodiversidade de uma área específica do Estado do Piauí, dominada por cerrado com elementos de caatinga e floresta latifoliada, de modo a proteger os recursos genéticos e a comunidade biótica original, além de preservar os monumentos geológicos típicos da área, as belezas cênicas naturais que lhe são peculiares, as pinturas rupestres e outros bens histórico-culturais, bem como manter a produção hídrica, promover educação ambiental, incentivar pesquisas compatíveis com a conservação e oferecer atividades recreativas sustentáveis (IBDF 1979). Localizado no norte do Piauí, inicialmente o parque abrangia terras dos municípios de Piracuruca e Piripiri, mas após reconfigurações geopolíticas ocorridas nas últimas décadas, atualmente encontra-se em áreas dos municípios de Piracuruca e Brasileira. Um dos registros mais antigos sobre Sete Cidades foi feito por Tristão de Alencar Araripe, mais de meio século antes da criação do parque na área, e encontra-se publicado na edição de 1887 da revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, sob o título “Cidades petrificadas e inscrições lapidares no Brazil”, documento no qual o autor destaca o tópico “Cidade petrificada no Piauhi”, em que Jacome Avelino aborda os arenitos ruiniformes do local como estando arranjados ao modo de sete aglomerados que se assemelham a cidades (Araripe 1887). Daí então resultaria a denominação pela qual a área é conhecida. Cabe destacar que em nenhum momento a ocorrência de arte rupestre é mencionada nesse documento histórico. A área do Parque Nacional (PARNA) de Sete Cidades está localizada no contexto geológico da Bacia Sedimentar do Parnaíba, destacando-se os arenitos da Formação Cabeças, Membro Oeiras, responsáveis pelo desenvolvimento do característico modelado ruiniforme que marca a paisagem local (Fortes 1996). Segundo o autor citado, esse modelado peculiar resulta da ação combinada de três principais processos erosivos: a per- – 188 – ARQUEOL. IBEROAM. 56 (2025) • ISSN 1989-4104 colação hídrica através das estruturas porosas das rochas, a ação seletiva dos ventos e a atividade biológica. A interação desses processos ao longo do tempo geológico é o que explica a formação das diversas feições geomorfológicas que tanto intrigam as pessoas que visitam o parque (Fortes 1996). A arte rupestre da área Do ponto de vista histórico, vale a pena mencionar a visita que Niéde Guidon fez ao Parque Nacional de Sete Cidades,1 na qual comparou as pinturas rupestres da área com as de Várzea Grande, no município de São Raimundo Nonato, no sudeste do Piauí: “Fomos verificar no local e encontramos uma série de formações [rochosas] com formas muito curiosas, resultado da erosão pela água e pelo vento. Fotografamos as pinturas nas paredes dos abrigos, mas elas são geométricas e muito diferentes das de Várzea Grande” (Guidon 1975: 29, tradução nossa). Monzon (1982) é outra pesquisadora que também fez referência à arte rupestre da área de Sete Cidades, igualmente de forma muito sucinta, apenas relatando que as figuras, em sua maioria, correspondem a motivos geométricos, e reconhecendo nelas um certo grau de similaridade com pinturas da Tradição Geométrica de alguns abrigos de São Raimundo Nonato. Não se pode deixar de mencionar o segundo relatório do projeto de levantamento arqueológico do Piauí, desenvolvido por pesquisadoras do Núcleo de Antropologia Pré-Histórica (NAP) da Universidade Federal do Piauí, no qual consta a catalogação de 25 sítios arqueológicos no PARNA de Sete Cidades, todos tipicamente de arte rupestre, para os quais foram relatadas as seguintes características: “[...] predominam motivos geométricos, atribuídos à tradição Geométrica. Este tipo de representação é comum em toda a região norte do Piauí, mas parece ter em Sete Cidades a maior concentração. Os motivos apresentados incluem aglomerados de pontos, mãos (em forma de carimbos), linhas e círculos, raramente aparecem representações biomorfas, como lagartos, figuras humanas e aves” (NAP-UFPI/IPHAN 1988: 2, gripo do autor). Embora Guidon (1975) e Monzon (1982) destaquem o aspecto geométrico da arte rupestre de Sete Cidades e o relatório do NAP-UFPI (1988) faça uma atribuição da mesma à tradição Geométrica, Gabriela Martin, por outro lado, a associa à tradição Agreste, tecendo os seguintes comentários: “A tradição Agreste está presente também no norte do Estado do Piauí. O parque Nacional de Sete Cidades, no município de Piracuruca, reúne um importante conjunto de sítios com pinturas dessa tradição, na qual dominam os grafismos puros, mas contam também com a presença do pássaro de asas abertas e antropomorfos típicos da tradição Agreste [...]” (Martin 2005: 280). Diante do exposto, observa-se que a arte rupestre encontrada no PARNA de Sete Cidades constitui um importante patrimônio arqueológico e simbólico do Estado do Piauí, reconhecendo-se que a preservação de sítios contendo registros ancestrais dessa natureza é de extrema relevância (Lage et al. 2005), oferecendo um vislumbre único das sociedades pré-coloniais por meio dessa forma de expressão. Trabalhos de conservação Magalhães (2011) relata que as primeiras intervenções de conservação em sítios de arte rupestre do Parque Nacional de Sete Cidades começaram em 1993 com o desenvolvimento do projeto Trabalho de intervenção nos sítios de arte rupestre do Parque Nacional de Sete Cidades, cujo objetivo propunha a limpeza de treze sítios com o intuito de preservá-los e torná-los aptos à visitação pública. “[...] Na proposta inicial pretendia-se eliminar depósitos de alteração ou minimizar seus efeitos, nos Sítios Pedra da Inscrição I, Furna do Índio, Curral Natural, Inscrição do Lagarto, Pedra do Cartório, Inscrição dos Seis Dedos, Pedra do Americano, Inscrição da Flecha, Salão do Pajé, Ponta da Serra Negra, Recanto da Bananeira, Sítio da Cruz e Sítio do Arco [...]” (Magalhães 2011: 131-132). Em uma recente revisão sobre as pesquisas desenvolvidas na unidade de conservação aqui tratada, Cavalcante (2013) aponta que os trabalhos de intervenção 1 Gabriela Martin reporta que a visita de Niéde Guidon ao Parque Nacional de Sete Cidades ocorreu no ano de 1973: “Em 1973, Niède Guidon realizou o relevo fotográfico da área arqueológica do parque e Laurence Ogel-Ross e F. Manenti fizeram um levantamento preliminar dos registros rupestres mas que não chegou a ser publicado” (Martin 2005: 280). – 189 – ARQUEOL. IBEROAM. 56 (2025) • ISSN 1989-4104 em sítios de arte rupestre têm tido continuidade, listando o caso da Pedra do Cartório e da Pedra do Lagarto (Inscrição do Lagarto), ambos localizados na área de visitação turística. Mendes Junior et al. (2009) relatam que os trabalhos de conservação realizados no sítio Pedra do Lagarto mostraram-se bastante eficazes, ressaltando a importância de ações sistemáticas de conservação voltadas para o enfrentamento de diversos agentes de degradação, a exemplo de microrganismos, insetos, fatores climáticos, vegetação, animais e ações antrópicas, de modo a contribuir para a mitigação dos impactos causados por tais elementos. Em um trabalho recente desenvolvido no sítio Pedra da Inscrição, Cavalcante et al. (2023) listam diversos fatores de degradação catalogados no levantamento de campo, destacando-se o avançado estado de deterioração do arenito que serve de suporte às pinturas, problema evidenciado pela ocorrência de fissuras, trincas e rachaduras, algumas das quais já evoluíram para desplacamentos, situação em que placas ou blocos de diferentes dimensões se desprendem do afloramento rochoso e caem ao solo, aspecto verificado pelos autores na extremidade esquerda do sítio. O monitoramento detalhado de parâmetros ambientais é uma estratégia útil para avaliar o comportamento de alguns agentes de degradação na conservação das pinturas rupestres, como a temperatura, a exemplo do que foi realizado por Cavalcante et al. (2024) na Pedra da Inscrição, sítio arqueológico do parque nacional aqui tratado. Os autores concluíram que a variação da temperatura ambiente exerce um impacto significativo na conservação das pinturas rupestres. “Do ponto de vista da conservação das pinturas rupestres e em decorrência dos filmes pictóricos se encontrarem na interface entre o suporte rochoso e o ar ambiente, considera-se que as discrepâncias significativas das amplitudes térmicas nesses dois meios exercem um efeito intensamente destrutivo, especialmente nos meses de setembro e maio, com destaque para setembro quando as temperaturas elevadas são mais críticas. No caso da pintura rupestre monitorada no ponto P3, verifica-se que as altas temperaturas decorrentes da incidência solar direta exercem efeitos destrutivos mais extremos do que nos pontos P1 e P2” (Cavalcante et al. 2024: 86). LEVANTAMENTO DE CAMPO O levantamento de campo consistiu na documentação sistemática do sítio arqueológico, abrangendo: observação das características do entorno, georreferenciamento por coordenadas geográficas, caracterização morfológica do suporte rochoso, registro detalhado das pinturas rupestres e dos problemas de conservação, orientação dos painéis pictóricos e documentação fotográfica. Seguiu-se o protocolo estabelecido por Cavalcante e colaboradores (Cavalcante et al. 2014; Cavalcante 2025). Sítio arqueológico O levantamento do sítio arqueológico em questão abrangeu a obtenção das coordenadas geográficas de localização e o registro da orientação da disposição do sítio como um todo (da esquerda para a direita, em relação aos pontos cardeais e colaterais), assim como a orientação da abertura da área com as inscrições rupestres. Procedeu-se à identificação e descrição da morfologia do sítio (paredão, abrigo sob-rocha, lajedo, etc.) e das áreas com ocorrência de arte rupestre, além da tomada de medidas dimensionais das áreas correspondentes (extensão, altura máxima do teto em relação ao nível médio do solo atual, profundidade máxima da área abrigada, alturas máxima e mínima das pinturas em relação ao solo). Além disso, realizou-se o detalhamento da arte rupestre e dos problemas de degradação nele existentes. Realizou-se ainda uma prospecção no entorno do sítio arqueológico, observando-se aspectos como a vegetação circundante e fazendo-se a busca por outros sítios arqueológicos próximos ou por vestígios dispersos na superfície do solo circunvizinho, entre outros aspectos. Um extenso levantamento fotográfico foi realizado, tanto obtendo imagens panorâmicas do sítio e do entorno, em uma perspectiva macro, quanto de detalhes da arte rupestre e dos problemas de conservação. Arte rupestre Para facilitar o levantamento, a arte rupestre do sítio foi dividida em painéis, a partir dos quais o inventário das figuras foi realizado. O trabalho efetivamente considerou aspectos como identificação do tipo de representação existente no sítio: somente pintura, somente gravura, os dois tipos de representações, cavidades naturais da rocha são aproveitadas na execução de motivos? Realizou-se a identificação das figuras discerníveis (inclusive em relação aos tipos: zoomorfos, antropomorfos, fitomorfos, motivos arqueoastronômicos, etc.) e de – 190 – ARQUEOL. IBEROAM. 56 (2025) • ISSN 1989-4104 manchas de tinta sem contorno definido. No tocante às figuras discerníveis, buscou-se identificar a ocorrência, ou não, de relação entre os motivos, na composição de eventuais cenas reconhecíveis (parto, dança, caça de animais, luta, sexo, etc.), além de verificar a eventual recorrência dos motivos representados (Cavalcante 2025). Procede-se à contagem das figuras e das manchas de tintas identificadas, catalogou-se as cores com as quais foram confeccionadas, além de ter sido verificada a eventual ocorrência de sobreposições entre figuras ou entre figuras e manchas de tinta sem contorno definido. Uma fita métrica foi utilizada para mensurar estatisticamente a largura média do traço pictórico das figuras. Um levantamento fotográfico pormenorizado foi realizado, tanto obtendo imagens panorâmicas, em uma perspectiva macro, quanto de detalhes dos painéis e de figuras específicas da arte rupestre, neste caso usando uma escala IFRAO de 10 cm. Problemas de conservação O levantamento dos problemas de conservação que influenciam na degradação do sítio Pinturas do Sol e, em especial, da arte rupestre nele encontrada foi feito, buscando-se identificar os principais agentes de origem natural e antrópica. Em particular os trabalhos de Lage et al. (2007) e de Mendes Junior et al. (2009) foram utilizados como guia, sendo muito úteis por discorrerem sobre problemas de conservação em sítios arqueológicos muito próximos ao sítio aqui investigado e que, portanto, compartilham de ambientes naturais de entorno similares. O SÍTIO ARQUEOLÓGICO PINTURAS DO SOL O sítio arqueológico Pinturas do Sol (Figura 1) consiste em um pequeno e pouco profundo abrigo sobrocha, em formato de concha, esculpido por erosão diferencial em arenito da Formação Cabeças, Membro Oeiras, em cujas paredes são encontradas dezenas de pinturas rupestres em cores variadas. Traços vestigiais de pinturas ainda são visíveis em um pequeno nicho lateral, indicando que o sítio tem uma extensão para além do abrigo principal. Em termos espaciais, o sítio está orientado do Noroeste (310°) para o Sudeste (130°), fazendo-se uma leitura da esquerda para a direita de quem está de frente para o abrigo rochoso. Em uma perspectiva geral, as pinturas rupestres estão voltadas para o Sudoeste (220°). O abrigo principal em formato de concha tem extensão de 3,90 m, com altura de 2,80 m do teto ao nível do solo atual, e uma profundidade máxima de 1,81 m, enquanto o bloco rochoso no qual foi esculpido tem extensão aproximada de 26 m, com altura estimada de 5 m. A arte rupestre Conforme já mencionado, a arte rupestre encontrada no sítio Pinturas do Sol é essencialmente representada por pinturas, sendo discerníveis figuras nas cores amarela e, principalmente, vermelha em diferentes tonalidades. O levantamento completo revelou no abrigo em forma de concha a ocorrência de 59 figuras discerníveis e 56 manchas de tinta sem contorno definido, além de duas figuras vestigiais em forma de bastonetes vermelhos, localizados no pequeno nicho lateral, que dista cerca de dois metros à esquerda do abrigo principal. Não se descarta que as manchas de tinta sem contorno definido possam indicar etapas preliminares ou formas alternativas de expressão pictórica utilizadas pelos autores das pinturas rupestres. Em termos espaciais, as pinturas mais baixas estão a cerca de 1,16 m em relação ao nível do solo atual, estendendo-se até uma altura máxima de aproximadamente 2,73 m, acima do mesmo nível do solo. A largura média de traço das figuras foi aferida desde 1 a 2 mm para os traços mais finos e delicados até 10 mm para os traços mais largos. A vasta maioria das figuras tem largura de traço próximo de 10 mm, de onde se pode presumir que os dedos das mãos tenham sido utilizados como pincel para confecção da maior parte das pinturas. No conjunto de pinturas discerníveis foram identificadas figuras soliformes (Figura 2) e impressões de mãos em positivo, além de bastonetes isolados ou arranjados em paralelo compondo conjuntos (em disposições na vertical, na horizontal ou inclinada), assim como aglomerados de pontos ou dígitos, em geral arranjados em paralelo e dispostos na vertical, na horizontal ou com alguma inclinação. Neste ponto cabe esclarecer o critério utilizado neste trabalho para definir o que seria uma figura nas pinturas rupestres do sítio Pinturas do Sol: uma figura foi considerada como algo reconhecível no universo de representações pictóricas, a exemplo de uma impressão de mão, um motivo soliforme (Figura 3, destaques 7 e – 191 – ARQUEOL. IBEROAM. 56 (2025) • ISSN 1989-4104 Figura 3. Detalhamento de como se deu a definição das figuras nas pinturas rupestres do sítio Pinturas do Sol. 1, 2 e 3: aglomerados de pontos ou dígitos em arranjos em paralelo e dispostos na vertical, na horizontal ou com alguma inclinação; 4 e 5: conjuntos de bastonetes em arranjos em paralelo na vertical com três unidades cada; 6: bastonete isolado; 7 e 8: figuras soliformes. Figura 2. Pinturas rupestres soliformes que dão nome ao sítio arqueológico Pinturas do Sol. – 192 – ARQUEOL. IBEROAM. 56 (2025) • ISSN 1989-4104 Figura 4. Recorrência de impressões de mãos nas pinturas rupestres do sítio arqueológico Pinturas do Sol. Figura 5. Recorrência de aglomerados de pontos ou dígitos nas pinturas rupestres do sítio Pinturas do Sol. – 193 – ARQUEOL. IBEROAM. 56 (2025) • ISSN 1989-4104 8), um bastonete isolado (Figura 3, destaque 6), uma série de bastonetes arranjados em paralelo compondo conjuntos (em disposições na vertical, na horizontal ou inclinada) (Figura 3, destaques 4 e 5), assim como aglomerados de pontos ou dígitos, em geral arranjados em paralelo e dispostos na vertical, na horizontal ou com alguma inclinação (Figura 3, destaques 1, 2 e 3). De forma mais detalhada, nos casos dos destaques 1, 2 e 3 da Figura 3, por exemplo, cada aglomerado de pontos ou dígitos foi considerado como sendo uma figura, independentemente da quantidade de pontos ou dígitos constante na composição de cada um deles. Entre as pinturas rupestres mais recorrentes foram catalogadas 4 figuras soliformes (3 na cor vermelha e uma na cor amarela) (Figura 2), 4 impressões de mãos em positivo (sendo duas imposições da mão direita e duas da mão esquerda) (Figura 4), 12 aglomerados de pontos ou dígitos (2 dos quais em forma de T invertido) (Figura 5), 10 conjuntos de bastonetes em arranjos em paralelo com três unidades cada, 16 bastonetes isolados ou formando conjuntos em arranjos em paralelo com outras quantidades de unidades, além de 8 pinturas que foram elaboradas aproveitando o contorno de cavidades naturais da rocha como parte de sua composição (Figura 6). O exame minucioso das pinturas discerníveis e das manchas de tinta sem contorno definido revela pontos de sobreposição, tanto entre figuras definidas quanto entre estas e manchas de tinta não nitidamente delimitadas. Tal fato indica diferentes momentos de execução dos motivos ou manchas de tinta envolvidos na sobreposição, além de sugerir a produção por autores ou grupos diferentes. Diante do exposto, fica patente que as pinturas rupestres do sítio Pinturas do Sol: i) exibem uma diversidade morfológica, certamente ii) expressam beleza, presumidamente uma iii) complexidade simbólica ou gráfica, e decisivamente uma iv) habilidade pictórica dos autores. Figura 6. Recorrência de pinturas no sítio Pinturas do Sol que foram elaboradas aproveitando o contorno de cavidades naturais da rocha como parte de sua composição. – 194 – ARQUEOL. IBEROAM. 56 (2025) • ISSN 1989-4104 Recorrência de pinturas rupestres do sítio Pinturas do Sol em sítios próximos As figuras reconhecíveis identificadas no sítio Pinturas do Sol também são encontradas em outros sítios arqueológicos do Parque Nacional de Sete Cidades, a exemplo dos i) motivos soliformes, que foram catalogados no sítio Gruta do Pajé (às vezes citado como Salão do Pajé) (Gonçalves 2019); das ii) impressões de mãos, documentadas nos sítios Pedra do Cartório (às vezes citado como Sítio Pequeno) (Magalhães 2011), Inscrição do Lagarto (às vezes citado como Pedra do Lagarto) (Magalhães 2011), Pedra do Americano (Magalhães et al. 2010), Pedra da Inscrição (às vezes citado como Pedra da Inscrição I) (Cavalcante et al. 2023), Pedra do Leão (Magalhães 2011), Curral Natural (Magalhães 2011), Inscrição da Chave (Magalhães 2011), Inscrição dos Seis Dedos (Magalhães 2011), Ponta da Serra Negra (Magalhães 2011), Pedra da Inscrição II (Magalhães 2011), Sítio da Cruz (Magalhães 2011), Observatório (Magalhães 2011), Sítio da Folha (Magalhães 2011) e Sítio da Acauã (Magalhães 2011); e dos iii) aglomerados de pontos ou dígitos, que foram relatados nos sítios Pedra da Inscrição (às vezes citado como Pedra da Inscrição I) (Cavalcante et al. 2023), Gruta do Pajé (às vezes citado como Salão do Pajé) (Gonçalves 2019), Inscrição dos Pinguinhos (Magalhães 2011), Curral Natural (Magalhães 2011) e Inscrição da Flecha (Magalhães 2011). Os problemas de conservação O sítio Pinturas do Sol apresenta uma série de problemas que ameaçam diretamente sua preservação, destacando-se o avançado estado de degradação do arenito que serve de suporte às pinturas rupestres, comprometendo a integridade física do abrigo rochoso e dos vestígios arqueológicos nele encontrados. Em relação a isso, Figura 7. Problemas de degradação que atingem o sítio Pinturas do Sol. Setas vermelhas: fissuras, trincas e rachaduras. Setas amarelas: desprendimento de placas rochosas. Setas verdes: ninho e galerias de cupins.