O ETHOS DISCURSIVO COMO MARCA DE IDENTIDADE E PERSUASÃO: UMA ANÁLISE DO PERSONAGEM MATIAS CORDEIRO NA SÉRIE BOM DIA, VERÔNICA, CRIADA POR RAPHAEL MONTES E ILANA CASOY
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1 Gestadi - Revista do Grupo de Estudo de Análise do Discurso Volume 2, Número 2, 2025 (Mobilidade discursivas: atravessamentos do real) O ETHOS DISCURSIVO COMO MARCA DE IDENTIDADE E PERSUASÃO: UMA ANÁLISE DO PERSONAGEM MATIAS CORDEIRO NA SÉRIE BOM DIA, VERÔNICA, CRIADA POR RAPHAEL MONTES E ILANA CASOY THE DISCURSIVE ETHOS AS A MARK OF IDENTITY AND PERSUASION: AN ANALYSIS OF THE CHARACTER MATIAS CORDEIRO IN THE SERIES BOM DIA, VERÔNICA, CREATED BY RAPHAEL MONTES AND ILANA CASOY Eduarda Moreira da Silva 1 Universidade Federal do Tocantins Thiago Barbosa Soares 2 Universidade Federal do Tocantins Resumo: O presente artigo tem o objetivo de analisar o discurso (AD) e a formação da identidade do personagem Matias Cordeiro da série brasileira Bom dia, Verônica criada por Raphael Montes e Ilana Casoy, publicada no ano de 2020 na plataforma da Netflix. Realizar essa análise permite compreender como a linguagem pode construir a identidade e contribuir com a formação do ethos discursivo do enunciador com os mecanismos da análise do discurso de linha francesa embasado no conceito do autor Dominique Maingueneau. A metodologia de pesquisa é de caráter qualitativo de natureza interpretativa e o corpus da análise será recortes de alguns capítulos da segunda temporada (2022) do seriado, onde o personagem usa o mecanismo da persuasão e a construção da identidade religiosa para mascarar o comportamento de opressão e os crimes cometidos contra mulheres em estado de vulnerabilidade. Palavras-chave: Ethos; Matias Cordeiro; identidade; Análise do Discurso; Persuasão. Abstract: The present article aims to analyze the discourse (DA) and the identity formation of the character Matias Cordeiro from the Brazilian series Bom dia, Verônica, created by Raphael Montes and Ilana Casoy, released in 2020 on the Netflix platform. Carrying out this analysis allows us to understand how language can construct identity and contribute to the formation of the discursive ethos of the enunciator through the mechanisms of French Discourse Analysis, grounded in the theoretical concept of Dominique Maingueneau. The research methodology is qualitative with an interpretative nature, and the corpus of the analysis consists of excerpts from 1 Acadêmica de Letras Língua Portuguesa e Literaturas, UFT. Email: eduarda.moreir[email protected]du.br 2 Doutor em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Professor no curso de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Tocantins (UFT). Pesquisador bolsista de produtividade do CNPq. Lattes: http://lattes.cnpq.br/8919327601287308.Email: [email protected].br.
2 Gestadi - Revista do Grupo de Estudo de Análise do Discurso Volume 2, Número 2, 2025 (Mobilidade discursivas: atravessamentos do real) some episodes of the second season (2022) of the series, in which the character employs mechanisms of persuasion and the construction of religious identity to mask oppressive behavior and the crimes committed against women in vulnerable situations. Keywords: Ethos; Matias Cordeiro; Identity; Discourse Analysis; Persuasion.
3 Gestadi - Revista do Grupo de Estudo de Análise do Discurso Volume 2, Número 2, 2025 (Mobilidade discursivas: atravessamentos do real) Introdução O seriado brasileiro Bom dia, Verônica estreou no ano de 2020 na plataforma de streaming Netflix, baseada no livro homônimo dos autores Raphael Montes e Ilana Casoy sob o pseudônimo de Andrea Killmore. Atualmente composta por três temporadas, a narrativa aborda temáticas de violência contra mulher, e vem conquistando o público por apresentar de forma literária como a opressão de gênero ocorre e está presente dentro da realidade contemporânea. A série é composta por vilões que apresentam dispositivos de poder que são sustentados por discursos projetados na religiosidade, na moral, no patriarcado e na política. Neste contexto, o artigo estará concentrado na segunda temporada da série que foi lançada no ano de 2022 e apresenta o vilão Matias Cordeiro, um pastor que se intitula como homem de bem e possuidor de uma figura pública inquestionável, pois possui uma família bem estruturada e apresenta uma vasta lista de milagres que realizou na sua carreira religiosa. A análise de discursos em narrativas midiáticas, como a série Bom Dia, Verônica, revela dinâmicas sociais contemporâneas de violência de gênero, onde figuras de autoridade utilizam a linguagem para perpetuar opressão. Esse estudo contribui para desnaturalizar práticas discursivas que camuflam abusos, promovendo uma reflexão crítica sobre como a mídia reproduz e contesta relações de poder patriarcais. Ao examinar o ethos de personagens fictícios inspirados em realidades sociais, o trabalho preenche lacunas na análise do discurso aplicada a produções audiovisuais brasileiras, onde estudos sobre manipulação religiosa em contextos de gênero ainda são escassos. A metodologia utilizada é qualitativa e de caráter interpretativo, pois será utilizada a abordagem teórica sobre o Ethos de acordo com Dominque Maingueneau, além de utilizar e abordar os princípios de análise do discurso de linha francesa. Será realizada a análise em recortes selecionados nos episódios da série, além de levar em consideração elementos textuais e nas falas e como o personagem contribui na construção da imagem de si que o projeta para o outro.
4 Gestadi - Revista do Grupo de Estudo de Análise do Discurso Volume 2, Número 2, 2025 (Mobilidade discursivas: atravessamentos do real) O ethos público do personagem é criado sob uma imagem de homem de família, cristão e representante da fé, além de atuar como um pai e marido perfeito. Analisar este personagem será importante pois é nítido como ocorre o funcionamento de como o mal pode ser enunciado disfarçadamente de forma carismática e persuasiva, além de pensar como o discurso molda, esconde ou revela o sujeito que enuncia. É importante lembrar que, há uma complexibilidade na construção discursiva, principalmente em relação à imagem que o sujeito projeta de si no discurso visando a necessidade de desempenhar um foco no papel de manipulação e aceitação social, além do encobrimento de práticas violentas e opressoras. Portanto, este trabalho propõe preencher uma lacuna em relação ao estudo de AD, principalmente em relação ao olhar analítico e teórico na construção de personagens fictícios de seriados brasileiros. O personagem Matias Cordeiro foi escolhido pelo fato de se assemelhar com diversas figuras reais que utiliza o discurso para formar um perfil confiável e manipulador, mesmo praticando a violência e opressão no ambiente familiar. Este trabalho contribui não só para o contexto acadêmico, mas para compreender o funcionamento do discurso na sociedade real, pois o personagem fictício discretamente apresenta, por vezes, o que já foi naturalizado e que está presente no cotidiano. O objetivo central deste artigo é investigar como o ethos discursivo constrói a identidade persuasiva do personagem Matias Cordeiro, revelando mecanismos de manipulação em narrativas de poder religioso e patriarcal. Para tanto, guiam-se as seguintes questões de pesquisa: (1) Quais estratégias linguísticas e performáticas Matias emprega para projetar um ethos de credibilidade pública? (2) Como o contraste entre ethos mostrado e efetivo expõe a duplicidade discursiva em contextos de violência de gênero? Essa delimitação orienta a análise interpretativa, ancorada na teoria de Maingueneau. 1. A aspectos históricos e teóricos da Análise do Discurso A análise do discurso apresenta um percurso teórico que se consolida a partir de transformações nos modos de conceber linguagem, sujeito e sentido. Inicialmente vinculada à retórica clássica e à linguística estrutural, a análise do discurso ganha contornos específicos com a contribuição de autores como Michel Foucault e Pêcheux. De acordo com Fiorindo (2012), a passagem de uma visão da linguagem como representação para uma concepção discursiva se estabelece ao reconhecer que os enunciados são atravessados por condições ideológicas e históricas.
5 Gestadi - Revista do Grupo de Estudo de Análise do Discurso Volume 2, Número 2, 2025 (Mobilidade discursivas: atravessamentos do real) A proposta de análise do discurso rompe com a ideia de neutralidade textual ao considerar que todo discurso carrega marcas de posições ideológicas. Conforme Maingueneau (2008), essa abordagem leva em conta a cena de enunciação, o ethos do locutor e a constituição do sentido como efeito de relações de poder. Tal perspectiva permite compreender que o discurso é um lugar de disputa simbólica em que os sujeitos se posicionam, constroem sentidos e produzem identidades. A análise do discurso, sobretudo em sua vertente francesa, propõe-se a investigar não apenas o conteúdo das falas, mas a forma como elas emergem dentro de determinados dispositivos de saber e poder. Segundo Soares (2022), o discurso é compreendido como prática social que materializa relações de dominação, resistência e transformação. Dessa forma, torna-se possível analisar os modos como o dizer estrutura-se em diferentes campos sociais e institucionais. A partir dos anos 1980, com a ampliação do campo de estudos discursivos, há um fortalecimento de abordagens interdisciplinares que articulam linguística, filosofia, sociologia e psicanálise. Essa complexificação teórica enriquece o campo e permite abordagens mais densas sobre os modos de significar e representar o mundo. Para Fiorindo (2012), esse percurso amplia o escopo analítico da linguagem e contribui para a compreensão crítica das práticas discursivas. Com essa trajetória, a análise do discurso deixa de ser uma simples leitura textual e se transforma em ferramenta analítica capaz de revelar as estruturas de poder, os mecanismos de exclusão e os modos de subjetivação. Nesse sentido, o discurso não é apenas meio de comunicação, mas espaço privilegiado para a constituição de sentidos e da própria realidade social (Fiorindo, 2012). A construção do sujeito no discurso emerge como uma das questões centrais na análise discursiva contemporânea. O sujeito não é concebido como um ente autônomo, mas como efeito das formações discursivas que o constituem historicamente. De acordo com Foucault (2017), o sujeito é produzido pelas práticas discursivas e não existe fora das relações de saber e poder que o atravessam. Essa perspectiva desconstrói a noção de essência individual e revela a multiplicidade de posições enunciativas possíveis.
6 Gestadi - Revista do Grupo de Estudo de Análise do Discurso Volume 2, Número 2, 2025 (Mobilidade discursivas: atravessamentos do real) A linguagem, nesse contexto, atua como mediadora da constituição subjetiva, funcionando como lugar de inscrição das marcas sociais e ideológicas. Fiorindo (2012) afirma que o sujeito do discurso está em constante processo de construção, sendo atravessado por diferentes vozes e memórias discursivas que orientam seu posicionamento. O sujeito, portanto, é sempre dividido, incompleto e atravessado por contradições. A análise do discurso propõe compreender o sujeito como instância discursiva, produzida no e pelo dizer. Conforme Maingueneau (2008), cada enunciado traz consigo uma imagem do enunciador que busca legitimar-se diante de um coenunciador. Essa imagem é construída por meio de marcas linguísticas, escolhas lexicais e estratégias discursivas que configuram um ethos. Assim, o sujeito não é apenas aquele que fala, mas aquele que se apresenta de determinada forma ao outro. Na abordagem discursiva, a subjetividade é uma construção situada, vinculada a cenários ideológicos e sociais. O sujeito é interpelado pelas formações ideológicas e responde a elas através de seus dizeres. Para Soares (2022), essa relação entre discurso e sujeito permite evidenciar como identidades são moldadas, negociadas e, muitas vezes, impostas nos espaços sociais. A análise das falas permite entender os mecanismos de sujeição e resistência presentes no tecido discursivo. A construção do sujeito no discurso, portanto, revela-se como um fenômeno dinâmico e relacional. O sujeito se constitui na linguagem, ao mesmo tempo em que reproduz e contesta as estruturas de poder. A análise dessas dinâmicas permite compreender como os sujeitos se inscrevem nas práticas discursivas, projetando identidades, reivindicando posições e enunciando sentidos em meio a tensões e disputas simbólicas (Fiorindo, 2012). O conceito de ethos no campo discursivo refere-se à imagem que o sujeito enunciador constrói de si mesmo ao longo do processo enunciativo. Essa imagem é constituída por meio das marcas linguísticas e estratégias discursivas utilizadas para conquistar a credibilidade do interlocutor. De acordo com Fiorindo (2012), o ethos não corresponde necessariamente à personalidade real do sujeito, mas à representação discursiva construída intencionalmente no ato de dizer.
7 Gestadi - Revista do Grupo de Estudo de Análise do Discurso Volume 2, Número 2, 2025 (Mobilidade discursivas: atravessamentos do real) Para Aristóteles, o ethos integra os meios de persuasão ao lado do logos e do pathos. Ele se manifesta por meio das qualidades atribuídas ao orador, como a prudência, a virtude e a benevolência. Conforme Fiorindo (2012), essas qualidades não precisam ser autênticas, mas devem ser projetadas no discurso para gerar efeitos de veracidade e confiança. Portanto, o ethos se constrói discursivamente e está diretamente relacionado à capacidade de persuasão. Na análise do discurso, o ethos é compreendido como uma categoria discursiva que se atualiza em diferentes gêneros e situações comunicativas. Segundo Maingueneau (2008), o ethos é resultado da combinação entre o que o sujeito diz sobre si mesmo (ethos dito) e a forma como ele se apresenta através de seu modo de falar (ethos mostrado). Essa distinção permite analisar não apenas o conteúdo do discurso, mas também os modos de sua encenação. O ethos assume papel fundamental na construção de identidades discursivas. Ele serve como mecanismo de legitimação e de adesão simbólica por parte do interlocutor. Para Soares (2022), a projeção de um ethos confiável pode ser decisiva em contextos de disputa de poder, como no discurso político ou na representação de personagens midiáticos. Dessa forma, o ethos atua como operador discursivo que organiza os modos de ser, de agir e de persuadir. Compreender o ethos enquanto categoria analítica permite observar como sujeitos discursivos constroem autoridade, empatia e verossimilhança. Trata-se de um conceito que articula linguagem, identidade e ideologia, revelando os mecanismos sutis pelos quais a persuasão se efetiva no discurso. Maingueneau (2008) propõe uma abordagem que integra o ethos às condições de produção e aos dispositivos de enunciação. Essa perspectiva permite analisar o ethos não como traço fixo, mas como construção discursiva situada. Para o autor, o ethos compõe-se de três dimensões: o ethos pré-discursivo, o ethos discursivo e o ethos efetivo. O ethos pré-discursivo refere-se às expectativas e representações culturais associadas ao locutor antes mesmo da enunciação. Já o ethos discursivo diz respeito às marcas deixadas pelo sujeito no texto, construídas por meio de suas escolhas linguísticas. Por fim, o ethos efetivo resulta da recepção e interpretação dessas imagens pelo coenunciador (Maingueneau, 2008).
8 Gestadi - Revista do Grupo de Estudo de Análise do Discurso Volume 2, Número 2, 2025 (Mobilidade discursivas: atravessamentos do real) A originalidade da proposta de Maingueneau está na articulação entre o ethos dito e o ethos mostrado. O ethos dito é aquele explicitamente formulado no discurso, por meio de autodeclarações, enquanto o ethos mostrado corresponde aos efeitos de sentido gerados pela forma de enunciar. Essa distinção é fundamental para analisar o modo como o sujeito se apresenta e se legitima no interior da prática discursiva. Na abordagem de Maingueneau, o ethos não é analisado isoladamente, mas sempre em relação à cena de enunciação, que inclui o lugar de onde se fala, o contrato de comunicação e o dispositivo institucional. A cena de enunciação delimita o que pode ser dito, como pode ser dito e por quem pode ser dito. Isso significa que a construção do ethos é regulada por normas discursivas e pelas condições ideológicas de produção (Maingueneau, 2008). O autor também destaca a relação entre ethos e autoridade discursiva. A autoridade não deriva de uma posição exterior ao discurso, mas é construída no próprio ato de enunciar. A análise do ethos permite identificar os modos como o sujeito busca legitimar sua fala, construir alianças com o interlocutor e instaurar efeitos de verdade. Trata-se de um processo de negociação simbólica que envolve identidades, crenças e valores compartilhados. Enquanto Maingueneau enfatiza o ethos como construção discursiva situada na cena de enunciação, com dimensões dito, mostrado e efetivo, Foucault complementa essa visão ao conceber o discurso como rede de relações de poder que produzem sujeitos. Essa articulação enriquece a análise, pois revela não apenas a performance individual de Matias, mas como seu ethos insere-se em formações discursivas mais amplas de controle religioso e gênero. Pêcheux, por sua vez, reforça a ideologia subjacente, destacando que o ethos mascara contradições sociais inerentes à enunciação. Portanto, a contribuição de Maingueneau à análise do discurso reside na elaboração de um modelo teórico que articula linguagem, sujeito e ideologia, oferecendo ferramentas conceituais para compreender os mecanismos de legitimação e persuasão. Sua obra constitui uma referência indispensável para os estudos sobre o ethos e a construção discursiva da identidade (Maingueneau, 2008).
9 Gestadi - Revista do Grupo de Estudo de Análise do Discurso Volume 2, Número 2, 2025 (Mobilidade discursivas: atravessamentos do real) 2. A construção do ethos discursivo na série Bom Dia, Verônica Os episódios selecionados da segunda temporada (especialmente 1, 2 e 5) foram escolhidos por representarem picos na construção e ruína do ethos de Matias, com cenas de entrevista, persuasão de vítimas e revelação de abusos, permitindo uma análise focada em transições discursivas. Por exemplo, na entrevista inicial, Matias declara: "Sou um pai dedicado, usado por Deus", combinando autodeclaração (ethos dito) com presença familiar (ethos mostrado), o que legitima sua autoridade perante o público. Essa seleção prioriza momentos de tensão entre imagem projetada e ações reais, ilustrando a manipulação discursiva. Lançada no ano de 2020 na plataforma de streaming Netflix, a série Bom dia, Verônica, é um drama e suspense que acompanha a protagonista principal Veronica Torres que é uma escrivã da polícia, que por conta própria,começou a investigar crimes que ocorrem principalmente contra mulheres. A máfia investigada é composta por grandes figuras públicas, no qual possuem poder aquisitivos e influência na sociedade, capazes de camuflar as suas práticas de violência através do discurso de sucesso e moralidade e até mesmo na religiosidade. Nesse contexto, consegue-se observar que os vilões da série são capazes de criar um discurso a partir da cena de enunciação que o sujeito está inserido (um grande desafio à segurança pessoal da protagonista principal). Maingueneau (2008) afirma que este fenômeno consiste na formação do sentido, pois um discurso é formado a partir do lugar que o enunciador está posicionado na cena de enunciação. Na segunda temporada, o personagem Matias Cordeiro é o antagonista, que é um líder religioso, com um perfil social de homem honesto e benevolente, ascendido socialmente e que aparenta ter uma família perfeita. O personagem representa um caso emblemático de construção de ethos discursivo (Maingueneau,2008), articulando aparência e persuasão por meio de estratégias linguísticas e visuais. Matias se apresenta como pastor, pai de família e figura pública respeitada, criando uma imagem de moralidade e bondade. Entretanto, essa imagem pública entra em conflito com suas ações privadas, revelando uma identidade contraditória e ambígua.