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Um estudo contrastivo sobre a concordância verbal em Feira de Santana e em Luanda

Araujo, Silvana Silva de Farias; Lucchesi, Dante

Abstract

Pesquisa-se o uso variável da concordância verbal com a terceira pessoa do plural, utilizando-se dados levantados em entrevistas sociolinguísticas gravadas numa cidade do interior da Bahia-Brasil e em Luanda, capital de Angola. Considerando que as duas cidades são marcadas por sucessivos contatos linguísticos, julga-se que o cotejo entre ambas é significativo, podendo trazer contribuições para o debate sobre a formação da realidade sociolinguística brasileira, bem como sobre as consequências do contato entre a língua portuguesa e as línguas africanas. Nessa perspectiva, este estudo junta-se a outros que vêm sendo realizados com dados levantados em outras ex-colônias portuguesas, quer os que se restringem à descrição e à análise dessas variedades, quer os que realizam comparações entre essas variedades e o português europeu e/ou brasileiro. No presente trabalho, apresenta-se uma descrição do português luandense, comparando os resultados com os obtidos com dados do português de Feira de Santana e, da mesma forma, comparando tais resultados com os alcançados por outros pesquisadores que analisaram o uso variável da concordância verbal no português europeu e de outras variedades linguísticas faladas na África.

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PAPIA, São Paulo, 26(1), p. 71-99, Jan/Jun 2016. http://doi.org/10.5281/zenodo.17798566 Um estudo contrastivo sobre a concordância verbal em Feira de Santana e em Luanda A contrastive study on the verbal agreement in Feira de Santana and Luanda Silvana Silva de Farias Araujo Universidade Estadual de Feita de Santana, Feira de Santana, Brasil [email protected] Dante Lucchesi Universidade Federal Fluminense, Niterói, Brasil [email protected] Abstract: We analyze the variable use of verbal agreement with the third person plural using data from sociolinguistic interviews recorded in Feira de Santana, a town in Bahia state, Brazil, and in Luanda, the capital of Angola. Considering that both municipalities are marked by successive linguistic contacts, it appears that the contrast between them is relevant and may contribute to the debate about the formation of the Brazilian sociolinguistic reality and the consequences of the contact with Portuguese and African languages. From this point of view, this study complements other ongoing studies using data collected from other Portuguese ex-colonies, both limited to the description and analysis of such varieties and comparing such varieties with European Portuguese and/or Brazilian Portuguese. This study presents a description of the Portuguese spoken in Luanda, compares the results with data from the Portuguese spoken in Feira de Santana, and finally compares such results with results obtained by other researchers who already analyzed the variable use of verbal agreement in European Portuguese and other linguistic varieties spoken in Africa. Keywords: Verbal agreement; Brazilian Portuguese formation; Luanda-Angolan Portuguese; Sociolinguistics. e-ISSN 2316-2767 72 Silvana Silva de Farias Araujo / Dante Lucchesi Resumo: Pesquisa-se o uso variável da concordância verbal com a terceira pessoa do plural, utilizando-se dados levantados em entrevistas sociolinguísticas gravadas numa cidade do interior da Bahia-Brasil e em Luanda, capital de Angola. Considerando que as duas cidades são marcadas por sucessivos contatos linguísticos, julga-se que o cotejo entre ambas é significativo, podendo trazer contribuições para o debate sobre a formação da realidade sociolinguística brasileira, bem como sobre as consequências do contato entre a língua portuguesa e as línguas africanas. Nessa perspectiva, este estudo junta-se a outros que vêm sendo realizados com dados levantados em outras ex-colônias portuguesas, quer os que se restringem à descrição e à análise dessas variedades, quer os que realizam comparações entre essas variedades e o português europeu e/ou brasileiro. No presente trabalho, apresentase uma descrição do português luandense, comparando os resultados com os obtidos com dados do português de Feira de Santana e, da mesma forma, comparando tais resultados com os alcançados por outros pesquisadores que analisaram o uso variável da concordância verbal no português europeu e de outras variedades linguísticas faladas na África. Palavras-chave: Concordância verbal; Formação do Português do Brasil; Português de Luanda-Angola; Sociolinguística. 1 Introdução A variação na concordância verbal de número é um fenômeno que tem sido apontado como típico do vernáculo brasileiro. Nesse sentido, desde os trabalhos dos primeiros filólogos e dialetólogos do início do século passado, a ausência do morfema de plural nas formas verbais vem sendo assinalada como um fenômeno que diferencia o português brasileiro (PB) 1 do português europeu (PE) e o assemelha ao português de variedades africanas (Silva Neto 1963). Em recentes pesquisas, alguns estudos têm sido realizados sobre esse fenômeno linguístico, sendo pautados em materiais sociolinguisticamente constituídos, superando, pois, a fase inicial de observações impressionísticas. A propósito, vale destacar que, se, em alguns trabalhos, evidenciam-se semelhanças entre o português vernacular de variedades africanas e o PB e um distanciamento desses em relação ao 1 Ao final, antes da seção de Referências, o leitor encontra uma lista com as siglas utilizadas neste artigo. PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 Um estudo contrastivo sobre a concordância verbal... A contrastive study on the verbal agreement... 73 PE – a exemplo do estudo de Brandão & Vieira (2012), no tocante ao português sãotomense; outros, a exemplo de Inverno (2011) demonstram haver dessemelhanças entre o PE e o português de uma variedade africana. Essa autora, ao investigar o português falado no Dundo (Angola), concluiu que a flexão de plural nas formas verbais é, no geral, preservada, tal como na variedade europeia. A pesquisadora ressalva, no entanto, que inexiste a distinção entre as formas verbais de terceira pessoa do singular e do plural na fala de informantes mais velhos, com menos anos de escolarização e falantes do português como segunda língua.2 Sem dúvida, é inegável a importância de trabalhos que comparem a variedade brasileira com as faladas em outros continentes que não apenas o europeu, pois, assim, torna-se possível a ampliação do debate sobre a influência do contato linguístico na formação das variedades do português e da discussão sobre questões relativas à atuação de fatores linguísticos e socioculturais no uso de fenômenos linguísticos variáveis. 3 Por essa razão, com este trabalho, apresenta-se um estudo sociolinguístico contrastivo entre o português falado em Feira de Santana (BahiaBrasil) e o falado em Luanda (Angola-África), tomando como fenômeno linguístico a ser analisado a concordância verbal com a terceira pessoa do plural (P6). Isso posto, é importante destacar que as amostras investigadas neste estudo não se restringem a variedades vernaculares (conforme terminologia de Mello 1997), haja vista que, tanto na variedade feirense quanto na luandense, há informantes com nível superior, além de analfabetos e semialfabetizados, de modo que as amostras são representativas dos dois grandes polos sociolinguísticos brasileiros (Lucchesi 1994, 2015), a saber, as normas cultas e populares. 4 Assim, as duas comunidades de fala podem ser consideradas representativas de variedades urbanas de cidades de médio e grande portes, em que se misturam falares cultos e populares, ao contrário do que ocorre em comunidades rurais afro-brasileiras ou afro-indígenas. Sendo assim, considerando a proposta de contínuo dialetal brasileiro (Bortoni 1985), Lucchesi 2 Com outro tema de estudo, Figueiredo & Oliveira (2013), ao cotejarem os sistemas de pronominalização do português falado em Jurassaca (Nordeste do Estado do Pará, Brasil) e do Município do Libolo (Província Kwanza-Sul, interior de Angola), identificaram tanto similaridades quanto diferenças entre os dois sistemas, bem como entre esses e o sistema de pronominalização do PE. 3 Coadunando com Figueiredo & Oliviera (2013:107), vale salientar que “a maioria dos escravos africanos que aportaram no Brasil, após a permanência no entreposto de São Tomé, era falante de L1s do grupo banto”. 4 Para Couto (1989), Baxter (1992), Mello (1997) Holm (2004), Lucchesi, Baxter & Ribeiro (2009) apenas as variedades vernaculares/ populares do PB podem ser consideradas como parcialmente reestruturadas, devido à influência do contato entre línguas. As variedades cultas apenas indiretamente teriam tal influência (Lucchesi 2001; Araujo 2014). PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 74 Silvana Silva de Farias Araujo / Dante Lucchesi (2001) e Lucchesi, Baxter & Silva (2009), as falas analisadas são típicas de variedades “rurbanas” (português popular urbano), bem como de variedades cultas do PB e do português de Angola (PA). Não se ignora, portanto, a existência de estudos baseados em amostras rurais de diversas variedades nacionais do português. Realizar essa análise contrastiva, contrapondo dados da fala feirense e da luandense, por meio do uso variável da concordância verbal, é importante, principalmente, por ser a concordância verbal uma área particular da gramática entrelaçada por aspectos socioculturais. A compreensão para a existência desse entrelaçamento norteia-se, neste estudo, pelo entendimento de que, em situações de intenso contato linguístico e da consequente aquisição de uma segunda língua por parte de falantes adultos, ocorre a erosão na morfologia flexional, ficando essas variantes inovadoras estigmatizadas por serem típicas das classes oprimidas. Nessa linha de raciocínio, entende-se que, no PE, os baixos índices de variação na concordância nominal e verbal ocorrem devido a motivações sócio-históricas diferenciadas. Sobre análises sociolinguísticas contrastivas entre o PB e o PE, discorre-se, a seguir, para, em seguida, apresentarem-se e discutirem-se os resultados da análise que confronta dados do PB e do PA. 2 Análises contrastivas entre a concordancia verbal no português brasileiro e no portugues europeu: Revisão da literatura No Brasil, é muito comum as pessoas analfabetas ou com baixa escolarização (geralmente, pessoas de classes socioeconômicas baixas) exibirem, nos seus padrões linguísticos habituais, uma redução no paradigma de flexão verbal, de modo que usos como “nós foi” ou “eles comeu” podem ser considerados um estereótipo sociolinguístico. Já no que concerne à fala popular europeia, a realidade que se configura é diferente, pois os estudos já realizados revelam usos linguísticos inimagináveis, na fala brasileira popular, a exemplo de “Nós preparávamos aquilo5”. Nesse sentido, ainda que a linguística portuguesa não possua uma forte tradição na área variacionista, fez-se, para a realização deste estudo, um levantamento de alguns trabalhos já realizados sobre uso variável da concordância verbal de número. 5Dado do CORDIAL-SIN (http://www.clul.ul.pt/sectores/variacao/cordialsin/projecto _cordialsin_corpus.php), levantado na fala de um informante com as seguintes características socioculturais: homem, 65 anos, analfabeto, morador do Distrito de Viana do Castelo. PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 Um estudo contrastivo sobre a concordância verbal... A contrastive study on the verbal agreement... 75 A pesquisa bibliográfica realizada evidencia que, ao contrário do que se verifica para o PB, apenas na última década, documentam-se pesquisas feitas com o rigor requerido na metodologia sociolinguística quantitativa com dados do PE. A respeito de análises contrastivas entre o PB e o PE, citam-se, por exemplo, as contribuições de Naro e Scherre (2007), Gandra (2009), Araujo (2012), Monguilhott (2009), Rubio (2012) e Monte (2012). Naro e Scherre (2007: 55-57) mencionam alguns exemplos da fala portuguesa popular com a variante não padrão em formas verbais com a terceira pessoa do plural, sendo alguns deles em contextos de posposição do sujeito, como os seguintes (i) “ Era duas, três sardinha”; (ii) “ é duas partes pru dono e uma pa cada um da gente”; (iii) “condo morria pessoas de família chigada”, contexto esse já amplamente divulgado como favorecedor da não concordância padrão. Os autores citam também alguns exemplos de não concordância padrão em contextos não tão esperados para a variante zero, como (iv) “mas, minha sinhora, pescadas e linguado nunca lá faltô a eles”. Mas, salienta-se que todos os usos variáveis de concordância verbal são apontados sem uma descrição estatística, de modo que não é possível saber se se trata de uma variação ou de ocorrências pontuais. Nesse sentido, como os dados recolhidos pelos autores foram obtidos a partir da metodologia dialetológica tradicional 6 , essa dúvida não pode ser sanada, embora os estudos já realizados apontem que não é muito comum a falta de concordância verbo-sujeito no PE, conforme já mencionado neste texto e será exposto com maiores detalhes a seguir. Gandra (2009) realizou um estudo, tendo como corpus dados do projeto CORDIALSIN, a partir de entrevistas gravadas em comunidades rurais portuguesas, cujos informantes possuíam pouca ou nenhuma escolarização. Os resultados revelaram um preponderante uso da concordância padrão entre o sujeito e o verbo, tendo sido encontradas apenas 32 ocorrências da variante não padrão de um total de 904 formas verbais com sujeito de terceira pessoa do plural, o que corresponde a 3.5% dos dados investigados. A autora salienta que, dessas 32 ocorrências, 14 frases possuem sujeito posposto, quase todas com estruturas predicativas ou com verbos inacusativos. “Estruturas que, segundo a análise gerativa, não seriam casos de perda de concordância, mas de concordância com um sujeito expletivo nulo que estaria ocupando a posição de sujeito” (Gandra 2009: 159). A autora ainda destaca a disparidade dos seus resultados quando comparados com os resultados obtidos por 6 Cardoso (2010) explana sobre as fases da metodologia dialetológica, expondo que, na atual, existe uma preocupação em se coletar dados representativos das comunidades, considerando-se, inclusive, a estratificação dos dados com base nas variáveis faixa etária, gênero,escolaridade etc. PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 76 Silvana Silva de Farias Araujo / Dante Lucchesi Silva (2005) e a similaridade com os de Souza (2005), que utiliza dados do português arcaico: “O índice de 3,5% de perda de concordância revela uma situação oposta àquela analisada por Silva (2005) no interior baiano, de 83% de não-aplicação da regra. Ao serem comparados os dados obtidos nos registros de fala do português rural atual com o estudo de Souza (5% de perda de concordância), constata-se que muito provavelmente, não houve crescimento de perda de concordância no português europeu, dos séculos XIII/XIX ao século XX – trata-se de evidências lingüísticas de que os oito séculos da sócio-história do português em Portugal foram, de fato, diferentes dos cinco séculos de história do português no Brasil (Gandra 2009: 146147).” Desse modo, a situação lusitana atual para o enfraquecimento da morfologia flexional está mais próxima da realidade do português arcaico, estudado por Mattos e Silva (1989) e por Souza (2005). Esses dois pesquisadores demonstram que, em dados do português dos séculos XIII e XIV, o comportamento sintático generalizado é o de aplicação da regra de concordância, havendo apenas variação em casos muito específicos, a exemplo de casos de concordância semântica, em que o sujeito apresenta sentido de pluralidade e sujeito singular, do tipo “o povo foram”. Os dados do CORDIAL-SIN também possibilitaram a investigação realizada por Araujo (2012), que investigou a concordância verbal com a primeira pessoa do plural (P4), considerando apenas os dados acompanhado de nós ou com sujeito nulo. Para essa pessoa gramatical, foi encontrada apenas uma única ocorrência de ausência de marcas de plural (de um total de 128 dados), contabilizando 0.8%. Eis a ocorrência: “Era eu e o meu marido; fiz isso muitos anos.”. Trata-se de uma resposta dada por uma mulher da faixa mais alta quando indagada pelo inquiridor sobre quem trabalhava na fabricação dos tecidos (Inq: E eram os homens que faziam?). Ressalta-se, contudo, que a aplicação da concordância pode ser vista como categórica, não apenas pelo índice de aplicação que se aproxima dos 100% 7 , mas também pelo fato de o exemplo encontrado ser considerado caso de concordância facultativa, até mesmo, pela tradição gramatical: sujeito composto em posição pós-verbal. No estudo da autora, os resultados foram comparados com dados do PB, cujas características socioculturais dos informantes são equivalentes às dos informantes europeus 8 . Para os dados do PB, o índice de ausência de marcas explícitas de concordância verbal 7 Atente-se ao postulado por Labov (2003) sobre regras categóricas, semicategóricas e variáveis. 8 Informantes, com pouca ou nenhuma escolarização, residentes na zona rural do município de Feira de Santana-BA. Acervo do Projeto “A língua portuguesa do semiárido baiano – fase 3”. PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 Um estudo contrastivo sobre a concordância verbal... A contrastive study on the verbal agreement... 77 foi de 40.9%. Julga-se que o percentual só não foi maior em face da alta frequência do uso da forma pronominal a gente com formas verbais não marcadas na amostra brasileira, o que inibe o uso de formas verbais com a variante zero. Mais uma vez, comprova-se a disparidade entre os resultados de pesquisas com dados do PB e do PE. Monguilhott (2009), Rubio (2012) e Monte (2012) investigaram a variação com a terceira pessoa do plural adotando a metodologia sociolinguística, inclusive tendo sido feitas análises com pesos relativos, embora apenas o primeiro e o terceiro trabalhos foram realizados após a constituição de amostras intercomparáveis entre o PB e o PE. A primeira amostra foi constituída de 16 entrevistas gravadas em Lisboa – Cascais e Sintra (consideradas comunidades não urbanas) e na Região Central e Belém (consideradas comunidades urbanas) –, cujos resultados foram comparados com os obtidos a partir da análise de 16 entrevistas gravadas em Florianópolis (capital de Santa Catarina/Brasil). No terceiro estudo, a análise empírica foi realizada com base na análise contrastiva da fala de 18 pessoas residentes na cidade de São Carlos (interior do Estado de São Paulo/Brasil) e a fala de 18 pessoas residentes na cidade de évora (situada no Alentejo, sul de Portugal). Já o estudo de Rubio (2012) fundamentou-se na análise comparativa entre entrevistas gravadas em diferentes regiões de Portugal, tendo como base o Subcorpus Oral Espontâneo do projeto Referência do Português Contemporâneo (CRPC), do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa e o Banco de Dados Iboruna, que focaliza o Português falado na região de São José do Rio Preto, sendo parte do Projeto ALIP (Amostra Linguística do Interior Paulista). Nas investigações desses três autores mencionados acima, as frequências de ausência de flexão de número nas formas verbais no PE giram de 6,1% a 8,05%. Sobressaindo, pois, a baixa frequência da variante não padrão na fala portuguesa. A propósito, vale destacar que os trabalhos com dados do PB, mesmo quando são considerados resultados gerais (isto é, quando são analisados, conjuntamente, dados da norma popular e da norma culta 9 , os índices de ausência de marcas de plural são mais altos 19.4%, 51.8% e 52.3%, (cf., respectivamente, Monguilhott 2009; Monte 2012; Araujo 2014). Essa realidade corrobora com a diferença entre as duas variedades do português. Quanto à seleção das variáveis linguísticas e socioculturais identificada nessas três pesquisas, acredita-se que alguns resultados são bem propícios para se discutir a polêmica formação do PB, além de ratificar a hipótese da relevância do contato entre línguas na formação da realidade sociolinguística brasileira. Destacam-se, por exemplo, os resultados advindos do controle da variável saliência fônica. Sobre 9 Utiliza-se o conceito de normas popular eculta com base em Lucchesi (1994, 2002 e 2015). PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 78 Silvana Silva de Farias Araujo / Dante Lucchesi essa variável, é sabido que, desde que Lemle e Naro (1977) – sem propriamente correlacionar a questão da saliência fônica da oposição singular e plural nos verbos à formação do PB – utilizaram esse grupo de fatores no estudo da concordância verbal, o mesmo tem sido constantemente investigado. Os autores comprovaram que formas verbais mais salientes fonicamente tendem a ser mais marcadas do que as menos salientes. Naro (1981: 78) refinou a análise, propondo uma escala de saliência que se pauta em dois critérios, o da presença ou ausência de acento na desinência e o da quantidade de material fônico que diferencia a forma singular da forma do plural, isto é, um grupo de tonicidade e um grupo de diferença de material, tendo a variável seis fatores, que vai dos menos aos mais salientes. É essa escala proposta pelo autor a que mais tem sido utilizada nos estudos. Nos estudos que controlaram a referida variável nos dados do Português Europeu, a variável saliência fônica não tem se mostrado relevante, ao contrário do que se constata na maioria dos estudos com dados do PB, principalmente com dados da fala popular. Dos trabalhos acima comentados, apenas o trabalho de Monte (2012) teve a variável selecionada. Na pesquisa desse autor, foi identificada uma significância para a saliência fônica, sendo a variável selecionada em penúltimo lugar. Ao cruzar as variáveis saliência fônica everbo ‘ser’ e outros verbos, verificou-se, contudo, que o aumento da aplicação da regra padrão aumenta mais com o verbo ‘ser’, algo que sugere que a seleção da saliência fônica tenha se dado devido à particularidade desse tipo de verbo. Ao contrastar dados do PB e do PE, em termos de resultados da variável saliência fônica, Monte (2012:149) chegou à conclusão de que há um comportamento diferenciado entre as duas variedades: “A escala da saliência fônica na sua primeira dimensão (oposição não marcada, desfavorecendo a concordância, vs. oposição marcada, favorecendo a concordância) é mais nítida para os dados do português brasileiro. O salto do nível 1 para o nível 2 é muito significativo nessa variedade. Já no PE, a passagem do nível 1 para o nível 2 não é tão demarcada.” A propósito, interpretam-se os resultados do autor citado acima como representativos de duas histórias sociolinguísticas distintas, a do PB e a do PE, em que, no Brasil, inevitavelmente, a ausência de plural nos verbos é associada à população marginalizada ao longo da história brasileira. Sobre isso, vale destacar a explicação feita por Guy (2005:26), para quem o fato de, no PB, o uso da regra de concordância ser mais frequente nos contextos mais salientes é uma evidência de um processo aquisicional, algo típico em processos de descrioulização. No trabalho de Monguilhott (2009: 150), a variável não foi selecionada, nem mesmo nos dados de informantes com apenas escolarização de nível fundamental PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 Um estudo contrastivo sobre a concordância verbal... A contrastive study on the verbal agreement... 79 da zona não urbana. A autora constatou, inclusive, que, com verbos com saliência máxima, ocorria a menor frequência de aplicação da regra padrão. Assim, atribui esse resultado ao fato de ser nesse fator que se abrigavam os dados de verbo cópula (é/são), tipo de verbo que desfavoreceria a marcação explícita de plural, levando-a a afirmar: “O que parece ocorrer no PE é que esses pares, embora salientes, não parecem apresentar estigma social”. Sobre isso, ressalta-se que a delineação diferenciada que se verifica nos dados da norma popular brasileira, quando comparada com a europeia, pode ser explicada pelo grande estigma associado à variante zero no PB, ainda mais nos casos de maior percepção fônica, e que esse estigma, por sua vez, se associa ao fato de a variante zero ser mais típica da fala de pessoas “marginalizadas” ao longo da sócio-história brasileira. Assim sendo, na variação na fala popular (caminhando para aproximar-se mais da norma culta), com processos de mudanças de “cima para baixo”, é natural que os falantes usem mais a regra padrão em contextos mais salientes, justamente por serem mais perceptíveis no nível fônico. No estudo de Rubio (2012), apenas três variáveis foram relevantes para o uso da forma padrão, estando, por sua vez, as mesmas relacionadas com a posposição do sujeito (Posição do sujeito/SN em relação ao verbo; Traço semântico do sujeito/SN; Tipo estrutural do sujeito/SN). O autor surpreendeu-se com a não seleção da variável saliência fônica, conforme se vê em sua argumentação, conforme se lê em Rubio (2012:333): “Chama a atenção o fato de a categoria saliência máxima ter apresentado percentual menor que as demais para o emprego de verbos em 3PP (90%). A hipótese, baseada em estudos do PB, era de que esse nível de saliência apresentasse o maior percentual de CV da amostra, o que, no entanto, não ocorreu. Em análise qualitativa das ocorrências com saliência máxima que não apresentaram verbos em 3PP (10 ocorrências) foi possível constatar que, em seu total, tratava-se de contextos com o verbos ser, como os apresentados abaixo em (84.a), (84.b) e (84.c)”.10 Assim, é notável a atuação da variável saliência fônica na aplicação da regra padrão de concordância verbal no português brasileiro popular, contrastando com o que se verifica no PE e na norma culta brasileira (Araujo 2014). Nesse sentido, esse comportamento diferenciado é facilmente explicável se for considerada a história sociolinguística brasileira, em que, na norma popular, houve uma erosão da morfologia flexional no passado, em função do contato entre línguas, e essa perda da morfologia flexional da língua portuguesa está sendo recuperada, por influxos de padrões linguísticos “mais elitizados”, sendo os contextos mais salientes os mais fáceis de serem adquiridos e também os mais evitados pelos falantes adquirentes da variedade padrão. 10 Os exemplos elencados pelo autor são: “(84.a) mas isso, felizmente os incêndios do monte é no verão, quando a gente vê o sol, não é, e quando há, quando há, às vezes uma pessoa se for a tempo apaga aquilo depressa.”; “(84.b) : é. e depois há, há isto que, que parece-me, parece-me que tem importância, é que, dantes a farmácia era a farmácia oficina, on[de], onde ha(...), havia... como sabem... agora os medicamentos é quase tudo especializado e “(84.c) as picarias é um género de touros só para curiosos, não, não é toureio, nem nada; largase um touro”. PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 86 Silvana Silva de Farias Araujo / Dante Lucchesi Variáveis Socioculturais Variáveis Linguísticas Faixa etária Realização e posição do sujeito Escolaridade Concordância nominal no sujeito Diazonalidade Indicação de plural no SN sujeito Relação com a migração Caracterização semântica do sujeito Sexo Tipo de verbo Saliência fônica Efeito gatilho Forma do último constituinte SN sujeito que está antes do verbo Quadro 3: Variáveis independentes consideradas na análise da CV com P6 em Feira de Santana. Variáveis Socioculturais Variáveis Linguísticas Faixa etária Realização e posição do sujeito Escolaridade Concordância nominal no sujeito Naturalidade do informante Indicação de plural no SN sujeito Língua materna Caracterização semântica do sujeito Sexo Tipo de verbo Saliência fônica Efeito gatilho Forma do último constituinte SN sujeito que está antes do verbo Quadro 4: Variáveis independentes consideradas na análise da CV com P6 em Luanda. 5 Apresentação e discussão dos resultados Seguindo a metodologia descrita na seção anterior, foram levantadas e codificadas todas as ocorrências de formas verbais com a terceira pessoa do plural, sendo excluídas as que se enquadravam nos critérios já explicitados anteriormente. Perfezse um total de 1969 ocorrências da variedade brasileira e 657 da variedade angolana, que constituíram a base de dados desta pesquisa. Ressalta-se que, em diversos momentos das etapas de levantamento e de codificação dos dados, recorreu-se à escuta dos áudios das entrevistas, a fim de que fossem sanadas quaisquer dúvidas a respeito das transcrições realizadas. No conjunto total de ocorrências, foram obtidos os resultados expostos na Tabela 2. Os resultados expostos na Tabela 2 demonstram que o uso da variante padrão predomina em ambas as variedades, embora o contraste entre a concordância padrão e a não padrão seja mais acentuado no PL, dado que nesta variedade o uso da variante zero é menos frequente (com o índice de apenas 8,4%). PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 Um estudo contrastivo sobre a concordância verbal... A contrastive study on the verbal agreement... 87 Tab. 2: Distribuição geral dos resultados. Concordância padrão Concordância não padrão Feira de Santana Bahia, Brasil 1029/1969 52.3% 940/1969 47% Luanda Província de Angola 602/657 91.6% 55/657 8.4% Nesse sentido, chamou atenção a aproximação dos resultados no PB (52.3% e 47%). Os conhecimentos prévios sobre a realidade sociolinguística brasileira levam a se conjeturar que, por estarem os dados sendo analisados conjuntamente (isto é, dados de representantes da norma popular e da culta), algumas nuanças acerca da caracterização sociolinguística do PB poderiam estar camufladas. Assim, em conformidade com os pressupostos teórico-metodológicos que embasam esta pesquisa, (Lucchesi 1994, 2001, entre outros), procedeu-se à análise dos dados considerando os dois grandes polos sociolinguísticos das duas variedades da língua portuguesa analisadas, ou seja, de modo separado. Acredita-se que, dessa maneira, tanto a variação no PB quanto no PA ficou mais bem escrutinada. Nas Tabelas 3 e 4, apresentam-se os resultados dessa nova rodada de análise dos dados. Tab. 3: Distribuição dos resultados nas duas normas do português de Feira de Santana. Norma culta Norma popular Nºde ocor. /Total Freq. Nºde ocor. /Total Freq. Variante padrão 619/659 93.9% Variante padrão 321/1310 24.5% Variante não padrão 40/659 6.1% Variante não padrão 989/1310 75.5% Tab. 4: Distribuição dos resultados nas duas normas do português de Luanda. Norma culta Norma popular Nºde ocor. /Total Freq. Nºde ocor. /Total Freq. Variante padrão 340/361 94.2% Variante padrão 262/296 88.5% Variante não padrão 21/361 5.8% Variante não padrão 34/296 11.5% Ao comparar os resultados obtidos nos dados das duas variedades do português, isto é, a feirense (Tabela 3) e a luandense (Tabela 4), a partir desse procedimento PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 88 Silvana Silva de Farias Araujo / Dante Lucchesi metodológico, a realidade configurou-se diferente. Nota-se, nos resultados da norma culta, um comportamento idêntico nas duas variedades da língua portuguesa, sobressaindo uma grande diferença apenas no que tange aos resultados da norma popular, ficando evidente que o vernáculo brasileiro popular, de fato, é marcado pela simplificação no paradigma flexional nas formas verbais, enquanto no PL, o uso da variante zero é incipiente tanto na norma culta quanto na popular. Procedeu-se a uma análise qualitativa das ocorrências da variante zero nos dados do português culto luandense. Constatou-se que esses usos concentravam-se em contextos já amplamente divulgados pela literatura como desfavorecedores à aplicação da variante padrão. Dos 21 dados encontrados, 8 foram com o verbo ser, 12 com verbos pouco salientes no nível fônico e 1 com sujeito posposto, algo que também acontece com a fala culta brasileira (Graciosa 1991; Araujo 2014). Eis alguns das ocorrências na norma culta luandense: Português culto luandense (14) As várias universidades éum ganho muito grande [...] (15) No sei se éas novelas [...] (16) todas as províncias devia ter cinquenta porcento das condições [...] Já, na norma popular do PA, constatou-se que, apesar de o índice percentual da variante zero ser muito inferior em comparação ao que ocorre na fala brasileira popular, há ocorrências dessa variante em contextos morfossintáticos e fônicos não tão previsíveis, a exemplo dos seguintes: Português popular luandense (17) As guerra iniciou há muito tempo. (18) as coisa foi assaltada no carro onde eu meti. (19) Se as coisa perdeu eu não sou culpado. (20) os outros foi atingido e eu consegui sobreviver até hoje. (21) onde se cumulou os miúdo ali. (22) logo ao nascer foi gémeos. Por outro lado, levantaram-se dados da fala popular luandense que são inimagináveis em variedades populares do PB: (23) Aquelas brincadeiras que nós fazíamos. (F, faixa I, 2ªclasse, Kikongo) PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 Um estudo contrastivo sobre a concordância verbal... A contrastive study on the verbal agreement... 89 (24) Há pessoas que sabem falar português bem. (F, faixa II, 2ªclasse, Umbundu) (25) E a partir dai ficou a saber que eu falo Umbundu. (F, faixa I, analfabeta, português) (26) Acho que só a guerra que não posso esquecer-me . (F, faixa I, 2 ª classe, Kikongo) (27) Os miúdos saem daqui da cidade pra Mussulo. (M, faixa II, 4 ª classe, kimbundu) Assim, como foi identificada uma variação estruturada (Labov 2003) na norma popular luandense, investigaram-se quais variáveis favoreciam o uso da variante padrão. Os resultados indicaram que a realização e posição do sujeito, o traço semântico do sujeito e a língua materna eram os grupos de fatores mais atuantes para a aplicação da regra de marcação de plural, conforme a Tabela 5. Tab. 5: Variáveis e fatores selecionados como favoráveis à realização da concordância verbal de número no português popular de Luanda. Variável Fator Nºde ocor. /Total Freq. P.R. Realização e posição do sujeito Sujeito anteposto com constituinte interveniente 27/30 90% .47 Sujeito nulo 112/118 94.9% .63 Sujeito posposto 3/8 37.5% .06 Sujeito imediato anteposto 96/111 86.5% .46 Sujeito retomado por pronome relativo 20/25 80% .32 Traço semântico do sujeito +Humano 242/266 91% .54 -Humano 16/26 61.5% .17 Língua materna Português 111/113 98.2% .84 Línguas africanas 147/179 82.1% .26 Log likelihood = -85.533 Significance: 0.009. A alta predominância da variante padrão na Tabela 5 se relaciona a fatores estruturais já previstos, como o sujeito nulo e o traço semântico do sujeito. Na maioria dos estudos já realizados, é salientado que o sujeito não realizado é um fator que favorece a concordância padrão. A explicação dada, geralmente, centra-se numa questão funcional, a da necessidade de se recuperar, nesses casos, por meio da concordância, a identificação do sujeito. Em outras palavras, a concordância licencia o sujeito nulo (Chomsky 1981; Rizzi 1988; Duarte 1993, 1995). Essa explicação intrassistêmica adequa-se perfeitamente ao que se obervou na fala culta feirense, mas não na norma popular dessa mesma variedade, em que tal fator apresentou PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 90 Silvana Silva de Farias Araujo / Dante Lucchesi um valor neutro, conforme será comentado a seguir. Também por meio de uma explicação apenas estrutural, pode ser entendido o favorecimento do uso padrão com sujeito com traço [+ humano], por o traço [+humano] caracterizar o sujeito prototípico em português, já que é o responsável pelo desempenho da ação (+ agente), o que leva ao aumento da concordância entre sujeito e verbo. Por outro lado, afora esses resultados relacionados a questões exclusivamente estruturais, a seleção da variável língua materna do informante revelou-se bem interessante aos propósitos deste estudo, na medida em que traz contribuições para o questionamento central acerca da influência do contato o português e línguas africanas. Verificou-se que o fato de o informante ter o português como sua primeira língua favorece bastante o uso da variante padrão, ao passo que o ter adquirido como segunda língua favorece a variante não padrão. Não obstante essa interessante constatação, julgou-se necessário realizar outra análise, retirando a única variável sociocultural selecionada, por se suspeitar de uma possível sobreposição de variáveis, haja vista que, considerando a sócio-história da comunidade, os falantes que adquiram o português como primeira língua são também naturais de Luanda. Desse modo, feita uma nova análise quantitativa, obtiveram-se os resultados elencados na Tabela 6. Tab. 6: Variáveis e fatores selecionados como favoráveis à realização da concordância verbal de número no português popular de Luanda. Variável Fator Nºde ocor. / Total Freq. P.R. Realização e posição do sujeito Sujeito anteposto com constituinte interveniente 27/30 90% .48 Sujeito nulo 112/118 94.9% .62 Sujeito posposto 3/8 37.5% .08 Sujeito imediato anteposto 96/111 86.5% .46 Sujeito retomado por pronome relativo 20/25 80% .31 Traço semântico do sujeito +Humano 242/266 91% .54 -Humano 16/26 61.5% .19 Naturalidade do informate Luanda 127/133 92.5% .68 Interior 131/159 82.4% .35 Log likelihood = -85.533 Significance: 0.009. Os resultados mantiveram-se praticamente os mesmos para as variáveis linguísticas, mas foi selecionada a variável naturalidade do informante, revelando que os informantes que nasceram no interior do país utilizam mais a variante não padrão da concordância verbal com P6. Salienta-se, contudo, que o valor do peso relativo foi menor em comparação com o que se obteve para a variável língua materna, o PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 Um estudo contrastivo sobre a concordância verbal... A contrastive study on the verbal agreement... 91 Tab. 7: Variáveis e fatores selecionados como favoráveis à realização da concordância verbal com P6 no português falado em Luanda (dados gerais: normas culta e popular). Variáveis Fatores Língua materna português: .63 línguas africanas:.26 Traço semântico do sujeito [+Humano]: .54 [-Humano]: .37 Saliência fônica saliência alta: .64 saliência baixa: .37 Tipo de verbo ligação: .30 transitivo: .60 locativo: .48 intransitivo: 0.40 auxiliar: .72 modal/aspectual/leve: .56 inacusativo/ergativo: .26 Log likelihood = -165.342 Significance = 0.047. que ratifica a importância da aquisição do português como L2 para a erosão da morfologia flexional. Como a segunda rodada apresentou melhor valor de significância estatística (0.043), a comparação com a fala feirense foi feita com base nos resultados dessa rodada. Esses resultados estão expostos na tabela 9. A próxima etapa da pesquisa foi investigar quais as variáveis eram mais atuantes em todo o corpus do português luandense analisado. Os resultados obtidos estão expostos nas próximas Tabelas, sendo que, na Tabela 7, controlou-se a variável língua materna e, na Tabela 8, a mesma foi substituída por naturalidade do informante. Como a segunda rodada apresentou melhor valor de significância estatística (0.043), a comparação com a fala feirense foi feita com base nos resultados dessa rodada. Esses resultados estão expostos na Tabela 9. A partir dos resultados expostos na Tabela 7, conclui-se que há muitas semelhanças entre as duas variedades do português, tendo havido muita variáveis selecionadas em comum, com resultados equivalentes. Por exemplo, a escolaridade baixa ou nula, formas verbais menos salientes, informantes naturais do interior, sujeitos com sintagma nominal sem concordância padrão de número desfavorecem, em ambas as variedades do português, a concordância verbal. Outra etapa da pesquisa foi investigar os dados das duas variedades apenas no que concerne aos dados da norma popular (resultados na Tabela 10). PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 92 Silvana Silva de Farias Araujo / Dante Lucchesi Tab. 8: Variáveis e fatores selecionados como favoráveis à realização da concordância verbal com P6 no português falado em Luanda (dados gerais: normas culta e popular). Variáveis Fatores Local de nascimento Luanda: .57 interior: .42 Saliência fônica saliência alta: .64 saliência baixa: .38 Tipo de verbo ligação: .30 transitivo: .60 locativo: .50 intransitivo: auxiliar: .75 Modal/aspectual/leve: .56 inacusativo/ergativo: .26 Escolaridade baixa ou nula: .37 superior: .61 Sexo feminino: .59 masculino: .39 Concordância nominal no SN sujeito Concordância padrão: .54 Concordância não padrão: .43 Log likelihood = -165.980 Significance = 0.043. Quando se analisou exclusivamente os dados de informantes analfabetos ou pouco escolarizados de ambas as variedades do português, detectou-se que há muitas diferenças nos resultados. Primeiramente, no PB, a variação está mais bem estruturada, com mais variáveis selecionadas. Destaca-se que a única variável linguística selecionada em comum nas duas variedades não revelou resultados análogos, pois, enquanto nos dados de Feira de Santana a concordância padrão só é favorecida quando o sujeito está imediatamente antes do verbo (com peso relativo de .63), havendo desfavorecimento em todos os outros contextos controlados na pesquisa, inclusive no de sujeito nulo, no português luandense, a concordância padrão é, por sua vez, desfavorecida em todos os contextos, sendo favorecida apenas quando o sujeito está oculto, algo que revela a atuação de um fator muito mais estrutural. Detectou-se também que a variável faixa etária, importante para a detecção do caminho da variação, só foi selecionada na variedade brasileira, revelando, inclusive, um passado sociolinguístico de maior uso da variante zero e que, os usuários da norma popular estão adquirindo, mais hodiernamente, a regra de aplicação da concordância padrão, conforme ilustram os gráficos seguintes. PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 Um estudo contrastivo sobre a concordância verbal... A contrastive study on the verbal agreement... 93 Tab. 9: Variáveis atuantes para a flexão verbal de número por variedade (dados gerais). Luanda Feira de Santana Local de nascimento do informante Escolaridade Saliência fônica Saliência fônica Tipo de verbo Forma do último constituinte do SN suj. que está antes do verbo Escolaridade Realização e posição do sujeito Sexo Sexo Concordância nominal no SN sujeito Concordância nominal no sujeito Faixa etária Traço semântico do sujeito Diazonalidade Tipo de verbo Indicação de plural no SN sujeito Input: 0.924 Input: 0.459 Log likelihood = -165.980 Log likelihood = -712.310 Significance = 0.043 Significance = 0.049 Tab. 10: Variáveis atuantes para a flexão verbal de número por variedade (norma popular). Luanda Feira de Santana Input: Realização e posição do sujeito Saliência fônica Traço semântico do sujeito Concordância nominal no sujeito Língua materna Realização e posição do sujeito Efeito de gatilho Faixa etária Sexo Tipo de verbo Forma do último const. do SN sujeito que está antes do verbo Diazonalidade Input: 0.945 Input: 0.113 Log likelihood = -79.925 Log likelihood = -563.657 Significance = 0.007 Significance = 0.042 PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 94 Silvana Silva de Farias Araujo / Dante Lucchesi Fig. 1: Distribuição dos resultados pelas faixas etárias no uso da CV padrão na fala culta e popular de Feira de Santana-BA. Fig. 2: Atuação da faixa etária no uso da CV na fala culta e popular de Feira de Santana-BA (pesos relativos. Feitas essas colocações, na próxima seção, apresentam-se as principais conclusões advindas após a análise dos resultados. 6 Conclusões Na norma popular do português brasileiro, há uma proeminente erosão da morfologia flexional, de modo que a frequência da não aplicação da regra de concordância verbal de número em formas verbais de P6 é bastante alta (foi encontrada mais de 70% da variante zero). Essa acentuada erosão ficou muito evidente quando se analisou os dados das duas normas sociolinguísticas do PB em separado. A realidade sociolinguística do português feirense mostrou-se, pois, não só heterogênea, mas também bipolarizada, na medida em que os resultados são inversos quando são considerados apenas dados de informantes escolarizados. Essa configuração encontrada na variedade linguística do PB aponta para a necessidade de se analisarem os dados não só de maneira geral, sendo, na verdade, imprescindível considerar as particularidades sócio-históricas das amostras analisadas. Nesse sentido, o amplo uso da variante zero na fala brasileira foi PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 Um estudo contrastivo sobre a concordância verbal... A contrastive study on the verbal agreement... 95 interpretado como decorrente da sua história sociolinguística diferenciada quanto comparada com o que ocorre na norma culta brasileira. Houve na formação das variedades populares do PB uma situação de intenso contato entre línguas e de urbanização e de escolarização tardias. Ao passo que, nas variedades cultas, essas situações apenas influenciaram de forma tangencial nas suas formações e caracterizações, conforme argumenta Lucchesi (2001) e comprovam os resultados no Gráfico 12 acima. Outro fato que pode explicar essa associação imediata da ausência de flexão de plural é a classe baixa e de pouca escolarização no Brasil é o estigma que as variantes zero de plural carregam, por serem associadas à fala de populações que sempre estiveram à margem na população do Brasil. Em relação aos resultados encontrados para a variedade luandense, comprovouse que, no PA, os usuários da norma popular usam a variante zero de forma mais moderada. Em outras palavras a situação do PA não é tão bipolarizada quanto no PB, haja vista que a diferença de frequência encontrada nas duas normas foi de apenas 5 pontos percentuais. Por outo lado, não obstante o uso variável ser menos frequente na fala luandense, a análise estatística revelou que a realidade do interior do país deve ser diferente, ou seja, deve haver menos concordância verbal padrão, pois os falantes que mais favorecem o uso da variante zero são os nascidos no interior e os que adquiriram o português como segunda língua. Nessa linha de raciocínio, o falar da capital ajusta-se ao que se havia no Rio de Janeiro no século XIX, pois, segundo aponta Silva Neto (1963) era a cidade onde “melhor” se falava o português no Brasil. Sobre essa questão, vale salientar que deve ser considerada a relevância da hipótese aventada por Teixeira (2008) de que o português falado em Luanda pode ser tomado como um “espelho” da realidade sociolinguística brasileira do final do século XIX, dado que Angola passa, hodiernamente, por situações sócio-históricas semelhantes ao que ocorreu no Brasil naquele século (Teixeira 2008). Abreviaturas P6: terceira pessoa do plural, P4: primeira pessoa do plural, PA: português angolano, PB: português brasileiro, PE: português europeu, CRPC: Subcorpus Oral Espontâneo do projeto Referência do Português Contemporâneo, do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, ALIP: Projeto Amostra Linguística do Interior Paulista, NELP: Núcleo de Estudos da Língua Portuguesa do Semiárido Baiano, PR: peso relativo. PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767