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Os complementizers derivados do português antigo coma 'como' nos crioulos portugueses da Alta Guiné

Lang, Jürgen

Abstract

A contribuição pretende demonstrar a necessidade de se terem em conta as línguas ancestrais dos crioulizadores na explicação do surto das estruturas crioulas. Concretamente defende que chegaríamos a conclusões erradas se tentássemos explicar o surto do complementizer kumâ e os seus derivados kma, kme, ma do crioulo caboverdiano sem recorrer à partícula na do wolof, ou o complementizer kuma, kumá dos crioulos da Guiné-Bissau e de Casamansa sem recorrer aos elementos kuma, kó do mandinka.

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PAPIA, São Paulo, 25(2), p. 217-234, Jul/Dez 2015. http://doi.org/10.5281/zenodo.17810191 Os complementizers derivados do português antigo coma ‘como’ nos crioulos portugueses da Alta Guiné Complementizers derived from ancient Portuguese coma in the Portuguese creoles of Upper Guinea Jürgen Lang1 Universität Erlangen-Nürnberg, Alemanha [email protected] Abstract: This paper argues in favour of the convenience of taking into consideration the creolizers’ ancestral languages in explaning creole structures. More specifically, it shows how neglecting the role of wolof na and mandinka kuma, kó in explaining the origin of Capeverdian kumâ, kma, kme, ma, on the one hand, and Guinea-Bissau and Casamance creole kuma, kumá on the other, may lead to false conclusions. Keywords: complementizer; modal particles; creolization; creoles of Cape Verde, Guinea-Bissau and Casamance. Resumo: A contribuição pretende demonstrar a necessidade de se terem em conta as línguas ancestrais dos crioulizadores na explicação do surto das estruturas crioulas. Concretamente defende que chegaríamos a conclusões erradas se tentássemos explicar o surto do complementizer kumâ e os seus derivados kma, kme, ma do crioulo caboverdiano sem recorrer à partícula na do wolof, ou o complementizer kuma, kumá dos crioulos da Guiné-Bissau e de Casamansa sem recorrer aos elementos kuma, kó do mandinka. 1 Agradeço à Nélia Alexandre a apresentação desta contribuição no V Seminário do Gelic (Praia, Cabo Verde, 2014) no meu lugar e à Elisabete Cardoso a revisão do meu português. e-ISSN 2316-2767 218 Jürgen Lang Palavras-chave: complementizer; partículas modais; crioulização; crioulos de Cabo Verde, da Guiné-Bissau e Casamensa. Apresentação A maior parte dos crioulos de base portuguesa que surgiram ao longo da costa ocidental africana dispõem de um complementizer que deriva do pg. antigo coma ‘como’, variante de com(m)o < lat. qu ¯ omodo. Por sua vez,coma derivaria de qu ¯ omodo ac. “Da documentação até este momento conhecida parece poder concluir-se que a forma coma se usou, nos textos escritos, desde o século XIII até ao século XVI: actualmente essa forma pode encontrarse, em português, mas apenas na linguagem popular (...): em galego, pelo contrário, ela tem muito maior vitalidade, ...” (Maia 1986: 868). Coma é apresentado como simples variante de como. E não se informa de nenhuma diferença funcional entre os coma, com(m)o medievais e o como atual. Nesta contribuição tentaremos explicar, como o coma pg. pôde dar origem ao complementizer crioulo. 1 O português como Os dicionários costumam incluir o pg. como na classe dos advérbios. Tratar-seia de um advérbio de modo com a particularidade de requerer uma indicação do modo, em vez de a fornecer. Tratar-se-ia pois dum ‘x modal’, para usar uma metáfora matemática. Enquanto ‘x modal’, como faz parte de uma série de elementos análogos como o ‘x local’ onde, o ‘x temporal’ quando, o ‘x quantitativo’ quanto e o ‘x de seleção’ qual. Elementos deste tipo que existem em muitas línguas (cf. para o ‘x modal’, esp. como, fr. comme(nt), al. wie, etc.) costumam ter empregos interrogativos (em orações interrogativas diretas ou indiretas), empregos ‘indeterminados’, empregos de equiparação, e nalguns casos também empregos exclamativos, conforme a especificação do modo, do lugar etc. • espera-se do interlocutor (ex. Como ocorreu?, Perguntou-lhe como tinha ocorrido); • não faz parte da mensagem (ex. Aprendeu como se planta uma árvore); PAPIA, 25(2), e-ISSN 2316-2767 Os complementizers derivados do português antigo coma ‘como’. . . Complementizers derived from ancient Portuguese coma. . . 219 • é fornecida pelo contexto imediato (ex. É forte como um leão. Falou como empresário. Fez como fazem os peritos;)2ou • é fornecida pela situação extra-linguística onde decorre a comunicação (ex. Como chove!). Para os ‘x modais’, os empregos de equiparação coincidem com os seus empregos no chamado comparativo ‘de igualdade’, mas que não é só comparativo de adjetivos. Precisamos de termos para o ‘x modal’ em cada um destes empregos, porque nos crioulos podem corresponder-lhes partículas diferentes. Falaremos pois, quando for preciso, do coma, com(m)o português enquanto •partícula modal interrogativa •partícula modal indefinida •partícula modal comparativa •partícula modal exclamativa e de partículas modais crioulas cumprindo uma ou várias destas funções. 2 Os sucessores do coma português nos crioulos portugueses da África No Atlas of pidgin and creole language structures (APiCS online) de Michaelis et al. 2013 e no Survey of pidgin & creole languages, vol. II, Portuguesebased, Spanish-based, and French-based Languages de Michaelis et al. 2013, os complementizer que derivam do pg. antigo coma ostentam as seguintes formas: kma, ma em São Vicente (Cabo Verde), kuma, ma na Brava (Cabo Verde), ma em Santiago (Cabo Verde), kumá em Casamansa (Senegal), kuma na Guiné-Bissau, kuma em São Tomé (forro), e nma, ma em São Tomé 2 Para a equiparação temporal cf. A 25 de Abril 1974, quando ocorreu a Revolução dos Cravos, . . . para a equiparação local Na Gulbenkian, onde existe uma boa biblioteca, . . . ,etc. PAPIA, 25(2), e-ISSN 2316-2767 220 Jürgen Lang (angolar) 3 . Podemos acrescentar, em relação a Cabo Verde, que em São Nicolau o complementizer é kma ou ma como em São Vicente 4 , que em Santo Antão é kme 5 e que em Santiago e no Fogo existe a variante arcaica kumâ [ku’m5] ao lado do mais usado ma [m5].6 É de salientar que, ao que parece, todos os descendentes dissilábicos do coma português nos crioulos portugueses da África se acentuam na segunda sílaba e que nos descendentes monossilábicos é sempre a primeira vogal ou até toda a primeira sílaba a que se perdeu. É possível que também no português 3 Mantemos as grafias dos especialistas que tratam destes crioulos no APiCS online (cf. os exemplos que ilustram o traço 95 Complementizer with verbs of speaking) e no vol. II do Survey (ambas as obras editadas por Michaelis et al. em 2013). Dominika Swolkien (São Vicente) distingue o [a] aberto por meio dum acento agudo <á> do [ 5 ] fechado <a>. Portanto, o seu (k)ma vale [(k)m 5 ]. Marlyse Baptista reconhece que a variedade da Brava distingue dois tipos de a, mas não marca a diferença na escrita. Podemos supor que os seus kuma,ma representam as pronúncias [ku’m 5 ], [m 5 ]. Jürgen Lang (Santiago) informa que esta variedade distingue entre [a] e [ 5 ] e põe um acento agudo nos [a] abertos. Portanto, o seu ma vale [m 5 ]. Noël Bernard e Nicolas Quint (Casamansa, Senegal) afirmam que no crioulo de Casamansa, [ 5 ] ocorre só em palavras de origem africana. Usam o acento agudo onde o padrão acentual da palavra se afasta da norma. Portanto, o seu kumá representa a pronúncia [ku’ma]. Respeito ao crioulo da Guiné-Bissau, houve divergência de opiniões quanto ao número de fonemas vocálicos (cf. Couto 1994: 74). Incanha Intumbo, Liliana Inverno e John Holm (Guiné-Bissau) só admitem a existência de um fonema vocálico central.Porém, escutando o seu texto exemplificador, fica claro que o kuma do crioulo guineense se pronuncia [ku’m 5 ]. Segundo Tjerk Hagemeijer (São Tomé, forro) há só um [a] aberto, nesse crioulo; assim sendo, o seu kuma vale [kuma]; mas ignoramos se uma destas duas sílabas é tónica e, no caso de ser assim, qual é. Segundo Philippe Maurer (São Tomé, angolar), no angolar também só há um [a] aberto. Temos de concluir que a pronúncia do complementizer angolar nma é [(n)ma] 4Cf. Cardoso 1989: p. 116 ex. (303) e p. 109 ex. (13). 5 Cf. os textos que fornece Maria do Céu dos Santos Baptista (2013) anexados à sua monografia. 6 Cf. Brüser et al. 2002: s.v. ma. Curiosamente, na variedade da pequena ilha do Maio, que dista apenas 23 km de Santiago, o complementizer em uso não deriva do pg. coma. Cf. Moreira 2013: 4.7.2.1: “Além de ser uma conjunção subordinativa causal, em maiense a conjunção pamodi é também usada [. . . ] como conjunção subordinativa completiva. [. . . ] Tanto nas formas integra como na forma truncada mo:. . . ”. A autora fornece muitos exemplos deste emprego de pamodi, pamô, mo, tanto no corpo da sua obra como nos textos orais que transcreve. PAPIA, 25(2), e-ISSN 2316-2767 Os complementizers derivados do português antigo coma ‘como’. . . Complementizers derived from ancient Portuguese coma. . . 221 arcaico coma a sílaba tónica fosse a última. Em todos os crioulos mencionados neste parágrafo, o elemento em questão introduz orações de complemento após verbos do dizer, saber, pensar e geralmente também após verbos de perceção. São complementizer em sentido estrito. De facto, os crioulos em questão costumam dispor, ao lado destes complementizer, de outra conjunção subordinativa para a introdução de orações que não funcionam como orações de complemento direto (cf. para crioulo de Santiago, Undi ki nhos ta bai? ‘Onde é que vocês vão?’; Óra, kontise ki un bes un rapás ránja ménbra ... ‘Bem, aconteceu que uma vez um rapaz arranjou uma namorada...; etc.). 3 Reanálise do pg. antigo coma como complementizer em português? A transformação de partículas modais em complementizer parece ser coisa bastante comum nas línguas do mundo (cf. Güldemann 2008: 5.1.3). Para explicar tal facto, pode-se partir de construções do tipo Contou como o seu pai morreu, onde o como se refere ao modo (‘indefinido’, consoante a terminologia proposta em 1.) de morrer do pai. Será suficiente que a informação que o pai morreu já constitui uma notícia para que a frase possa ser percebida como significando simplesmente ‘Contou que o seu pai morreu’, passando assim a partícula modal a ser considerada complementizer: “.. . a statement about HOW an event has happened implies THAT it took place. Thus it is quite conceivable that a manner clause linker can acquire complementizer functions directly” (Güldemann 2008: 458). O processo suposto pode ser representado da forma seguinte: [Ela] sujeito [contou] verbo [[como] COMPL MODAL [o seu pai] sujeito [morreu] verbo ]] OBJ direto ↓ ↓ ↓ ↓ ↓ [Ela] sujeito [contou] verbo [como COMP [[o seu pai] sujeito [morreu] verbo ]] OBJ direto O ponto de partida duma reanálise deste tipo pode ser uma construção com um verbo do dizer na oração principal, mas também com um verbo do saber ou da perceção (cf. Ela soube/viu como o seu pai morreu). Facto digno de menção ou de perceção pois vimos em 2. que os complementizer crioulos derivados do pg. antigo coma introduzem orações de complemento direto após todo o tipo de verbos, trate-se de verbos do dizer, do saber, do pensar ou do perceber. Há algum indício de que uma reanálise deste tipo tinha ocorrido nas variedades de português levadas para a África e de que os crioulos portugueses da África herdaram o seu complementizer dessas variedades? PAPIA, 25(2), e-ISSN 2316-2767 222 Jürgen Lang Na seção das Subordinadas completivas, Silva (2008) apresenta 11 exemplos tirados dos Quatro Livros dos Diálogos de São Gregório trecentistas onde, segundo a autora, como (ou em como, de como) introduz uma oração completiva. Nalguns destes casos, como funciona claramente como partícula modal. 7 Outros casos, onde em precede como ficam duvidosos. Poderia tratar-se de uma partícula modal ou de um complementizer. 8 Quanto à variante coma, as autoras que trataram do português arcaico, antigo e clássico (Maia 1986, Cardeira 2005, Silva 2008), não mencionam nenhum uso de coma como simples complementizer. Na documentação medieval, este coma aparece sobretudo em comparativos de igualdade (Maia 1986: 868). 9 Atribuímos particular importância ao facto de tal ser também o caso dos frequentes coma na carta que Pero Vaz de Caminha escreveu em 1499 a Dom Manuel I (cf. Silva 2008: 201-204). 10 A armada de Pedro Álvares Cabral de que Caminha fez parte, tinha passado por Cabo Verde antes de chegar a terras brasileiras. A crioulização do português estaria em pleno curso, em Santiago e no Fogo, naquela altura. E Caminha movia-se nos mesmos círculos marítimos que frequentavam os moradores de Santiago. Nos dois corpus históricos de português online que consultámos (cf. Davies/Ferreira 2006e Zampieri/Becker 2013), encontramos um único exemplo (o mesmo em ambos os corpus) onde coma precedido de que parece exercer a função de um simples complementizer. Trata-se de uma frase do teatro de Gil Vicente, onde o diabo dá instruções a Satanás: ... vai tu Satanás por embaixador eu te dou meu comprido poder e vai-te a Eva porque é molher e dize que coma nam haja temor (15 Vicente Obra 1, 80). Resumindo, poderíamos dizer que não há motivos para supor que coma tivesse desbancado o complementizer que após verbos do dizer, saber, pensar e perceber, no português que os colonos portugueses levaram para a África. Isto não exclui que a partícula coma pudesse ocasionalmente funcionar como se fosse um simples complementizer, como acontece com alguma frequência com os seus homólogos noutras línguas. É o caso, por exemplo, do alemão wie, que nem por isso desbancou o complementizer al. dass. 7 Exemplo: Começaron a cuidar em como matassem seu abade. (Silva 2008 II: 218) 8Exemplo: Mostrou-lhi em como soubera seu feito. (Silva 2008 II: 218) 9Exemplo de 1296: & se algu˜eueer tanbem da nossa parte coma da estrania. . . 10 Exemplo: . . . boãs aares asy frios etemperados coma os dantre doiro e mynho ... (Silva 2008 II: 204) PAPIA, 25(2), e-ISSN 2316-2767 Os complementizers derivados do português antigo coma ‘como’. . . Complementizers derived from ancient Portuguese coma. . . 223 4 Análise errada pelos crioulizadores ou mudança por crioulo-falantes? Eliminada a hipótese da existência de um autêntico complementizer coma, no português da época, que sobreviveria nos crioulos com ligeiras alterações fonéticas, ficamos com duas hipóteses. Consoante a primeira, os crioulizadores pensavam que o pg. coma era um complementizer porque o encontravam na fala dos colonos portugueses em contextos onde, sem sê-lo, podia interpretar-se sem prejuízo como tal. Neste caso, o complementizer crioulo seria um produto da própria crioulização, resultado de uma análise errada (desde o ponto de vista português) de construções portuguesas do tipo Ela contou/soube/viu como o seu pai morreu por parte dos crioulizadores. Segundo a outra hipótese, os crioulizadores compreenderam que o pg. coma era uma partícula modal e adotaram-na como tal. Posteriormente, crioulofalantes que dispunham desta partícula modal, tê-la-iam transformado em simples complementizer, reanalisando frases do tipo (crioulo de Santiago:) E fla/txiga di sabe/odja kumâ si pai móre ‘Disse/soube/viu como o seu pai morreu’ como significando ‘Disse/soube/viu que o seu pai morreu’. Neste segundo caso, o complementizer não seria um resultado da própria crioulização. Constituiria o resultado de uma mudança linguística levada a cabo na história duma língua, só que já não na história do português (cf. 3.), mas na história do(s) crioulo(s). Insistimos na importância desta diferença entre o que fazem a uma língua os que a aprendem num processo de aprendizagem não guiada e o que lhe fazem aqueles que efetuam uma mudança numa língua que dominam. Porém, em muitos casos, o resultado em si não permite decidir. E, infelizmente, a transformação duma partícula modal em complementizer, pertence a este grupo. Há qualquer outra possibilidade de averiguar qual dos dois processos deu origem aos complementizer crioulos? Com grande perspicácia, Ulrich Detges, que, em 2000, já distinguia entre estas duas possibilidades enfrentando problemas análogos em crioulos franceses 11 , observou que o facto do antigo uso continuar ao lado do novo 11 Fala porém em ambos os casos de reanalysis, vendo-se obrigado a postular uma creole-specific reanalysis (cf. por exemplo Detges 2000: 154). Esta opção terminológica não nos parece ideal: primeiro, porque na perspetiva do crioulizador acreole-specific reanalysis não é re análise de coisa conhecida, mas análise de coisa até então sem analisar; segundo, porque tais análises não são ‘creole-specific’, podem ocorrer em qualquer tipo de aprendizagem linguística não guiada. PAPIA, 25(2), e-ISSN 2316-2767 224 Jürgen Lang constitui um argumento em favor de que este último é resultado de uma mudança na história do crioulo (cf. Detges 2000: 142 e 154). De facto, regra geral não há nada que obrigue um locutor competente que concebe um novo emprego para um elemento da sua língua a renunciar imediatamente ao seu uso tradicional (cf. Lang 1985: 1.2.4). Pelo contrário, o aprendiz de uma língua que põe uma hipótese ‘incorreta’, desde o ponto de vista da língua alvo, quanto ao funcionamento de um elemento desta língua, não pode conjugá-la com o seu uso ‘correto’, porque desconhece este último. O argumento de Detges fornece resultados opostos para o caboverdiano por um lado e os crioulos portugueses do continente africano por outro lado. De facto, geralmente, nas variedades caboverdianas a partícula modal interrogativa (tipo (Pergunto) Como se chama?) e indeterminada (tipo Aprendeu como se planta uma árvore) nem coincide com o seu complementizer (ku)mâ, kma, ma, nem deriva do pg. coma. Em Santiago, por exemplo, é módi (ki): (1) ( E purgunta-m) Módi ki bu txoma? ‘(Perguntou-me) Como é que te chamas?’ (2) Rapasinhus di Práia dja nhu sabe módi k’ •e fetu. ‘O senhor já sabe como são os rapazes da Praia.’ Ao passo que o complementizer é ma, var. arcaica kumâ (E fla ma ...,E fla kumâ ...‘Disse que . . .’). Além disso, existem duas partículas comparativas não estritamente sinónimas, sima ekomu: (3) El e grándi sima mi. ‘É tão alto como eu.’ (4) Ami komu si padrinhu . . . ‘(Eu) Como seu padrinho...’12 12 A variedade do Fogo difere quanto à partícula interrogativa e indeterminada que, na ilha do vulcão, é kumódi (ki),kumô(ki),konf órmi (ki), manera (ki) e ocasionalmente kumâ(ki) (cf. Lopes 2013: 3.4.3. e 4.4).A partícula comparativa é sima, ou suma como nos crioulos continentais. Na Brava temos os complementizer kumodi, (ku)ma eki. A partícula comparativa é kuma e a partícula modal interrogativa e indefinida modi (cf. Michaelis et al. 2013, APiCS online, traço 31, ex. (158): E fra kumodi es faze kuma un reunian ‘He said that they made like a reunion’). No Maio o complementizer é pamodi, pamô, mo (cf. aqui nota 5), a partícula comparativa kumâ, sima, ou móda, e a partícula modal interrogativa e indeterminada mod (cf. Moreira 2013: 4.2.3.2 e 4.5.3.1). Finalmente, em São Vicente é o complementizer kma que introduz as orações de complemento direto, ao passo que (k) manera (k) funciona como partícula modal interrogativa e indeterminada e sima, kom como partículas de comparação (cf. Swolkien 2013; 8. e Bíblia 2013: passim). PAPIA, 25(2), e-ISSN 2316-2767 Os complementizers derivados do português antigo coma ‘como’. . . Complementizers derived from ancient Portuguese coma. . . 225 Pelo contrário, nos crioulos costeiros é o mesmo elemento kuma,kumá que serve de partícula modal interrogativa e indeterminada e de complementizer. 13 Eis um exemplo do crioulo da Guiné-Bissau para cada uma destas funções: Partícula modal interrogativa: (5) Anta, kuma ku bu tarda sin? ‘Então, por que você demorou tanto?’ (Couto 1994: 134/135) Partícula modal ‘indeterminada’: (6) “Kuntanu gosi ke ku bu mesti falanu di kuma yagu di utranu jagasi ku kil di es anu?” Mininu splika elis kuma : ... ‘ “Contenos agora o que você quer dizer ao afirmar que a água do ano passado se misturou com a deste ano?” O menino lhes explicou [como]: . . .’ (Couto 1994: 134 + 136) Complementizer: (7) . . . anos sibi kuma agrikultor ta tene manga di priukupason. ‘... nós sabemos que o agricultor tem muitas preocupações.’ (Couto 1994: 144/145) A partícula comparativa dos crioulos costeiros é suma, que corresponde ao sima caboverdiano. Cf. (8) Pa kunpaña minjeris na manga di tarbaju, suma pur ezenplu konstruson di fugon miλoradu, . . . “A fim de acompanhar as mulheres em muitos trabalhos, como por exemplo, a construção de fogões mais modernos, . . . ” (Couto 1994: 144/145). Surpreendentemente, o kuma, kumá serve ainda de verbo ‘dizer’ nos crioulos costeiros: Cf. para o crioulo da Guiné-Bissau 13 Cf. para a Casamansa Biagui/Quint 2013: 47, ex. (17) e para a Guiné-Bissau Rougé 2004: s.v. como e Intumbo/Inverno/Holm 2013: 37, ex. (39). PAPIA, 25(2), e-ISSN 2316-2767 232 Jürgen Lang Cardeira, Esperança. 2005. Entre o português antigo e o português clássico, Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Cardoso, Eduardo Augusto. 1989. O crioulo da ilha de S. Nicolau de Cabo Verde. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa (Portugal)/ Instituto Cabo-Verdiano do Livro (Cabo Verde). Davies, Mark & Michael Ferreira. 2006. Corpus do Português: 45 million words, 1300s-1900s. 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