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Desemprego e relações familiares em regiões metropolitanas: Condições de vida e estratégias de acesso a recursos

de Menezes, Vitor Matheus Oliveira

Abstract

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Full text

de Menezes, Vi o Ma heus Oli ei a Wo king Pape Desemp ego e elações amilia es em egiões me opoli anas: Condições de ida e es a égias de acesso a ecu sos Tex o pa a Discussão, No. 2915 P o ided in Coope a ion wi h: Ins i u e o Applied Economic Resea ch (ipea), B asília Sugges ed Ci a ion: de Menezes, Vi o Ma heus Oli ei a (2023) : Desemp ego e elações amilia es em egiões me opoli anas: Condições de ida e es a égias de acesso a ecu sos, Tex o pa a Discussão, No. 2915, Ins i u o de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), B asília, h ps://doi.o g/10.38116/ d2915-po This Ve sion is a ailable a : h ps://hdl.handle.ne /10419/285037 S anda d-Nu zungsbedingungen: Die Dokumen e au EconS o dü en zu eigenen wissenscha lichen Zwecken und zum P i a geb auch gespeiche und kopie we den. Sie dü en die Dokumen e nich ü ö en liche ode komme zielle Zwecke e iel äl igen, ö en lich auss ellen, ö en lich zugänglich machen, e eiben ode ande wei ig nu zen. 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I he documen s ha e been made a ailable unde an Open Con en Licence (especially C ea i e Commons Licences), you may exe cise u he usage igh s as speci ied in he indica ed licence. h ps://c ea i ecommons.o g/licenses/by/2.5/b / 2915 DESEMPREGO E RELAÇÕES FAMILIARES EM REGIÕES METROPOLITANAS: CONDIÇÕES DE VIDA E ESTRATÉGIAS DE ACESSO A RECURSOS VITOR MATHEUS OLIVEIRA DE MENEZESVITOR MATHEUS OLIVEIRA DE MENEZES 2915 Rio de Janei o, se emb o de 2023 DESEMPREGO E RELAÇÕES FAMILIARES EM REGIÕES METROPOLITANAS: CONDIÇÕES DE VIDA E ESTRATÉGIAS DE ACESSO A RECURSOS VITOR MATHEUS OLIVEIRA DE MENEZES1 1. Dou o em sociologia pela Uni e sidade de São Paulo (USP); analis a sênio de polí icas socioeducacionais do Ins i u o Unibanco e consul o da O ganização das Nações Unidas pa a a Educação, a Ciência e a Cul u a (Unesco); e bacha el e mes e em ciências sociais pela Uni e sidade Fede al da Bahia (UFBA). Tex o pa a Discussão Publicação se iada que di ulga esul ados de es udos e pesquisas em desen ol imen o pelo Ipea com o obje i o de omen a o deba e e o e ece subsídios à o mulação e a aliação de polí icas públicas. © Ins i u o de Pesquisa Econômica Aplicada – ipea 2023 Menezes, Vi o Ma heus Oli ei a de Desemp ego e elações amilia es em egiões me opoli anas : condições de ida e es a égias de acesso a ecu sos / Vi o Ma heus Oli ei a de Menezes. – Rio de Janei o: IPEA, 2023. 40 p. – (Tex o pa a Discussão ; 2915). Inclui Bibliog a ia. 1. Desemp ego. 2. Família. 3. Me cado de T abalho. 4. Desigualdade. 5. Análise Lexical. I. Ins i u o de Pesquisa Econômica Aplicada. II. Tí ulo. CDD 331.137 Ficha ca alog á ica elabo ada po Elizabe h Fe ei a da Sil a CRB-7/6844. Como ci a : MENEZES, Vi o Ma heus Oli ei a de. Desemp ego e elações amilia es em egiões me opoli anas: condições de ida e es a égias de acesso a ecu sos. Rio de Janei o: Ipea, se . 2023. 40 p. (Tex o pa a Discussão, n. 2915). DOI: h p://dx.doi.o g/10.38116/ d2915-po JEL: D10; J12; J13; M52. As publicações do Ipea es ão disponí eis pa a download g a ui o nos o ma os PDF ( odas) e EPUB (li os e pe iódicos). Acesse: h p://www.ipea.go .b /po al/publicacoes As opiniões emi idas nes a publicação são de exclusi a e in ei a esponsabilidade dos au o es, não exp imindo, necessa iamen e, o pon o de is a do Ins i u o de Pesquisa Econômica Aplicada ou do Minis é io do Planejamen o e O çamen o. É pe mi ida a ep odução des e ex o e dos dados nele con idos, desde que ci ada a on e. Rep oduções pa a ins come ciais são p oibidas. Go e no Fede al Minis é io do Planejamen o e O çamen o Minis a Simone Nassa Tebe Fundação pública inculada ao Minis é io do Planejamen o e O çamen o, o Ipea o nece supo e écnico e ins i ucional às ações go e namen ais – possibili ando a o mulação de inúme as polí icas públicas e p og amas de desen ol imen o b asilei- os – e disponibiliza, pa a a sociedade, pesquisas e es udos ealizados po seus écnicos. P esiden a LUCIANA MENDES SANTOS SERVO Di e o de Desen ol imen o Ins i ucional FERNANDO GAIGER SILVEIRA Di e o a de Es udos e Polí icas do Es ado, das Ins i uições e da Democ acia LUSENI MARIA CORDEIRO DE AQUINO Di e o de Es udos e Polí icas Mac oeconômicas CLÁUDIO ROBERTO AMITRANO Di e o de Es udos e Polí icas Regionais, U banas e Ambien ais ARISTIDES MONTEIRO NETO Di e o a de Es udos e Polí icas Se o iais, de Ino ação, Regulação e In aes u u a FERNANDA DE NEGRI Di e o de Es udos e Polí icas Sociais CARLOS HENRIQUE LEITE CORSEUIL Di e o de Es udos In e nacionais FÁBIO VÉRAS SOARES Che e de Gabine e ALEXANDRE DOS SANTOS CUNHA Coo denado -Ge al de Imp ensa e Comunicação Social ANTONIO LASSANCE Ou ido ia: h p://www.ipea.go .b /ou ido ia URL: h p://www.ipea.go .b SUMÁRIO SINOPSE ABSTRACT 1 INTRODUÇÃO ..........................................................................6 2 DESEMPREGO E ESFERA FAMILIAR EM ESTUDOS SOCIOLÓGICOS ....................................................8 3 CONSTRUÇÃO DO CORPUS ................................................12 4 FUNDAMENTOS E PARÂMETROS DA CLASSIFICAÇÃO HIERÁRQUICA DESCENDENTE ..........................................15 5 AS CLASSES LEXICAIS ........................................................18 5.1 Desemp ego e ida amilia .....................................................22 5.2 Família e inse ção no me cado de abalho ............................ 27 6 DISCUSSÃO ...........................................................................30 REFERÊNCIAS ..........................................................................35 SINOPSE Nes e a igo in es igam-se os impac os socioeconômicos do desemp ego em di e en es g upos de indi íduos e, de manei a especial, abo da-se a ci culação amilia de bens e se iços du an e a p ocu a po abalho. Pa a isso, examinam-se os ocabulá ios de 245 abalhado es em en e is as semies u u adas ealizadas pelo Ins i u o de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) en e 2015 e 2016, no âmbi o do p oje o Radiog a ia do B asil Con empo âneo. Os dados o am subme idos a uma écnica es a ís ica denominada Classi icação Hie á quica Descenden e, p oduzindo qua o classes lexicais. Já uma análise a o ial de co espondência inse iu os léxicos em um plano ca esiano, e idenciando duas cisões, uma emá ica e ou a pelo mon an e de ecu sos en ol idos. Os esul ados opõem as expe iências de abalhado es empob ecidos, pa a os quais o desemp ego incula-se à dispu a po necessidades básicas, e de g upos com acesso consolidado a ecu sos, cujos epe ó ios amilia es ol am-se à p ospecção po melho es emp egos. A análise con as a uma inse ção labo al p ecá ia e ou a que oco e em aje ó ias mais es á eis. Finalmen e, es es qui-quad ado associa am essas classes lexicais a indicado es de sexo, aça e escola idade. Pala as-cha e: desemp ego; amília; me cado de abalho; desigualdade; análise lexical. ABSTRACT This a icle in es iga es he socioeconomic impac s o unemploymen on di e en g oups o indi iduals, and specially add esses he amily ci cula ion o goods and se ices du ing he job sea ch. Fo his, i examines he ocabula ies o 245 wo ke s in semi-s uc u ed in e iews ca ied ou by he Ins i u e o Applied Economic Resea ch (Ipea) om 2015 o 2016, wi hin he scope o he Radiog aphy o Con empo a y B azil p ojec . The da a we e submi ed o a s a is ical echnic called Hie a chical Descending Clus e Analysis, p oducing ou lexical classes. A e , a ac o ial co espondence analysis inse ed he lexicons in a ca esian plan, showing wo spli s, one hema ic and ano he by he numbe o a ailable esou ces. The esul s con as he expe iences o poo wo ke s, o whom he unemploymen is bounded o he dispu e o basic needs, wi h he expe iences o g oups wi h gua an eed access o esou ces, whose amily epe o ies a e di ec ed o he sea ch o be e jobs. The analysis dis inguishes, besides, a p eca ious job inse ion and ano he ha occu s in mo e s able ajec o ies. Finally, chi-squa ed es s associa ed hese lexical classes wi h sex, ace, and schooling indica o s. Keywo ds: unemploymen ; amily; labo ma ke ; inequali y; lexical analysis. TEXTO pa a DISCUSSÃO 6 2915 1 INTRODUÇÃO Nas sociedades capi alis as, a pa icipação no me cado de abalho é a p incipal es a- égia de acesso a ecu sos. Isso pode oco e ia emp egos egis ados, e idenciando um sis ema de comp a e enda da o ça de abalho, ou a pa i das inicia i as in o mais de ge ação de enda, como no caso do au oemp ego. As pesquisas sob e o Es ado e o me cado de abalho êm me ecido des aque na li e a u a sob e os egimes de p o eção social. Desse modo, como uma ma ca das sociedades mode nas, as ins i uições públicas, po meio da p o isão de bens e se iços, endem a assumi pa e dos iscos. Uma consequência impo an e dessa ação é a minimização dos impac os do desemp ego, ainda que o papel do Es ado a ie bas an e de um país pa a o ou o e no decu so do empo. Pa a bem en ende como os ecu sos ci culam e são ap op iados po indi íduos e g upos é p eciso examina o que acon ece no in e io das amílias. Es e a igo pa e dessa pe spec i a e se di ige aos impac os do desemp ego nas condições de exis ência, bem como aos epe ó ios amilia es de ep odução e mobilidade socioeconômica. O obje i o é in es iga o ca á e desigual dessas expe iências no in e io da população b asilei a, o que az com que con ex os ci cunsc i os sejam especialmen e in e essan es pa a a cole a de dados. Espe o que isso me pe mi a ap esen a no as e lexões socio- lógicas sob e a es a i icação do desemp ego, sob o p isma da p o eção amilia e das elações sociais co idianas. A despei o de eo ias que ap egoa am o seu en aquecimen o, 1 as amílias são indispensá eis pa a a sa is ação das necessidades pessoais nas sociedades capi a- lis as, conec ando indi íduos po meio de elações de in e dependência,2 que deco em do di ecionamen o de indi íduos pa a a e as p odu i as (a i idades emune adas em me cados) e ep odu i as ( a e as domés icas e de cuidado) (Du ham, 1980; Melo e Cas ilho, 2009; Picanço e A aújo, 2020). Quando um dos memb os da amília não 1. A esse espei o, a p incipal o mulação oi ap esen ada po Wilensky e Lebeaux (1965). Pa a os au o es, a nuclea ização das amílias, bem como o en aquecimen o do seu papel na ci culação de bens e se iços, p oduzi ia um ácuo a se ocupado pelos Es ados de bem-es a . 2. A unidade amilia oi decisi a pa a a o ganização das sociedades indus iais, po meio do supo e à mo adia e à p ocu a po abalho (Segalen, 1986). Sob e o caso b asilei o, Paoli (1992) essal a a a uação das amílias na p ole a ização da o ça de abalho, o que oco eu a pa i do ec u amen o amilia da mão de ob a, baseado na au o idade masculina sob e mulhe es e c ianças. O enômeno e ela o ínculo en e mo alidade e unidade domés ica, comumen e e o çado pelas polí icas de Es ado. A manu enção e a ualização da amília como uma ca ego ia ideológica, undada em papeis minimamen e es á eis de p o isão e cuidado, cump iu um papel impo an e no desen ol imen o do capi alismo compe i i o (Telles, 1992). TEXTO pa a DISCUSSÃO TEXTO pa a DISCUSSÃO 7 2915 consegue se inse i no me cado de abalho, ensões são ge adas nos p oje os de subsis ência e mobilidade socioeconômica, em uma elação de mão dupla en e o desemp ego e a ida amilia . De um lado, examina o desemp ego lança luz sob e os epe ó ios amilia es, an o ma e iais quan o a e i os, que isam lida com a pe da de endimen os. De ou o, o ambien e amilia o na-se ú il pa a obse a mos os impac os do desemp ego no co idiano de indi íduos e g upos, pois as amílias ep esen am unidades básicas de consumo e ci culação de endimen os (Bilac, 2014). De ido à ins abilidade do me cado de abalho e à baixa e e i ação de di ei os ia Es ado, a elação en e amília e desemp ego é ainda mais impo an e no egime b asilei o de bem-es a . Em sociedades com sis emas incipien es de p o eção social, as elações amilia es são uma “ espos a cole i a lógica” aos iscos que acompanham a pa icipação no me cado de abalho (Paugam, 2016, p. 42). As expe iências de desemp ego são es a i icadas pelo acesso desigual a ecu sos e opo unidades, le ando em con a a pa icipação dos indi íduos em edes in e pessoais ( amília, izinhança e laços p o issionais) e ins i ucionais (ins i uições educacionais e polí icas de emp ego e socioassis enciais). Pa a abo da o assun o, analisa ei os epe - ó ios ocabula es de 245 indi íduos esiden es de egiões me opoli anas que o am en e is ados pelo Ipea en e 2015 e 2016. Além de analisa os impac os desiguais do desemp ego no bem-es a das amílias, a pesquisa discu e as dinâmicas de ampa o amilia e a mobilização de ínculos amilia es pa a a p ocu a po abalho. A u ilização de uma écnica es a ís ica aplicada a dados ex uais, de ca á e indu i o e classi ica ó io, me possibili ou ag upa os léxicos des inados a essa emá ica, salien ando o ca á e desigual das expe iências de desemp ego no B asil. Es e a igo se di ide em mais cinco seções. A segunda seção o ganiza a p odução sociológica que se dedicou à in e secção en e o desemp ego e a es e a amilia . A e cei a e a qua a seções a am da cons ução do co pus e da me odologia ado- ada. Na quin a seção, ap esen am-se as classes ocabula es p oduzidas pelo c uza- men o en e as pala as e as suas en e is as de o igem. Finalmen e, na conclusão, des acam-se os esul ados mais impo an es da pesquisa, colocando-os em diálogo com a li e a u a acadêmica. TEXTO pa a DISCUSSÃO 8 2915 2 DESEMPREGO E ESFERA FAMILIAR EM ESTUDOS SOCIOLÓGICOS Ao in es iga os e ei os do desemp ego nas elações amilia es de au o idade, Koma o sky (1940) ponde ou como a pe da do abalho incidia sob e o s a us do che e de amília, com possí eis consequências aos ínculos ma i ais e de iliação. A seu e , a endência dis up i a ocasionada pelo desemp ego pode ia se c edi ada à incapacidade masculina de con ola economicamen e os pa en es, adensada pela diminuição de p es ígio po pa e do che e de amília e pela edução da “ma gem de manob a” amilia em sa is aze in e esses con li an es. Em uma abo dagem ambém seminal, Eisenbe g e Laza s eld (1938) essal a am as consequências do desemp ego nos aços indi iduais de pe sonalidade, com des aque pa a a ins abilidade emocional, a pe da de o ina, a diminuição de au oes ima e o ebai- xamen o das aspi ações pessoais. O en aquecimen o das a i idades associa i as e a de e io ação das condições ma e iais e am en endidas como expe iências ípicas de uma “comunidade desemp egada” (Jahoda, Laza s eld e Zeisel, 2002), que se ia í ima de um ciclo mais ou menos gene alizá el, o que, em úl ima ins ância, aca e a a a de e io ação das elações amilia es. A up u a dos ínculos amilia es em unção do desemp ego pe sis iu como um en endimen o hegemônico a é a década de 1970, do que dão es emunho as ob as de Moen (1979) e Schlozman e Ve ba (1979). Boa pa e dos es udos en a izou o papel do desemp ego na p i ação de ecu sos, bem como na negação do senso de au oes ima deco en e do engajamen o ocupacional. A pa i desse olha , a agilização econô- mica e a up u a de ínculos, do ipo amilia ou comuni á io, pode iam se en endidas como aces da mesma moeda, esul an es em g ande medida da desocupação em uma sociedade de me cado. A década de 1980 ouxe consigo a eclosão de no os olha es in e p e a i os. Thomas, McCabe e Be y (1980) a gumen a am que os con li os amilia es, an o no casamen o quan o na con i ência in e ge acional, não de e iam se omados como necessa ia- men e esul an es da pe da do abalho. O meno peso dis up i o do desemp ego oi c edi ado a a o es ípicos da segunda me ade do século XX, como a eme gência de uma no a condição de desemp egado, passí el de auxílios go e namen ais, e a di e - si icação das iden idades pessoais, não dependen es em sua o alidade da es e a do abalho. Ideia semelhan e oi ap esen ada po Gallie e Ma sh (1994). Os au o es iden- i ica am di e enças impo an es nas consequências sociais do desemp ego en e as TEXTO pa a DISCUSSÃO TEXTO pa a DISCUSSÃO 15 2915 4 FUNDAMENTOS E PARÂMETROS DA CLASSIFICAÇÃO HIERÁRQUICA DESCENDENTE Na década de 1950, o linguis a Zellig Ha is in oduziu uma no a abo dagem na aná- lise de dados ex uais. Em seu en endimen o, os discu sos de e iam se examinados a pa i da dis ibuição de suas meno es unidades iden i icá eis, os mo emas. Ao oca no aspec o es u u al da linguagem, a p opos a de Ha is (1952) oi ma cada po uma p eocupação o mal, inculada às possibilidades combina ó ias na p odução de enunciados. Se os signi icados pa icula es dos ocábulos pe diam impo ância, a oco ência e a in e ação en e os mo emas ganha am des aque na linguís ica de ma iz dis ibucional. Dialogando com a pe spec i a ha issiana, o es a ís ico Jean-Paul Benzéc i desen- ol eu, na década de 1960, o mé odo conhecido como Análise Fa o ial de Co espondên- cias, que se associa à análise o mal da linguís ica dis ibucional. Vol ado inicialmen e à elabo ação de um mé odo indu i o pa a a análise de dados ex uais, Benzéc i (1977) se dedicou à c iação de es es ma emá icos que pe mi iam e i ica a dis ibuição con ex ual dos ocabulá ios. Essa p opos a se baseou na con e são dos dados b u os em abs ações quan i a i as, undadas na in e ação en e a iá eis do ipo ca egó ico (Beaudouin, 2016). Em sín ese, Benzéc i (1992) con e eu a insc ição dos dados ex uais em abelas de con ingência, ep esen ando o c uzamen o en e linhas ( a iá eis, como pala as) e colunas (obse ações, como em documen os ou discu sos). Além de c ia um algo i mo capaz de ealiza essa análise, inse indo as a iá eis em um plano a o ial a pa i da dis ância dis ibucional, o au o ino ou ao de ende a u ilização de so wa es compu acionais na análise linguís ica. Benzéc i (1977) ambém sus en ou a impo ância heu ís ica da classi icação, baseada em uma abo dagem indu i a. Já no inal da década de 1970, o sociólogo Max Reine c iou o mé odo Analyse Lexicale pa Con ex e d’un Ensemble de Segmen s de Tex e (Alces e), um p olonga- men o das p oposições de Ha is e Benzéc i. No en an o, a as ando-se da linguís ica dis ibucional ha issiana, Reine (1990) não buscou e i ica a combinação en e mo emas em es u u as sin á icas, mas examina a oco ência de ocábulos em di e- en es enunciados, a ados como unidades de con ex o. A escolha de pala as na eiculação de discu sos, independen emen e da o ganização pa icula das ases, aduzi ia a mani es ação de isões de mundo subjacen es. TEXTO pa a DISCUSSÃO 16 2915 Um con eúdo ex ual assim concebido, além de aduzi ep esen ações singula es sob e um ema, epo a-se, em úl ima ins ância, a quad os pe cep i os e cogni i os com ela i a coe ência in e na (Reine , 1987). Com o a amen o es a ís ico e classi ica ó io de uma g ande quan idade de enunciados, cabe ia ao analis a e i ica as egula idades na dis ibuição ocabula , a pa i da busca po pa âme os explica i os. Segundo Reine (1987; 2007), ais egula idades de i am da es u u a social da população, endo em is a os esquemas de ação e pensamen o que são comunicados em en e is as, bem como as condições sociais, cul u ais e na a i as que se conec am à p odução dos enunciados. É com esse en endimen o que o au o desen ol eu a classi icação hie á quica descenden e (CHD), uma écnica capaz de cindi um co pus ex ual a pa i da oco ência ocabula . Pa a isso, inicialmen e as pala as são lema izadas, ou seja, con e idas em suas o mas eduzidas, 6 maximizando o po encial de ag egação e compa ação. Em seguida, os dados ex uais são insc i os em abelas de con ingência, c uzando as linhas (enunciados) com as colunas ( ocábulos). Aqui, no a-se uma di e ença em elação aos esc i os de Benzéc i: se, pa a esse au o , as abelas de e iam con e a equência das pala as em um conjun o de obse ações, em Reine (1987; 1990), ano am apenas a exis ência (ma cada com o núme o 1) ou a ausência (0) dos ocábulos em cada uni- dade de con ex o. Nas abelas, a écnica isa ag upa os enunciados com oco ências ocabula es semelhan es, po meio de sucessi as bipa ições. Nes e a igo, u ilizei uma e são mais a ual do algo i mo da CHD, com base nas suges ões de Ra inaud (2018). O p imei o passo consis e em di idi a abela o al do co pus em duas, isando à ealização de es es qui-quad ado (x2) em cada subma iz esul an e. Assim, o na-se possí el mensu a a dis ância en e a quan idade de oco ências em cada ocábulo (qo) 7 e a quan idade espe ada de oco ências em caso de con i mação da hipó ese nula (qe). As equências espe adas são núme os hipo é icos, como es ima i as pa a as equências em caso de independência en e as a iá eis. São calculadas a pa i da mul iplicação do o al das equências em uma linha pelo o al das equências em uma coluna, di idido pelo amanho o al da amos a. Sob esses e mos, a ó mula pode se exp essa da seguin e o ma: 6. Pa indo dos adicais, com e bos no in ini i o e subs an i os e adje i os na in lexão singula e masculina. 7. Nas abelas esul an es, os alo es de oco ência pa a cada ocábulo são somados. Ou seja, se ês segmen os de ex o ap esen am a pala a abalho, a célula des inada a esse ocábulo passa a e alo ês. Com isso, são ealizados os cálculos do qui-quad ado a pa i da compa ação en e as equências obse adas e as equências espe adas em caso de con i mação da hipó ese nula. TEXTO pa a DISCUSSÃO TEXTO pa a DISCUSSÃO 17 2915 (1) Em seguida, o alo do es e é di idido pelo núme o o al de oco ências na ma iz (N), ep esen ando a soma ponde ada das dis âncias qui-quad ado (Guedes e al., 1999). Desse modo, o algo i mo seleciona uma bipa ição nas quais as abelas esul an es maximizam os alo es inais. Cada linha em seguida é “ ocada” en e uma abela e ou a, e, epe indo-se os cálculos, são conse adas as al e ações que o iginam alo es supe io es pa a o es e. Vale no a que os ocábulos pouco ep e- sen a i os8 são sup imidos. Após esses p ocedimen os, mensu a-se um índice de homogeneidade (C) em cada pa ição, e as abelas com meno es esul ados, ou seja, mais he e ogêneas, são al o de no as di isões. A inicia i a inclui o núme o o al de oco ências na ma iz (N) e os a ibu os da abela de con ingência: (2) Os cálculos an e io es são ealizados a é que uma dada quan idade de classes e minais seja ob ida, sendo es e um pa âme o a iá el que comumen e é escolhido pelo pesquisado a pa i de es es explo a ó ios. Finalmen e, calcula-se o alo do qui-quad ado pa a a associação en e cada pala a e as classes esul an es. Pa a isso, le am-se em con a o c uzamen o en e os ocábulos, insc i os em linhas nas abelas de con ingência e a e idos po meio das suas equências absolu as, e as classes, con as- ando uma classe sob exame e odas as ou as omadas em conjun o (Pélissie , 2017). Também é possí el c uza as classes com as ca ac e ís icas das unidades de con ex o, que sin e izam, no caso des a pesquisa, o pe il dos en e is ados. O qui-quad ado e os g aus de libe dade9 de inem um alo -p, e usualmen e uma associação en e a iá eis é conside ada signi ica i a quando esse índice é in e io a 0,05. A abo dagem se mos ou capaz de sublinha a es a i icação do desemp ego e da p o eção amilia , com ên ase na jus aposição en e os di e en es ipos de desigualdade socioeconômica. Ao econhece esses p ocedimen os como ajus ados aos obje i os 8. Com base nos esul ados dos es es qui-quad ado. 9. Quan idade de linhas menos um, di idido pela quan idade de colunas menos um. Ou seja, gl = (l -1) / (c - 1). TEXTO pa a DISCUSSÃO 18 2915 des e a igo, especi iquei como léxicos a i os10 os subs an i os, os e bos e as “ o mas não econhecidas”, que, no caso do es udo, a ingi am as pala as hi enizadas. Fo am a ibuídas oi o classes e minais na ase 1 da classi icação, escolha omada com base em es es explo a ó ios, e i ando uma agmen ação excessi a dos léxicos e isando a um bom ap o ei amen o das oco ências. Uma pa icula idade des a pesquisa é digna de no a. São mais eco en es os es udos que assumem os enunciados como independen es en e si, es ingindo os es es es a ís icos às ases delimi adas po pon uação. Em con apa ida, op ei po oma as en e is as como unidades de análise, comp eendendo o discu so de cada indi íduo como do ado de ela i a coe ência in e na. Os c uzamen os em abelas de con ingência conside a am, en ão, a p esença ou a ausência dos léxicos em cada en e is a, seguindo de es o os pa âme os já explici ados. Como obse ado em es es iniciais, a classi icação po enunciados p i ilegia um le an amen o emá ico (quais os p incipais assun os e ocados nas alas?), enquan o a análise po en e is as elucida as di e enciações de con eúdo (como, no ce ne de cada emá ica, oco em expe iências pessoais dis in as?). As po encialidades des a úl ima abo dagem, mais a inadas à pesquisa, jus i icam a sua escolha. Essa inicia i a me pe mi iu chega a um modelo de classi icação do desemp ego, a pa i de uma écnica es a ís ica e di ecionada aos discu sos o ais. Os ópicos seguin es ap esen am os achados da pesquisa, e elando como os indi íduos a iculam as emá icas do desemp ego e da es e a amilia em seus ela os. 5 AS CLASSES LEXICAIS A CHD classi icou 96,73% das 245 en e is as p esen es no co pus, ano ando 2.855 o mas ocabula es e 25.069 oco ências. Como esul ado de sucessi as bipa i- ções, o am p oduzidos dois g upamen os: um o mado pelas classes 1 (aba cando 22,8% das en e is as) e 2 (26,2%), e ou o pelas classes 3 (30,4%) e 4 (20,6%). Pa a cada classe, a abela 2 in o ma os in a ocábulos com os maio es alo es do es e qui-quad ado.11 10. Os léxicos a i os são os que se em de base pa a os cálculos. 11. Fo am ap esen adas apenas as pala as com alo -p < 0,05. TEXTO pa a DISCUSSÃO TEXTO pa a DISCUSSÃO 19 2915 TABELA 2 Pala as mais ep esen a i as de cada classe lexical Rami icação 1 Rami icação 2 Classe 1 Classe 2 Classe 3 Classe 4 Indica Sus en a Deus Concu so Dono Te eno Come Bolsa Liga Mão Casa Man e Ad ogado Faxina Necessidade Começo Esposo Tio Dinhei o Di ei o Esc i ó io P o issão Luz Ajuda Se iço Aposen a Rua Melho a Deixa Ba Água Es uda Coloca Mon a Sob e i e Cob a Vi En a Vez Acaba A uma Casa Mês Tende Mulhe P imo G aça Es udo Mesada P e ei u a P eocupa Con li o Mon e Educação Bolsa Família Si uação Bico Ba aca Da Final Cunhado P ocesso Ti a Fossa Luga Início Fal a Te mo En e is a Bebe Despesa Es abilidade T abalho Seguida Nasce Decidi Cidade Menina Paga Muda Causa Comple a Vi e Opo unidade Su gi Con inua Mãinha Meio Salão Negócio Mexe Á ea Fo mação Vi a Tele one Fo ma Ensina Época Moço Mes ado Banca Vende Que e Relação Mãe P o esso Gen e Passo Pega Ca o Vida Ho a Fon e: Co pus desen ol ido a pa i do banco de dados da pesquisa Radiog a ia do B asil Con empo âneo. Elabo ação do au o . TEXTO pa a DISCUSSÃO 20 2915 Pela simples isualização, é possí el a i ma que as classes são bas an e di e- en es en e si. Ao pensa mos nas expe iências de desemp ego e omando a amília como e e ência discu si a, a p imei a ami icação (classes 1 e 2) opõe a ad ocacia e a axina, o esc i ó io e o ba . Já a segunda ami icação (classes 3 e 4) con as a a necessidade e a es abilidade, bem como a insegu ança alimen a e o engajamen o em concu sos públicos. Pa a um exame mais acu ado, ou os expedien es mos am-se necessá ios. O p óximo passo consis e em inse i os léxicos em um plano ca esiano, a pa i de uma análise a o ial de co espondência (AFC). Na igu a 1,12 o amanho das pala as condiz com os alo es do es e qui-quad ado pa a as classes, enquan o a de inição das coo denadas ad ém da chamada dis ância dis ibucional, que é calculada da seguin e o ma: en e dois léxicos e , de inidos po colunas em uma abela de con ingência, ano am-se os alo es e e en es ao c uzamen o com as unidades de análise, no caso as en e is as, de inidas po linhas ( ). Pa a cada c uzamen o, é con abilizado o quad ado da di e ença dos alo es en e os léxicos. A di e ença é ep esen ada po , sendo o alo ob ido pa a o léxico na linha . Em seguida, o esul ado é mul ipli- cado po um coe icien e que de e con empla o p incípio da equi alência dis ibucional, assumindo o alo de sendo a soma dos alo es de odos os léxicos na linha . Ao analisa a abela em sua o alidade, a dis ância ao quad ado en e os léxicos e , já que di ecionada a uma dupla espos a pa a cada c uzamen o, é assim ep esen ada: (3) Como esul ado, na igu a 1, a ami icação compos a pelas classes 1 ( oxo) e 2 ( osa) localiza-se à esque da do plano; e as classes 3 ( e de) e 4 (la anja) encon am-se no lado con á io. As linhas acejadas delimi am os di e en es emas comunicados nas en e is as. Pelo a o 1 (cisão e ical), os ocábulos si uados no lado di ei o do plano e ocam aspec os da ida amilia , p i ilegiando as a i idades do dia a dia e o acesso a bens, enquan o no lado esque do, oco em emissões aos pe íodos de en ada e saída do me cado de abalho. Já o a o 2 (cisão ho izon al) di e encia a quan idade 12. Na igu a 1, cons am os léxicos que, em associação com as classes, ap esen a am alo es pa a o es e qui-quad ado iguais ou supe io es a qua o. Vis o que o I amu eq não pe mi e núme os decimais, esse alo é o que mais se ap oxima dos alo es mínimos do qui-quad ado encon ados na composição das classes, e i ando que pala as sem associação signi ica i a ossem incluídas. No en an o, algumas pala as ap esen a am alo es in e io es a qua o pa a o qui-quad ado e, mesmo assim, e ela am alo -p < 0,05: oma na classe 1; ende na classe 2; le a na classe 3; e his ó ia, on e, p azo, manei a, e e ei o, es ibula , poupança, pio a , pesquisa, pesa , g aduação, olga e exe ce na classe 4. TEXTO pa a DISCUSSÃO TEXTO pa a DISCUSSÃO 21 2915 de ecu sos en ol idos nas expe iências de desemp ego, indo do ex emo in e io do plano (menos ecu sos) ao ex emo supe io (mais ecu sos). FIGURA 1 Inse ção dos léxicos em um plano ca esiano a pa i da AFC Fon e: Co pus desen ol ido a pa i do banco de dados da pesquisa Radiog a ia do B asil Con empo âneo. Elabo ação do au o . Obs.: igu a cujos leiau e e ex os não pude am se pad onizados e e isados em i ude das condições écnicas dos o iginais (no a do Edi o ial). TEXTO pa a DISCUSSÃO 22 2915 Após esse pano ama, con ém di e encia os pa es lexicais indicados pelo a o 1 ( emas comunicados nas en e is as), de modo a e i ica como são a a essados pelo a o 2 (quan idade de ecu sos). Com esse obje i o, os sub ópicos seguin es a am dos pa es de classes da igu a 1, opondo, sepa adamen e pa a cada um desses pa es, os léxicos nas posições supe io e in e io do plano. P i ilegia ei os léxicos com maio pode explica i o e cujos sen idos o am minimamen e compa ilhados pelos en e- is ados. Isso e i a a u ilização de pala as com signi icados mui o di e sos, o que p ejudica ia a compa abilidade in a e in e classes. Na ap esen ação dos esul ados, nomea ei as classes po exp essões cu as, sin e izando as suas p incipais ca ac e ís i- cas. Também inclui ei exce os das en e is as na desc ição de cada classe, pois se ia di ícil, apenas pela cons a ação das oco ências ocabula es, ap eende o signi icado das pala as e os con ex os de emissão dos enunciados. 5.1 Desemp ego e ida amilia Como demons a a igu a 1, o lado di ei o do nosso “mapa” es á apa ado em di e en es polos de condições de exis ência, e elando como a es e a amilia é a e ada pela pe da do abalho, ou se o ganiza em deco ência disso. Na pa e in e io do plano e na co e de, os léxicos da classe 3, ago a denominada em dispu a po necessidades básicas, desc e em a obs ução no acesso a ecu sos essenciais, sob e udo no ocan e à mo adia e alimen ação. Despon am pala as como come e sob e i e , da mesma o ma que as en e is as lis am os gas os da casa, como em paga , água, luz, ele one e ei a. Pelo es e qui-quad ado é possí el ano a uma associação signi ica i a en e essa classe e o sexo eminino, oco endo o mesmo pa a a ca ego ia acial p e a (ambos com p < 0,01). Os esul ados indicam, sob e udo, uma es a i icação socioeconômica da expe iência amilia do desemp ego, dema cando o mas mui o dis in as de acesso a bens e se iços. Ainda que sejam egis adas edes de oca en e pa en es, a classe em dispu a po necessidades básicas assume os con o nos da p eca iedade e da escassez. Reunindo léxicos nos quais as demandas amilia es mais undamen ais não são pe cebidas como ga an idas, mas passí eis de dispu a co idiana, di eciona-se especialmen e à dimensão ma e ial, como em al a , enda e dinhei o, en a izando ambém sua in e ace com o Es ado, a pa i do usu u o de bene ícios socioassis enciais (Bolsa Família). TEXTO pa a DISCUSSÃO TEXTO pa a DISCUSSÃO 23 2915 As di iculdades de inse ção p o issional ul apassam pe íodos ci cunsc i os, acom- panhando o decu so das biog a ias. Da mesma o ma, ex apolam os limi es da expe- iência indi idual, o que e idencia a o mação de edes de desemp egados. O pio é que sou eu sozinho, né, que minha mulhe não es á abalhando mais. Ela es á desemp egada. Meu en eado ambém, que eu enho ou a mulhe , e um en eado ambém es á desocupado, não em como abalha . En ão eu ou i endo a ida assim: pego com um, pago o ou o, pago mais ou o e assim ou pagando água, luz, isso, aquilo e aquilo ou o, daí o negócio [da con a] do ele one, udo. Eu mando a mulhe gua da . Deixa gua dado, deixa gua dado. Quando p ecisa , a gen e gas a só um pouquinho (homem pa do, 53 anos, ensino undamen al incomple o, São Paulo capi al). Po que o meu ape eio odo é al a alimen ação den o de casa (…) Sem emp ego, sem enda, só com o Bolsa Família, que é ixo mas qualque ho a pode acaba , es á en endendo? Os ilhos já es ão icando udo g ande… Aí, sem casa, mo ando de aluguel, só com o Bolsa Família, e pensando dia e noi e no que ai se e no que ai e hoje e amanhã. Às ezes eu peço esmola po que não em jei o. Quando peço, eu es ou dizendo pa a mim e pa a o po o que acassei, né? (mulhe p e a, 44 anos, ensino undamen al incomple o, Na al). A espei o das es a égias amilia es de acesso a ecu sos, os ela os se guiam po uma empo alidade imedia a, sendo o mês a mais eco en e unidade de e e ência. Além de en a iza a p eocupação com as despesas, esse aspec o e ela a limi ada e icácia das en eajudas, que exp imem uma en a i a de “sob e i e ” (ou “ i e ”) em meio a um cená io econômico ad e so. En e o pedi e o ajuda , como consequências do p ecisa e do passa necessidade, os indi íduos in en am o acesso a bens e a opo unidades de abalho. Chama a enção, ainda, a a a u ilização de exp essões eligiosas, como Deus e g aça. Eu não es ou abalhando mais, é só o meu ma ido. Mas es á uim de abalho. Ele abalha numa o icina, ajudando, ainda es á ap endendo a mexe em ca o, a conse a , aí o dono só chama e paga quando em mais se iço, aí é mês com mais, é mês com menos dinhei o. Se i esse a casa muda a mui o, po que o que a gen e em não dá pa a mui a coisa, ou ocê paga o aluguel e come, ou não az nada (…) Que o abalha pa a ajuda , e condição de comp a coisas p o meu ilho, sai do aluguel. Pode a é pa ece pecado, Deus me pe doe se eu es i e pecando, mas ocê le a uma ida sem e condição de nada, nem de mo a , nem de come , isso não é ida, po que ocê só consegue isso, e mui o mal, so endo, pedindo emp es ado, sem pe spec i a nenhuma. A gen e ica TEXTO pa a DISCUSSÃO 24 2915 sob e i endo como se es i esse numa gue a (mulhe pa da, 26 anos, ensino undamen al comple o, Na al). É que a minha amília é mui o g ande e nós es amos so endo mui o. Saímos eu e mais dois i mãos e iemos p a cá, só que nós es amos p ecisando de ajuda. Eles são de maio , mas eu não sou. E eu p eciso de abalho p a pode manda um dinhei o p a casa. Eu que o abalha (homem b anco, 52 anos, ensino undamen al incomple o, Manaus). O apoio amilia assume um ca á e limi ado, concen ando-se nas demandas eme genciais. De um lado, o jun a condiz com a eunião das economias amilia es e a o mação de poupanças modes as. De ou o, no a-se o cuida de indi íduos dependen es, pa icula men e de c ianças. Se, po ezes, a solida iedade in e ge acional é capaz de p o e ecu sos básicos, em ou as, o desemp ego apa ece como um obs áculo incon o ná el. Ademais, a ma e nidade (nasce e ilho) assume posição de ele ância, como uma expe iência o emen e a e ada pelas ince ezas do desemp ego. Também é impo an e o papel das mães13 nos ela os, como igu as que demandam ou que p o eem cuidado. Eu já inha essa ideia, aí cheguei pa a minha esposa, na época a gen e ainda es a a namo ando, e disse: “olha, eu es ou jun ando dinhei o p a ab i uma emake ia u u amen e, daqui a uns dois, ês anos” (homem pa do, 30 anos, ensino médio comple o, Reci e). Quando a minha ne a nasceu eu iquei cuidando dela. An es eu i e uma lojinha, mas eu pa ei po que não es a a podendo mais iaja . Aí não deu mui o ce o, passei ês anos den o de casa e, de ido a minha idade, ocê sabe... Eu não enho nem o segundo g au comple o, en ão as coisas icam mais di íceis, o me cado de abalho... A minha ilha mais no a, a mãe da bebê, ela semp e abalhou, só icou pa ada no pe íodo que e e neném, oi o meses. Aí ela disse: “Não, mãinha, eu ou abalha e u ica cuidando da menina”, da minha ne a. Ela e meu ou o ilho me ajuda am (mulhe pa da, 44 anos, ensino undamen al incomple o, Na al). Já os ocabulá ios da classe 4, si uados na posição opos a do plano e na co la anja, associam o desemp ego a ou os desa ios co idianos. Nessa classe, in i ulada in es imen o e ci culação de ecu sos, a ida amilia passa a se associada ao supo e ma e ial e à p ojeção do indi íduo pa a ocupações en endidas como adequadas, e e- lando uma associação signi ica i a com o ensino supe io comple o (p < 0,01), com a ca ego ia acial b anca (p < 0,05) e com o sexo masculino (p < 0,05). 13. Ou “mãinha”, como uma pala a ca inhosa e in o mal u ilizada nos es ados no des inos. TEXTO pa a DISCUSSÃO TEXTO pa a DISCUSSÃO 31 2915 O le an amen o da li e a u a colocou o a igo em diálogo com pesquisas que, sem pa i em de um iés de e minis a sob e os e ei os do desemp ego nas elações ami- lia es, econhecem as amílias como o luga no qual os indi íduos expe imen am suas condições de exis ência. Pouco a pouco, passou a ganha ên ase a in e ace en e as ca ac e ís icas es u u ais dos sis emas p odu i os e dos sis emas de bem-es a , de um lado, e os pad ões de elacionamen o in e pessoal, de ou o, que se exp essam nas o mas de o ganização amilia e de di isão de papeis ge acionais e de gêne o. Em pa icula , a li e a u a b asilei a em discu ido como as elações amilia es cump em um papel decisi o na p ocu a po abalho e na ci culação in o mal de bens e se iços, dados os limi es da p o eção social pública e das polí icas de emp ego. A análise de um banco de dados quali a i o e a iado me pe mi iu classi ica as expe iências ami- lia es du an e o desemp ego, ema que a icula os impac os desiguais do desemp ego nas condições de exis ência e os epe ó ios amilia es de supo e ma e ial e a e i o. De início, ap esen ei um pano ama das egula idades p esen es nos ela os, con on- ando, logo em seguida, os pa es de classe a pa i dos léxicos e dos pe is pessoais. Os esul ados a es am um con inuum no acesso a ecu sos que segue os ex emos in e io e supe io do plano. As desigualdades socioeconômicas se jus apõem, o que indica que a es a i icação da p o eção amilia du an e o desemp ego deco e de um sis ema mul idimensional de di e enças econômicas (os ecu sos disponí eis e os a i os que podem se mobilizados no me cado de abalho) e hie a quias simbólicas (como os indi íduos são a aliado pelo me cado de abalho e assumem posições nas edes in e pessoais). A oposição en e as classes que compõem o lado di ei o do plano ilus a aspec os mais amplos da ida em amília. A classe em dispu a po necessidades básicas é ep esen ada po indi íduos com baixa escola idade – embo a de o ma dispe sa, sem associação signi ica i a com os ní eis educa i os –, com pa icipação impo an e de mulhe es e p e os. Nesses g upos, o am e i icadas de e io ações mais g a es das condições inancei as du an e expe iências de desemp ego, a ualizando os achados de Guima ães, Sil a e Fa below (2004). Vimos que o desemp ego ep esen a a uma ameaça à sob e i ência do g upo domés ico, de ido aos longos pe íodos de p ocu a po abalho, à escassez de ecu sos complemen a es e à exis ência de edes de desemp egados, o que di icul a a a ci culação de en eajudas. Nesses casos, o desemp ego não cons i ui uma expe iência da ada, mas um p oblema que acompanha as biog a ias pessoais, aduzindo pe íodos eco en es nos quais os ecu sos básicos são al o de dispu a co idiana. TEXTO pa a DISCUSSÃO 32 2915 O desemp ego eminino ap esen ou e ei os especialmen e nega i os nos a anjos o mados po uma única p o edo a com ilhos, que são sob e ep esen ados en e os pob es (Maia e al., 2015; Raihe , 2016). Esse enômeno é adensado po algumas ca ac e ís icas das aje ó ias emininas. A li e a u a apon a que as mulhe es en en am maio es chances de desemp ego de longa du ação, acessam polí icas de emp ego com menos equência, conjugam a e as p odu i as e ep odu i as e se engajam em ocupações com pio es salá ios, o que p ejudica a o mação de poupanças (Mon agne , 2004; Menezes e Cunha, 2013; Hi a a, 2014). Nas en e is as, a ma e nidade é desc i a como uma expe iência ince a, po causa da escassez de ecu sos e do aumen o da demanda pelas a i idades de cuidado. Nos es a os empob ecidos, essa demanda cos- uma se sanada pelas elações in o mais de pa en esco, sob e udo a pa i da a uação de pa en es do sexo eminino (Guima ães, 2020). Tudo apon a pa a uma associação signi ica i a en e o desemp ego eminino e a p eca iedade das condições ma e iais, o que de ine, em g ande pa e, a classe em dispu a po necessidades básicas. Também oi egis ada uma di e enciação dos discu sos dos en e is ados en e os g upos aciais: mui os indi íduos que se decla a am p e os incula am o desemp ego a expe iências de p eca iedade e escassez, de manei a mui o mais equen e do que os b ancos e ama elos. A li e a u a é uní oca em a i ma que os abalhado es p e os cos umam assumi as pio es posições da es u u a ocupacional, com consequências de longo p azo pa a suas aje ó ias pessoais (Ca doso, 2013). Po sua ez, Lima (2012) a i ma que, além de os p e os e pa dos es a em sob e ep esen ados en e os pob es, a pe ença acial é decisi a pa a o acesso a opo unidades, combinando posição social do indi íduo, p ocessos disc imina ó ios, ansmissão in e ge acional de ecu sos e as ca ac e ís icas do e i ó io e das edes in e pessoais. É incon o ná el discu i o papel da aça na es a i icação social b asilei a, cujo e ei o mais palpá el é a exis ência de des an agens sis emá icas pa a os p e os e pa dos (Ba e o e al., 2017). A in luência da aça na de inição das classes lexicais é um enômeno mul i ace- ado. De ido às pio es condições de ida, os impac os do desemp ego endem a se mais se e os en e os indi íduos p e os, pois, na impossibilidade de jun a poupança ou acessa ecu sos ia pa en es, a sa is ação das necessidades básicas es á a elada ao abalho diá io. Segundo dados da PNAD Con ínua, no início de 2016, 29,1% dos indi íduos au odecla ados p e os nas egiões me opoli anas habi a am em domicílios com enda pe capi a de a é me ade do salá io-mínimo, con a 13,3% dos b ancos. Em ou as pala as, p e os e b ancos i em em cená ios econômicos bas an e di e en es, sendo que os p imei os, ao con á io dos úl imos, endem a ela a o desemp ego como uma ameaça à sob e i ência do g upo domés ico. A isso se soma o a o de os TEXTO pa a DISCUSSÃO TEXTO pa a DISCUSSÃO 33 2915 abalhado es p e os cos uma em a ua em se o es com al a o a i idade p o issional, ais como a cons ução ci il e os se iços domés icos, o que o na o desemp ego um p oblema eco en e nas biog a ias pessoais e que p ejudica p oje os du adou os de ob enção de ecu sos. Finalmen e, ou as des an agens se acumulam nas aje ó- ias desses indi íduos, ais como as pio es condições de in aes u u a dos bai os de mo adia, com p ejuízo ao acesso a bens e se iços, e meno es chances de é mino da educação básica e acesso ao ensino supe io . Em e ospec o, na classe em dispu a po necessidades básicas, as es a égias amilia es de acesso a ecu sos assumem um ca á e di uso, di ecionadas às demandas mais imedia as e essenciais, especialmen e o pagamen o de con as e a comp a de alimen os. Já no lado opos o do plano ca esiano, os indi íduos que compõem a classe in es imen o e ci culação de ecu sos – com o mação uni e si á ia, no ada- men e homens e b ancos – associam o desemp ego a ce as mudanças nos pad ões de consumo, p o ocando a edução de gas os suplemen a es e não impe a i os. As es a égias amilia es mo imen am quan idades signi ica i as de ecu sos, a pa i do in es imen o educacional e isando ao ing esso em melho es emp egos. Pa a isso, o apoio ma e ial e a e i o desempenhado po pa en es é mui o impo an e, p incipalmen e po ia in e ge acional, o que dialoga com o es udo de Binns e Ma s (1984) sob e os es a os médios. Essa classe lexical pode se de inida como o con á io da p imei a, no que diz espei o aos seus léxicos e aos pe is pessoais. Os homens b ancos expe imen am a jus aposição de duas das posições mais segu as no me cado de abalho, de ido a a o es como maio es abilidade e o malização ocupacional, o que bene icia, ao mesmo empo, os p oje os de acesso a ecu sos e às polí icas de emp ego), pe íodos mais b e es de desemp ego e baixa demanda pelo desempenho de abalho ep odu i o (Guima ães e B i o, 2008; So j, 2013; Hi a a, 2014). Quando mui o, o desemp ego apa- ece como um des io de pe cu so, p o ocando mudanças na o ina do desemp egado e de seus amilia es. Po duas azões, a escola idade ele ada apa ece como uma ma ca impo an e dessa classe lexical. Em p imei o luga , a despei o de mudanças his o icamen e ecen- es, no B asil, o ní el escola e ela uma al a capacidade de p edize a o igem social (Ribei o, 2017). Os indi íduos com o mação uni e si á ia, como os que in eg am a classe in es imen o e ci culação de ecu sos, endem a des u a de mon an es de ecu sos mais signi ica i os nas amílias. E em segundo luga , a escola idade cons i ui um impo an e a i o no me cado de abalho, de e minando as chances econômicas TEXTO pa a DISCUSSÃO 34 2915 dos abalhado es (Laue , 2003; Bo ges, 2006). Com e ei o, os impac os do desemp ego endem a se eduzidos en e os abalhado es com ní el supe io , pois não é a o que des u em de poupança, acesso a segu os, em pa icula , de ido à pa icipação em emp egos o mais, e auxílios de pa en es mais bem posicionados no me cado de a- balho. Em ez de despon a como um pe íodo de angús ia e p i ação, o desemp ego condiz com uma en a i a de ecolocação no me cado de abalho, de o ma planejada e a longo p azo. Enquan o isso, a iden idade p o issional é conse ada, e a p ocu a po abalho cos uma se concen a em de e minados nichos ocupacionais, expe iências que são ípicas dos abalhado es quali icados (Hi a a e Humph ey, 1989). Po sua ez, a di isão en e as classes si uadas à esque da do plano ca esiano exp imiu os pe íodos de en ada e saída do me cado de abalho, e o çando o papel da amília nas es a égias de acesso a ecu sos. Aqui, ainda que as di e enças en e as classes me eçam ealce, suas on ei as são po osas, ao con á io da ami icação an e io , ma cada po uma di isão mui o ní ida. A classe inse ção labo al p ecá ia eúne ocupações ins á eis e com baixos en- dimen os e ap esen ou uma o e associação com o ensino undamen al comple o. Nessa classe, o supo e amilia es á o ien ado ao sus en o básico e às en a i as de inse ção p o issional, comumen e no se o in o mal da economia. Os abalhado es endem a possui baixa escola idade e poucos ecu sos, e seus ela os aduzem mui o bem o que Telles (2006) denomina po “ i ação”. A pa i de emp eendimen os a iados, o “se i a ” e a a soluções empo á ias e eme genciais, em espos a às demandas de cu o p azo e ao echamen o do me cado de abalho. Pa a isso, o supo e amilia se e ela indispensá el. Já na classe aje ó ias labo ais ala ancadas po auxílios, os léxicos iden i icam ocupações com melho es salá ios, a despei o de uma g ande di e sidade in e na. Os in es imen os amilia es assumem a in e mediação labo al e a desob igação inancei a como al os p incipais, com o obje i o de melho a as condições de p ocu a po abalho. Vale no a que algumas inicia i as, como a ci culação de in o mações ocupacionais e a c iação de canais de comunicação en e emp egado es e desemp egados, são decisi as pa a o sucesso dessa p ocu a. Isso é ainda mais impo an e no B asil, onde o me cado de abalho é opaco e pouco ins i ucionalizado, o que az com que os abalhado es dependam de con a os in o mais pa a se o na em compe i i os. Os ela os, sob e udo de indi íduos escola izados, en a izam o papel das amílias na acili ação do acesso a ocupações, bem como na ga an ia das condições de p ocu a. TEXTO pa a DISCUSSÃO TEXTO pa a DISCUSSÃO 35 2915 Ao con apo desemp egados com pe is socioeconômicos di e sos, os esc i os a ança am em um e eno ainda pouco explo ado em nossa li e a u a, abo dando as expe iências de desemp ego a pa i do a amen o es a ís ico de dados quali a i os, o iundos de en e is as. Além de dialoga com con ibuições ecen es da li e a u a b asilei a sob e o ema, o a igo ap esen a uma in e p e ação au o al ace ca da in e - ace en e amília e desemp ego em di e en es g upos sociais. Ainda assim, pesquisas u u as podem ap o unda o en endimen o sob e as aje ó ias de indi íduos desem- p egados, conside ando as elações in a amilia es e as mudanças obse adas ao longo dos ciclos de ida. Também ale indaga como a es a i icação da expe iência de desemp ego, discu ida ao longo des e a igo, mudou após a pandemia de co id-19. Essa agenda pode elucida as dispu as em o no da elabo ação e da implemen ação de polí icas públicas; as ans o mações das on ei as en e o desemp ego, a ocu- pação e a ina i idade; e os e ei os socioeconômicos da pandemia em di e en es g upos de abalhado es. REFERÊNCIAS BARRETO, Paula e al. En e o isolamen o e a dispe são: a emá ica acial nos es udos sociológicos no B asil. Re is a B asilei a de Sociologia, . 5, n. 11, p. 113-141, 2017. BEAUDOUIN, Valé ie. S a is ical Analysis o Tex ual Da a: Benzéc i and he F ench School o Da a Analysis. Glo ome ics, . 33, p. 56-72, 2016. BENZÉCRI, Jean-Paul. His oi e e p éhis oi e de l’analyses des données. Les Cahie s des Analyse des Données, . 2, n. 1, p. 9-40, 1977. ______. Co espondence Analysis Handbook. Fló ida: CRC P ess, 1992. BILAC, Elisabe e. Famílias de abalhado es: es a égias de sob e i ência. São Paulo: Símbolo, 1978. ______. T abalho e amília: a iculações possí eis. Tempo Social, . 26, n. 1, p. 129-145, 2014. BINNS, Da id; MARS, Ge ald. 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