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DUAS REALIDADES, UM PANORAMA: DESAFIOS E DISPARIDADES NA SAÚDE BUCAL DE JOVENS DO NORDESTE E CENTRO-OESTE

Perazoli Duarte, Maria Cecilia; Matos Silva, Bianca Luíza; Pereira, Camilly Lara; Costa Rodrigues, Gabriel; Fonseca Nunes, Laysa; Bontempo Caixeta, Marcos; Oliveira de Souza, Maria Luiza; de Amorim Carvalho, Thiago; Souza Matos, Denise

Abstract

O trabalho realizou uma revisão de literatura com foco nas disparidades regionais e nos fatores determinantes da saúde bucal em adolescentes do Brasil. O objetivo principal foi analisar e sintetizar o perfil epidemiológico (ocorrência, distribuição e severidade) das principais doenças e agravos em saúde bucal, como cárie e traumatismos dentários, na população adolescente das regiões Nordeste e Centro-Oeste. Buscou-se identificar como a interação de fatores de risco biológicos, sociais, comportamentais e o acesso aos serviços de saúde influenciam a severidade desses agravos, subsidiando o planejamento de ações preventivas e de promoção da saúde. Foi conduzida uma revisão de literatura utilizando as bases de dados PubMed, SciELO e EBSCOhost. A busca incluiu artigos publicados na íntegra nos últimos dez anos. A pergunta de estudo foi elaborada a partir do acrônimo CoCoPop, focando na influência de fatores na ocorrência de doenças bucais em adolescentes (Pop) do Nordeste e Centro-Oeste (Contexto). Os achados indicam que, apesar dos avanços nas políticas públicas, persistem desigualdades regionais expressivas na saúde bucal. As regiões Nordeste e Centro-Oeste, com menor renda e escolaridade, apresentaram maiores índices de cárie, doença periodontal e trauma dentário em populações vulneráveis, o que reflete as desigualdades socioeconômicas estruturais. A integração entre saúde e educação, por meio de programas como o PSE, mostrou-se essencial para fortalecer o autocuidado e as ações preventivas. Conclui-se que políticas públicas contínuas, integradas e estratégias educativas voltadas especificamente para adolescentes são fundamentais para reduzir as desigualdades sociais, aumentar o acesso aos serviços e, consequentemente, melhorar a saúde bucal coletiva no Brasil.

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BRAZILIAN JOURNAL OF ORAL AND SYSTEMIC HEALTH DOI doi.org/10.5281/zenodo.17861436 http://bjoshealth.com.br ISSN 3085-8097 DUAS REALIDADES, UM PANORAMA: DESAFIOS E DISPARIDADES NA SAÚDE BUCAL DE JOVENS DO NORDESTE E CENTRO-OESTE Two realities, one panorama: challenges and disparities in the oral health of young people from the northeast and midwest of Brazil Volume 1 Número 2 Jul-Dez 2025 REVISÃO DE LITERATURA Maria Cecilia Perazoli Duarte1 ; Bianca Luíza Matos Silva1 ; Camilly Lara Pereira1 ; Gabriel Costa Rodrigues1 ; Laysa Fonseca Nunes1 ; Marcos Bontempo Caixeta1 ; Maria Luiza Oliveira de Souza1 ; Thiago Amorim de Carvalho2 ; Denise de Souza Matos2 RESUMO O trabalho realizou uma revisão de literatura com foco nas disparidades regionais e nos fatores determinantes da saúde bucal em adolescentes do Brasil. O objetivo principal foi analisar e sintetizar o perfil epidemiológico (ocorrência, distribuição e severidade) das principais doenças e agravos em saúde bucal, como cárie e traumatismos dentários, na população adolescente das regiões Nordeste e Centro-Oeste. Buscou-se identificar como a interação de fatores de risco biológicos, sociais, comportamentais e o acesso aos serviços de saúde influenciam a severidade desses agravos, subsidiando o planejamento de ações preventivas e de promoção da saúde. Foi conduzida uma revisão de literatura utilizando as bases de dados PubMed, SciELO e EBSCOhost. A busca incluiu artigos publicados na íntegra nos últimos dez anos. A pergunta de estudo foi elaborada a partir do acrônimo CoCoPop, focando na influência de fatores na ocorrência de doenças bucais em adolescentes (Pop) do Nordeste e Centro-Oeste (Contexto). Os achados indicam que, apesar dos avanços nas políticas públicas, persistem desigualdades regionais expressivas na saúde bucal. As regiões Nordeste e Centro-Oeste, com menor renda e escolaridade, apresentaram maiores índices de cárie, doença periodontal e trauma dentário em populações vulneráveis, o que reflete as desigualdades socioeconômicas estruturais. A integração entre saúde e educação, por meio de programas como o PSE, mostrou-se essencial para fortalecer o autocuidado e as ações preventivas. Conclui-se que políticas públicas contínuas, integradas e estratégias educativas voltadas especificamente para adolescentes são fundamentais para reduzir as desigualdades sociais, aumentar o acesso aos serviços e, consequentemente, melhorar a saúde bucal coletiva no Brasil. 1 – Discente do Centro Universitário de Patos de Minas – UNIPAM, Patos de Minas, MG, Brazil 2 - Docente do Centro Universitário de Patos de Minas – UNIPAM, Patos de Minas, MG, Brazil Autor de Correspondência: Denise de Souza Matos email: [email protected] Palavras-chave: Adolescentes, Epidemiologia, Odontologia, Saúde Coletiva. Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Dec 8, 2025 ISSN 3085-8097 Duas realidades, um panorama: desafios e disparidades na saúde bucal de jovens do nordeste e centro-oeste Duarte MCP, Silva BLM, Pereira CL, Rodrigues GC, Nines LF, Caixeta MB, Souza MLO, Carvalho TA, Matos DS 600 ABSTRACT The study conducted a literature review focusing on regional disparities and determining factors of oral health among adolescents in Brazil. The main objective was to analyze and synthesize the epidemiological profile (occurrence, distribution, and severity) of the main oral health diseases and conditions, such as dental caries and dental trauma, in the adolescent population of the Northeast and Central-West regions. The aim was to identify how the interaction of biological, social, and behavioral risk factors and access to health services influence the severity of these conditions, thereby supporting the planning of preventive and health promotion actions. A literature review was conducted using the PubMed, SciELO, and EBSCOhost databases. The search included full-text articles published within the last ten years. The study question was developed based on the CoCoPop acronym, focusing on the influence of factors on the occurrence of oral diseases in adolescents (Pop) from the Northeast and Central-West (Context). The findings indicate that, despite advances in public policies, significant regional inequalities persist in oral health. The Northeast and Central-West regions, with lower income and schooling levels, showed higher rates of caries, periodontal disease, and dental trauma in vulnerable populations, which reflects structural socioeconomic inequalities. The integration between health and education, through programs like the PSE, proved essential to strengthen selfcare and preventive actions. It is concluded that continuous, integrated public policies and educational strategies specifically aimed at adolescents are fundamental to reduce social inequalities, increase access to services, and consequently improve collective oral health in Brazil. Keywords: Adolescents, Epidemiology, Dentistry, Public Health. INTRODUÇÃO A epidemiologia é uma forma de constatação em saúde pública. Enquanto a medicina se concentra em entender a doença individualmente, a epidemiologia analisa padrões de saúde e doença em diversificados grupos populacionais. Nesse sentido, atua como uma ferramenta essencial para entender e melhorar a saúde de uma comunidade, com função de promover ações de saúde de ampla cobertura, que visam o bem-estar geral dos indivíduos, e não apenas o tratamento de uma doença específica. Ela identifica as causas que afetam a saúde de grupos de pessoas, fornecendo dados cruciais para planejar, executar e avaliar programas de prevenção, controle e tratamento de doenças. Na área da saúde bucal, a epidemiologia é igualmente fundamental, contribuindo para a compreensão dos níveis de saúde e doença em uma população, permitindo direcionar as políticas públicas de acordo com as necessidades da comunidade. (HERNANDEZ-DONADEU et al., 2023.) A cárie dentária permanece como um dos principais problemas de saúde pública, afetando especialmente crianças e adolescentes. Embora sua prevalência tenha diminuído em âmbito global e nacional, as desigualdades regionais, marcadas principalmente por disparidades sociais, ainda são evidentes no Brasil. Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Dec 8, 2025 ISSN 3085-8097 Duas realidades, um panorama: desafios e disparidades na saúde bucal de jovens do nordeste e centro-oeste Duarte MCP, Silva BLM, Pereira CL, Rodrigues GC, Nines LF, Caixeta MB, Souza MLO, Carvalho TA, Matos DS 601 Estudos epidemiológicos indicam que as regiões Nordeste e Centro-Oeste concentram os maiores índices da doença, enquanto o Sul e Sudeste apresentam melhores condições de saúde bucal. No Nordeste, fatores como baixa renda, menor escolaridade, dificuldade de acesso aos serviços odontológicos e condições de vida precárias contribuem para a persistência desses elevados índices. Pesquisas nacionais, como o Projeto SB Brasil 2010, evidenciaram que adolescentes nordestinos de 15 a 19 anos apresentaram valores médios de CPOD superiores à média nacional, reforçando a vulnerabilidade dessa população. Essa tendência foi confirmada pelos dados mais recentes do SB Brasil 2023, que, apesar de evidenciarem avanços gerais — como o aumento de crianças de 5 anos livres de cárie (de 46,6% em 2010 para 53,17% em 2023) e a manutenção do país em faixas de baixa prevalência aos 12 anos, com média nacional de CPO-D de 1,68 — demonstram que as desigualdades regionais permanecem significativas. Entre adolescentes de 15 a 19 anos, a média nacional de CPO-D registrada em 2023 foi de 3,41, mostrando que esse grupo continua entre os mais afetados, sobretudo em áreas de maior vulnerabilidade socioeconômica. Além dos determinantes socioeconômicos, aspectos clínicos, como dor dentária, sangramento gengival e o impacto da saúde bucal nas atividades cotidianas, também estão fortemente associados à maior prevalência da cárie. (SILVA et al., 2024 ; DUTRA et al., 2019) A cárie dentária continua sendo um problema de saúde pública, afetando principalmente crianças e adolescentes, com maiores índices no Nordeste e Norte do Brasil. Adolescentes em situação desfavorável apresentam maior prevalência e severidade da doença, que impacta a qualidade de vida. O tipo de serviço odontológico utilizado também influencia os resultados, evidenciando a necessidade de políticas públicas focadas em prevenção, educação e ampliação do acesso à saúde bucal. De acordo com Dutra et al. (2019), a cárie dentária é uma doença multifatorial que destrói o esmalte e a dentina, sendo influenciada por dieta rica em açúcares, higiene oral, fatores biológicos e socioeconômicos. Estudos com adolescentes no Nordeste do Brasil indicam que níveis mais baixos de literacia em saúde oral estão associados a maior número de lesões cavitadas. Fatores como renda familiar e escolaridade também influenciam sua prevalência. A adolescência é um período crítico para a consolidação de hábitos de higiene e alimentação, tornando essencial a educação em saúde bucal, acompanhamento odontológico regular e políticas preventivas. (SILVA 2024 et al., DUTRA et al., 2019) No Centro-Oeste, por sua vez, estudos indicam que, embora tenha havido avanços na saúde bucal de adolescentes de 12 anos, ainda existe um número considerável de jovens com lesões de cárie não tratadas e grandes diferenças entre regiões no que se refere ao estado livre de cárie. Os autores ressaltam que fatores como acesso aos serviços odontológicos e políticas públicas de prevenção têm papel importante nessas desigualdades, mostrando que a redução média da cárie não garante benefícios uniformes para todos os grupos. Além disso, aspectos sociais, como escolaridade, renda, condições de moradia e contato com serviços públicos influenciam diretamente a saúde bucal e os hábitos alimentares, especialmente em contextos mais vulneráveis. Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Dec 8, 2025 ISSN 3085-8097 Duas realidades, um panorama: desafios e disparidades na saúde bucal de jovens do nordeste e centro-oeste Duarte MCP, Silva BLM, Pereira CL, Rodrigues GC, Nines LF, Caixeta MB, Souza MLO, Carvalho TA, Matos DS 602 Assim, além do tratamento clínico, é necessário investir em educação, promoção da saúde e redução das desigualdades para alcançar melhorias duradouras e justas na saúde preventiva e no controle de doenças crônicas. (SANTOS e VIEIRA 2024) Outro problema que afeta frequentemente crianças e adolescentes é o trauma dentário representando um dos agravos mais relevantes da saúde bucal infantil, devido à sua alta incidência e ao impacto funcional, estético e emocional que pode causar. Esse tipo de lesão ocorre, em geral, em situações cotidianas da infância, como quedas, brincadeiras e práticas esportivas, sendo frequente em ambientes escolares e de convívio social. A abordagem adequada e o manejo imediato são fundamentais para o sucesso do tratamento e para a prevenção de sequelas permanentes. Nesse contexto, a literatura tem destacado a importância do preparo e do conhecimento dos profissionais que lidam diretamente com crianças, ressaltando o papel essencial das instituições de ensino na promoção da saúde bucal e na prevenção de acidentes. Assim, compreender a dinâmica do trauma dentário e suas implicações clínicas e sociais é fundamental para o desenvolvimento de estratégias educativas e preventivas voltadas à infância (COSTA et al., 2014). Associados aos fatores de risco comportamentais, a adolescência, mesmo que marcada por traços de rebeldia, chega à vida dos indivíduos carregando consigo o advento das mudanças psicológicas e preocupações sociais, mediando a atenção com a própria aparência e autocuidado, que, em tese, alavancariam a higiene geral. Entretanto, existem outros pilares que fomentam, de fato, a saúde bucal e a possibilidade desse aprimoramento, que são intimamente relacionados aos aspectos socioeconômicos, dieta e escolaridade. Análises epidemiológicas desses fatores demonstram que regiões que apresentam um menor aporte financeiro, frequentemente associadas à marginação social e preconceitos arraigados, possuem um maior déficit na mudança desse cenário, no que tange a higiene e promoção de saúde bucal. Na conjuntura brasileira, Nordeste e Centro-Oeste são as regiões que ganham destaque no quesito de inviabilização do progresso saúde geral e bucal dos indivíduos. (DA SILVA et al.; 2021) As políticas e programas de saúde configuram instrumentos fundamentais para a promoção da qualidade de vida da população, pois articulam ações governamentais que buscam prevenir doenças, reduzir desigualdades e garantir o acesso universal aos serviços de saúde. No momento em que tais programas se tornam integrados ao campo educacional, observam-se resultados ainda mais eficazes, pois a escola é reconhecida como espaço privilegiado para a formação cidadã e para a disseminação de hábitos saudáveis. Dessa forma, tais políticas assumem caráter estratégico ao possibilitar não apenas intervenções pontuais, mas também transformações sociais mais amplas, baseadas no empoderamento comunitário e na coresponsabilidade pelo cuidado coletivo. Consoante Cesar et al. (2019) as políticas públicas efetivas e o processo de empoderamento através da educação em saúde apontam para a melhoria da qualidade de vida. Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Dec 8, 2025 ISSN 3085-8097 Duas realidades, um panorama: desafios e disparidades na saúde bucal de jovens do nordeste e centro-oeste Duarte MCP, Silva BLM, Pereira CL, Rodrigues GC, Nines LF, Caixeta MB, Souza MLO, Carvalho TA, Matos DS 603 Assim, o objetivo deste trabalho foi analisar e sintetizar, por meio de uma revisão narrativa da literatura, o conhecimento científico sobre o perfil epidemiológico (ocorrência, distribuição e severidade) das principais doenças e agravos em saúde bucal (cárie e traumatismos dentários) na população de adolescente, a fim de identificar a influência e a interação dos fatores de risco biológicos, sociais, comportamentais e de acesso aos serviços de saúde e, assim, subsidiar a formulação de recomendações baseadas em evidências para o planejamento de ações preventivas e de promoção da saúde direcionadas a essa faixa etária. METODOLOGIA Foi realizada uma revisão narrativa da literatura, sobre Epidemiologia das doenças/agravos em saúde bucal do adolescente. Para a pesquisa foram utilizadas as bases de dados PubMed, Scielo e EbSCO HOstm além da assessoria da inteligência artificial SciSpace para a busca dos artigos, com as expressões de busca “Epidemiologia”; “Adolescentes”; “Agravos” e “Saúde Bucal”. Foram incluídos artigos publicados na íntegra, nos últimos 10 anos. Foram excluídos trabalhos da literatura cinzenta como teses, dissertações, monografias e trabalhos de conclusão de curso. A seguinte pergunta de estudo: “Qual é o perfil epidemiológico (ocorrência e distribuição) das principais doenças e agravos em saúde bucal (cárie, doença periodontal, má oclusão, traumatismos) que afetam a população adolescente no Nordeste e Centro Oeste, e como a interação dos fatores de risco biológicos, sociais, comportamentais e de acesso aos serviços de saúde influenciam na sua severidade, orientando a formulação de ações preventivas e de promoção da saúde específicas para essa faixa etária?”, foi elaborada a partir do acrônimo CoCoPop, sendo utilizada em sua forma final da seguinte maneira: Co (conceito): Influência dos fatores sociais, comportamentais e biológicos na ocorrência e distribuição das doenças e agravos em saúde bucal; uso dos dados epidemiológicos para orientar ações preventivas e de promoção da saúde; Co (contexto): Impacto dos determinantes sociais na saúde bucal de adolescentes na região Nordeste e Centro-Oeste e Pop (população): adolescentes. O fluxograma abaixo ilustra como foi realizada a busca bibliográfica e seleção de artigos (figura 1). Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Dec 8, 2025 ISSN 3085-8097 Duas realidades, um panorama: desafios e disparidades na saúde bucal de jovens do nordeste e centro-oeste Duarte MCP, Silva BLM, Pereira CL, Rodrigues GC, Nines LF, Caixeta MB, Souza MLO, Carvalho TA, Matos DS 604 Figura 1: Fluxograma ilustrando a busca e seleção de artigos utilizados nesta revisão. Fonte: Autores, 2025 REVISÃO DA LITERATURA E DISCUSSÃO De acordo com o Projeto SB Brasil 2023, a cárie dentária continua sendo um dos agravos mais comuns na população brasileira, especialmente entre adolescentes. Os dados mais recentes mostram que jovens de 15 a 19 anos apresentam média nacional de CPO-D de 3,41, mas com diferenças marcantes entre as regiões. O Nordeste e o Centro-Oeste registram os maiores valores, enquanto o Sul e o Sudeste seguem com os melhores indicadores, mantendo o padrão de desigualdade observado em pesquisas anteriores. Estudos recentes, como o de Silva et al. (2024), reforçam essa realidade ao apontarem que a prevalência de cárie não tratada ultrapassa 55% a 60% entre adolescentes das regiões mais vulneráveis, ao passo que no Sudeste esse percentual permanece abaixo de 30%. Além disso, entre 25% e 40% dos adolescentes nordestinos relatam dor dentária e sangramento gengival, condições que interferem diretamente na rotina escolar, no convívio social e na qualidade de vida. Esse conjunto de evidências demonstra que, apesar dos avanços registrados no país, a saúde bucal ainda reflete de forma clara as desigualdades socioeconômicas que estruturam o território brasileiro. Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Dec 8, 2025 ISSN 3085-8097 Duas realidades, um panorama: desafios e disparidades na saúde bucal de jovens do nordeste e centro-oeste Duarte MCP, Silva BLM, Pereira CL, Rodrigues GC, Nines LF, Caixeta MB, Souza MLO, Carvalho TA, Matos DS 605 Para Da Silva et al. (2021), fatores socioeconômicos exercem forte influência sobre os indicadores de saúde bucal no Brasil. Os autores apontam que regiões como Nordeste e Centro-Oeste, que apresentam menor renda familiar média, menores níveis de escolaridade e maior desigualdade social, também apresentam maior prevalência de cárie dentária e doenças periodontais, além de menor adesão a práticas preventivas de higiene bucal. Silva et al. (2020) destacam que a cárie dentária continua sendo um problema relevante de saúde pública entre crianças e adolescentes, com maior impacto no Norte e Nordeste e em populações socioeconomicamente vulneráveis. O acesso limitado aos serviços odontológicos reforça a necessidade de políticas preventivas e educativas. Dutra et al. (2019) apontam que a cárie tem origem multifatorial, incluindo dieta açucarada, higiene oral inadequada, fatores biológicos e sociais. Entre adolescentes nordestinos, baixos níveis de conhecimento em saúde bucal, menor renda e escolaridade aumentam o risco de lesões, evidenciando a importância de acompanhamento e ações preventivas na adolescência. Segundo Freire et al. (2014) autores do estudo “Associação de Traumatismos Dentários com Fatores Individuais, Sociodemográficos e Relacionados à Escola entre Escolares do Centro-Oeste do Brasil”, a prevalência de traumatismos dentários em escolares de 12 anos em Goiânia foi de 17,3%. A ocorrência mostrou relação significativa com fatores individuais e com o ambiente escolar, demonstrando a necessidade de ações preventivas. Já na região Nordeste, avaliaram 183 dentes decíduos traumatizados e constataram que 72,6% apresentaram algum tipo de sequela, como necrose pulpar e mobilidade dentária. Segundo os estudos de Fontenele et al. (2017) destacam que a maioria dos traumas ocorreu em ambiente domiciliar, principalmente por quedas, revelando o papel crucial da supervisão familiar e da educação em saúde bucal na infância. Em escala mais ampla, os autores identificaram que o Nordeste apresenta as maiores prevalências de trauma dentário no país (53% na dentição decídua e 14% na permanente), confirmando a necessidade de políticas públicas regionais voltadas à prevenção e manejo adequado dessas lesões. Os fatores de risco associados ao trauma dentário variam conforme o contexto social, ambiental e comportamental das regiões analisadas. No estudo de Freire et al. (2014), o risco aumentou em crianças do sexo masculino, com mães de menor escolaridade e residentes em distritos de baixa renda. Essa associação reforça a importância de políticas de educação em saúde bucal voltadas para comunidades vulneráveis, com foco na prevenção primária dentro das escolas. Estudos ressaltam que, no Nordeste, a alta taxa de sequelas em dentes decíduos após trauma está relacionada ao atraso no atendimento e à falta de acompanhamento odontológico adequado. Tais fatores contribuem para complicações como reabsorções, descolorações e anquilose, que podem comprometer o desenvolvimento dos dentes permanentes. Vieira et al. (2021) corroboram esses achados ao apontarem que as regiões Nordeste e Centro-Oeste apresentam carência de Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Dec 8, 2025 ISSN 3085-8097 Duas realidades, um panorama: desafios e disparidades na saúde bucal de jovens do nordeste e centro-oeste Duarte MCP, Silva BLM, Pereira CL, Rodrigues GC, Nines LF, Caixeta MB, Souza MLO, Carvalho TA, Matos DS 606 protocolos clínicos padronizados e de campanhas educativas específicas, o que limita a efetividade das ações preventivas e o manejo adequado das lesões traumáticas dentárias em crianças e adolescentes. De acordo com Como et al. (2019), os determinantes sociais anteriormente mencionados afetam de forma significativa os desfechos de saúde bucal nessa faixa etária, tendo em vista que adolescentes de origens socioeconômicas menos abastadas constantemente não têm acesso a recursos essenciais para manter a higiene bucal, o que leva a taxas mais altas de doenças bucais, tendendo a levar, por fim, a perda dos elementos dentários em idades precoces, já que arcar com tratamentos preventivos e curativos tem seu lugar perdido para necessidades básicas, principalmente alimentares. Associados aos fatores de cunho financeiro, outros quesitos corroboram para a severidade da situação, tais como discrepâncias raciais, descritas por Silva et al. (2020), na região do Mato Grosso, onde 41% dos adolescentes de 12 anos que foram afetados pela cárie dentária eram pardos, com um índice CPO-D médio de 2,14. Consoante aos demais autores, Flores et al. (2013) aponta outro ponto a ser considerado como o isolamento geográfico e necessidades não atendidas ao uso de serviços, já que as deficiências no conhecimento acerca da saúde bucal corroboram com o fato de que os indivíduos não saibam identificar manifestações iniciais das doenças orais, levando a um tratamento tardio e com menores chances de sucesso. Massoni et al. (2021) afirmam, ainda, que mesmo que a Constituição Federal de 1988 assegure o direito à saúde a todos os cidadãos, sem distinção, existem elucidações sociais que mostram um acesso limitado aos serviços de saúde pela população. As políticas públicas de saúde no Brasil se consolidam como instrumentos estratégicos para a redução das desigualdades sociais e promoção da qualidade de vida. Cesar et al. (2019) afirmam que a criação do Programa Saúde na Escola (PSE), em 2007, representou um avanço significativo na articulação entre os setores da saúde e da educação, possibilitando intervenções integradas voltadas à formação cidadã e à prevenção de agravos. O PSE busca transformar a escola em espaço de cuidado e corresponsabilidade social, valorizando ações educativas contínuas e não apenas atendimentos pontuais. Do mesmo modo, o livro Saúde da Criança e do Adolescente: Políticas Públicas e Educação em Saúde reforça que a promoção da saúde deve estar associada ao empoderamento comunitário e à participação ativa dos indivíduos, especialmente em contextos escolares. As políticas públicas efetivas só alcançam impacto real quando articuladas à educação em saúde, permitindo a construção de saberes críticos e transformadores. Oliveira (2015) defende que o fortalecimento dos programas governamentais deve vir acompanhado de ações pedagógicas que envolvam estudantes, famílias e profissionais de forma colaborativa. Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Dec 8, 2025 ISSN 3085-8097 Duas realidades, um panorama: desafios e disparidades na saúde bucal de jovens do nordeste e centro-oeste Duarte MCP, Silva BLM, Pereira CL, Rodrigues GC, Nines LF, Caixeta MB, Souza MLO, Carvalho TA, Matos DS 607 É relevante o que Park et al. (2024) apontam, como a necessidade de que os programas sejam estruturados com base em evidências e contemplem o acompanhamento contínuo dos participantes. Os autores destacam que políticas bem-sucedidas são aquelas que combinam práticas educativas, atendimento preventivo e avaliação periódica, possibilitando ajustes de acordo com as necessidades de cada grupo. Essa abordagem sistemática favorece a consolidação de comportamentos saudáveis e reduz desigualdades no acesso à saúde bucal. Por fim, os autores ressaltam ainda que a efetividade das políticas e programas de saúde bucal depende da integração entre diferentes setores, como saúde, educação e assistência social. A colaboração intersetorial permite maior alcance das ações preventivas e fortalece a capacidade dos sistemas de saúde em atender adolescentes de forma equitativa. Assim, investir em programas estruturados e contínuos é essencial para garantir uma geração de jovens mais consciente e comprometida com a própria saúde bucal. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho teve como propósito analisar o perfil epidemiológico das principais doenças e agravos em saúde bucal, especialmente cárie dentária e traumas dentários, que acometem adolescentes nas regiões Nordeste e Centro-Oeste do Brasil, buscando compreender de que forma fatores sociais, biológicos, comportamentais e o acesso aos serviços de saúde influenciam esses indicadores. Ao longo da revisão, foi possível observar que, mesmo com avanços importantes nas políticas públicas de saúde bucal, ainda persistem desigualdades significativas entre as regiões estudadas. A cárie dentária e os traumatismos dentários continuam apresentando índices elevados entre adolescentes em situação de vulnerabilidade, especialmente onde há menor renda familiar, menor escolaridade e dificuldades de acesso a atendimentos odontológicos regulares. Notou-se também que ações educativas e preventivas realizadas de forma contínua, principalmente no ambiente escolar, podem exercer papel decisivo na mudança desse cenário. A integração entre saúde e educação se mostra essencial para formar jovens mais conscientes, capazes de adotar hábitos saudáveis e de reconhecer a importância do cuidado com a própria saúde bucal. Dessa forma, o estudo possibilitou compreender os principais fatores que influenciam as desigualdades em saúde bucal entre adolescentes e reforçou a necessidade de políticas públicas mais justas, integradas e voltadas à prevenção. Promover o acesso e fortalecer a educação em saúde são passos fundamentais para reduzir as disparidades e contribuir para uma geração com melhores condições de vida e bem-estar.