PAPIA, São Paulo, 25(1), p. 7-25, Jan/Jun 2015. http://doi.org/10.5281/zenodo.17876789 A nasalidade vocálica em santome e lung’Ie Nasality in Santome and Lung’ie Amanda Macedo Balduino Universidade de São Paulo, Brasil [email protected] Ana Lívia dos Santos Agostinho Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil
[email protected] Gabriel Antunes de Araujo Universidade de São Paulo,cnpq, Brasil g.an[email protected] Alfredo Christofoletti Silveira Universidade de São Paulo, Brasil [email protected] Abstract: Santome and Lung’ie are Creole languages from São Tomé e Príncipe. These languages share some features with Portuguese, the lexifier language, and with their substrate languages (from the Niger Delta and from Congo-Angola, a Bantu region). They also have unique characteristics. Based on Experimental Phonology (Browman & Goldstein 1989; Ohala 1995), this study describes the nasality of Santome and Lung’ie, proposing an analysis for this phenomenon. Thus, from a corpus in which lexical items with the target structure were inserted into vehicle-phrases, opposing minimal and analog pairs, the duration from vocalic segments with the [+nasal] feature and from their oral vowels correspondents were extracted. The analysis showed a longer average duration (17%) of nasalized vowels compared to oral vowels. This consistent vocalic duration, both in Santome ISSN 0103-9415, e-ISSN 2316-2767
8 Amanda Macedo Balduino / et al. and Lung’ie, enables us to conclude that the vocalic nasality phenomenon in these languages is biphonemic and is related to Portuguese (Wetzels & Moraes 1992). Keywords: Santome; Lung’ie; Nasality. Resumo: O santome (ST) e o lung’Ie (LI) são línguas crioulas de base portuguesa da República de São Tomé e Príncipe. Ambas compartilham traços com o português, língua lexificadora, com as línguas de seus substratos (línguas do Delta do Níger e da região bantu do Congo-Angola) e, ainda, demonstram características únicas. Baseados em métodos experimentais com ênfase na Fonologia de Laboratório (Browman & Goldstein 1989; Ohala 1995), o objetivo desse estudo é descrever e propor uma análise fonológica para a nasalidade no santome e no lung’Ie. Para tanto, adotou-se um corpus no qual os itens lexicais com a estrutura-alvo (oposição vogal oral-nasal) foram inseridos em frases-veículo e analisados. Por meio da comparação entre pares mínimos e análogos, extraíram-se as médias da duração dos segmentos vocálicos com o traço [+nasal] e seus correspondentes orais. A análise dos dados demonstrou um alongamento médio de 17% das vogais [+nasais] em relação aos segmentos orais correspondentes. O consistente alongamento vocálico observado, tanto no santome quanto no lung’Ie, permite-nos concluir que o fenômeno da nasalidade vocálica nessas línguas é bifonêmico e apresenta características próximas ao português (cf. Wetzels & Moraes 1992). Palavras-chave: Santome; Lung’ie; Nasalidade. 1 Introdução O objetivo deste texto é discutir o estatuto da nasalidade no santome e no lung’Ie, línguas autóctones da República Democrática de São Tomé e Príncipe (stp). Para isso, será descrita, em um primeiro momento, a nasalidade de ambas as línguas, propondo, com base na extração duracional dos segmentos vocálicos [+nasais] e de suas correspondentes orais, uma análise para o fenômeno. Posteriormente, serão investigadas as semelhanças da nasalidade entre essas línguas e o português (Wetzels & Moraes 1992). São Tomé e Príncipe é uma pequena nação formada por um conjunto de ilhas e localiza-se no Golfo da Guiné, Costa Oeste da África. Atualmente, o PAPIA, 25(1), ISSN 0103-9415, e-ISSN 2316-2767
A nasalidade vocálica em santome e lung’Ie Nasality in Santome and Lung’ie 9 país conta com uma população de cerca de 187 mil pessoas (ine sem data). São faladas no arquipélago três línguas crioulas autóctones de base lexical portuguesa (santome, lung’Ie e angolar) e uma quarta língua transplantada para o país no século XX, o kabuverdianu. O português é a língua oficial do arquipélago desde 1975. O cenário multilíngue de stp decorre de sua formação histórica e social. Colonizado na última década do século XV, com a chegada dos navegadores portugueses, stp se desenvolveu a partir de atividades comerciais baseadas no tráfico negreiro e na exploração da mão-de-obra escrava (Ferraz 1979: 8-11; Hagemeijer 2009: 2). A fim de manter essas práticas econômicas, inúmeros escravos eram resgatados de diversas regiões da África e levados às ilhas para serem comercializados nos entrepostos ou para fixar-se como mão-de-obra escrava na agricultura de sistema plantation. Como consequência, a pluralidade linguística, decorrente de tal estruturação social, propiciou o contexto ideal para o surgimento de pidgins e crioulos. O santome e o lung’Ie nascem, portanto, como resultado deste contato interlinguístico imposto pelo processo colonial. Em virtude de sua gênese baseada em um contexto social específico, onde há, de um lado, a língua do colonizador, isto é, o português do século XV agindo como superestrato e, de outro, dezenas de línguas africanas, principalmente do Delta do Níger e da região bantu do Congo-Angola, constituindo o substrato, as línguas autóctones em questão compartilham traços com essas línguas e podem ainda apresentar aspectos estruturais únicos. Assim sendo, a nasalidade no santome e no lung’Ie poderia estar associada a características compartilhadas com o português, com as línguas de substrato ou, até mesmo, ser fruto de um desenvolvimento independente. Na medida em que a comparação com as línguas de substrato seria inviável, posto que essas foram muitas e algumas já estão extintas ou são totalmente desconhecidas, a investigação realizada neste trabalho se dará em relação ao português, posto que os dados sugerem uma semelhança que não pode ser atribuída ao acaso. Este trabalho está organizado em cinco seções. Na seção 2, são estabelecidas informações gerais acerca das línguas estudadas. Após isso, na seção 3 e 4, expomos as principais premissas teóricas suscitadas acerca da nasalidade na língua portuguesa e, por fim, na seção 5 são demonstrados os métodos utilizados na investigação do fenômeno e, tendo em vista os resultados, propomos uma análise aos dados. PAPIA, 25(1), ISSN 0103-9415, e-ISSN 2316-2767
10 Amanda Macedo Balduino / et al. 2 Santome e Lung’ie O santome e o lung’Ie são línguas crioulas de stp e sua emergência remonta à colonização europeia em África. O santome é a língua crioula de maior prestígio, sendo comumente adotada nas produções culturais e artísticas locais, como é o caso das canções populares (Bandeira em preparação). Além disso, o santome também é a língua autóctone mais falada, sobretudo na ilha de S. Tomé. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (ine sem data) cerca de 33,6% da população é falante desta língua. Por outro lado, apenas 2,4% da população total do arquipélago fala o lung’Ie, sendo esse percentual concentrado, majoritariamente, na ilha do Príncipe (ine sem data). Sendo escasso o número de falantes desta língua, e, considerando fatores como a aquisição do lung’Ie como língua materna por crianças, alguns autores já apontam para o fato de a língua da llha do Príncipe estar ameaçada de extinção (Günther 1973, Maurer 2009, Agostinho 2014, Bandeira em preparação). Por fim, compondo o grupo de línguas crioulas de stp, há ainda o angolar e o kaboverdianu, entre outras línguas, usadas por 12,8% da população (ine sem data). Em termos de política linguística, tanto o santome quanto o lung’Ie apresentam o status de língua nacional de stp, porém, não são consideradas línguas oficiais. De fato, avaliadas pelos próprios falantes como menos prestigiosas frente ao português (língua da mídia e da educação), o santome e o lung’Ie estão caindo em desuso ao passo que o número de falantes do português como primeira língua aumenta (cf. ine sem data, Christofoletti 2013). No que diz respeito ao fenômeno da nasalidade no santome, Ferraz (1979: 19-20) afirma que há, na língua, sete vogais orais ( /i, u, e, E , o, O , a/) e cinco nasais ( /˜ı, ˜u,˜e, õ, ã/), pois não encontrou oposição entre as vogais médias baixas. No entanto, todos os pares apresentados são de origem portuguesa e a eles podem ser atribuídos uma consoante nasal na coda. Sobre o lung’Ie, Günther (1973) e Maurer (2009: 8) descrevem o sistema vocálico como tendo nasais propriamente ditas também, ou seja, para esses autores as vogais nasais são fonêmicas. Günther (1973) apresenta cinco vogais nasais /˜ı, ˜u,˜e, õ, ã/, em que [˜e] e [õ] estão em variação livre com [ ˜E ]e[ ˜O ] e Maurer (2009) argumenta que há sete vogais nasais /˜ı, ˜u, ˜e, ˜E , õ, ˜O , ã/, embora não tenha encontrado pares mínimos opondo / ˜E / e /˜e/. Agostinho (2014), por sua vez, aponta que não há em lung’Ie pares mínimos que oponham um /ã/ e um /aN/ (cf. Câmara Jr. 1977), argumento que pode ser estendido à oposição vogais orais e nasais. Assim, para Agostinho (2014), a nasalidade vocálica seria decorrente de uma consoante nasal na coda (isto é, uma vogal nasal é de fato uma vogal nasalizada seguida pela nasalidade de uma consoante nasal na mesma sílaba) ou no onset da sílaba seguinte (vogal nasalizada + consoante nasal em sílabas diferentes), ou seja, não haveria nasalidade fonêmica nas vogais do lung’Ie. PAPIA, 25(1), ISSN 0103-9415, e-ISSN 2316-2767
A nasalidade vocálica em santome e lung’Ie Nasality in Santome and Lung’ie 11 3 A nasalidade vocálica na língua portuguesa A fonte da nasalidade vocálica, na língua portuguesa, tem sido abordada sob os mais diversos pontos de vista na literatura, sendo alvo de estudos fonéticos e fonológicos. Entre as diferentes perpectivas analíticas em torno do tema, duas podem ser destacadas por seu alcance explanatório, bem como pela difusão e adesão entre os estudiosos, são elas: hipóteses monofonêmica e bifonêmica. A hipótese monofonêmica, defendida por Leite (1974), concebe a vogal como intrinsecamente nasal, representada, portanto, na camada segmental, sem nenhum espraiamento de traços. De acordo com esta visão, os fones vocálicos com o traço [+nasal] integrariam o inventário fonológico da língua portuguesa como vogais nasais propriamente ditas. Apresentando uma interpretação distinta para o fenômeno, a hipótese bifonêmica (Mattoso Câmara Jr. 1953, 1970; Cagliari 1977) não admite vogais nasais inerentes ao quadro fonológico do português. Sendo assim, o segmento vocálico com nasalidade é compreendido como resultado de um espraiamento do traço de nasalidade da consoante nasal na coda. Por isso, a vogal com o traço [+nasal] seria uma vogal nasalizada, proveniente da sequência segmental vC [+nasal] {. , #}, onde vrepresenta a vogal, C a consoante, . (ponto) representa a fronteira entre sílabas e # o final de palavra. Nesse caso, o traço [+nasal], como consequência coarticulatória, é espraiado para o som vocálico e a consoante é elidida. A nasalidade na língua portuguesa é também investigada a partir da perceptível diferença duracional entre as vogais nasais, nasalizadas e orais. Esse fato foi considerado por um estudo experimental de Wetzels & Moraes (1992), em que os autores, concebendo apenas vogais de abertura máxima, ou seja, [a] e [ã], justificam as divergências duracionais por três principais vias: fonológica, articulatória e coarticulatória. Em termos fonológicos, a vogal nasal possui uma duração equivalente à vogal oral, entretanto, a vogal nasalizada demonstra, em sua composição, o componente nasal na superfície e, por isso, tem uma duração superior às demais. Tal perspectiva aproxima-se, sobretudo, da hipótese bifonêmica da nasalidade, na qual assume-se que a vogal nasalizada equivale à duração de uma vogal oral (v) mais a duração de uma consoante nasal (n) apagada da coda, resultando, portanto, em uma estrutura profunda bifônica vogal + nasalidade (vn). A perspectiva articulatória, de outro modo, trata tanto a vogal nasal, quanto a vogal nasalizada, como mais longas em relação à vogal oral. Tal alongamento duracional justifica-se, conforme os autores, por meios articulatórios, já que os sons não orais exigem o abaixamento do palato para o escoamento do ar pela cavidade nasal, demandando, assim, um gesto articulatório duplo (Wetzels & Moraes 1992). Por fim, a explicação PAPIA, 25(1), ISSN 0103-9415, e-ISSN 2316-2767
12 Amanda Macedo Balduino / et al. coarticulatória abarca a articulação total da palavra em sua explanação. Isto posto, a vogal ‘nasal’ e a vogal oral são breves quando há a concordância do traço [+nasal] entre o som vocálico e a consoante seguinte, como no português manhã ["m˜5.ñ˜5] e mata ["ma.t5] , onde a vogal nasal encontra-se cercada de elementos nasais, no caso [m] e [ñ ], e a vogal oral de elementos orais, [m] e [t], respectivamente. Por outro lado, caso esse traço não coincida com o segmento consonantal subsequente, os sons vocálicos são longos. Essa é a situação de banco ["b˜5.ku] e mina ["mi.n5] , ambos do português, em que há, no primeiro exemplo, a presença de uma vogal nasal [ ˜5 ] circundada por consoantes orais [b] e [k] e, no segundo, um segmento vocálico oral [i] precedido por [m] e seguido por [n]. Considerando as diversas hipóteses, procuramos responder, na seção reservada à análise, qual entendimento acerca da nasalidade vocálica seria o mais adequado para se tratar do fenômeno no santome e no lung’Ie. 4 Premissas teóricas Demonstradas, na seção anterior, as principais hipóteses que norteiam os estudos da nasalidade vocálica na língua portuguesa, esta seção é dedicada à exposição dos pressupostos teóricos adotados para a coleta e análise dos dados, abarcando então, a fonologia de laboratório (Ohala 1995), a fonologia cv (Clements & Keyser 1983) e, relacionada a esta, a geometria de traços (Clements 1996). 4.1 Fonologia de Laboratório A realização dos testes, em conjunto com a descrição dos resultados obtidos a partir do material recolhido, contemplou a abordagem teórica proposta pela Fonologia de Laboratório (Ohala 1995; Browman & Goldstein 1989). Agregando técnicas experimentais de análise aos estudos linguísticos, mais especificadamente, à fonologia, a fonologia de laboratório propõe uma investigação científica com caráter empírico. No que tange à nasalidade vocálica das línguas autóctones de stp, foram aplicados métodos experimentais e quantitativos ao corpus. Partindo de um material gravado, no qual as estruturas-alvo do estudo, ou seja, as vogais [+nasais] e as vogais orais estavam inseridas, a duração de cada segmento vocálico foi medida e, após isso, empregaram-se métodos estatísticos, como a análise de medianas e percentuais. PAPIA, 25(1), ISSN 0103-9415, e-ISSN 2316-2767
A nasalidade vocálica em santome e lung’Ie Nasality in Santome and Lung’ie 13 4.2 Fonologia cv A fonologia cv (Clements & Keyser 1988) em conjunto com a geometria de traços (Clements 1996) possibilitam a investigação da nasalidade vocálica posta em relação à sua estrutura silábica. De acordo com estas propostas, a estrutura silábica, bem como os traços fonológicos, são analisados dentro de uma estrutura arbórea hierárquica, composta por camadas ou tiers. Estas camadas são capazes de interagir entre si, ou comportar-se de forma isolada. No que diz respeito às sílabas, a estrutura arbórea é composta por três camadas distintas: a camada silábica, a camada cv e a camada segmental. Se por um lado a camada silábica é a estrutura hierárquica mais alta, e corresponde à sílaba de fato, por outro, a camada segmental constitui o seu oposto, sendo por isso, a camada mais elementar. É justamente na camada segmental onde estão os segmentos fonético-fonológicos, entre eles, os fones vocálicos nasais e orais. Comportando-se como um intermediário entre a camada silábica e a camada segmental, a camada cv firma-se como o esqueleto silábico. Nesta posição, a camada cv é responsável por definir a unidade temporal silábica, possibilitando, então, apagamentos sonoros na camada segmental, sem que isso implique, obrigatoriamente, perda no timing da sílaba. Essa capacidade de conservação temporal torna a teoria essencial para o estudo aqui proposto. Sendo assim, é possível analisar a nasalidade vocálica como resultado de um processo de apagamento da consoante nasal em coda, fixada na camada segmental, e um posterior espraiamento do traço [+nasal], na camada cv, para a vogal antecedente. Wetzels & Moraes (1992), sob esse ponto de vista, atribuem a maior duração dos segmentos nasalizados ao rearranjo no timing silábico, em que, decorrente do apagamento segmental, há um alongamento compensatório de modo a atingir a manutenção temporal dentro da camada cv. Assumindo as vogais com o traço [+nasal] como nasais propriamente ditas, a estrutura arbórea é mantida intacta e não há relação de espraiamento, mas uma interação direta entre camada segmental e camada cv. Ao considerar as camadas constituintes da sílaba, a fonologia cv (Clements & Keyser 1983) e a geometria de traços (Clements 1996) possibilitam o estudo mais amplo do fenômeno da nasalidade, e, portanto, oferecem a este estudo um aparato teórico capaz de respaldar a análise proposta a partir da mensuração duracional dos segmentos vocálicos e consonantais do santome e do lung’Ie. PAPIA, 25(1), ISSN 0103-9415, e-ISSN 2316-2767
14 Amanda Macedo Balduino / et al. 5 Metodologia e Procedimentos Para realizar o presente estudo, foi constituído um corpus de 34 pares mínimos ou análogos do santome e do lung’Ie 1 . Os dados foram coletados por meio da gravação de itens lexicais inseridos em contextos de frases-veículo como E fla X dôsu vê ‘Ele fala X duas vezes’ e Ê faa X dôsu vêsê ‘Ele fala X duas vezes’, onde X era substituído pela palavra que continha a estrutura-alvo. As palavras do corpus de origem portuguesa apresentam nasalidade invariável na posição de coda, como é o caso de blanku ["bl˜5.ku] ‘branco’, para o santome, e baanku [ " b ˜5: .ku] ‘branco’ para o lung’Ie, ou são de origem não-portuguesa e também exibem nasalidade como na palavra ndombo [nd ˜O . " b O ] ‘folhas tenras da palmeira’. Invariavelmente, os itens lexicais apresentavam a oposição entre o fone vocálico oral e seu correspondente nasal, doravante ve ˜ v, nas sílabas pré-tônica e tônica. Sendo assim, palavras como fudu ["fu.du] ‘limpo’ foram contrapostas a termos como fundo ["f˜u.du] ‘profundo’ de modo a medirmos a duração de [u] e de [˜u] e oferecermos uma análise comparativa. 1Lista de palavras do santome : blaku [" bla.ku] ‘buraco’, blanku [" bl ˜5 .ku] ‘branco’; fita [" fi.t 5 ] ‘fita’, finta [ " f˜ı.t 5 ] ‘finta’; fudu [ " fu.du] ‘limpo’, fundu [ " f˜u.du] ‘profundo’; kadja [ka. " d Z a] ‘cadeia’, kandja [k ˜5 . " d Z a] ‘candeeiro’; kasô [ka. " so] ‘cão’, kason [ka. " sõ] ‘caixão’; kasu [ " ka.su] ‘avarento’, kansu [ " k ˜5 .su] ‘asma’; kloklo [kl O . " kl O ] ‘raspar’, klonko [k l˜O . " k O ] ‘pescoço’; lodoma [l O . " d O .m 5 ] ‘garrafa’, lôdondô [lo. " dõ.do] ‘redondo’; loda [ " l O .d 5 ] ‘roda’, londa [ " l ˜O .d 5 ] ‘ronda’; logo [ " l O .g O ] ‘logo’, longo [ " l ˜O .g O ] ‘longo’; ma dja [ma. " d Z a] ‘meio-dia’, mandja [m ˜5 . " d Z a] ‘madrinha’; oso [ O . " s O ] ‘osso’, onso [ ˜O . " s O ] ‘enxó’; oze [ ˜O . " z ˜E ] ‘hoje’, onze [ "˜O . z E ] ‘onze’; mama [ " ma.m 5 ] ou [ " m ˜5 .m 5 ] ‘seio’, mana [ " ma.n 5 ] ou [ " m ˜5 .n 5 ] ‘irmã’; alan [a. " l ˜5 ] ‘aranha’, alê [a. " le] ‘rei; kilambu [ki.l ˜5 . " bu] ‘tanga tradicional’; limpu [ " l˜ı.pu] ‘limpo’; mon [ " m ˜O ] ‘mão’; ndombo [nd ˜O . " b O ] ‘folhas tenras da palmeira; nhonho [ ñ˜O . "ñO ] ‘caracol’; neni [ " n E .ni] ‘anel’; son [ " sõ] ‘chão. Lista de palavras do lung’Ie : ubaaku [u. " ba : .ku] ‘buraco’, baanku [ " b ˜5: .ku] ‘branco’; fita [ " fi.t 5 ] ‘fita’; finta [ " f˜ı.t 5 ] ‘finta’; fudu [ " fu.du] ‘limpo’, fundu [ " f˜u.du] ‘profundo’; kasu [ " ka.su] ‘avarento’, kansu [ " k ˜5 .su] ‘asma’; kasa [ka. " sa] ‘caçar’, kasan [ka. " s ˜5 ] ‘caixão’; kansa [k ˜5 . " sa] ‘descansar’, kasan [ka. " s ˜5 ] ‘caixão’; kansa [k ˜5 . " sa] ‘descansar’; kadya [ka. " dja] ‘cadeia’, kandya [k ˜5 . " dja] ‘candeeiro’; koko [k O . " k O ] ‘pomo de Adão’, konkon [kõ. " kõ] ‘konkon, espécie de peixe’; logu [ " l O .gu] ‘logo’, longu [ " lõ.gu] ‘longo’; ma dya [ma. " d Z a] ‘dia ruim’, mandya [mã. " dja] ‘madrinha’; mama [ " ma.m 5 ] ou [ " m ˜5 .m 5 ] ‘mãe, seio’, mana [ " ma.n 5 ] ou [ " m ˜5 .n 5 ] ‘irmã’; osu [ "O .s u ] ‘osso’, inson [˜ı. " sõ] ‘enxada’, ôzê [o. " ze] ‘hoje’, onze [ "˜O .z E ] ‘onze’; roda [ " r O .d 5 ] ‘roda’, ronda [ " rõ.d 5 ] ‘ronda’; rodoma [r O . " d O .m 5 ] ‘garrafa’, rodondo [r O . " d ˜O .d O ] ‘redondo’; kilambu [ki.l ˜5 . " bu] ‘tanga tradicional’; ndombo [nd ˜O . " b O ] ‘folhas tenras da palmeira’; rezan [r E . " z ˜5 ] ‘razão’; uman [u. " m ˜5 ] ‘mão’. PAPIA, 25(1), ISSN 0103-9415, e-ISSN 2316-2767
A nasalidade vocálica em santome e lung’Ie Nasality in Santome and Lung’ie 15 Os conjuntos de pares mínimos foram gravados com três informantes para cada língua. Todos os sujeitos repetiram três vezes cada rodada de gravação, havendo o descarte completo da primeira rodada. Como instrumento de trabalho adotou-se o programa Praat e, através de tal ferramenta, extraiu-se a duração em milissegundos de ˜ vev. Além disso, as mensurações realizadas pautaram-se numa série de critérios fonológicos segmentais e suprassegmentais, cuja articulação ou coarticulação poderia afetar, de alguma forma, a análise do estatuto da nasalidade vocálica. Tendo em pauta fatores suprassegmentais, tais como o contexto acentual, os pares mínimos e análogos cujo acento lexical era tônico (como em fundu ["f˜u.du] ‘profundo’ e fudu ["fu.du] ‘limpo’ ) foram separados daqueles que, por outro lado, ocupavam a posição pré-tônica (ST: kandja [k˜5."dZ5 ] LI: kandya [k˜5."dj5 ] ‘candeeiro’ e ST: kadja [ka."dZ5] e LI: kadya [ka."dj5] ‘cadeia’). Segundo Ferreira Neto (2007), o acento correlaciona-se, sobretudo, com a duração, sendo a sílaba proeminente tendencialmente mais longa em relação às demais. Cristófaro Silva (2010) reforça tal ponto de vista ao postular que uma sílaba tônica é ‘[...] produzida com um pulso torácico reforçado’ e, por isso, a vogal que recebe o acento é ‘[...] percebida como tendo uma duração mais longa’ (Cristófaro Silva 2010: 77). Conhecendo a provável interferência na duração do segmento acentuado, a divisão dos dados por contexto de tonicidade revela-se importante na medida em que evita possíveis distorções nos resultados alcançados. No que diz respeito aos aspectos segmentais, sobretudo em relação aos possíveis movimentos coarticulatórios dentro do domínio da palavra fonológica, observou-se, também, o Voice Onset Time (vot) das consoantes oclusivas precedentes a ve ˜ v. Correspondendo ao período temporal entre a realização da oclusiva e a vibração das cordas vocais do segmento vocálico seguinte à consoante, o vot é um fenômeno sutil capaz de influenciar a duração vocálica das estruturas-alvo. De fato, é muito rápido o intervalo temporal entre a explosão caracterizadora da oclusiva e o início do vozeamento vocálico e, por isso, a unidade temporal correspondente ao vot pode ser atribuída, durante as extrações duracionais, às vogais antecedentes. A fim de evitar distorções como estas, o vot das oclusivas precedentes às vogais orais e às vogais nasais foi também verificado. Nesta análise, considerou-se distinções de vozeamento, e dessa forma, o vot das oclusivas sonoras foi examinado separadamente do vot das oclusivas surdas. A diferenciação de tal traço é fundamental, na medida em que os valores do vot são alterados de acordo com seu vozeamento (cf. Chao & Ladefoged 1999). Ainda segundo Chao & Ladefoged (1999), enquanto as oclusivas surdas apresentam um intervalo curto ou simultâneo entre a barra de explosão e o início da vogal, as oclusivas sonoras podem ser vozeadas antes PAPIA, 25(1), ISSN 0103-9415, e-ISSN 2316-2767
22 Amanda Macedo Balduino / et al. ˜ v v Diferença ms ms % Tônicas 180 149 17 Pretônicas 159 136 14 Tônicas [-voz] 167 136 18 Tônicas [+voz] 190 170 11 vot 169 129 17 Média 173 144 17 Tab. 10: Duração média de ˜ vevem todas as posições estudadas. Os valores de ˜ vforam obtidos pela subtração da sua duração e o valor que equivaleria à c2. O cálculo utilizado foi c2-c2=X, onde X é a diferença em milissegundos obtida, e ˜ vX=Y, onde Y é o valor de ˜ vquando subtraída a duração equivalente à c2. ˜ v= Vogal [+nasal]; v= Vogal oral e c2= Consoante subsequente. do segmento consonantal seguinte e não apenas do espraiamento do traço [+nasal] da consoante subjacente. A fim de comprovar se o alongamento de c2 da sequência oral é de fato contestador à hipótese bifonêmica, é preciso analisar a duração dos segmentos nasalizados e orais descartando a duração atribuída à c2 nos segmentos com o traço [+nasal]. O resultado da aplicação de tal procedimento é demonstrado na tabela 10. Ainda subtraindo a duração equivalente à c2, os segmentos vocálicos [+nasais] mantêm sua duração, em média, maior do que a das vogais orais. Há uma queda de 3% em comparação à primeira análise, todavia, se este valor configura um número que não certifica a hipótese bifonêmica, ao passo que representa queda percentual em relação ao primeiro valor alcançado, tampouco é capaz de contradizê-la, já que, além de ser uma alteração mínima, mantém o invariável alongamento de ˜ v, como na tabela 11. Língua ˜ v v Diferença ms ms % Santome 192 167 13 Lung’ie 155 120 22 Média 173 144 17 Tab. 11: Duração média de ˜ vevem todas as posições estudadas, com especificação para cada língua estudada. Retratadas na tabela 11, as médias do santome e do lung’Ie são mantidas maiores para os segmentos ˜ v, culminando no valor mediano total de 17%. PAPIA, 25(1), ISSN 0103-9415, e-ISSN 2316-2767
A nasalidade vocálica em santome e lung’Ie Nasality in Santome and Lung’ie 23 Comparando uma língua com a outra, constatamos que, embora este alongamento seja constante, ele é sempre maior para o lung’Ie (22%) do que para o santome (13%). Em uma aproximação com a investigação proposta por Wetzels & Moraes (1992) para o português brasileiro (pb), nota-se uma situação similar e, mesmo havendo distinção nos valores exatos em ambos os estudos, a maior duração de ˜ vpermanece inalterável. Os autores, partindo de um estudo experimental com ênfase nas vogais abertas e baixas [a/ã], constataram o alongamento de 35,7% de [ã] em relação a [a] na posição tônica, e de 23,9% em pré-tônicas, resultando na média de 29,8%. Pautados nestes resultados e em sua posterior análise, Wetzels & Moraes (1992) apontam, também, para a existência de uma estrutura bifônica para a nasalidade no pb. As investigações realizadas com pauta em métodos experimentais, e em uma série de critérios fonológicos avaliativos, sugerem a interpretação bifonêmica para a nasalidade vocálica do santome e do lung’Ie. Desta forma, assim como na língua portuguesa, nas línguas autóctones de stp não há nasalidade vocálica intrínseca, mas uma representação subjacente do fenômeno vmais nasalidade n, indicando, portanto, que os segmentos vocálicos [+nasal] são nasalizados. 7 Conclusão Por meio de testes experimentais, constatamos, no santome e no lung’Ie, o alongamento médio de 17% das vogais [+nasais] em relação às vogais orais. Segundo as perspectivas fonológicas autossegmentais como a fonologia cv (Clements & Keyser 1983) e a geometria de traços (Clements 1996), bem como o estudo experimental acerca da nasalidade vocálica no português brasileiro (Wetzels & Moraes 1992), esta maior duração é interpretada como decorrente da queda de uma consoante nasal presente na camada segmental, e o consequente espraiamento do traço [+nasal] para a vogal antecedente na camada cv. Assim, a análise dos dados sugere a inexistência de fonemas vocálicos nasais nas línguas autóctones de stp e, ao mesmo tempo, oferece suporte às hipóteses que postulam vogais nasalizadas, cuja nasalidade é oriunda de um processo de espraiamento do traço [+nasal] de uma consoante em coda, posteriormente elidida, permitindo, então, que o fenômeno no santome e no lung’Ie seja compreendido à luz da hipótese bifonêmica da nasalidade (Câmara 1953; 1970; Cagliari 1977; Wetzels 1991; Wetzels & Moraes 1992), de modo similar ao da língua portuguesa. PAPIA, 25(1), ISSN 0103-9415, e-ISSN 2316-2767
24 Amanda Macedo Balduino / et al. Referências Agostinho, Ana Lívia. 2014. Fonologia e método pedagógico do lung’Ie. Universidade de São Paulo, tese de doutorado. Bandeira, M. Em preparação. Reconstrução fonológica e lexical do protocrioulo do Golfo da Guiné. Universidade de São Paulo, tese de doutorado. Browmann, C. P & L. Goldstein. 1989. Articulatory gestures as phonological units. Phonology 6(2): 201-251. Cagliari, L. C. 1977. An Experimental Study of Nasality with Particular Reference to Brazilian Portuguese. Universidade de Edimburgo, tese de doutorado. Chao & Ladefoged, P. 1999. Variation and universals. In: vot: evidence from 18 languages. Journal of Phonetics 27: 207-229. Clements, N. 1996. The role of sonority in Core Syllabification. In: J Kingston & M. Beckman (eds). Papers in Laboratory Phonology I, 1-55. Cambridge: CUP. Clements, N. & S. L. Keyser. 1983. Phonology: a generative theory of the syllable. Cambridge: MIT Press. Christofoletti, A. 2013. Ditongos no português de São Tomé e Príncipe. Universidade de São Paulo, dissertação de Mestrado. Cristófaro Silva, T. 2010. Fonética e Fonologia do Português. São Paulo: Contexto. Ferraz, L. I. 1979. The creole of São Thome. Johannesburg: Witwatersrand University Press. Ferreira Netto, W. 2007. Introdução à fonologia da língua portuguesa. São Paulo: Paulistana. Günther, W. 1973. Das portugiesische Kreolisch der Ilha do Príncipe. Marburg an der Lahn: Im Selbstverlag. Hagemeijer, Tjerk. 2009. As línguas de S. Tome e Príncipe. Revista de crioulos de base lexical portuguesa e espanhola 1(1): 1-27. Instituto Nacional de Estatística. Sem data. ine: São Tomé e Príncipe em números. Disponível: http://www.ine.st/Documentacao/Recenseamentos /2012/Final_do_RGPH_2012.pdf.Acesso em: 25 de agosto de 2015. Instituto Nacional de Estatística. sem data. ine: São Tomé e Príncipe em números. Disponível: http://www.ine.st/Documentacao/InformacoesEsta tisticas/Demograficas/22.pdf Acesso em: 25 de agosto de 2015. Leite, Y. 1974. Portuguese Stress and Related Rules. University of Texas at Austin, PhD thesis. PAPIA, 25(1), ISSN 0103-9415, e-ISSN 2316-2767
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