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Carbon Team News vol. 6

Paiva, Mariele; Monteiro, Thiago; Carvalho, Andréa da Consolação de Oliveira; Batista, Matheus; Pereira, Cecília; Buss, Laura; Baldoni, Letícia; Kerr, Rodrigo

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M RES V O L . 6 | N O V E M B R O | 2 0 2 4 O C A R B O N O A Z U L CARBON Team News CARBON Team News I S S N 2 6 7 5 - 8 6 3 6 CARBON Team News - Volume 6 28 de novembro de 2024, Rio Grande - RS, Brasil. Revista anual de divulgação e distribuição gratuita. Edição, projeto gráfico e diagramação Mariele Paiva, Thiago Monteiro, Andréa Carvalho, Matheus Batista, Cecília Pereira, Laura Buss, Letícia Baldoni e Rodrigo Kerr. Fotografia de capa Roberto Sena (@senna_lobo), 1º lugar no concurso de fotos CTNews 2024. Imagens e figuras Acervo CARBON Team | Canva Pro |Colaboradores. Contato Prof. Dr. Rodrigo Kerr Universidade Federal do Rio Grande, Instituto de Oceanografia, LEOC. Av. Italia, Km 8. Campus Carreiros, 96203-900, Rio Grande, RS - Brasil. [email protected] Citação Paiva, M., Monteiro, T., Carvalho, A., Batista, M., Pereira, C., Buss, L., Baldoni, L. e Kerr, R. (Eds.). CARBON Team News, Vol. 06, novembro de 2024. LEOC, IO-FURG, Rio Grande, Brasil, 36 pp. ISSN: 2675-8636. https://doi.org/10.5281/zenodo.14259505. A revista CARBON Team News é um periódico anual, elaborado pelo CARBON Team, no âmbito do Projeto MARES. Os estudos desenvolvidos pelo CARBON Team ocorrem em parceira com diversos grupos e recebem apoio financeiro ou logístico por meio de projetos aprovados em editais das seguintes instituições: O CARBON Team é o grupo de estudos biogeoquímicos do Laboratório de Estudos dos Oceanos e Clima (LEOC), do Instituto Oceanográfico da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). O CARBON Team faz parte da rede Brasileira de Pesquisa em Acidificação dos Oceanos (BrOA) e colabora com os seguintes grupos e redes de pesquisa: Hoje, o conhecimento produzido através do desenvolvimento e da evolução da ciência é restrito a uma pequena parcela da sociedade, infelizmente. A maioria das pessoas desconhece como as pesquisas são feitas, quais são os resultados delas e o que a ciência traz de benefício para a sociedade como um todo. Diante disso, parte do trabalho executado por cientistas cai em descrédito, abrindo espaço na sociedade para pseudociências, pouca adesão às medidas voltadas à preservação do planeta e baixa participação política da sociedade civil em questões relevantes. É tempo de olharmos mais para quem a ciência trabalha: pelo ambiente, pela solução de problemas, mas, principalmente, por todas as pessoas que convivem ou conviverão em nosso planeta. Assim, fica fácil entendermos que é papel de todos nós nos envolvermos com a popularização das ciências, desmistificando métodos, conclusões, previsões e incertezas. A Revista CTNews lançou seu primeiro volume em 2019. Desde então, um grande esforço vem sendo aplicado para que a linguagem e o conteúdo da revista se aproximem cada vez mais do cotidiano das pessoas. Nossa missão é popularizar as Ciências do Mar, na busca por engajamento da sociedade em questões ambientais relevantes. Por isso, agradecemos imensamente ao incrível time que contribuiu na construção da revista, embarcando conosco nessa importante missão. Com muita satisfação, apresentamos a vocês o volume seis da CARBON Team News! Neste volume, você encontrará informações sobre o Carbono Azul, tema desta edição. Além disso, cientistas espalhados pelo Brasil e pelo mundo nos contam sobre os chapéus dos Elefantes Marinhos, os manguezais do Maranhão e as pequenas Diatomáceas da Antártica. Em Ciência e Sociedade, apresentamos o fantástico mergulho com o MARES nas escolas e as perguntas curiosas dos nossos cientistas mirins, respondidas por pesquisadores do mundo todo. Em “Acontece na nossa praia”, pesquisadores nos contam sobre eventos corriqueiros (porém curiosos) que aconteceram este ano na Praia do Cassino, no Rio Grande do Sul e, certamente, em muitas praias Brasil afora. A revista traz, ainda, a entrevista da Suzana, uma mulher de consciência ambiental que inspira e ensina, além da apresentação de projetos de pesquisa e a importância deles para a nossa vida. Além disso, um concurso com imagens lindas e uma divertida história em quadrinhos podem ser encontrados aqui. Que possamos nos beneficiar dos achados da ciência, que ela seja o guia das nossas ações cotidianas e que possamos sonhar juntos com um futuro mais equilibrado para o planeta que compartilhamos. Esperamos que você goste desta navegação tanto quanto nós gostamos de construir esta jangada. Mariele Paiva Editora-chefe Editorial Conteúdo 12 06 08 16 As cores do carbono Diatomáceas e as mudanças climáticas Pergunte a um cientista Por que as águas mudam de cor? Da terra ao mar 04 10 18 24 30 28 Como a Antártica impacta a minha vida? O carbono é azul no estuário Calli e seus amigos 32 34 36 22 14 26 20 cores do cores do O carbono é um elemento químico essencial para todas as formas de vida. Por meio de reações químicas, processos físicos e biológicos, esse elemento transita entre a atmosfera, o oceano e a superfície da Terra. Encontramos carbono em quase tudo: dissolvido na água, no ar, nas células dos organismos, na nossa comida, no nosso carro e na nossa casa, enterrado no solo e na composição de rochas. Mesmo com tamanha importância, o carbono muitas vezes aparece como um grande vilão, principalmente no que diz respeito às questões climáticas. Na atmosfera, como um gás composto por um combinado de oxigênio e carbono, o gás carbônico ou CO₂ tem um papel importante para aprisionar o calor que vem do sol, mantendo a temperatura da superfície terrestre ideal para a vida. Porém, quando esse gás está em excesso na atmosfera, há um aumento na quantidade de calor mantido na Terra. Com isso, muitos desequilíbrios trazem consequências catastróficas que já vêm sendo vivenciadas pela humanidade, como o aumento da frequência e intensidade de enchentes, furacões e ondas de calor, perda de biodiversidade, acidificação dos oceanos, entre outras. Hoje, a ciência demonstra que grande parte do CO₂ da atmosfera é liberado por atividades relacionadas ao nosso modo de vida. Isto é, por queima de combustíveis fósseis, desmatamento, processos industriais, consumo exagerado, etc. Diante desse fato, há uma busca intensa para que a quantidade Por Mariele Paiva, Andréa Carvalho, Thiago Monteiro e Rodrigo Kerr. de CO₂ liberada na atmosfera seja diminuída. No entanto, ainda que a redução da quantidade desse gás lançado na atmosfera ocorra, é preciso também remover o CO₂ que já adicionamos, pois somente a redução da liberação desse gás na atmosfera não será suficiente para evitar os efeitos catastróficos das mudanças climáticas. Na tentativa de estabelecer um equilíbrio entre progresso e preservação, o carbono vem ganhando cores: cinza, negro, marrom, verde e azul, como se essas cores compusessem uma bandeira pela sobrevivência das formas de vida que conhecemos hoje. Essa terminologia baseada em cores contribui para a evolução da compreensão do ciclo do carbono, com definições baseadas em sua função, atributo ou localização. O carbono cinza é o carbono estocado em combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural). O carbono negro é a fuligem emitida por motores, usinas termelétricas, queimadas e outras fontes que queimam combustíveis fósseis. O verde representa o carbono capturado por plantas e estocados em florestas e ecossistemas terrestres naturais. Já o carbono marrom se refere ao carbono estocado em florestas industriais ou florestas plantadas com o propósito de extração de matérias-primas. Por último, o carbono azul representa todo o CO₂ absorvido da atmosfera e estocado no oceano e em regiões costeiras. A maior parte do carbono azul corresponde ao CO₂ diretamente dissolvido na água e uma parcela carbono carbono As As CARBON TEAM NEWS VOL. 6 | 04 Abertura https://doi.org/10.5281/zenodo.14040560 também está estocada no sedimento, na vegetação costeira e nos organismos marinhos, das pequenas células do fitoplâncton até as gigantescas baleias. O nosso planeta não pode ser destruído com nossas ações, mas ele pode se tornar hostil demais para a maioria dos seres vivos que conhecemos hoje. Assim, cada uma das cores do carbono lança luz sobre uma parte importante desse complexo sistema e evidencia o que deve ser reduzido ou aumentado. Muitos cientistas têm se dedicado a investigar soluções baseadas na natureza, ou seja, utilizar ós ainda estamos muito longe de atingirmos um equilíbrio entre o progresso da sociedade, a emissão de CO₂ e a preservação do planeta. Mas há muito que podemos fazer para mudar os rumos climáticos do planeta. Para isso, o desenvolvimento de novas tecnologias é crucial, mas também mudanças de atitude e comportamento por parte da sociedade são urgentes. Embora sejamos pequenos diante de grandes indústrias e até países, nós somos muitos. Em conjunto, somos nós que regulamos grande parte do mercado através do nosso consumo e desperdício: de comida, transporte, roupas, cosméticos e água, por exemplo. Por isso, conhecer e apoiar os achados da ciência, cuidar do ambiente ao seu redor e reduzir seu consumo de forma consciente são as melhores formas de mantermos nosso planeta o lar de muitas espécies que o habitam hoje, incluindo a nossa. estratégias de processos que já são conduzidos no ambiente para aumentar o estoque de carbono azul. Por exemplo, incrementando a capacidade do oceano dissolver CO₂ com a alcalinização da água marinha, induzindo a produção primária ou injetando no sedimento rejeitos ricos em carbono. Outra alternativa baseada na natureza busca compreender e preservar ecossistemas que são naturalmente importantes na produção e estoque de carbono azul: manguezais, marismas e pradarias de ervas marinhas. CARBON TEAM NEWS VOL. 6 | 05 Juntos somos melhores! N Locais de Formação da Água Antártica de Fundo ao redor da Antártica. Crédito da imagem: Natalia Ribeiro. Por Natalia Ribeiro MAMÍFEROS DE CARBON TEAM NEWS VOL. 6 | 06 CHAPEUZINHO Crédito da imágem: Clive R. McMahon. A produção da Água Antártica de Fundo (AABW, na sigla em inglês), a água mais densa do oceano, é um elemento-chave da circulação oceânica global, distribuindo calor e regulando o clima do planeta. A formação de AABW depende da produção de gelo marinho, que influencia a salinidade e a temperatura da água, em regiões costeiras específicas ao redor da Antártica chamadas polínias. Investigar o equilíbrio entre a produção de gelo marinho nas polínías, a entrada de águas oceânicas mais quentes nas margens continentais antárticas e o impacto dessas águas mais quentes no derretimento das plataformas de gelo tem sido uma tarefa extremamente difícil. Essa dificuldade é ainda maior durante o inverno, quando a logística de navios é prejudicada pelo crescimento do A pesquisa oceanográfica evoluiu significativamente desde a histórica expedição a bordo do Navio H.M.S. Challenger (1872-1876), quando o primeiro conjunto abrangente de dados oceânicos foi coletado. As novas tecnologias autônomas, que executam medições de forma relativamente independente, como os flutuadores Argo e medições de satélite, permitem hoje uma exploração mais sistemática do oceano. Entretanto, as dificuldades em fazer observações ao redor da Antártida, especialmente nas margens, persistem. Limitações de bateria e a incapacidade de emergir para obter uma posição de GPS tornam difícil o envio de flutuadores sob ou perto do gelo marinho. Isso sem contar as dificuldades logísticas, por conta do clima instável, já mencionadas. Como resultado, a costa antártica é uma das regiões menos conhecidas do oceano global. Com Ciência gelo marinho e pelas más condições climáticas. https://doi.org/10.5281/zenodo.14040737 Sensor registra dados da água, mas não machuca o animal e cai naturalmente na troca de pelos. Crédito da imagem: Clive R. McMahon. A tecnologia pode ser usada em diferentes espécies e em ambos os polos, desde focas-de-weddell, para dados rasos perto do gelo marinho antártico, até focas-barbudas (Ártico) ou elefantes marinhos (Antártica) para pesquisas em oceano aberto. Desde que os primeiros elefantes marinhos foram equipados com chapeuzinhos em 2004, mais de 100.000 perfis verticais foram coletados apenas no Leste da Antártida. Os mamíferos marinhos com chapeuzinhos coletam observações oceanográficas essenciais que permitem uma melhor compreensão dos processos climáticos locais e globais. Os elefantes marinhos, por exemplo, foram fundamentais para a descoberta de duas novas fontes de AABW (Cabo Darnley e Baía de Vincennes). Os dados também mostram que a entrada de águas quentes vindas do oceano aberto (Água Circumpolar Profunda modificada – mCDW, na sigla em inglês) nas plataformas continentais antárticas estão ameaçando a produção de AABW na Baía de Vincennes, já que atrasam a produção de gelo marinho no local. Além disso, os dados dos elefantes marinhos identificaram a entrada de água doce na circulação da baía, proveniente do derretimento mais rápido dos glaciares locais provocado por essas intrusões. Nesse contexto, os mamíferos marinhos instrumentados, ou de chapeuzinho, são uma ferramenta importante para determinar o possível declínio da produção de AABW e compreender o que isso significa para o clima do planeta no futuro. Natalia é Oceanóloga pela FURG e Doutora em Ciências Naturais e Físicas pela Universidade da Tasmânia. Atualmente, é cientista no Integrated Marine Observing System (IMOS). Seus estudos focam na interação entre oceanos e plataformas de gelo, utilizando dados coletados por elefantes-marinhos. A autora não se via como cientista. Mas, hoje, está muito feliz com essa escolha que a levou da sala de aula até expedições oceanográficas nos dois polos. Ela se descreve como “um ser de péssimos hábitos”: dorme tarde priorizando os mais diversos tipos de hobbies e não acorda antes de tomar café. CARBON TEAM NEWS VOL. 6 | 07 Para superar os desafios do estudo desses processos costeiros e sob o gelo, os cientistas têm recrutado ajudantes oceanógrafos especiais: os mamíferos marinhos. O Registrador de Dados de Condutividade-Temperatura-Profundidade Retransmitidos por Satélite (CTD-SRDL), ou "chapeuzinho", é colado na cabeça do mamífero com epóxi logo após a sua temporada de muda, que dura de três a cinco semanas, entre janeiro e fevereiro. Enquanto esses animais mergulham sob o gelo marinho, o CTD-SRDL registra a temperatura, salinidade e profundidade do oceano, transmitindo em tempo quase real o mergulho mais profundo dentro de um período de seis horas. A localização desses mergulhos (ou perfis) é fornecida pelo sistema de Observação Global e Pesquisa Avançada por Satélite (ARGOS, na sigla em inglês), e os dados de salinidade e temperatura tem precisão estimada de ~0,003 e ~0,002 ⁰C, respectivamente. Os dados são então processados e disponibilizados gratuitamente por meio do Consórcio MEOP (Mamíferos Marinhos Explorando de Polo a Polo) e, agora, também na rede AniBOS. SOBRE A AUTORA Natalia Ribeiro Gelo marinho e más condições climáticas dificultam a investigação no local. Crédito da imagem: @vladsilver CARBON TEAM NEWS VOL. 6 | 14 Entrevista ra uma tarde de terça-feira, quando o filho de Suzana “entrou correndo pela casa, segurando uma pequena tartaruga de barro, esculpida por ele mesmo, em uma atividade da escola”. O menino, então, avisou à mãe que naquele final de semana sua escola faria um curso para os pais dos alunos sobre as tartarugas. Suzana, depois de muita insistência do filho (que queria muito participar do curso), aceitou. A imagem do filho com a tartaruguinha de barro ficaria para sempre na memória dessa mãe e tudo o que aprendeu naquele final de semana mudaria a sua vida, sua comunidade e a vida de inúmeros animais marinhos. Inspirada pelo curso, ela se uniu a outras sete mulheres, todas mães e afastadas do mercado de trabalho já há algum tempo, para fundar o Grupo de Artesãs da Barra (GAB). Suzana buscou diversas técnicas artísticas e muito conhecimento para trabalhar de diferentes formas, com a missão de proteger os animais marinhos sobre os quais aprendeu e gerar renda para as famílias do GAB. Apesar dos inúmeros desafios enfrentados a cada dia, Suzana persevera e busca ampliar o seu trabalho. Veja a seguir a entrevista realizada pelo projeto MARES com essa mulher potente e de mente inspiradora. MARES: Conte-nos sobre sua trajetória na conscientização ambiental e o surgimento do Grupo de Artesãs da Barra? Suzana: No ano de 2003, o NEMA (Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental) ofertou uma oficina de conscientização ambiental na escola do meu filho, aqui na comunidade. Eu e mais 31 mulheres nos inscrevemos e, no término do curso, só tinham 8 mulheres, incluindo eu. Nos olhamos e nos perguntamos: “e agora, tudo acaba aqui?”. Eu não sabia que as tartarugas demoravam tanto para crescer, nem que tão poucos ovos sobreviviam até a fase adulta. Eu me sensibilizei e foi através da arte que encontrei um meio de conscientizar as pessoas, alunos, enfim, toda a população. Decidimos montar um grupo para compartilhar esse conhecimento recém-adquirido com outras pessoas. Foi aí que surgiu o Grupo de Artesãs da Barra - o GAB, que ainda existe com trabalhos esporádicos. MARES: Quais são as atividades que você e o GAB desenvolvem com a comunidade para promover a conscientização ambiental? Suzana: Desde quando o GAB surgiu, aprendi muitas técnicas artísticas, como: biscuit, gesso, tecido, estamparia e outros, sempre pensando em me dedicar à conscientização ambiental, em trabalhar ajudando a preservação marinha. Também, fiz várias oficinas de educação ambiental, me especializei em espécies com risco de extinção e adquiri conhecimento que me permitisse trabalhar pela causa. Passamos a construir, com diferentes técnicas, réplicas das espécies em risco e vendê-las em feiras e eventos, sempre contando a história por trás de cada arte. Também, faço oficinas gratuitas em escolas e eventos para conscientizar a população, quando sugiro medidas de proteção, falo sobre a importância do papel de cada um, não poluindo, fazendo a destinação correta do lixo e revelando que esses pequenos passos fazem a diferença. Uma entrevista do Projeto MARES à Suzana Camargo Reis, líder informal de um grupo comunitário de artesãs para a proteção de animais marinhos em Rio Grande-RS. E https://doi.org/10.5281/zenodo.14041776 CARBON TEAM NEWS VOL. 6 | 15 MARES: Como é a aceitação da comunidade em relação às iniciativas do GAB e quais são os principais desafios que o grupo enfrenta? Suzana: No GAB, somos oito mulheres com famílias diretamente ligadas à pesca. No início, tivemos muita resistência dos maridos e familiares, porque se imaginava que esse trabalho prejudicaria a pesca, com mais fiscalização e regras. Foi uma luta desconstruir essa ideia! Mas eu fui resistindo, vendendo a importância desse projeto. Com o passar do tempo, envolvendo as famílias, conseguimos vencer essa barreira. Hoje em dia, nosso trabalho é bem aceito e todos se envolvem com gosto, facilitando a comunicação e disseminação da educação ambiental. Quando há eventos na comunidade, os pais e as crianças se envolvem de maneira aberta e participativa, compartilham o conhecimento com a família e conhecidos. Nas oficinas, as crianças interagem e replicam suas próprias artes marinhas, quando levam pra casa e compartilham a história de cada réplica. Porém, nosso maior desafio é o poder público não dar o devido valor a essa atividade! Não há investimento, nem disponibilização de oficinas voltadas à preparação de novas integrantes o que, além de conscientizar a comunidade, seria uma importante geração de renda. MARES: Como você avalia os impactos do seu trabalho na comunidade? Existem programas específicos voltados à educação ambiental? Quais são as perspectivas do GAB em um futuro próximo? Suzana: Vejo que tem tido um grande impacto! Antes, parte da comunidade até se alimentava de tartarugas, por exemplo. Depois desse trabalho, não acontece mais. Quando encontram animais que precisam de ajuda, a população me procura para orientar sobre o que fazer e qual órgão podemos acionar. Além disso, nosso grupo já mostrou ser capaz de alcançar muitas pessoas com pouquíssimo recurso e incentivo. Nossa primeira exposição na Festa do MAR, uma festa tradicional da nossa cidade, foi um grande marco para nós. O convite do Projeto Toninhas para dar uma oficina na Bahia da Babitonga, em São Francisco do Sul (SC), foi uma experiência particularmente incrível: poder compartilhar o conhecimento com outra comunidade que foi muito receptiva. Mas, para mim, o maior impacto do nosso trabalho é saber que ajudamos a espalhar todo esse conhecimento pelo mundo. Já tiveatingir o maior número de pessoas. Infelizmente, não existem programas contínuos, são sempre projetos esporádicos. O grupo só existe ainda por conta de parcerias que aparecem de vez em quando, com o NEMA, NUDESE, Projeto Toninhas, Tamar, Refinaria Riograndense e Sagres. Sem essas parcerias, não seria possível continuar. Mas meu desejo é de que houvesse programas voltados para isso. Eu gostaria de ter a oportunidade de compartilhar o conhecimento, fazer mais oficinas, qualificar mais artesãs e encontrar novos parceiros para que possamos continuar com o trabalho. MARES: Como seu trabalho mudou sua própria visão sobre o ambiente e o que te faz continuar, apesar das dificuldades? Suzana: Mudou tudo, pois eu não tinha o conhecimento sobre a situação preocupante da vida marinha. Apesar de conviver diariamente com o mar e as espécies marinhas, não tinha noção do impacto negativo que causamos. Faço esse trabalho porque eu me apaixonei e acho que essa é a minha missão. O planeta precisa de ajuda e estou fazendo a minha parte. MARES: Se pudesse deixar uma mensagem para a sua comunidade e para aqueles que estão lendo a nossa entrevista, qual seria? Suzana: Minha mensagem seria um pedido: Que a comunidade use a curiosidade para buscar conhecimento e, sempre que tiverem oportunidade, participem de oficinas. Suzana foi entrevistada por Letícia Baldoni & Mariele Paiva. A equipe MARES agradece imensamente a receptividade da entrevistada (e de toda a sua família), tanto em sua casa, como durante as trocas de mensagens. Também deixamos registrados a nossa torcida para que a Suzana e o GAB encontrem muitos parceiros, dispostos a alavancar esta e outras iniciativas socioambientalmente relevantes. Ainda, esperamos encontrar muitas Suzanas por aí: mulheres fortes e criativas, dispostas a lutar pelo planeta com as armas que possuem. Crédito das imagens: Suzana C. Reis. mos livros em homenagem ao nosso trabalho, artigos, posts que se espalham por aí para ressoaoceano ressoaoceano CARBON TEAM NEWS VOL. 6 | 16 Por Germana Barata & Débora Luz Estima-se que 60% da população mundial vive a menos de 50 km da costa, no entanto, até os demais 40% possuem sua vida influenciada pelo oceano. As mercadorias transportadas, o petróleo que move os automóveis, o alimento, o oxigênio, o clima, em tudo há oceano. Apesar dessa relação estreita entre o oceano e a vida na Terra, a falta de conhecimento sobre o mar é um dos maiores desafios na Década do Oceano. Levar a ciência oceânica para além do meio acadêmico e do litoral é essencial para mudar a relação da sociedade com o bioma, e por sua vez provocar o engajamento de todos em sua conservação. A rede colaborativa de comunicação Ressoa Oceano é um exemplo de como colaboração e comunicação podem andar juntas para contribuir para uma ciência do oceano mais acessível e forte. A rede contribui para pautar a mídia e, portanto, a opinião pública, com pautas relevantes sobre o oceano. Ela também organiza treinamentos para especialistas, cientistas e jornalistas comunicarem mais e melhor, além de fazer curadorias de conteúdos de qualidade produzidos por outros colegas e que merecem visibilidade. Tudo isso por meio de ações coletivas, em coautoria que potencializam a disseminação do oceano na sociedade. “ p r o v o c a r o “ p r o v o c a r o Dentre nossos parceiros estão a Agência BORI, uma agência de notícias sobre ciência que já divulgou mais de 40 estudos científicos sobre o oceano para cerca de 3 mil jornalistas de todo o país desde junho de 2023. O jornal O Eco também já publicou 16 artigos sobre o oceano neste último ano, além de 30 matérias nas revistas Ciência Hoje e Ciência Hoje para as crianças, 15 produções para o blog Um Oceano e dois workshops A Década do Oceano foi implementada para engajar esforços ao objetivo 14 (vida na água) da Agenda 2030. Essa agenda conta com 17 ambiciosos objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS) definidos pelas Nações Unidas (ONU) em 2015. Para alcançarmos grande parte destes objetivos, no entanto, é fundamental que tenhamos um oceano saudável. A regulação do clima, por exemplo, processo no qual o oceano é fundamental, influencia na segurança alimentar, erradicação da pobreza, desenvolvimento econômico, água potável e saneamento, alguns dos 17 ODS. O oceano também tem importante papel na geração de emprego, renda, desenvolvimento de novas tecnologias e produção de energia limpa. O desenvolvimento de uma economia azul, necessariamente sustentável, é, portanto, chave para a redução das desigualdades sociais e de gênero. Diante da complexidade da rede de conhecimentos que afeta o alcance destes objetivos e dos desafios a serem alcançados na Década do Oceano, os debates acerca da ciência oceânica têm trazido à tona duas ferramentas fundamentais para mudar essa realidade: o trabalho colaborativo e a comunicação. A colaboração deve ser realizada em diferentes níveis, que vão desde a geração do conhecimento por parte de cientistas de diferentes áreas do conhecimento e grupos sociais e de diversos lugares do mundo, até o envolvimento de governos e sociedade civil. A comunicação, portanto, é a ferramenta que permitirá a conexão entre estas esferas. É através dela que a mensagem e as informações são disseminadas para tocar mentes e corações em prol de mudanças reais e urgentes. Como dizem: “não há planeta B”. d e t o d o s n a d e t o d o s n a c o n s e r v a ç ã o c o n s e r v a ç ã o d o o c e a n o ” d o o c e a n o ” e n g a j a m e n t o e n g a j a m e n t o Ciência & Sociedade https://doi.org/10.5281/zenodo.14041837 Remadores de Chumash Tomol 'Elye'wun atravessando para a Ilha de Santa Cruz. Crédito da imagem: Robert Schwemmer | NOAA. Graduada em Ciências Biológicas e mestre em Ciências Fisiológicas pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), atualmente, Débora Luz é bolsista CNPq DTI na Rede Ressoa Oceano e membro da Liga das Mulheres Pelo Oceano. Débora Luz CARBON TEAM NEWS VOL. 6 | 17 Sobre as autoras Germana Barata Germana Barata é jornalista de ciência e pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é coordenadora da rede Ressoa Oceano e membro do comitê de assessoramento da Década do Oceano no Brasil. cada do Oceano e, até aqui, é possível dizer que juntos somos mais fortes e podemos ir mais longe. Os resultados de pesquisas científicas são de grande valor para o avanço no conhecimento e contribuem para termos o oceano que queremos. Mas a ciência de nada vale se não estiver atrelada à vontade política e às ações da sociedade civil. A qualidade de vida no Planeta depende da transformação da nossa relação com o oceano. Colaboração e comunicação são as chaves para essa transformação. para jornalistas e cientistas. Em outra frente de atuação, a Ressoa Oceano apoiou a produção de 7 episódios da websérie O Mar dentro da Concha, de Katherina Grisotti, que acompanhou a rotina de jovens pesquisadores da iniciativa Archipelagos, do Instituto de Conservação Marinha da Grécia que atua na preservação da biodiversidade dos mares gregos. E a busca de parcerias segue para dar visibilidade a ações em curso e propor outras ainda inexistentes. Já estamos a quase meio caminho da conclusão da DéColaboração e COMUNICAÇÃO SÃO as chaves parA A TRANSFORMAÇÃO! Crianças são cientistas natos: seres observadores e de incansável curiosidade. Eles vão à praia, vêem filmes ou lêem histórias sobre o oceano, seus animais, o gelo e até as tempestades. A cada nova vivência, surgem novas curiosidades e muitas perguntas. Se estivessem perto de um cientista que investiga o oceano, o que as crianças perguntariam? Elas fizeram muitas perguntas interessantes e cientistas do mundo inteiro se uniram para respondê-las! Por Mariele Paiva & muitos colaboradores Pergunte a um cientista O mar tem 200 mil metros de profundidade? Emanuel, 5 anos, EMEI Deborah Sayão. Assim como a gente vê montanhas, colinas e vales por aí, o fundo do oceano não é plano e varia bastante de profundidade. O oceano pode ter até 11 mil metros, na Fossa das Marianas, o local mais profundo que conhecemos. Em média, a profundidade do oceano é de 3.700 metros. Porém, são nos primeiros 200 metros de profundidade (duas vezes o tamanho de um campo de futebol!) que existe a maior quantidade de organismos marinhos. Lilian (Lica) Krug, Coordenadora Científica do Partnership for Observation of the Global Ocean (POGO). Por que o oceano é azul? Maria Célia, 5 anos, EEI Santa Rita. A luz do sol é um tipo de energia composta pela soma das energias de várias cores: azul, roxo, verde, amarelo e vermelho. Você pode ver isso quando olha para um arco-íris! A água do oceano absorve a energia de muitas cores, mas não a energia da cor azul, que é refletida de volta. A cor que o oceano reflete, tons de azul, é a cor que a gente vê. Mas, dependendo do que tem na água do mar, ele pode refletir a energia de uma forma diferente e ter muitas outras cores, como verde, marrom e até vermelho. Samina Kidawai, Diretora do National Institute of Oceanography, Paquistão. CARBON TEAM NEWS VOL. 6 | 18 Para que servem os siris e por que tem tantos siris na praia? Alice, 5 anos, EEI Santa Rita. Siris são animais de um grupo chamado crustáceos, parentes de lagostas e caranguejos, cujos corpos são cobertos por carapaças. Eles vivem no oceano e, eventualmente, você pode ver alguns deles enquanto caminha pela praia ou entra no mar. Os siris estão na praia porque é ali que eles encontram muita comida e locais para se esconderem dos inimigos. Além disso, eles produzem muitos ovos e é comum encontrarmos muitos siris bebês por perto. Os siris são importantes para a saúde da praia, pois eles ajudam a limpar o oceano, se alimentando de plantas e animais mortos. Eles também são a comida preferida de muitos peixes e aves marinhas.Liban Isse Farah, cientista na City University of Mogadishu, Somália. Marinheiros deram esse nome a elas porque as viram caçando baleias. É verdade: as orcas podem caçar grandes animais no oceano, como focas e baleias. As orcas são muito espertas e trabalham em grupo quando caçam. Andréa Mesquita, cientista na University of New Brunswick, Canadá. Por que a orca é chamada de baleia assassina? Ignácio, 5 anos, EEI Santa Rita. Por que as baleias fazem bolhas? Ignácio, 5 anos, EEI Santa Rita. Apesar de viverem na água, as baleias respiram ar da mesma forma que nós. Elas precisam vir à superfície várias vezes ao dia para encherem seus pulmões de ar, antes de mergulharem novamente. Quando elas liberam o ar dos pulmões debaixo d'água, o ar sai de um buraco em cima de suas cabeças (chamado espiráculo), formando as bolhas. Andréa Mesquita, cientista na University of New Brunswick, Canadá. Lá nas profundezas do mar os animais são mais perigosos? Gael, 5 anos, EMEI Deborah Sayão. Os animais do oceano profundo não são perigosos para você, pois é muito improvável que você encontre um deles na sua vida. Às vezes, você pode ver na TV ou na internet “animais assustadores do fundo do mar”, com dentes grandes e afiados. Mas, na verdade, esses peixes são bem pequenos (eles têm uns 10 cm). Seus dentes afiados e grandes são muito importantes para eles, pois, como a comida não é muito abundante lá no fundo do mar, eles precisam usar esses dentes para pegarem sua comida todas às vezes que algo aparece por perto. Meri Bilan, cientista na Dalhousie University, Canadá. Por que os ermitões aparecem mortos na praia? Eric, 4 anos, EEI Santa Rita. Ermitões ou caranguejos-eremitas são parentes das lagostas, mas têm uma parte do corpo mole e desprotegida e, por isso, ocupam conchas vazias para se protegerem. Alguns estudos apontam que eles podem viver por muitos anos, mas alguns acontecimentos podem fazer com que eles morram na praia. Por exemplo, se os ermitões ficam muito tempo fora da água, suas guelras ressecam e eles morrem por não conseguirem respirar. Liban Isse Farah, cientista na City University of Mogadishu, Somália. Os megalodontes existem? Enzo, 5 anos, EEI Santa Rita. Eles existiram um dia, mas por causa de mudanças na Terra e nos oceanos, não existem mais (dizemos que foram extintos). Mas ainda temos os parentes do megalodonte, os tubarões. Felipe Amorim, cientista no Helmholtz-Zentrum Hereon, Alemanha. Por que o oceano não congela? Maria Célia, 5 anos, EEI Santa Rita. Se a temperatura da água se tornar fria o suficiente, o oceano congela, sim. Ciência & Sociedade https://doi.org/10.5281/zenodo.14041928 Por que às vezes a praia não tem ondas e às vezes tem muitas ondas? Raul, 5 anos, EEI Santa Rita. A maioria das ondas que você vê na praia é uma resposta do oceano ao vento que sopra sobre ele, mas depende também do formato do fundo do oceano, da velocidade do vento e por quanto tempo ele sopra. Por isso, assim como o vento muda o tempo todo, as ondas da praia também mudam. Às vezes, as ondas são grandes e às vezes, pequenas. Algumas delas quebram longe, outras, bem pertinho da praia. Mas, toda vez que você vir ondas na praia, é o oceano mostrando seu incrível movimento! Hind Azidane, cientista na Ibn Tofail University, Marrocos. CARBON TEAM NEWS VOL. 6 | 19 Por que tem tantas conchas na praia? Do que elas são feitas? Raul, 5 anos, EEI Santa Rita. As conchas são uma parte do corpo de animais como caracóis, mexilhões e outros moluscos. Esses animais não têm ossos e constroem as conchas principalmente para a proteção e suporte de seus corpos. Existem muitos caracóis e mexilhões no fundo do oceano. Quando esses animais morrem, suas conchas viajam pelo oceano com as ondas e correntes até chegarem às praias, ficando acumuladas ali. Ana Carolina Peralta, cientista na University of South Florida, EUA. Por que às vezes tem espuma na praia? Cecília, 5 anos, EEI Santa Rita. A espuma do mar é causada pela mistura de água, ar e algumas substâncias parecidas com o sabão. Essas substâncias podem ser naturalmente produzidas por microalgas (plantinhas muito pequenas que existem na água do mar) ou podem ser resultado da poluição do oceano. Quando essas substâncias estão presentes em grande quantidade e o mar está agitado, com muitas ondas, a espuma se forma e se acumula na praia. Felipe Amorim, cientista no Helmholtz-Zentrum Hereon, Alemanha. As baleias existem de verdade? Mariana, 4 anos, EMEI Deborah Sayão. Existem! Eu mesma já vi algumas delas pelo oceano. Frequentemente, elas estão debaixo d´água e, por isso, é difícil de vêlas. Porém, as baleias existem em todos os oceanos do planeta. Andréa Mesquita, cientista na University of New Brunswick, Canadá. Qual é o maior animal do oceano? Enzo, 5 anos, EEI Santa Rita O maior animal do oceano é a baleiaazul. Na verdade, é o maior animal que já viveu no nosso planeta. A baleiaazul pode crescer até 33 metros e pesar até 150 mil kg. Apesar de ser tão grande, a baleia-azul gosta de comer organismos bem pequenos, muito parecidos com camarões, chamados de krill. Andréa Mesquita, cientista na University of New Brunswick, Canadá. Quantas espécies de peixe existem no oceano?Olívia e Antonella, 5 anos, EMEI Deborah Sayão. Na verdade, o número total de espécies de peixes no oceano é desconhecida. O oceano é tão grande que frequentemente descobrimos novas espécies de peixe. Nós já conhecemos aproximadamente 25 mil espécies de peixes, mas descobrimos em torno de 200 novas espécies a cada ano. Por isso, o número de espécies de peixe que existem no oceano pode chegar a mais de 30 mil. Liban Isse Farah, cientista na City University of Mogadishu, Somália. Quem são os bichos que vivem nas profundezas do mar? Antônio, 5 anos, EMEI Deborah Sayão. No oceano profundo você pode encontrar diferentes tipos de animais. Nas regiões rochosas do oceano, você encontra corais e esponjas que crescem próximos uns dos outros, como em uma floresta. Entre os ramos dos corais e as fendas das esponjas, existem pequenos peixes, caracóis, camarões e serpentes-do-mar que vivem lá. Em áreas que têm muita areia ou lama, como os desertos submarinos, você encontra estrelas-domar, ouriços, peixes e pepinos-do-mar, além de vermes e micróbios. Existe também a região pelágica, a camada de água que fica acima do fundo do mar. Ali, você encontra animais que parecem gelatinas, transparentes e com algumas partes coloridas, como as águas-vivas, as geleias-de-pente e as salpas. Além disso, é nessa região que diferentes tipos de lulas e peixes são encontrados. Meri Bilan, cientista na Dalhousie University, Canadá. Como as conchas são feitas? Sarah, 4 anos, EMEI Deborah Sayão. A concha é construída pelo corpo do animal, por um tecido chamado manto, e contém elementos químicos (carbonato de cálcio e proteínas), semelhantes àqueles encontrados em nossos ossos. Assim como nossas unhas e dentes crescem, as conchas são produzidas pelos caracóis e são presas aos corpos deles. Ana Carolina Peralta (Carol), cientista na University of South Florida, EUA. Acontece que, diferentemente da água doce (congela a 0ºC), a grande quantidade de sal na água do mar faz com que ela congele em uma temperatura mais baixa (-2 ºC). Além do sal, a combinação de correntes oceânicas e grande volume de água mantém a maior parte do oceano no estado líquido, mesmo em invernos muito gelados. Ajin Madhavan, cientista na Cochin University of Science and Technology, Índia. Por que as baleias encalham na praia? Enrico, 5 anos, EEI Santa Rita. Existem muitos motivos para as baleias encalharem na praia: elas podem estar doentes, machucadas ou perdidas. Se estão nadando em um local raso e as águas ficam turvas, elas podem ficar confusas e encalharem. Isso é também comum entre os golfinhos, chamados de baleias dentadas, porque eles usam o som para conseguirem “enxergar” a sua volta. Os golfinhos formam grandes laços sociais com os amigos do seu grupo. Assim, quando um golfinho encalha, a tendência é de que todo o grupo de golfinhos encalhe junto. Alguns cientistas afirmam que o barulho feito pelos humanos no oceano também pode confundir baleias e golfinhos, fazendo com que eles encalhem. Andréa Mesquita, cientista na University of New Brunswick, Canadá. A Equipe MARES agradece às crianças e suas professoras pelas perguntas e aos cientistas que enviaram suas respostas! Por Manuel Macedo de Souza, Vanessa da Rosa e Raíza S. Azevedo O carbono é um elemento químico essencial para a vida na Terra. Para entender a sua importância, basta imaginá-lo como uma peça de LEGO que se junta a outras peças para formar quase tudo o que você conhece: um lápis, um prédio, uma árvore e até mesmo você! Todos os seres vivos são feitos de carbono, independente do seu tamanho ou da época em que habitou o planeta Terra; desde aqueles que não enxergamos, como as bactérias, até os grandes elefantes-africanos ou os já extintos dinossauros. A vida como conhecemos é feita do carbono! Mas o carbono não está presente apenas nos seres vivos. Ele também é encontrado no solo, no ar e na água, além de estar presente em materiais como o carvão, o petróleo e os diamantes. Ou seja, o carbono circula em todas as partes do planeta, formando o que chamamos de ciclo do carbono. O carbono pode percorrer quatro caminhos principais: (1) ser absorvido da atmosfera pelos proCARBON TEAM NEWS VOL. 6 | 20 ao carbono retornaremos ao carbono retornaremos DO CARBONO VIEMOS DO CARBONO VIEMOS dutores primários, em um processo conhecido como fotossíntese; (2) circular entre os seres vivos, através da alimentação; (3) retornar para atmosfera através da decomposição de organismos mortos ou pela respiração (lembre-se de que quando respiramos, liberamos gás carbônico) e (4) ser armazenado no solo ou no sedimento por longos períodos. Após milhares de anos, o carbono que foi armazenado pode se transformar em rochas, gases (como o metano) e petróleo. Sim, o mesmo petróleo com que se faz a gasolina, o diesel e que está presente em várias coisas, como asfalto, plásticos, solventes, nylon, poliéster e muito mais! Por isso, quando usamos combustíveis derivados do petróleo ou queimamos plásticos, liberamos para o ar o carbono que estava “preso” há milhares de anos na natureza. A grande quantidade de carbono liberada pelo uso de combustíveis fósseis contribui para o aumento da concentração de gases do efeito estufa, como dióxido de carbono e metano. Esses gases aprisionam o calor na atmosfera, intensificando o aquecimento global. Isso resulta no aumento das temperaturas do planeta, derretimento do gelo, mudanças climáticas, acidificação dos oceanos, alterações nos ecossistemas e maior frequência de eventos climáticos extremos. Por isso, cientistas e governos de diversos países estão investindo em tecnologias para minimizar o aquecimento global e suas consequências. Pois, além de diminuir a quantidade de carbono que estamos liberando para a atmosfera, também precisamos remover uma grande parte do que já foi lançado nos últimos anos. Uma dessas tecnologias para a remoção de CO é justamente a fotossíntese! Ou seja, é preciso entender como os organismos fotossintetizantes podem aumentar o sequestro e armazenamento do gás carbônico da atmosfera. O carbono azul, conceito criado diante da necessidade de mitigação 2 Ciência & Sociedade https://doi.org/10.5281/zenodo.14041956 planeta água incluindo banhados, campos de gramas marinhas e marismas, tornando essa região altamente eficaz na produção de carbono azul. Assim, antes mesmo de entendermos como esses ambientes costeiros podem aumentar o sequestro de gás carbônico da atmosfera, é preciso garantir que os campos de gramas marinhas, banhados, manguezais e marismas sejam preservados. Se pensarmos na quantidade e na diversidade dos ambientes costeiros Manuel Macedo de Souza Vanessa da Rosa CARBON TEAM NEWS VOL. 6 | 21 O professor Manuel leciona química para o Ensino Médio na Escola Estadual Alfredo Ferreira Rodrigues. É Doutor em Aquicultura pela FURG e pesquisador do projeto de Pesquisa Ecológica de Longa Duração do Estuário da Lagoa dos Patos e Costa Marinha Adjacente (PELD - ELPA). Doutora em Oceanografia Biológica pela FURG, Vanessa é também especialista em diatomáceas epífitas e ecologia da vegetação aquática submersa. Com seu trabalho, a autora busca produzir conhecimento sobre os estoques de carbono azul no Brasil para contribuir na mitigação das mudanças climáticas. Bióloga, Mestre e Doutora em Aquicultura, Raíza é atualmente Pós - doutoranda Júnior (CNPq) e pesquisadora do grupo de pesquisa de Engenharia Genética e Biotecnologia da FURG, o LEGENE. Raíza S. Azevedo Sobre os autores e aquáticos ao redor do mundo, o potencial para retirar carbono do ar e combater o aquecimento global é imenso. Pois, como bem disse Guilherme Arantes: do excesso de dióxido de carbono na atmosfera, é a parcela de carbono absorvida por organismos e armazenada em sistemas marinhos. Na região costeira do Brasil, além do fitoplâncton, os campos de gramas marinhas (plantas totalmente submersas), banhados, manguezais e marismas são grandes "produtores" de carbono azul. Próximo ao Estuário da Lagoa dos Patos (ELP), localizado no Rio Grande do Sul, encontramos mais de 300 km² de ambientes vegetados Terra, Terra, Marisma (à esquerda) e gramas marinhas (à direita), locais de produção de carbono azul. Crédito das imagens: @gettysignature. Ciência e Sociedade alcance de todos. A equipe do projeto MARES, que conta com pesquisadores da área de Oceanografia, tem visitado as salas de aula das Escolas Municipais de Ensino Fundamental (EMEF) Dr. Liberato Salzano Vieira da Cunha, Professora Luiza Tavares Schimidt, Barão do Rio Branco e a Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Déborah Thomé Sayão. Durante esses encontros presenciais, a equipe fala sobre temas fascinantes, como: os mistérios da formação dos oceanos e de suas profundezas, a incrível biodiversidade costeira e marinha, revelações sobre o clima global, as adaptações extremas à vida marinha na Antártica, bem como os desafios da conservação dos nossos mares perante os impactos das atividades humanas. MARES NAS ESCOLAS MARES NAS ESCOLAS Uma Aventura Didática pelos Oceanos Você já imaginou dar um mergulho pelo oceano sem sair da sala de aula? Pois é exatamente essa experiência mágica que o projeto "MARES nas Escolas" tem levado para estudantes do ensino infantil e fundamental, em várias cidades do país. O projeto é um verdadeiro mergulho no conhecimento, através de uma aventura educativa que traz o universo marinho para pertinho dos alunos. Durante este ano, mais de 200 estudantes de diversas escolas brasileiras têm aprendido de forma divertida e interativa sobre a importância dos oceanos e como preservá-los, através de palestras, oficinas e campanhas de conscientização. Afinal, quem disse que aprender não pode ser uma grande diversão? Por Letícia Baldoni A ideia é transformar o aprendizado em uma jornada ainda mais empolgante para que a ciência esteja ao Crédito das imagens: Acervo do Projeto MARES. CARBON TEAM NEWS VOL. 6 | 22 Ciência & Sociedade https://doi.org/10.5281/zenodo.14041984 Letícia é Oceanógrafa e Mestre em Oceanografia Biológica pela FURG. Em breve, se tornará Doutora, com um estudo focado na ecologia do zooplâncton antártico, pela mesma universidade. Apaixonada por crianças e pelo mar, ela é responsável pelas atividades nas escolas e pelas mídias sociais do projeto MARES. Letícia adora ensinar os pequenos sobre os mistérios dos oceanos e o seu trabalho na ciência, mas, nas horas vagas, se joga na quadra de areia para mais uma partida de beach tennis. Além disso, a equipe realiza palestras e reuniões online com alunos de escolas em diversas cidades do país, durante as quais temas relacionados à Oceanografia são abordados, de acordo com os interesses dos estudantes. Eventualmente, temos algumas atividades extras, como a do Dia dos Oceanos, realizadas em colaboração com o projeto “Parceiros do Mar”. Nessas atividades colaborativas, são enfatizadas a importância do oceano para o planeta e a necessidade de sua preservação. Com essa turma em ação, nada de ficar só ouvindo informações! A equipe MARES proporciona oficinas interativas, que são momentos de participação ativa, nos quais os alunos colocam a mão na massa – ou melhor, na água! Os alunos participam de experimentos práticos, como análise de amostras de água, simulações de correntes marítimas e até mesmo a construção de maquetes de ecossistemas marinhos e vulcões. Tudo isso de uma maneira leve e divertida, que faz qualquer um tornar-se um verdadeiro cientista no mundo oceanográfico. Sobre a autora A cada mergulho, o projeto transforma as crianças em verdadeiros guardiões dos oceanos. Com certeza, essa é uma experiência que vai fazer ondas no jeito desses alunos observarem o mundo e, principalmente, o oceano! Letícia Baldoni O projeto não para por aí! Para envolver ainda mais a comunidade, durante os encontros, espaços são abertos para que as experiências das crianças e de suas respectivas famílias em relação ao cuidado com os ambientes costeiros e marinhos sejam ouvidas, quando ocorre uma troca muito prazerosa. É uma maneira divertida e eficaz de mobilizar alunos, professores e familiares para cuidar do meio ambiente e proteger nossos mares. O "MARES nas Escolas" é muito mais do que um projeto de extensão: é uma aventura que desperta a curiosidade, o respeito e o amor pelos oceanos. Se você acha que ciência é coisa séria e complicada, saiba que aprender pode ser tão fascinante quanto um mergulho nas águas cristalinas de um recife de coral. CARBON TEAM NEWS VOL. 6 | 23 Figura. A relação entre o continente e o oceano é principalmente influenciada pela água que flui dos rios para o mar, pelas correntes oceânicas na área próxima à costa e em áreas mais profundas e pelos padrões climáticos. Esses fatores determinam a quantidade e o tipo de material, energia e seres vivos que são transferidos entre o continente e o oceano. A região onde o continente encontra o oceano é de grande relevância para o equilíbrio do planeta. Muitas pessoas vivem ao redor dessas áreas e desenvolvem setores econômicos e produtivos como indústrias, transportes, pesca, aquacultura e turismo. Nos últimos 150 anos, o crescimento dessas atividades causou mudanças significativas no ciclo da água e na composição química dessas regiões. Além disso, o transporte de materiais dessas áreas para o oceano tem se intensificado, não somente em magnitude, mas também em velocidade. Isso é preocupante, pois resulta em alterações drásticas da estrutura e funcionamento de seus ecossistemas. Por isso, é urgente conscientizar a sociedade e o governo sobre essas questões e alertar para o desenvolvimento de políticas públicas que permitam minimizar os impactos dessas ações e ajudem as pessoas a se adaptarem a essas mudanças. Isso é necessário para o bem-estar social e a conservação dos serviços ecossistêmicos nesta importante região do planeta. da terra ao marda terra ao mar Oceanos: Encantos e desafios Diariamente, os continentes despejam bilhões de toneladas de materiais no oceano através dos rios. Isso tem impacto nas águas costeiras e sustenta importantes atividades como a pesca, afetando a qualidade de vida de grande parte da população mundial de habitantes dos litorais. Mudanças nos usos da terra, juntamente com as mudanças climáticas globais, impactam a quantidade e qualidade desses materiais transportados para o oceano. Portanto, é crucial entender melhor esses fenômenos e seus riscos ambientais. CARBON TEAM NEWS VOL. 6 | 30 Por Luiz Drude de Lacerda e Andréa Carvalho Por Luiz Drude de Lacerda e Andréa Carvalho Mas afinal... o que é a interface continente-oceano? Se olharmos para uma área de 100 km desde a terra até o mar profundo, isso cobriria cerca de um quarto da superfície da Terra. A região costeira é onde vive metade das pessoas do mundo e onde estão localizados três quartos das grandes cidades com mais de 10 milhões de habitantes. Também é onde a maioria da pesca e criação de pescados (aquacultura) acontece. Essa área é muito importante para as indústrias e o transporte, além de ser onde encontramos muitos recursos minerais, como petróleo e gás natural. É um dos lugares mais populares para o turismo em todo o mundo. Além disso, é o lar de muitas plantas e animais diferentes, que desempenham um papel crucial para o funcionamento saudável do nosso planeta. https://doi.org/10.5281/zenodo.14042130 O IMPACTO DA TRANSFERÊNCIA DE MATERIAIS CONTINENTAIS NOS OCEANOS E NA QUALIDADE DE VIDA COSTEIRA: DESAFIOS E INICIATIVA BRASILEIRA Focos principais do INCT-TMOcean Investigar a influência das atividades humanas na região de transferência entre o continente e oceano; 1. Saber quais os impactos dessas atividades para os ecossistemas costeiros; 2. Entender quão vulnerável são essas regiões de encontro entre continente e oceano e as ameaças à sociedade e sustentabilidade de seus sistemas, e 3. Desenvolver tecnologias e equipamentos para monitorar essas áreas e prever a situação futura desses ambientes com base em informações disponíveis no momento. 4. Saiba mais em: www.inct-tmcocean.com Luiz Drude é biólogo, Doutor em Ciências Biológicas (Biofísica) pela UFRJ. É professor titular da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal do Ceará (UFC). Com uma carreira brilhante e inspiradora, o Prof. Drude coordena o projeto INCTTMCOcean, é membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e participa ativamente de comitês científicos nacionais e internacionais. Luiz Drude contribui significativamente para a ciência, inspirando todos ao seu redor com sua dedicação e entusiasmo. A cearense Andréa Carvalho foi aluna da primeira turma de Oceanografia da UFC, onde fez mestrado em Ciências Marinhas Tropicais. É doutora em Oceanografia Física, Química e Geológica pela FURG e atualmente pesquisadora no Labomar-UFC. Investiga o ciclo do carbono e contribui para o INCT-TMCOcean, além de se dedicar à difusão do conhecimento científico para a sociedade. A interferência humana nas áreas costeiras reduz a disponibilidade de recursos e serviços naturais, o que dificulta o seu desenvolvimento sustentável. Por serem áreas sensíveis às mudanças ambientais, é importante entender suas características ecológicas e químicas, incluindo o impacto das atividades humanas. Para planejar o futuro dessas regiões, precisamos de indicadores confiáveis para saber até que ponto elas podem suportar as atividades humanas sem danos. No entanto, é difícil prever isso em grande escala devido à diversidade dessas áreas ao longo do tempo e do espaço. Portanto, é necessário fazer pesquisas que envolvam tanto as ciências naturais quanto as sociais, além de desenvolver novas técnicas e equipamentos para monitorar o meio ambiente. Infelizmente, a falta de colaboração entre diferentes áreas de estudo dificulta a compreensão desses processos complexos e limita nossa capacidade de tomar decisões e criar estratégias de gestão adequadas. Isso torna difícil adaptar as comunidades costeiras às mudanças ambientais e planejar o futuro dessas áreas de forma confiável. CARBON TEAM NEWS VOL. 6 | 31 Desafios para o desenvolvimento sustentável A missão do INCT-TMCOcean Como forma de contribuir para solucionar essas questões, pesquisadores de diversas instituições de ensino e pesquisa de diferentes regiões do Brasil se reuniram com a missão de desenvolver pesquisas aprofundadas, voltadas à quantificação do transporte, transformações e destino de materiais como sedimentos, nutrientes, matéria orgânica e metais-traço do continente para o mar na costa Leste-Nordeste brasileira. O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais na Interface ContinenteOceano (INCT-TMCOcean) é sediado na Universidade Federal do Ceará (UFC) e reúne pesquisadores de várias instituições em todo o litoral brasileiro. Esse projeto tem o objetivo de gerar conhecimento para a sociedade sobre as pressões e impactos que causam mudanças no ambiente costeiro. O INCTTMCOcean realiza pesquisas científicas para entender melhor o funcionamento dos ambientes costeiros e como podemos prever e gerenciar as mudanças resultantes das atividades humanas nessas áreas. Estudando o movimento dos materiais do continente para o oceano, podemos identificar limites críticos e fornecer informações para o desenvolvimento de políticas públicas e a promoção do desenvolvimento sustentável nessas regiões. Sobre os autores Como a Antártica Oceanos: Encantos e desafios CARBON TEAM NEWS VOL. 6 | 32 Nosso planeta em uma projeção de Spilhaus: mostra a antártica no centro do oceano cercado por terra. As setas indicam a circulação termohalina global, sendo as setas em vermelho os fluxos das camadas superiores e das camadas inferiores em azul. Crédito da imagem: Michael P. Meredith. damental na regulação do clima mundial. Os ares gelados da Antártica resfriam as áreas mais quentes da Terra, como um refrigerador planetário, que depende da velocidade dos ventos e da cobertura de gelo da região para funcionar. Também é nessa região que uma grande quantidade de água afunda da superfície para o oceano profundo, o que impulsiona uma rede de correntes de água que circulam nos oceanos do mundo todo. Por isso, é justo afirmarmos que o que acontece lá na Antártica impacta diretamente a nossa vida. Tanto lá, como aqui, muitas mudanças vêm ocorrendo e os eventos extremos estão intensificados, devido ao desequilíbrio causado pelo homem nos ciclos hidrológico e de carbono! O ciclo do carbono se refere à circulação de diferentes moléculas que contém carbono entre os organismos vivos, solos e rochas, água da chuva, rios e oceanos. Os oceanos, em especial, têm um papel fundamental neste ciclo, já que o gás carbônico da atmosfera reage com a água do mar, diminuindo o seu pH, um processo chamado de acidificação dos oceanos. Nos oceanos, o pH tem um valor de aproximadamente 8,1. Assim, todos os organismos que existem ali hoje estão acostumados com o pH ligeiramente básico e o pH é o que regula impacta a minha vida O aumento na frequência de ocorrência e na intensidade de furações, ciclones extratropicais, da erosão costeira, das estiagens e enchentes são apenas alguns dos eventos climáticos extremos que têm se intensificado recentemente em diversos países, devido à ação antrópica. Todos esses fenômenos têm em comum possuir como uma de suas causas as alterações da temperatura do planeta. Tais alterações da temperatura levam a um desequilíbrio na forma como a água e o calor circulam pela Terra e se distribuem no ambiente. É sabido que as altas temperaturas registradas no planeta ocorrem devido ao aumento da liberação, principalmente, de gás carbônico na atmosfera, através do chamado efeito estufa. Esse aumento na emissão desse gás vem sendo rapidamente intensificado por ações antrópicas, tais como: o uso irregular do solo pela intensificação da agricultura e da pecuária, a industrialização que cresce dia após dia em diversos países, bem como a queimada de florestas e outros biomas. A maior quantidade de gás carbônico na atmosfera altera o funcionamento do ciclo do carbono e a forma como a energia do sol (calor) fica retida no nosso globo. Hoje, sabemos que a Antártica possui um papel funPor Rodrigo Kerr https://doi.org/10.5281/zenodo.14042244 concentrações dos íons H+ e verificar como o pH está sendo alterado nos oceanos. Para compreender a conexão entre os eventos extremos que afetam o Brasil e as alterações na Antártica, verificaremos, além dos dados observados, algumas simulações de modelos climáticos, que reproduzem as condições de temperatura e gelo marinho da região de estudo. Desta forma, será possível compreendermos melhor os impactos da acidificação dos oceanos e das mudanças de temperatura na região. Por fim, o projeto manterá o monitoramento de diversos parâmetros químicos, físicos e biológicos da água do mar, monitoramento esse que vem sendo mantido por nosso grupo de pesquisa ao longo dos últimos 20 anos. O consumo de íons carbonato impede a calcificação Gás carbônico Água Íon carbonato 2 íons bicarbonato Como a mudança na química do oceano afeta a vida marinha? Acidificação Oceânica Absorção de gás carbônico da atmosfera Sobre o autor Rodrigo kerr O P r o j e t o P R O - S A M B A m a n t e r á e e x p a n d i r á o s e s t u d o s n a A n t á r t i c a . CARBON TEAM NEWS VOL. 6 | 33 grande parte das reações químicas que acontecem no ambiente. Com o aumento da entrada do gás carbônico no oceano e consequente diminuição do seu pH, os recifes de corais e bancos de algas calcárias, por exemplo, são devastados, já que são formados por estruturas carbonáticas, extremamente sensíveis às mudanças de pH. Na Antártica, com o derretimento do gelo, o oceano torna-se mais suscetível a absorver ainda mais gás carbônico, diminuindo o seu pH. Assim, alguns organismos passam a não ter um ambiente adequado para o seu desenvolvimento e isso impacta o desenvolvimento dos demais organismos, por meio da cadeia trófica. Adicionalmente, o aumento da quantidade de energia solar retida no planeta (temperaturas do ar e dos oceanos) ocasiona um desequilíbrio na forma como a água e o calor são distribuídos em todo o mundo. Com o aumento da quantidade de energia solar retida no planeta, a cobertura de gelo diminui, e consequentemente diminui a reflexão dos raios de sol de volta para o espaço, aumentando ainda mais a quantidade de energia solar absorvida pelo planeta. Assim, o aquecimento das águas do oceano é intensificado e o derretimento de gelo dilui o sal da água do mar, o que altera a sua densidade, diminuindo o afundamento e a circulação dessas águas no mundo todo. Por isso, dizemos que as alterações observadas hoje nos mares antárticos têm impacto em outras regiões do globo também. Recentemente, o projeto PRO-SAMBA foi aprovado para ser executado dentro das atividades do Programa Antártico Brasileiro. Este projeto propõe, justamente, ter uma melhor compreensão das alterações das trocas de gás carbônico entre a atmosfera e o oceano, de que forma isso impacta o ambiente Antártico e se relaciona com a biota marinha, e como essas alterações podem estar conectadas entre si. Para isso, realizaremos medições das concentrações de gás carbônico na atmosfera e nos oceanos desde o Brasil até a Antártica. Além disso, iremos medir também as Rodrigo Kerr é graduado em Ciências Biológicas, com mestrado e doutorado em Oceanografia. Atualmente, é professor na FURG e coordena as atividades do grupo de pesquisa CARBON Team, cujo objetivo é a melhor compreensão dos aspectos relacionados ao ciclo do carbono nos ambientes estuarinos, costeiros e oceânicos. A concha de um organismo se dissolvendo ao longo do tempo em água do mar com pH mais baixo. Quando o dióxido de carbono é absorvido pelo oceano a partir da atmosfera, a química da água do mar é alterada. Crédito da imagem: adptado de NOAA. Dois mil e vinte e três foi o ano mais quente registrado pelo homem ao longo de toda a sua história e acarretou na ocorrência de diversos eventos extremos ao redor do planeta. As emissões de gás carbônico, no entanto, continuam em franca expansão. Os padrões de distribuição de calor no mundo, os efeitos do aumento de gás carbônico na atmosfera e a importância da Antártica na regulação do clima global só são conhecidos hoje devido ao avanço da ciência. Porém, ainda existem muitos pontos pouco compreendidos sobre esse complexo sistema. Monitorando o presente e observando o passado, podemos entender o que esperar do clima no mundo (e todas as mudanças intrínsecas) nos próximos 10, 20 ou 50 anos e, com esperança, podemos aprender como mitigar tamanha alteração no funcionamento do nosso planeta. O CARBONO É O CARBONO É AZUL NO ESTUÁRIOAZUL NO ESTUÁRIO Ecossistemas costeiros vegetados – manguezais, marismas e pradarias de gramas marinhas - possuem elevada capacidade de sequestro e estoque de carbono e, por isso, são reconhecidos como ecossistemas de “carbono azul”. Além de sumidouros de carbono, estes ambientes formam barreiras físicas naturais, protegendo a costa contra o avanço do mar, ondas de tempestades e reduzem a erosão costeira. Portanto a conservação e a restauração destes ecossistemas são consideradas soluções baseadas na natureza, de baixo custo e bastante eficazes, na mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Mesmo ocupando uma área que equivale a menos de 1% da superfície oceânica, os ecossistemas costeiros vegetados contribuem com 30% até 50% do carbono enterrado nos sedimentos marinhos. Estes ecossistemas sequestram o carbono muito mais rápido que as florestas terrestres, estocando grande parte no solo e sedimentos. Se não forem perturbados ou destruídos, estes ecossistemas costeiros podem armazenar o carbono por milênios nas camadas profundas do solo. O problema é que os ecossistemas costeiros vegetados estão ameaçados e sendo alterados por impactos humanos, como mudanças no uso da terra (marismas e manguezais são drenados, aterrados e convertidas em áreas para agricultura e pastagem), poluição, pesca de arrasto, dragagens e turismo predatório. Estes ambientes estão ainda impactados e ameaçados pelo aquecimento global do planeta, subida do mar, erosão costeira e eventos extremos (inundações, secas, tempestades e ondas de calor). Quando os solos de manguezais e marismas ou o fundo marinho são perturbados, a matéria orgânica aprisionado é oxidada e uma boa parte do carbono (pelo menos 40 %) retorna ao ambiente na forma de gases de efeito estufa (CO₂, metano e óxido nitroso). Em grandes escalas, isto tem consequências graves para o planeta, retroalimentando o aquecimento global. Por Margareth Copertino Por Margareth Copertino Considerando as taxas médias de degradação dos ecossistemas costeiros, entre 2 até 7% ao ano, tais perdas podem gerar emissões na ordem de centenas de milhões de toneladas de carbono liberadas na atmosfera anualmente. Isto sem falar nos prejuízos a outras funções ecológicas, bens e serviços ecossistêmicos, como a conservação da biodiversidade e dos habitats de vida selvagem, provisão de alimentos, manutenção da pesca, proteção da costa e infraestrutura contra tempestades, controle da erosão, recarga de águas subterrâneas, purificação do ar, depuração da água, regulação do microclima, educação e cultura. O projeto “Carbono Azul no Estuário da Lagoa dos Patos” objetiva determinar e mapear os estoques e taxas de sequestro de carbono por marismas, vegetação submersa e planos não vegetados; assim como estimar as emissões de GEE naturais e induzidas por perdas destes habitats. Os resultados deverão contribuir com questões científicas emergentes sobre a dinâmica destes ecossistemas e para avalições globais. Os resultados também devem gerar recomendações voltadas para tomadores de decisão, visando influenciar programas de conservação e políticas climáticas. A conservação e restauração dos ecossistemas de carbono azul já são reconhecidas pela ONU como “soluções baseadas na natureza”, de baixo custo e alta eficácia, recomendadas para os planos e ações de mitigação e adaptação das mudanças climáticas. Desta maneira, o carbono azul é uma grande oportunidade para o Brasil (e para suas cidades costeiras), com sua longa linha de costa e extensas áreas de manguezais, marismas e pradarias marinhas. A despeito de sua relevância, o carbono azul não faz parte dos compromissos e metas mitigadoras do país (Contribuições Nacionalmente Determinadas, NDC), tão pouco teve suas emissões (por degradação ou mudança no uso da terra) inventariadas. Esta realidade deve mudar nos próximos anos, estimuladas CARBON TEAM NEWS VOL. 6 | 34 Oceanos: Encantos e desafios Crédito da imagem: Jorge Arygoni. https://doi.org/10.5281/zenodo.14042277 Investimentos nos ecossistemas de carbono azul alcançam para além do carbono sequestrado e estocado nos solos destes ambientes: são investimentos na biodiversidade, nas comunidades locais e na justiça climática. SOBRE A AUTORA Margareth é capixaba, cresceu em São Paulo e estudou pelo Brasil e pelo mundo até se tornar Doutora em Ecologia Marinha, pela University of Adelaide, na Austrália. Hoje, ela é Professora Associada do Instituto de Oceanografia da FURG (Lab. de Ecologia Vegetal Costeira), pesquisadora da Rede CLIMA e membro do Blue Carbon International Scientific Working Group. Em seu trabalho, a Profa. Margareth ensina e também investiga sobre as comunidades de macroprodutores primários marinhos. Em seu tempo livre, gosta de caminhar pelas ruas e trilhas de cada cidade que visita e é obcecada por filmes e séries de suspense, livros, gatos e plantas. Estuário da Lagoa dos Patos. Crédito da imagem: João Paulo (peld.furg.br) CARBON TEAM NEWS VOL. 6 | 35 principalmente pelo novo Plano Clima, que terá seções dedicadas ao Oceano e Zonas Costeiras. O município de Rio Grande, assim como outros municípios estuarinos, é repleto de áreas úmidas costeiras (banhados, marismas e vegetação submersa), podendo se beneficiar com programas de conservação e restauração do carbono azul. Mecanismos de carbono azul, entretanto, somente serão viáveis se o carbono (emissões e remoções) puder ser monitorado, a gestão for sustentável e houver participação de todas as partes interessadas. Mais importante, o sequestro de carbono deve ser combinado com outros serviços ecossistêmicos (co-benefícios), de modo que a população local seja significativamente e visivelmente beneficiada. Margareth Copertino Calli e seus amigos Calli e seus amigos Quem Quem em em cuida da nossa casa?cuida da nossa casa? por mariele por mariele paiva paiva Quadrinhos CARBON TEAM NEWS VOL. 6 | 36 A resiliência dos manguezais, de Roberto Sena. Salinópolis - PA, 2023. Entre rios e raízes, de Maria Rita N. Santos. Fortaleza - CE, 2024. A beleza da pesca, de Pedro L. S. S. Gama. Vila Velha - ES, 2024. Mangue da Taquara, de Mariana R. Oliveira. Balneário Camboriú - SC, 2024. A calma de um ciclone, de Juliana V. D. Torquato. Cassino - RS, 2023. O pôr do sol na Praia de Salinas, de Maria Zuleide P. Cortes. Salinópolis - PA, 2024. Somos reflexos, de Paula F. Guterres. Lagoa dos Patos - RS, 2021. Nascer do sol, de Pedro Cosme Junior. Ilha do mel - PR, 2024. Peixinho recifal, de Gabriel Mussi. Salvador - BA, 2023. Nevoeiro, de Débora Q. G. Barros. Rio Grande - RS, 2024. O mestre das bolinhas de areia, de Thiago P. Magalhães. São Francisco do Sul-SC, 2024. Praia de São Marcos, de Vigrecyanne Laís S. de Souza. São Luís - MA, 2024. M res W W W . C A R B O N T E A M . F U R G . B R