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Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.17887526 ISSN 2317-5419 523 AS UNIDADES DE PAISAGENS DA CIDADE DE TERESINA, PIAUÍ: CONTRIBUIÇÕES E POSSIBILIDADES AO PLANEJAMENTO E À EDUCAÇÃO AMBIENTAL The Landscape Units of the City of Teresina, Piauí: Contributions and Possibilities for Planning and Environmental Education Gabriel Cunha Linhares Fagundes Mestre em Geografia pela Universidade Federal do Piauí Orcid: https://orcid.org/0000-0003-1436-2320 gabrielfagunde[email protected].br Yana Thais de Sousa Santos Graduada em Artes Visuais pela Universidade Federal do Piauí Orcid: https://orcid.org/0000-0002-6983-6653 [email protected] Cláudia Maria Sabóia de Aquino Professora do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Piauí Orcid: https://orcid.org/0000-0002-3350-7452 [email protected] Maria Rita Vidal Professora da Faculdade de Geografia da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará Orcid: https://orcid.org/0000-0002-3392-3624 [email protected]du.br Artigo recebido em junho/2025 e aceito em dezembro/2025 ________________________________________________________________________________ RESUMO Esta pesquisa busca responder quais são as paisagens da cidade de Teresina, tendo em vista que a paisagem é definida como uma das categorias espaciais importantes associadas ao processo de planejamento e de gestão ambiental. Mediante emprego do enfoque geossistêmico da Geoecologia das Paisagens e a partir do trabalho de inventário, geoprocessamento e assimilação de dados geoambientais, foi possível identificar 8 (oito) unidades de paisagens na área de estudo e na escala trabalhada, a citá-las: colinas amplas e urbanizadas com vegetação secundária suprimida (50,9%), complexos de morrotes e vales com vegetação secundária resistente (16,2%), planícies urbanas interfluviais com vegetação secundária suprimida (8,0%), planície fluvial do Parnaíba (6,6%), planície fluvial do Poti (5,3%), terras baixas de planícies fluviolacustres do Parnaíba (3,8%), terras baixas de planícies fluviolacustres do Poti (1,6%) e vales urbanos com mata de galeria (7,6%). Os resultados apresentam o mapa de unidades geoecológicas e oferecem uma síntese de cada uma das unidades paisagísticas que refletem o contexto ambiental atual da área de estudo. As conclusões reforçam a importância da paisagem como categoria espacial fundamental no processo de educação e de planejamento ambiental e discutem as unidades de paisagens identificadas como uma nova perspectiva acerca do ambiente local de Teresina. Palavras-chave: Teresina; Geoecologia; Paisagem; Cidade; Ambiente.
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.17887526 ISSN 2317-5419 524 ABSTRACT This research seeks to answer the question of what the landscapes of the city of Teresina are, considering that landscape is defined as one of the key spatial categories associated with environmental planning and management processes. Using the geosystemic approach of Landscape Geoecology and, based on an inventory, geoprocessing procedures, and the assimilation of geoenvironmental data, it was possible to identify eight (8) landscape units within the study area and at the adopted scale, namely: broad urbanized hills with suppressed secondary vegetation (50.9%), complexes of small hills and valleys with resistant secondary vegetation (16.2%), interfluvial urban plains with suppressed secondary vegetation (8.0%), the Parnaíba River floodplain (6.6%), the Poti River floodplain (5.3%), low fluviolacustrine plains of the Parnaíba River (3.8%), low fluviolacustrine plains of the Poti River (1.6%), and urban valleys with gallery forest (7.6%). The results present a map of geoecological units and provide a synthesis of each landscape unit, reflecting the current environmental context of the study area. The conclusions reinforce the importance of landscape as a fundamental spatial category in environmental education and planning processes and discuss the identified landscape units as a new perspective on Teresina’s local environment. Keywords: Teresina; Geoecology; Landscape; City; Environment. _______________________________________________________________________________ 1. INTRODUÇÃO Esta pesquisa trata-se de um estudo geoecológico da paisagem da cidade de Teresina, com o intuído de oferecer contribuições aos processos locais de educação e planejamento ambiental. Neste trabalho, a paisagem é definida como objeto central de análise ao assumir a abordagem geoecológica de Rodriguez; Silva e Cavalcanti (2022) como caminho metodológico, defendendo que o fundamento do planejamento ambiental deve ser o espaço físico-ambiental fazendo ênfase na base ou no meio natural (Serrado, 1997; Ferreira, 2004; Moraes, 2005). O planejamento ambiental é definido como um processo organizado de coleta de informação, de análise e reflexão sobre as potencialidades e limitações dos sistemas ambientais de um território, alinhado a esta definição, as paisagens – ou geossistemas – assumem grande importância como instrumentos de análise ambiental e são concebidas, a partir da geografia, como uma das categorias espaciais que podem ser utilizadas de referência na construção de um processo de planejamento ambiental (Rodriguez; Silva, 2016). As próprias paisagens concretas são utilizadas como alternativa de sensibilização ambiental, construir conhecimento científico a partir desta categoria e depois compartilhá-lo com a sociedade e usá-lo a favor dela, abre espaço para novas reflexões e mudanças de percepções que podem ter efeitos concretos no espaço geográfico (Soares, 2018). A paisagem como categoria de análise da ciência geográfica, revela através de suas formas um conjunto de características naturais, sociais, humanas, culturais, econômicas e históricas, desta maneira, as paisagens são vistas e utilizadas como pontos de partida para estudos geográficos de cunhos sociais e humanos, ou, como cernes de estudos físico-naturais, como é o caso desta pesquisa.
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.17887526 ISSN 2317-5419 525 A cidade de Teresina, capital do estado do Piauí, cresceu rapidamente a partir da década de 1950, a expansão - ainda em processo - da sua malha urbana sobre um espaço natural, vinculada ao desenvolvimento de desordenamentos urbanos revestidos de desigualdades sociais, resulta no seu contexto ambiental atual, com degradações paisagísticas associadas a degradações sociais. Como problemas ambientais em Teresina, é possível mencionar a descaracterização dos riachos (assoreamento, aterramento e poluição), o desmatamento e a defaunação nas matas ciliares de rios e riachos, ocupações desordenadas em escarpas e planícies de inundações, geração de taludes instáveis com deflagrações de pequenos movimentos gravitacionais de massa, entre outros problemas, estes fatores estão associados a situações de insalubridade e de riscos a população, dentre os quais há destaque aos riscos decorrentes dos processos hídricos. Em busca de oferecer contribuições aos processos de planejamento e de educação ambiental da cidade de Teresina, esta pesquisa se propõe a estudar o ambiente de Teresina através da sua diversidade de paisagens e do que elas refletem em sua concretude. Diante disso define-se o seguinte problema de pesquisa: quais são as paisagens da cidade de Teresina e suas principais características? A concepção de paisagem que norteia este trabalho se baseia no enfoque geossistêmico da geoecologia. No âmbito deste enfoque, além do estudo do meio natural que é realizado a princípio, também é incorporada em análise a influência da sociedade humana (sistema populacional) sobre a natureza através dos seus impactos, participando e relacionando-se dialeticamente com os sistemas naturais. A aplicação deste enfoque permeia um longo e rico caminho metodológico, orientando, através do estudo da paisagem, a construção de diagnósticos e prognósticos ambientais e o apontamento de proposições úteis para o desenvolvimento sustentável do território. Diante do exposto, os objetivos específicos deste artigo estão limitados a identificar, caracterizar e representar as unidades de paisagens da cidade de Teresina. O referido recorte espacial em estudo é delineado pelo perímetro urbano de Teresina, o recorte temporal compreende as suas paisagens atuais, especificamente entre os anos de 2020 a 2025. 2. METODOLOGIA Apoiando-se na concepção metodológica da Geoecologia das Paisagens (Rodriguez; Silva e Cavalcanti, 2022), a metodologia desta pesquisa se resume a três etapas principais: organização, inventário e análise. Na etapa de organização foram definidos os recortes espacial, temporal e a escala de análise trabalhada na pesquisa. Na etapa de inventário houve o trabalho de reunir cartas temáticas, textos científicos e documentos que serviram de base para o estudo da paisagem da área estudada, além disso, as muitas visitas de campo nas diferentes regiões da cidade permitiram levantamentos de dados
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.17887526 ISSN 2317-5419 526 geoespaciais e o reconhecimento e a confirmação das informações adquiridas e trabalhadas em laboratório de geomática. Na etapa de análise e a partir das etapas anteriores, foi possível gerar como produto o mapa de unidades de paisagens e discutir suas principais características. Com base no enfoque geoecológico, a escala de análise deste trabalho corresponde aos geótopos, conceito de gênero para os geossistemas - ou paisagens - de grandeza em escala topológica ou local (Rodriguez; Silva e Cavalcanti, 2022). Para identificar os sistemas paisagísticos nesta escala de análise, recorreu-se a cartas temáticas em escala cartográfica média a grande, e também, recorreuse a imagens de satélite e de radar, respectivamente as imagens do landsat 8 e SRTM, ambas com resolução espacial de 30m. Na fase de inventário reuniu-se os seguintes dados: dados demográficos por setores censitários (IBGE, 2022); hidrográficos (sub-bacias e rede de drenagem) (SEMPLAN, 2012); climáticos; topológicos a partir de imagens SRTM 30m; geológicos (IBGE, 2019; Correia Filho, 1997); da cobertura vegetal e uso da terra por meio de classificação supervisionada de imagens do Landsat 8, além de imagens do Google Earth Pro que permitiram observar o comportamento sazonal das paisagens e suas mudanças ao longo dos últimos anos; em campo se utilizou de drone, modelo DJI Mini 4k, e câmera fotográfica para registro de imagens aéreas e terrestres das paisagens, importantes para a representação de setores do objeto de estudo. Na fase de análise, no laboratório de Geomática da Universidade Federal do Piauí, todos os dados espaciais foram trabalhados no software Qgis versão 3.28, e a produção e assimilação de um conjunto de mapas permitiu a revelação de sistemas paisagísticos da área de estudo, ao final desta etapa, foi gerado como produto o mapa de unidades de paisagens geoecológicas de Teresina, e depois, mediante todos os dados coletados e trabalhos de campo foi possível caracterizar cada unidade de paisagem. 3. RESULTADOS E DISCUSSÕES Mediante o desenvolvimento da pesquisa, e na escala trabalhada, foi possível identificar oito unidades de paisagens geoecológicas, a denominação de cada uma delas levou em consideração o tipo de relevo e os principais fatores que pudessem caracterizar a paisagem em sua realidade concreta e antroponatural, as nomenclaturas levaram em consideração a vegetação, urbanização, os nomes das bacias hidrográficas, a dinâmica de drenagem e a altitude (Figura 1).
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.17887526 ISSN 2317-5419 527 Figura 1 - Unidades de Paisagens da cidade de Teresina, Piauí. Fonte: Os autores (2025). A tabela 1 informa a porcentagem de ocorrência das unidades de paisagem da cidade de Teresina. Tabela 1: Dados de ocorrência das unidades de paisagens. Unidades de Paisagem Ocorrência em % Colinas amplas e urbanizadas com vegetação secundária suprimida 50,9% Complexos de morrotes e vales com vegetação secundária resistente 16,2% Planícies urbanas interfluviais com vegetação secundária suprimida 8,0% Planície fluvial do Parnaíba 6,6% Terras baixas de planícies, fluviolacustres do Parnaíba 3,8% Planície fluvial do Poti 5,3% Terras baixas de planícies fluviolacustres do Poti 1,6% Vales urbanos com mata de galeria 7,6% Total 100% Fonte: Os autores (2025). Ao observar os dados da tabela 4, a unidade “Colinas amplas e urbanizadas” e “Complexos de morrotes e vales” são as unidades de paisagens mais expressivas da área de estudo e apresentam funções principais de emissão e transmissão de energia e matéria, são formas erosivas, os dois geoecossistemas somados são equivalentes a 67,1% da área de estudo, enquanto que as unidades de
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.17887526 ISSN 2317-5419 528 planícies, terras baixas e de vales equivalem ao restante da área, 32,9%, possuem funções principais de acumulação e transmissão, são áreas de deposição de sedimentos e receptores de grandes quantidades de água. 3.1. Colinas amplas e urbanizadas com vegetação secundária suprimida Esta unidade de paisagem corresponde a setores densamente ocupados e construídos da cidade devido as condições geomorfológicas favoráveis, trata-se de colinas amplas com topos largos, tabulares ou convexos e de vertentes geralmente suave onduladas, estas características favoráveis para as ocupações - no topo e nas vertentes - predominam principalmente na área geológica de influência da Formação Piauí, existindo também alguns setores de exceções ao longo da Formação Pedra de Fogo, onde alguns setores de vertentes são mais inclinados. Os setores de exceções – de influência da formação Pedra de Fogo - tratam-se de vertentes mais acidentadas que dão acesso aos amplos platores das colinas, estas vertentes costumam apresentar movimentos lentos de processos gravitacionais de massa, processos evidenciados por inclinações de árvores e de postes elétricos, surgimento de trincas e rachaduras em asfaltos de ladeiras e em paredes de casas, ocorrência de desabamentos parciais e de casas que acontecem com pouca frequência e costumam ser lentos. A vegetação secundária do Cerrado já suprimida desta unidade de paisagem, dá lugar à cobertura vegetal da arborização urbana, um aglomerado de espécies nativas e exóticas das quais se incluem também muitas plantas frutíferas que são cultivadas pelos moradores em seus terrenos, de modo que as maiores áreas verdes destacadas nesta unidade são as praças, parques, cemitérios, hortas urbanas e outros poucos terrenos públicos e privados desocupados, que incorporam variações de espécies arbóreas, arbustivas e campestres. As colinas são drenadas por um conjunto de subafluentes dos rios Poti e Parnaíba, seguindo as sinuosidades do relevo as águas partem das cabeceiras de drenagem e escoam pelas vertentes urbanas atravessando quintais, cemitérios e ruas em direção aos vales dos rios, processo que é acelerado em função da impermeabilização dos solos. Nos meses chuvosos, especialmente entre o intervalo de dezembro a maio, alguns setores de passagem dos riachos urbanos manifestam inundações e maior poder erosivo (Figura 2). São processos hídricos e morfogenéticos que fazem parte da dinâmica desta unidade de paisagem, interferindo na vida de moradores que residem nas suas vertentes e nos sopés das mesmas.
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.17887526 ISSN 2317-5419 529 Figura 2 – Dinâmica hídrica, em tempo de chuva, de planícies de inundações urbanas da Região Leste de Teresina, Piauí. Fonte: Os autores (2025). Em A, B e C, enchente de riacho urbano. Setores do bairro Vale Quem Tem na Região Leste da cidade. Coordenadas: 5° 2’9.63”S e 42°44’50.83”O. Nas inundações urbanas evidenciadas na figura 2, a água é desviada do leito original dos vales em detrimento das construções urbanas e alteração antropogênica dos talvegues, passando a inundar as ruas, neste contexto, as vertentes de relevo assumem papel importante nestes processos, ao escoar a água com força para os vales, contribuindo com peso para os referidos processos hídricos. 3.2. Complexos de morrotes e vales com vegetação secundária resistente Áreas de relevo suave ondulada e moderadamente ondulada de característica morfológica oriunda de um conjunto de entalhamentos interfluviais. O aprofundamento de pequenos vales modela entre suas dimensões interfluviais os morrotes residuais que representam a morfologia do relevo desta unidade de paisagem (Figura 3), na área de estudo esta unidade comumente está associada aos arenitos da Formação Pedra de Fogo e às sub-bacias do Rio Poti, apresentando um conjunto de sedimentos eluviais e coluviais ao longo dos topos e vertentes dos morrotes, além de depositados de sedimentos aluviais nas planícies de inundações dos sistemas de vales.
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.17887526 ISSN 2317-5419 530 Figura 3 – Morrote residual entre vales na região Leste de Teresina. Fonte: Os autores (2025). Coordenadas: 5° 2’9.63” S e 42°44’50.83” O. A associação de duas morfologias distintas, de vale e de morrote, constituindo uma única unidade de paisagem se deve ao fato das duas apresentarem fortes relações geoecológicas laterais nestes setores, com ênfase nas relações geomorfológicas, o que não prejudica a assimilação das mesmas em uma única unidade de paisagem, mas ao contrário, reforça tal movimento. Ao longo dos vales, ainda resiste uma expressiva vegetação secundária de Mata de Galeria e setores com Babaçuais, nos terrenos mais planos, nas vertentes e cimeiras dos morrotes predomina uma vegetação secundária com palmeiras espalhadas, isso nos setores que ainda não foram ocupados, com muitas árvores ainda registrando relíquias das formações savânicas e florestais primárias. As áreas verdes dessa unidade ainda são consideradas expressivas, isso lhe atribui um papel importante como refúgio para a fauna local (“saguis”, “jacarés”, peixes, pássaros, répteis, etc), no entanto, os desmatamentos são frequentes no período seco, tornando cada mês mais difícil a recuperação das paisagens. As construções e ocupações são menos expressivas, testemunhando muitos terrenos vazios ou em processo de desmatamento e de terraplanagem para comportar novas construções urbanas. Moradores modificam o relevo utilizando instrumentos rudimentares como pás, enxadas, picaretas e as vezes contratam máquinas escavadeiras para criar pequenos planos limitados por taludes nas vertentes ou nos sopés dos morrotes, onde constroem suas casas. Na mesma magnitude, a vegetação e os cursos d’água também sofrem rápidas transformações. Em muitos locais das áreas construídas observa-se a falta ou a ineficiência do saneamento básico, sobretudo ao que se refere ao sistema de esgoto que deixa seus descartes vazarem para o centro das ruas, problema que se agrava nos meses chuvosos. Do ponto de vista da drenagem os
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.17887526 ISSN 2317-5419 531 morrotes possuem dinâmica semelhante ao apresentado pelas colinas, no entanto, os morrotes são pouco amplos, não permitindo pontos de alagamentos em seus setores de topo. Ladeiras mais acidentadas e revestidas com pedras paralelepípedos apresentam ravinamentos que evoluem para pequenas cicatrizes tornando ruas intrafegáveis por veículos urbanos, mas isso não é um problema geral da unidade de paisagem, ocorre em pontos localizados onde o asfalto convencional ainda não foi implantado. Nos períodos chuvosos os pequenos vales e suas planícies de inundações revelam pontos húmidos. Trata-se de uma paisagem em transformação, que do ponto de vista da urbanização ainda carece de muitos serviços básicos e que, sob a ótica da sua condição natural, dá muitos sinais de degradações e de desequilíbrios, consequências das atividades humanas locais e da ausência de ações adequadas ao meio. 3.3. Planícies urbanas interfluviais com vegetação secundária suprimida É uma unidade de planície terrestre altamente urbanizada situada próxima do nível topográfico dos rios Parnaíba e Poti, com declividades que variam entre plano e suave ondulado e de relevo com estrutura associada aos arenitos e argilitos da Formação Piauí e suas coberturas superficiais correlativas. Esta formação geológica é a que manifesta as paisagens naturais mais monótonas tendo em vista a geomorfologia da área de estudo. Esta unidade ocorre na porção sul da Região Centro e na Região Sudeste da cidade, no primeiro caso trata-se de uma região bastante desenvolvida do ponto de vista urbano, já no segundo, o processo de urbanização ainda se faz em desenvolvimento, a exemplo dos bairros Brasilar e Pedra Miúda e de setores vizinhos que estão situados nos limites do perímetro urbano. A seguir realiza-se uma breve descrição da Planície Urbana Interfluvial da Região Centro de Teresina. Esta unidade de paisagem é densamente construída e provida de uma infraestrutura de maior qualidade se comparada com as demais unidades de paisagens, destaca-se à sua vista as edificações antigas - das quais muitas estão abandonadas – como os casarões (Figura 4), algumas destas estruturas, ainda em funcionamento, comportam pontos de comércio e de serviços, dos quais muitos ainda são tradicionais da região.
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.17887526 ISSN 2317-5419 538 O geoecossistema faz parte do corredor ecológico do Rio Poti, estando conectado com a mata ciliar do rio e possuindo significativas áreas verdes que tornam a sua paisagem ainda capaz de desempenhar função de habitat para grupos animais locais. Esta unidade de paisagem, em suas relações laterais, tem função acumuladora nas trocas de energia e de matéria entre os geoecossistemas locais, manifestando alagamentos em sua dinâmica de tempos chuvosos. A paisagem também é suscetível a enchentes e inundações do Rio Poti, dinâmica hidrológica natural. 3.8. Vales urbanos com mata de galeria Este geoecossistema representa os principais terrenos de vales que cortam a área urbana de Teresina. Os vales são caracterizados como superfícies de relevo de formas alongadas, rebaixados e ocupados por cursos d’água, em Teresina os vales são comumente cercados por colinas e morrotes. Do ponto de vista geomorfológico, ressalta-se que o os cursos d’água presentes nestes vales possuem estreita relação com a morfodinâmica das vertentes de relevo, sofrendo seus efeitos sobretudo no verão e início do outono, temporada principal das precipitações pluviométricas na região, inclui-se sob estes efeitos os moradores residentes nas planícies de inundações dos vales. Os vales da área de estudo geralmente apresentam baixo grau de entalhamento, no entanto, suas dimensões interfluviais variam significativamente, apresentam extensões variadas que mudam ao longo dos seus perfis longitudinais, ora são mais alargadas e ora são mais estreitas, encaixando-se entre as colinas e os morrotes da região. É possível citar alguns trechos mais alargados de vales, os bairros Vale do Gavião e Vale Quem Tem, já citados na pesquisa, que inclusive recebem seus nomes a partir dos referidos tipos de relevo onde estão assentados; a exemplo de trechos estreitos de vales, é possível citar os Bairros Catarina e Bela Vista que possuem um grupo desta forma de relevo com dimensões interfluviais reduzidas, no entanto, com entalhamentos mais abruptos, sobretudo por influência da litologia da Formação Pedra de Fogo. A unidade de paisagem tem estrutura geológica variada devido ao formato alongado dos vales que podem percorrer várias formações litológicas, alguns destes estão estruturados em uma única formação geológica, enquanto que outros, mais alongados, estão estruturados ao longo de três ou quatro formações geológicas da área de estudo, a lembrá-las: Formação Piauí, Formação Pedra de Fogo, Formação Corda e Depósitos Aluvionares Holocênicos. Na área de estudo, a unidade de paisagem está associada à litologia sedimentar destas formações geológicas e sobretudo a depósitos aluvionares. Estes compartimentos de relevo são setores naturais de inundações, que são agravadas por um conjunto de fatores, a diminuição da vegetação em larga escala dos vales e das unidades de paisagens
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.17887526 ISSN 2317-5419 539 vizinhas é um dos principais fatores, isso ao considerar que a vegetação é um componente essencial na diminuição do escoamento superficial da água, favorecendo a sua infiltração. As planícies de inundações dos vales são comumente ocupadas, nos processos ocupacionais destes compartimentos de relevo as construções frequentemente suplantam totalmente a vegetação, o que é um problema ambiental. A impermeabilização dos solos também contribui para o aumento do escoamento superficial da água e da erosão nas vertentes, sem a vegetação o volume de sedimentos e outros materiais carregados das vertentes em direção aos níveis de base aumenta consideravelmente (Casseti, 1995), os cursos d’água situados nos níveis de base das vertentes, neste caso nos vales urbanos, sejam eles canalizados ou não, são obstruídos ou assoreados passando a apresentar pontos de estrangulamento na drenagem, que resultam no fortalecimento dos processos de inundações, que passam a atingir áreas maiores e provocando grande prejuízo para o poder público e moradores. O sistema de drenagem urbana e a rede de esgoto tornam ocultos os talvegues, mas quando ineficientes não escondem a dinâmica hidrológica desta unidade de paisagem. Nas áreas carentes dos serviços públicos básicos, em tempos de chuvas casas situadas em planícies inundáveis são invadidas pelas águas acumuladas, constituindo situações de insalubridade a moradores. A vegetação resistente da unidade paisagem também apresenta muitas variações, os vales costumam possuir setores com arborização urbana, que é reduzida, setores com vegetação secundária remanescente ainda apresentando algumas espécies da vegetação primária, ou, setores desmatados com espécies gramíneas ou sem vegetação. A Mata de Galeria é a formação florestal mais comum da unidade de paisagem, cobrindo as planícies de inundações dos vales e associada aos solos aluviais, ao longo dos cursos d’água perenes apresenta-se também formações florestais de Mata Ciliar, reduzidas e degradadas, nas porções mais preservadas da unidade de paisagem é comum a repetição de palmeiras, principalmente da espécie “Babaçu”. Os vales urbanos com mata de galeria são paisagens degradadas na cidade de Teresina, são os terrenos de despejo de lixo por moradores, sofrem com desmatamento, poluição e assoreamento, na grande parte das áreas urbanizadas não possuem um sistema de drenagem adequado para a dinâmica hidrológica que possuem, entre outros fatores que comprometem o funcionamento saudável da unidade de paisagem (Figura 8).
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.17887526 ISSN 2317-5419 540 Figura 8 - Paisagens do vale e riacho urbano do Bairro Satélite, Região Leste da cidade de Teresina. Fonte: Os autores (2025). Trechos e dinâmicas associadas ao perfil longitudinal do riacho. Em A, registro de 2024, riacho em regime de seca e com mata ciliar quase inexistente, as duas árvores restantes no local da foto servem de moradia para uma família de saguis. Em B, registro de 2020 do riacho - galeria - do Bairro Satélite em período chuvoso, casas desabadas e construídas praticamente dentro do leito do riacho, causando o seu assoreamento por materiais tecnogênicos, já houve registro de “jacaré” próximo ao local. Em C, registro de 2020 de trecho do riacho no Bairro Porto do Centro, local de risco a processos hídricos e de deposição de lixo. Coordenadas 5° 2'51.61"S e 42°45'30.31"O. Apesar das degradações os setores com vegetação da unidade de paisagem ainda possuem importância para a fauna urbana, os vales verdes conectados aos rios são importantes corredores de circulação de animais, função fragilizada da unidade de paisagem, no entanto, ainda evidenciada a partir dos trabalhos de campo, com o encontro de algumas espécies menos convencionais à área urbana. Os aspectos e impactos negativos que atingem os cursos d’água: assoreamento, despejo de materiais de lixo, desmatamentos ilegais, intervenções irregulares, ocorrem de maneira comum. É importante enfatizar que a dinâmica dos vales não depende somente do conjunto de processos que a unidade de paisagem comporta, apesar destes ainda serem os principais, também são resultantes das relações laterais deste geoecossistema com as unidades de paisagens vizinhas, os morfopedotopos de colinas, planícies e de morrotes, por exemplo. Os vales constituem o nível de base das vertentes, desta maneira, estão sujeitos aos efeitos dos processos morfogenéticos, onde destaca-se as intervenções antropogênicas e a erosão nas vertentes urbanas e o consequente assoreamento dos cursos d’água. As descrições realizadas sobre cada unidade de paisagem, não esgotam a complexidade que as mesmas apresentam, e não possuem esta pretensão, elas buscam reunir suas principais características e simplifica-las, nesse sentido, o mapa de unidades e paisagens permite uma representação da diversidade natural e urbana de Teresina. 3.9. Sistemas paisagísticos: objetos de reflexões geográficas e de possibilidades Cada sistema de paisagem possui um funcionamento natural, a exemplo do conjunto dos seus processos hídricos, geomorfológicos, biológicos, climáticos, entre outros; também possui um
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.17887526 ISSN 2317-5419 541 funcionamento dado pelo sistema populacional que lhe ocupa, as atividades desenvolvidas, as alterações no ambiente, as abstrações e percepções de natureza humana. Para o uso sustentável da paisagem, estas duas esferas funcionais precisam coexistir em harmonia, isso significa que as ações humanas devem ser orientadas para a preservação e manutenção dos recursos naturais, através de atividades racionais e preocupadas com a saúde e o equilíbrio do meio ambiente, a curto e a longo prazo, permeando o desenvolvimento sustentável do território. As cidades brasileiras, ao passo de um crescimento rápido, passado ou recente, com frequência possuem seus desenvolvimentos acompanhados pelo desordenamento urbano e a desigualdade social, um mal desenvolvimento, como resultado disso, suas paisagens comumente refletem as situações e os resultados desses processos enviesados. As unidades de paisagens de Teresina, apontadas neste trabalho, ilustram bem o seu contexto urbano, social, e a maneira como a cidade relaciona-se com a natureza onde está assentada, as relações com os rios, riachos, vegetações e os relevos, por exemplo. Associadas ao meio natural, as desigualdades são observadas entre os vales inundáveis e os topos das colinas, estão presentes entre as periferias e as centralidades da cidade, entre estes espaços, os segmentos sociais menos favorecidos do ponto de vista socioeconômico são os que mais sofrem diante das deficiências urbanas, as dificuldades da gestão em lidar com os problemas de alagamentos, inundações, desordenamentos e riscos de desabamentos. O mapa de unidades de paisagens geoecológico pode ser somado a outras categorias de unidades espaciais e operacionais para a compreensão do território local, a exemplo das sub-bacias hidrográficas, unidades de preservação, conservação e de zoneamento. As discussões sobre cada geoecossistema oferecem informações atuais para análises e reflexões sobre o território de Teresina, um material sintético e didático que define as paisagens para o planejamento e a educação ambiental local. A pesquisa busca chamar a atenção para a diversidade paisagística e defende a ideia de que cada paisagem necessita de um olhar e tratamento conforme suas dinâmicas geográficas. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Mediante a metodologia empregada na pesquisa foi possível identificar e caracterizar as unidades de paisagens da cidade de Teresina, a citá-las com suas respectivas porcentagens de ocorrência: colinas amplas e urbanizadas com vegetação secundária suprimida (50,9%); complexos de morrotes e vales com vegetação secundária resistente (16,2%); planícies urbanas interfluviais com vegetação secundária suprimida (8%); planície fluvial do Parnaíba (6,6%); terras baixas de planícies fluviolacustres do Parnaíba (3,8%); planície fluvial do Poti (5,3%); terras baixas de planícies
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.17887526 ISSN 2317-5419 542 fluviolacustres do Poti (1,6%); vales urbanos com mata de galeria (7,6%). Estes geoecossistemas foram representados em um mapa de unidades de paisagens. A paisagem de Teresina - o conjunto de suas unidades de paisagens - foi analisada buscando revelar seus sistemas ambientais. Por meio das unidades de paisagens foi possível apresentar as principais características geoambientais da área de estudo, incluindo alguns de seus problemas. Estes resultados apresentados permitem uma apreensão rápida da paisagem em questão, contribuindo para discussões e reflexões acerca do território de Teresina nas esferas da educação e do planejamento ambiental. Considera-se que a pesquisa obteve excito na identificação das unidades paisagísticas, no entanto, não demonstrou aprofundamento no nível de análise das relações geoecológicas ou geossistêmicas entre os componentes ambientais, isto é, nas dinâmicas físicas, químicas e biológicas que compõem e explicam as paisagens e suas dinâmicas naturais, tão pouco nas próprias relações sociais e culturais que são de igual importância para compreender a realidade geográfica local, portanto, diante do que foi apresentado defende-se que ainda há muito espaço para novos estudos de cunho geossistêmico em Teresina, ao somar o fato do espaço geográfico ser um objeto em constante transformação. REFERÊNCIAS CASSETI, V. Ambiente e apropriação do relevo. São Paulo: Contexto, 1995, 147p. CPRM - COMPANHIA DE PESQUISA DE RECURSOS MINERAIS. Projeto Avaliação de Depósitos Minerais para Construção Civil PI/MA. Teresina: CPRM, 1997. FERREIRA DOS SANTOS, R. Planejamento Ambiental: teoria e pratica. São Paulo Oficina de Textos, 2004. 184p. IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Demográfico. 2022. Disponível em:https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/22827-censodemografico-2022.html?edicao=39499&t=resultados. Acesso em: 21 mai 2024. IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Geociências: geologia. São Paulo, Brasil. 2019. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/geociencias/downloadsgeociencias. Acesso em: 06 set 2021. MORAES, A. V. M. Meio ambiente e ciências humanas. Ampliada. São Paulo: AnnaBlume, 2005. 161p. RODRIGUEZ, J.; SILVA, E.; CAVALCANTI, A. Geoecologia das Paisagens: uma visão geossistêmica da análise ambiental. Fortaleza: Imprensa Universitária, 2022. 332p.
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