Full text
1 3º Encontro de Investigação FLUP “Mapear Saberes, Redes e Intersecções” 25-26.novembro.2025, FLUP | https://coda.letras.up.pt/3encontroiflup/ Evento inserido na Semana da Ciência e da Tecnologia 2025, Ciência Viva. https://www.cienciaviva.pt/semanact/2025/ Comissão Organizadora do evento: Centre for Digital Culture and Innovation (CODA; CEECINST/00050/2021/CP2787/CT0002, CT0001, CT0003) e Direção da FLUP. Com o apoio de: Centre for English, Translation and Anglo-Portuguese Studies - Porto (CETAPS; UID/4097/2025), Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto (CEAUP; UID/00495/2025), Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território - Porto (CEGOT; UID/04084/2025), Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória (CITCEM; UID/04059/2025), Centro de Linguística da Universidade do Porto (CLUP; UID/00022/2025), Instituto de Filosofia (IFilosofia; UID/00502/2025), Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa (ILCML; UID/00500/ 2025), Instituto de Sociologia da Universidade do Porto (IS-UP; UID/727/2025). Assim como de Ana Ester Tavares (CITCEM, CESEM; 2023.02749.BDANA), Carlos Silva (Wikimedia Portugal, CLUP). Comissão Científica do evento: Ana Maria Guedes (CEAUP), Ana Margarida Martins (ILCML), Dan-Cristian Zeman (IF), Diogo Marques (CODA, ILCML), Fernanda Ribeiro (CITCEM), Francisco Topa (CEAUP), Françoise Bacquelaine (CLUP), Inês Amorim (CITCEM), Inês Barbosa (IS-UP), Ivan Tartaruga (CEGOT), Joana Caetano (CETAPS), Joana Matos Gomes (IF), Luciano Moreira (CETAPS), Luís Trigo (CODA, CLUP), Maria João Oliveira (IS-UP), Simão Valente (ILCML), Susana Pereira (CEGOT), Vanessa Anachoreta (CLUP), Vera Moitinho de Almeida (CODA, CITCEM). Evento parcialmente financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., e pelo Protocolo de Cooperação entre a Universidade do Porto e a Caixa Geral de Depósitos, S.A., para apoios à comunidade académica e científica. Capa: design de André Gonçalves, Manifesto Works. https://manifestoworks.com/ Coordenação editorial: Centre for Digital Culture and Innovation (CODA) - Vera Moitinho de Almeida, Luís Trigo, Diogo Marques. Licença CC BY-SA 4.0. https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/ Citar como: Moitinho de Almeida, V., Trigo, L., Marques, D., Tavares, A.E. (eds.) (2025). 3.º Encontro de Investigação FLUP “Mapear Saberes, Redes e Intersecções”. Livro de Resumos. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP). https://doi.org/10.5281/zenodo.17910539
2 Autores: Alexandre Matos – CITCEM, FLUP Alexandre Valle – FEUP, INESC TEC Alípio Jorge – FCUP, INESC TEC Ana Cunha – ILCML, FLUP Ana Ester Tavares – CITCEM, FLUP; CESEM, NOVA FCSH Ana Luísa Fernandes – FLUP; INESC TEC Ana Martins – ILCML, FLUP Ana Salgado – DEPER, CLUP, FLUP André Barbosa – Wikimedia Portugal; FLUP André Ramos – IS-UP; DARQ, Ucoimbra Ângelo Soares – Ser Mais Vala Anneliese Verdade – FLUP António Leal – CLUP, FLUP; Umacau Aquiles Boiça – FLUP Ari Gonçalves – FLUP Carlos Silva – Wikimedia Portugal; CLUP, FLUP Cecília Ortiz – FLUP Celeste Pedro – IFilosofia, FLUP Cláudia Cristina da Silva Fontineles – IS-UP; UFP Cláudia Oliveira – BIOPOLIS, CIBIO Cristina Cunha de Araújo – IS-UP, FLUP; UFPI Daniel Marques – CITCEM, FLUP Diego Soares Rebouças – DS, IS-UP, FLUP Diogo Marques – CODA, ILCML, FLUP Fátima Silva – CLUP, FLUP Francisco Alcides do Nascimento – IS-UP, FLUP Gabriela Maria Pinho Lins Vergolino – IS-UP, FLUP; UFBA Hugo Castro – FEUP Inês Barbosa – IS-UP, FLUP Inês Maia – IS-UP, FLUP Isabel Galhano – CLUP, FLUP Iván Tartaruga – CEGOT, FLUP Jaqueline Torquatro de Oliveira – IS-UP, FLUP Joana Chicau – CCI, UALondon Joana Lencart – CITCEM, FLUP João Teixeira Lopes – IS-UP, FLUP Jonas Ferrigolo Melo – CITCEM, FLUP; UAveiro Jorge Castro Ribeiro – INET-md, UAveiro Jorge Teixeira – CEAUP, FLUP José Pedro Silva – IS-UP, FLUP Jovani Dala Bernardina – IS-UP, FLUP; UFES Júlia Almeida de Mello – IS-UP, FLUP; UFSM Lara Gonçalves – FPCEUP Leandro Ortolan Fagundes – IFilosofia, FLUP Liam Benison – CETAPS, FLUP Lucas de Campos – INET-md, UAveiro Lucas Wink – IS-UP, FLUP Luciano Moreira – CETAPS, FLUP, FEUP; CIQUP Luís Filipe Cunha – FCUP, INESC TEC Luís Trigo – CODA, CLUP, FLUP Manuel Ramos – DEPER, IFilosofia, CITCEM, FLUP
3 Maria João Oliveira – IS-UP, FLUP Mariana Leite – IFilosofia, DEPER, FLUP Marina de Aguiar Casali Dias – DS, IS-UP, FLUP Marinela Freitas – ILCML, FLUP Moisés Rockembach – CITCEM, FLUP; CEIS20, UCoimbra Nuno Guimarães – FCUP, INESC TEC Paula Guerra – IS-UP, CEGOT, CITCEM, FLUP; DINÂMIA'CET-Iscte Pedro Amaral – FLUP Purificação Silvano – CLUP, FLUP; INESC TEC Rafael Antunes Padilha – IFilosofia, FLUP Raquel Souza – CETAPS, FLUP Ricardo Campos – INESC TEC, UBI & Ci2 Rita Gaspar – MHNC-UP, PRISC Rita Rb-Silva – CI-IPOP, RISE-Health Ronaldo Mendes – CLUP, FLUP; Wikimedia Portugal Rosemary Lee – FEUP Rui Torres – UFernando Pessoa Steven S. Gouveia – IFilosofia, FLUP Tahsir Ahmed Munna – FCUP, INESC TEC Tânia Leão – IS-UP, FLUP Terhi Marttila – ITI, ULisboa Thaís Barbedo Vigas – CETAPS, FLUP Tiago Barbedo Assis – IS-UP, FLUP; FBAUP Tiago Pinho – i2ADS, FBAUP Vanessa Ribeiro Simon Cavalcanti – ITI, ULisboa Vera Moitinho de Almeida – CODA, CITCEM, FLUP; INESCC
4 Índice NOTA DE ABERTURA – PAULA PINTO COSTA, DIRETORA DA FLUP 7 RESUMOS – COMUNICAÇÕES ORAIS A colaboração entre instituições nas ciências sociais: o caso do Observatório Social de Gaia Inês Maia, João Teixeira Lopes, José Pedro Silva, Tânia Leão 8 A consciência histórica no “Ciclo do Terror”: interfaces entre literatura e história Cláudia Cristina da Silva Fontineles 9 A Digitalização da Dor Crónica: aspetos relevantes aos profissionais de saúde e aos tratamentos Leandro Ortolan 10 Análise de processos de inclusão, inovação e sustentabilidade por meio de configurações sociotécnicas: conceptualização, metodologia e ilustração Iván Tartaruga 11 Artivismo, feminismo e pedagogia: intersecções a partir da música de Capicua Lara Gonçalves, Paula Guerra 12 Breaking the Code: não-normatividade algorítmica nas Humanidades Digitais Criativas Diogo Marques, Joana Chicau, Luís Trigo, Marinela Freitas, Rosemary Lee, Rui Torres, Tiago Assis, Vera Moitinho de Almeida 14 Cartografias têxteis: redes de pesquisa e produção para o estudo da obra de Arthur Bispo do Rosário [EN] Textile Cartographies: research and production networks for the study of Arthur Bispo do Rosário’s work Marina de Aguiar Casali Dias 15 Comer, Conversar, Registar. Passos metodológicos para a caracterização das cenas culturais alimentares na investigação #SomosoQueComemos Diego Soares Rebouças, Paula Guerra 17 Confluências e redes científicas em construção: redescobrindo a coleção de instrumentos musicais africanos do MHNC-UP Ana Ester Tavares, Vera Moitinho de Almeida, Rita Gaspar, Cláudia Oliveira, Lucas de Campos, Jorge Castro Ribeiro, Luís Trigo, Carlos Silva 18 Corpo, Poder e Resistência: Arte como ferramenta para pensar identidade, violência e exclusão Jaqueline Torquatro, Paula Guerra 19 Da toponímia à cartografia: inovar o estudo das Inquirições Gerais de 1258 Daniel Marques 20 DJUNTA MON – Colaboração interassociativa para a superação das barreiras linguísticas dos estudantes Guineenses no Porto Ronaldo Mendes, Ângelo Soares 21 Documento/Monumento Histórico: uma análise sobre os conflitos de moradia na zona Leste de Teresina por meio de matérias jornalísticas veiculadas no jornal O Estado (1970-1990) Cristina Cunha de Araújo 22
5 Eco das Imagens: arquivo para uma ecologia das imagens Tiago Barbedo Assis, Luís Trigo, Vera Moitinho de Almeida, Diogo Marques, André Barbosa 23 Especialista Humano vs. LLM: desenvolvimento de esquemas e diretrizes de anotação para narrativas clínicas Ana Luísa Fernandes, Purificação Silvano, Nuno Guimarães, Rita Rb-Silva, Filipe Cunha, Tahsir Ahmed Munna, António Leal, Ricardo Campos, Alípio Jorge 24 Etnografia no som: teoria, método e aplicabilidade na produção de conhecimento em música Lucas Wink 25 ‘HealingUtopia’: em direção a uma prescrição para a mudança prosocial [EN] ‘HealingUtopia’: Toward a Prescription for a Prosocial Change Liam Benison 26 Intertextualidade em títulos jornalísticos do jornal O Globo: estratégias discursivas e recepção pelo público leitor Anneliese Verdade, Fátima Silva 27 Le Petit Tour: um ensaio critico-cartográfico pelos quotidianos de fruição urbana do Porto André Ramos 28 Mapear a historiografia através da edição digital: o projeto DEGE e a interconexão de crónicas universais na Idade Média global [EN] Mapping historiography through digital edition: the DEGE project and the interconnection of universal chronicles in the global Middle Ages Mariana Leite 29 Mapear o Arco-íris: Metáfora, Memória, Ecologia Ana Martins 31 Militarium Ordinum Nexus – Beyond Boundaries (MON-2B): investigação em rede Joana Lencart 32 O Arquivo Digital WSWA Jorge Teixeira 33 O impacto da Inteligência Artificial nos processos de documentação e mediação em museus Alexandre Matos 34 O mar entre a literatura e o senso comum: Uma proposta teórico-metodológica para o estudo do trânsito de representações Luciano Moreira 35 O tom emocional da comunicação política nas publicações do Facebook: Uma identificação feita pelo CustomChatGPT4_Plus, ChatGPT4_Free e BERT Multilingue Aquiles Boiça 36 PtLanka: um corpus digital do léxico e fonologia do Português do Sri Lanka Luís Trigo, Carlos Silva 37 Ranhuras como mapas do corpo: corporeidade negra e inscrição visual em Luciano Feijão Paula Guerra, Júlia Almeida de Mello, Jovani Dala Bernardina 38 Rede microtopónima do concelho de Montalegre: valor patrimonial e cultural Manuel Ramos 39 Redes de (des)intoxicação: masculinidades radicalizadas e resistentes na contemporaneidade portuguesa Ana Cunha 40 Saberes indígenas na academia: a oralitura como meio de difusão de conhecimento Gabriela Maria Pinho Lins Vergolino, Vanessa Ribeiro Simon Cavalcanti 41
6 Saúde Antes de Tudo: o caso ético da IA Médica Steven S. Gouveia 42 Wikisource: edição colaborativa e património lexical português Ana Salgado 43 RESUMOS – PÓSTERES Da imagem da molécula à molécula da imagem: exploração dos métodos da Dianne Iverglynne através de uma plataforma digital para a produção de imagens ecológicas Tiago Barbedo Assis, Tiago Pinho, Luís Trigo, Hugo Castro, Alexandre Valle 45 Do jogo ao cinema: traduzindo Until Dawn entre mídias [EN] From game to the big screen: translating Until Dawn across media Raquel Souza, Thaís Barbedo Vigas 47 Documentação linguística no trabalho de campo: armazenar dados a longo prazo e para fins múltiplos Cecília Ortiz, Ari Gonçalves, Isabel Galhano 50 Esboço de uma problemática: o desafio da sociedade da informação Pedro Amaral 52 Muito longo para consentir: análise dos gestores de consentimento e o peso oculto das políticas de privacidade na Europa Jonas Ferrigolo Melo 53 Observação sociológica sistemática da realidade contemporânea: interseções na produção do conhecimento científico Maria João Oliveira, Inês Barbosa, João Teixeira Lopes 55 RESUMOS – WORKSHOPS É um Plano de Gestão de Dados e um café curto, por favor! Vera Moitinho de Almeida 56 O corpo em movimento: um olhar sobre a linguagem visual com ELAN Isabel Galhano 58 Licenças Creative Commons Vera Moitinho de Almeida, Luís Trigo 60 Afinal, para que servem os Identificadores Persistentes (DOI, handle e outros)? Vera Moitinho de Almeida, Luís Trigo 61 Escrita Ramificada como Prática de Investigação: um workshop com Twine Celeste Pedro, Diogo Marques, Terhi Marttila 62 Wikidata como recurso científico para dados patrimoniais e geolocalização André Barbosa, Carlos Silva, Luís Trigo, Vera Moitinho de Almeida 64 Eticista Digital: desafios éticos e práticas colaborativas para ecossistemas digitais responsáveis Jonas Ferrigolo Melo, Moisés Rockembach 65
7 Nota de Abertura A investigação é um dos pilares da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP). A investigação, a par do desenvolvimento e da inovação, constitui uma das forças intrínsecas e das linhas de força da missão da FLUP e está enquadrada em oito Unidades I&D, financiadas pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). O último ano foi marcado pelo ciclo avaliativo da FCT e foi um período de transição, que implicou adaptações e estimulou a reflexão crítica. Estamos a iniciar um novo ciclo da vida das Unidades I&D, em que os desafios são constantes e em que é preciso redescobrir e afirmar o lugar das ciências sociais e humanas. Nestas circunstâncias, o desenvolvimento de sinergias conjuntas, que resultem da estimulante interligação de áreas disciplinares e que proporcionem uma renovação epistemológica e uma valorização das ciências sociais e humanas no contexto social, é crucial. O programa de financiamento da Comissão Europeia para a investigação e a inovação até 2027, dedicado à Cultura, Criatividade e Sociedade Inclusiva, estabelece áreas de intervenção mais horizontais, transversais e complexas, em que os saberes construídos por estas áreas devem ter um protagonismo assumido. Este 3º Encontro de Investigação FLUP enquadra-se neste contexto e procura centrar o debate na necessidade de “Mapear Saberes, Redes e Intersecções”. A partir da segunda edição, o foco ampliou-se. Deixando de ser o encontro dos investigadores FLUP, que constituiu o objeto do 1º Encontro, passou a ser o encontro de investigação FLUP, procurando dar visibilidade à ação de docentes, investigadores e estudantes, nomeadamente dos que se encontram no 3º ciclo, uma vez que todos são parte ativa da investigação que se faz. Pretende-se que este espaço contribua para potenciar e reforçar o mapeamento de intersecções e construção de redes entre os centros de investigação da FLUP. O aprofundamento do trabalho colaborativo que as Unidades I&D possam vir a desenvolver depende também da cooperação que têm com outras entidades. Neste sentido, as redes e intersecções que dão forma ao título ganham um sentido polissémico e ampliam-se a outros interlocutores. A recente aprovação de 18 candidaturas que a U.Porto submeteu ao concurso dos projetos estruturados das Unidades de I&D, junto da CCDR-N, seis das quais contam com a participação de Unidades I&D da FLUP, sendo um destes projetos liderado pela FLUP, é emblemática do valor do modelo de trabalho multidisciplinar e colaborativo. Neste contexto, e com o propósito de incentivar a interação entre os investigadores, num amplo sentido do termo, a partilha de ciência dentro da comunidade FLUP, o desenvolvimento da descoberta de oportunidades conjuntas, o CODA e a Direção da FLUP, em articulação com as Unidades de I&D sediadas na FLUP, organiza este 3º Encontro de Investigação FLUP. A Diretora da FLUP Paula Pinto Costa
8 Resumos comunicações orais A colaboração entre instituições nas ciências sociais: o caso do Observatório Social de Gaia Inês Maia, João Teixeira Lopes, José Pedro Silva, Tânia Leão O Observatório Social de Gaia, criado em 2019, resulta de uma colaboração entre o Instituto de Sociologia da Universidade do Porto (IS-UP) e a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. O principal objetivo do Observatório prende-se com o aprofundamento, de forma cientificamente autónoma e independente, do conhecimento sobre o tecido demográfico, económico e sociocultural deste município, com vista a informar a intervenção autárquica. Neste sentido, propomos nesta comunicação, uma abordagem ao Observatório Social de Gaia, enquanto experiência singular de articulação entre a academia e o trabalho autárquico, problematizando o papel do conhecimento científico na informação de políticas públicas. Pretende-se, nomeadamente: 1) identificar as linhas de trabalho e abordagens metodológicas privilegiadas pelo Observatório, assim como os seus interlocutores no terreno e o público-alvo; 2) discutir as ramificações deste trabalho e a sua tradução no plano concreto da ação municipal; 3) ponderar criticamente as potencialidades e os desafios deste diálogo entre o trabalho científico e o trabalho autárquico, que, ao mesmo tempo que pode abrir caminho à criação de redes interinstitucionais frutuosas, obriga a ponderações éticas. Palavras-chave: academia, poder local, políticas públicas.
15 Cartografias Têxteis: redes de pesquisa e produção para o estudo da obra de Arthur Bispo do Rosário [EN] Textile Cartographies: research and production networks for the study of Arthur Bispo do Rosário’s work Marina de Aguiar Casali Dias Esta apresentação compartilha o processo de levantamento bibliográfico sobre a linguagem têxtil no campo da arte brasileira, realizado no âmbito da tese de doutoramento sobre a vida e obra de Arthur Bispo do Rosário (1909-1989). Diante da marginalização histórica das técnicas têxteis nas artes, buscou-se mapear estudos que reconhecem suas especificidades e potencialidades poéticas. A produção de Bispo conta com mais de mil obras, nas quais o têxtil se destaca não apenas pela quantidade, mas pela temporalidade intrínseca ao gesto de bordar, revelada em signos, palavras e padronagens. No entanto, as principais análises sobre sua obra raramente consideram conceitos oriundos dos estudos têxteis. Propõe-se, assim, uma abordagem do bordado como linguagem central em sua poética, capaz de revelar relações entre tempo, palavra, corpo e matéria. Como método, adotouse um mapeamento crítico que integrou pesquisa em repositórios e periódicos com a participação em encontros, oficinas e aulas públicas promovidos por pesquisadoras como Natália Rezende e Luciana Borre. Nesse sentido, foi possível observar que as redes de pesquisa têxtil no Brasil articulam dimensões formais e informais, operando dentro do campo acadêmico através de eventos científicos e programas de pesquisa, bem como iniciativas independentes, cursos livres e trocas horizontais entre os agentes. O caráter das produções da pesquisa em têxtil também se demonstrou transdisciplinar, tanto na articulação entre teoria e prática, quanto na relação entre áreas acadêmicas diversas como as artes, a sociologia e a educação. As fontes reunidas demonstram que a pesquisa em têxteis se ancora em princípios afetivos – como o acolhimento da memória no processo investigativo –, na articulação entre teoria e prática, na transdisciplinaridade e no compromisso com a valorização, transmissão e reinvenção de técnicas tradicionais brasileiras. Contribuem, portanto, não somente com a construção de redes híbridas de saberes, mas também com a emergência de novos modos de produção científica. Palavras-chave: linguagem têxtil, bordado, Arthur Bispo do Rosário, redes de pesquisa. [EN] This presentation shares the process of a bibliographic survey on textile language within the field of Brazilian art, carried out as part of a doctoral dissertation on the life and work of Arthur Bispo do Rosário (1909–1989). Given the historical marginalization of textile techniques in the arts, the research sought to map studies that acknowledge their specificities and poetic potentialities. Bispo’s body of work comprises more than a thousand pieces, in which the textile medium stands out not only for its quantity but also for the temporality intrinsic to the act of embroidery—revealed through signs, words, and patterns. However, major analyses of his work rarely engage with concepts stemming from textile studies. Thus, this research proposes an approach to embroidery as a central language in Bispo’s poetics, capable of revealing relations between time, word, body, and matter. As a method, a critical mapping was adopted, combining research in repositories and journals with
16 participation in meetings, workshops, and public lectures organized by scholars such as Natália Rezende and Luciana Borre. In this sense, it was possible to observe that textile research networks in Brazil articulate both formal and informal dimensions, operating within the academic field through scientific events and research programs, as well as through independent initiatives, open courses, and horizontal exchanges among participants. The character of textile research production also proved to be transdisciplinary – both in the articulation between theory and practice and in the dialogue among diverse academic fields such as art, sociology, and education. The sources gathered demonstrate that textile research is grounded in affective principles – such as the embrace of memory within the investigative process – in the integration of theory and practice, in transdisciplinarity, and in a commitment to valuing, transmitting, and reinventing traditional Brazilian techniques. They therefore contribute not only to the construction of hybrid networks of knowledge but also to the emergence of new modes of scientific production. [EN] Keywords: textile language, embroidery, Arthur Bispo do Rosário, affective networks.
17 Comer, Conversar, Registar. Passos metodológicos para a caracterização das cenas culturais alimentares na investigação #SomosoQueComemos Diego Soares Rebouças, Paula Guerra O comer é uma parte importante e estruturante da vida social. Investigar continuidades, transformações e reconfigurações das culturas alimentares entre o Ceará (Brasil) e o Norte de Portugal, com base nos fluxos migratórios históricos, revela uma necessidade de busca por chaves elucidativas a respeito da história social de duas sociedades ligadas por um passado baseado em relações de colonialismo, e que nesse caso, passam a ser reconectadas pelos aspetos da cultura alimentar. Para que isso fosse possível, o desenho metodológico da investigação qualitativa e comparativa aqui em questão justifica-se pela imprescindibilidade de captar práticas culturais, saberes cotidianos e experiências vividas, quer seja observando práticas alimentares em diferentes contextos, sejam eles privados, comerciais, religiosos e/ou festivos; quer seja acompanhando narrativas e memórias ligadas à comida, à migração e à identidade. As ferramentas aqui utilizadas foram fulcrais na medida em que também demos as mãos a disciplinas a partir dos quais se pode absorver outros tipos de conhecimento tecendo um arranjo interdisciplinar com as áreas de Antropologia, História, Estudos Culturais e Gastronomia, para além da Sociologia. Com essa configuração, visamos captar discursos sobre pertencimento, memória alimentar e mudanças nos hábitos; entender os significados culturais atribuídos a certos alimentos e práticas; explorar como as identidades são negociadas através da comida. Palavras-chave: culturas alimentares diaspóricas, cenas culturais alimentares, Brasil, Portugal, etnografia.
18 Confluências e redes científicas em construção: redescobrindo a coleção de instrumentos musicais africanos do MHNC-UP Ana Ester Tavares, Vera Moitinho de Almeida, Rita Gaspar, Cláudia Oliveira, Lucas de Campos, Jorge Castro Ribeiro, Luís Trigo, Carlos Silva No final do século XIX e início do século XX em Portugal, um crescente número de colecionadores de arte, melómanos e músicos procurava adquirir instrumentos musicais. Quer fosse pela sua antiguidade ou valor estético e material, quer pela sua raridade ou proveniência, colecionar estes objetos refletia uma tendência europeia mais ampla de valorização do património cultural e da própria história da música. Particularmente no caso dos instrumentos musicais de cariz etnográfico, considerados à época como “exóticos”, este interesse estendia-se à esfera pública; como tal, promoviam-se expedições de caráter científico às colónias ultramarinas europeias, resultando na incorporação de diversos exemplares de instrumentos musicais não-europeus em coleções de museus universitários – tal como acontece no caso das Coleções de Arqueologia e Etnografia do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto (MHNC-UP). Na nossa apresentação procuraremos focar-nos num conjunto de seis instrumentos musicais angolanos pertencentes ao acervo do MHNC-UP e cujo estudo tem vindo a ser conduzido por uma equipa interdisciplinar constituída por elementos da Universidade do Porto e da Universidade de Aveiro. Demonstraremos como os vários contributos das diferentes áreas – humanidades digitais (digitalização 2D e 3D), etnomusicologia, história da arte, antracologia e linguística – têm sido essenciais para uma correta análise e compreensão dos instrumentos musicais. Daremos a conhecer a metodologia e o fluxo de trabalho aplicados até ao momento, em conformidade com os princípios FAIR1 e CARE2,3 e seguindo os princípios da Ciência Aberta4,5; partilharemos alguns resultados relativos à organologia e técnicas performativas dos instrumentos, marcas de produção e de uso, às matérias-primas que os constituem e à sua nomenclatura; refletiremos ainda no processo de enriquecimento da documentação com metadados, paradados, vocabulários controlados e dados abertos ligados, integrados numa instância Wikibase (gerida pelo CODA e alojada na FLUP) e no alargamento do projeto de investigação a outras áreas científicas. Palavras-chave: humanidades digitais, MHNC-UP, instrumentos musicais angolanos, etnomusicologia, interdisciplinaridade. Referências: 1 Wilkinson, M., Dumontier, M., Aalbersberg, I., et al. (2016). “The FAIR Guiding principles for scientific data management and stewardship”. Scientific Data 3:160018. https://doi.org/10.1038/sdata.2016.18 2 GIDA (2018-). “CARE Principles for Indigenous Data Governance”. Global Indigenous Data Alliance (GIDA). https://www.gida-global.org/care 3 Carroll, S. R., Garba, I., Figueroa-Rodríguez, O., et al. (2020). “The CARE Principles for Indigenous Data Governance”. Data Science Journal 19: 1-12. https://doi.org/10.5334/dsj-2020-042 4 FOSTER (2017-). Fostering the practical implementation of Open Science in Horizon 2020 and beyond. https://www.fosteropenscience.eu 5 European Commission (2019-). Open Science. https://ec.europa.eu/info/research-andinnovation/strategy/strategy-2020-2024/our-digital-future/open-science_en
19 Corpo, Poder e Resistência: Arte como ferramenta para pensar identidade, violência e exclusão Jaqueline Torquatro, Paula Guerra O projeto NarraPerifa, desenvolvido no Espírito Santo, promove a distribuição de fanzines produzidas por artistas das periferias capixabas nas Unidades Socioeducativas, espaços ocupados principalmente por adolescentes que cresceram em contextos de exclusão e vulnerabilidade social. Essa iniciativa se mostra como um campo fértil para investigar as relações entre arte, corpo e poder, evidenciando como a cultura pode gerar práticas de resistência e ressignificação de sujeitos historicamente marginalizados. Ao atuar nas margens dos sistemas institucionais, o NarraPerifa reafirma a potência das linguagens artísticas como instrumentos de transformação social e construção de novas territorialidades culturais. A análise de sua atuação demonstra que o campo da arte tem se consolidado como espaço de problematização das relações que atravessam o corpo, a identidade e as múltiplas formas de violência e exclusão. Nesse contexto, o conceito de abjeto torna-se central para compreender como certos corpos e subjetividades, culturalmente rejeitados por não se ajustarem às normas hegemônicas, constituem-se como estratégia estética e política de resistência, capaz de deslocar o olhar normativo e questionar os limites simbólicos e afetivos da sociedade. A pesquisa apoia-se também na filosofia DIY (Do It Yourself), que valoriza a produção crítica, independente e acessível, característica marcante das fanzines, consideradas dispositivos estéticos e políticos que rompem com modelos tradicionais e operam como instrumentos de insurgência e afirmação de corpos e vozes dissidentes. Com base em uma abordagem qualitativa, o estudo articula análise crítica de conteúdo, observação das ações do NarraPerifa e análise das fanzines e materiais distribuídos pelo coletivo. Busca-se construir um mapeamento cultural das redes de produção e circulação dessas publicações, compreendendo-as como formas de cartografia simbólica e resistência que configuram novas territorialidades estéticas e políticas. O objetivo é analisar como corpo, poder e resistência se articulam nas práticas artísticas dissidentes, mapeando as dinâmicas culturais do NarraPerifa e propondo uma leitura teórica que relacione estética do abjeto, interseccionalidade e filosofia DIY. Espera-se contribuir para o debate sobre políticas culturais e modos alternativos de produção artística, ampliando a compreensão do potencial transformador das práticas culturais periféricas e de suas articulações com as Humanidades. Palavras-chave: DIY, fanzines, abjeto, humanidades, estéticas dissidentes, NarraPerifa.
20 Da toponímia à cartografia: inovar o estudo das Inquirições Gerais de 1258 Daniel Marques Tendo recentemente defendido uma tese de doutoramento intitulada “A administração régia periférica a Norte do Douro segundo as Inquirições Gerais de 1258”, na presente proposta pretendemos abordar algumas das suas potencialidades assentes em dois eixos principais. De um lado, na metodologia pioneira na identificação e georreferenciação dos topónimos no conjunto de estudos que se debruçam sobre as Inquirições Gerais do século XIII. Por outro lado, no mapeamento dos diversos dados de história social, política e económica presentes nestas fontes medievais, cuja exposição temática permite a rápida percepção da intensidade de importantes fenómenos na sociedade da época. Dentro do primeiro eixo, será privilegiada a explicação das etapas que conduziram à localização desses lugares na atualidade, desde a fixação do topónimo à obtenção das coordenadas e à sua integração numa base de dados. Para tal, recorreu-se a uma metodologia que combinou métodos tradicionais – leitura de corografias, monografias locais e cartas militares – com ferramentas digitais e atuais, como os atlas culturais, os Sistemas de Informação Geográfica e os Planos Diretores Municipais. Uma das conclusões mais relevantes da aplicação deste método prende-se com a possibilidade de avaliar, em diferentes escalas (microtoponímia e macrotoponímia), hipóteses alternativas de georreferenciação. Do universo de mais de doze mil topónimos identificados, foi possível georreferenciar mais de metade, permitindo avançar com perspetivas recentes sobre a catalogação destes dados. Sobre o segundo eixo, serão apresentados a partir de cartografia, alguns resultados da metodologia aplicada, ilustrando o seu potencial para o estudo de temas sociais – como a distribuição das bases patrimoniais ou a conflitualidade medieval – e administrativos, designadamente a organização dos oficiais régios no território. Assim, acreditamos ser possível promover uma divulgação de resultados científicos que almejam a valorização histórica de cada topónimo, objetivo que temos como ambicioso, mas também primordial na investigação em História. Na atualidade, o desenvolvimento de bases de dados de longo alcance e sobre diversos temas revelam-se ferramentas indispensáveis, sobretudo quando disponibilizadas online, enquanto ferramenta de pesquisa em novas investigações académicas e, ainda, para consulta pela parte de um público abrangente. Nesse sentido, a presente proposta caminhará, no longo alcance, tanto para uma disponibilização online da sua base de dados, sendo que parte dos seus resultados poderão vir a integrar um «Atlas do Território», em conjunto com os resultados de investigações de outros académicos do CITCEM. Palavras-chave: Norte de Portugal, Inquirições Gerais de 1258, toponímia medieval, georreferenciação histórica.
21 DJUNTA MON – Colaboração interassociativa para a superação das barreiras linguísticas dos estudantes Guineenses no Porto Ronaldo Mendes, Ângelo Soares A Guiné-Bissau é um país multilíngue com mais de vinte línguas étnicas (balanta, fula, mandinga, entre outras), além do crioulo guineense e do português (INE, 1991, 2009; Scantamburlo, 2013). O crioulo é a língua franca e o português a língua oficial e de ensino, sendo, no entanto, falado por apenas 27,1% da população. O facto de não ser língua materna da maioria dos guineenses constitui uma barreira à aprendizagem para os estudantes na Guiné-Bissau e no exterior. Em Portugal, o enorme contingente de estudantes guineenses enfrenta grandes dificuldades dado que o português é distinto do que falam na Guiné-Bissau. O insucesso e abandono escolar são resultados expectáveis, pois todo o processo de ensino e aprendizagem e as relações socioculturais e académicas desenvolvem-se em português. Contudo, documentam-se experiências de inclusão linguístico-cultural no contexto universitário português, como o projeto Trovoada de Ideias: Inclusão Linguístico-social dos Estudantes dos PALOP no Ensino Superior Português, desenvolvido por investigadores do ISCTE-IUL entre 2016 e 2020. Também neste contexto surge Djunta Mon, projeto construído na sequência de um Protocolo entre a Associação de Estudantes da Guiné-Bissau (AEGB) – Porto e a Associação Ser Mais Valia, com objetivo de aumentar a proficiência no uso do português de estudantes guineenses do ensino superior no Porto, através do desenvolvimento de competências no domínio da escrita e utilização em contexto académico. Com esta comunicação, pretendemos partilhar resultados do projeto Djunta Mon, experiência colaborativa que procurou desenvolver nos destinatários competências linguísticas reconhecendo os domínios da leitura e escrita do português como meios fundamentais de comunicação e construção crítica do conhecimento e fins académicos. O curso foi lecionado presencialmente, no Centro Comunitário de S. Cirilo, por duas voluntárias da Ser Mais Valia nos anos letivos 2023/2024 e 2024/2025, encontrando-se 2025/2026 em fase de preparação. Palavras-chave: Guiné-Bissau, ensino superior português, Português, inclusão. Referências: Djata, V.A. (2022). Desenvolvimento Lexical de falantes bilingues na Guiné-Bissau. Dissertação de Mestrado. Braga: ELACH, Universidade do Minho. INE (1991). Recenseamento Geral da População e Habitação. Lisboa: Instituto Nacional de Estatística (INE). INE (2009). Recenseamento Geral da População e Habitação: Características Socioculturais. Lisboa: Instituto Nacional de Estatística (INE). Mendes, R., Silva, C. (2024). “Prestígio social das Línguas da Guiné-Bissau avaliado pelos seus falantes”. Cadernos IS-UP 5:38-45. Scantamburlo, L. (2013). O léxico do crioulo guineense e as suas relações com o português: o ensino bilíngue português-crioulo guineense. Tese de Doutoramento. Lisboa: FCSH, Universidade de Lisboa.
22 Documento/Monumento Histórico: uma análise sobre os conflitos de moradia na zona Leste de Teresina por meio de matérias jornalísticas veiculadas no jornal O Estado (1970-1990) Cristina Cunha de Araújo Tomando como inspiração a perspectiva de documento/monumento formulada por Jacques Le Goff (1996) em sua obra História e Memória, esse estudo tem como objetivo discorrer sobre conflitos de moradia na zona Leste de Teresina, Piauí, Brasil. Para isso, fazemos uso de matérias jornalísticas veiculadas no jornal O Estado, no período compreendido entre 1970 e 1990. Consideramos que o jornal é uma ferramenta que atua de múltiplas formas, uma vez que é elemento primordial de registro da vida cotidiana; assim, pode ser utilizado como ferramenta de produção de saberes no âmbito da História, enquanto produtor de fonte hemerográfica. O conceito de documento/monumento está intrinsecamente ligado às mudanças ao longo do tempo, especialmente à sua relação com as tecnologias. A coleta do material empírico foi realizada no Arquivo Público do Piauí, onde tivemos acesso ao jornal impresso. Selecionamos o caderno Cidade – conforme o recorte temporal estabelecido – e digitalizamos as matérias que tratavam sobre conflitos de moradia na zona Leste de Teresina. Dessa maneira, compusemos nosso acervo de fontes para estudo. Na feitura do nosso texto, estamos utilizando o conceito de agentes sociais, conforme Roberto Lobato Corrêa (2002), uma vez que os textos jornalísticos nos revelam ações desses diferentes agentes naquele espaço e que contribuem diretamente para a forma como a zona vem sendo habitada. Também trabalhamos com o conceito de representação, de Roger Chartier (1990), uma vez que concebemos as notícias veiculadas como uma representação dos fatos e que, por meio de suas publicações, produziram uma representação sobre o “morar na zona Leste de Teresina”. Até o momento da pesquisa e análise das fontes, constatamos que as matérias veiculadas no jornal sobre os conflitos de moradia na zona Leste estão sendo de grande valia, pois estas revelam informações que, muitas vezes, não encontramos na bibliografia que estamos utilizando como base teórica e temática para a escrita do texto. No entanto, não devemos tomar as fontes como portadoras de verdades absolutas. Palavras-chave: corpus digital, história da arte e cultura clássicas, história da arquitetura clássica, humanidades digitais, mosaicos romanos. Referências: Chartier, R. (1990). A história cultural: entre práticas representações. Tradução de Maria Manuela Galhardo. Lisboa: Difel. Corrêa, R.L. (2002). O Espaço Urbano. São Paulo: Ática. Goff Le, J. (1996). “Documento/monumento”. In História e Memória. São Paulo: Ed. Unicamp.
23 Eco das Imagens: arquivo para uma ecologia das imagens Tiago Barbedo Assis, Luís Trigo, Vera Moitinho de Almeida, Diogo Marques, André Barbosa A fotografia analógica está historicamente ligada a sistemas extrativistas e a processos prejudiciais para o ambiente. A passagem para o digital apenas transferiu os processos, não mitigou o seu impacto, contribuindo apenas para ocultar as suas infraestruturas de suporte. Apesar de depender da produção de imagens, a educação artística deve reconhecer as suas responsabilidades relativamente a questões climáticas urgentes e justificar o reconhecimento dos papéis históricos que desempenhou no passado. A plataforma [EChO_IMAGES] tem como objetivo fomentar a investigação e a produção de imagens através de práticas sustentáveis e ecológicas, com perspectivas interseccionais e anti-discriminatórias. Combina os espaços digital e físico em três eixos estruturantes: [L] Laboratorial; [AE] Artístico-educativo; [H] Histórico. O eixo Laboratório [L] trabalha com processos e tecnologias inovadoras, minimizando significativamente a utilização de produtos químicos tóxicos comumente encontrados nos métodos empregados nos laboratórios de fotografia. O eixo [L] procura repensar a ideia de um laboratório de produção de imagem sustentável, um Ecolab, enquanto espaço físico e virtual. Simultaneamente, o eixo [AE] surge como um domínio que amplia as preocupações com a sustentabilidade no âmbito da educação e práticas artísticas, promovendo simultaneamente novas abordagens pedagógicas e uma reflexão crítica sobre a ecologia das imagens. O eixo [H] alarga o projeto a uma dimensão de história do presente, problematizando a ligação histórica entre a produção de imagens e processos não sustentáveis. O projecto explicita-se numa componente online (https://echoimages.labs.wikimedia.pt/) que se constitui a partir das linhas de investigação do projecto e agrega as suas acções e resultados. Incorpora as tendências da web semântica de modo a potenciar a ligação a bases de dados externas, como a Wikidata, e a facilitar as vertentes de visualização de dados e storytelling. Palavras-chave: ecologia das imagens, educação artística, humanidades digitais, ecossistema Wikimedia.
24 Especialista Humano vs. LLM: desenvolvimento de esquemas e diretrizes de anotação para narrativas clínicas Ana Luísa Fernandes, Purificação Silvano, Nuno Guimarães, Rita Rb-Silva, Filipe Cunha, Tahsir Ahmed Munna, António Leal, Ricardo Campos, Alípio Jorge Os relatórios médicos contêm vastas quantidades de texto narrativo não estruturado, o que coloca desafios à organização, curadoria e extração automatizada de informação em contextos clínicos e de investigação. O desenvolvimento de esquemas de anotação eficazes é crucial para o treino de modelos de extração, mas continua a ser um processo complexo tanto para especialistas humanos como para Large Language Models (LLM). Neste trabalho, realizámos uma comparação sistemática entre esquemas de anotação gerados por um especialista humano e por um LLM (Gemini 1.5 Flash). Na primeira fase, o especialista humano e o LLM criaram esquemas de anotação com base em critérios pré-definidos. Na segunda fase, anotadores experientes aplicaram esses esquemas seguindo as diretrizes de anotação. Em ambos os casos, os resultados foram avaliados qualitativamente usando escalas de Likert e quantitativamente através do resultado do acordo entre anotadores. Os resultados mostram que, embora o LLM seja capaz de criar diretrizes de anotação, as diretrizes produzidas pelo especialista humano foram mais compreensíveis, coerentes e claras. A falta de especificidade e clareza nas diretrizes do LLM conduziu a inconsistências na anotação, particularmente na definição dos elementos a assinalar (markables) e na resolução de ambiguidades. Estes resultados alinham-se com investigações anteriores que sugerem que, apesar dos LMs apresentarem um desempenho promissor na anotação de texto, o mesmo não se verifica no desenvolvimento de esquemas de anotação, sendo a validação humana essencial para garantir a precisão e fiabilidade. Uma abordagem híbrida, que combine o desempenho dos LLMs com a validação humana, poderá mitigar as inconsistências observadas. No futuro, pretendemos identificar os fatores subjacentes à discordância entre anotadores e aperfeiçoar o esquema de anotação concebido pelo humano para reduzir ambiguidades. Para melhorar a reprodutibilidade científica, também pretendemos incorporar uma gama mais ampla de LLMs, incluindo alternativas open-source. Palavras-chave: narrativas clínicas, esquemas de anotação, LLM, relatórios médicos.
31 Mapear o Arco-íris: Metáfora, Memória, Ecologia Ana Martins Esta comunicação descreve as dificuldades, bem como as possibilidades, levantadas pelo mapeamento geográfico, literário, teórico e ecológico da difusão do mito da serpentearco-íris, que ocorreu entre diversas comunidades espalhadas pela faixa tropical, desde as regiões do Pacífico Ocidental, incluindo a Malásia, as Filipinas e a Austrália, até África e, a partir da África Ocidental até ao Brasil, aquando da escravatura. O mapeamento geográfico dá lugar a um mapeamento literário, onde se reconhece o arco-íris enquanto elemento estruturante da memória da Passagem do Meio em português. Este mapeamento geográfico e literário acentua um domínio acima das águas do Atlântico Negro de Paul Gilroy, ainda não articulado pela teoria e estudos da diáspora. No alargamento teórico permitido por esta nova esfera ‘aérea’, reconhece-se o arco-íris enquanto símbolo de impermanência, refletindo a fragilidade da memória cultural entendida enquanto ecossistema em perigo de desaparecimento. Se, como argumentam Derrida & Prenowitz (1995), a forma como pensamos sobre o arquivo determina o que consideramos arquivável, conclui-se que pensar o arco-íris como arquivo implica reconhecer a instabilidade ambiental como a nova forma de apagamento político. O ato de levantar os olhos e olhar para o céu para ‘ler’ o arco-íris já está a ser impactado pelas mudanças climáticas, que estão a alterar a distribuição espácio-temporal das ocorrências de arco-íris ao afetarem a evaporação e a convergência de humidade, o que, por sua vez, altera os padrões de precipitação e cobertura de nuvens (Carlson et al., 2022). Estas considerações convidam a um mapeamento ecologista do arco-íris, a partir do qual poderemos melhorar a nossa compreensão do Antropoceno. Enquanto metáfora que unifica o literário e o ambiental, e enquanto fenómeno natural capaz de questionar o que entendemos por ‘natural’, o arcoíris demonstra como uma outra forma de olhar o ambiente que nos rodeia pode afetar a teoria que criamos. Palavras-chave: mapeamentos (geográfico, literário, teórico e ecológico), memória, arco-íris, Passagem do Meio. Referências: Carlson, K.M., et al. (2022). “Global rainbow distribution under current and future climates”. Global Environmental Change 77:102604. https://doi.org/10.1016/j.gloenvcha.2022.102604 Derrida, J., Prenowitz, E. (1995). “Archive Fever: A Freudian Impression”. Diacritics 25(2):9-63.
32 Militarium Ordinum Nexus – Beyond Boundaries (MON-2B): investigação em rede Joana Lencart A rede de Investigação Militarium Ordinum Nexus – Beyond Boundaries (MON-2B) foi criada em 2025 como uma rede interuniversitária tendo como parceiros institucionais a Universidade do Porto, onde está sediada a rede, a Universidade de Castilla-La Mancha (Espanha); a Universidade de Malta (Malta); a Universidade de Navarra (Espanha); e a Universidade de Rovira i Virgili (Espanha). Os objetivos subjacentes à criação da rede são a promoção integrada dos estudos das ordens militares na época medieval e na época moderna enquanto impulsionadoras da coesão e unidade europeias. Esta rede procura estudar as interligações entre as ordens militares, os povos, os domínios territoriais e as instituições políticas e religiosas ao longo do mundo mediterrânico numa linha temporal diacrónica. Serão fomentadas várias ações de dinamização e de divulgação das atividades da rede, como o website e workshops e conferências que impliquem a participação não apenas dos membros fundadores, mas também de todos aqueles que se desejem associar. Palavras-chave: redes de investigação, Ordens Militares, métodos colaborativos, humanidades digitais.
33 O Arquivo Digital WSWA Jorge Teixeira Os conflitos prolongados são sistemas dinâmicos e complexos, com múltiplos fatores em constante transformação. Entre eles, o caso do Sahara Ocidental destaca-se pelas suas particularidades políticas, jurídicas e geoestratégicas. O conflito envolve três partes: Marrocos, a Frente POLISARIO e Espanha. Esta última permanece, por facto jurídico amplamente reconhecido, a potência administrante de iure do território – não apenas perante a ONU, mas à luz do direito internacional em geral – mantendo, assim, responsabilidades legais no processo de descolonização inacabado. Após uma primeira fase de guerra aberta (1975-1991), foi assinado um cessar-fogo, sob os auspícios da ONU e da União Africana, que apenas a Frente POLISARIO respeitou. Os processos diplomáticos subsequentes fracassaram, em grande parte devido ao apoio estratégico - ainda que maioritariamente nos bastidores - prestado por potências como os Estados Unidos e a França ao regime de ocupação marroquino. Esta ocupação continua a ser uma realidade concreta, visível no muro militar com mais de 3.000 km, construído por Marrocos, que divide o território e militariza o quotidiano. O Sahara Ocidental permanece, assim, a última colónia formal do continente africano. Com o reinício da guerra em 2020, na sequência de novas agressões marroquinas, surgiu o risco acrescido de desinformação e apagamento de fontes documentais. Neste contexto, o Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto (CEAUP) criou o Western Sahara War Archive (WSWA), uma plataforma digital de monitorização, recolha e preservação de dados sobre o conflito. O arquivo recorre a uma metodologia mista, combinando fontes académicas, jornalísticas e institucionais, provenientes de diversas geografias. Este tipo de arquivo levanta questões importantes: podem plataformas digitais contribuir para a produção de conhecimento rigoroso em contextos de guerra prolongada? Que critérios orientam a curadoria e verificação da informação? E como resistem estas ferramentas à desinformação estratégica? Este tipo de arquivo levanta questões importantes: podem plataformas digitais contribuir para a produção de conhecimento rigoroso em contextos de guerra prolongada? Que critérios orientam a curadoria e verificação da informação? E como resistem estas ferramentas à desinformação estratégica? Palavras-chave: plataformas digitais, conflitos prolongados, Sahara Ocidental, análise geoestatística.
34 O impacto da Inteligência Artificial nos processos de documentação e mediação em museus Alexandre Matos A crescente utilização de tecnologias digitais no sector dos museus é uma realidade inultrapassável. Atualmente os processos de documentação e gestão de informação nos museus, bem como os processos de mediação (digitais ou não) com os seus públicos, são determinados em grande medida pela utilização de ferramentas digitais. A sua integração percorreu um caminho longo, cheio de desafios e oportunidades, e conta agora com um novo capítulo com a Inteligência Artificial (IA). Vivemos aquilo que no relatório TrendsWatch, da American Alliance of Museus (p.42), é designado como a “adolescência da Inteligência Artificial nos museus”. A sua utilização não é nova, vários métodos e aplicações de inteligência artificial, como machine learning, por exemplo, são usados há mais de uma década em museus e bibliotecas (Cordell, 2020). No entanto, encontramos cada vez mais museus a explorar possíveis aplicações da Inteligência Artificial (IA) nas suas atividades. Desde a experiência de visita, à exploração de dados para gestão de manutenção de experiências interativas (Winter et al., 2022), até à curadoria digital (Noehrer et al., 2021) ou a utilização de chatbots para interação com os visitantes (p.ex., MuseoBot), a utilização de IA tem dado passos firmes nos museus e apresenta-se como uma tendência em afirmação a nível internacional e, embora de forma mais comedida, a nível nacional. Nesta apresentação procuro debater, com a comunidade académica, o meu projeto de investigação onde procuro fazer um ponto de situação da utilização da IA nos processos de documentação e mediação dos museus, com foco especial no contexto nacional. Pretendo encontrar respostas para questões técnicas, políticas e éticas que contribuam para uma utilização mais consciente e informada das tecnologias de IA pelas instituições de memória. Palavras-chave: documentação em museus, mediação cultural, inteligência artificial, políticas, normas. Referências: Cordell, R. (2020). Machine Learning + Libraries. A Report on the State of the Field. Washington: Library of Congress. https://labs.loc.gov/static/labs/work/reports/Cordell-LOC-ML-report.pdf Merritt, E. (ed.). (2024). TrendsWatch: Navigating a Volatile Future [Forecast report]. American Alliance of Museums’ Center for the Future of Museums. https://www.aamus.org/programs/publications/trendswatch/trendswatch-navigating-a-volatile-future/#download Museu Calouste Gulbenkian (n.d.). MuseoBot: Museus, democracia e inteligência artificial. Fundação Calouste Gulbenkian. Obtido em 10 de outubro de 2025: https://gulbenkian.pt/museu/agenda/museobot-museus-democracia-e-inteligencia-artificial/ Noehrer, L., Carlton, J., Jay, C. (2021). “Machine Learning and Museum Collections: A Data Conundrum”. In Emerging Technologies and the Digital Transformation of Museums and Heritage Sites, M. Shehade, T. Stylianou-Lambert (eds.). Springer International Publishing. Vol. 1432, pp. 19-31. https://doi.org/10.1007/978-3-030-83647-4_2 Winter, M., Sweeney, L., Mason, K., Blume, P. (2022). “Low-power Machine Learning for Visitor Engagement in Museum’s”. In Proceedings of the 6th International Conference on Computer-Human Interaction Research and Applications, 236–243. https://doi.org/10.5220/0011585600003323
35 O mar entre a literatura e o senso comum: Uma proposta teóricometodológica para o estudo do trânsito de representações Luciano Moreira Nesta comunicação, propomo-nos refletir sobre uma proposta de integração teóricometodológica das humanidades digitais e da teoria das representações sociais para estudar o trânsito de representações entre literatura e senso-comum. Num texto pouco conhecido, Moscovici (1986) sugeriu que a literatura poderia ser tomada como um campo fértil de experiências mentais (gendanken), que permitiriam aplicar teorias psicossociais para explicar aspetos dos textos literários, identificar as teorias implícitas dos autores e rastrear a apropriação literária de teorias científicas. Contarello (2008), por sua vez, reconhecia a correspondência inesperada entre o conceito de leitura distante (Moretti, 2013) e o de análise quali-quantitativa de textos literários. Tal como Moretti (2013), a nossa proposta assume a distância ao texto como uma condição de conhecimento, pelo que as experiências mentais sugeridas por Moscovici (1986) não se exercem já sobre obras individuais, mas sobre conjuntos de obras, que em si formam um objeto de estudo completamente novo. Assumimos ainda que a teoria das representações sociais permite fazer luz sobre as condições de produção do conhecimento de senso comum que as obras literárias ao mesmo tempo refletem e inspiram. Ilustraremos a nossa proposta com uma investigação sobre o trânsito de representações do mar entre a literatura utópica e de ficção científica e o senso comum. Em linha com a teoria das representações sociais, integramos na nossa análise três grupos sociais: autores, académicos, e leitores. Analisamos através de técnicas computacionais excertos relacionados com o mar de 26 obras, breves resumos/comentários de académicos de 71 obras listadas em duas bases de dados (Utopian Literature in English de Lyman Tower Sargent e Blue Humanities do CETAPS) e, finalmente, comentários de leitores no GoodReads. O trabalho, conquanto de natureza exploratória, permite-nos identificar os desafios, limitações e méritos da abordagem proposta. Palavras-chave: humanidades digitais, representações sociais, leitura distante, mares, literatura. Referências: Contarello, A. (2008). “Social Psychology and Literature: Toward Possible Correspondence”. In Meaning in Action: Constructions, Narratives, and Representations, T. Sugiman, K.J. Gergen, W. Wagner, Y. Yamada (eds.). Springer Japan. Pp. 303-325. https://doi.org/10.1007/978-4-431-74680-5_18 Moretti, F. (2013). Distant reading. London: Verso Books. Moscovici, S. (1986). “The Dreyfus Affair, Proust, and Social Psychology”. Social Research 53(1):23-56.
36 O tom emocional da comunicação política nas publicações do Facebook: Uma identificação feita pelo CustomChatGPT4_Plus, ChatGPT4_Free e BERT Multilingue Aquiles Boiça A comunicação política em ambiente digital adquiriu uma centralidade incontornável, com os partidos políticos a recorrerem às redes sociais para a disseminação de valores, ideias e narrativas. Neste contexto, a análise de sentimentos definida como o estudo computacional de emoções expressas digitalmente tornou-se uma ferramenta essencial na extração de conhecimento a partir do discurso político online. A análise de sentimentos tem beneficiado da emergência dos grandes modelos de linguagem (Large Language Models, LLM) que demonstram grande capacidade na deteção de emoções complexas em textos. Contudo, a utilização destes modelos tem muitos desafios, como o enviesamento e a necessidade da supervisão humana. A presente investigação respondeu à questão central do estudo: “Como varia o tom emocional das publicações textuais no Facebook dos partidos políticos durante a précampanha eleitoral quando a análise emocional dos textos é efetuada com três abordagens: CustomChatGPT4_Plus, ChatGPT4_Free e BERT multilingue em ambiente Python?”. A metodologia e procedimento tiveram quatro fases: web scraping das publicações no Facebook de oito partidos políticos (de 13 de março a 22 de abril de 2025, um período da pré-campanha eleitoral); identificação das emoções; aplicação dos modelos de linguagem; criação de um dashboard dinâmico. Concluiu-se em termos globais que os partidos políticos PS, IL, AD e PAN registaram tons de texto mais positivos, o BE, CDU e LIVRE registaram valores mais moderados, e o CHEGA registou um tom mais negativo. Palavras-chave: tecnocultura, comunicação política no Facebook, análise de sentimentos, Large Language Models.
37 PtLanka: um corpus digital do léxico e fonologia do Português do Sri Lanka Luís Trigo, Carlos Silva O PtLanka é um corpus online dedicado ao léxico e à fonologia do português do Sri Lanka. Este repositório reúne um total de 2524 palavras, compiladas a partir do mais completo dicionário sobre esta variedade, publicado originalmente em 1900, que incide sobre o dialeto extinto de Colombo. Para cada entrada lexical, a base de dados disponibiliza a ortografia original, uma transcrição fonética alargada, definições atualizadas em português e inglês, e anotação morfossintática. A metodologia de criação do corpus envolveu a extração e normalização dos dados do dicionário original, seguida de atualização ortográfica, transcrição fonética via substituição REGEX, tradução para inglês com recurso a motores de tradução automática e etiquetagem gramatical com o LX-Tagger. Todas as fases foram acompanhadas de uma rigorosa validação e correção manual. O PtLanka apresenta um elevado potencial de reutilização para diversas áreas do conhecimento. Na Linguística, pode ser usado em estudos de lexicografia, fonologia e contacto de línguas. Para a História, os dados lexicais podem servir como fonte para investigar contactos entre populações e movimentos demográficos. O recurso é igualmente valioso para a Psicologia, em investigações sobre a aquisição de segunda língua, e para a linguística aplicada, nomeadamente no desenvolvimento de processos de regularização ortográfica, essenciais para a preservação e prestígio de línguas minoritárias. Este trabalho, embora em desenvolvimento, já fundamentou publicações sobre a fonologia da língua. É de salientar que a presente versão se baseia num único dicionário histórico. Futuramente, prevê-se a inclusão de outros dicionários e a implementação de reconhecimento de cognatos assistido por computador para aumentar a sua abrangência. O corpus encontra-se disponível em acesso aberto nos repositórios GitHub e Zenodo sob licença aberta, garantindo o seu potencial de reutilização. Palavras-chave: línguas crioulas, variação linguística, lexicografia, fonologia.
38 Ranhuras como mapas do corpo: corporeidade negra e inscrição visual em Luciano Feijão Paula Guerra, Júlia Almeida de Mello, Jovani Dala Bernardina Este trabalho propõe uma leitura crítica da série Antianatomia (2011), do artista brasileiro Luciano Feijão, explorando as ranhuras e rasuras como elementos técnicos e visuais que mapeiam a corporeidade negra enquanto espaço de inscrição subjetiva, política e histórica. A partir da análise de obras em que o corpo é construído por traços fragmentados e superfícies interrompidas, discutimos a poética do artista como crítica ao cânone anatômico eurocentrado e à normatividade dos saberes científicos ocidentais sobre a corporeidade. A abordagem articula referências dos estudos decoloniais e das epistemologias do Sul Global, com destaque para Rita Segato (2003), Gloria Anzaldúa (1987) e Homi Bhabha (1998), a fim de compreender o corpo racializado como fronteira, isto é, como uma superfície marcada pela violência colonial que resiste e subverte as construções de poder. Nesse sentido, os trabalhos são analisados como cartografias visuais que provocam a anatomia como sistema fixo. Feijão inscreve o corpo negro como território de ranhuras e fissuras, visualizando redes de saberes invisibilizados, contribuindo para modos alternativos de produção e circulação do conhecimento. Assim, o artigo insere-se nas interseções entre artes visuais, ciências sociais e epistemologias críticas, propondo que tais práticas artísticas possam ser compreendidas como formas legítimas de mapeamento e visualização de dados culturais e históricos. A proposta se alinha ao debate sobre o papel das Humanidades na análise de fenômenos complexos e à reflexão sobre metodologias visuais na produção de conhecimento no Sul Global. Palavras-chave: artes, corpo negro, decolonial, mapeamento visual. Referências: Anzaldúa, G. (1987). Borderlands/La Frontera: The New Mestiza. San Francisco: Aunt Lute Books. Bhabha, H.K. (1998). O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG. Segato, R.L. (2003). Las estructuras elementales de la violencia: Ensayos sobre género entre la antropología, el psicoanálisis y los derechos humanos. Buenos Aires: Universidad Nacional de Quilmes.
39 Rede microtopónima do concelho de Montalegre: valor patrimonial e cultural Manuel Ramos Nas aldeias dos concelhos rurais, todos os espaços aldeãos são conhecidos por um nome, não havendo espaços vazios. Os milhares deles formam uma numerosa e intrincada rede microtopónima, que é a toponímia em pequena escala. Todavia, com a decadência da lavoura e o fim da pastorícia, que anima cada vez menos a paisagem, este património oral e imaterial, reconhecido pela UNESCO como «património cultural dos povos», corre perigo de extinção se não for recolhido e publicado. Conscientes disso, estamos a recolher a rede microtopónima do nosso concelho de Montalegre, recorrendo a uma metodologia de recolha eficaz: o recurso a informantes locais, cadastros de propriedades nas Finanças, cartas militares, Inquirições… Depois de recolhidos e publicados, poderão ser úteis para a história local nos campos da linguística, da história e arqueologia, da etnografia e antropologia; além da importância na educação dos jovens locais. São nomes de criação anónima, fruto da vivência das gentes, que provêm do passado, de geração em geração, e que são fecundos nos significados que transportam e, por conseguinte, de memória e história. São extraídos da orografia, cursos de água e fontes; da fauna, fauna extinta e flora; de antropónimos: primeiros povoadores e possuidores; de monumentos arqueológicos desaparecidos ou conservados: torres, antas, castros, fossos, fojos, fortificações; de povoamentos, assentamentos e reocupações, cemitérios, capelas, alminhas, cruzes e cruzeiros, fachos e atalaias; minas e mineração, solos, pedreiras e barro; montes, outeiros, vales, chãs, vias, vias-sacras, barrocas; crenças populares; práticas agrícolas, carvalhais e soutos… Com esta comunicação, propomo-nos apresentar a investigação produzida e resultados já conseguidos, especialmente no que concerne ao valor patrimonial e cultural dos microtopónimos: valor linguístico (significados deles, etimologias e registos antigos da língua, diminutivos); valor histórico e arqueológico (monumentos desaparecidos e conservados, ocupações antigas, assentamentos e povoamento, práticas agrícolas, povoadores); valor etnográfico e antropológico (crenças populares, relações íntimas entre comunidades e territórios). Palavras-chave: toponímia, microtoponímia, toponímia menor, concelho de Montalegre, rede de microtopónimos.
40 Redes de (des)intoxicação: masculinidades radicalizadas e resistentes na contemporaneidade portuguesa Ana Cunha Perante o crescimento do discurso público em torno da(s) crise(s) de masculinidade(s) este projeto propõe-se cartografar, problematizar e interconectar dimensões históricas, discursivas e socioculturais da construção da masculinidade contemporânea. Os objetivos articulam-se em quatro eixos – o primeiro dos quais passa por fazer uma revisão bibliográfica da história da masculinidade (Vigarello (2018), Corbin (2020), Courtine (2022), Karras (2002), Cascais (2025)) da evolução dos seus critérios e das suas crises, de forma a desnaturalizar o que é cultural, e des-eternizar o que é periódico e a des-excecionalizar o presente. Objetivamos mapear a rede de agentes sociais responsáveis pela disseminação de discursos masculinistas com potencial de radicalização no Youtube, tendo em conta a mediação exercida pelos algoritmos e pelo design estratégico das plataformas digitais, bem como o impacto dessa circulação no ecossistema discursivo do Twitter, à luz de investigações sobre estratégias linguísticas e semióticas de legitimação de propaganda, recruta de militantes e mobilização de terrorismo estocástico. Adicionalmente, pretendemos contrastar estas dinâmicas com a experiência quotidiana da masculinidade portuguesa, através de mesas redondas com voluntários cis-hetero brancos portugueses entre os 18 e os 60, e profissionais do setor social (médicos, psicólogos e agentes sociais). Finalmente, apresentaremos propostas de prevenção da radicalização e de fortalecimento de redes de solidariedade, através da divulgação de grupos e instituições que intervêm no território nacional, complementadas por recomendações da autora sobre gestão de redes sociais, práticas jornalísticas e intervenção social nas escolas e nas comunidades. Metodologicamente, o estudo adota uma abordagem mista, que conjuga revisão bibliográfica, construção e análise de corpus a partir do API do Twitter, sujeito a buscas de palavras-chave programadas em Python, implementando métodos das humanidades digitais, mas também análise crítica do discurso. O projeto prevê também a divulgação dos resultados em espaços externos à academia, de forma a descentralizar o conhecimento e devolver recursos à comunidade analisada no trabalho. Palavras-chave: masculinidades, redes sociais, estudos culturais. Referências: Cascais, A. (2025). Masculinidades debaixo de fogo: homossocialidade e homossexualidade na guerra colonial. Lisboa: Sistema Solar. Corbin, A. (ed.). (2020). História da Virilidade II: O Triunfo da Virilidade. O Século XIX. Lisboa: Orfeu Negro. Courtine, J. (ed.). (2022). História da Virilidade III: Virilidade em Crise? Séculos XX-XXI. Lisboa: Orfeu Negro. Karras, R. (2002). From boys to men: formations of masculinity in late medieval Europe. PA: University of Pennsylvania Press. Vigarello, G. (ed.). (2018). História da Virilidade I: A Invenção da Virilidade. Da Antiguidade às Luzes. Lisboa: Orfeu Negro.
47 Do jogo ao cinema: traduzindo Until Dawn entre mídias [EN] From game to the big screen: translating Until Dawn across media Raquel Souza, Thaís Barbedo Vigas Com base na definição clássica de Jakobson (1959/2000) de tradução intersemiótica como “an interpretation of verbal signs by means of signs of nonverbal sign systems” (pp.114), e considerando que estudos posteriores expandiram essa noção para além da transferência verbal/não verbal de modo a englobar configurações midiáticas mais complexas, este pôster aborda a adaptação fílmica como uma forma de tradução intersemiótica. Nesse sentido, Gottlieb (2005) destaca “the semiotic composition of source vs. target texts” e “the effect of non-verbal factors” como cruciais para as saídas tradutórias. Nesse contexto, este pôster analisa a transformação de Until Dawn (Supermassive Games, 2015), de um jogo eletrônico de terror interativo para sua adaptação cinematográfica de 2025. Embora ambos os textos compartilhem um arcabouço do gênero do terror, suas estratégias narrativas e mecanismos emocionais divergem consideravelmente. A metodologia organiza-se em dois eixos principais. O primeiro analisa a agência do espectador, comparando a interatividade e responsabilidade moral do jogador no jogo, mediadas pelo efeito borboleta, com a estrutura de inevitabilidade do filme, em que o público acompanha uma narrativa fixa num ciclo temporal e sem possibilidade de intervenção. O segundo eixo investiga as ferramentas de produção do medo, observando como cada mídia constrói o terror a partir de suas especificidades: a escolha e a responsabilidade moral do jogador versus a fatalidade e inevitabilidade da narrativa cinematográfica. Os resultados esperados indicam que a passagem do jogo ao cinema não se define pela fidelidade narrativa, mas pela tradução dos modos de participação do espectador, evidenciando como diferentes mídias reorganizam as relações entre narrativa, dispositivos semióticos e recepção do público. Essa abordagem contribui para o mapeamento entre linguagens e modos de experiência em contextos intermediais, mostrando que a tradução intersemiótica é um processo dinâmico de reequilíbrio semiótico que transforma tanto a construção narrativa quanto a experiência ética e emocional do espectador. Palavras-chave: terror, tradução intersemiótica, jogos eletrônicos, cinema. Referências: Jakobson, R. (2000). “On Linguistic Aspects of Translation”. In The translation studies reader. L. Venuti (ed.). Abingdon-on-Thames: Routledge. Gottlieb, H. (2005). “Multidimensional translation: Semantics turned semiotics”. In Challenges of multidimensional translation: Conference proceedings (MuTra 2005), H. Gerzymisch-Arbogast & S. Nauert (eds.). Pp.1-29. http://www.euroconferences.info/proceedings/2005_Proceedings/2005_Gottlieb_Henrik.pdf [EN] Following Jakobson’s (1959/2000) classic definition of intersemiotic translation as “an interpretation of verbal signs by means of signs of nonverbal sign systems,” and with scholars later expanding this notion beyond verbal/nonverbal transfer to account for more complex media configurations, this poster approaches film adaptation as a form of intersemiotic translation. In this regard, Gottlieb (2005) highlights “the semiotic composition of source vs. target texts” and “the effect of non-verbal factors” as decisive in shaping translation outcomes. In this sense, this poster examines the transformation of Until Dawn (Supermassive Games, 2015) from an interactive horror video game into its 2025 cinematic adaptation.
48 Although both texts share a horror framework, their narrative strategies and affective mechanisms diverge substantially. The methodology is organised around two main dimensions. The first examines the spectator’s agency, contrasting the player’s interactivity and moral responsibility in the game – mediated by the Butterfly Effect – with the film’s structure of inevitability, where the viewer follows a fixed time-loop narrative without the possibility of intervention. The second dimension investigates the tools for producing fear, exploring how each medium constructs horror through its own specificities: the player’s experience of choice and moral accountability versus the cinematic experience of fatality and inevitability. The expected findings suggest that the transformation from game into film is not defined by narrative fidelity, but by the translation of the spectator’s forms of participation. This process reveals how different media reorganise the relations between narrative, semiotic resources, and audience reception. Ultimately, the study contributes to mapping correspondences between languages and forms of experience in intermedial contexts, positioning intersemiotic translation as a dynamic process of semiotic rebalancing that transforms both narrative construction and the spectator’s ethical and emotional engagement. [EN] Keywords: horror, intersemiotic translation, game studies, film studies.
49 Fig.3 Póster “Do jogo ao cinema: traduzindo Until Dawn entre mídias”. Poster “From game to the big screen: translating Until Dawn across media”.
50 Documentação linguística no trabalho de campo: armazenar dados a longo prazo e para fins múltiplos Cecília Ortiz, Ari Gonçalves, Isabel Galhano Rodrigues A documentação linguística (DL), reconhecida como um domínio das ciências da linguagem (Gippert et al., 2006), consolidou-se com a intensificação dos esforços de registo de línguas em perigo de extinção. Ao definir critérios rigorosos para a catalogação dos dados primários, esta metodologia assenta numa ética que assegura a acessibilidade desses dados a investigadores de diferentes áreas disciplinares e a sua preservação e armazenamento a longo prazo (Himmelmann, 2006:5). Considerando a relevância da Documentação Linguística (DL), propomo-nos divulgar os seus princípios metodológicos através da descrição de um trabalho piloto, desenvolvido no âmbito do estágio curricular do curso de LCL da FLUP. Este trabalho baseou-se em gravações vídeo de narrativas de histórias de vida, produzidas em português moçambicano como segunda língua, recolhidas em 2013 no distrito do Alto Molocué e na Ilha de Moçambique, província da Zambézia. Estes registos foram transcritos de acordo com a versão básica do sistema de transcrição prosódica GAT 2 (Selting et al., 2009), com a ajuda do programa de fonética PRAAT (Boersma & Weenink, 2024), e anotados no programa ELAN (Sloetjes & Wittenburg, 2008) - considerando diversos níveis linguísticos, várias modalidades de comunicação e os principais temas tratados. Evidenciando a riqueza de informações que podem ser extraídas dos dados linguísticos – não apenas sobre o português como segunda língua, mas também sobre aspetos relevantes para áreas afins, como a Etnologia, a Antropologia e as Ciências Sociais – chamamos a atenção para a importância de preservar esses dados primários a longo prazo e de os disponibilizar também a investigadores com outros objetivos de investigação. Palavras-chave: documentação linguística, humanidades digitais, preservação de dados, patrimônio linguístico. Referências: Boersma, P., Weenink, D. (2024). Praat: Doing phonetics by computer (versão 6.4.30). https://www.fon.hum.uva.nl/praat/ Gippert, J., Himmelmann, N.P. Mosel, U. (2006). Essentials of Language Documentation. The Hague: Mouton de Gruyter. Himmelmann, N.P. (2006). Language documentation. What is it and what is it good for? In Essentials of Language Documentation. J. Gippert et al. (eds.). The Hague: Mouton de Gruyter. Pp.1-30. Selting, M., Auer, P., Barth-Weingarten, D., et al. (2009). Gesprächsanalytisches Transkriptionssystem 2 (GAT 2). Gesprächsforschung - Online-Zeitschrift zur verbalen Interaktion 10: 353-402. Sloetjes, H., Wittenburg, P. (2008). “Annotation by category - ELAN and ISO DCR”. In Proceedings of the 6th International Conference on Language Resources and Evaluation (LREC 2008). https://archive.mpi.nl/tla/elan
51 Fig.4 Póster “Documentação linguística no trabalho de campo: armazenar dados a longo prazo e para fins múltiplos”.
52 Esboço de uma problemática: o desafio da sociedade da informação Pedro Amaral «Informação» é uma palavra que entrou no nosso dia-a-dia e que é academicamente fértil, desde as ciências da informação propriamente ditas, à informática ou à economia. A sua definição é, portanto, um desafio, sendo que tomaremos inicialmente a sua proximidade à noção de «dado». A lei de Moore é bem conhecida: a cada dois anos, o número de transístores nos microchips duplica. Trata-se de um aumento exponencial da capacidade de processamento. Esse aumento permite que tanto o volume como o fluxo de informação tenham uma expansão enorme, com a passagem, por exemplo, de 2 zettabytes em 2010 para 181 zettabytes em 2025 em termos de informação gerada anualmente (1 zettabyte corresponde a 1 000 000 000 000 gigabytes). O presente póster explora as implicações desse fenómeno, principalmente no seu substrato epistemológico. Pretende-se perceber a categorização dessa informação, o seu acesso, a sua seleção, o seu tratamento, quer seja num âmbito lúdico ou didático. O que é a informação e como se pode falar na sua sustentabilidade são os pontos de partida e de chegada, respetivamente. Esta investigação não procura apresentar soluções, mas antes formular adequadamente a problemática. Justamente pelo domínio tão alargado da informação, é difícil conceptualizar de forma esquematizada as dimensões que estão em diálogo, as fronteiras daquilo que pretendemos solucionar. O estudo combina uma análise de práticas quotidianas, no espaço digital, mas também mundano onde a informação seja utilizada, com uma abordagem conceptual, de modo a extrair categorias filosóficas que permitam compreender a densidade conceptual e os desafios particulares da Sociedade da Informação. É desse esforço de extração de categorias transdisciplinares que se mapeia e formula a problemática do crescimento exponencial de informação. Espera-se mostrar, por exemplo, que a sustentabilidade da informação deve ser vista por um prisma epistemológico, além do técnico. Palavras-chave: sociedade da informação, sustentabilidade, técnica, informação.
53 Muito longo para consentir: análise dos gestores de consentimento e o peso oculto das políticas de privacidade na Europa Jonas Ferrigolo Melo Este póster apresenta resultados de um estudo de larga escala sobre gestores de consentimento na União Europeia, destacando a discrepância entre os princípios do RGPD e a experiência real do utilizador. Foram analisados 115 dos sites mais visitados em 20 Estados-Membros da UE, através de um guião de observação estruturado para avaliar o design, a localização e a funcionalidade dos gestores de consentimento. Os resultados revelam que 98% dos sites utilizam um gestor de consentimento, predominantemente em formato de janela pop-up (73%), bloqueando frequentemente o acesso até que seja tomada uma decisão (85%). No entanto, a transparência é muitas vezes comprometida por dark patterns, como definições ocultas (97%), botões de “aceitar” realçados por cor (51%) e caixas previamente assinaladas (7%). De forma igualmente problemática, 10,4% dos gestores de consentimento não permitem a rejeição integral de cookies, limitando a autonomia do utilizador. Uma barreira crítica ao consentimento informado encontra-se nas políticas de privacidade associadas. Embora 74% dos gestores incluam uma ligação para estes documentos, os textos são demasiado longos. O número de palavras varia entre 473 e 47.212, com uma média de 7.872 palavras. A uma velocidade média de leitura de adultos (238 palavras por minuto), a política mediana (5.210 palavras) exige 22 minutos de leitura, enquanto a mais longa requer mais de 3 horas de leitura contínua – dez vezes mais do que a Constituição dos EUA. O póster combina resultados analíticos com um componente instalativo: um rolo de papel exibindo o texto integral de uma das políticas de privacidade mais extensas. Esta dimensão material expõe o peso físico do consentimento digital, transformando um problema abstrato de usabilidade numa experiência tangível. Ao contrastar ideais regulatórios com práticas empíricas, o póster levanta uma questão fundamental: se o consentimento exige horas de leitura densa e complexa, pode ainda ser considerado “informado”? A instalação convida à reflexão sobre se os atuais modelos de consentimento protegem verdadeiramente os utilizadores ou se protegem, sobretudo, os modelos de negócio. Palavras-chave: ética digital, eticista digital, privacidade, consentimento informado, plataformas digitais.
54 Fig.5 Póster “Muito longo para consentir: análise dos gestores de consentimento e o peso oculto das políticas de privacidade na Europa”.
55 Observação sociológica sistemática da realidade contemporânea: interseções na produção do conhecimento científico Maria João Oliveira, Inês Barbosa, João Teixeira Lopes Com o objetivo de consolidar a dinâmica de análise e monitorização das recomposições sociais do Noroeste de Portugal, em particular em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável n.º 4, 5, 8, 10, 11, 12 e 17 da Agenda 2030 das Nações Unidas, e com a perspetiva da Sociologia Pública, particularmente empenhada em alargar o público da ciência e no debate esclarecido sobre as principais questões de políticas públicas, o Instituto de Sociologia está a instalar duas novas infraestruturas de observação sociológica da realidade contemporânea, que a seguir se descrevem. O Observatório Social do Noroeste visa aprofundar o conhecimento sobre as desigualdades socioeconómicas contemporâneas no noroeste português, com foco nas diferentes dimensões do problema e nas categorias sociais e territórios especialmente vulneráveis, a partir da análise de dados dos grandes inquéritos nacionais sobre as condições de vida, bem como pela recolha de dados primários, através de análise documental e estudos empíricos complementares, de natureza qualitativa. Pretende-se, em particular, contribuir para o debate científico sobre as dinâmicas de vulnerabilização social subjacentes à (re)produção das desigualdades e para a definição de políticas e práticas de desenvolvimento local e regional justas e sustentáveis. O Observatório da Arte e da Cultura no Ensino Superior, em parceria com a Reitoria da Universidade do Porto e o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, tem por missão fortalecer e dar visibilidade às práticas artísticas e culturais, afirmando a universidade como espaço vivo de criação e participação, através de um mapeamento sistemático, do diagnóstico e monitorização e da formulação de recomendações, contribuindo para um plano estratégico que promova o acesso democrático à cultura no contexto universitário. Em ambos os Observatórios, a produção de novos dados, a par de uma abordagem crítica e reflexiva, constituem o mote para a promoção da colaboração científica entre os diferentes grupos de investigação da Unidade, parceiros e outras partes interessadas. Palavras-chave: redes de investigação, métodos colaborativos.
56 Resumos workshops A participação é gratuita, mas sujeita a inscrição prévia até 2 dias antes de cada workshop. Formulário de inscrição disponível em https://coda.letras.up.pt/3encontroiflup/ 07.janeiro.2026, 11:00-12:00, online (sessão para quem tem pressa, mas quer iniciar-se no tema) 18.fevereiro.2026, 10:00-13:00, FLUP (sessão para quem já sabe um pouco do tema, mas quer começar a pôr as mãos na massa) É um Plano de Gestão de Dados e um café curto, por favor! Vera Moitinho de Almeida A gestão de dados de investigação constitui uma componente estratégica fundamental em qualquer projecto científico, assegurando a preservação, acessibilidade e integridade dos dados produzidos. A elaboração de um Plano de Gestão de Dados (PGD) representa, neste contexto, uma etapa essencial. Um PGD bem estruturado não só garante a conformidade com os princípios da ciência aberta e os requisitos estipulados pelas entidades financiadoras, como também promove a transparência e a replicabilidade dos resultados, pilares centrais para a validação do conhecimento científico. Além de cumprir exigências normativas e éticas, um planeamento cuidado da gestão de dados favorece a sua partilha e reutilização, potenciando sinergias interdisciplinares e contribuindo para a continuidade das linhas de investigação. Este processo permite, ainda, maximizar o impacto académico e social dos projectos, ao mesmo tempo que responde aos desafios legais e éticos associados ao tratamento de dados, nomeadamente em contextos que envolvam dados sensíveis ou pessoais. Este workshop consiste em duas sessões independentes. Na primeira sessão, breve e introdutória, serão apresentados e discutidos alguns conceitos-chave relacionados com a gestão de dados digitais de investigação, incluindo: ciclo de vida dos dados1, ciência aberta2,3, arquivos e repositórios de dados, princípios FAIR4 (Findable, Accessible, Interoperable, Reusable) e CARE5,6 (Collective Benefit, Authority to Control, Responsibility, Ethics), gestão dos outputs científicos, alocação de recursos, segurança dos dados, e questões legais e éticas associadas. A segunda sessão, que será um pouco mais longa, terá uma abordagem predominantemente prática, na qual os participantes serão convidados a trabalhar com os seus próprios projectos de investigação, dando início à elaboração dos respectivos Planos de Gestão de Dados. Para tal, serão utilizados modelos em acesso aberto, disponíveis online, que servirão de base orientadora ao processo. Palavras-chave: ciclo de vida de dados, ciência aberta, plano de gestão de dados, FAIR, CARE.
63 como parte integrante do método; Contribuir para uma análise coletiva do material produzido, através de partilha reflexiva. Palavras-chave: Twine, escrita ramificada, hackeamento metodológico, prática de investigação, feminismo pós-humano. Bibliografia recomendada: Aarseth, E.J. (1997). Cybertext: Perspectives on ergodic literature. John Hopkins University Press. Anthropy, A. (2012). Rise of the Videogame Zinesters. New York: Seven Stories Press. Anthropy, A. (2019). Make Your Own Twine Games! San Francisco: No Starch Press. Ensslin, A. (2014). Literary Gaming. Massachusetts, London: MIT Press. Hayles, N.K. (2001). “The transformation of narrative and the materiality of hypertext”. Narrative 9(1):21-39. Hayles, N.K. (2005) My mother was a computer - Digital subjects and literary texts. Chicago: The University of Chicago Press. Hazelett, D.J. (2025). “An open letter to graduate students and other procrastinators: it’s time to write”. Nature Biotechnology 43:447-450. https://www.nature.com/articles/s41587-025-02584-1 Montfort, N. (2011). Twisty Little Passages. Massachusetts, London: MIT Press. Murray, J. (1997) Hamlet on the Holodeck. Massachusetts, London: MIT Press. Rettberg, S., Saum-Pascual, A. (2020). “Electronic Literature [Frame]works for the Creative Digital Humanities”. Electronic Book Review. https://doi.org/10.7273/vyqe-dq93 Salter, A. (2016). "Playing at empathy: Representing and experiencing emotional growth through Twine games". In IEEE International Conference on Serious Games and Applications for Health (SeGAH), Orlando. Pp. 1-8. https://doi.org/10.1109/SeGAH.2016.7586272 Salter, A. (2017). “Code before Content? Brogrammer Culture in Games and Electronic Literature”. Hyperrhiz: New Media Cultures 17. https://doi.org/10.20415/hyp/017.e02 Salter, A., Moulthrop, S. (2021). Twining: Critical and Creative Approaches to Hypertext Narratives. Amherst: Amherst College Press. https://doi.org/10.3998/mpub.12255695 Skains, R.L. (2023). Neverending Stories: The Popular Emergence of Digital Fiction. London: Bloomsbury. N° máximo de participantes: 15 pessoas. Necessidade de levar computador portátil com acesso à Internet e com o programa Twine previamente instalado (http://twinery.org/).
64 11.fevereiro.2026, 14:00-18:00, FLUP Wikidata como recurso científico para dados patrimoniais e geolocalização André Barbosa, Carlos Silva, Luís Trigo, Vera Moitinho de Almeida A Wikidata1 é uma base de dados colaborativa e aberta, estruturada para fornecer informações a projetos da Wikimedia, como a Wikipédia, e para ser reutilizada noutros recursos científicos, computacionais e culturais. No contexto das Humanidades Digitais, a Wikidata destaca-se como uma ferramenta valiosa pela sua capacidade de organizar, relacionar e disponibilizar publicamente dados de forma flexível e acessível, seguindo os princípios FAIR2 e as melhores práticas de dados abertos ligados (Linked Open Data, LOD3). Este workshop visa capacitar os participantes a integrar a Wikidata como ferramenta de pesquisa e divulgação científica, promovendo o uso colaborativo e aberto de dados nas ciências humanas. Neste workshop, apresentamos (I) uma visão geral da Wikidata e da sua estrutura (45 min.), (II) exemplos que demonstrem as potencialidades da plataforma4 (15 min.), bem como (III) uma atividade prática para aprender a editar e a consultar esta base de conhecimentos livre (2,5 h). Esta componente prática será orientada por desafios reais, como o caso do património cultural do Porto. Embora existam mais de 400 itens na Wikidata relacionados com a cidade, as entradas estão pouco refinadas. Por exemplo, nenhuma das estátuas equestres está classificada como tal, e apenas 25 estão marcados como estátuas. Durante as sessões práticas, os participantes editarão e visualizarão em simultâneo os resultados da sua edição na plataforma, enriquecendo assim um conjunto de dados que poderá ser usado em proveito próprio e de toda a comunidade. Desde a sua conceção em 2012, a Wikidata tem crescido exponencialmente, tanto em termos de comunidade quanto de conteúdo. No final do workshop, os/as participantes estarão capacitados/as para integrar a comunidade, com formação na anotação e enriquecimento de dados, curadoria de metadados, modelação e reconhecimento de entidades nomeadas (Named Entity Recognition, NER)5. Incluímos ainda tópicos relacionados com a qualidade e integridade dos dados, assim como a cobertura linguística, demonstrando o potencial da Wikidata para o desenvolvimento das áreas das Humanidades e Ciências Sociais. Palavras-chave: ciência aberta, geolocalização, humanidades digitais, património cultural, Wikidata. Referências: 1 https://www.wikidata.org/wiki/ 2 Wilkinson, M.D. et al. (2016). “The FAIR Guiding Principles for scientific data management and stewardship”. Scientific data 3:160018. https://doi.org/10.1038/sdata.2016.18 3 Berners-Lee, T. (2006). “Linked Data. Design Issues”. W3C. http://www.w3.org/DesignIssues/LinkedData.html 4 https://www.ed.ac.uk/ 5 Zhao, F. (2023). “A systematic review of Wikidata in Digital Humanities projects”. Digital Scholarship in the Humanities 38(2): 852–874, https://doi.org/10.1093/llc/fqac083 Destinatários: investigadores com bases de dados, com noções elementares de bases de dados N° máximo de participantes: 15 pessoas. Necessidade de levar computador portátil com acesso à Internet (não será instalado nenhum programa para o workshop).
65 25.fevereiro.2026, 14:30-16:30, FLUP Eticista Digital: desafios éticos e práticas colaborativas para ecossistemas digitais responsáveis Jonas Ferrigolo Melo, Moisés Rockembach A crescente complexidade dos ecossistemas digitais, moldados por tecnologias emergentes como a inteligência artificial, algoritmos opacos e mineração de dados, impõe desafios éticos significativos para a infocomunicação e a sociedade contemporânea. Esta oficina propõe uma abordagem interativa e colaborativa, a partir de técnicas de codesign, para discorrer sobre o papel estratégico do eticista digital, uma figura emergente que atua na mediação entre tecnologia, ética e práticas infocomunicacionais responsáveis. A sessão, com duração de duas horas, será dividida em três blocos. No primeiro, será feita uma introdução teórica sobre os principais dilemas éticos no ambiente digital e a conceitualização do eticista digital com a participação de especialistas no tema. O segundo bloco propõe uma dinâmica em grupos para analisar dilemas éticos reais (viés algorítmico, privacidade, autonomia, discriminação, exclusão social e outros). Os participantes terão que responder “Quais implicações éticas este cenário revela e que soluções poderiam ser adotadas para mitigar esse dilema?” e, a partir disso, propor soluções éticas colaborativas. O terceiro bloco será dedicado à partilha dos resultados e à construção colectiva de um quadro das implicações éticas contemporâneas e possíveis soluções. Nesta etapa novos desafios éticos surpresa serão demandados dos participantes. O objetivo é fomentar o pensamento crítico e reforçar a importância de práticas tecnológicas éticas. Os resultados esperados incluem a criação, ao vivo, de um “Quadro colaborativo de implicações éticas contemporâneas” que contribuirá para a construção de uma base conceptual e prática para a formação de futuros profissionais, investigadores e cidadãos capazes de intervir criticamente na sociedade digital. Palavras-chave: ética digital, eticista digital, co-design, ecossistemas digitais, plataformas digitais.
66 Fig.8 Workshop “Eticista Digital: desafios éticos e práticas colaborativas para ecossistemas digitais responsáveis”.