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A construção do ethos na carta de suicídio do ex presidente Getúlio Vargas

Novais, Rosana Aparecida Bueno

Abstract

A proposta deste artigo é analisar a construção do ethos na carta de suicídio do ex-presidente Getúlio Vargas, as marcas linguísticas do sujeito, as condições de produção em que se desenvolve a ação discursiva que justifique a ação do presidente e a construção de sua imagem como líder e mártir. Propõe-se ainda, verificar o implícito conotado pelo enunciado, e a junção entre o mesmo e o enunciador. Versão publicada na Revista Processando o Saber:https://www.fatecpg.edu.br/revista/index.php/ps/article/view/91

Full text

Processando o Saber nº 5, 2013 93 NOVAIS, Rosana Aparecida Bueno, Mestra* * Faculdade de Tecnologia da Zona Leste Av. Águia de Haia, 2983, Cidade A.E.Carvalho, São Paulo – SP, CEP:03694-000 Fone: 11 2045-4000 [email protected] RESUMO A proposta deste artigo é analisar a construção do ethos na carta de suicídio do ex-presidente Getúlio Vargas, as marcas linguísticas do sujeito, as condições de produção em que se desenvolve a ação conotado pelo enunciado, e a junção entre o mesmo e o enunciador. : Ethos, condições de produção, enunciado, sujeito. ABSTRACT The purpose of this article is to analyze the building of Ethos in the Suicide letter of former President Getúlio Vargas, the linguistics traces of the subject , the production conditions which develop the discussion action that justify the President’s action and the building of his image as leader and martir. Proposing still, to check the conceal showed by the statement and the joined between himself and the announcer. KEY-WORDS Ethos, production conditions, context, subject. https://doi.org/10.5281/zenodo.15566063 Processando o Saber nº 5, 2013 94 INTRODUÇÃO Os estudos voltados para a investigação da subjetividade da linguagem dedicam-se à pesquisa dos procedimentos linguísticos por meio dos quais os locutores imprimem sua marca no enunciado, se inscrevem na mensagem, implícita ou explicitamente, e se situam frente a ela. A pesquisa está embasada nas teorias da análise do discurso, em especial no que se refere à enunciação e ao ethos. Consideraremos as contribuições de Maingueneau, Amossy, Eggs, e as características do discurso político de Charaudeau (2006). A proposta desse trabalho é analisar a construção de ethos na carta de suicídio do ex-presidente Getúlio Vargas, observar as marcas linguísticas que indiquem modos de instituição de um lugar discursivo entre o mesmo e o enunciador. Logo, ao analisarmos o ethos da retórica de Vargas, observamos a importância atribuída ao papel dos sujeitos, a sua reconhecimento. construção de uma imagem de si no discurso não implica que o locutor tenha que fazer seu auto-retrato, detalhando suas qualidades. Contudo seu estilo, suas competências linguísticas, suas crenças irão construir uma representação de sua pessoa, logo o locutor efetua em seu discurso a imagem correta para que possa causar impacto e por sua vez adesão. Assim, privilegiando o emprego do enunciado em situação e a força da palavra, as diferentes correntes da Análise do Discurso persuadir (AMOSSY, 2005). Aristóteles defendia a construção do discurso ou da Processando o Saber nº 5, 2013 95 argumentação fundamentada em três pilares: o logos, o pathos e o ethos. O logos diz respeito à argumentação racional propriamente dita; o pathos ao envolvimento e ao convencimento do interlocutor; e o ethos indica o aspecto ético ou moral que o enunciador deixa perceber em três as virtudes que quem fala deve demonstrar para que alcance seus objetivos; ou seja, convencer a audiência de sua honestidade. Segundo e conselhos são sábios, razoáveis e conscientes, (b) se são sinceros, honestos e equânimes e (c) se mostram solidariedade, obsequidade e amabilidade para com seus ouvintes”. Então, persuade-se pelo ethos quando se demonstra: serenidade e racionalidade, sinceridade e honestidade, e amabilidade. Aristóletes imagem agradável de si ( eunóia). Para cada auditório é usado um tipo de ethos. Conforme Eggs (2005), Phrónesis, a competência, o ar de quem Portanto, está relacionado ao logos, pois é mais racional acreditar em quem demonstra capacidade e sabedoria. Assim sendo, um orador que demonstre phrònesis persuadirá mais rápido, pois demonstrará além de conhecimento, honestidade e sinceridade. que se mostra pelas escolhas deliberadas” (EGGS, 2005). Honestidade e desbocado” (FIORIN, 2001). Um orador com tais características diz o ligado à ética, ao comportamento moral do orador. EGGS, 2005), simpático, que não agride (FIORIN, 2001). É a amabilidade e a boa disposição para entender e ajudar o outro. Esse último item dispensa maiores explicações, já que se parte daquilo desejado pelo auditório, se lhe é simpático, não há, por assim dizer, convencimento por parte do orador. Processando o Saber nº 5, 2013 96 Para Aristóteles, dentre os três pilares: logos, pathos e ethos, - o ethos é praticamente o mais importante. Além, desse sentido moral, o á idade e à classe social do locutor, na medida em que os temas e os estilos escolhidos devem ser de acordo com o tipo social do orador. Segundo Eggs (2005), a noção de ethos destaca duas dimensões, moral e estratégica. A 1ª apresenta a noção da honestidade e a 2ª fala de hábitos e costumes, de acordo com Aristóteles é a junção desses dois aspectos que permite convencer pelo discurso. Eggs (2005) refere-se ao ethos através do termo grego orador que mostra em seu discurso um caráter honesto parecerá mais clássica, Maingueneau (2004) adverte sobre o fato de que ethos está ligado à enunciação e não a um saber extra-discursivo em relação ao enunciador e, ainda, sobre esse fato remete a Barthes (1966, p.212): São os traços de caráter que o orador deve mostrar ao auditório (pouco importando sua sinceridade) para causar boa impressão. [...] O orador enuncia uma informação e, ao mesmo tempo, ele diz : eu sou isto, eu sou aquilo. Dando sequência Maingueneau em seu desdobramento teórico a respeito de ethos: O texto não é para ser contemplado, ele é enunciação voltada para um coenunciador que é necessário mobilizar para sentido. O poder da persuasão de um discurso decorre em boa medida do fato de um corpo investido de valores MAINGUENEAU, 2004, p.73). Nesse sentido e na linha do pensamento de Maingueneau (1989) aderir ao co-enunciador, propiciando, contrariamente, sua adesão ao logos apresentado. Portanto, com frequência somos tentados a recorrer a essa noção de ethos, pois ela dimensiona todo ato da enunciação. Processando o Saber nº 5, 2013 97 Auchin (2001, p.93) apresenta suas considerações sobre a noção de ethos: A noção de ethos é uma noção com interesse essencialmente prático, e não um conceito teórico claro (...) Em nossa prática ordinária da fala, o ethos responde a questões empíricas efetivas, que têm como particularidade serem mais ou menos co-extensivas ao nosso próprio ser, relativas a uma zona íntima e pouco explorada de nossa relação com a linguagem, onde nossa é tal que se acionam estratégias de proteção. da imagem do enunciador via discurso, todas elas, necessariamente, partindo do pressuposto da existência de um outro a ser convencido, caracteres e mobilizando-lhe as emoções. Sempre visando à convicção. Assim, o ethos é apresentado na junção do texto e do discurso, pois ele tem que ser demonstrado e não dito. Logo, é muito mais digno comportamento, do que por simples declarações verbais. 1) Persuadir x Convencer: Há uma distinção entre persuadir e convencer. Perelman e segundo plano, pois ele é o primeiro passo em direção a ação. Persuadir, logo, é fazer (demonstrar), enquanto convencer é fazer crer. Assim, alguém pode ser chantageado, e por isso persuadida a fazer algo que não concorde que é diferente do convencimento. Alguém é convencido que está sobrepeso, mas nem por isso é persuadido a fazer atividades físicas. Segundo os autores, uma argumentação é dita persuasiva quando visa a todo ser racional. Processando o Saber nº 5, 2013 98 2) Auditório universal e auditório particular: Para que uma argumentação se desenvolva, é preciso, de fato, que aqueles a quem ela se destina lhe prestem alguma atenção (PERELAMAN e TYTECA, 1996). Apesar de nosso estudo ser uma carta suicida esta ato de tomar a palavra indica a construção de uma imagem de si”. Entende-se que a construção da imagem de si, portanto do ethos, se origina das expectativas de quem fala em relação a seu auditório, mas também do comportamento demonstrado perante a audiência. adaptar-se a um auditório particular, o orador correrá o risco de usar argumentos pertinentes diante dele, mas seriam inadequados diante de tantos outros. Dessa forma, como os argumentos que se adaptam a um número maior de auditórios são mais valorizados, o orador deve buscar o acordo do auditório universal, ou seja, a concordância de todos aqueles que, conhecem a motivação e a racionalidade dos argumentos, e que não se recusarão a aderir a tais ideias. Assim, Perelman e Tyteca (1999, p. 91) falam: Uma argumentação dirigida a um auditório universal deve convencer o leitor do caráter coercivo das razões fornecidas, de sua evidência, de sua validade intemporal e absoluta, independente das contingências locais ou históricas. do expectador com o discurso apresentado, com aquilo que parece lógico ao auditório (ainda que não seja verdadeiro). Porém, devemos De acordo com o corpus a ser analisado neste trabalho, Processando o Saber nº 5, 2013 99 afirmamos que sua eficácia assenta justamente na capacidade do autor de colocar-se no lugar de seu interlocutor, tentar advinhar-lhe as expectativas e correspondê-las, mesmo estando morto. Quanto a isto, cabe o papel principal para determinar a qualidade da argumentação e o comportamento dos oradores.” Por estar no lugar de seu interlocutor, é (a) parecer. Essa imagem será decisiva para o sucesso ou fracasso na convicção (ou persuasão). O orador/autor imagina o que seu interlocutor espera ver, ou que imagem o seu interlocutor quer que ele tenha, tais considerações leva a concepção de que maneira ele próprio, orador/ autor, vê de si mesmo. Getúlio Dornelles Vargas (19/04/1882 a 24/08/1954) foi o presidente que mais tempo governou o Brasil, durante dois mandatos. De origem gaúcha (nasceu na cidade de São Borja), Vargas foi presidente do Brasil entre os anos de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954. Em 1937, fechou o Congresso e implantou uma ditadura que foi chamada de Estado Novo. No período ditatorial – que coincidiu em parte com os regimes de Hitler, Mussolini, Franco e Salazar –, deu continuidade à estruturação de um Estado nacionalista e intervencionista. Getúlio Vargas adotou o populismo como uma das características do seu e discursos populares, principalmente no Dia do Trabalho (1º de maio). Não respeitou a liberdade de expressão e a democracia no país. Usou a propaganda para divulgar suas ações de governo. Em agosto de 1954, Vargas suicidou-se no Palácio do Catete com um tiro no peito. Deixou uma carta testamento com uma frase hoje o suicídio de Vargas gera polêmicas. O que sabemos é que seus últimos dias de governo foram marcados por forte pressão política por Processando o Saber nº 5, 2013 100 parte da imprensa e dos militares. A situação econômica do país não era positiva, o que gerava muito descontentamento entre a população. claro que a subjetividade é um traço determinante. As impressões do de Getúlio Vargas é endereçada à População, que é conhecedora de seu ethos, ele busca o reconhecimento, por parte deles. O que se vê é um enunciador que, num tom confessional, desagradáveis à conduta do sistema governamental. Ele é um enunciador que assume tudo suportar em silêncio, as agressões constantes, incessantes, renunciando-se para defender o povo, dando o seu próprio sangue, oferecendo sua vida como holocausto para que o É, contudo, um cidadão diferenciado, pois alcançou a funciona entre uma verdade do dizer e uma verdade do fazer: uma verdade da ação que se manifesta através de uma palavra de decisão, e uma verdade da discussão que se manifesta através de uma palavra de persuasão (razão) ou sedução (paixão). Para Charaudeau, o discurso político funciona na conjunção de discursos de ideias e discursos de poder (verdade e possibilidade), pensamento e ação. Assim, o discurso político teria tendência a se orientar do logos em direção ao ethos e ao pathos (conteúdo e encenação). Ainda neste mesmo pensamento, a persuasão de sedução (A mentira na cena Pública): todo político sabe que lhe é impossível dizer tudo, a todo o momento, e dizer as coisas exatamente como ele as pensa ou concebe, pois suas palavras não devem atrapalhar sua ação (CHARAUDEAU, 2006, p.104-105). Processando o Saber nº 5, 2013 101 No corpus analisado podemos observar claramente o que diz Charaudeau (2006, p.110): Trata-se de uma crença em uma nova relação entre as instâncias política e cidadã, na qual a máscara é assumida como tal: nova relação entre o político (fundamento das idealidades) e a política (prática de ajustamento às idealidades), onde a ética política seja baseada em um ethos de exemplaridade, na relação de e eleitores. Getúlio Vargas precisava corporar-se como um elemento constitutivo da história que o projetou. Centrou-se no ethos já constituído do presidente como um cidadão digno e honesto, já que ao longo dos anos, construiu sua imagem sob os alicerces da honestidade, retidão de princípios, o pai dos pobres e, assim, projetou uma imagem muito sólida sobre si. Presencia-se a demonstração de seu caráter, o de homem simples e honesto (areté), como explicado anteriormente. Assim, ressalta Tringali: Não basta, ao orador cuidar da própria imagem durante o discurso, apresentar-se ora humilde, ora austero, ora tranquilo, ora autoritário... O que realmente conta é a imagem do orador que deriva de toda sua vida moral. Há uma ligação profunda entre a vida e o discurso honrada, o discurso não persuade (TRINGALI, 1988, p.76).