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Pensar é supérfluo? Reflexão sobre a recente instrumentalização tecnicista no currículo da formação tecnológica

Andrade, Marcelo Pereira

Abstract

Versão publicada na Revista Processando o Saber:https://www.fatecpg.edu.br/revista/index.php/ps/article/view/101

Full text

Processando o Saber nº 4, 2012 116 RESENHA INFORMATIVA INSTRUMENTALIZAÇÃO TECNICISTA NO CURRÍCULO DA FORMAÇÃO TECNOLÓGICA ANDRADE, Marcelo Pereira de, Mestre* *Faculdade de Tecnologia de Praia Grande – Centro Paula Souza Pça. 19 de Janeiro, 144, Boqueirão, Praia Grande / SP, CEP: 11700-100 Fone (13) 3591-1303 marcelopere[email protected]om.br Em um mundo instrumental, todas as coisas perdem seu sentido verdadeiro e tudo se transforma numa visão particular das coisas. No mundo das trocas de mercadorias, da economia de mercado, todos tentam vender e convencer os compradores potenciais da necessidade de se obter a mercadoria em questão. Instrumentalização é o que entendemos como um fenômeno moderno que se tornou a marca de nossa civilização técnica, isto é, a conversão instantânea das habilidades do pensamento racional em meios de produção, em ferramentas orientadas para executar tarefas administrativas pré-condicionadas na elaboração dos projetos da transformação da natureza em cultura. Não há a verdade, há a utilidade! O mundo se torna um subproduto do pensamento esquemático e isto em todos os níveis: industriais e acadêmicos. Há regras de como fazer uma tese para ser aprovada por uma comissão técnica e há especialistas em fazer tese, o que não implica que produzam conhecimento verdadeiro, mas sim, mercadorias acadêmicas. Nesse universo da produtividade, em todos os âmbitos da vida, o pensamento crítico é uma mercadoria rara e difícil de vender. https://doi.org/10.5281/zenodo.15566878 Processando o Saber nº 4, 2012 117 A sentido perdem espaço! Pode parecer mesmo uma coisa absurda para muita gente, que alguém tenha que se esforçar para “vender” a respondemos: mas esse é o mundo das trocas, não há outra forma de operação senão a do mercado! Coisa de desocupados para muitos. Tudo se passa como se no mercado das mais diversas mercadorias, algumas ocupassem um funcionalidades técnicas, essas sim produtivas, pois fazem acontecer, para nada se aproveitam...! Sejamos francos, é o que na verdade muitos técnicos e tecnocratas pensam. determinada Fatec, ouviu de um diretor o seguinte comentário a respeito : “Olha, você está na roça! O não tem o que fazer aqui numa faculdade de tecnologia..., você não tem espaço aqui. A tendência é que você perca o emprego aqui...!” Um colega sociólogo, também professor da Fatec, no interior do Estado, me confessou que após ter conversado com seu diretor, a respeito da de um dos cursos da unidade, ouviu o seguinte comentário: “Bem, é verdade que não existe nenhuma disciplina que aborde esse ponto de vista da formação, e de fato, talvez, agora com a reforma do currículo seria interessante..., mesmo porque soa como uma terapia para alguns alunos do tipo meio “malucão”, dados a essas questões sem soluções!” Sem comentários. essas observações, não podemos deixar de falar, eis a verdade dos fatos. de cursos tecnológicos, tais disciplinas cumprem um papel paliativo, se não medicinal e seriam um refúgio para mentes atordoadas ou ao menos “estranhas”. Que essas opiniões pedagógicas vigoram no meio tecnológico das Fatecs, bem sabemos que não é novidade. A bem da verdade, a Fatec Processando o Saber nº 4, 2012 118 uma formação prática e funcional - produtiva a toda prova e que atenda é técnico e direcionado ao mercado e aos seus investidores. Com isso, o contemplando o investidor e o cidadão em busca de empregos e oportunidades. Que isso seja, absolutamente, justo e pertinente não se questiona. Em uma sociedade que precisa crescer e ser competitiva em um mundo de mercado globalizado, esse esforço dirigido à formação tecnológica é correto e urgente. Porém, promover a assertiva, de que a formação do indivíduo pela Fatec deva se pautar no que é “realmente importante” e apenas tolerar alguns componentes curriculares por mero capricho pedagógico, e autoritária que bem conhecemos pelo nome de “Tecnicismo”. Seria a retomada, a revanche ou, simplesmente, o recrudescimento do que na verdade nunca padeceu a formação para atender a demanda por trabalhadores semiespecializados num determinado momento histórico da industrialização brasileira. Com a , que dá início a uma nova etapa do capitalismo mundial, decretando na Europa e nos Estados Vieram as transnacionais e com elas a formação de um grande mercado brasileira tardia, um modelo de formação foi eleito por estar de acordo com o momento histórico. O tecnicismo surgiu a partir do período áureo do capitalismo total. A produção em larga escala da indústria moderna exigia homens bem treinados para os exercícios de funções produtivas. Nesse período, o produtivismo passa a ser o único foco em educação. Educar se torna: educar para a produção industrial. Tudo o mais que não se enquadra isto é, deve ceder lugar ao prático. Esse pragmatismo produtivista está de acordo com as necessidades emergenciais - está em pleno acordo com a realidade histórica de um país que assiste a uma mudança política Processando o Saber nº 4, 2012 119 de extrema direita – motivadas pelo golpe militar de 1964. A formação cultural do Brasil sempre foi pobre, mas ela se assumiu medíocre como se não podendo ter pretensões maiores que não “Para nós, um país atrasado, certas coisas são perfumarias, caprichos inúteis, para nós o que realmente importa é o fazer técnico, não podemos economicamente, industrialmente”. Não se sabe de onde os responsáveis pela formação concluem que a formação técnica deve ser tão redutora. total? Seria a necessidade pungente de desenvolvimento rápido, sem que se perca tempo com as lapidações da personalidade formada? no Brasil, nunca possuíram formação pedagógica. São técnicos por excelência. Muitos dos diretores e coordenadores dos cursos de – empregados da indústria. Eles assimilaram a escala de valores, a hierarquia da empresa capitalista moderna, os planos, mapas, esquemas empresas e sua funcionalidade total. Em determinado momento, muitos podemos colher certo pensamento que surge como uma piada nos meios escolares, “Eu trabalho na indústria e a noite dou aulas...”. Esses engenheiros e técnicos que assumem a formação profissional no país, nada conhecem de formação pedagógica. A bem da verdade, a maioria caçoa do papel da Pedagogia no ensino ciência séria, produtiva, pois não acreditam em nada que não apresente de administração empresarial. Discordar dela é perigoso, criticar esse modelo é arriscado. Ocorre que formação não corresponde a resultados funcionais, os mesmos da linha de montagem. Daí, podemos concluir que esses Processando o Saber nº 4, 2012 120 sobre o fazer, logo disparam: “Quem faz não pensa” e “Quem pensa não faz”. O tecnicismo é uma prática de formação desenvolvida XIX e início do século XX. Sua matriz ideológica nos remete aos ensaios e experimentos de Burrhus F. Skinner e Watson, psicólogos que desenvolveram a corrente empírica da psicologia que estuda o comportamento, daí o nome da corrente ser Behaviorismo do inglês (behavior = comportamento). O educador Demerval Saviani (2011), um dos maiores nomes em educação no Brasil e no mundo, resume tecnicista advogou a reordenação do processo educativo de maneira a torná-lo objetivo e operacional. De modo semelhante ao que ocorreu no trabalho fabril, pretendeu-se a objetivação do trabalho pedagógico. de modo a dotá-la de uma organização racional capaz de minimizar as pedagogia tradicional a iniciativa cabia ao professor e se na pedagogia nova a iniciativa deslocou-se para o aluno, na pedagogia tecnicista o elemento principal passou a ser a organização racional dos meios, ocupando o professor e o aluno posição secundária. A organização sua intervenção (SAVIANI, 2011, p.155). Nas palavras do próprio Skinner (1952 apud MYERS, 1999, Segundo Skinner “a boa instrução exige duas coisas: os alunos devem ser informados no mesmo instante se é certo ou errado o que fazem e, quando certos, devem ser orientados para o passo seguinte” (SCHULTZ & SCHULTZ, 1992, p.251). Ocorre que a formação não se dá por dados quantitativos, por Processando o Saber nº 4, 2012 121 que está sempre inacabado. Há problemas, dados, que não se resolvem por dados técnicos com precisão milimétrica. Talvez seja por isso que a habilidade de pensar foi dispensada pelos senhores da indústria e pelos senhores que se encarregaram de formar pessoas para o mundo do trabalho. Porque pensar exige tempo e sua produtividade não segue a lógica do capital e a lógica do mercado, mas ocorre a longo prazo e por toda uma vida. A atual retomada do tecnicismo no interior da formação técnica e tecnológica é parte de um retrocesso educacional perigoso. REFERÊNCIAS MYERS, David. Introdução à Psicologia Geral. Rio de Janeiro, LTC, 1999. SAVIANI, D. História da Educação. São Paulo, Cortez. 2011. SCHULTZ D.P., SCHULTZ S.E, História da Psicologia Moderna. Cultrix, São Paulo, 1992.