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14 fruticultura AGROTEC 55 | 3º trimestre 2025 CAPACITAÇÃO INTERNACIONAL DO LAQV-REQUIMTE E UNIVERSIDADE DO PORTO PARA DETEÇÃO E CONTROLO DA ESTENFILIOSE E FOGO BACTERIANO DA PEREIRA Nuno Mariz-Ponte1,2, Laura Regalado1,2, Sara Mendes1,2, Ana C. Sousa1,2, Ricardo Fernandes-Santos1,2, Rafael Ferreira1,2, Lara Amorim1,2, Fernando Tavares1, Conceição Santos1,2 1Departamento de Biologia, Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, Rua do campo Alegre s/n, c.p. 4169-007, Porto, Portugal 2LAQV-REQUIMTE, Departamento de Biologia, Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, Rua do campo Alegre s/n, c.p. 4169-007, Porto, Portugal MAIORES DESAFIOS FITOSSANITÁRIOS NA FILEIRA DA PEREIRA EM PORTUGAL Em Portugal, a produção de pera (Pyrus communis L.) é largamente representada por uma produção tendencialmente monovarietal, na qual a variedade ‘Rocha’ é o ex-libris da produção nacional. Esta vertente monovarietal (‘Rocha’), aliada com uma fruta de excelência proporcionada pelas caraterísticas locais, nomeadamente na região do Oeste, faz com que este seja um dos frutos mais exportados em Portugal (AGROTEC, 2024) e um dos mais consumidos (7,8 Kg/ano per capita) segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE - 2023/2024). Portugal é o 5.° maior produtor de pera na Europa, fazendo com que a produção deste fruto tenha um papel preponderante na economia nacional e socioeconómico. No entanto, as alarmantes reduções de colheita devido, sobretudo, a problemas fitossanitários (Forbes, 2024) estão a causar grandes constrangimentos no setor. Dados do INE mostraram que, entre 2022 e 2024, a área de produção de pera diminiu (10845 ha, em 2022, para 10230 ha, em 2024), e a produção reduziu de 132283 t em 2022 para 125223 t em 2024 (INE-Estatísticas Agrícolas 2024). Embora as causas sejam complexas e multifatoriais, as alterações climáticas e as doenças, como o fogo bacteriano e a estenfiliose, estarão entre as principais razões para quebras de produção. O fogo bacteriano da pereira, causado pela bactéria Erwinia amylovora, tem sido um dos maiores desafios que os produtores enfrentam nas últimas décadas, devido ao efeito fugaz e devastador da doença, provocando a morte parcial ou total de pereiras, num curto período de tempo (Figura 1A). A doença foi reportada pela primeira vez em Portugal em 2006, contudo, posteriormente surgiram novos focos, constando regularmente nos avisos fitossanitários da DRAP e criando um crescente desafio para os produtores de pera e maçã. Igualmente, a estenfiliose tem afetado dramaticamente a produção de pera em Portugal, doença esta causada pelo fungo Stemphylium vesicarium (Figura 1B). Detetada em Portugal desde 1996, e sendo a variedade ‘Rocha’ muito suscetível a esta doença, especialmente na última década, esta tem causado elevados prejuízos na cadeia de valor da pera ‘Rocha’, em alguns casos com perdas anuais de 25% da produção (Pimentel, 2021). O LAQV-Requimte da Universidade do Porto dispõe de uma coleção de 117 isolados de E. amylovora e algumas dezenas de isolados de S. vesicarium que estão a ser caraterizados relativamente à epidemiologia, virulência e resistência a vários compostos. Atualmente, ambas as doenças constituem o principal foco de preocupação fitossanitário para os produtores de pera. Cumulativamente a isto, adensa-se a FIGURE 1 – A) Pereira parcialmente afetada pelo fogo bacteriano, demonstrando os sintomas nos ramos e folhas secas, com perda da fruta em produção. B) Sintoma da mancha castanha da pera, estenfiliose, causando perdas na produção. Fotografias registadas em 2025 na região do Oeste (Autor: Rafael Ferreira).
15 fruticultura preocupação relativamente à escassez e às respetivas limitações de tratamentos preventivos e curativos para lidar com estes desafios. As restrições à aplicação de diversos fitoquímicos, de acordo com o enquadramento legal da União Europeia (ex.: Regulamento (CE) 1107/2009), têm reduzido as opções para tratamento destas doenças. Desta forma, um dos maiores desafios que urge no controlo fitossanitário destas patologias incide no desenvolvimento de novas estratégias que contribuam para o controlo preventivo das mesmas. « O fogo bacteriano da pereira, causado pela bactéria Erwinia amylovora, tem sido um dos maiores desafios que os produtores enfrentam nas últimas décadas, devido ao efeito fugaz e devastador da doença » BIOMEHEALTH, UMA PLATAFORMA DE INOVAÇÃO EM DETEÇÃO E CONTROLO DE DOENÇAS O projeto BIOMEHEALTH surge com o objetivo de fomentar a cooperação internacional para a capacitação e desenvolvimento de um centro de excelência para a deteção e controlo de doenças em plantas, como o fogo bacteriano e a estenfiliose da pereira (https://www. biomehealthproject.eu/). Este projeto nasce da necessidade premente de responder aos desafios fitossanitários da cultura de pera, aliando-se à experiência prévia do iB2Lab (LAQV-REQUIMTE, localizado na FCUP) no estudo do fogo bacteriano. Para além do LAQV- -REQUIMTE, o consórcio é formado por investigadores da Universidade de Wageningen (WUR) especialistas no desenvolvimento de novos métodos de deteção de fitopatógenos, e uma equipa da Universidade de Bolonha (UNIBO) especialista no controlo de doenças em plantas,, em particular, na caracterização de microbiomas, identificação e aplicação de novos agentes de biocontrolo. O pilar central deste projeto reside na relevância destes três países na produção de pera, figurando Itália na primeira, os Países Baixos na segunda e Portugal na quinta posição do ranking dos maiores produtores de pera na Europa. O projeto assenta na necessidade de (1) se detetar, precocemente, patógenos nas comunidades de microorganismos do hospedeiro e nas matrizes envolventes (solo e ar) (Figura 2); e (2) isolar os patógenos e microrganismos benéficos que sejam antagonistas desses patógenos (Figura 2). O projeto acumula experiência prévia na temática com a sinergia colaborativa e formativa para capacitar o LAQV-REQUIMTE/UP e responder a problemas fitossanitários, saúde das plantas/culturas e segurança alimentar. A WUR liderará o processo de desenvolvimento de novas metodologias de deteção de fitopatogénicos baseadas em abordagens moleculares e imunológicas. Por fim, a UNIBO desvendará novas estratégias de biocontrolo para prevenção e tratamento de doenças em diferentes cenários climáticos, atendendo aos desafios ambientais em consequência das alterações climáticas. Este projeto prevê uma aproximação da academia aos produtores, promotores e líderes do setor, bem como autoridades nacionais para o controlo fitossanitário, proteção das plantas e produção agroalimentar, para colaborar e partilhar conhecimento na resposta aos desafios desta fileira (Figura 3). «O projeto BIOMEHEALTH surge com o objetivo de fomentar a cooperação internacional para a capacitação e desenvolvimento de um centro de excelência para a deteção e controlo de doenças em plantas, como o fogo bacteriano e a estenfiliose da pereira » DESAFIO DA DETEÇÃO PRECOCE, RÁPIDA E IN LOCO – APRENDER COM A EXPERIÊNCIA DE WAGENINGEN A possibilidade de deteção preventiva em material vegetal não sintomático ou deteção precoce das primeiras manifestações de doença nos pomares é importante para reduzir, drasticamente, perdas de produção por doença. A prevenção da doença e predição dos agentes patogénicos é crucial para a tomada de decisão e aplicação de medidas fitossanitárias proporcionais e direcionadas, podendo ser estas culturais,químicas ou biológicas. Assim, requerem-se meios eficazes e próximos dos produtores para a monitorização dos pomares e redução das perdas de produção. Neste sentido, o projeto prevê desenvolver metodologias de base molecular e imunológicas para deteção rápida e eficaz em pomares. Recentemente, a equipa da WUR, liderada FIGURA 2 - Conceitos e importância das comunidades microbianas (positiva e negativa) num pomar e algumas das técnicas de deteção que serão usadas no BIOMEHEALTH.
16 AGROTEC 55 | 3º trimestre 2025 pelo Professor Bart Fraaije, desenvolveu uma metodologia LAMP (amplificação isotérmica mediada por circularização) para deteção específica de estirpes de S. vesicarium que causam doença em pereiras (artigo em preparação). Novas abordagens irão ser exploradas, como a TaqMan-PCR (técnica de PCR em tempo real que utiliza sondas fluorescentes para detetar e quantificar o ADN amplificado de organismos alvos), Next Generation Sequencing (sequenciação massiva de Ácidos Desoxirribonucleicos, ADN), para identificar quais as técnicas mais eficientes na deteção precoce da incidência destes patógenos nas várias matrizes do pomar. Pelo seu valor preventivo, estudar-se-á, com particular interesse, a presença dos patógenos no ar/aerobiomas em pomares de Portugal (estes perfis serão comparados com outros recolhidos em pomares dos Países Baixos e Itália). Estes perfis poderão indicar diferentes níveis de presença, por exemplo, de possíveis esporos de S. vesicarium como desvios na estrutura microbiana dos aerossóis, podendo ser indicadores fidedignos para o desenvolvimento da doença. Esses dados, associados com registos meteorológicos, serão processados e computadorizados em análises de deep learning para refinar modelos de previsão de incidência destas doenças em cada um dos casos de estudo (Itália, Países Baixos e Portugal). A LAQV-REQUIMTE/UP estará a colaborar no desenvolvimento destas metodologias e apostará também no desenvolvimento de novos métodos imunológicos para deteção, particularmente de E. amylovora. CONTROLO BIOLÓGICO E PROTEÇÃO DAS CULTURAS, UMA VIA SUSTENTÁVEL PARA A PRODUÇÃO – APRENDER COM A EXPERIÊNCIA DE BOLONHA As equipas da LAQV-REQUIMTE/ UP e UNIBO contam com uma vasta experiência na identificação e nos ensaios com agentes de biocontrolo para diferentes doenças e culturas. Neste projeto, lideram a pesquisa e o desenvolvimento de novas ferramentas de biocontrolo para proteção das pereiras contra estas doenças. Pretende-se aplicar uma abordagem baseada no conhecimento dos fitomicrobiomas nativos dos pomares das diferentes regiões em estudo e a sua evolução ao longo do tempo, com e sem associação destes patógenos e sintomas de doença. O estudo e seleção de candidatos a agentes de biocontrolo baseados na estabilidade da cultura e ambiente (clima) de diferentes locais, associados ao potencial antagonista e supressor do organismo patogénico na filosfera, será determinante para a seriação destes agentes. Numa perspetiva de constituir comunidades sintéticas estáveis e adequadas para manter as habilidades de biocontrolo em ambientes extremos, a funcionalidade desses agentes será testada em mesocosmos, de acordo com a previsão climática, particularmente para o Sul da Europa. A identificação de produtos biológicos com efetividade no controlo, adaptabilidade no ciclo de uma cultura e resistência a ambientes adversos tem sido uma das maiores preocupações no desenvolvimento deste tipo de soluções. Neste projeto, numa abordagem holística entre o holobioma, o ambiente e o patógeno, serão desenvolvidas novas possibilidades de biocontrolo, combinando o ultraprocessamento de dados por IA para geração de potenciais comunidades sintéticas de agentes de biocontrolo para cada ambiente/clima regional. Estas soluções poderão responder ao enorme desafio que os produtores enfrentam no controlo destas doenças e na substituição de meios de luta que têm sido retirados do mercado devido à insustentabilidade da utilização destes no conceito One Health. « Recentemente, a equipa da WUR, liderada pelo Professor Bart Fraaije, desenvolveu uma metodologia LAMP (amplificação isotérmica mediada por circularização) para deteção específica de estirpes de S. vesicarium que causam doença em pereiras (artigo em preparação) » BIBLIOGRAFIA AGROTEC, (2024). Pera Rocha é um dos frutos mais exportados de Portugal e representa 85M€ todos os anos. Fonte: https://www. agrotec.pt/noticias/pera-rocha-e-um-dos- -frutos-mais-exportados-de-portugal- -e-representa-85m-todos-os-anos/ INE, Instituto Nacional de Estatística, (Acedido em 8 de agosto de 2025). https://www.ine. pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_in dicadores&indOcorrCod=0000163&c ontexto=bd&selTab=tab2&xlang=pt Forbes Portugal, (2024). Pera rocha com segunda pior colheita dos últimos dez anos. Fonte: https://www.forbespt. com/pera-rocha-com-segunda-pior- -colheita-dos-ultimos-dez-anos/ Mendes, R. J., Regalado, L., Rezzonico, F., Tavares, F., e Santos, C., (2024). Deciphering fire blight: from Erwinia amylovora ecology to genomics and sustainable control. Horticulturae, 10(11), 1178. Pimentel, D., (2021). Brown spot of pear. InnovPlantProtect, pp. 1-17. 10 de novembro de 2021 AGRADECIMENTOS Os autores agradecem à União Europeia e ao programa HORIZON pelo financiamento deste projeto (BIOMEHEALTH, Grant ID: 101159978). FIGURA 3 – Website do BIOMEHEALTH (https://www.biomehealthproject.eu/) que terá atualizadas as novidades mais importantes para os stakeholders e investigadores na deteção e controlo de S. vesicarium e de E. amylovora.