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Para ler o manifesto

Andrade, Marcelo Pereira

Abstract

Versão publicada na Revista Processando o Saber:https://www.fatecpg.edu.br/revista/index.php/ps/article/view/116

Full text

Processando o Saber nº 2, 2010 113 RESENHA INFORMATIVA PARA LER O MANIFESTO ANDRADE, Marcelo Pereira de, Mestre* * Faculdade de Tecnologia de Praia Grande Departamento de Informática para Gestão de Negócios Pça. 19 de Janeiro, 144, Boqueirão, Praia Grande / SP, CEP: 11700-100 Fone (13) 3591-1303 marcelopea[email protected]om Vez ou outra o Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels pode ou deve ser relido pelos que se interessam pela história das idéias. O Manifesto é de 1848 e de lá pra cá muita coisa mudou ou em essência está para ser mudado. Isto porque embora houvesse inúmeras releituras da história pelo prisma do Manifesto, o certo é que a maioria desses leitores o consideram hoje, uma espécie de almanaque infanto-juvenil. É a miséria da contra o seu crítico. Da mesma forma que Marx viu nas esdrúxulas sociedade moderna enfrentaria, hoje, são esses leitores como sua calma irritadiça quem dá o troco ao autor do Manifesto atrelando-a a fábula ou sistema morto. Todos os que lêem Marx hoje, o fazem ou com complacência em sua disposição intelectual, de homens de bom coração, capazes de conclamarem toda uma classe ao crime, ao atentado a propriedade pertencem mais a esse mundo real! Não se pode pensar a burguesia da forma como ele pensou, nem muito menos a questão da propriedade https://doi.org/10.5281/zenodo.15587852 Processando o Saber nº 2, 2010 114 parou de crescer, de que as forças produtivas estão girando em falso e que isso provocara o retrocesso da atividade racional sobre a natureza, eis aí, a principal tese do Manifesto. Esta constatação marxiana pode ser estendida a análise da cultura contemporânea. Somos, ou melhor, nos convertemos numa sociedade de especialistas de todo o tipo. Até mesmo as faculdades, os centros acadêmicos de produção do saber atende a especialização que por sua vez atende aos ditames do sistema econômico. A sociedade ocidental vê na construção do saber, o domínio sobre a natureza e sobre as esferas da organização social. O hábito de crer nas instituições é um hábito está legalizado desde a fundação da república. O modelo de vida está apto a atender a s exigências do modelo econômico assumido. A escola, a universidade é a principal alavanca para esta adaptação. A bem da verdade as forças produtivas são as convenientes para atender o bem-estar social, propriamente dito. Não nos tornamos especialistas para uma sociedade melhor e sim para a manutenção de um status quo de sociedade do consumo dirigido ou, para atender ao stablishment político lado da ciência deverá avançar e que setor da sociedade ditará o modo de econômico. As classes sociais que podem dirigir o modelo econômico de certo saber em detrimento de outro. A cultura da especialização criou até mesmo no saber universitário, a categoria do tecnólogo como um ser mais especializado que o bacharel em ciências aplicadas. Trata-se de uma ilusão acreditar que o mundo pode ser melhor, somente porque a tecnologia avança, porque esse não é o objetivo da técnica. Na vida hoje, todos seguem o modelo de aprendizagem instantânea, ou aprendizagem seguindo uma orientação mercadológica, matricula-se num curso de inglês, mas apenas porque o idioma é a chave para oportunidades de emprego. O hábito de consumir é a aprovação que se espera dos membros do clube. Uma vida em função do mercado, como se o mercado fosse tudo. Aliás, essa é uma tese muito aceita nos centros e rodinhas de conversas de negócios e administração de Processando o Saber nº 2, 2010 115 de fato olham para as obras que inspiraram a mudança histórica, como olhos comiserados de pena, como para obra morta. Estão satisfeitos com a realidade e sua complexidade teórica, como sua complicação esquemática e altamente cerebrina. Desfrutam do universo da múltipla de teses e saberes, inclusive, pra historiadores e amantes de uma época de sonhadores ingênuos, porem, sinceros. Do outro lado, estão os sensíveis intelectuais que lêem o manifesto de forma emocionada. Com afeto e saudosismo e devoção lamentam não terem nascido á época em que o Comunismo se difundia como causa profícua, tradução da dor da classe explorada, dos vencidos e injustiçados. Sede de vingança, de justiça social, ódio ao burguês. São os devotos de Marx e de sua causa, mas não sabem ao certo se o Nunca souberam diferenciar muito bem o desejo de justiça da dialética. Talvez seja por isso que com eles seja difícil, quase impossível dialogar do Manifesto e sua essência revolucionária. Mesmo com todos os argumentos que lhe são apresentados de que a história acabou, isto é, se desenvolveu para além do capital, para além do próprio Marx. Estes analistas entendem que as forças produtivas estão congeladas desde 1848 e de que é exatamente a manutenção da burguesia na direção do mundo o que nos faz tão atrasados em nossa marcha histórica. Mas, mesmo em meio a tanto desenvolvimento alguém pode falar de entrave das forças produtivas? Aqui está uma pista decisiva da divisão abissal entre duas formas radicalmente distintas de encarar a vida humana na face da Terra. Sim estamos a atrasados, temos perdido o trem da história a cada vez que ele passa pela estação. O desenvolvimento das forças produtivas cessou há muito em nosso mundo. Não é possível explicar os problemas por outra fórmula, mas é muito arriscado fazerse entender dessa forma por um homem moderno ou como desejam, do Manifesto que separa radicalmente comunistas e burgueses, mas o sentido histórico que é sua essência. Do ponto de vista a que se pela lente do materialismo dialético. A constatação de que a sociedade Processando o Saber nº 2, 2010 116 mesmo, contra as expectativas duradouras do sistema que não permite graus de interferências maiores que os negócios inesperados. Quando nos convidando a olhar a história como sistema, e não o contrario, a invenção histórica da burguesia como inventores da História. A história como sistema e capítulos, e não o sistema (capítulo) como História. Daí a possibilidade de dar um nome a uma classe econômica, os burgueses, a burguesia, como atores que representam um pensamento, uma prática, um sistema de troca, de produção, de acúmulo de riquezas e de inventores de novas relações de produção e trabalho: Por burguesia compreende-se a classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção social, que empregam o trabalho assalariado. Por proletariado compreende-se a classe dos trabalhadores assalariados modernos que, privados de meios de produção próprios, se vêem obrigados a vender sua força de trabalho para poder existir. (Nota de Engels à edição inglesa de 1888) a história como sistema, exatamente como pensa os senhores defensores e entusiastas mergulhados no mundo do sistema tecnológico. Para que serve um conceito? Para melhorar a visão, como uma lente de aumento que tem o poder de focalizar com mais agudez o objeto que se quer compreender. Em informática não é diferente, cria-se uma linguagem substituto do objeto que se quer referir. A história como sistema então pode nos permitir entender os valores que norteiam cada esfera presente em nossos dias e dar a elas um valor, uma referência histórica. Os economistas e os administradores de empresas elegem seus inimigos e combatem o que compromete capitalistas não admitem falha no sistema do lucro, nem que para isso it’s the game . Isso é em relação à crítica que desmascarou o funcionamento do sistema capitalista. Em sua obra, O Capital é o Processando o Saber nº 2, 2010 117 fato, o interesse de reconstruir antigos ou inventar novos hábitos está sujeito não à vontade prévia dos sujeitos empreendedores do novo, mas a lógica de mercado. Nenhuma idéia pode vir a ser útil ou funcional, se não for antes testada pelo mercado. Valores caíram em desuso porque foi decretado pelo mercado das especializações. Novas idéias devem Voltando ao Manifesto, ele tinha em seus objetivos mais bem em si mesmo. Talvez, para ler o Manifesto Comunista hoje devemos em primeiro lugar questionar se em tudo o que acreditamos realmente há o que precisamos. Quando o assunto é transformação da natureza e de vida em sociedade, o que vem primeiro? A técnica ou a vida? Passamos a acreditar na técnica e nunca mais questionamos sua verdade. 1 O MOVIMENTO HISTÓRICO A história é o centro de toda visão de mundo que não tem o mercado como centro. Mas, a história. Essa visão talvez seja tão estranha que parece coisa de intelectuais e professores universitários, defensores da chamada visão humanista do mundo. Os sábios da tecnologia torcem o nariz ou até ouvem com paciência as digressões dos pensadores, mas não acreditam nela, ou não acham nela nada de prático, no sentido real do mundo. Por isso, é muito difícil quebrar a barreira que separa o homem hegemonia dos possíveis. O possível é somente o que está no mercado, na ciência e no mundo do trabalho. Por conseqüências a política ou a Olhar o cotidiano com os olhos da história, requer um crescimento, um alargamento intelectual não desejado pelos praticantes da ciência e da tecnologia hoje. Por isso, é um diálogo de surdos. Marx, (e somente de se falar o nome desse pensador, há quem já pense, lá vem o papo de que não tem o que fazer), ensina que a visão ampla que a história possibilita é inimiga do momento, companheiro da alienação e do niilismo moderno. A história destrói o instante e a impressão que ele causa de ser eterno, imutável. A história é contra o cotidiano e o Processando o Saber nº 2, 2010 118 saber em relação ao mercado ou a sociedade. O padrão de normalidade social é medido por modelos distintos de versão da História, da ciência de nosso meio em que vigora as regras capitalistas acha normal o mercado, o ganho, o lucro, já um pensamento crítico da realidade tende a fazer uma leitura histórica da realidade, demonstrando que nem sempre foi assim. ler o mundo não encontra incentivo nem respaldo na cultura homogênea do capital. É um tipo de visão rara hoje, no meio em que predomina o discurso unilateral, focado na técnica e nos avanços da tecnologia. 2 QUAL A ATUALIDADE DO MANIFESTO? O Manifesto é atual? Há quem diga que não. Que é discurso da idéia de lucro reinam praticamente sem oposição e, nosso universo Manifesto Comunista parece coisa de doutrina morta? É o que diz a normalidade pragmática e voltada exclusivamente para os assuntos tecnológicos no meio das FATECS, por exemplo. Aliás, os futuros tecnólogos são céticos it’s real A ausência de uma perspectiva que deslocasse os sujeitos para fora de seu campo limitado de ação social faz com que uma única perspectiva resulte: a do mundo concreto do cotidiano da reprodução do capital, das ações em busca de oportunidade para sobreviver na sociedade urbana e suas estruturas de poder intactas, bem em meio ao sistema total do capital. A cultura capitalista é única, portanto, a A leitura do Manifesto, portanto, soa estranha para esses jovens e futuros tecnólogos. Mas, se ainda fossem obrigados a ler, em uma disciplina como Sociedade, Informática e Ética, pragmaticamente Processando o Saber nº 2, 2010 119 sistema que se torna alvo do pensamento econômico e é explicado pela primeira vez em sua integridade. Marx sabe que o sistema de ganho e e depois mundial. Sabia que os capitalistas modernos teriam tudo a seu capital. Daí os dizeres da introdução: Um fantasma ronda a Europa - o fantasma do comunismo. Todas as potências da velha Europa unem-se numa Santa Aliança para conjurá-lo: o papa e o czar, Metternich e Guizot, os radicais da França e os policiais da Alemanha. Que partido de oposição não foi acusado de comunista por seus adversários no poder? Que partido de oposição, por sua vez, não lançou a seus adversários de direita ou de esquerda a alcunha infamante de comunista? Duas conclusões decorrem desses fatos: 1ª) O comunismo já é reconhecido como força por todas as potências da Europa. 2ª) É tempo de os comunistas exporem, à face do mundo inteiro, seu modo de ver, seus partido à lenda do espectro do comunismo. Os capitalistas, com a leitura de O Capital surpreenderam-se diante da capacidade intelectiva de seus adversários. O sistema, visto de forma histórica, materialista e dialética poderia comprometer os avanços incomensuráveis da burguesia e do poder do capital hoje consolidado. Por isso a única estratégia da burguesia foi decretar o sistema total. Este feito foi decisivo para localizar os inimigos, comunistas principalmente, já que, de início, o próprio fascismo serviu para defender a burguesia européia na época da grande crise do sistema. Todo sistema é radical em sua essência. Não há sistema que funcione na base da contradição lógica. O banimento das idéias contrárias ao capitalismo foi decisivo para a formação de um universo cultural que fosse compatível com as idéias de defesa do mercado e da ideologia da liberdade que ele representou para a formação de gerações e gerações de norte-americanos, por exemplo. Criou-se a polarização: sistema do bem versus sistema do mal. Trata-se de uma guerra entre formas de ver o mundo e mais ainda, de ver a própria História. A polarização da História entre o sistema capitalista e o Processando o Saber nº 2, 2010 120 valendo, nota bimestral, que leitura resultaria possível? Ora, a única admissível é aquela que reinventaria o sujeito histórico que esses uma existência histórica consciente é tão distante do horizonte desses jovens, não por culpa deles, a sensação é de que ela jamais tenha existido em seus pensamentos. Se pudermos deslocar esse leitor para fora do cotidiano da tecnologia, tal qual ela é vista e defendida em nosso meio, quem sabe haveria meios de fundar uma nova perspectiva de sistema social. O Manifesto conclama a revolução proletária, a uma sociedade mais justa, isso faz rir a esses sujeitos não-históricos de hoje, ao menos em sua maioria. A cultura burguesa conseguiu transformar os líderes em messias transviados em paranóicos da sociedade pata todos. Ou em sábios de idéias empoeiradas. Basta saber se o Manifesto passou, ou se passamos do ponto da história. A História já foi importante para ensinar a ver o mundo como um todo, integrando passado, presente e futuro, hoje, a história tem é tão estranhamente normal. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. O Manifesto do Partido Comunista Rio de Janeiro: Global, 1977.