Valorização da formação da cultura empreendedora dentro da universidade: estudo de caso: UFSC
Abstract
O presente artigo estuda a valorização da formação da cultura empreendedora na UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina. O objetivo foi buscar respostas que pudessem esclarecer qual o estado da arte no ensino do empreendedorismo em instituições de ensino superior no Brasil. Versão publicada na Revista Processando o Saber:https://www.fatecpg.edu.br/revista/index.php/ps/article/view/122
Full text
Processando o Saber, nº 1, 2003 66 VALORIZAÇÃO DA FORMAÇÃO DA CULTURA EMPREENDEDORA DENTRO DA UNIVERSIDADE: ESTUDO DE CASO: UFSC. N.C.D. Silva, Mestre* A.Colenci Jr, Dr ** * Faculdade de Tecnologia da Baixada Santista – Campus Praia Grande - Departamento de Informática Gestão de Negócios Pça. 19 de Janeiro 144, - 11700-100 – Praia Grande/SP Fone (13) 3591-1303 [email protected] ** Centro Estadual de Educação Tecnológica “Paula Souza” – Departamento: Vice Superintendência – Praça Coronel Fernado Prestes, 74 – Bom Retiro – São Paulo CEP 01124-060 – São Paulo/SP – Fone (11) 3327-3005 [email protected] RESUMO O presente artigo estuda, a valorização da formação da cultura empreendedora na UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina. O objetivo foi buscar respostas que pudessem esclarecer qual o estado da arte no ensino do empreendedorismo em instituições de ensino superior no Brasil. PALAVRAS-CHAVE: Empreendedorismo, Formação e Universidade. ABSTRACT The present article studies the valorization of the formation of the building culture at UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina. The objective was to search for answers that could clear out the state of the art in teaching business growth in institutions of graduate studies in Brazil. KEY-WORDS: Business growth, formation, university DOI: https://10.5281/zenodo.14188240
Processando o Saber , nº 1, 2003 67 INTRODUÇÃO Acredita-se hoje que o empreendedor seja “o motor da economia”, um agente de mudanças. Indivíduo que cria uma empresa, qualquer que seja ela; pessoa que compra uma empresa e introduz inovações assumindo riscos, gerando riquezas, empregos e bem estar. Esses conceitos foram primeiramente introduzidos pelos Economistas. Schumpeter (1961), comenta que “a essência do empreendedorismo está na inovação que recai na percepção e exploração de novas oportunidades no campo de negócios”. Dentro de um cenário de grandes transformações econômicas, políticas e tecnológicas e, conseqüentemente, do mercado de trabalho, vem-se consolidando no Brasil a necessidade de empreender. No contexto de um ambiente caracterizado por constante e acelerado movimento, coloca-se, claramente, um desafio relativo à qualificação das pessoas para atuarem de forma efetiva na sociedade, como agentes de mudanças e como parceiros na criação de novas possibilidades. Na última década, fomos testemunhas da evolução de cursos e programas sobre empreendedorismo em todos os níveis do sistema educacional de quase todo o país, este fenômeno dentro das instituições de ensino superior pode ser explicado por diferentes razões mas decorre, sobretudo, da necessidade de preparar melhor os alunos, oferecendo para eles uma alternativa diferente daquela alternativa de sair do curso e arrumar um emprego. Neste contexto faz-se necessário estudar os procedimentos utilizados para a valorização da formação da cultura empreendedora no sistema educativo, buscando elementos para a resposta aos seguintes questionamentos: Quais fatores levam o ser humano a ser mais ou menos empreendedores e a ser mais ou menos criativos, correr riscos, identificar oportunidades....? Há necessidade da formação de empreendedores para o desenvolvimento econômico do país? É fundamental para a geração e fortalecimento de novas empresas no País? Estas indagações foram o ponto de partida para uma busca às respostas que pudessem esclarecer qual o estado da arte no ensino do empreendedorismo em instituições de ensino superior no Brasil. Este trabalho tem como objetivo analisar os procedimentos que valorizam a formação da cultura empreendedora dentro da Universidade Federal de Santa Catarina.
Processando o Saber, nº 1, 2003 68 A importância do desenvolvimento deste estudo reside, principalmente, no benefício que esses procedimentos poderão trazer para outras universidades interessadas em desenvolver a cultura empreendedora nos seus alunos, contribuindo dessa forma, para o desenvolvimento econômico e social do país. Histórico e Conceituação do Empreendedorismo O empreendedorismo nasceu na década de 60 com as pesquisas realizadas por David McClelland, psicólogo da Universidade de Harvard. McClelland identificou nos empresários bem sucedidos da época um elemento psicológico crítico denominado por ele de “motivação da realização”, desenvolvendo então um treinamento cuja finalidade era melhorar tal elemento e torná-lo aplicável em situações empresariais. Segundo (David, Bringhenti, Gauthier e Mayer, 2000) é pertinente fazer-se uma referência ao industrial e economista francês Jean-Baptiste Say (17671832), autor da Lei dos Mercados ou Lei de Say, cujo conceito de equilíbrio econômico constitui-se a base da teoria econômica neoclássica. Professor do Collége de France, Say elaborou uma teoria das funções do empresário, cunhando o termo entrepreneur, ou empreendedor, conferindo-lhe especial importância no crescimento da economia. Outro nome de destaque é o do economista Joseph Alois Schumpeter (1883-1950) que estabeleceu os conceitos de destruição criadora e empresário empreendedor, diferenciando, assim, os conceitos de empresário empreendedor. Schumpeter colocou o empresário empreendedor como o agente básico do processo de destruição criadora: é ele que desafia o mercado e, no limite, possibilita a ruptura de paradigmas até então dominantes. Schumpeter foi um dos precursores da teoria do desenvolvimento capitalista, destacando-se, em especial, no estudo dos ciclos econômicos elaborando, nesse sentido, uma importante categorização quanto à dinâmica de crescimento do capitalismo, enfocando-o sob um prisma de processo evolutivo em oposição à concepção de economia clássica e dos seus conceitos de concorrência perfeita e de equilíbrio. Esta categorização denominada de destruição criadora fundamenta-se no princípio de que reside no desenvolvimento de novos métodos de produção, novos bens de consumo, novos mercados, novos setores de transporte, novas formas de
Processando o Saber , nº 1, 2003 69 organização, dentre outras alternativas que perturbam e rompem com o equilíbrio existente. O agente básico deste processo de destruição criadora reside na figura que Schumpeter denominou de empresário empreendedor, que desafia o status quo reinante no mercado e, no limite, possibilita a ruptura de paradigmas até então predominantes, cujo comportamento típico é ressaltado por Drucker (1996): “ O empreendedor vê a mudança como norma e como sendo sadia. Geralmente, ele não provoca a mudança por si mesmo. Mas, se isto define o empreendedor e o empreendimento, o empreendedor sempre está buscando a mudança, reage a ela, e a explora como sendo uma oportunidade.” Drucker (1996) retrata de forma bastante precisa o conceito de empreendedor elaborado por Say, ao atribuir-lhe o papel de transferir recursos econômicos de um setor de produtividade mais elevada e de maior rendimento, propiciando, desse modo, uma maior eficiência e eficácia à economia. Embora o empreendedorismo não seja uma atividade recente – Kirchhoff (1988), inclusive destaca que a palavra francesa “entrepreneur” ainda na metade do século XIX passa a ser utilizada para identificar o gerenteproprietário de um novo empreendimento empresarial, é a partir dos anos 80, sob uma concepção mais moderna, que o mesmo ganha importância e parte de governos de países como Itália, França, Inglaterra e Estados Unidos. Tomando-se o exemplo norte americano, onde este fenômeno indubitavelmente tem seu berço, a década de 80 é considerada como a década dos empreendedores, ou ainda, dá início a uma nova era – a empreendedora – como demonstra a seguinte passagem extraída de um entre os diversos livros que vêm sendo publicados acerca do tema:
Processando o Saber, nº 1, 2003 70 “Esta é a era empreendedora. Empreendedores estão dirigindo uma revolução que está transformando e renovando economias no mundo todo. O empreendedorismo é a essência da livre empresa pois o nascimento de novos negócios dá à economia de mercado sua vitalidade. Novos e emergentes negócios criam uma vasta proporção de produtos inovativos que transformam o modo como trabalhamos e vivemos, como por exemplo, computadores pessoais, softwares, drogas biotecnológicas e entrega de correspondência “ overnight” . Eles geram a maioria dos novos empregos. De acordo com algumas estimativas mil novos negócios nascem a cada hora trabalhada nos Estados Unidos. Durante os anos 80, firmas pequenas e em crescimento geraram mais que 20 milhões de novos trabalhos na economia americana, enquanto que as grandes firmas destruíram 4 milhões” (BYGRAVE,1994). De acordo com Fillion (1991;1999), “o empreendedor é alguém que imagina, desenvolve e realiza suas visões”. A visão é uma idéia ou um conjunto de idéias e objetivos (imagens) que se quer atingir no futuro. Ele apresenta três categorias de visão: as emergentes (primária), as centrais e as complementares. As visões emergentes resultam de idéias acerca de produtos e/ou serviços imaginados pelo empreendedor antes do início de um novo negócio. Neste estágio, o empreendedor tem apenas uma imagem pouco nítida do formato final que terá seu empreendimento. Ele normalmente se “inspira” com um insight súbito sobre alguma característica do produto, que o torna especial ao atender a alguma necessidade de mercado, sem saber ainda se a idéia é economicamente viável ou onde encontrar os recursos para financiá-la. A visão central resulta de uma única visão emergente ou da combinação de várias visões emergentes. A esta altura, o empreendedor já passou tempo suficiente preparando um plano de negócios ou mesmo realizando a sua visão para que conheça alguns dos fatores de custo, mercado potencial, forças, fraquezas, oportunidades e ameaças envolvidas. Neste estágio, a idéia evoluiu até tornar-se um escopo claro de atuação. A capacidade de produção ou de prestação de serviço foi estabelecida, as fontes de apoio
Processando o Saber , nº 1, 2003 71 financeiro foram negociadas e os protótipos e operações de pré-lançamento já foram testados e aprovados. As visões complementares estão relacionadas com aspectos gerenciais do novo negócio, dando suporte à visão central. Estes “refinamentos operacionais” podem incluir melhorias de logística, inovações do tipo learnby-doing, melhorias de produto, segmentação de mercado e ajustes da estrutura da empresa para o desempenho ótimo. Fazendo-se uma analogia entre a conceituação e a universidade em que se verificou o estudo, pretendeu-se buscar os ponto fracos e fortes dos procedimentos utilizados para a valorização da formação da cultura empreendedora conforme descritos abaixo: O CASO UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA Caracterização A Universidade Federal de Santa Catarina1 foi criada em 1960, com a união das faculdades de Direito, Medicina, Farmácia, Odontologia, Filosofia, Ciências Econômicas, Serviço Social e Escola de Engenharia Industrial então existentes em Florianópolis. Tinha 800 alunos. Cresceu, expandiu-se e chega aos seus 40 anos oferecendo 41 cursos de graduação e 40 programas de pós-graduação que juntos, atendem mais de 24 mil alunos. Atualmente, a UFSC possui 1639 professores sendo 928 doutores, 505 mestres, 116 especialistas e 90 graduados. A UFSC possui 11 unidades abrangendo várias áreas de conhecimento e dentre essas unidades está o CTC - Centro Tecnológico que é composto por 9 departamentos, sendo: Arquitetura e Urbanismo, Automação e Sistemas, Engenharia Civil, Engenharia de Produção e Sistemas, Engenharia Elétrica, Engenharia Mecânica, Engenharia Química e Engenharia de Alimentos, Engenharia Sanitária e Ambiental, Informática e de Estatística. O Centro Tecnológico atualmente é a maior unidade da UFSC e abrange os cursos da área tecnológica tais como: Arquitetura e Urbanismo, Ciências da Computação, Engenharia Civil, Engenharia de Alimentos, Engenharia de Controle e Automação Industrial, Engenharia de Materiais, Engenharia de Produção, Engenharia Elétrica, Engenharia Mecânica, Engenharia Química,
Processando o Saber, nº 1, 2003 72 Engenharia Sanitária-Ambiental e Sistemas de Informação. Realiza 10 programas em nível de pós-graduação sendo eles: Ciência da Computação, Ciência e Engenharia de Materiais, Engenharia Ambiental, Engenharia Civil, Engenharia de Alimentos, Engenharia de Produção, Engenharia Elétrica, Engenharia Mecânica, Engenharia Química, Metrologia Científica e Industrial. Realiza ainda 07 programas em nível de doutorado. Possui 354 professores, 4500 alunos de graduação, 2500 alunos de pós-graduação, 8 empresas juniores e 100 laboratórios. O Centro Tecnológico nasceu como Escola de Engenharia Industrial (EEI) na década de 60. Para atender à demanda do mercado de trabalho e garantir a sintonia com a dinâmica da área, ao longo dos anos vem crescendo e diversificando seus campos de atuação. Empreendedorismo na UFSC Segundo o diretor do CTC - Centro Tecnológico, a questão do empreendedorismo dentro da UFSC não é algo novo, ele vem sendo tratado de várias maneiras: através de parcerias com o Governo do Estado, através de incubadoras de empresas e através da ENE - Escola de Novos Empreendedores. De acordo com análise de documentação existente, a Universidade Federal de Santa Catarina criou, em maio de 1992, um programa denominado ENE - Escola de Novos Empreendedores, vinculado à Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação. O programa tem como missão promover ações de intercâmbio com a sociedade que resultem na criação, desenvolvimento e consolidação de uma cultura empreendedora, através da promoção da capacitação gerencial e comportamental e do estímulo à geração de novos empreendimentos. A ENE tem a preocupação de reciclar e qualificar profissionais para atuarem, de forma competitiva, no novo milênio e, para isto, estabeleceu parceria com o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e SINE-SC desenvolvendo o projeto “Empreender” que resultou em cursos que possibilitam identificar, avaliar e planejar a criação de um negócio próprio para 2200 alunos em curso e recém formados. Em parceria com a FAMPESC ( Federação das Associações de Micro e Pequenas Empresas de Santa Catarina) e o FAT, a ENE desenvolveu o
Processando o Saber , nº 1, 2003 73 Programa de Capacitação Empresarial para Micro e Pequenas Empresas, oferecendo o curso “Administrando Pequenos Negócios” para 1900 empreendedores do Estado de Santa Catarina em 1998. Juntamente com o Sebrae/SP e o Fórum Permanente das Relações Universitárias Empresas - Instituto UNIEMP, a ENE, desenvolveu o material didático-pedagógico “Formação de Jovens Empreendedores” que está sendo utilizado por 40 instituições no Estado de São Paulo e propiciando o treinamento de novos empreendedores de escolas de segundo grau, universidades técnicas e universidades particulares. Em Santa Catarina, a ENE desenvolve parceria com o SEBRAE/SC com o propósito de identificar os fatores de fracasso e sucesso das pequenas e médias empresas. Como resultado, foram analisadas 600 empresas para propor mecanismos que evitem o fracasso e estimulem o sucesso dos pequenos e médios empreendimentos catarinenses. Dentro do ambiente universitário a ENE desenvolve parcerias com o projeto GENESIS - Geração de Novos Empreendedores em Software, Informação e Serviço, sendo de responsabilidade da Escola o treinamento gerencial dos responsáveis das empresas de software criadas neste ambiente. Preocupada em consolidar os produtos e serviços já existentes, procura constantemente a atualização dos mesmos, além de buscar o desenvolvimento de novos produtos e serviços que atendam às necessidades da comunidade. Para tanto, mantém-se em contato com instituições que desenvolvem trabalhos ligados ao empreendedorismo, participando de missões de estudos e treinamento oferecidos pelo Consórcio de Inovação do CRE/ COLUMBUS/CIC, EUROCENTRO. Dentre as atividades desenvolvidas pela ENE em 1999 e 2000, destacamse alguns programas, projetos, cursos e eventos e seus respectivos objetivos: − Turismo Empreendedor - Realizado com uma carga horária de 405 horas e com um número de 38 participantes, teve como objetivo fornecer aos participantes elementos necessários à gestão de empreendimentos turísticos; desenvolver atitudes empreendedoras, propondo uma mudança na forma de pensar e agir, encarando o turismo profissionalmente, e explorar todo o potencial turístico, de forma sustentável, como ferramenta geradora de renda e emprego e alavancadora do desenvolvimento do Estado.
Processando o Saber, nº 1, 2003 74 − EmpreTur - Empreendendo no Turismo - Com uma carga horária de 165 horas, se compôs de três módulos: Aspectos Comportamentais do Empreendedor (Básico), tendo como objetivos: Identificar e avaliar os aspectos comportamentais necessários para formação da nova mentalidade empreendedora e estimular o desenvolvimento gerencial, a geração de idéias e a criatividade. Turismo Fundamentos e Oportunidades de Negócios (Básico) com o objetivo de propiciar reflexão sobre a importância do Turismo, analisando todos os atores envolvidos na atividade turística, a fim de despertar o espírito empreendedor, observando as tendências e oportunidades de negócio no setor, através de uma consciência crítica dos efeitos, pelo fenômeno turístico. Planejamento, Organização e Gestão de Eventos (Serviços) com o objetivo de despertar os alunos para a importância econômica, social, cultural e ambiental que os eventos proporcionam para o desenvolvimento da atividade turística, através de informações práticas e teóricas sobre a estrutura e organização de eventos. Este programa obteve um número de 120 participantes. − EMGE - Especialização na Moderna Gestão Empresarial - Com uma carga horária de 390 horas, obteve um número de 38 participantes e teve como objetivos: capacitar profissionais que possuam o terceiro grau completo, nas áreas gerencial e comportamental, para atuarem como instrutores, consultores e/ou criarem e desenvolverem seu próprio negócio; fornecer aos participantes elementos necessários à gestão de empreendimentos, adaptados ao contexto das pequenas e médias empresas, além de desenvolver a capacidade de implantar técnicas de gestão empresarial, de forma racional e sistêmica. − Primeiro Emprego – Com um número de 110 alunos e 90 instrutores e carga horária de 70 horas, este programa objetivou: qualificar profissionais que buscam o primeiro emprego, preparando-os para as novas tendências tecnológicas e de organização social do trabalho, fazendo com que os mesmos desenvolvam polivalência e conhecimento, dois atributos necessários ao aumento da probabilidade de obtenção de emprego; preparar profissionais, não só para enfrentar o processo de abertura econômica do país, mas também, e sobretudo, para adequar-se à velocidade com que ocorrem as mudanças frente ao avanço da tecnologia, ajustando suas competências e atitudes às alterações de um mercado aberto num mundo em rápidas e constantes transformações; estimular o desenvolvimento de
Processando o Saber , nº 1, 2003 81 O CTC também oferece um curso de Especialização em Empreendedorismo, gratuito para os professores das escolas públicas. Na primeira versão, foram oferecidas e preenchidas 50 vagas das quais 23 dos professores participantes concluíram o curso. Sobre o Contexto Local Segundo o diretor do Centro Tecnológico da UFSC, a instituição acredita na formação do conhecimento global do aluno, portanto, essa formação é influenciada pela própria estrutura do empreendedorismo catarinense, ou seja, micro e pequenas empresas, que representam a parte predominante de Santa Catarina e região. A micro empresa normalmente absorve o aluno não como empregado, e sim como parceiro. Para a micro empresa o aluno vai entrar e logo se tornará um parceiro, pois ela não tem espaço para contratar alguém com alto salário. Sobre as Redes de Apoio Esta é uma cultura ainda não muito desenvolvida não somente em Santa Catarina, mas em nível nacional. A faixa de investimento em pesquisas no Brasil é em média de 80 a 90% na universidade, que está longe da realidade dos países desenvolvidos. Mesmo com parceria, as empresas nem sempre investem na universidade, ou seja, com um custo muito baixo ela prefere receber o produto pronto, inclusive o profissional. Sobre o Ambiente Acadêmico No CTC as iniciativas utilizadas são realizadas através do projeto Engenheiro Empreendedor, empresas juniores e parcerias com incubadora de empresas. A importância dessas iniciativas faz com que os alunos que não participam diretamente na Empresa Junior ou do projeto, acabem tendo contato com os colegas que participam, desenvolvendo os trabalhos de outras empresas, e com isso eles têm a informação de como é atuar na empresa. Dessa forma há os que atuam direto e os que não atuam tão diretamente mas, por meio do relacionamento existente entre eles, os outros acabam sabendo o que acontece dentro da empresa. Sobre os Professores Os professores do CTC têm visão empreendedora pela própria estrutura dos cursos. Existem vários laboratórios no departamento, porém o laboratório mesmo é a empresa, ou seja, os problemas que as empresas
Processando o Saber, nº 1, 2003 82 trazem para o departamento são resolvidos pelos professores e apresentados para as mesmas. O problema do treinamento é a dificuldade de como passar isso corretamente ao aluno. Um outro lado que ainda deixa a desejar, é a passagem disso para a empresa, que é um outro passo importantíssimo para resolver o problema do aluno, não para arrumar um emprego para o aluno, mas para estabelecer o contato desse aluno. No caso do projeto “Engenheiro Empreendedor”, os professores que contribuem para o funcionamento do projeto, além de terem tido algum tipo de experiência com o ambiente empresarial, eles ainda, recebem treinamento dentro da ENE. Sobre os Alunos Os alunos ingressantes dos cursos oferecidos pelo CTC, são motivados através de palestras em sala de aulas, concurso de plano de negócios que aprendem a montar fazendo parte do projeto Engenheiro Empreendedor e ainda participam do curso de iniciação ao empreendedorismo. A partir deste curso, esses alunos também são convidados a participarem da Empresa Junior, programas de iniciação científica e incubadora de empresas. Sobre a Infra-Estrutura O Departamento de Engenharia possui alguns laboratórios físicos específicos, que são diferentes dos laboratórios de empresa, uma vez que existem alguns projetos definidos para atender a empresa. Possuem espaço físico para as empresas juniores, cujos materiais necessários são adquiridos pela própria empresa junior através de recursos adquiridos pelos projetos desenvolvidos por seus integrantes, e parcerias com incubadoras de empresas. Sobre os resultados e monitoramento Por se tratar de uma metodologia nova, ainda não foi possível ser realizada uma pesquisa pelo CTC para verificar os aspectos negativos e positivos do programa. Formação do ex-aluno Empreendedor da UFSC De acordo com as entrevistas realizadas com os 05 ex-alunos empreendedores da UFSC, os resultados obtidos foram: Sobre a Formação do Empreendedor Os empreendedores alegam que durante a formação acadêmica eles não
Processando o Saber , nº 1, 2003 83 adquiriram experiência de como iniciar um negócio, ou seja, na visão deles a universidade prepara bem o aluno para ser empregado de uma empresa de grande porte como destaca um dos empreendedores: Dependendo do curso que a aluno faz a parte administrativa é praticamente nula e dessa forma a pessoa estuda para ser um empregado, para isso a universidade prepara bem... Um exemplo é o curso de medicina, um médico não está preparado para abrir uma clínica, ele não está preparado para isso, mas ele vai lá e abre, contrata um administrador, faz alguma coisa né... Apesar de saberem das iniciativas existentes dentro do CTC para disseminar a cultura empreendedora, eles acreditam que se essas iniciativas fossem levadas para a sala de aula, poderiam contribuir muito para a vida profissional deles. Como eles não possuem a experiência necessária para dirigir a empresa, acabam criando uma rede de contato com pessoas que possuem as competências e habilidades de que eles necessitam para poder adquirir o conhecimento. Em alguns casos, os empreendedores acabam aprendendo com os próprios erros, ou ainda, com os erros dos outros. Os empreendedores questionam a hierarquia utilizada na instituição que, de certa forma estabelece uma barreira muito forte no relacionamento professoraluno. Sobre a empresa Dentre os motivos que influenciaram os empreendedores a abrir suas empresas foi identificar uma carência no mercado e achar que poderiam suprir esta carência e ganhar dinheiro com isso. Só a vocação, o ambiente de trabalho de empresa, a questão de remuneração não era suficiente. Os empreendedores também alegam que não tinham experiência prévia antes de abrirem seu próprio negócio, ou seja, eles possuíam a “experiência técnica” adquirida na universidade. A parte administrativa foi a mais apontada como barreira para dirigir o negócio e, está sendo combatida no dia a dia da empresa conforme destaca a passagem abaixo extraída da entrevista com um dos empreendedores:
Processando o Saber, nº 1, 2003 84 Eu coloco a universidade como um fator positivo na minha formação porque o curso que fiz, não sei se é a postura só desse curso, mas agente tem um tal de se vire para fazer qualquer coisa... Se não foi um determinante foi um fator que contribuiu bastante... O tempo estudado para abertura do negócio foi em média de 6 meses, ou seja, este período foi utilizado para detectar o produto que eles poderiam desenvolver. Feito isso, eles iniciaram o desenvolvimento do produto e depois de um ano, eles abriram sua empresa. De acordo com a entrevista realizada com os sócios de uma das empresas, observou-se que, a contagem de tempo estudado foi ainda maior, “Nós temos que contar mesmo a partir da época que agente começou a trabalhar praticamente, para que pudéssemos encontrar um ramo de atividade, descobrir essa carência de mercado, ou seja, sempre tentando descobrir alguma coisa que fosse interessante”. O tempo dedicado à empresa, dentre os entrevistados, é em média de 16 horas. Como destaca com um dos entrevistados, “ O tempo que estou acordado vamos dizer assim, posso estar aqui na empresa e posso não estar, mas sempre estou disponível. Não tenho jornada fixa, isto é para empregado”. Dentre os entrevistados, todos estão atuando no mercado, por volta de 1 ano. O capital utilizado para a abertura da empresa advém de recursos próprios, uma vez que há um certo receio em adquirir um empréstimo junto aos órgãos financiadores, devido a alta taxa de juros que são cobrados, portanto, existe o medo de não conseguir cumprir com o pagamento do mesmo. Quanto a essa questão, pode-se destacar a passagem extraída de um dos empreendedores: A empresa está chegando em uma situação agora de vários projetos com corpo definido que começam agora a depender da parte exclusivamente de recursos, mesmo assim, estou bastante relutante porque um comprometimento com as questões de juros e outros né... A carência não é suficiente para você poder já começar a conseguir pagar o financiamento é um negócio muito
Processando o Saber , nº 1, 2003 85 delicado, a principal, digamos atual limitante do negócio acredito que seja esse... Estou buscando sociedades, parceiros, que entre até com participação social na empresa, mas que tenham conhecimento na área para eu poder me sentir mais seguro para gerenciar essas alternativas... COMENTÁRIOS E RECOMENDAÇÕES FINAIS Este estudo demonstrou que os procedimentos utilizados dentro da universidade para valorizar a formação do empreendedor têm contribuído para o combate ao desemprego através da geração de novas empresas, pois através deles os alunos têm um real conhecimento da natureza das pequenas empresas, sua importância, dinamismo, desafios, vantagens e variedade de oportunidades. Contudo, observa-se, que esses procedimentos requerem, direta ou indiretamente, a participação intensiva dos seguintes agentes: − Sistema Educacional − Agências de Desenvolvimento do Governo − Instituições de Apoio Financeiro Quanto à universidade, na qual o caso estudado se verificou, apesar de utilizar procedimentos para valorizar a formação da cultura empreendedora há alguns anos, constata-se que as iniciativas para ampliar essa cultura abordando questões de interdisciplinaridade do ensino e da pesquisa, começaram a ser disseminadas por toda a Instituição a partir do ano de 2000. Analisando-se de maneira mais ampla, a formação acadêmica é um fator preponderante na formação de um indivíduo, pois ela é conseqüência do seu modo de pensar, ver e assimilar o mundo, levando o ser humano a ser mais empreendedor, mais criativo, correr riscos, identificar oportunidades. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BYGRAVE,W.D. The Portable MBA in Entrepreneurship. John Wiley & Sons, United States Of America, 1994, 468p.
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