Algumas observações críticas sobre a idéia de inovação tecnológica
Abstract
Versão publicada na Revista Processando o Saber:https://www.fatecpg.edu.br/revista/index.php/ps/article/view/124
Full text
Processando o Saber , nº 1, 2003 105 RESENHA INFORMATIVA ALGUMAS OBSERVAÇÕES CRÍTICAS SOBRE A IDÉIA DE INOVAÇÃO TECNOLÓGICA. MARCELO P. DE ANDRADE1 Se retornássemos ao conceito puro de técnica, veríamos que as implicações dos argumentos que a definem são exageradamente convincentes, a ponto de tornar claro para qualquer um, o quanto sua importância na história da humanidade se confunde com a própria história da dominação da natureza pelo homem. Falar em técnica é falar desse domínio e de como supostamente a espécie humana tem sobrevivido, em face da hostilidade da vida selvagem. Falar em técnica é também falar (em linguagem mais apropriada) de um conjunto de procedimentos aplicados à determinada finalidade, o que faz da técnica, sempre um meio, um instrumento para uma ação orientada pelo sujeito no mundo. A técnica define-se pela repetição de movimentos válidos, aprovados pela competência geradora de resultados positivos, satisfatórios. Durante todo o século XX, os que se debruçaram no esforço de pensar a técnica concordavam em um ponto: Sendo crítico ou entusiasta da técnica, e depois da tecnologia, ninguém podia negar sua força avassaladora ao ditar o ritmo da vida moderna. A técnica, e conseqüentemente a tecnologia, delimitam o território para toda ação comunicativa significativa da linguagem social. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.14188609
Processando o Saber, nº 1, 2003 106 Isto corresponde a dizer que, não importando o lugar, o significado de uma ação somente faz sentido se for proferido dentro do universo da técnica e tecnológico. Essa totalização da linguagem técnica ocorreu na medida em que a produção em massa se tornou uma realidade para a moderna indústria capitalista. Desde a Revolução Industrial, tem sido assim: iguala-se a importância da produção à urgência da tecnologia que lhe torna possível. Para o filósofo alemão Jürgen Habermas2, as energias despendidas no processo que põem em movimento as inovações técnicas na sociedade moderna são providas mediante objetivos específicos de seus provedores. Nenhuma pesquisa é livre das prerrogativas dos financiadores, o que equivale dizer que o valor de uma pesquisa é avaliado pelos interesses mercadológicos que possui. Pretende-se com isso garantir a livre permanência do ambiente tecnológico presente na sociedade. Se nos EUA os mísseis são necessários, eles somente os são, porque a princípio, a sociedade tecnológica garante o sentido de sua necessidade. Da mesma maneira, o doente deve ser curado e atribuir sua cura à tecnologia que o salvou da morte, e não a própria ànatureza do corpo que resistiu à morte. A tecnologia tem adquirido status de provedor ou aniquilador de vidas humanas. Talvez por isso, ao falarmos de inovação tecnológica, seria preciso levantar algumas questões importantes, como: Qual a finalidade real do aperfeiçoamento tecnológico? Numa sociedade acostumada com a padronização da vida em normas para o bem viver, ou de como viver com eficiência, a tecnologia gera implicações sobre as escolhas tecnológicas que devemos fazer. Este território da inovação tecnológica tem se tornado cada vez mais um universo paralelo ao do restante da sociedade, mas que tem o poder de condicionar o modo de vida das pessoas, mediante decisões unilaterais. Quem promove a inovação tecnológica, na verdade, promove decisões
Processando o Saber , nº 1, 2003 107 muitas vezes definitivas, ditadas do interior do ambiente tecnológico para o mundo exterior. Existem, portanto, duas lógicas: uma interna ao meio técnicocientífico e outra exterior a ele. O primeiro modelo segue o princípio da descoberta e do aperfeiçoamento e está condicionado aos seus próprios interesses representado na fórmula pura A ? B. O problema aparece no momento em que notamos não serem coincidentes: tecnologia ? demandas sociais. As contradições aumentam quando o aparato tecnológico deixa de ser utilizado para fins pacíficos e são postos a serviço da guerra. Da mesma forma, quando os bens de consumo seduzem mais que o conhecimento dos livros, a sala de aula se torna um lugar inóspito para os jovens em formação. As inovações tecnológicas seduzem tanto que levam muitos indivíduos para fora do ambiente tecnológico, impedindo-os de poderem desfrutar futuramente, de maneira plena, das inovações tecnológicas: sem boa formação tecnológica, não há bom emprego. A fórmula se emprega. Como vemos, o problema da técnica e da tecnologia e sua conseqüente inovação está restrito à coerência dos argumentos dos que as patrocinam e defendem. Se pudéssemos aplicar a lógica ingênua que iguala anseios sociais à aplicação tecnológica, poderíamos então aliar tecnologia à qualidade de vida, um velho sonho dos inventores ingênuos. O desaponto ocorre quando constatamos a disparidade que há entre as reais condições de vida da maior parte das populações humanas visível principalmente nas massas urbanas e o atual nível de inovação tecnológica. Cabe aqui citar uma observação do sociólogo Claus Offe3 quando diz: “A desproporção entre os modernos aparatos industrial e militar e a organização estagnante do sistema de transporte, de saúde pública e de educação é um exemplo tão conhecido dessa disparidade dos setores da vida...”
Processando o Saber, nº 1, 2003 108 Estas palavras foram ditas há mais de trinta anos e percebemos não terem perdido o efeito de referir-se ao nosso contexto histórico mundial. A inovação tecnológica que pretendemos é maior e mais significativa do que imaginamos. Num curto espaço de tempo, muitas outras inovações acontecerão, sabemos porém, que mesmo no ambiente tecnológico repleto de entusiasmo pelo novo, uma pergunta continuará a ser feita: A quem serve a técnica, a tecnologia e a inovação tecnológica? Resta, além de responder a essa questão, entender que, definitivamente, quando o assunto é tecnologia e inovação, não há imparcialidade. Nenhuma escolha é livre de pressupostos quando o assunto é o agir-racional-comrespeito-a-fins. Essa ação hoje visa tão somente ao aperfeiçoamento dos procedimentos empregados na moderna produção da empresa capitalista. Torna-se preciso pensar essa unilateralidade das decisões tecnológicas que incorpora o universo social das verdadeiras necessidades humanas. 1 Professor de Ética e Cidadania na ETE Adolpho Berezin (extensão Praia Grande). 2 Habermas, J. Técnica e ciência enquanto “Ideologia”. IN: Os Pensadores. São Paulo: Abril, 1978. 3 Citado em Habermas, Op. Cit. página 333.