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O PAPEL DA DIETA NO CONTROLE E DESENVOLVIMENTO DA DOENÇA CÁRIE EM CRIANÇAS: UMA REVISÃO NARRATIVA DA LITERATURA

Karoline da Silva, Kauane; Diaz Carrasco, Dannel Enrique; Caixeta Canedo, Júlia Maria; Eneida Souza Vieira Dutra, Cássia; Souza Matos, Denise

Abstract

Introdução: A cárie dentária infantil é uma doença crônica de elevada prevalência e representa um importante problema de saúde pública, com repercussões que incluem dor, limitações funcionais, dificuldade alimentar e impactos negativos sobre a qualidade de vida de crianças e familiares. Sua etiologia é multifatorial e envolve a interação entre biofilme dentário, ingestão de açúcares fermentáveis e o tempo de exposição desses substratos sobre as superfícies dentárias, reforçando o papel central da dieta no início e na progressão da doença. Objetivo: analisar a influência da dieta no controle e no desenvolvimento da doença cárie em crianças, enfatizando componentes alimentares, comportamentos nutricionais e estratégias preventivas relacionadas ao risco cariogênico. Metodologia: foi realizada uma revisão narrativa da literatura com levantamento bibliográfico nas bases PubMed, SciELO e EBSCOhost, considerando artigos publicados nos últimos dez anos e excluindo literatura cinzenta. Revisão da literatura e discussão: a literatura demonstra que a sacarose e outros carboidratos fermentáveis reduzem o pH bucal rapidamente, favorecendo a desmineralização dentária. Evidências apontam que a frequência de ingestão de açúcares é um fator mais determinante que a quantidade consumida, especialmente em crianças expostas continuamente a bebidas açucaradas, snacks ultraprocessados e alimentos pegajosos. Há também relação entre risco cariogênico e hábitos como uso prolongado de mamadeira, aleitamento noturno sem higienização e padrões alimentares inadequados no ambiente familiar. Em contraste, alimentos protetores como laticínios, queijos, frutas fibrosas e oleaginosas auxiliam na neutralização ácida, estimulam o fluxo salivar e contribuem para a remineralização. Estratégias como educação nutricional, diário alimentar e ações escolares mostram-se eficazes na modificação de hábitos. Considerações finais: conclui-se que a dieta exerce influência decisiva na saúde bucal infantil e que sua adequada orientação, aliada a medidas preventivas, é essencial para o controle da cárie e a promoção da saúde oral.

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BRAZILIAN JOURNAL OF ORAL AND SYSTEMIC HEALTH DOI doi.org/10.5281/zenodo.17981033 http://bjoshealth.com.br ISSN 3085-8097 O PAPEL DA DIETA NO CONTROLE E DESENVOLVIMENTO DA DOENÇA CÁRIE EM CRIANÇAS: UMA REVISÃO NARRATIVA DA LITERATURA The role of diet in the control and development of dental caries in children: A narrative literature review Volume 1 Número 2 Jul-Dez 2025 REVISÃO DE LITERATURA Kauane Karoline da Silva 1 ; Dannel Enrique Diaz Carrasco 1 ; Júlia Maria Caixeta Canedo 1 ; Cássia Eneida Souza Vieira Dutra 2 ; Denise de Souza Matos 2 RESUMO Introdução: A cárie dentária infan-l é uma doença crônica de elevada prevalência e representa um importante problema de saúde pública, com repercussões que incluem dor, limitações funcionais, dificuldade alimentar e impactos nega-vos sobre a qualidade de vida de crianças e familiares. Sua e-ologia é mul-fatorial e envolve a interação entre biofilme dentário, ingestão de açúcares fermentáveis e o tempo de exposição desses substratos sobre as superDcies dentárias, reforçando o papel central da dieta no início e na progressão da doença. Obje/vo: analisar a influência da dieta no controle e no desenvolvimento da doença cárie em crianças, enfa-zando componentes alimentares, comportamentos nutricionais e estratégias preven-vas relacionadas ao risco cariogênico. Metodologia: foi realizada uma revisão narra-va da literatura com levantamento bibliográfico nas bases PubMed, SciELO e EBSCOhost, considerando ar-gos publicados nos úl-mos dez anos e excluindo literatura cinzenta. Revisão da literatura e discussão: a literatura demonstra que a sacarose e outros carboidratos fermentáveis reduzem o pH bucal rapidamente, favorecendo a desmineralização dentária. Evidências apontam que a frequência de ingestão de açúcares é um fator mais determinante que a quan-dade consumida, especialmente em crianças expostas con-nuamente a bebidas açucaradas, snacks ultraprocessados e alimentos pegajosos. Há também relação entre risco cariogênico e hábitos como uso prolongado de mamadeira, aleitamento noturno sem higienização e padrões alimentares inadequados no ambiente familiar. Em contraste, alimentos protetores como la-cínios, queijos, frutas fibrosas e oleaginosas auxiliam na neutralização ácida, es-mulam o fluxo salivar e contribuem para a remineralização. Estratégias como educação nutricional, diário alimentar e ações escolares mostram-se eficazes na modificação de hábitos. Considerações finais: conclui-se que a dieta exerce influência decisiva na saúde bucal infan-l e que sua adequada orientação, aliada a medidas preven-vas, é essencial para o controle da cárie e a promoção da saúde oral. 1 – Discente do Centro Universitário de Patos de Minas – UNIPAM, Patos de Minas, MG, Brazil 2 - Docente do Centro Universitário de Patos de Minas – UNIPAM, Patos de Minas, MG, Brazil Autor de Correspondência: Kauane Karoline da Silva email: [email protected] Palavras-chave: Dieta; Cárie dentária; Sacarose alimentar; Nutrição infantil; Odontologia preventiva. Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Dec 18, 2025 ISSN 3085-8097 O Papel da Dieta no Controle e Desenvolvimento da Doença Cárie em Crianças: Uma Revisão Narrativa da Literatura Silva KK, Carrasco DED, Canedo JMC, Dutra CESV, Matos DS 622 ABSTRACT Introduction: Childhood dental caries is a highly prevalent chronic disease and represents an important public health issue, with repercussions that include pain, functional limitations, feeding difficulties, and negative impacts on the quality of life of children and their families. Its etiology is multifactorial and involves the interaction between dental biofilm, the intake of fermentable sugars, and the duration of exposure of these substrates on tooth surfaces, reinforcing the central role of diet in the onset and progression of the disease. Objective: To analyze the influence of diet on the control and development of dental caries in children, emphasizing dietary components, nutritional behaviors, and preventive strategies related to cariogenic risk. Methodology: A narrative literature review was conducted through a bibliographic search in PubMed, SciELO, and EBSCOhost, considering articles published in the last ten years and excluding gray literature. Literature review and discussion: The literature shows that sucrose and other fermentable carbohydrates rapidly reduce oral pH, favoring dental demineralization. Evidence indicates that the frequency of sugar intake is a more decisive factor than the amount consumed, especially in children who are continuously exposed to sugary beverages, ultraprocessed snacks, and sticky foods. There is also an association between cariogenic risk and behaviors such as prolonged bottle use, nighttime breastfeeding without hygiene, and inadequate eating patterns within the family environment. In contrast, protective foods such as dairy products, cheese, fibrous fruits, and nuts help neutralize acids, stimulate salivary flow, and contribute to remineralization. Strategies such as nutritional education, food diaries, and school-based actions have proven effective in modifying habits. Final considerations: It is concluded that diet exerts a decisive influence on children’s oral health and that proper dietary guidance, combined with preventive measures, is essential for caries control and oral health promotion. Keywords: Diet; Dental caries; Dietary sucrose; Child nutrition; Preventive dentistry. INTRODUÇÃO A cárie dentária é uma das doenças crônicas mais prevalentes na infância, representando um relevante desafio para a saúde pública. Sua alta ocorrência em pré-escolares e escolares compromete funções essenciais, como alimentação, sono e desenvolvimento da fala, além de interferir no desempenho escolar e no bem-estar familiar. Lesões não tratadas podem evoluir para quadros dolorosos e infecções, resultando em maior demanda por atendimentos de urgência e procedimentos invasivos. O impacto socioeconômico também é significativo, gerando custos aos sistemas de saúde e às famílias, especialmente em populações vulneráveis. A compreensão da prevalência da cárie e de seus determinantes é fundamental para orientar políticas públicas eficazes. Estratégias de promoção da saúde, prevenção e tratamento precoce devem ser ampliadas, a fim de reduzir a carga da doença e suas desigualdades (BERNARDES; DIETRICH; DE FRANÇA., 2021). A etiologia da cárie é multifatorial e envolve a interação dinâmica dos elementos clássicos da tríade de Keyes: hospedeiro, biofilme dentário, dieta cariogênica interagindo por um determinado tempo. O biofilme é composto por microrganismos, principalmente bactérias acidogênicas, capazes de fermentar carboidratos e Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Dec 18, 2025 ISSN 3085-8097 O Papel da Dieta no Controle e Desenvolvimento da Doença Cárie em Crianças: Uma Revisão Narrativa da Literatura Silva KK, Carrasco DED, Canedo JMC, Dutra CESV, Matos DS 623 produzir ácidos que desmineralizam os tecidos dentários. A dieta rica em açúcares, especialmente sacarose, fornece o substrato necessário para essa atividade bacteriana, favorecendo a queda do pH bucal e a progressão da lesão cariosa. Além disso, o tempo de permanência desses fatores sobre a superfície dentária é determinante para o estabelecimento e agravamento da doença, uma vez que episódios frequentes de ingestão de açúcar reduzem o potencial de remineralização natural. Portanto, compreender a interação entre biofilme, dieta e tempo é essencial para o planejamento de medidas preventivas e terapêuticas eficazes na infância (DE MELO COSTA et al., 2012). A dieta é um dos principais determinantes biológicos da cárie, porque fornece os substratos necessários para que bactérias cariogênicas, como Streptococcus mutans, produzam ácidos capazes de desmineralizar o esmalte. A frequência de ingestão de açúcares fermentáveis, mais do que a quantidade total, é particularmente relevante, pois exposições frequentes mantêm o pH da placa abaixo do crítico, favorecendo ciclos repetidos de desmineralização. Alimentos pegajosos, bebidas açucaradas e ultraprocessados aumentam o risco, enquanto dietas ricas em fibras e alimentos naturais estimulam o fluxo salivar e auxiliam na proteção contra esta doença (FEJERSKOV; NYVAD; KIDD., 2015). O cirurgião-dentista desempenha papel central no controle da doença cárie e, portanto, necessita dominar seus fatores determinantes, como a microbiota, dieta, susceptibilidade do hospedeiro e tempo. Cabe ao profissional identificar precocemente lesões iniciais, avaliar riscos individuais e implementar estratégias personalizadas que reduzam a exposição aos açúcares fermentáveis, promovam higiene bucal eficaz e reforcem a remineralização do esmalte por meio do uso profissional e domiciliar de fluoretos. Além disso, o dentista deve orientar quanto a hábitos alimentares, estimular práticas de autocuidado e realizar intervenções preventivas e minimamente invasivas quando necessário. Essa abordagem integrada, baseada em risco e fundamentada em evidências, tem se mostrado eficaz na redução da progressão da doença e na manutenção da saúde bucal ao longo do tempo (SHEIHAM; JAMES., 2014; FEJERSKOV; NYVAD; KIDD., 2015). O presente estudo buscou analisar a influência da dieta no controle e no desenvolvimento da doença cárie em crianças, destacando os componentes alimentares, comportamentos nutricionais e estratégias preventivas relacionadas ao risco cariogênico. METODOLOGIA Foi realizada uma revisão narrativa da literatura, sobre o Papel da Dieta no Controle e Desenvolvimento da Doença Cárie em Crianças. Para a pesquisa foram utilizadas as bases de dados PubMed, Scielo e EBSCOhost além da assessoria da inteligência artificial SciSpace para a busca dos artigos, com as expressões de busca “Dieta; Cárie dentária; Sacarose alimentar; Nutrição infantil; Odontologia preventiva” e Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Dec 18, 2025 ISSN 3085-8097 O Papel da Dieta no Controle e Desenvolvimento da Doença Cárie em Crianças: Uma Revisão Narrativa da Literatura Silva KK, Carrasco DED, Canedo JMC, Dutra CESV, Matos DS 624 “Diet; Dental caries; Dietary sucrose; Child nutrition; Preventive dentistry”. Foram incluídos artigos publicados na íntegra, nos últimos 10 anos. Foram excluídos trabalhos da literatura cinzenta como teses, dissertações, monografias e trabalhos de conclusão de curso. A pergunta de estudo foi elaborada a partir do acrônimo CoCoPop, sendo utilizada em sua forma final da seguinte maneira: Co (conceito): relação entre dieta e desenvolvimento/controle da cárie dentária; Co (contexto): práticas alimentares na infância e risco cariogênico; Pop (população): crianças. Figura 1: Fluxograma da seleção dos estudos. Fonte: Os autores. REVISÃO DA LITERATURA E DISCUSSÃO A etiologia da cárie dentária na infância tem sido amplamente discutida na literatura, com consenso de que se trata de uma doença multifatorial, modulada por fatores biológicos, comportamentais e ambientais. Castilho et al. (2023) destacam a importância da microbiota bucal na iniciação e progressão da doença, Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Dec 18, 2025 ISSN 3085-8097 O Papel da Dieta no Controle e Desenvolvimento da Doença Cárie em Crianças: Uma Revisão Narrativa da Literatura Silva KK, Carrasco DED, Canedo JMC, Dutra CESV, Matos DS 625 especialmente a presença de microrganismos acidogênicos e acidúricos, como Streptococcus mutans e Lactobacillus spp. Além disso, fatores salivares, como fluxo, composição e capacidade tampão, exercem papel importante na proteção dos tecidos dentários, enquanto o estágio de erupção dentária influencia na susceptibilidade, considerando que dentes recém-erupcionados apresentam menor grau de mineralização e maior vulnerabilidade à desmineralização. Contudo, Carvalho et al. (2022) apontam que a presença bacteriana isoladamente não resulta na instalação da doença sem a participação de outros elementos, reforçando a necessidade de compreender a cárie como um processo ecológico, dependente de mudanças no ambiente bucal. No que se refere ao papel da dieta e do biofilme na produção de ácidos, a literatura evidencia divergências quanto à frequência e ao tipo de carboidratos mais associados ao desenvolvimento da doença. Lopes; Lima; Vilela. (2023) confirmam que a sacarose é o principal substrato cariogênico devido à sua capacidade de favorecer a síntese de polissacarídeos extracelulares e aumentar a aderência bacteriana ao esmalte, já Brito et al. (2024) apontam que diferentes açúcares fermentáveis, incluindo glicose e frutose, também podem exercer impacto significativo nos níveis de pH do biofilme. A exposição frequente a alimentos e bebidas açucaradas leva à queda repetida do pH bucal, resultando em desmineralização progressiva quando o processo de remineralização é insuficiente. Dessa forma, apesar de haver consenso sobre o papel central do biofilme e dos carboidratos fermentáveis, ainda existem algumas discordâncias, destacando-se a necessidade de novas investigações que aprofundem a compreensão das interações entre dieta, microbiota e resposta do hospedeiro na infância. A partir dessa perspectiva, torna-se necessário aprofundar a análise sobre os tipos de carboidratos fermentáveis envolvidos no processo cariogênico, considerando que sua estrutura química e forma de apresentação afetam o metabolismo bacteriano e o potencial de queda do pH. Embora a sacarose seja frequentemente destacada como o açúcar mais relevante para a formação de ácidos e da matriz extracelular do biofilme, amidos refinados e açúcares adicionados presentes em produtos industrializados também demonstram alta capacidade fermentativa, especialmente quando ingeridos em preparações pegajosas ou de dissolução lenta. Além disso, a relação entre frequência e quantidade de ingestão de açúcares é outro fator importante, enquanto o consumo elevado em um único momento pode causar uma expressiva queda do pH, a exposição repetida ao longo do dia é considerada mais prejudicial, pois reduz o tempo de remineralização salivar e mantém o biofilme em constante atividade acidogênica (RIBEIRO; ARAÚJO; COLODETTE., 2025). Outro ponto determinante para o risco cariogênico é o tempo de retenção dos alimentos na cavidade bucal, uma vez que alimentos com maior aderência à superfície dentária prolongam o contato com o biofilme e intensificam o processo de desmineralização. Nesse sentido, Lopes; Lima; Vilela. (2023) distinguem Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Dec 18, 2025 ISSN 3085-8097 O Papel da Dieta no Controle e Desenvolvimento da Doença Cárie em Crianças: Uma Revisão Narrativa da Literatura Silva KK, Carrasco DED, Canedo JMC, Dutra CESV, Matos DS 626 alimentos intrinsecamente cariogênicos como mel, frutas secas e amidos pegajosos, daqueles processados e ultraprocessados, que combinam açúcares, gorduras e aditivos que aumentam a atratividade gustativa e estimulam o consumo contínuo, sobretudo em crianças. Enquanto Brito et al. (2024) defendem que os alimentos industrializados representam o maior risco devido ao marketing e ao fácil acesso, a elevada retenção e a frequência de ingestão de alimentos naturais ricos em açúcares também constituem ameaça significativa quando não acompanhadas de adequada higiene bucal. Dessa forma, compreender esses fatores de forma integrada é essencial para elaborar estratégias preventivas mais efetivas, contemplando educação alimentar, controle da frequência de exposição aos açúcares e medidas que favoreçam a remineralização e a saúde bucal infantil. Os comportamentos alimentares na infância exercem influência direta sobre o risco de desenvolvimento da cárie dentária, especialmente quando associados a práticas que favorecem longos períodos de exposição dos dentes aos açúcares fermentáveis. O uso prolongado de mamadeira, sobretudo quando oferecida com líquidos açucarados e em horários noturnos, têm sido amplamente associados ao aumento do risco de cárie de acometimento precoce, uma vez que, durante o sono, há redução do fluxo salivar e da capacidade tampão, favorecendo a desmineralização dentária. Da mesma forma, o aleitamento materno noturno em livre demanda, quando mantido por longos períodos e após a erupção dos dentes decíduos, também é citado em alguns estudos como potencial fator de risco quando não associado à adequada higiene oral, embora existam divergências na literatura quanto à sua relevância isolada. Assim, práticas relacionadas à oferta de alimentos líquidos ou semissólidos açucarados, especialmente durante o sono, configuram-se como elementos críticos dentro do padrão alimentar da criança e merecem atenção no contexto preventivo (ALBINO et al., 2022; DA SILVA; SCATOLIN; DE OLIVEIRA., 2023). Outro componente essencial é a crescente presença dos lanches ultraprocessados na dieta infantil, frequentemente consumidos entre as refeições principais e em ambiente escolar ou domiciliar, o que aumenta a frequência de exposição aos açúcares e ao amido refinado. Tais hábitos alimentares estão fortemente relacionados à rotina das famílias e ao papel dos cuidadores, que exercem influência decisiva sobre as escolhas alimentares das crianças. Brito et al. (2024) apontam que comportamentos parentais, como compra frequente de produtos açucarados, uso de doces como recompensa e ausência de organização das refeições, contribuem para padrões alimentares desfavoráveis à saúde bucal. Em contrapartida, cuidadores que estabelecem rotinas estruturadas, estimulam o consumo de frutas, legumes e alimentos minimamente processados e incentivam a higiene bucal após as refeições, desempenham papel protetor na prevenção da doença. Portanto, compreender a inter-relação entre hábitos familiares, disponibilidade alimentar e atitudes dos cuidadores é fundamental para o desenvolvimento de estratégias educativas e intervenções eficazes no controle da cárie na infância. Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Dec 18, 2025 ISSN 3085-8097 O Papel da Dieta no Controle e Desenvolvimento da Doença Cárie em Crianças: Uma Revisão Narrativa da Literatura Silva KK, Carrasco DED, Canedo JMC, Dutra CESV, Matos DS 627 A influência dos tipos de alimentos no desenvolvimento da cárie é amplamente discutida, destacandose o papel dos açúcares livres, conforme definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), que inclui açúcares adicionados aos alimentos, presentes em mel, xaropes e sucos de frutas. Esses açúcares, quando consumidos em alta frequência, especialmente em bebidas açucaradas como sucos industrializados e refrigerantes, favorecem a queda rápida e repetida do pH bucal, intensificando o processo de desmineralização do esmalte. Além disso, snacks ultraprocessados, como biscoitos recheados e salgadinhos, geralmente combinam açúcares, amidos refinados e aditivos que prolongam o tempo de retenção na cavidade oral, ampliando o risco cariogênico. Dessa forma, a composição química e a consistência desses alimentos exercem papel determinante no ambiente bucal, reforçando a necessidade de vigilância no consumo infantil (ALBINO et al., 2022; BRITO et al., 2024). A tabela 1, aponta a quantidade de açúcar presente nos alimentos que são comumente consumidos pelo público infantil. Tabela 1: Quantidade de açúcar dos alimentos mais consumidos na infância. Alimento/Bebida Quantidade Avaliada Açúcar Aproximado Achocolatado em pó 200ml 18-22g Balas 1 unidade 4g Batata frita industrializada 40g 1g Biscoito maisena 5 unidades 6g Biscoito recheado 2 unidades 9g Bombom 1 unidade 10g Bolo 1 fatia 12-15g Chiclete 1 unidade 3g Chocolate ao leite 25g 13g Cupcake 1 unidade 20-25g Danone 45g 6g Doce de leite 20g 12g Hambúrguer industrializado 1 unidade 2g Iogurte 100ml 10g Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Dec 18, 2025 ISSN 3085-8097 O Papel da Dieta no Controle e Desenvolvimento da Doença Cárie em Crianças: Uma Revisão Narrativa da Literatura Silva KK, Carrasco DED, Canedo JMC, Dutra CESV, Matos DS 628 Macarrão instantâneo 1 porção 2g Marshmallow 4 unidades 14g Picolé 1 unidade 15-20g Pirulito 1 unidade 14-16g Refrigerante 350ml (lata) 35-40g Salgadinho (cheetos, fandangos, chips ...) 30g 2g Sorvete 100g 18g Suco de caixinha 200ml 18g Suco em pó 200ml 12-16g Fonte: Informações nutricionais retiradas de embalagens de produtos alimentícios (2025). Tabela organizada com auxílio de inteligência artificial. Por outro lado, alguns alimentos apresentam efeitos protetores contra a cárie e devem ser incentivados na dieta infantil. Frutas ricas em fibras, quando mastigadas, estimulam o fluxo salivar e auxiliam na limpeza mecânica dos dentes, embora seja necessário avaliar o modo de consumo, já que frutas secas podem ter maior aderência ao esmalte. Alimentos considerados protetores, como laticínios, queijos e oleaginosas, contribuem para o equilíbrio do pH e fornecem cálcio, fosfato e caseína, elementos essenciais à remineralização dentária. O consumo desses alimentos, especialmente após refeições com carboidratos fermentáveis, pode reduzir o impacto acidogênico do biofilme. Assim, a compreensão do papel distinto entre alimentos cariogênicos e protetores é fundamental para orientar práticas alimentares adequadas, integrando educação nutricional e estratégias de promoção de saúde bucal na infância (RIBEIRO; ARAÚJO; COLODETTE., 2025). A evidência clínica e epidemiológica sobre a correlação entre consumo de açúcares e cárie é bastante robusta. Por exemplo, o trabalho de revisão da literatura de Castilho et al. (2023), que apresenta dados publicados entre 2011 e 2020, identificou 23 estudos (cortes, transversais, ecológicos) e constatou que a maioria reportou associação positiva entre a ingestão de açúcares livres e o desenvolvimento ou a severidade da cárie. Além disso, em estudos que compararam a ingestão de açúcares, observou-se uma redução significativa nos níveis de cárie da população infantil. Brito et al. (2024) também mostram que tanto a frequência quanto a quantidade de alimentos açucarados estão associadas a um aumento no índice CPO-D e Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Dec 18, 2025 ISSN 3085-8097 O Papel da Dieta no Controle e Desenvolvimento da Doença Cárie em Crianças: Uma Revisão Narrativa da Literatura Silva KK, Carrasco DED, Canedo JMC, Dutra CESV, Matos DS 629 CPO-S: Dentes Cariados, Perdidos e Obturados; Superfícies Dentárias Cariadas, Perdidas e Obturadas em crianças e adolescentes. Quanto aos padrões alimentares, os dados epidemiológicos indicam que dietas ricas em açúcar, especialmente nas refeições entre lanches ou por meio de bebidas açucaradas, são particularmente críticas para o risco de cárie (MOYNIHAN; KELLY., 2014; CASTILHO et al., 2023). É importante ressaltar que os determinantes socioeconômicos exercem uma influência significativa na relação entre açúcar e cárie. Carvalho et al. (2022) em um estudo com pré-escolares brasileiros demonstraram que a renda familiar modifica a associação entre alta frequência de consumo de açúcar e prevalência de cárie: entre famílias de menor renda, crianças com ingestão frequente de açúcar apresentaram risco significativamente maior de cárie, enquanto esse efeito foi menos pronunciado em famílias com renda mais alta. Brito et al. (2024) demonstraram que a renda domiciliar nos primeiros anos de vida tem efeito direto sobre a experiência de cárie e que a ingestão de açúcares aos 2 anos de idade também age independentemente como determinante importante da saúde bucal na infância. Além disso, uma meta-analise de Hilgers et al. (2017) incluindo estudos de países de baixa e média renda apontou que baixo nível socioeconômico, menor escolaridade materna e consumo elevado de doces ou refrigerantes são fatores associados à maior probabilidade de cárie em crianças (CARVALHO et al., 2022; BRITO et al., 2024). Para estratégias dietéticas de prevenção da cárie, a adoção de um diário alimentar por pacientes é uma ferramenta fundamental, pois permite a identificação dos momentos de alto risco, sejam picos de ingestão de açúcar ou “janelas ácidas” frequentes, e serve de base para intervenções. Utilizando o registro alimentar, o cirurgião-dentista ou nutricionista pode orientar a redução da frequência de açúcares, aconselhando a limitar o consumo de alimentos cariogênicos aos momentos de refeição em vez de em lanches contínuos, o que diminui a exposição ácida da cavidade bucal. Além disso, é possível recomendar a substituição por alimentos protetores, como vegetais fibrosos, laticínios, queijos e oleaginosas, que estimulam o fluxo salivar e ajudam a neutralizar ácidos, favorecendo a remineralização (MOYNIHAN; KELLY., 2014; HILGERS et al., 2017). Complementarmente, as práticas alimentares saudáveis, como seguir padrões alimentares equilibrados, evitar bebidas adoçadas entre as refeições e preferir alimentos minimamente processados, são estratégicas para reduzir o risco de cárie a longo prazo. A orientação nutricional e a educação em saúde desempenham papel essencial nesse processo, estudos mostram que aconselhamento dietético, especialmente se feito de forma personalizada e teórica (utilizando modelos de mudança de comportamento), é eficaz para diminuir a ingestão de açúcar relacionada à cárie, por exemplo, profissionais treinados em aconselhamento breve conseguiram mudanças comportamentais importantes nos pacientes, reduzindo a quantidade, a frequência e o tempo de exposição ao açúcar (HILGERS et al., 2017).