O CALENDÁRIO ESPORTIVO E O RENDIMENTO ESCOLAR: O CASO DE QUATRO ATLETAS DE VOLEIBOL
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ISSN 1809-046X 24 Estação Científica - Centro Universitário Estácio Juiz de Fora . v. 20. nº 35, JUL./DEZ., 2025. https://estacio.periodicoscientificos.com.br/index.php/estacaocientifica/index Artigo original Link do doi: 10.5281/zenodo.17993815 O CALENDÁRIO ESPORTIVO E O RENDIMENTO ESCOLAR: O CASO DE QUATRO ATLETAS DE VOLEIBOL THE SPORTS CALENDAR AND ACADEMIC PERFORMANCE: THE CASE OF FOUR VOLLEYBALL ATHLETES Carlos Henrique de Vasconcellos Ribeiro 1 Erik Giuseppe Barbosa Pereira 2 Davi Faria Ribeiro 3 Gabriel Montysuma de Barros 4 RESUMO No contexto atual do esporte de base, é comum que praticantes e seguidores concentrem sua atenção na perspectiva de uma futura profissionalização, muitas vezes negligenciando a importância do esporte como um elemento essencial no desenvolvimento social, cultural e cognitivo. Partindo dessa premissa, este texto investiga até que ponto o calendário esportivo impacta no rendimento escolar de atletas de alta qualificação. Nosso objetivo é entender a relação entre o rendimento escolar e os calendários escolar e esportivo de quatro atletas de voleibol. Para isso, realizamos uma pesquisa qualitativa, analisando três documentos: o calendário escolar, o calendário esportivo e o boletim escolar de quatro alunas atletas de alto rendimento que frequentam o ensino médio. Ao cruzarmos esses registros, identificamos, entre outros fatores, uma queda no rendimento escolar à medida que Autor corresponde: Carlos Henrique de Vasconcellos Ribeiro, carloshenrique.ri[email protected] 1 Universidade Santa Úrsula (USU), Rio de Janeiro (RJ), Brasil. 2, 3, 4 Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
Estação Científica - Centro Universitário Estácio Juiz de Fora . v. 20. nº 35, JUL/DEZ., 2025. 25 https://estacio.periodicoscientificos.com.br/index.php/estacaocientifica/index o ano avança, especialmente no segundo semestre, quando as principais competições se aproximam. PALAVRAS-CHAVE: Educação Física. Esporte de alta qualificação. Voleibol. ABSTRACT In the current context of youth sports, it is common for athletes and supporters to focus their attention on the prospect of future professionalization, often neglecting the importance of sport as an essential element in social, cultural, and cognitive development. Based on this premise, this study investigates the extent to which the sports calendar impacts the academic performance of highly skilled athletes. Our goal is to understand the relationship between academic performance and the school and sports calendars of four volleyball athletes. To this end, we conducted a qualitative study, analyzing three documents: the school calendar, the sports calendar, and the academic report cards of four high-performance female high school athletes. By crossreferencing these records, we identified, among other factors, a decline in academic performance as the year progresses, especially in the second semester, when major competitions approach. KEYWORDS: Physical Education. High-performance sport. Volleyball. Qualitative research. INTRODUÇÃO No contexto esportivo, diversas justificativas podem ser extraídas para a prática do esporte. Em alguns casos, o esporte serve apenas como uma forma de passar o tempo para crianças cujos responsáveis ainda estão no trabalho; em outros, buscam uma melhoria na saúde de seus filhos. Projetos sociais são frequentemente formados para que, por meio do esporte, a educação e o conhecimento cheguem a determinados grupos de pessoas. Bassani, Torri e Vaz (2023) acreditam que a narrativa oficial frequentemente destaca o esporte como um elemento crucial na educação de crianças e jovens,
Estação Científica - Centro Universitário Estácio Juiz de Fora . v. 20. nº 35, JUL/DEZ., 2025. 26 https://estacio.periodicoscientificos.com.br/index.php/estacaocientifica/index atribuindo-lhe papéis importantes, como o de impedir o envolvimento no consumo de drogas. O esporte seria uma das formas ocupar o tempo livre, além de ser capaz de educar. Além disso, o esporte é utilizado como uma ferramenta de alavancagem social para auxiliar no crescimento pessoal. No clássico de Valter Bracht (2007), o autor afirma que os esportes, quando têm propósitos diferentes do modelo predominante voltado ao desempenho, já fazem parte de uma determinada cultura. Nesse caso, é necessário ponderar e debater essas práticas esportivas, que muitas vezes são consideradas marginais dentro do sistema educativo/esportivo ou, quando confrontam o significado oficial, acabam sendo submersas e reinterpretadas. O esporte de rendimento também é capaz de incluir e educar. Diversas universidades e escolas, tanto nacionais quanto internacionais, oferecem bolsas de estudo para atletas de base que se destacam (ou não) em suas modalidades, tanto no masculino quanto no feminino. Programas de bolsa financiados por estados, cidades ou pelo governo federal são aproveitados por estudantes, mostrando que, através do esporte, conseguimos extrair bons resultados além do tradicional “campeão”. Segundo Miranda, Santos e Costa (2020), o governo federal investiu, de 2004 a 2017, cerca de 27 bilhões de reais no esporte, sendo apenas 7 bilhões destinados ao esporte de alto rendimento visando a formação de novos atletas, o que corresponde a aproximadamente 27% do valor total. Esses programas são essenciais para a continuidade da prática em alto nível, especialmente para atletas que não possuem um poder aquisitivo confortável, devido ao alto custo de materiais de treino, transporte e alimentação. O esporte de rendimento exige nas categorias de base total dedicação e empenho de seus praticantes, independentemente da modalidade. Ao longo do ano, diversas competições e tarefas são desempenhadas, tornando o tempo um recurso escasso em suas rotinas. Assim, o investimento de tempo no esporte pode gerar frutos como o acesso à educação privada e, posteriormente ascensão social através da prática esportiva. Nesta conjuntura, a maioria dos atletas de base ainda está frequentando a escola, necessitando conciliar a dupla carreira de estudante e atleta. Além disso, segundo Rocha (2017, p. 219), “não há respaldo legal para fazer com que os acordos
Estação Científica - Centro Universitário Estácio Juiz de Fora . v. 20. nº 35, JUL/DEZ., 2025. 27 https://estacio.periodicoscientificos.com.br/index.php/estacaocientifica/index firmados entre escola e clube sejam cumpridos”, gerando insegurança nos direitos dos jovens quanto ao acesso e permanência na escola. Diferente dos trabalhos convencionais, o esporte exige viagens frequentes que resultam em ausências escolares, e não há recomendações de ações por parte das escolas para dar amparo nessas situações (Melo, 2020). A relação entre escola e familiares desses responsáveis parecem existir no sentido de não prejudicar os estudantes no aspecto da aprendizagem e rendimento escolar, mas dependem dos acordos firmados ao longo do ano letivo. Acreditamos que a potência nesse estudo se concentra no entendimento em que o calendário esportivo pode vir a afetar na gestão da qualidade do tempo disponível para relações sociofamiliares e no gerenciamento das atividades (extra)curriculares. Além disso, é importante compreender que o envolvimento dos estudantes com a modalidade esportiva em nível de alta qualificação deve estimular políticas educacionais e decisões sobre a alocação de tempo e recursos, garantindo que as necessidades e interesses dos alunos sejam adequadamente atendidos. E há ainda a compreensão de que a prática esportiva não deve afetar o rendimento do estudante. Porém, não há garantias disso na medida em que os que se dedicam ao ponto de quererem se profissionalizar no esporte precisam de mais tempo em treinos e jogos, se comparados aos que praticam esporte da perspectiva da manutenção da saúde e do lazer. Após os escritos nossa questão é: até que ponto o calendário esportivo impacta no rendimento escolar de atletas de alta qualificação? Para tentar responder a esta questão, nosso objetivo é entender os impactos da relação entre o calendário esportivo e o rendimento escolar dessas atletas. Metodologia A metodologia deste estudo é de natureza qualitativa e do tipo exploratória, utilizando como estratégia a análise documental. A pesquisa qualitativa busca alastrar as possibilidades de analisar e perceber os fenômenos sociais, ao invés de fechá-los ou concluí-los (Demo, 2012). No que diz respeito à linha qualitativa, buscaremos apoio no pensamento de Haguette (2007), Demo (op.cit.) e Goldenberg (2004). Para
Estação Científica - Centro Universitário Estácio Juiz de Fora . v. 20. nº 35, JUL/DEZ., 2025. 28 https://estacio.periodicoscientificos.com.br/index.php/estacaocientifica/index Haguette (op.cit. p. 63), “[...] os métodos qualitativos enfatizam as especificidades de um fenômeno e termos de suas origens e de sua razão de ser”. O estudo qualitativo é, sobretudo, um “mister dar-lhe-credibilidade científica", ou como Demo (idem, p.10) reforça: “É proposta necessária pelo simples fato de que fenômenos qualitativos precisam ser captados qualitativamente, sem perder de vista sua formalização implícita no campo do método científico”. No que diz respeito ao modelo exploratório, este oferece uma maior familiaridade com o fenômeno com vistas a torná-lo mais explícito. É salutar lembrar que este tipo de abordagem permite a elucidação do fenômeno, pois oferece uma série de informações sobre este objeto a ser pesquisado. A escolha pela estratégia da análise documental se deu pelo foco principal em extrair do documento suas informações essenciais de modo a representá-las mais compreensivamente aos leitores (Ruiz, 2011). Segundo Cellard (2008), esse processo se dá através de uma leitura preliminar que se segue os seguintes passos: 1contexto, onde se busca entender em que contexto histórico e social o documento foi arquitetado e para quem é destinado; 2autores e interesses, onde se pretendem conhecer a identidade, pretensões e consequências que motivaram a criação do documento pelos compositores; 3confiabilidade, onde é possível assegurar-se das qualidades e informações transmitidas de modo a verificar a autenticidade da procedência do documento, verificando a relação entre compositores e sujeitos aos quais recaem a escrita para evitar “abusos”; 4natureza do texto, para averiguar se o contexto ao qual foi escrito converge a quem se destina e ainda se apresenta simpatia ou antipatia por determinado grupo e; 5conceitos-chave do documento, para entender os termos empregados no documento em sua lógica interna atrelado ao seu objetivo principal. Os instrumentos empregados nesta pesquisa foram ordenados e organizados em fichamentos, a partir da coleta da documentação referida ao tema. Nesse caso, a proposta procurou reduzir os textos lidos a fichas de resumos e/ou interpretações dos autores que discutem o tema. Nosso material empírico foi: 1Boletins escolares de 2022; 2calendário escolar de 2022; 3calendário esportivo de 2022.
Estação Científica - Centro Universitário Estácio Juiz de Fora . v. 20. nº 35, JUL/DEZ., 2025. 29 https://estacio.periodicoscientificos.com.br/index.php/estacaocientifica/index A escolha dessas atletas 5 foi baseada no fato de terem sido convocadas e participado dos campeonatos pela seleção brasileira, tendo assim uma maior demanda de tempo, do que outras que não tiveram a mesma oportunidade. Vale ressaltar que a pesquisa 6 em questão consistiu exclusivamente na análise desses documentos, com todos os dados devidamente anonimizados, de forma a impedir qualquer possibilidade de identificação das participantes. Não havendo intervenção física, psicológica ou social, nem coleta de informações sensíveis diretamente junto às envolvidas. Estabelecido o tema e fixado o suporte teórico, os passos subsequentes foram: 1leitura exploratória; 2leitura analítica; 3transcrição para as fichas; 4crítica da documentação coletada e; 5ordenação dos dados e/ou proposta de solução própria. Para o tratamento dos dados, reportamo-nos à Análise de Conteúdo (AC), defendida e explorada por Bardin (2011). A autora afirma que a AC é “um conjunto de técnicas que visa obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores que permitam a inferência de conhecimentos”. Nesse processo, as etapas são divididas em: 1pré-análise; 2descrição analítica e; 3interpretação referencial. Na fase da pré-análise, o pesquisador seleciona o que será submetido à análise e formula as hipóteses dos objetivos bem como os indicadores que sustentam sua interpretação; na descrição analítica, todo o material selecionado na etapa anterior é estudado minuciosamente conforme as hipóteses estabelecidas e em acordo com o referencial teórico para promover a codificação, a categorização e a classificação das informações; na interpretação referencial, o pesquisador aprofunda sua análise de modo a atingir os resultados mais pertinentes da pesquisa (Bardin, 2011). 5 Resguardamos os nomes das estudantes e de suas respectivas instituições de ensino para garantir o sigilo, além de tornar a leitura mais fluida. 6 Após ter lido e gravado com som o Registro de Consentimento Livre Esclarecido (RCLE), a autoria do texto solicitou, às estudantes, a disponibilidade dos documentos e o seu uso para fins científicos. Nos termos da Resolução CNS nº 510/2016, art. 1º, inciso VII, pesquisas que utilizam bases de dados cujos registros não possam ser identificados estão dispensadas de registro e avaliação por Comitê de Ética em Pesquisa (Brasil, 2016).
Estação Científica - Centro Universitário Estácio Juiz de Fora . v. 20. nº 35, JUL/DEZ., 2025. 30 https://estacio.periodicoscientificos.com.br/index.php/estacaocientifica/index RESULTADOS E DISCUSSÃO Para essa fase, organizamos e ordenamos nossos documentos e interpretações a partir das seguintes categorias: boletins escolares; calendários escolares e calendários esportivos. Para um melhor entendimento e visualização, organizamos o perfil das alunas-atletas no quadro a seguir. Lembramos que todas as meninas tinham 18 anos, estavam inseridas no Ensino Médio e atuando na categoria do Sub-19. Tabela 1Perfil das alunas Nome Caráter da IE Série Seleção Campeonato/Modalidade Atleta 1 Pública 3º ano Seleção brasileira e carioca Sulamericano (quadra) Brasileiro (quadra) Estadual (quadra) Atleta 2 Privada 3º ano Seleção brasileira e carioca Mundial (praia) brasileiro (quadra/praia) estadual (quadra/praia) Atleta 3 Privada 3º ano Seleção brasileira e carioca Sulamericano (quadra) Brasileiro (quadra) Estadual (quadra) Atleta 4 Privada 2º ano Seleção brasileira e carioca Mundial (praia) Brasileiro (quadra/praia); Estadual (quadra/praia) Fonte: Elaborado pelos autores Dos documentos: Boletins Escolares Imagem 1: boletim escolar da atleta 1 Fonte: Instituição de ensino 1
Estação Científica - Centro Universitário Estácio Juiz de Fora . v. 20. nº 35, JUL/DEZ., 2025. 31 https://estacio.periodicoscientificos.com.br/index.php/estacaocientifica/index Imagem 2: boletim escolar da atleta 2 Fonte: Instituição de ensino 2 Imagem 3: boletim escolar da atleta 3 Fonte: Instituição de ensino 3 Imagem 4: boletim escolar da atleta 4 Fonte: Instituição de ensino 4
Estação Científica - Centro Universitário Estácio Juiz de Fora . v. 20. nº 35, JUL/DEZ., 2025. 32 https://estacio.periodicoscientificos.com.br/index.php/estacaocientifica/index Após análise dos boletins coletados, percebemos que nem todos os colégios seguem os mesmos padrões acadêmicos, quando se trata em divisão dos períodos, os colégios da Atleta 1 e da Atleta 4 são divididos em trimestres enquanto os colégios da Atleta 2 e da Atleta 3 são divididos em 4 bimestres. É possível perceber, também, que o boletim da Atleta 1 se manteve na média em todas as disciplinas, mesmo tendo suas notas oscilando entre os componentes curriculares. Já no segundo só possui nota na disciplina de Filosofia, enquanto no terceiro se repetem as notas obtidas nas primeiras avaliações nos levando a debater sobre uma possível flexibilidade da escola quanto aos alunos atletas. Essa leitura revela, ao que tudo indica, que todas as atletas foram aprovadas ao final do ano letivo, em alguns casos mediante utilização de mecanismos de recuperação. Esses resultados permitem levantar a hipótese de que a instituição escolar adota, por vezes, algum grau de flexibilidade no acompanhamento acadêmico dessas estudantesatletas. Esta flexibilidade pode se materializar como uma política institucional voltada ao apoio a alunos envolvidos em competições esportivas, como uma prática informal adotada pela coordenação e/ou professores, ou ainda como acordos específicos estabelecidos caso a caso. Contudo, essa possibilidade não pode ser confirmada apenas a partir dos dados documentais disponíveis, sendo necessária a realização de estudos complementares para compreender a natureza e a formalidade dessas ações. Já a Atleta 2 mantém uma média de notas bem baixas ao longo do ano, tendo uma piora no desempenho acadêmico no terceiro bimestre e uma leve melhora no último bimestre, mas não obteve o resultado necessário para alcançar a aprovação. Seguindo uma linha de análise, a Atleta 3 tem um desempenho que acompanha a média escolar, oscilando somente em algumas disciplinas, porém, ao final do ano letivo ela consegue chegar à aprovação através das provas de recuperação em três disciplinas, literatura, física e matemática em que, na última, a aluna não atinge a nota necessária na prova, mas é aprovada no final do ano. Assim, infere-se que pode existir uma flexibilidade da escola com a estudante a partir dos mecanismos de recuperação, legitimamente utilizados com base no regramento escolar.
Estação Científica - Centro Universitário Estácio Juiz de Fora . v. 20. nº 35, JUL/DEZ., 2025. 39 https://estacio.periodicoscientificos.com.br/index.php/estacaocientifica/index comunicação entre escola, treinadores e professores para acomodar os compromissos esportivos sem prejudicar o desempenho acadêmico (Miranda; Santos; Costa, 2020). Outro fator que podemos ressaltar é reforçado por Rocha et al (2021) ao afirmar que a cansaço físico e mental é uma preocupação, pois o equilíbrio entre treinos intensivos, competições e obrigações acadêmicas podem sobrecarregar as alunas-atletas. Descanso e recuperação adequados são fundamentais para evitar impactos negativos no desempenho escolar e esportivo. Nos casos analisados, observamos que períodos com maior densidade de jogos e viagens coincidiam, de forma recorrente, com quedas de rendimento em disciplinas que demandam maior carga de estudo extraclasse, evidenciando que a ausência de estratégias formais de descanso e recuperação pode intensificar esses impactos. Assim, como Costa et al (2021), acreditamos que o calendário esportivo, quando não articulado de forma integrada ao calendário escolar, tende a criar picos de sobrecarga que podem afetar diretamente a performance acadêmica, exigindo políticas e práticas específicas para o público de atletas em idade escolar. Além dos impactos diretamente relacionados ao rendimento acadêmico, a visita aos documentos nos revelou que as atletas também enfrentam limitações na convivência no ambiente socioescolar. A participação frequente em viagens e competições, embora necessária para a continuidade de suas trajetórias esportivas, reduz o tempo de permanência na escola e limita a interação com a corpo social da escola e suas facetas. Essa ausência recorrente pode gerar um distanciamento em relação à vida cotidiana da escola, dificultando tanto a construção de vínculos sociais quanto a inserção em atividades coletivas que extrapolam o espaço da sala de aula. CONSIDERAÇÕES FINAIS Após a análise documental feita no estudo, podemos perceber que as alunasatletas apresentam uma queda no rendimento escolar na medida em que as demandas de treinos e competições sem intensificam. No início do ano letivo em que não ocorrem muitos jogos, os resultados das avaliações são mais satisfatórios. Por outro lado, conforme o ano vai avançando e as
Estação Científica - Centro Universitário Estácio Juiz de Fora . v. 20. nº 35, JUL/DEZ., 2025. 40 https://estacio.periodicoscientificos.com.br/index.php/estacaocientifica/index competições se aproximando, essas respostas são modificadas, ocorrendo um menor rendimento quando comparado ao período anterior. No último bimestre, os alunosatletas apresentaram uma melhora no rendimento, pois existe o período de recuperação nas disciplinas do colégio. Em geral, os alunos conseguem conciliar a rotina de treinos e competições e manter um rendimento escolar satisfatório, mas é uma relação que depende da dedicação e prioridade de cada um. Uma alternativa a ser pensada poderia ser a diluição das etapas das ligas nacionais durante o ano e/ou os campeonatos estaduais ocorrendo no quarto trimestre do ano e o começo do ano esportivo coincidiria com a fase final do calendário acadêmico. Assim, é uma maneira mais fácil de organizar sem ter nenhum acúmulo de viagens por períodos muito longos. Assim, foi possível observar que a intensa agenda esportiva não afeta apenas a dimensão cognitiva do processo educativo, mas também restringe oportunidades formativas ligadas à socialização e ao pertencimento ao ambiente escolar. Portanto, é necessário um planejamento cuidadoso para garantir a continuidade dos estudos. Nesse sentido, a relação entre o desempenho acadêmico e os calendários esportivos das alunas-atletas é complexa e pode exigir esforços colaborativos entre instituições educacionais, treinadores, professores e os próprios estudantes para garantir um equilíbrio adequado entre os estudos e a prática esportiva, visando o sucesso tanto acadêmico quanto esportivo. Entendemos a limitações do estudo com relação aos sentimentos dos grandes envolvidos no estudo: estudantes e a escola. Escutar os envolvidos, tais como atletas, coordenadores pedagógicos, direção escolar e os responsáveis pela elaboração dos calendários esportivos seria uma alternativa de amadurecimento e de enriquecimento para a continuidade da proposta. Outro ponto a ser erguido é a sobre a suposição de uma possível flexibilidade da escola para alunos-atletas com base nos resultados dos boletins que não pode ser confirmada com base apenas nos dados documentais analisados. Seria necessário aprofundar a investigação para compreender se tal flexibilidade decorre de políticas institucionais formais, de práticas informais dos docentes ou de acordos específicos estabelecidos no contexto escolar.
Estação Científica - Centro Universitário Estácio Juiz de Fora . v. 20. nº 35, JUL/DEZ., 2025. 41 https://estacio.periodicoscientificos.com.br/index.php/estacaocientifica/index Por isso, deixamos aqui a sugestão de continuidade para futuros estudos, entendendo e acompanhando ao longo prazo a dupla carreira desses de jovens em diferentes faixas etárias, naipes e categorias. REFERÊNCIAS BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições, v. 70, 2011. BASSANI, Jaison José; TORRI, Danielle; VAZ, Alexandre Fernandez. Sobre a presença do esporte na escola: paradoxos e ambigüidades. Movimento, [S. l.], v. 9, n. 2, p. 89–112, 2003. DOI: 10.22456/1982-8918.2811. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/Movimento/article/view/2811 BRACHT, Valter. Esporte na escola e esporte de rendimento. Movimento, [S. l.], v. 6, n. 12, p. XIV-XXIV, 2007. DOI: 10.22456/1982-8918.2504. Disponível em:https://seer.ufrgs.br/Movimento/article/view/2504 BRASIL. Conselho Nacional de Saúde. Resolução nº 510, de 7 de abril de 2016. Dispõe sobre as normas aplicáveis a pesquisas em Ciências Humanas e Sociais. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 24 maio 2016. Seção 1, p. 44-46. Disponível em: https://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2016/Reso510.pdf. Acesso em: 7 ago. 2025. CELLARD, André. A análise documental. In: POUPART, Jean et al. A pesquisa qualitativa: enfoques epistemológicos e metodológicos. Petrópolis: Vozes, 2008 (Coleção Sociologia). COMITÊ BRASILEIRO DE CLUBES (CBC). Calendário de CBI®. Disponível em: https://www.cbclubes.org.br/calendario-cbi/32. Acesso em: 11 ago. 2025a. COMITÊ BRASILEIRO DE CLUBES (CBC). Calendário de CBI®. Disponível em: https://www.cbclubes.org.br/calendario-cbi/33. Acesso em: 11 ago. 2025b.
Estação Científica - Centro Universitário Estácio Juiz de Fora . v. 20. nº 35, JUL/DEZ., 2025. 42 https://estacio.periodicoscientificos.com.br/index.php/estacaocientifica/index COSTA, Felipe Rodrigues da et al. Dupla carreira esporte-educação: a realidade dos atletas da elite dos saltos ornamentais brasileiros. Movimento, [S. l.], v. 27, p. e27016, 2021. DOI: 10.22456/1982-8918.109456. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/Movimento/article/view/109456. Acesso em: 13 ago. 2025. DEMO, Pedro. Pesquisa e informação qualitativa: aportes metodológicos. 5. ed. Campinas: Papirus, 2012. FEVERJ — Federação de Volley-Ball do Rio de Janeiro. Relatório FEVERJ 2022. Disponível em: https://voleirio.com.br/wp-content/uploads/2023/08/RELATORIOFEVERJ-2022-1.pdf Acesso em: 11 ago. 2025. FÉDÉRATION INTERNATIONALE DE VOLLEYBALL (FIVB). Volleyball – Calendar. Disponível em: https://www.fivb.com/beach-volleyball/calendar/. Acesso em: 11 ago. 2025a. FÉDÉRATION INTERNATIONALE DE VOLLEYBALL (FIVB). Volleyball – Calendar. Disponível em: https://www.fivb.com/volleyball/calendar/ Acesso em: 11 ago. 2025b. GOLDENBERG, Mirian. A arte de pesquisar: como fazer pesquisa qualitativa em Ciências Sociais. 8ª Edição. Rio de Janeiro: Record. 2004. HAGUETTE, Teresa. Metodologia qualitativa na sociologia. 11ª ed. Petrópolis/Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 2007. MELO, Leonardo Bernardes Silvaet al. Dupla carreira: dilemas entre esporte e escola. Journal of Physical Education, v. 31, p. 11, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.4025/jphyseduc.v31i1.3145 MIRANDA, Iuri Scremin de; SANTOS, Wagner dos; COSTA, Felipe Rodrigues da. Dupla carreira de estudantes atletas: uma revisão sistemática nacional. Motrivivência, [S. l.], v. 32, n. 61, p. 01–21, 2020. DOI: 10.5007/21758042.2020e61788. Disponível em: http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S217580422020000100208
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