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Impacto da IA Generativa no acesso a jornais - Tendências e análise de pesquisas em Portugal

Caldeira Pais, Pedro Manuel Pinto; Paisana, Miguel; Vasconcelos, António; Couraceiro, Paulo; Cardoso, Gustavo; Baldi, Vania

Abstract

Este relatório tem como objetivo analisar o impacto que a IA Generativa — e a possibilidade que esta dá ao utilizador de obter sumarizações noticiosas — tem efetivamente no acesso a jornais e notícias online, tendo sido efetuada uma investigação que analisa pesquisas em plataformas de IA (ChatGPT e Gemini) e no motor de busca da Google. Com a intenção de clarificar e explorar a temática, este trabalho procura assim compreender o papel da IA, nomeadamente a IA Generativa, no acesso aos jornais. Como tal, apresenta num primeiro capítulo um levantamento bibliográfico sobre o que tem sido estudado nesse âmbito. Nos capítulos seguintes, é efetuada uma análise — numa investigação desenvolvida especificamente para este relatório — que expõe, no caso português, de que modo as notícias de destaque são apresentadas nomeadamente em três espaços: ChatGPT, Gemini e o motor de busca da Google. Esta análise permite perceber de que modo surge a informação, tanto numa pesquisa noticiosa mais ampla como concernente a alguma notícia ou tema em concreto. A análise é orientada por duas perguntas de partida, alicerçadas na relação entre utilizadores interessados em notícias e pesquisas através de IA: 1. Os sumários noticiosos de IA Generativa são inimigos do acesso aos jornais?2. O utilizador passa de uma posição ativa — de ir em busca, de aceder às notícias na íntegra — para uma posição passiva, em que a pesquisa é superficial e existe antes um processo de sumarização gerado pela IA, com o qual poderá «saciar» o seu interesse por notícias? Estas questões são respondidas ao longo do relatório, em particular na última secção referente à discussão e a considerações finais. Nesta, são igualmente abordados aspetos referentes à literacia digital da população em geral, no que respeita à IA Generativa e ao seu impacto no acesso a jornais, bem como ideias que iniciam uma discussão sobre aquilo que pode diferenciar o jornalismo atualmente.

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Impacto da IA Generativa no acesso a jornais Tendências e análise de pesquisas de notícias em Portugal Janeiro 2026 / www.obercom.pt / ISSN 2183-3478 / DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17996267 1 Título Impacto da Inteligência Artificial Generativa no Acesso a Jornais – Tendências e análise de pesquisas de notícias em Portugal Data Janeiro de 2026 Coordenação científica Gustavo Cardoso, Vania Baldi e Pedro Caldeira Pais Autoria Pedro Caldeira Pais, Miguel Paisana, António Vasconcelos, Paulo Couraceiro, Gustavo Cardoso e Vania Baldi Citação recomendada (APA 7th) Em referência: Pais, P.C., Paisana, M., Vasconcelos, A., Couraceiro, P., Cardoso, G., & Baldi, V. (2026). Impacto da Inteligência Artificial Generativa no Acesso a Jornais – Tendências e análise de pesquisas de notícias em Portugal. OberCom – Observatório da Comunicação: https://doi.org/10.5281/zenodo.17996267 Em texto: (Pais et al., 2025) CC BY 4.0 Creative Commons Attribution 4.0 International. https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ This license requires that reusers give credit to the creator. It allows reusers to distribute, remix, adapt, and build upon the material in any medium or format, even for commercial purposes. BY: OberCom / https://www.obercom.pt/ Informação editorial: Proprietário: OberCom, Observatório da Comunicação, Palácio Foz, Praça dos Restauradores, 1250-187 Lisboa / Depósito Legal: 196339/03 / ISSN: 2183-3478 / Registo ICS: ERC 123566 2 Índice Sumário Executivo ................................................................................................................... 6 Introdução ............................................................................................................................. 15 1. O impacto da IA no acesso a notícias: tendências e questões prementes na literatura sobre o tema ......................................................................................................................... 20 Sumários noticiosos da IA e da AI Overview, da Google: impacto no acesso a jornais e novas implicações éticas e ecológicas ............................................................................ 20 2. Análise de pesquisa de notícias em Portugal em plataformas de IA Generativa e no motor de busca Google ......................................................................................................... 36 Aspetos prévios da análise ............................................................................................... 36 3. Apresentação de resultados e análise .............................................................................. 43 3.1. Aspeto prévio: a ausência (inesperada) de sumários da AI Overview na análise ..... 43 3.2. Indexação de fontes, estrutura visual e diversidade temática: elementos para uma possível «suficiência» dos sumários................................................................................. 44 3.3. Noção contextual e estilo de escrita: «jornalismo» e traços de empatia .................. 55 3.4. O caso exploratório do AI Mode e quadro síntese de tendências ............................. 59 Discussão e considerações finais ........................................................................................ 67 Literacia digital da população e desafios ao jornalismo e às empresas ......................... 67 Considerações finais ......................................................................................................... 72 Referências ............................................................................................................................ 76 3 Índice de figuras 1.1. A integração de IA em motores de busca e sumarizações noticiosas: ubiquidade de uma prática «involuntária» .................................................................................................... 20 1.2. Estudos exploratórios e posicionamentos de empresas de media: a ameaça das sumarizações aos modelos de negócio ............................................................................... 23 1.3. Suficiência noticiosa e passividade dos utilizadores .................................................... 26 Figura 1. Recorte do aviso que surge no fim do texto da AI Overview após uma pesquisa no motor de busca da Google ............................................................................................... 29 1.4. Questões éticas e ecológicas na utilização de IA Generativa em motores de busca .. 30 2.1. Objetivos, tipo de análise e critérios .............................................................................. 36 Tabela 1. Critérios de análise e descrição ............................................................................ 40 3.2.1. Indexação de fontes e links ........................................................................................ 44 Figura 1. Quantidades de vezes que uma determinada fonte surge nas 10 pesquisas do ChatGPT com a pergunta “Quais as principais notícias do dia?” ........................................ 45 3.2.2. Estrutura dos sumários e apresentação visual .......................................................... 47 Figura 3. Recortes de uma só pesquisa no ChatGPT, tendo em conta o primeiro prompt .. 48 Figura 3. Recortes de uma só pesquisa no ChatGPT, tendo em conta o primeiro prompt (Cont.) .................................................................................................................................... 49 Figura 4. Recorte no Gemini numa resposta à pergunta “Quais as principais notícias do dia?” ....................................................................................................................................... 50 3.2.3. Diversidade temática e a aparente suficiência noticiosa ........................................... 51 Figura 5. Temáticas que surgem no total de 18 pesquisas no ChatGPT e Gemini com a pergunta “Quais as principais notícias do dia?” ................................................................... 52 Figura 6. Recorte de resposta do Gemini após a colocação do segundo prompt ............... 56 3.4. O caso exploratório do AI Mode .................................................................................... 59 4 Figura 7. Como o AI Mode surge no motor de busca Google .............................................. 60 Figura 8. Página do AI Mode no dia 14 de Outubro de 2025, com o prompt “Quais as principais notícias do dia?” ................................................................................................... 61 3.4.2. Quadro-síntese com tendências de investigação ...................................................... 62 Tabela 2. Quadro-síntese com tendências para cada espaço ............................................. 63 A importância da literacia digital ligada à IA Generativa...................................................... 67 Desafios e possíveis novos modos de estar do jornalismo e das empresas de media ...... 69 Sumário Executivo 6 Sumário Executivo Este relatório tem como objetivo analisar o impacto que a IA Generativa — e a possibilidade que esta dá ao utilizador de obter sumarizações noticiosas — tem efetivamente no acesso a jornais e notícias online, tendo sido efetuada uma investigação que analisa pesquisas em plataformas de IA (ChatGPT e Gemini) e no motor de busca da Google. Apresentam-se de seguida os principais eixos de análise e conclusões. Introdução e levantamento bibliográfico sobre o impacto das sumarizações no acesso a jornais o Estudos centrados na população em geral apontam para a dissimulação bemsucedida de textos noticiosos gerados por IA generativa, o que vem realçar a necessidade de uma maior literacia digital neste âmbito; o Ademais, mesmo do ponto de vista de jornalistas e estudantes de jornalismo, estudos apontam para essa mesma perceção de qualidade de texto noticioso gerado artificialmente, que parece alcançar bons níveis de objetividade e instantaneidade; o Tal capacidade de dissimular vem por isso complexificar o papel dos jornalistas e da produção e receção noticiosa, nomeadamente à produção de notícias de destaque ou menos profundas (ou seja, a conteúdo mais fácil de replicar por este tipo de sistemas); o Um aspeto realçado neste relatório relaciona-se com a integração de IA Generativa em motores de busca, como é o caso da AI Overview no motor de busca da Google; o Este tipo de IA Generativa diferencia-se por, ao contrário de espaços como o ChatGPT, se revelar essencialmente involuntária, no sentido em que o utilizador que faz uma pesquisa pode não querer necessariamente que surja sumários de IA; 7 o Por sua vez, várias investigações exploratórias e monitorizações internas de empresas de media permitem atestar a correlação entre o surgimento deste tipo de sumarização da AI Overview e a diminuição de visualizações em notícias e websites de jornais; o Tal hipótese, a confirmar-se, é bastante significativa e potencialmente disruptiva, já que confronta os modelos de negócio da generalidade deste tipo de empresas, com uma parte relevante do lucro a surgir da publicidade online e do acesso de utilizadores a websites; o Já no que respeita ao utilizador, o confronto entre um motor de busca «tradicional» na internet e outro motor de pesquisa que integra um sistema de IA Generativa, criando sumarizações, pode resultar numa diferença: no primeiro, o utilizador poderá adotar uma posição mais ativa e de maior curadoria, em oposição, no segundo, a uma postura mais passiva, devido a uma relação direta de pergunta-resposta que este tipo de IA oferece; o Tendo em conta a possível menor vigilância devido a uma maior passividade, aliamse os erros factuais (mal-entendidos, respostas inadequadas, imprecisões, «alucinações») que podem ocorrer, e que diversas vezes ocorrem, nas respostas dos chatbots de IA Generativa; o Ainda assim, apesar desse tipo de erros, a generalidade dos textos ligados a notícias gerados artificialmente parecem eficazes na perceção da população em geral; o Por último, é ainda chamada a atenção para novas questões ambientais e ecológicas trazidas não apenas pela IA Generativa, mas também pelos sumários de motores de busca (ou seja, este tipo de IA Generativa «involuntária»); 8 o Os custos ambientais — consideravelmente mais elevados do que aqueles de uma pesquisa num motor «tradicional» — têm sido motivo de preocupação por parte de instituições como as Nações Unidas, e podem ser tidos em conta aquando de uma discussão concernente a uma sua possível regulação estatal. Capítulos com a investigação efectuada para este relatório o O objetivo da análise efetuada foi explorar, dentro da realidade portuguesa, de que modo as notícias de destaque de um determinado dia são apresentadas em três espaços: ChatGPT, Gemini e o motor de busca da Google; o De índole qualitativa, a análise baseia-se essencialmente na análise discursiva, incorporando elementos de análise de conteúdo, já que é procurado explorar tanto o conteúdo explícito, como os significados sociais subjacentes dentro do texto; o A recolha de dados foi efetuada no dia 10 de Setembro de 2025. Ao todo, participaram na investigação dez utilizadores, de contas separadas, e foram feitas 78 pesquisas. Os três prompts utilizados foram os seguintes: o Quais as principais notícias do dia? o Quais as últimas notícias do Elevador da Glória? o Elevador da Glória. o De realçar que, nesta pesquisa, o motor de busca da Google não apresentou resumos da AI Overview. 15 Introdução O surgimento da Inteligência Artificial (IA) e a sua rápida evolução tem tido consequências consideráveis em vários setores e comportamentos sociais, desde a forma como os indivíduos pesquisam e encontram informação, até à própria indústria do jornalismo, tanto no que respeita à produção de conteúdo informativo como na relação que as empresas de media mantêm com a sua audiência (Dodds et al., 2025). A IA é um termo que envolve diferentes tecnologias, como a aprendizagem automática ou o processamento de linguagem natural — importantes, desde há vários anos, na crescente ligação entre práticas jornalísticas e tecnologia avançada e automatizada (Baptista et al., 2025; Guthrie, 2020; Anderson, 2018). O OberCom tem acompanhado tal evolução nas suas diferentes fases: primeiro, com investigações focadas nos algoritmos e na influência deste tipo de automatização no âmbito jornalístico e da audiência, com relatórios como “Inteligência artificial Vs. Fator humano: Impacto da automatização algorítmica no Jornalismo” (2020) 1 e “Algoritmos e notícias: A oportunidade da inteligência artificial no jornalismo” (2021) 2 . Mais recentemente, com o relatório “IA Generativa: Riscos e oportunidades para o jornalismo” (2025) 3 que discorre concretamente sobre a IA Generativa e a sua capacidade de, excedendo a própria automação de tarefas, corresponder a pedidos de utilizadores humanos e de gerar linguagem, seja em texto, imagem ou áudio. Por último, destaque ainda para o relatório “Jornalismo de Prompt. Boas práticas para a utilização de IA Generativa no jornalismo” (2025) 4 , que se foca na utilização de IA Generativa no jornalismo. 1 https://obercom.pt/inteligencia-artificial-vs-fator-humano/ 2 https://obercom.pt/algoritmos-e-noticias-a-oportunidade-da-inteligencia-artificial-no-jornalismo/ 3 https://www.obercom.pt/ia-generativa-riscos-e-oportuidades-para-o-jornalismo/ 4 https://www.obercom.pt/jornalismo-de-prompt-boas-praticas-para-a-utilizacao-de-ia-generativa-nojornalismo/ 16 Desde o lançamento público do ChatGPT em 2022, pela empresa OpenAI, que este campo da IA Generativa tem sido alvo de uma intensa competição no mercado 5 . Inclusive, empresas digitais mais antigas, como a Microsoft, a Facebook/Meta ou a Google/Alphabet têm procurado não perder terreno, investindo neste tipo de tecnologia e reorientando as suas estratégias tendo em conta o que consideram ser uma nova infraestrutura económica (Couraceiro et al., 2025a). Particularmente, também, esta tecnologia tem-se tornado uma parte integrante e cada vez mais importante no que respeita a motores de busca (Ziakis & Vlachopoulo, 2024), como é o caso mais explícito da AI Overview, que, integrado no motor de busca da Google, gera frequentemente informação no topo da página após a pesquisa. Estas renovadas complexidades vêm colocar novas questões não apenas ao utilizador/leitor que se interessa por conteúdos noticiosos, e que tem na IA Generativa uma nova possibilidade, por exemplo, de aceder a links e sumarizações de notícias; mas também às empresas de media, em que essa mesma sumarização de notícias, como veremos, tem impacto nas visualizações das páginas e notícias no online. A isto acresce a eficácia com que as notícias de IA “passam” por notícias criadas por jornalistas; de facto, o designado «jornalismo automatizado» — termo que engloba a referida independência na geração de texto por parte da IA (Moravec et al., 2024) — tem desde o seu início sido comparado, na qualidade do texto, a notícias criadas por profissionais (Wölker & Powell, 2021; Jung et al., 2017), para além de conseguir alcançar critérios jornalísticos importantes como a objetividade e a celeridade com que divulga a notícia (Liu & Wei, 2019; Haim & Graefe, 2017). 5 https://time.com/6255952/ai-impact-chatgpt-microsoft-google/ 17 Esta capacidade de dissimulação (às vezes, percecionada até como melhor do que um texto produzido por um humano) parece resultar tanto na população em geral (Moravec et al., 2024; Gherheș et al.; 2025) como no caso de jornalistas, inclusivamente em Portugal (Baptista & Gradim, 2024; Baptista et al., 2025). No caso das sumarizações, portanto, a capacidade de gerar texto que se faz passar por o de um jornalista é um fator fulcral nesta temática. Com a intenção de clarificar e explorar a temática, este trabalho procura assim compreender o papel da IA, nomeadamente a IA Generativa, no acesso aos jornais. Como tal, apresenta num primeiro capítulo um levantamento bibliográfico sobre o que tem sido estudado nesse âmbito. Nos capítulos seguintes, é efetuada uma análise — numa investigação desenvolvida especificamente para este relatório — que expõe, no caso português, de que modo as notícias de destaque são apresentadas nomeadamente em três espaços: ChatGPT, Gemini e o motor de busca da Google. Esta análise permite perceber de que modo surge a informação, tanto numa pesquisa noticiosa mais ampla como concernente a alguma notícia ou tema em concreto. A análise é orientada por duas perguntas de partida, alicerçadas na relação entre utilizadores interessados em notícias e pesquisas através de IA: 1. Os sumários noticiosos de IA Generativa são inimigos do acesso aos jornais? 2. O utilizador passa de uma posição ativa — de ir em busca, de aceder às notícias na íntegra — para uma posição passiva, em que a pesquisa é superficial e existe antes um processo de sumarização gerado pela IA, com o qual poderá «saciar» o seu interesse por notícias? 18 Estas questões são respondidas ao longo do relatório, em particular na última secção referente à discussão e a considerações finais. Nesta, são igualmente abordados aspetos referentes à literacia digital da população em geral, no que respeita à IA Generativa e ao seu impacto no acesso a jornais, bem como ideias que iniciam uma discussão sobre aquilo que pode diferenciar o jornalismo atualmente. Por fim, é importante referir que, durante o processo de elaboração deste relatório, ficou disponível pela Google, a 7 de Outubro de 2025, o AI Mode, funcionalidade baseada num modelo recente do Gemini e integrada parcialmente no motor de busca — e que será também explorada, em conjunto com os outros espaços mencionados. Sendo um novo fator nesta temática, parece acima de tudo revelar características fundamentais deste tipo de tecnologia: a sua constante evolução (e rapidez) e a sua cada vez mais eficaz integração no dia-a-dia dos indivíduos — aspetos que tornam premente uma discussão fundamentada sobre o tema. 1. O impacto da IA no acesso a notícias: Tendências e questões prementes na literatura sobre o tema 20 1. O impacto da IA no acesso a notícias: tendências e questões prementes na literatura sobre o tema Sumários noticiosos da IA e da AI Overview, da Google: impacto no acesso a jornais e novas implicações éticas e ecológicas 1.1. A integração de IA em motores de busca e sumarizações noticiosas: ubiquidade de uma prática «involuntária» Foi já mencionada a capacidade de modelos recentes de IA Generativa de gerar texto noticioso similar, ou em alguns casos considerado até melhor, do da escrita de jornalistas humanos — isto é, tendo a capacidade de se fazer passar por escrita humana. O seu potencial revela-se assim incontornável, nomeadamente tendo em conta o tema central deste relatório, que se trata de compreender qual o impacto da IA no acesso a jornais online. Se um texto gerado por IA Generativa — que se verifica atualmente tão comum, por via de modelos como o ChatGPT e o Gemini — pode passar por o de um jornalista, não é concebível que isto torne o próprio acesso a websites de jornais, e a artigos mais detalhados, uma prática desnecessária? É aqui que surge um fator ainda mais recente no que concerne a IA Generativa e que se prende com a integração deste tipo de ferramentas em motores de busca, nomeadamente observável na Google através da designada AI Overview. Esta funcionalidade surge na generalidade das buscas da Google, no topo da página e antes aos links, e é um dos melhores exemplos no que respeita ao investimento e posicionamento no mercado de empresas digitais mais antigas, que procuram não perder terreno no que concerne à IA. 21 Se vários motores de busca já utilizavam, de algum modo, IA integrada (e.g., algoritmos), procurando fornecer resultados mais céleres, precisos e adaptados à pessoa que pesquisa (Alalaq, 2025), a introdução da IA Generativa neste tipo de sistemas veio contribuir, ainda mais, para uma disrupção tecnológica ao nível dos hábitos e das expectativas dos utilizadores. Uma investigação da Ipsos em coautoria com a BBC, de 2024 6 , referia-se já a esse fenómeno que, então, se revelava ainda mais emergente. Se a investigação aí presente mostrava a tendência para o uso ainda relativamente pouco comum de IA Generativa para qualquer fim por parte de indivíduos no Reino Unido, EUA e Austrália — apesar do conhecimento, inclusivamente quanto ao funcionamento da tecnologia, já largamente presente nas perceções das pessoas —, era expectável que esta passasse a ser cada vez mais usada e a tornar-se quase ubíqua, tendo em conta a crescente integração da IA Generativa tanto em sistemas operativos móveis, como nos motores de busca. De facto, é nesse relatório colocada a hipótese de que, nos meses e anos posteriores, se tivesse cada menos consciência daquilo que utiliza ou não utiliza IA Generativa, dada a sua integração em sistemas e práticas já existentes 7 . No que respeita à AI Overview, portanto, o seu carácter mais distintivo é esta integração em práticas já extremamente comuns, como são as das pesquisas em motores de busca 8 . 6 https://www.ipsos.com/en-uk/embedding-audience-putting-audiences-heart-generative-ai 7 Ver p. 11 do mesmo documento. 8 Para se ter uma ideia da dimensão, em Agosto de 2025 a média de pesquisas por dia no motor de busca da Google era de mais de 16 mil milhões: https://explodingtopics.com/blog/google-searches-per-day 22 Não existe, como no caso do ChatGPT, inclusivamente no que respeita à sua integração em dispositivos móveis, um novo espaço, ou um espaço para qual o utilizador terá de se dirigir e para o qual quererá dirigir-se; pelo contrário, a pesquisa no motor de busca da Google ocorre sem necessariamente o utilizador desejar que surja uma sumarização por IA. Acresce a isto que, sendo uma funcionalidade já considerada básica do sistema de busca da Google, a AI Overview não pode ser «desligada», não passando, por isso, pela permissão ou não aprovação dos utilizadores. 9 Esta dimensão involuntária no próprio uso de IA é desde logo um sinal da eficácia com que esta tecnologia se vem integrando na vida social. Tal vem, por outro lado, complexificar a temática de acesso a jornais, já que a AI Overview se revela um novo (e discreto) fator no que concerne ao acesso a notícias; e, ademais, renovar questões éticas — ligadas à privacidade de dados, de resto uma preocupação prevalecente desde o surgimento da IA (King & Meinhardt, 2025; Kakarala & Rongali, 2025; Mbah, 2024) — e até ecológicas, que, como veremos, parecem exponenciar-se com os usos involuntários e quotidianos das buscas dos indivíduos. De forma breve, notar ainda o surgimento do AI Mode, que entrou em funcionamento no período de elaboração deste relatório. Esta funcionalidade da Google, baseada no modelo Gemini, encontra-se parcialmente integrada no motor de busca, com uma página a poder ser acedida pelo utilizador que use o motor. 9 Quanto a esta impossibilidade de «desligar» a funcionalidade da AI Overview, pode ser visto um comentário de um utilizador na página de apoio oficial da Google, que se queixa de a empresa ter, gradualmente, imposto esta função aos utilizadores sem pedir a sua permissão: https://support.google.com/websearch/thread/347500228/ai-overview-is-a-feature-with-no-offswitchrepost?hl=en 23 Esta revela-se uma integração distinta no motor de busca, já que, não sendo tão involuntária quanto o AI Overview, ainda assim está-lhe intimamente ligada e pode servir de espaço para onde os utilizadores que pesquisam podem «emigrar». De referir que tal funcionalidade é explorada no caso exploratório presente no capítulo 3.4. 1.2. Estudos exploratórios e posicionamentos de empresas de media: a ameaça das sumarizações aos modelos de negócio O número de visualizações em jornais online é um dado relevante pela receita que estas empresas obtêm na relação com a publicidade digital. No caso de jornais tradicionais (com presença física e online), para além das fontes clássicas de receita, provenientes de assinaturas e vendas avulsas (e.g., jornais e revistas impressos), a publicidade revela-se normalmente como a fonte mais importante para os media de comunicação em massa — com a publicidade online, devido ao crescendo de novos meios de comunicação, a ganhar cada vez mais preponderância (Murschetz, 2024). Ora, por ser um fenómeno recente, não existem ainda estudos abrangentes ou profundos sobre o verdadeiro impacto que a funcionalidade da AI Overview — ou mesmo as plataformas como o Gemini e o ChatGPT, diga-se — possui verdadeiramente numa eventual diminuição de visualizações em websites. De facto, para apreender o seu impacto total é importante que haja acesso independente tanto aos dados internos da Google, como aos das empresas de media sobre as taxas de cliques em links noticiosos — condições que para já não se verificam e que limitam os estudos e a literatura científica sobre a temática. No entanto, existem investigações exploratórias que permitem atestar esta correlação e colocar algumas hipóteses, para além de já terem sido produzidas diversas reportagens nas quais é possível aferir a preocupação de empresas de media através do que referem ser uma diminuição significativa de visualizações causada, especificamente, por essa recente integração da IA nas pesquisas da Google. 24 Uma notícia da BBC, de Setembro de 2025 10 , refere-se a notícias mediáticas que, em condições normais, resultariam num aumento significativo de visualizações em websites de jornais britânicos, mas que na realidade tiveram pouca tração. Atribui-se a responsabilidade à aparente satisfação dos utilizadores perante sumários da AI Overview — que surgiam mediante a busca por notícias ou por esse tipo de eventos específicos —, e que bastariam para preencher a sua curiosidade. Ou seja, os utilizadores não sentiriam necessidade de clicar em links que os dirigissem a notícias nos jornais. Um outro estudo exploratório, efetuado em Abril de 2025 11 pela Authoritas (empresa dirigida a negócios, promovendo otimizações nas ferramentas de IA) e divulgado em alguns jornais 12 , apurou que, quando a AI Overview e as suas sumarizações se encontram presentes na pesquisa dos utilizadores, os editores verificam, no que respeita aos cliques em links que dirigem o utilizador para a notícia, uma queda de 47,5% no contexto do desktop (e.g., portátil) e de 37,7% no telemóvel. Ou seja, verifica-se uma queda significativa, nomeadamente no contexto do portátil, mas que é também relevante no que concerne a dispositivos móveis. 10 https://www.bbc.com/news/articles/c0mlvryx0exo 11 Os dados desta investigação foram recolhidos através de um conjunto de palavras-chave e frases noticiosas que reflectem notícias publicadas por grandes empresas de media do Reino Unido entre 16 e 22 de Abril de 2025. 12 The Guardian: https://www.theguardian.com/technology/2025/jul/24/ai-summaries-causing-devastatingdrop-in-online-news-audiences-study-finds; Press Gazette: https://pressgazette.co.uk/media-audience-andbusiness-data/google-ai-overviews-publishers-report-clickthroughs-authoritas-report/ 31 Esta trata-se, assim, de uma nova questão dentro da própria IA Generativa, e uma que possui renovadas implicações ecológicas — tema ainda aparentemente pouco discutido no âmbito da IA. Como referem Pachot & Patissier (2023), existe um paradoxo entre uma tecnologia que se revela cada vez mais como uma ferramenta útil no design e conceção de produtos e métodos ecologicamente responsáveis, e essa mesma ferramenta que, por sua vez, possui impactos negativos e relevantes tendo em conta a energia que gasta. Sendo esta tecnologia — tida muitas vezes como um sistema técnico abstrato e intangível — possibilitada por uma infraestrutura física, juntando hardware e software, resulta num consumo significativo de energia, levando a emissões de carbono e a um uso relevante de água para arrefecimento dos centros de dados (OECD, 2022 22 ). Daí que seja sensato promover a necessidade de integrar indicadores ambientais nos algoritmos (Pachot & Patissier, 2023), ou seja, a dimensão ambiental deve ser considerada parte do problema ético, sendo crucial abordá-la de forma a garantir a sustentabilidade da IA a longo prazo. 22 Relatório publicado pela OCDE sobre as questões ambientais surgidas da Inteligência Artificial: https://www.oecd.org/en/publications/measuring-the-environmental-impacts-of-artificial-intelligencecompute-and-applications_7babf571-en.html 32 O custo ambiental de uma determinada prática, no entanto, diz-nos pouco por si só; deve antes ser contextualizado e confrontado com outras práticas similares e de realidades comparáveis. No caso da AI Overview, especificamente, um relatório da International Energy Agency (IEA) de 2024 23 compara a energia gasta por uma pesquisa através desta funcionalidade — surgindo, portanto, uma resposta da IA Generativa — com a energia que é gasta por uma pesquisa num motor de busca tradicional, chegando à conclusão que o custo elétrico é 10 vezes maior no primeiro caso. 24 Neste sentido, o programa ambiental das Nações Unidas (UNEP 25 ), chega a sugerir a todos os países alguns procedimentos a tomar, nomeadamente: o O desenvolvimento, por parte dos governos, de regulamentações que exijam que as empresas divulguem as consequências ambientais diretas dos produtos e serviços baseados em IA; o Aumentar as informações confiáveis sobre o assunto através de procedimentos padronizados que meçam o impacto ambiental da IA; o Que as empresas de tecnologia tornem os algoritmos de IA mais eficientes, reduzindo a sua demanda por energia, ao mesmo tempo, e sempre que possível, reciclando água e reutilizando componentes; 23 Aceder ao relatório aqui: https://managenergy.ec.europa.eu/publications/electricity-2024-analysis-andforecast-2026_en?prefLang=da 24 Ver p. 34 do mesmo relatório. 25 United Nations Environment Programme (UNEP). 33 o Ou ainda que os países incentivem as empresas a tornar os seus centros de dados mais ecológicos, incluindo através da utilização de energias renováveis e da compensação das suas emissões de carbono. 26 No que concerne então a estas questões ecológicas, e mais do que explorar benefícios e malefícios que podem surgir da utilização de IA e de consequências ambientais, é importante ressalvar aqui dois aspetos: (i) que este tipo de custos, não devendo ser impeditivos da utilização da tecnologia, possam vir a ser, de modo mais efetivo, do conhecimento público; (ii) que o carácter «involuntário» de sistemas como a AI Overview contribui para a complexificação de questões éticas relacionadas com o uso massivo de utilizadores, que poderão nem sequer desejar usufruir deste tipo de função. Já numa eventual tomada de posição de empresas de media no que respeita a regulações estatais no uso da IA Generativa e na sua relação com notícias — que, como vimos no caso britânico, já se verifica —, este tipo de questões ecológicas poderão solidificar essa argumentação. Por outro lado, no que respeita aos utilizadores e população em geral, é cada vez mais importante, em linha com o que referem Moravec et al. (2024) sobre iniciativas para mais literacia, que exista uma maior consciencialização a vários níveis: 26 Aceder a página oficial onde estes aspectos são descritos: https://www.unep.org/news-andstories/story/ai-has-environmental-problem-heres-what-world-can-do-about 34 o Naquilo que de facto utiliza IA e IA Generativa (e.g., motores de busca); o No tipo de condicionantes (e.g., equívocos, tendência para passividade) e vantagens (e.g., busca por conhecimento mais objetivo) que este tipo de utilização proporciona; o Pelo adquirir de uma melhor noção de como pode utilizá-la de forma eficaz mediante os seus objetivos; o Ter uma maior consciência dos custos ambientais e de outras questões éticas subjacentes ao uso desta tecnologia. Sublinhe-se que estes aspetos de literacia são discutidos posteriormente, aquando da discussão final sobre o tema. 2. Análise de pesquisa de notícias em Portugal em plataformas de IA Generativa e no motor de busca Google 36 2. Análise de pesquisa de notícias em Portugal em plataformas de IA Generativa e no motor de busca Google Aspetos prévios da análise 2.1. Objetivos, tipo de análise e critérios O objetivo principal desta análise é explorar, dentro da realidade portuguesa, de que modo as notícias de destaque de um determinado dia são apresentadas em três espaços: ChatGPT, Gemini e o motor de busca da Google (como veremos, foi também adicionada uma análise exploratória ao AI Mode). Outros propósitos mais específicos da análise são perceber de que forma a informação, links de jornais e sumarizações por parte da IA surgem; comparar os jornais e fontes que aparecem em cada espaço e pesquisa; perceber se existe sumarização e como ela é feita e estruturada em cada espaço; e ainda verificar se a sumarização tem, ou não, fontes e links associados. Esta análise procura perceber de que modo surge a informação, tanto numa pesquisa noticiosa mais geral, como concernente a alguma notícia ou tema em concreto — como é, aqui, o caso da temática do Elevador da Glória, que sofreu um acidente em Agosto de 2025, do qual resultaram implicações mediáticas significativas. De índole qualitativa, esta análise baseia-se essencialmente na análise discursiva, incorporando elementos de análise de conteúdo, já que é procurado explorar tanto o conteúdo explícito, como os significados sociais subjacentes dentro do texto. Ao mesmo tempo, é auxiliada por elementos da Análise Multimodal, de Ledin & Machin (2016; 2018), que ajuda a focar a análise em elementos visuais dos espaços em questão (e.g., estímulos visuais, existência ou ausência de imagens, estrutura visual da página). 37 Assim, o texto é analisado através de dois tipos de orientações gerais: i) Identificação de aspetos textuais e estruturais (e.g., como se estruturam sumários, temas que surgem, indexação ou não de fontes); ii) Contextualização do texto tendo em conta as temáticas, os espaços virtuais e o diálogo com a realidade social, interpretando possíveis significados presentes no mesmo (e.g., estilo de escrita que se pode fazer passar por o de um jornalista, perceção sobre suficiência noticiosa). Portanto, é pretendida uma primeira identificação de aspetos mais denotativos e, posteriormente, a compreensão de dimensões conotativas, que permitirão compreender melhor os espaços em questão, as suas condições e aquilo que pode fazer refletir no posicionamento e na prática do utilizador. Os critérios de análise, expostos mais adiante na Tabela 1, servem de orientação para a investigação. A recolha de dados foi efetuada no dia 10 de Setembro de 2025. Ao todo, participaram na investigação 10 utilizadores, de contas separadas, para a análise. Destes, 9 utilizadores — cada um com o seu próprio histórico de pesquisas — colocaram três prompts em cada uma das três plataformas, perfazendo, ao todo, 72 pesquisas. Importa referir que, nos casos do Gemini e ChatGPT, foi iniciada uma nova conversação de cada vez que se colocava um prompt, de forma a evitar follow-ups na análise. Um utilizador «extra», que perfaz os 10 utilizadores mencionados, serviu ainda, especificamente, para fazer a análise apenas no ChatGPT, de forma a confrontar duas versões: a última, o CHAGPT-5, e a anterior, o CHATGPT-4. O objetivo tratava-se identificar alguma diferença significativa tendo em conta versões anteriores do sistema. Assim, ao todo, perfazem-se 78 pesquisas ou colocação de prompts nesta investigação. 38 De referir ainda que, de modo exploratório, foi efetuada no dia 14 de Outubro uma pesquisa — utilizando apenas o primeiro prompt — no AI Mode, funcionalidade que apenas foi disponibilizada pela Google a partir de Outubro. As suas características e conclusões são exploradas no capítulo 3.4., sendo igualmente adicionadas ao quadro-síntese que sumariza as tendências para cada espaço. Os três prompts utilizados na análise são os seguintes: 1. Quais as principais notícias do dia? 2. Quais as últimas notícias sobre o Elevador da Glória? 3. Elevador da Glória. O primeiro prompt procura perceber como os diferentes espaços reagem tendo em conta notícias de destaque, sem existir propriamente uma notícia ou tema em concreto. O segundo já tem a intenção de perceber o tipo de texto que surge e eventuais fontes e links, no contexto do tema específico da tragédia do Elevador da Glória (posteriormente, é explicada a escolha por este tema). Por fim, o terceiro procura essencialmente identificar a «noção do contexto» do sistema, já que, tratando-se de um ponto turístico conhecido, foi contudo, nas semanas seguintes à tragédia, alvo de atualizações noticiosas em Portugal e no resto do mundo; assim, seria expectável que a tragédia fosse de algum modo mencionada nos diferentes espaços apenas por via deste prompt. A escolha pelas plataformas Gemini e ChatGPT recaiu pela recorrência com que estas são utilizadas no dia-a-dia pelos indivíduos, permitindo compará-las no que diz respeito à forma como a sumarização é estruturada ou à indexação, ou não indexação, de fontes. 39 Já um terceiro espaço, como é o do motor de busca da Google, vem completar a análise através (i) do confronto com pesquisas no contexto deste tipo de motores, em que os mesmos prompts resultam na apresentação necessariamente distinta de conteúdo e links; (ii) por ser objetivo identificar sumários da AI Overview ou, não existindo, perceber de que modo a informação é apresentada ao utilizador. Quanto aos critérios de análise, que se apresentam na tabela seguinte, é procurado identificar aspetos mais objetivos, como se são indexadas fontes e de que forma; se a escrita sumariada é objetiva e imparcial, ou seja, «jornalística»; ou perceber o nível de «noção contextual» do sistema, isto é, se nomeadamente ao colocar os prompts mais simples (como o de «Elevador da Glória»), o sistema prevê aquilo que nos interessará mais ver, que são notícias. Tem-se também o critério «Suficiência noticiosa do utilizador», que é porventura o de carácter mais interpretativo; a satisfação ou não de utilizadores — no sentido de quererem, ou não, clicar em links e obter mais informação sobre a notícia — é melhor identificada no contacto com os mesmos, nomeadamente através de entrevistas e inquéritos, ou mesmo por via de dados mais abrangentes acerca das suas práticas e de eventuais diminuições de visualizações nos websites. No entanto, considerou-se relevante ter esta categoria, de forma a poder percecionar se um dado conjunto de sumarizações oferece conteúdo e informação que se possa considerar suficiente. Por fim, a categoria concernente à possível «passividade» do utilizador vai ao encontro da possibilidade já colocada neste relatório, e pretende, nomeadamente no confronto entre o motor de busca da Google e os espaços de IA Generativa, perceber até que ponto existem condições — tendo em conta as características dos espaços e a informação aí disponibilizada — para práticas mais ativas ou passivas por parte do utilizador. 40 Tabela 1. Critérios de análise e descrição Critérios de análise Descrição Indexação de fontes • Se indexa hiperlinks e de que forma (e.g., se destacado no topo da página, ou apenas fontes após frases); • Se justifica com base em algum jornal (e.g., Segundo a BBC, …). Tipo de notícias • Temas que surgem; • Se são notícias de destaque ou de reportagem. Tipo de jornais • Identificar o tipo de jornais do qual são retiradas as informações; • Perceber se são jornais nacionais ou internacionais. Subtemas da temática «Elevador da Glória» • Dentro das notícias específicas sobre a tragédia do Elevador da Glória, identificar o tipo de subtemas (e.g., consequências políticas, detalhes do acidente). Estrutura do sumário • Como surge a informação; o que vem primeiro em termos de temáticas. Eficácia da sumarização • Se, dentro do que é possível saber, a notícia parece estar bem sumarizada (e.g., se são esclarecidos pontos principais da notícia). Estilo de escrita e linguagem • Se passa por escrita «jornalística» (e.g., objetividade, imparcialidade no resumo); • Que linguagem costuma utilizar (e.g., português, inglês). Noção contextual por parte do sistema • Perceber se o sistema prevê que queremos conteúdo noticioso sumariado, ou apenas disponibiliza links; • Perceber se o sistema entende e prevê aquilo que queremos saber (e.g., perante o prompt “Elevador da Glória”, se dá notícias sobre a tragédia ou não); • Identificar se o estilo jornalístico e asséptico se mantém, apesar da ausência do termo «notícias» no terceiro prompt. Suficiência noticiosa do sumário • Interpretar, nomeadamente através da informação disponibilizada e da sua aparente eficácia, se a sumarização de uma notícia pode satisfazer o leitor comum; • Se, dada a estrutura e sumário das várias notícias, ou a ausência de fontes, se considera que o utilizador quererá, ou não, clicar em algum dos links ou saber mais de outra forma (ou optará por follow-ups). Maior ou menor passividade do utilizador • Nomeadamente confrontando os espaços de IA Generativa e o motor de busca tradicional da Google, perceber de que forma o utilizador pode ser mais ou menos passivo nas pesquisas que efetua. Fonte: OberCom. 47 Por último no que diz respeito a esta questão, a ausência da AI Overview na pesquisa do primeiro prompt no motor de busca da Google deu lugar à «tradicional» listagem de links, sem imagens, que apresentam como texto o título do jornal e alguma outra indicação (e.g., “Notícias de última-hora”). Em comparação com os espaços de IA Generativa, pode identificar-se — no espaço do motor de busca — a já mencionada aparente menor passividade do utilizador neste tipo de motores de busca, por, necessariamente, o mesmo ter de clicar em algum link de forma a obter conteúdo noticioso. No ChatGPT e Gemini, é expectável o surgimento do sumário, da organização e da categorização temática, que oferecem ao utilizador conteúdo que poderá considerar suficiente; pelo contrário, no motor de busca tradicional existe — mesmo que condicionado por algoritmos e pesquisas anteriores — uma curadoria obrigatória do utilizador que o torna mais ativo neste contexto, tanto na pesquisa inicial como dentro do jornal aquando da navegação no mesmo. 3.2.2. Estrutura dos sumários e apresentação visual No que diz respeito às estruturas dos sumários, e referindo-nos ainda ao primeiro prompt, estas podem modificar de utilizador para utilizador. Contudo, são observáveis padrões em cada um dos dois espaços de IA Generativa, com o Gemini a surgir como mais direto e menos complexo, aparecendo apenas texto; e o ChatGPT apresentando, por outro lado, uma estrutura mais complexa, essencialmente por exibir no topo da página links com imagens para notícias, e no fim uma tabela que sumariza o conteúdo que se encontra mais acima. Porém, ambos apresentam a informação organizada textualmente em categorias de temáticas (e.g., Economia e finanças, desporto), bem como, no fim, um incentivo ao utilizador que queira aprofundar alguma temática fazendo-o no contexto da conversação através de um follow-up. A próxima figura apresenta recortes de uma pesquisa do ChatGPT. 48 Figura 3. Recortes de uma só pesquisa no ChatGPT, tendo em conta o primeiro prompt Topo da página Centro Fonte: ChatGPT . 49 Figura 3. Recortes de uma só pesquisa no ChatGPT, tendo em conta o primeiro prompt (Cont.) Final da página Fonte: ChatGPT Neste exemplo, tem-se um elemento recorrente do ChatGPT perante as pesquisas, que se trata da apresentação de uma tabela (presente na imagem de «Final da página») que sintetiza a informação anteriormente exposta, à mesma, neste caso, com as três temáticas principais (mas já sem links associados). Assim, é aqui denotado um conteúdo consideravelmente estruturado, mesmo que tal tabela possa não ser propriamente eficaz, na medida em que resume o conteúdo que em cima já foi resumido; por outras palavras, poderá ser considerado redundante. Ainda assim, não deixa de oferecer ao utilizador um outro parâmetro visual, estruturado, da informação que lhe foi pedida — aspeto que no Gemini não se verifica, surgindo apenas texto, sem esquemas ou tabelas. 50 Como já foi mencionado e é possível observar no recorte seguinte, surge no Gemini apenas texto (sem indexação de fontes) e a apresentação de um conteúdo mais direto. Figura 4. Recorte no Gemini numa resposta à pergunta “Quais as principais notícias do dia?” Fonte: Gemini. Mais do que a qualidade da informação e sumarização em si, o que parece ser o aspeto mais distintivo entre ambos — para além da mencionada indexação ou não indexação de fontes — é a forma como a informação é disponibilizada, isto é, como se estrutura. E tal dimensão pode também ser analisada do ponto de vista visual, parâmetro em que o ChatGPT se destaca. 51 Tendo em conta elementos da Análise Multimodal (Ledin & Machin, 2016; 2018), que se debruça sobre a dimensão visual do discurso, o ChatGPT, comparativamente, apresentase visualmente mais eficaz, tanto pela disponibilização de links (com imagens) no topo da resposta, como pela identificação de fontes de onde é retirada a informação. Já o Gemini revela-se visualmente menos estimulante, o que se pode compreender, por estar inserido — como de resto o ChatGPT — numa função de chatbot, de conversação com o utilizador, que pressupõe uma relação estabelecida através de texto. Por outro lado, do ponto de vista da análise multimodal, a não indexação de fontes pode também pressupor uma menor legitimidade no que respeita à função de justificar o sumário e credibilizar o seu conteúdo. Ao mesmo tempo, enquanto que no ChatGPT o utilizador pode aceder às notícias no topo (com imagens) ou às notícias anexadas em cada hiperlink após as frases, no Gemini isso não é possível, levantando a questão se o mesmo considerará suficiente e legítima a informação que lhe é gerada. 3.2.3. Diversidade temática e a aparente suficiência noticiosa Tendo em conta a análise efetuada, considera-se que tanto o ChatGPT como o Gemini oferecem diversidade temática como resultado do primeiro prompt “Quais as principais notícias do dia?”. A próxima figura reflete-o, tendo-se criado categorias abrangentes (e.g., política internacional) para cada uma das notícias específicas. 52 55.6% 16.7% 16.7% 16.7% 16.7% 27.8% 33.3% 33.3% 55.6% 61.1% 72.2% Outras (Ciência, prémios, etc.) Elevador da Glória Justiça Tecnologia Criptomoeda Habitação e custo de vida em Portugal Política internacional Política nacional e diplomacia Guerras e conflitos (Israel-Hamas, Ucrânia) Futebol (Selecção, finanças Benfica) Economia e finanças Figura 5. Temáticas que surgem no total de 18 pesquisas no ChatGPT e Gemini com a pergunta “Quais as principais notícias do dia?” Fonte: OberCom. Como é possível verificar, as temáticas mais recorrentes das 18 pesquisas efetuadas no ChatGPT e no Gemini são de economia e finanças (72,2%), normalmente referentes a notícias de âmbito nacional (e.g., inflação da economia portuguesa); de futebol (61,1%), referente à seleção nacional ou às finanças do Benfica, que também poderiam ser contabilizadas no âmbito da economia e finanças; e de guerras e conflitos (55,6%), nomeadamente da Guerra da Ucrânia e do conflito Israel-Hamas. Nestas três temáticas mais recorrentes, portanto, tem-se uma diversidade assinalável, tanto ao nível nacional como internacional. Outros temas de destaque, surgidas num terço das pesquisas, foram política nacional e diplomacia (nomeadamente pela visita do primeiro-ministro de Portugal à China) e política internacional. 53 A categoria “Outras” refere-se a notícias mais esporádicas, como a atribuição de prémios, mas que surgiram em mais de metade das pesquisas, apontando novamente para a diversidade noticiosa e de certo modo para uma certa imprevisibilidade quanto ao que cada resposta poderia trazer em termos de conteúdo noticioso sumariado. Já no que respeita aos subtemas do Elevador da Glória, especialmente observáveis através do segundo prompt (“Quais as últimas notícias sobre o Elevador da Glória?”), são naturalmente menos do que os temas e subtemas presentes nas notícias em destaque. Ainda assim, é visível diversidade quanto a esta temática em específico, cingindo-se principalmente a quatro subtemas e que se referem: o à causa preliminar sobre a causa do acidente; o à investigação em curso tendo em conta a atribuição de responsabilidades, com consequências no que respeita à interrupção de outros funiculares na cidade para vistorias técnicas; o à descoberta da identidade de pessoas que morreram no acidente, a maioria delas estrangeiras; o a decisões governamentais nacionais e concernentes à Câmara de Lisboa, nomeadamente com o decreto de luto, a criação de um fundo de apoio às vítimas e a criação de um portal da transparência sobre o ocorrido. Ou seja, também no que diz respeito ao tema da tragédia do Elevador da Glória, parece existir uma sumarização que pode ser considerada diversa e eficaz, por disponibilizar normalmente ao utilizador informações a vários níveis: técnicos (causas do acidente, investigações e vistorias em curso); políticos (por abordar questões de atribuições de responsabilidades); e concernentes a iniciativas, tanto nacionais como locais. 54 De referir que neste segundo prompt as tendências e estruturas das páginas do ChatGPT e do Gemini mantêm-se essencialmente iguais às que se verificavam no primeiro prompt, com estruturas mais complexas por parte do ChatGPT e mais simples da parte do Gemini. Já no que respeita ao motor de busca da Google, continuou a verificar-se links em forma de listagem e sem imagens, embora mais específicos quanto a notícias da tragédia. Mas também aqui parece surgir alguma diversidade, no sentido em que surgem links — associados de novo a jornais sempre diferentes — concernentes a notícias tanto de âmbito mais técnico como, por exemplo, à identidade das pessoas falecidas. Novamente, contudo, cabe ao utilizador, neste espaço «tradicional» de motor de busca, ter uma posição mais ativa quanto à obtenção e aprofundamento das notícias, que terão necessariamente de dar lugar a cliques e à navegação em websites de jornais. Em jeito de conclusão, é difícil dizer se o conteúdo sumariado da IA Generativa nos espaços em questão são suficientes para saciar o desejo do utilizador em obter conteúdo noticioso. Por outro lado, é sensato afirmar que, se este apenas se quiser inteirar sobre as manchetes ou os destaques de cada dia, a diversidade temática presente nos dois espaços poderá revelar-se suficiente. Ademais, apesar de no ChatGPT se disponibilizar links para notícias, existe neste, tal como no Gemini, o incentivo a que o utilizador permaneça na conversação, já que o sistema prontamente se disponibiliza, no fim da resposta, para aprofundar alguma temática ou notícia que o utilizador queira. De resto, a própria busca neste tipo de espaços — ou seja, em espaços onde voluntariamente o utilizador se dirige, como o ChatGPT e o Gemini — pode indicar a tendência para a busca por esse tipo de conteúdo sumarizado, mais rápido e estruturado por diferentes temáticas. 55 Neste âmbito, e em comparação com o Gemini, o ChatGPT apresenta-se como o espaço mais estimulante em termos visuais e de maior legitimidade (indexando fontes e apresentando links de notícias), e aquele em que em teoria o utilizador poderá utilizar para num primeiro momento se deparar com notícias e, posteriormente, aceder às mesmas e navegar nos websites de jornais. Por outro lado, a menor «legitimidade» do Gemini, surgida da ausência de indexação de fontes, faz surgir a hipótese de que o utilizador procura informação que quer aprofundar através de outros espaços (e.g., outros chatbots, jornais). Este e outros aspetos necessitam de mais estudos, de forma que se percebam melhor os comportamentos dos utilizadores e a relação de maior ou menor eficácia que têm com estes espaços e com a saciação noticiosa que os mesmos lhes poderão dar. 3.3. Noção contextual e estilo de escrita: «jornalismo» e traços de empatia No que concerne ao primeiro prompt, sobre notícias de destaque em geral, a linguagem presente no ChatGPT e no Gemini é tendencialmente tida como «jornalística», essencialmente pela objetividade e imparcialidade que apresenta. Os sumários são diretos, e mesmo as tabelas presentes no ChatGPT fazem denotar uma disponibilização de informação que se quer estruturada e organizada. De resto, os dois primeiros prompts são em si assépticos e diretos, estabelecendo ou determinando aspetos como a linguagem (escritos em português) e, por isso, a tendência para se associar conteúdo a interesses portugueses; e pedindo «notícias», ao que — associando-se desde logo, da parte do sistema, a apresentação de sumários estruturados — pode também pressupor uma linguagem mais próxima da jornalística. 56 Por outro lado, no segundo prompt no qual se pede notícias especificamente sobre o Elevador da Glória, verificou-se a espaços um afastamento da linguagem jornalística, nomeadamente com a adição de termos como “infelizmente” por parte do ChatGPT e do Gemini, ou seja, ambos classificando o tema como sendo infeliz e indesejado. Figura 6. Recorte de resposta do Gemini após a colocação do segundo prompt Fonte: Gemini. Mesmo então perante um prompt asséptico e direto, pedindo notícias, o sistema perceciona a necessidade de, ainda que brevemente — antes de expor a informação resumida de modo similar, para cada um, ao do primeiro prompt —, amenizar a linguagem e torná-la mais empática, por se tratar de um tema delicado do ponto de vista social. De resto, tal característica da IA Generativa não se revela uma novidade; este tipo de sistemas procura ativamente ser empáticos com o utilizador, nomeadamente estabelecendo a médio e longo prazo uma relação com base nas necessidades ou inclinações emocionais do mesmo (Chen et al., 2025). Assim, ainda que numa investigação com prompts diretos, sempre indicados em novas conversações, sem follow-ups, foi visível a espaços a dimensão empática do sistema, deixando o discurso jornalístico e mais asséptico temporariamente de lado. 63 Tabela 2. Quadro-síntese com tendências para cada espaço ChatGPT Gemini Motor de busca Google AI Mode [análise exploratória32] Indexação de fontes — Sim (através de links com imagens no topo, e fontes no final dos resumos de cada tema). — Não, apenas texto. — Sim (através de links e notícias destacadas, com imagens, no topo da página). — Sim, mas apenas no lado direito da página (com imagens e links), não se sabendo diretamente de onde surge a informação sumariada; — Assim, misto entre ChatGPT e Gemini. Estilo de escrita e linguagem — Objetivo, imparcial em notícias de destaque; — Ocasionalmente, revela traços de empatia no segundo e terceiro prompts (numa notícia delicada e trágica); — Alguma inconsistência em termos de português (por vezes de Portugal, outras vezes do Brasil), ocasionalmente com termos em castelhano (e.g., “Destaques clave”); — Diversas respostas em inglês no terceiro prompt, por se tratar de um ponto turístico pesquisado por estrangeiros. [Tendências similares do ChatGPT] — Não se aplica, apenas apresenta links e headlines. — Objetivo e imparcial nas notícias de destaque. 32 Apenas 1 pesquisa com o prompt «Quais as principais notícias do dia?» 64 ChatGPT Gemini Motor de busca Google AI Mode [análise exploratória33] Estrutura do sumário e eficácia — Estrutura mais elaborada do que o Gemini; — Disponibilização de links com notícias destacadas e com imagens, no topo da página; — Frequência de disponibilização de esquemas/tabelas que sumarizam, no fim, a informação disponibilizada anteriormente; por isso, existe mais redundância; — Visualmente mais estimulante e com maior «legitimidade» (por indexar fontes). — Estrutura menos elaborada, em comparação com o ChatGPT; — Visualmente pouco estimulante e dependente unicamente de texto. — Não se aplica. — Similar ao Gemini no que diz respeito ao texto; — Visualmente mais completo devido aos links e imagens colocadas ao lado do texto, que entrega alguma legitimidade; ainda assim, o texto em si não apresenta diretamente qualquer fonte. Noção contextual — O sistema parece ter uma noção «jornalística» do contexto (em notícias de destaque ou no tema Elevador da Glória), embora revele pouca noção aquando de um prompt mais isolado (apenas «Elevador da Glória»); — As respostas em inglês no terceiro prompt revelam a suposição de que quem pesquisa é estrangeiro, quando não é o caso, o que aponta para alguma dificuldade de contextualização; — Ao mesmo tempo, a recorrente ausência da menção da tragédia neste terceiro prompt aponta, novamente, para a dificuldade de contextualização e perceção. [Tendências similares do ChatGPT] — Apresenta uma noção contextual grande, nomeadamente no terceiro prompt («Elevador da Glória», para o qual apresenta links noticiosos sobre o evento. [Não se aplica, por se ter colocado apenas o primeiro prompt] 33 Apenas 1 pesquisa com o prompt «Quais as principais notícias do dia?» 65 ChatGPT Gemini Motor de busca Google AI Mode [análise exploratória34] Suficiência noticiosa do sumário — Diversidade temática (e sub-temática, no caso do Elevador da Glória) grande, o que parece saciar o utilizado interessado em sumarizações; — Aparentemente, mais eficaz para a saciação do utilizador no que respeita à diversidade temática que apresenta; — Por outro lado, a apresentação de links e fontes noticiosas pode incentivar mais o leitor a clicar nos mesmos (aspeto que, como foi abordado, não significa necessariamente que o faça). — Diversidade temática (e sub-temática, no caso do Elevador da Glória) grande, o que parece saciar o utilizador interessado em sumarizações; — Aparentemente, mais limitada e possivelmente a saciar menos o utilizador, comparativamente com o ChatGPT; — Ao mesmo tempo, a não disponibilização de links ou fontes poderá fazer com que o leitor interessado em aprofundado continue a conversação com o sistema. — Não se aplica. — Parece eficaz, na medida em que apresenta diversidade temática similar à das outras plataformas. Passividade ou atividade do utilizador — O surgimento de sumários eficazes, num sistema de pergunta-resposta, poderá tender para uma maior passividade do utilizador; — Por outro lado, tal depende da intenção do mesmo, já que poderá aprofundar as temáticas dentro da conversação; — Aqui, também, a disponibilização de links, ainda que condicionada, incentiva o leitor a alguma curadoria, se decidir clicar em algum. — O surgimento de sumários eficazes, num sistema de pergunta-resposta, poderá tender para uma maior passividade do utilizador; — Tal pode ser exacerbado pela não facultação de links e fontes noticiosas; — Por outro lado, depende da intenção do utilizador, já que poderá aprofundar as temáticas dentro da conversação. — Aparentemente mais ativo, por ter de fazer uma curadoria perante os links que surgem (ainda que condicionados por algoritmos). — Tendência mais similar à do ChatGPT, na medida em que a disponibilização de links pode incentivar o leitor a alguma curadoria. Fonte: OberCom. 34 Apenas 1 pesquisa com o prompt «Quais as principais notícias do dia?» Discussão e considerações finais 67 Discussão e considerações finais Literacia digital da população e desafios ao jornalismo e às empresas A importância da literacia digital ligada à IA Generativa Na introdução do relatório foi mencionada a capacidade geral da IA Generativa no que respeita a «fazer-se passar» por um jornalista, com textos eficazes e objetivos; e, nomeadamente por via da investigação efetuada, verificou-se de a potencialidade de as sumarizações saciarem uma parte significativa dos utilizadores interessados em notícias, diminuindo a visualização de notícias. Estes aspetos, que vêm necessariamente modificar a perceção dos indivíduos relativamente ao conteúdo noticioso, podem promover uma discussão acerca de um investimento na literacia digital para a população em geral, adaptada a uma era caracterizada pela IA Generativa e concernente em específico ao seu impacto no jornalismo e nas empresas de media. Neste sentido, consideramos que alguns pontos podem ser tidos em conta num processo de aumento de literacia neste âmbito, de forma que os utilizadores possuam uma maior consciência, nomeadamente: i) Das características da IA Generativa e do que a distingue da IA em geral, e dos dispositivos e espaços digitais nos quais está integrada; ii) Do modo como pode ser utilizada para benefícios próprios (e.g., pesquisa objetiva), bem como das potenciais desvantagens de um sistema de perguntaresposta (potencial passividade); 68 iii) Da diferença entre a sumarização e a notícia integral, com a perda de informação que daí pode resultar; iv) De que a sumarização da IA pode estar ou equivocada ou mal construída, não substituindo a destreza do próprio utilizador no que respeita à leitura integral da notícia; v) De que, ao apenas ler esses sumários, sem clicar em links que acedem a jornais, estão a prejudicar as empresas de media, que podem depender financeiramente deste tipo de acesso; vi) De questões ecológicas e energéticas que surgem da utilização da IA Generativa, nomeadamente enquadrando com outro tipo de práticas comparáveis (e.g., pesquisas em motores de busca sem IA Generativa); Acima de tudo, a literacia digital neste âmbito poderá ser vista tendo em conta dois pontos de partida: I. Dar ao utilizador comum ferramentas para identificar a IA Generativa, onde é usada, as suas vantagens e desvantagens, e o seu impacto no acesso aos jornais, bem como ambiental; II. Em termos práticos, promover um uso mais saudável deste tipo de tecnologia, oferecendo know-how ao utilizador para fazer pesquisas de forma mais eficaz (e.g., melhor utilização de prompts, pesquisa mais objetiva). 69 Estes são alguns pontos iniciais para uma discussão que se pretende aprofundada. Ademais, Moravec et al. (2024) identificam a necessidade de uma maior literacia digital no âmbito da IA Generativa que tenha em conta cada variável populacional (e.g., género, idade, condição económica) dadas as especificidades e diferenças encontradas na perceção de cada uma delas. A título de exemplo, verificou-se que a identificação de textos gerados artificialmente parece ser especialmente eficaz por parte de população mais jovem e com mais habilitações literárias (Moravec et al., 2024). Desta forma, o investimento na literacia digital terá de ser estudado ao pormenor e ter uma base forte, de forma que se revele mais eficaz para diferentes campos sociais, desde o mais abrangente, como a população geral, até aos mais específicos, como estudantes, educadores e mesmo decisores políticos (Sergeeva et al., 2025). Desafios e possíveis novos modos de estar do jornalismo e das empresas de media Estes aspetos trazem-nos também ao jornalismo e às empresas de media. No que respeita à investigação presente na segunda parte deste relatório, esta centrou-se no utilizador e leitor comum interessado em notícias, procurando simular o modo como pode obter informação noticiosa neste tipo de espaços de IA Generativa. Ainda assim, a prática jornalística — bem como os seus modelos de negócio, ainda que simplificados e aqui tidos de modo mais amplo — são aspetos que se encontram necessariamente presentes; a conclusão e possibilidade que foi elencada — de que a relação entre utilizador e notícia pode estar a modificar profundamente com a IA Generativa — vem dialogar com os limites e as mudanças da produção e disseminação noticiosa, ou seja, àquilo que as empresas de media e os jornalistas poderão fazer de distinto daqui para a frente. 70 Naturalmente, o posicionamento que o jornalismo e as empresas podem ter relativamente ao desenvolvimento da IA e da IA Generativa é uma questão complexa, que não tem uma só resposta; além disso, depende em grande parte do contexto, ou seja, da dimensão da empresa, das suas intenções e posicionamento no mercado, dos recursos digitais e humanos, do país em que se encontra, entre outros fatores. Os aspetos aqui mencionados terão por isso de ser vistos como sugestões abrangentes, que acima de tudo promovem uma discussão sobre a temática. Mas o papel dos jornalistas e deste tipo de empresas pode ser desde logo útil no contexto do referido aumento de literacia digital, no âmbito da IA Generativa, à população geral e a outros tipos de campos sociais. O seu know-how no que concerne à produção e receção noticiosa é valiosa e deve ser transposta para outras áreas, o que por sua vez poderá também consciencializar a população sobre a temática e auxiliar os jornais. Ao mesmo tempo, revela-se importante atualizar de forma abrangente e frequente as necessidades dos jornalistas e das redações concernentes ao uso deste tipo de tecnologia, nomeadamente por via de inquéritos e entrevistas. Tal ajudará a identificar, por exemplo, em que ponto uma dada redação se encontra no uso destas ferramentas; as razões por que as usam ou não usam (e.g., falta de recursos, falta de know-how específico, por verem pouca utilidade nas mesmas); ou ainda de que modo a relação com o público pode ter modificado, e por que meios pode ser reorientada. Outras possibilidades poderão passar por alguma reformulação do conteúdo noticioso em si. Como vimos, as notícias tratadas neste relatório são normalmente de destaque, ligadas a headlines, que facilitarão uma dissimulação textual por parte da IA Generativa. 71 Assim, pode ser pertinente repensar até que ponto a prática jornalística se poderá inclinar mais para o «slow journalism» (Le Masurier, 2015; Greenberg, 2013), conceito que contrabalança o frenesim informativo no online e se revela não apenas na dimensão temporal, ou seja, referente à produção de reportagens mais profundas — de resto já características de artigos de revistas, que podem ser lidos ao longo de mais tempo; mas também no que respeita à criação de uma diferente ligação com o leitor, estabelecendo uma maior transparência sobre a forma como a informação é obtida e por exemplo outorgando ao leitor, no digital, documentos de origem, elementos de pesquisas de fundo e outras notícias relevantes (Le Masurier, 2015). Em suma, este tipo de prática poderá contrabalançar uma vastidão informativa existente no online; por outro lado, pelo menos em parte, poderão fazer surgir um novo tipo de linguagem, porventura mais à base de técnicas narrativas e menos próximo do estilo expositivo, algo mecanicista, da generalidade das notícias (Le Masurier, 2015) — estilo este que poderá beneficiar a IA Generativa no que respeita à sua eficaz dissimulação. Por outras palavras, é apostar num conteúdo que seja mais dificilmente replicável por este tipo de sistemas, ou, inclusivamente, em que a sua sumarização se revele pouco útil, por o interesse se centrar na integralidade do texto e nos aprofundamentos posteriores que o leitor pode fazer. Isto pode também ser obtido pela existência de conteúdo exclusivo, que se equilibre com um outro mais acessível e menos aprofundado. De resto, e de um ponto de vista mais «comunitário», pode igualmente ser interessante fortalecer a existência de canais digitais (e.g., newsletters, aplicações como o WhatsApp) que permitam um envolvimento mais direto com o público, diminuindo a intermediação digital ao reduzir a dependência que se tem dos motores de busca e do conteúdo que surge ao utilizador. 72 Estas e outras sugestões, como a do investimento em conteúdo multimédia (e.g., vídeos), podem assim ser pertinentes, dependendo, realce-se, do tipo de empresa e contexto em que se encontra. Contudo, o que também parece importante nesta fase é as empresas de media monitorizarem de perto as alterações na visibilidade da pesquisa, compreendendo de que modo a IA se encontra a manejar o seu conteúdo, o que lhe permitirá ajustar estratégias em conformidade. Concluindo, o que vimos ao longo deste relatório é que a relação do jornalismo e dos media com a IA e a IA Generativa possui um misto de vantagens e desvantagens: as primeiras, por poderem ser ferramentas no combate à desinformação e numa maior eficácia do trabalho jornalístico, se usadas corretamente; as últimas, por virem complexificar ou exponenciar não apenas, paradoxalmente, a questão da desinformação e de novos meios de disrupção de credibilidade noticiosa, mas também por colocarem desafios às empresas de media, nomeadamente pela aparente diminuição de visualizações que causa. Assim, é necessário não apenas confrontar consequências deste tipo de ferramentas, que poderão causar inclusive mudanças de carácter mais profundo na práxis jornalística, mas também integrá-las, de um ponto de vista de complementação e supervisão, no dia-a-dia da indústria. Considerações finais Considerando as perguntas de partida expostas na secção introdutória deste relatório, a primeira coloca a hipótese de os sumários noticiosos de IA Generativa serem inimigos do acesso aos jornais; pese embora a literatura ainda parca neste âmbito, a tendência que se verifica parece ser a de as empresas de media verem-nos como elementos perturbadores do número de visualizações dos seus websites, o que é justificado por alguns dados e pela monitorização interna das mesmas. 79 Ledin, P., & Machin, D. (2018). Doing Visual Analysis: From Theory to Practice. SAGE. Liu, B., & Wei, L. (2019). Machine Authorship In Situ: Effect of news organization and news genre on news credibility. Digital Journalism, 7(5), 635–657. https://doi.org/10.1080/21670811.2018.1510740 Mbah, G. O. (2024). Data privacy in the era of AI: Navigating regulatory landscapes for global businesses. 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