Oficina de cartografia social: elaboração de mapas temáticos
Abstract
Projeto EducAPA: Mapeamento participativo da APA de Santa Rita Simone Affonso da Silva (org.) Capítulo 6 - Oficina de cartografia social: elaboração de mapas temáticos COMO CITAR O CAPÍTULO SILVA, Simone Affonso da et al. Oficina de cartografia social: elaboração de mapas temáticos. In: SILVA, Simone Affonso da (org.). Projeto EducAPA: Mapeamento participativo da APA de Santa Rita. Maceió: Editora IVIDES, 2026. cap. 6. p. 161-225. DOI: 10.5281/zenodo.17873359. LICENÇA Creative Commons Attribution Non Commercial No Derivatives 4.0 International (CC BY-NC-ND 4.0) https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/legalcode LIVRO COMPLETO: https://doi.org/10.5281/zenodo.17888615
Full text
6 OFICINA DE CARTOGRAFIA SOCIAL: ELABORAÇÃO DE MAPAS TEMÁTICOS Simone Affonso da Silva1 André Brasil de Lima Antonio Mafficioni Claro da Silva Erivelton da Silva Felix Gabriela de Freitas Cavalcante Giovane Alexandre Alves da Silva Ingrid Marcelino Afonso da Silva Jeane Borges dos Santos João Victor Santos Caldeira Joice Kelly de Lima da Silva Kevin Brandão Souza Lara Beatriz de Lima Ferreira da Silva Leandro Matias dos Santos Marcos Felipe de Jesus da Silva Maria Junielle da Silva Santana Melquisedeque da Silva Viana Mikael Eduardo Silva Ferreira Pedro Emmanuel Ferreira Silva Com a utilização da cartografia social, permite-se a construção coletiva de informações geoespaciais, por meio do uso de instrumentos técnicos de medição, de mapas cadastrais e de imagens de satélite, além da elaboração de mapas mentais, mapas temáticos, maquetes e outros produtos. Além do acesso de populações aos instrumentos e técnicas, há a transferência de tecnologia e da capacitação para quem antes era excluído do processo de mapeamento, propiciando, assim o reconhecimento do território por essas populações (Pelegrina, 2020). 1 Docente do Instituto de Geografia, Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal de Alagoas - IGDEMA-Ufal. [email protected]. Projeto EducAPA. Mapeamento participativo da APA de Santa Rita Voltar ao Sum ário 161
Oficina de cartografia social: elaboração de mapas temáticos As técnicas de mapeamento coletivo utilizando um mapa de referência e a metodologia ativa da rotação por estações utilizadas na 2ª Oficina de Cartografia Social do subprojeto Mapeamento Participativo da Área de Proteção Ambiental (APA) de Santa Rita, do Projeto de Educação Ambiental e Planejamento Participativo nas APAs de Alagoas (Projeto EducAPA), nos permitiram abordar temas específicos relevantes para a área: aspectos socioeconômicos, socioambientais, socioculturais e potencialidades e demandas da unidade de conservação (UC) ambiental. Os temas foram definidos a partir dos resultados da 1ª Oficina, apresentados no capítulo anterior, considerando-se também o Plano de Manejo da APA de Santa Rita (IMA, 2022). Conforme Souto, Menezes e Fernandes (2021); Risler e Ares (2013) e Acselrad (2013), esse tipo de mapeamento participativo é utilizado quando é necessária a acurácia posicional, funcionando bem com imagens áreas ou de satélite ou mesmo mapas cadastrais. Como há disponibilidade da base cartográfica, os pontos, linhas e polígonos inseridos no mapa coletivo são posteriormente vetorizados e georreferenciados no pós-processamento dos materiais produzidos na Oficina de Cartografia Social. Além disso, o mapa de referência ou imagem de satélite utilizado na atividade serve para auxiliar as pessoas pouco familiarizadas com convenções cartográficas a avançar na alfabetização cartográfica, de forma que os participantes entendam conceitos como proporção (escala) ou precisão e acurácia posicional. A criação de layers (camadas) temáticas para o mapa, sequencialmente, permite aos participantes aprofundar gradativamente suas leituras e interpretações do território. A 2ª Oficina de Cartografia Social – Elaboração de Mapas Temáticos foi realizada no dia 29 de abril de 2023, na Escola Estadual José Correia da Silva Titara, com a participação da coordenadora do Projeto EducAPA, Prof.ª Dr.ª Simone Affonso da Silva; do Prof. Dr. Roberto Luiz dos Santos Antunes, docente convidado do Instituto de Geografia, Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal de Alagoas (IGDEMA/Ufal); nove discentes do curso de Geografia do IGDEMA/Ufal (licenciatura e bacharelado); dois discentes do curso de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGG) do IGDEMA/Ufal; três técnicos do IMA e 100 participantes da comunidade escolar, em sua maioria, estudantes. METODOLOGIA A confecção dos mapas temáticos se dividiu em três momentos: 1) elaboração de 24 mapas na Oficina de Cartografia Social para levantamento e espacialização de informações socioeconômicas, socioambientais, socioculturais e de potencialidades e demandas da APA de Santa Rita; 2) análise do conjunto de mapas elaborados na oficina e pós-processamento de seu conteúdo usando o software QGIS, de maneira a classificar e reorganizar as informações para confecção de mapas síntese; e 3) exposição dos mapas síntese, a fim de se obter sugestões de ajustes e validar o material. A seguir, descreve-se a metodologia desses momentos. 162 Voltar ao Sum ário Projeto EducAPA: Mapeamento participativo da APA de Santa Rita
Simone Affonso da Silva et al. Momento 1: realização da oficina na escola A partir de seus conhecimentos, os participantes foram convidados a desenhar sobre os mapas de referência da APA de Santa Rita, disponibilizados pela equipe do Projeto EducAPA. A oficina teve início com uma breve apresentação do Projeto EducAPA e da equipe do subprojeto Mapeamento Participativo da APA de Santa Rita, seguida de orientações gerais para a execução da atividade (Fotos 1 a 6), especificando os temas que seriam abordados, a duração da atividade e seus objetivos. Essa parte inicial teve duração aproximada de 20 minutos. Foto 1 – Boas-vindas aos participantes da oficina. Crédito da foto © José Thiago Olegário, 29/04/2023. Foto 2 – Boas-vindas aos participantes da oficina. Crédito da foto © Simone A. da Silva, 29/04/2023. Foto 3 – Apresentação do Projeto EducAPA. Crédito da foto © André Brasil, 29/04/2023. Foto 4 – Orientações para o mapeamento. Crédito da foto © José T. Olegário, 29/04/2023. Foto 5 – Apoio dos técnicos do IMA. Crédito da foto © Simone A. da Silva, 29/04/2023. Foto 6 – Apoio dos técnicos do IMA. Crédito da foto © Simone A. da Silva, 29/04/2023. Fotos 1 a 6. Apresentação do Projeto EducAPA e orientações para o mapeamento coletivo. Projeto EducAPA. Mapeamento participativo da APA de Santa Rita Voltar ao Sum ário 163
Oficina de cartografia social: elaboração de mapas temáticos Na sequência, os 100 participantes foram divididos em seis equipes, cada qual sob orientação de um discente do IGDEMA/Ufal (facilitadores). Coube aos técnicos do IMA, ao professor convidado do IGDEMA e à coordenadora geral do Projeto EducAPA circular entre as equipes para prestar apoio aos facilitadores, sanando dúvidas quanto à execução da atividade, oferecendo informações e dados específicos sobre a APA de Santa Rita para os participantes, auxiliando na (re)distribuição de materiais, buscando atender a demandas específicas de cada grupo e atuando na resolução de problemas que surgiram durante a realização da atividade. Cada sala de aula acolheu uma equipe. Em extremidades diferentes da sala, foram dispostos quatro mapas de referência da APA de Santa Rita (Figura 1), acompanhados de perguntas norteadoras (Quadro 1), elaboradas de acordo com informações obtidas nas oficinas precedentes e no Plano de Manejo da APA de Santa Rita (IMA, 2022). Também foram anexados exemplos de mapeamentos coletivos feitos em outros projetos. Cada extremidade com um mapa temático compunha uma diferente etapa do processo de mapeamento coletivo, ou seja, uma “estação” da metodologia ativa da rotação por estações. Os mapas foram dispostos em mesas, no chão ou foram fixados na parede das salas, de maneira a propiciar distintas experiências aos participantes de cada equipe. Nas salas, as equipes foram subdivididas em quatro grupos (Fotos 7 a 11) e cada um iniciou a atividade em uma das estações, ou seja, inserindo informações em um dos mapas temáticos. A cada 20 minutos, aproximadamente, os grupos trocavam de estação, de maneira que, ao final da oficina, eles haviam passado por todas as estações presentes em sua respectiva sala. A cada nova estação, o grupo observava as questões norteadoras atinentes àquele mapa temático e as informações previamente adicionadas ao mapa pelo grupo anterior. Assim, cada equipe elaborou quatro mapas temáticos, com a contribuição de cerca de 16 participantes. No final, tivemos seis mapas de cada tema, totalizando 24 mapas. Os participantes utilizaram canetas coloridas, lápis, lápis de cor e giz de cera, disponibilizados pelo Projeto EducAPA, para confecção das camadas de informação (layers) dos mapas, de acordo com os temas de cada estação (Fotos 12 a 17). Para cada tipo de situação existente, um ícone, ponto, linha ou polígono foi desenhado no mapa de referência. Em seguida, tal simbologia foi adicionada no espaço reservado na folha para a legenda do mapa e, partindo da concepção da pessoa que o fez, o seu motivo e significado deveriam ser anotados junto com a legenda ou explicados ao facilitador, que tomava notas. Todo esse procedimento serviu, no final, para organizar o processo de mapeamento e facilitar a posterior análise dos dados. Essa parte da oficina teve duração aproximada de 1 hora e meia. 164 Voltar ao Sum ário Projeto EducAPA: Mapeamento participativo da APA de Santa Rita
Simone Affonso da Silva et al. Quadro 1. Estações e perguntas norteadoras da 2ª Oficina de Cartografia Social do Projeto EducAPA Estações Perguntas norteadoras Mapa socioambiental Quais são as áreas com as paisagens naturais mais preservadas na APA? O que tem nesses lugares? Exemplos: Áreas preservadas/naturais: praias, cobertura vegetal natural (mangue, restinga, matas, florestas etc.), lagoas, canais lagunares etc. Quais são as áreas com maior degradação ambiental? O que tem provocado isso? Exemplos: Desmatamento pela urbanização ou por atividades agropecuárias. Urbanização precária. Queimadas. Polução do ar, da água e dos solos por lixo, esgotos, resíduos da limpeza de mariscos e resíduos de combustíveis dos barcos. Áreas de risco: alagamentos, enchentes, inundações, deslizamentos de encostas. Pesca predatória (período de defeso, por exemplo), caça ilegal. Perda de habitat para espécies animais, risco de extinção. Assoreamento das lagoas e canais. Escassez de água potável. Pisoteio nos recifes de corais por conta da visitação turística desordenada. Mapa socioeconômico Quais são as atividades econômicas presentes na APA? Onde elas se localizam? Elas são pontuais ou abrangem uma área maior? Exemplos: - Extrativismo Vegetal: madeira, frutos, sementes, raízes, fibras vegetais etc. Animal: pesca, mariscos. Mineral: areia. - Agropecuária Criação de animais: quais? Plantações: quais? - Comércio e serviços Turismo: hotelaria, restaurantes, passeios. Centros comerciais. Serviços especializados ou bens específicos. - Indústria Mapa sociocultural Há grupos ou povos tradicionais presentes na APA? Quais, onde eles se localizam? Exemplos: Indígenas, quilombolas, caiçaras/pescadores artesanais, marisqueiras etc. Quais são as manifestações culturais e religiosas presentes na APA? Onde elas se localizam/concentram? Exemplos: Práticas gastronômicas: cocadeiras. Ritmos e danças. Práticas religiosas e festividades. Você conhece algum patrimônio histórico-cultural na APA? Exemplos: Prédios históricos: igrejas, monumentos etc. Há importantes equipamentos e áreas de lazer de uso coletivo na APA, a exemplo de praças, museus ou centros culturais? Exemplos: Praças. Museus. Centros culturais. Mapa de potencialidades e demandas O que poderia ter na APA? Onde? Exemplos: Áreas que precisam ser conservadas: parques, programas/projetos de criação de santuários para espécies animais, áreas com restrições à ocupação. Áreas que precisam ser recuperadas: reflorestamento, despoluição, arborização. Atividades econômicas que poderiam ser desenvolvidas. Quais? Equipamentos e serviços públicos: escolas, hospitais, praças, museus, centros culturais. Infraestruturas urbanas: saneamento, pavimentação, iluminação pública, segurança pública. Fonte: Elaboração própria. Organizado por Simone Affonso da Silva. Projeto EducAPA. Mapeamento participativo da APA de Santa Rita Voltar ao Sum ário 165
Figura 1. Mapa de referência da APA de Santa Rita, utilizado na 2ª Oficina de Cartografia Social do Projeto EducAPA. Fonte: Elaboração própria. Organizado por Simone Affonso da Silva.
Simone Affonso da Silva et al. Foto 7 – Equipes elaborando os mapas temáticos. Crédito da foto © Simone Affonso da Silva, 29/04/2023. Foto 8 – Equipe analisando o mapa base. Crédito da foto © Simone Affonso da Silva, 29/04/2023. Foto 9 – Equipe elaborando mapa temático. Crédito da foto © Simone Affonso da Silva, 29/04/2023. Foto 10 – Equipe elaborando mapa temático. Crédito da foto © Ingrid Marcelino Afonso da Silva, 29/04/2023. Foto 11 – Equipe elaborando mapa temático. Crédito da foto © Ingrid Marcelino Afonso da Silva, 29/04/2023. Fotos 7 a 11. Organização das equipes e grupos para elaboração dos mapas coletivos. Projeto EducAPA. Mapeamento participativo da APA de Santa Rita Voltar ao Sum ário 167
Oficina de cartografia social: elaboração de mapas temáticos Foto 12 – Participantes elaborando mapa temático. Crédito da foto © Simone Affonso da Silva, 29/04/2023. Foto 13 – Participante elaborando mapa temático. Crédito da foto © Simone Affonso da Silva, 29/04/2023. Foto 14 – Participante elaborando mapa temático. Crédito da foto © Simone Affonso da Silva, 29/04/2023. Foto 15 – Participantes elaborando mapa temático. Crédito da foto © Simone Affonso da Silva, 29/04/2023. Foto 16 – Participantes elaborando mapa temático. Crédito da foto © Simone Affonso da Silva, 29/04/2023. Foto 17 – Participantes elaborando mapa temático. Crédito da foto © Simone Affonso da Silva, 29/04/2023. Fotos 12 a 17. Elaboração coletiva dos mapas temáticos. A criação de diferentes camadas temáticas em cada estação serviu para levantar contrapontos e abrir espaços para discussão, ao incorporar outras nuances do território. Na parte final da atividade, os quatro mapas temáticos foram dispostos lado a lado na sala, em um local visível a todos os participantes da equipe, a fim de 168 Voltar ao Sum ário Projeto EducAPA: Mapeamento participativo da APA de Santa Rita
Simone Affonso da Silva et al. propiciar uma análise comparativa dos mapas e a discussão e socialização dos vários aspectos inseridos nos mapas pelo conjunto de participantes, cabendo aos facilitadores fazer perguntas e observações para dinamizar a discussão. Coube também aos facilitadores, fazer a síntese coletiva oral junto com os participantes, anotando tópicos na lousa da sala de aula, além de fazer registros finais de tais anotações e da discussão dos resultados para posterior análise. Essa parte da oficina teve duração de cerca de 30 minutos. Foram utilizados os seguintes materiais: mapas de referência impressos em A2 (com transparência de 30%, a fim de facilitar a inserção de informações), fita adesiva, canetas coloridas, lápis de cor, giz de cera, lápis, apontadores e borracha. Além disso, foi utilizada uma câmera fotográfica para registrar a oficina, que teve duração total de 2 horas e meia. Como produtos da oficina, foram elaborados 24 mapas temáticos, seis para cada tema, além de anotações por parte da equipe do subprojeto relatando a dinâmica e as discussões feitas em cada grupo e na roda final de síntese coletiva das equipes. Momento 2: pós-processamento dos mapas elaborados durante a oficina Após a realização da oficina, todo o conteúdo dos 24 mapas temáticos foi identificado e incluído numa planilha do Excel, contendo informações sobre os itens, os mapas temáticos nos quais eles foram representados, a sua ocorrência em cada mapa elaborado na oficina, as formas de representação nos mapas originais elaborados coletivamente durante a atividade, as representações que seriam adotadas na confecção dos mapas síntese e a especificação de cada simbologia a ser utilizada, conforme exemplificamos no Quadro 2, a seguir. Assim, foram definidos padrões para os itens e as legendas que comporiam os mapas síntese confeccionados no sistema de informação geográfica (SIG) QGIS. Note-se que um mesmo item seria representado de uma única maneira em todos os mapas, mesmo em temas diferentes. Essa padronização foi feita para facilitar a leitura e a interpretação dos mapas tomados conjuntamente, que se tornam comparáveis, por utilizarem as mesmas convenções cartográficas e simbologias. A escolha da simbologia respeitou as convenções cartográficas e as técnicas da cartografia temática. Não obstante, procuramos, sempre que possível, manter as representações feitas nos mapas originais pelos participantes da oficina. Em alguns assuntos, diferentes simbologias foram utilizadas entre os diversos mapas para representar um mesmo item. Nesse caso, optamos por usar símbolos que fossem mais intuitivos e fáceis de entender na leitura dos mapas, propiciando sua correta interpretação, mesmo para pessoas leigas no assunto ou com baixo letramento cartográfico. A esse respeito, uma das técnicas mais aplicadas na cartografia social é o uso de ícones; logo buscamos, sempre que possível, utilizá-los, respeitando a Projeto EducAPA. Mapeamento participativo da APA de Santa Rita Voltar ao Sum ário 169
Figura 2. Mapa socioambiental elaborado durante a Oficina de Cartografia Social do Projeto EducAPA, em 29/04/2023.
Figura 3. Mapa socioeconômico elaborado durante a Oficina de Cartografia Social do Projeto EducAPA, em 29/04/2023.
Figura 4. Mapa sociocultural elaborado durante a Oficina de Cartografia Social do Projeto EducAPA, em 29/04/2023.
Figura 5. Mapa de potencialidades e demandas elaborado durante a Oficina de Cartografia Social do Projeto EducAPA, em 29/04/2023.
Oficina de cartografia social: elaboração de mapas temáticos Observações dos facilitadores Na visão dos facilitadores, os participantes não estavam familiarizados com técnicas cartográficas, já que, a princípio, demostraram grandes dificuldades em representar cartograficamente o espaço no qual vivem, sendo notáveis as limitações na identificação e localização geográfica das informações. No início de cada rodada, os facilitadores explicaram para os grupos as perguntas norteadoras e como fazer a legenda na parte lateral da folha, seja com pontos, ícones ou áreas coloridas representadas também na legenda, reforçando a necessidade de serem usadas cores e simbologias específicas para cada item. Nesse momento, foram repassadas orientações e sugestões sobre como dar continuidade ao padrão de representação em um mapa que já havia sido trabalhado por outros grupos, de maneira a ter o cuidado de utilizar a mesma simbologia para itens que já haviam sido inseridos no mapa anteriormente quando o grupo atual desejasse complementar com outras ocorrências, evitando-se assim representações distintas para um mesmo fenômeno. Essa parte do letramento cartográfico foi importante para o segundo momento da técnica de mapeamento coletivo: a classificação dos dados e a confecção dos mapas síntese com o SIG. Foi possível notar que a utilização do mapa base com o perímetro da APA e alguns pontos de referência possibilitou uma melhor compreensão do território por parte dos participantes. Assim, durante a elaboração dos mapas, muitos relataram ter conseguido identificar a localização de alguns elementos, possibilitando a inserção de pontos, ícones, linhas e polígonos com maior segurança. Além disso, a ficha com orientações gerais, as perguntas norteadoras e os exemplos de outros mapeamentos coletivos dispostos ao lado de cada mapa foram de grande importância, tendo em vista que os participantes buscaram consultar tais materiais, antes de iniciar a elaboração dos mapas. Porém, se por um lado essas referências foram positivas para auxiliá-los na execução da atividade, por outro, elas induziram um pouco o conteúdo inserido nos mapas, já que alguns grupos se limitaram a atender aos temas das perguntas norteadoras ou a reproduzir os tópicos que constavam nos exemplos. Chamou a atenção, o fato de que em algumas equipes os participantes não quiseram adicionar polígonos aos mapas, apenas colocar pontos no formato de símbolos. A nosso ver, as dificuldades em representar áreas/polígonos no mapa tem relação com a falta de conhecimento sobre a delimitação da área de ocorrência de alguns fenômenos, por isso, os participantes preferiram não se arriscar demarcando uma área no mapa e, portanto, optaram por indicar algum ponto de referência no tópico representado. Além disso, o baixo letramento cartográfico acerca das técnicas de representação em áreas pode ter influenciado nessa escolha, já que há diversas maneiras de preenchimento do polígono, sejam as cores opacas ou com certa transparência e os padrões geométricos ou com texturas, que variam na forma (linhas, pontos, tramas), na direção (vertical, horizontal, diagonal), na espessura e 180 Voltar ao Sum ário Projeto EducAPA: Mapeamento participativo da APA de Santa Rita
Simone Affonso da Silva et al. tamanho das formas, nas cores etc. Não obstante, ao final da atividade, foi possível notar o cuidado que certos grupos tiveram com sua elaboração, principalmente, na legenda. Sobressaiu o fato de que, no geral, os participantes não conseguiram representar locais distantes de suas moradias, o que pode indicar que eles circulam pouco dentro da APA. Ademais, alguns deles não conseguiram se ater ao território da UC, como também relataram faltar ideias do que colocar nos mapas. Ao final da atividade, quando os grupos já haviam passado por quase todos os mapas temáticos, alguns reclamaram que não havia mais informações a acrescentar, pois, segundo eles, o mapa já estaria totalmente preenchido pelos grupos anteriores. Discussões sobre a localização correta de informações aconteceram no decorrer da oficina, bem como sobre a inserção indevida de informações fora da área limite da APA. A esse respeito, foi interessante ver o envolvimento dos participantes, defendendo seus pontos de vista quando havia divergência de ideias, situações que acabaram levando a debates produtivos dentro dos próprios grupos. Às vezes, um participante queria falar de ponto “A” e o outro discordava, pois achava o ponto “B” muito mais importante para se abordar e colocar no mapa. Contudo, esses debates não atrapalharam a oficina, muito pelo contrário, foram importantes e mostraram o quanto são fundamentais os questionamentos e a visão individual de cada um, enquanto sujeito no seu lugar de pertencimento, visto que nem todos são do mesmo bairro ou compartilham experiências em seus territórios de vivência. Notamos que, apesar de a escola estar localizada na APA de Santa Rita, alguns participantes da comunidade escolar não residiam na área, demonstrando problemas em identificar características da UC para inserção nos mapas. Logo, foi necessário incentivá-los a considerar o trajeto que percorreram em seu deslocamento até a escola ou mesmo as áreas que frequentavam em atividades sociais, de lazer ou de trabalho. Em contrapartida, aqueles que residiam na área conheciam bem o bairro da Massagueira, conforme pudemos inferir, observando a maneira como se referiam ao bairro, tendo de ser incentivados a considerar outras áreas da APA. Ainda assim, a maioria focou sua atenção na Massagueira ou no entorno imediato de sua residência. No final da oficina, foram expostos, lado a lado, os quatro mapas temáticos produzidos pelos grupos na rotação por estações. Nessa ocasião, os facilitadores buscaram instigar a comparação dos mapas e as possíveis correlações entre os fenômenos representados, observando-se o conjunto de informações mapeadas. Nessa análise e síntese coletiva, os participantes concluíram que as áreas desmatadas e as ocorrências de queimadas se concentravam nas porções em que havia maior presença humana. Também ficou evidente a grande dificuldade que eles tiveram em imaginar elementos novos para o mapa de potencialidades e demandas da APA de Santa Rita. Além disso, os próprios participantes notaram a concentração de dados na Massagueira e na Barra Nova, apontando a falta de informações em vastas porções da APA. Eles relataram não possuir conhecimento aprofundado de Projeto EducAPA. Mapeamento participativo da APA de Santa Rita Voltar ao Sum ário 181
Oficina de cartografia social: elaboração de mapas temáticos tais áreas, reforçando as premissas da pesquisa e as conclusões da 1ª Oficina, de que o conhecimento da população local se restringe ao seu entorno mais direto de vivência. Houve debates quanto à importância de conhecer melhor a APA e sobre como aqueles mapas auxiliariam na leitura do cotidiano e a visão que tinham da UC. Concluímos que, ao utilizar uma base cartográfica, a atividade propiciou a análise do território de maneira mais acurada, demandando aos participantes, a reflexão sobre temas cruciais para o planejamento e a gestão da APA de Santa Rita e a definição dos aspectos a serem representados no mapa, sendo possível criar um resultado mais preciso, que considera as particularidades e demandas locais. Após a atividade, os facilitadores conversaram com os grupos e com alguns participantes individualmente para que avaliassem a oficina, indicassem se sua percepção sobre APA de Santa Rita e sobre os bairros em que moravam havia se alterado, por conta da participação no projeto; se estavam compreendendo a finalidade do Projeto EducAPA e a necessidade da presença deles enquanto moradores da UC nos fóruns de participação social para o planejamento e gestão ambiental. Foi feito um maior contato com os alunos da escola, que correspondiam à maioria dos participantes, mas vale destacar que a coordenadora pedagógica da escola, Virgínia Miller, estendeu o convite aos pais e responsáveis dos alunos e outros moradores da APA para se fazerem presentes nas oficinas. Contudo, ela relatou dificuldades em envolver a comunidade em projetos participativos e que não obteve retorno conforme o esperado. Momento 2: pós-processamento dos mapas elaborados durante a oficina O processo de sistematização e síntese dos mapas elaborados na Oficina de Cartografia Social do Projeto EducAPA resultou em 12 mapas síntese, descritos e analisados adiante. Sistematização das informações: confecção, descrição e análise dos mapas síntese No conjunto de mapas síntese do tema socioambiental, as representações por área com polígonos mostraram-se mais eficientes para zonas urbanas, áreas preservadas e assoreamento de corpos d’água, entre outros aspectos. Diante disso, face às variações de fenômenos qualitativos, adotamos um preenchimento diferente para cada fenômeno representado, a fim de distinguir tais áreas. Para representar pontos no espaço geográfico, foram utilizados ícones. Para destacar a frequência com que um item específico apareceu no conjunto de mapas de um mesmo tema, considerando sua localização, foram inseridos abaixo dos ícones, nos mapas síntese, pequenos círculos com o número correspondente a tal ocorrência. Os ícones que não estão acompanhados por essa informação correspondem a apenas uma ocorrência no tema. 182 Voltar ao Sum ário Projeto EducAPA: Mapeamento participativo da APA de Santa Rita
Simone Affonso da Silva et al. Note-se que, em alguns mapas elaborados na oficina, constam na legenda, pontos com descarte irregular de lixo, no entanto, essas localidades não foram identificadas no mapa. Em outros casos, o uso idêntico de cores e formas de representação para aspectos diferentes impossibilitou uma correta identificação dos fenômenos indicados nos mapas originais, situações em que optamos por não adicionar as informações no mapa síntese. Houve também situações em que os participantes usaram cores muito claras ou em tons semelhantes ao do mapa original (amarelo e azul), dificultando a interpretação das informações inseridas. Ainda assim, foi possível incluir essas informações no mapa síntese, sendo imprescindível, para tanto, analisar minuciosamente os originais e consultá-los frequentemente para conferência de dados. Levando em consideração os itens inseridos nos seis mapas socioambientais, em alguns casos, foi necessário classificar e agrupar os itens em torno de uma única forma de representação a ser utilizada nos mapas síntese (Mapas 1 e 2), conforme descrevemos seguir. Para “áreas de alagamento”, “pontos de alagamento” e “ruas que alagam”, embora as representações tenham ocorrido em forma de pontos, linhas e áreas, como havia sobreposição de informações entre o conjunto de mapas e considerando a escala cartográfica que impossibilita a representação de localidades específicas, optamos por juntar todas essas ocorrências sob a denominação “área alagada”, utilizando polígonos. Algo semelhante ocorreu em relação à “urbanização precária” e “área de urbanização precária”, representadas com polígonos coloridos, ícones de casas quebradas ou linhas indicando ruas sem asfaltamento, ao passo que optamos, nesse caso, por usar a denominação “urbanização precária” e utilizar polígonos, já que tais feições representativas dos problemas eram muito próximas e, até mesmo, se sobrepunham espacialmente. Projeto EducAPA. Mapeamento participativo da APA de Santa Rita Voltar ao Sum ário 183
Oficina de cartografia social: elaboração de mapas temáticos Mapa 1. Mapa socioambiental: características urbanas e naturais. Fonte: Elaboração própria. 184 Voltar ao Sum ário Projeto EducAPA: Mapeamento participativo da APA de Santa Rita
Simone Affonso da Silva et al. Mapa 2. Mapa socioambiental: problemas. Fonte: Elaboração própria. Projeto EducAPA. Mapeamento participativo da APA de Santa Rita Voltar ao Sum ário 185
Oficina de cartografia social: elaboração de mapas temáticos Mapa 7. Mapa sociocultural: patrimônio e manifestações culturais. Fonte: Elaboração própria. 192 Voltar ao Sum ário Projeto EducAPA: Mapeamento participativo da APA de Santa Rita
Simone Affonso da Silva et al. Mapa 8. Mapa sociocultural: lazer e esportes. Fonte: Elaboração própria. Projeto EducAPA. Mapeamento participativo da APA de Santa Rita Voltar ao Sum ário 193
Oficina de cartografia social: elaboração de mapas temáticos Mapa 9. Mapa sociocultural: atividades produtivas de base local. Fonte: Elaboração própria. 194 Voltar ao Sum ário Projeto EducAPA: Mapeamento participativo da APA de Santa Rita
Simone Affonso da Silva et al. Por sua vez, nos mapas de potencialidades e demandas, uma mescla de simbologias foi utilizada, com polígonos para demonstrar áreas de reflorestamento, de proteção ambiental, que precisam ser recuperadas etc. Também foram usados ícones para designar bares, campos de futebol, bibliotecas, shopping centers e cinemas, entre outros. É dessa forma que as legendas constituem um elemento crucial para facilitar a interpretação dos mapas, uma vez que elas fornecem informações sobre os símbolos cartográficos utilizados. Por meio das legendas, é possível localizar pontos e áreas específicas no mapa, além de observar sua posição geográfica e proximidade com os demais aspectos. Novamente, cabe destacar algumas diferenciações feitas pelos participantes nos mapas originais e que foram mantidas nos mapas síntese (Mapas 10 a 12). No caso dos serviços de saúde, além de manter-se a diferenciação entre UBS e UPA, adotada nos mapas síntese do tema socioeconômico, foi inserido um item específico para representar os hospitais, classificados como serviço de alta complexidade. Note-se que os participantes usaram denominações como “áreas de preservação”, “áreas de conservação”, “áreas que precisam ser conservadas”, “áreas a serem recuperadas”, “áreas para recuperação ambiental”, “áreas para reflorestamento”, “áreas para recuperação ambiental (reflorestamento)” e “áreas para recuperação ambiental (despoluição)”, entre outras. Por conseguinte, optamos por usar “áreas para reflorestamento”, “áreas para recuperação ambiental”, “áreas para conservação ambiental” e “áreas para preservação ambiental”, uma vez que, nas discussões com os participantes, percebemos se tratar de situações diferentes. Na síntese do mapa sobre as atividades econômicas, ainda no escopo das potencialidades e demandas da APA de Santa Rita, os participantes assinalaram a demanda por mais bares na região e o potencial do desenvolvimento da gastronomia regional, não sendo essa limitada à implantação de novos bares e restaurantes, incluindo-se também a produção artesanal de doces, festas e festivais associados à gastronomia, e mesmo a valorização da culinária local. Projeto EducAPA. Mapeamento participativo da APA de Santa Rita Voltar ao Sum ário 195
Oficina de cartografia social: elaboração de mapas temáticos Mapa 10. Mapa potencialidades e demandas: preservação, conservação e recuperação ambiental. Fonte: Elaboração própria. 196 Voltar ao Sum ário Projeto EducAPA: Mapeamento participativo da APA de Santa Rita
Simone Affonso da Silva et al. Mapa 11. Mapa potencialidades e demandas: atividades econômicas. Fonte: Elaboração própria. Projeto EducAPA. Mapeamento participativo da APA de Santa Rita Voltar ao Sum ário 197
Oficina de cartografia social: elaboração de mapas temáticos Mapa 12. Mapa potencialidades e demandas: infraestruturas urbanas e serviços públicos. Fonte: Elaboração própria. 198 Voltar ao Sum ário Projeto EducAPA: Mapeamento participativo da APA de Santa Rita
Simone Affonso da Silva et al. Análise comparativa: mapeamento participativo do Projeto EducAPA e mapeamento do Plano de Manejo da APA de Santa Rita Além da análise apresentada para cada tema, subtema e mapa, é importante examinarmos os resultados do mapeamento coletivo em seu conjunto. Lembrando que no processo de sistematização e síntese das informações, se juntou todo o material produzido por diferentes grupos, ao longo da oficina, e portanto, é de se esperar que, nem sempre, haverá coerência e mesmo coincidência na localização dos fenômenos cartografados, bem como aderência ao compararmos fenômenos, a princípio, correlacionados. Ademais, ressaltamos a seguir a comparação entre os resultados do mapeamento coletivo, realizado conforme os conhecimentos da população local advindos da vivência cotidiana no território, e o zoneamento ambiental apresentado no âmbito do Plano de Manejo da APA de Santa Rita (IMA, 2022), elaborado conforme conhecimentos e levantamentos de cunho técnico e científico (Mapa 13). Utilizamos também outros mapeamentos apresentados no Plano de Manejo para comparar as informações de ambas as fontes. As áreas urbanas representadas no mapa de caracterização socioambiental (Mapa 1) não coincidem com as áreas de urbanização precária representadas no mapa de problemas socioambientais (Mapa 2). Ademais, há grande diferença entre as áreas urbanas mapeadas pela comunidade local na Oficina de Cartografia Social e pelo órgão gestor da UC (Mapa 13), conforme consta no Plano de Manejo da APA de Santa Rita (IMA, 2022). É notável que as áreas urbanas ocupam uma porção maior do território, conforme a metodologia usada no zoneamento realizado para subsidiar o Plano de Manejo da UC. Isso nos indica certa dificuldade dos participantes em reconhecer e delimitar as áreas urbanas (mais restritas do que as áreas de urbanização precária, inclusive) ou mesmo a necessidade de diferenciar e mapear de maneira específica as áreas de expansão urbana e diferenciá-las das áreas urbanas já consolidadas. A percepção sobre a definição, caracterização e delimitação das áreas urbanas, rurais e naturais pode influenciar a leitura do território por parte da população, interferindo, por exemplo, no levantamento de demandas pela instalação de infraestruturas e serviços urbanos ou pela adoção de políticas específicas de preservação, conservação e recuperação ambiental, a depender da situação de ocupação e uso do território. Analisando apenas os mapas síntese da Oficina de Cartografia Social, também não foi possível identificar uma forte correlação entre as áreas urbanas ou mesmo de urbanização precária (Mapas 1 e 2) com as áreas de incidência de alagamentos. Cabe destacar que nas discussões com os participantes, tanto nesta quanto em oficinas anteriores, houve grande ênfase nos alagamentos em áreas urbanas, apontados como um dos principais problemas socioambientais da APA de Santa Rita. Apesar dessa aparente contradição, quando comparamos as informações obtidas nas oficinas com o zoneamento ambiental (Mapa 13) e o macrozoneamento Projeto EducAPA. Mapeamento participativo da APA de Santa Rita Voltar ao Sum ário 199
Oficina de cartografia social: elaboração de mapas temáticos (Mapa 14) da APA, é possível perceber maior correlação entre as zonas urbanas apontadas nos estudos técnicos – zonas vermelhas no zoneamento ambiental e zonas rosas no macrozoneamento – e as áreas de alagamentos indicadas pela população local, haja vista o fato de as áreas urbanas serem mais amplas nos macrozoneamentos municipais do que na delimitação feita pelos participantes da oficina. Ainda assim, não há plena coincidência e correspondência dos alagamentos com as áreas urbanas, até mesmo, porque esses fenômenos ocorrem também em áreas naturais e rurais. Curiosamente, as queimadas, que, a princípio, nos remetem às áreas naturais vegetadas, foram indicadas também nas áreas urbanas identificadas no mapeamento coletivo. Conforme pudemos verificar nas discussões com os participantes das oficinas, há significativa ocorrência de queimadas em pequenos trechos de vegetação nas áreas urbanas, mas também em terrenos baldios, nesse caso, frequentemente associadas ao descarte irregular de lixo, de móveis e outros objetos. A indicação de poluição do ar no mapa de problemas socioambientais (Mapa 2) também se relaciona com a ocorrência da combustão desses materiais, conforme relataram os participantes. No mapa de problemas socioambientais (Mapa 2), alguns grupos indicaram a ocorrência de poluição da água no canal do Jacaré, entre os bairros da Massagueira, Jacaré, Ribeira e Riacho Velho. É importante destacar que, nos mapas de atividades econômicas dos temas socioeconômico (Mapa 3) e sociocultural (Mapa 9), quase todos os grupos indicaram a ocorrência da pesca e da coleta de mariscos nessa mesma área, que seria também uma atividade econômica com demanda e potencial para desenvolvimento, como notamos no Mapa 11. Apesar disso, apenas um grupo inseriu no tema de potencialidades e demandas a necessidade de ações para despoluição do referido canal lagunar (Mapa 12). 200 Voltar ao Sum ário Projeto EducAPA: Mapeamento participativo da APA de Santa Rita
Mapa 13. APA de Santa Rita: zoneamento ambiental. Fonte: IMA (2022).
Mapa 17. APA de Santa Rita: uso da terra e vegetação natural. Fonte: IMA (2022).
Mapa 18. APA de Santa Rita: densidade demográfica. Fonte: IMA (2022).
Oficina de cartografia social: elaboração de mapas temáticos O Mapa 19 mostra que a APA de Santa Rita possui vulnerabilidade da infraestrutura urbana alta ou média. Na sequência, o Mapa 20 mostra o acesso à rede de abastecimento de água. O Mapa 21 exibe dados referentes ao acesso à rede coletora de esgoto e fossa séptica/poço absorvente. O Mapa 22 apresenta os indicadores da coleta e destinação final do lixo. E o Mapa 23 traz dados do acesso à rede de energia elétrica, todos com indicadores médios ou altos, ou seja, uma cobertura relativamente boa desses serviços. As tonalidades mais escuras na legenda representam maior intensidade do fenômeno. No entanto, o mero acesso aos serviços não diz respeito à sua frequência e qualidade, já que pode haver intermitência e mesmo, racionamento no abastecimento de água e no fornecimento de energia, ou até, frequência insuficiente na coleta e destinação final do lixo, por exemplo. São justamente essas, as situações apontadas pelos participantes da oficina, já que há o serviço público em tais localidades, mas ele é precário. 210 Voltar ao Sum ário Projeto EducAPA: Mapeamento participativo da APA de Santa Rita
Mapa 19. APA de Santa Rita: vulnerabilidade da infraestrutura urbana. Fonte: IMA (2022).
Mapa 20. APA de Santa Rita: domicílios com acesso à rede de abastecimento de água. Fonte: IMA (2022).
Mapa 21. APA de Santa Rita: domicílios com acesso à rede geral de esgoto e fossa séptica/poço absorvente. Fonte: IMA (2022).
Mapa 22. APA de Santa Rita: domicílios com acesso à coleta e destinação final de lixo. Fonte: IMA (2022).
Mapa 23. APA de Santa Rita: domicílios com acesso à rede de energia elétrica. Fonte: IMA (2022).
Oficina de cartografia social: elaboração de mapas temáticos Ainda no tema das potencialidades e demandas, o Mapa 12 exibe diversos equipamentos públicos e áreas de lazer para uso cotidiano, como campos de futebol, praças, praça de skate e parque infantil. É interessante notar as nuances na abordagem sobre lazer entre os mapas de temas diferentes. Quando se trata do tema socioeconômico, foram indicados no Mapa 6 praias e balneários, sobretudo por conta das piscinas naturais. Nesses casos, as áreas de lazer estão mais relacionadas com a presença da atividade turística. Quando se trata do tema sociocultural, foram indicados no Mapa 8 campos de futebol, quadras poliesportivas, quadras de areia, praças, área de surf e, secundariamente, praia e balneário, inclusive não todos aqueles mencionados no Mapa 6. Isso sugere que as áreas de lazer e de prática esportiva indicadas no Mapa 8, que possui uma nuance da vivência no território, estão mais diretamente associadas às atividades cotidianas que não necessariamente se desenvolvem nos pontos turísticos, estando, inclusive, mais interiorizadas nos bairros. Apenas um balneário e uma praça foram indicados no mapa de características urbanas e naturais do tema socioambiental (Mapa 1). Além das considerações anteriores, destaca-se também no tema sociocultural a ausência de museus, centros culturais, espaços de eventos e outros equipamentos culturais públicos e privados tanto nos mapas de caracterização atual da APA quanto nos mapas de potencialidades e demandas. Aliás, a partir da leitura dos mapas síntese, percebemos a reduzida quantidade de patrimônios histórico-culturais identificados e localizados pelos participantes, destacando-se a presença de igrejas e festas religiosas, de praças nas quais ocorrem apresentações de dança e de vilas de pescadores. Não sabemos se isso se deu por conta do desconhecimento dos participantes acerca de outros patrimônios, manifestações culturais e comunidades tradicionais na APA ou se de fato há pouca presença, reconhecimento ou mesmo valorização social desses aspectos. Uma curiosidade foi a indicação de cemitérios também no tema sociocultural, além do tema socioeconômico e das potencialidades e demandas. As atividades produtivas de base local, identificadas no tema sociocultural, se associam mais diretamente à gastronomia – cocadeiras, coleta de mariscos, pesca, restaurantes e bares –, com exceção do artesanato (Mapa 9). É interessante notar que outras atividades econômicas inseridas nos mapas do tema socioeconômico poderiam também constar no Mapa 9, como a criação de animais e plantações (Mapa 3) e o turismo, as marinas e os passeios de barco (Mapa 5), já que tais atividades se desenvolvem de acordo com as características locais. Outro ponto que nos chamou a atenção foi a coincidência, em alguns casos, das áreas de pesca identificadas no mapa socioeconômico (Mapa 3) com as localidades em que haveria vila de pescadores, conforme consta no Mapa 7 do tema sociocultural. Houve levantamento da demanda pelo aprimoramento da pesca no Mapa 12, em áreas nas quais a atividade econômica já se desenvolve e nas proximidades de algumas vilas de pescadores, mas não houve a indicação de potencialidades e demandas para o desenvolvimento de outras atividades 216 Voltar ao Sum ário Projeto EducAPA: Mapeamento participativo da APA de Santa Rita
Simone Affonso da Silva et al. econômicas de base local (produção de cocadas e outros produtos artesanais e mesmo da gastronomia local/regional), embora a criação de bares tenha sido citada. Também se sobressaiu, em nosso ponto de vista, o fato de não haver o levantamento de potencialidades e demandas (Mapa 12) referentes às atividades econômicas associadas ao desenvolvimento dos setores industrial e de ciência, tecnologia e inovação (CT&I). Durante as discussões da oficina, foram mencionados os problemas da falta de emprego e da baixa remuneração dos trabalhadores locais, principalmente pelo predomínio de postos de trabalho que não exigem formação específica ou geralmente necessitam apenas de formação de baixa qualificação, a exemplo do extrativismo (pesca), do comércio (shopping centers) e dos serviços (bares). Ainda assim, notamos as dificuldades dos participantes em propor mudanças na base econômica da APA de Santa Rita, vislumbrando outros segmentos produtivos e perfis de empresas e de trabalhadores que pudessem elevar os indicadores sociais. A esse respeito, o Mapa 24 mostra a vulnerabilidade da dimensão renda e trabalho na APA de Santa Rita, em que predominam os níveis médio e baixo nas áreas urbanas, não havendo informações para as áreas rurais. Os mapas subsequentes reforçam a situação de vulnerabilidade por meio de outros indicadores sociais: o Mapa 25 mostra o predomínio, em grande extensão do território da APA, de domicílios com renda inferior a um salário mínimo; o Mapa 26 retrata a vulnerabilidade do capital humano, em que nas áreas urbanas da APA predominam os níveis médio e baixo; por fim, o Mapa 27 indica a predominância de vulnerabilidade social alta e média nas áreas urbanas, não havendo dados para as áreas rurais. Visto que esse conjunto de indicadores pode ter relação com a estrutura produtiva e do mercado de trabalho na UC, seria relevante um olhar mais crítico por parte da população local acerca das atividades econômicas que estão presentes na APA e como elas poderiam contribuir com o desenvolvimento social e econômico da região, observando-se os princípios da sustentabilidade ambiental e da justiça social. Projeto EducAPA. Mapeamento participativo da APA de Santa Rita Voltar ao Sum ário 217
Oficina de cartografia social: elaboração de mapas temáticos CONSIDERAÇÕES FINAIS Em nossa visão, não há uma oposição intrínseca entre os conhecimentos da população local advindos da vivência cotidiana no território e os conhecimentos de cunho técnico e científico produzidos para embasar a gestão ambiental e territorial, já que, em muitos casos, essas fontes se reforçam e sustentam mutuamente, embora em outros, elas explicitem lacunas sobre a espacialização das dinâmicas econômicas e sociais no território. Assim, não é de se estranhar ou surpreender, a falta de aderência entre os mapeamentos realizados pela comunidade local, por meio do Projeto EducAPA, e pelo órgão gestor da APA de Santa Rita. De certa forma, a cartografia social nos propicia analisar, ainda que de maneira qualitativa, a amplitude de tais lacunas. Cabe relembrar que na cartografia social não há um mapa “incompleto” ou “errado”, mas sim, percepções coletivas sobre o território, que nos permitem vislumbrar o que é mais ou menos importante para o grupo social que produziu o(s) mapa(s) em questão. Em nossa avaliação, a escolha dos participantes em adicionar ou não determinadas informações nos mapas vão de encontro à sua leitura do território, mediada por seus conhecimentos, percepções do espaço geográfico e valorização de tal ou qual aspecto, em cada um dos temas abordados, além de seu domínio de técnicas cartográficas para representar seus conhecimentos nos mapas. Neste capítulo, o nosso exercício de analisar os resultados do mapeamento coletivo e compará-lo com o mapeamento técnico exibido no Plano de Manejo da APA de Santa Rita serve para ressaltar e distinguir a percepção coletiva dos participantes da Oficina de Cartografia Social, em relação ao conhecimento técnicocientífico disponível sobre o território, sem, necessariamente, julgar um ou outro como mais “adequado” e “correto”. Por óbvio, quando as informações exibidas em ambos os mapeamentos coincidem, temos duas fontes distintas mostrando a espacialidade e territorialidade de determinados fenômenos, sendo que um mapeamento reforça o outro. Quando não há coincidências ou surgem incoerências entre os mapeamentos, o ideal seria problematizar tais situações e verificar, por meio de visita de campo e outros procedimentos de investigação, o que há de fato no território, atendando-se para que as técnicas de pesquisa empregadas sejam capazes de captar os fenômenos sob análise e depois examiná-los, respeitando-se tanto os conhecimentos tradicionais quanto os científicos, bem como considerando a necessidade de promover o letramento cartográfico. Em nossa perspectiva, nesse contexto, o método da pesquisa-ação se faz necessário e a cartografia social desponta como metodologia de diálogo entre saberes populares e científicos. Além disso, o mapeamento participativo é útil para estimular a conscientização e a mobilização da comunidade, ao promover o diálogo e a troca de conhecimentos entre as partes. Assim, é uma abordagem promissora para a promoção da gestão participativa do território e a construção de um desenvolvimento mais sustentável e justo, especialmente, em áreas protegidas, como na APA de Santa Rita. 224 Voltar ao Sum ário Projeto EducAPA: Mapeamento participativo da APA de Santa Rita
Simone Affonso da Silva et al. REFERÊNCIAS ACSELRAD, Henri (org.). Cartografia social, terra e território. Rio de Janeiro: UFRJ/IPPUR, 2013. INSTITUTO DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE ALAGOAS (IMA). Plano de manejo da Área de Proteção Ambiental de Santa Rita. Versão 3.0. Maceió: IMA, 2022. Disponível em: https://www2.ima.al.gov.br/wp-content/uploads/2025/08/APA-de-Santa-Rita-Plano-de-Manejo.pdf. Acesso em: 29 jul. 2023. PELEGRINA, Marcos Aurélio. Cartografia social e uso de mapeamentos participativos na demarcação de terras indígenas: o caso da TI Porto Limoeiro-AM. GEOUSP – Espaço e Tempo, São Paulo, v. 24, n. 1, p. 136-152, 2020. RISLER, Julia; ARES, Pablo. Manual de mapeo colectivo: recursos cartográficos críticos para procesos territoriales de creación colaborativa. Buenos Aires: Tinta Limón, 2013. SOUTO, Raquel Dezidério; MENEZES, Paulo Márcio Leal de; FERNANDES, Manoel do Couto (org.). Mapeamento participativo e cartografia social: aspectos conceituais e trajetórias de pesquisa. Rio de Janeiro: IVIDES.org, 2021. Disponível em: https://ivides.org/livros. Acesso em: 29 jul. 2023. Projeto EducAPA. Mapeamento participativo da APA de Santa Rita Voltar ao Sum ário 225 COMO CITAR O CAPÍTULO SILVA, Simone Affonso da et al. Oficina de cartografia social: elaboração de mapas temáticos. In: SILVA, Simone Affonso da (org.). Projeto EducAPA: Mapeamento participativo da APA de Santa Rita. Maceió: Editora IVIDES, 2026. cap. 6. p. 161-225. DOI:10.5281/zenodo.17873359.