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Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.18000945 ISSN 2317-5419 579 ADAPTAÇÃO DAS ESCOLAS ÀS MUDANÇAS CLIMÁTICAS: A IMPORTÂNCIA DE CONHECER OS DESAFIOS E OPORTUNIDADES DO PRÓPRIO TERRITÓRIO School Adaptation to Climate Change: The Role of Localized Risk and Opportunity Assessment. Mauro Sergio Pinheiro Lima Biólogo e Pesquisador do Instituto Casad’água Orcid: https://orcid.org/0000-0002-8574-7183 [email protected] Maurício Panella Sociólogo e Pesquisador do Instituto Casad’água Orcid: https://orcid.org/0000-0001-5223-3584 [email protected] Artigo recebido em junho/2025 e aceito em dezembro/2025 ________________________________________________________________________________ RESUMO As emergências climáticas estão provocando mudanças estratégicas e planejamentos em diversos setores da sociedade. Contudo, a educação comumente tem sido subestimada pela gestão pública em sua potencialidade no enfrentamento a estas ameaças. O presente estudo analisou um conjunto diverso de informações, desde dados públicos oficiais a aplicação de entrevistas semiestruturadas e de questionários “on-line”, com foco na inter-relação setorial envolvendo a educação e natureza em planejamentos para adaptação e mitigação aos efeitos das mudanças climáticas. Os resultados mostraram que mesmo previsto alto impacto das mudanças climáticas em 92% da população e avanço nos debates locais, a administração pública do Recife precisa sair da gestão convencional pouco efetiva e olhar para as potencialidades locais que têm maior eficácia e menor custo. A educação, mesmo não contemplada nos instrumentos legais, com diretrizes que adaptem o setor às ameaças climáticas é comprovadamente importante no enfrentamento a estas ameaças. No mesmo sentido, existe um potencial de iniciativas da sociedade civil organizada no Recife, com experiência técnica e motivadora envolvendo meio ambiente, educação e cultura, que também é fundamental e merece atenção pela gestão pública local. Palavras-chave: Educação Baseada na Natureza; escolas; risco climático; mudanças climáticas. ABSTRACT Climate emergencies are driving strategic shifts and planning across various sectors of society. However, education has often been underestimated by public management regarding its potential in addressing these threats. This study analyzed a diverse set of information, ranging from official public data to the application of semi-structured interviews and online questionnaires, focusing on the sectoral interrelationship between education and nature in planning for adaptation to and mitigation of the effects of climate change. The results showed that despite a projected high impact of climate change on 92% of the population and progress in local debates, Recife’s public administration must
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.18000945 ISSN 2317-5419 580 move beyond ineffective conventional management and focus on local potential with greater efficacy and lower cost. Education, even if not included in legal frameworks with guidelines that adapt the sector to climate threats, has proven to be important in confronting these threats. Similarly, there is potential in organized civil society initiatives in Recife, with technical and motivational experience involving environment, education, and culture, which is also fundamental and deserves attention from local public management. Keywords: Nature-Based Education; schools; climate threats; climate change. _______________________________________________________________________________ 1. INTRODUÇÃO Em 2007, cientistas e líderes políticos do mundo formaram consenso quanto às causas do aquecimento do planeta, através do quarto relatório do Painel Internacional Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC AR4), que confirmou a responsabilidade humana pelas emissões de gases de efeito estufa (GEE). A partir de então, intensificaram-se os estudos científicos para analisar os impactos e consequências nos diversos ecossistemas (Hoegh-Guldberg; Bruno, 2010; Pecl et al., 2017) e na sociedade (Levy; Patz, 2015; Moreira; Duarte; Matzarakis, 2023). Contudo, o processo de adaptação da sociedade para o enfrentamento às mudanças climáticas, ainda está muito lento, comparado à taxa de aumento da temperatura global e seus efeitos em populações vulnerabilizadas como pobres, pretos, crianças, idoso, portadores de comorbidades e com baixa escolaridade (Benevolenza; Derigne, 2019; Son et al., 2016). Este contingente populacional está presente em todas as capitais do Brasil, no qual as crianças e jovens correspondem ao dobro do número de adultos e são os que mais sofrem com os efeitos do clima. Além disso, eles estão em um estágio de desenvolvimento cognitivo importante frequentando escolas que, em muitos casos, estão localizadas em áreas de risco (UNICEF, 2023). Mesmo diante deste cenário, a educação ainda é subestimada pela gestão pública nos esforços de adaptação às mudanças climáticas, o que contraria as evidências científicas, que apontam, os efeitos diretos da educação na aquisição de conhecimentos, habilidades e competências necessárias ao enfrentamento das mudanças climáticas, uma vez que as experiências na educação formal proporcionam efeitos duradouros na vida com a melhora da percepção de riscos e aumento da capacidade de planejamento, comunicação e prevenção de efeitos negativos (Muttarak; Lutz, 2014). Em vista disso, o presente estudo analisou a situação da educação da cidade do Recife diante dos elevados riscos de catástrofes climáticas previsto, observando suas características físicas (estrutura urbana), sociais (desigualdade) e como gestão pública percebe as iniciativas em educação baseadas na natureza - EBN que existem na cidade como oportunidades de integração no processo de adaptação da sociedade.
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.18000945 ISSN 2317-5419 581 2. ÁREA DE ESTUDO Importante destacar neste estudo, alguns aspectos da cidade do Recife, capital do estado de Pernambuco, que estão estruturalmente relacionados tanto com os desafios quanto com as potencialidades que possui, no contexto da EBN para enfrentamento das mudanças climáticas. É importante notar que a cidade apresenta um clima tropical úmido, com temperatura média de 30°C e pluviosidade anual superior a 2.000 mm, em uma área de 219 km². O município possui uma planície fluviomarinha com quatro rios que cortam de norte a sul que contribui na formação das várzeas, alagados, ilhas, penínsulas e manguezais (Figura 2) (RECIFE, 2020). Figura 1 - Localização da cidade do Recife, ressaltando o relevo e planície fluviomarinha (limites em vermelho) onde a maior parte da zona urbana se concentra. Fonte: Elaborado pelo autor com informações dos Dados Abertos da Prefeitura do Recife e base cartográfica do IBGE. Recife é uma cidade que, em sua maior área, está entre 2,5 e 5 metros acima do nível do mar, com território formado por 67,4% de morros, 23,3% de planícies, 9,3% de áreas alagadas (aquáticas) e 5,6% de Zonas Especiais de Preservação (RECIFE, 2024a). Além disso, a cidade possui áreas verdes urbanas formadas por 499 praças e parques distribuídos entre os 94 bairros do Recife. Somam-se ainda 25 Unidades de Conservação da Natureza (UCN), duas Unidades de Conservação da Paisagem (UCP), um Jardim Botânico, 15 Jardins Históricos, 54 Árvores Tombadas, Bacia hidrográfica e 98 Imóvel de Proteção de Área Verde (IPAV) (RECIFE, 2024b). Quanto a população humana, Recife cresceu 3% em 14 anos, alcançando 1.587.707 habitantes em 2024, com uma densidade populacional alta de 6.803,60 hab/km², apenas 9% menor que a
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.18000945 ISSN 2317-5419 582 densidade da cidade de São Paulo que tem uma área territorial e população sete vezes maior (IBGE, 2022). A faixa etária do ensino infantil e fundamental, de 1 a 14 anos, corresponde a 134.597 crianças, cerca de 9% da população (IBGE, 2022). Destes, aproximadamente 65.342 estudantes estão matriculados na rede pública municipal em 221 escolas. A quantidade de educadores/as do município neste grupo escolar está atualmente em torno de 13.946 educadoras/es, sendo 92% professoras e 8% professores, segundo o INEP (BRASIL, 2020). No contexto das mudanças climáticas, a cooperação entre a prefeitura do Recife e o ICLEI - Governos Locais para a Sustentabilidade, originou o primeiro inventário de emissões de GEE do Recife (IGEE 1) que indicou em 2012, o transporte como maior emissor, responsável por 65,2% das emissões, seguido pelos resíduos sólidos com 19,4% e demais setores somados com 15,3% das emissões (Recife, 2014). Em sequência, foi criada a Política de Sustentabilidade e de Enfrentamento das Mudanças Climáticas do Recife (Lei 18.011/2014) e posteriormente, a elaboração do Plano Local de Ação Climática da Cidade do Recife (RECIFE, 2020) que teve como base o estudo CAF (2011) que identificou seis riscos para a cidade do Recife de 2011 a 2040, são eles: inundações, deslizamentos, doenças transmissíveis, ondas de calor, seca meteorológica e aumento do nível médio do mar.Texto em Times New Roman, tamanho 12, espaçamento entre linhas 1,5. 3. METODOLOGIA Este estudo foi realizado de junho a outubro de 2024, a partir de uma consultoria prestada ao Instituto Alana em parceria com o UNICEF e adotou a combinação do método rizomático que foca em dados qualitativos e o de geoprocessamento, com dados cartográficos quantitativos que interrelacionam bancos de dados. O primeiro, pode ser explicado como uma metodologia cartográfica rizomática (BARRETO; CARRIERI; ROMAGNOLI, 2020) que guia as estratégias de coleta e análises de dados primários e secundários através de suas inter-relações. Com essa abordagem, foi possível analisar o território com base nas escolas, educadores, estudantes, secretarias e organizações da sociedade civil, em relação aos temas da Educação Baseada na Natureza (EBN) e emergências climáticas. O segundo método relaciona-se ao primeiro através do uso de banco de dados públicos federais (INEP, 2024) e municipais (RECIFE, 2024b), com informações georreferenciadas relacionadas ao estudo CAF (2011) utilizando o programa livre QGIS versão 3.34.9-Prizren. 3.1. Coleta e análise de dados A pesquisa foi organizada com base em dados institucionais públicos de Iniciativas sociais e governamentais, com foco na integração da educação no contexto da EBN. Estes dados secundários
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.18000945 ISSN 2317-5419 583 são compostos por legislações, planos, programas, projetos, dados digitais abertos municipais do Recife, censo populacional e da educação, dados de iniciativas sociais e governamentais (Figura 1). Figura 2 - Esquema de pesquisa que utilizou dados primários das iniciativas em EBN na cidade do Recife e dados secundários como planos, programas, projetos e legislações que inter-relacionem educação e natureza. Fonte: Elaborado pelo autor. Inicialmente foi realizada uma busca ativa de organizações públicas, privadas e da sociedade civil na internet utilizando as palavras-chave “educação ambiental”, “arborização”, “resíduos sólidos”, “lixo zero”, “agroecologia”, “agrofloresta”, “educação e natureza”, “transição energética”, “sustentabilidade”, “desenvolvimento sustentável” e “emergências climáticas”. A partir dos resultados foram agendadas entrevistas, aos quais foram aplicados posteriormente um formulário “online”. Foi utilizado ainda, o relatório do Diagnóstico Educação Baseada na Natureza do território do Recife, produto da parceria entre o Instituto Alana e o UNICEF, que cedeu os dados para o presente estudo. Este diagnóstico contém informações coletadas de Escuta junto a 32 professores/as e 27 alunos/as da rede pública de ensino, realizada pela Grão Núcleo de Desenvolvimento e Serviços Especializados LTDA. Texto em Times New Roman, tamanho 12, espaçamento entre linhas 1,5. 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO 4.1. Fragilidades e Ameaças 4.1.1. Currículo A educação em contato com a natureza é pouco difundida na prática pedagógica. Segundo a maioria dos professores/as (56,7%) da rede municipal do Recife, o processo de ensino e aprendizagem
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.18000945 ISSN 2317-5419 584 fora de sala de aula, em pátios, hortas e praças não é comum nas escolas em que atuam, por falta de espaços externos adequados, segurança e o tamanho das turmas com muitas crianças. Foi relatado inclusive, que o volume de conteúdo do currículo engessa o modelo educacional e desmotiva os/as professores/as. Segundo eles/as, o conteúdo é importante, mas não pode se sobrepor ao tempo da prática que é o que garante sentido para os estudantes no aprendizado efetivo (Grão, 2024a). Estes relatos corroboram a ausência de incentivos nos instrumentos de gestão que orientam a base curricular na educação municipal do Recife, como no documento Sustentabilidade e Mudanças Climáticas (Ensino Fundamental e EJA) e a Política de Ensino Municipal do Recife que não trazem mecanismos metodológicos, formativos com sugestões de momentos específicos para estas práticas (RECIFE, 2021a, 2021b). Além disso, as práticas em ambientes naturais não estão presentes na formação de professores/as da rede municipal. Este fato foi confirmado durante entrevista específica com gestores e com professores/as que relataram a necessidade de conhecer algumas temáticas em EBN, como água e sustentabilidade, educação climática para a sustentabilidade, plantio de hortas, jardins e arborização, gestão sustentável de resíduos, brincar com e na natureza e aprendizagem ao ar livre (Grão, 2024a). 4.1.2. Escolas As localizações das escolas municipais do Recife foram sobrepostas aos mapas de riscos do estudo CAF (2011) que indicou risco alto e muito alto no aumento do calor e que atingirá cerca de 160 escolas municipais do Recife (73%). Pela estimativa existirão ilhas de frescor em poucos lugares da cidade. Apenas 12 escolas, localizadas muito próximas a grandes UCNs, ao Rio Capibaribe e de frente para o mar apresentarão baixo risco de aumento do calor em suas dependências (Figura 3). Outro impacto previsto atingirá aproximadamente 103 escolas municipais do Recife (47%) que correm risco alto e muito alto de sofrer incidência de alagamentos. A região com maior risco está na planície fluviomarinha, área mais plana, por onde passam os rios Capibaribe e Beberibe e está localizada a região estuarina. Além do risco citados, estima-se o risco de aumento de doenças causadas por arboviroses que atingirá 171 escolas municipais do Recife (77,4%). Este risco se distribui amplamente pela cidade, porém, as ZEIS têm maior destaque, tanto nas áreas de morro quanto na planície fluviomarinha (Figura 3). Soma-se ainda, em um outro extremo, o risco alto e muito alto da falta de água para 173 escolas municipais do Recife (78,2%) por estarem em áreas que sofrerão maior incidência de seca ou estiagem severa. A região com maior risco está na ZEIS Casa Amarela, área de morro com 46 escolas. A falta d'água poderá atingir escolas em todo Recife (Figura 3).
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.18000945 ISSN 2317-5419 585 A emergência climática para Recife traz ainda, a ameaça do aumento do nível do mar nas próximas décadas que afetará de forma permanente 16% das escolas que estarão em risco alto de inundação. A área com maior risco está na planície fluviomarinha, na região estuarina, abrangendo as escolas das RPAs 1 e 6 com alerta para 37 escolas (Figura 3). O risco de inundações e alagamentos não atingem as áreas mais altas, porém, 37% das escolas estão em áreas com risco alto ou muito alto de deslizamentos. Na região mais ao norte do município, nas RPAs 3 e 2, existem 46 escolas com esse risco. Isso é observado no extremo norte do município, com 28 escolas sob esta ameaça (Figura 3). Figura 3 - Os seis primeiros mapas estimam quantas, quais e a porcentagem de escolas da rede municipal do Recife que estão em risco de aumentos de calor, alagamentos, deslizamentos, secas, arboviroses e do nível do mar até 2040. O último mapa informa a localização das CIS nos municípios. Fonte: Elaborado pelo autor adaptado de CAF (2021) com dados do INEP e Dados Abertos da Prefeitura do Recife.
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.18000945 ISSN 2317-5419 586 Segundo o relatório de escuta da Grão, cerca de 93% professores/as do Recife têm consciência de que os efeitos das mudanças climáticas já afetam as escolas. Quase metade dos entrevistados (46%) notaram mudanças na estrutura da escola, 64% destes indicaram a instalação de ar-condicionado nas salas de aula e 57% o aumento das áreas impermeáveis das escolas. Estes profissionais já estão vivenciando esses efeitos nas escolas e relatam que episódios de calor extremo, alagamentos, deslizamentos e consequente quedas de energia limitam o acesso e as atividades das escolas. Muitas escolas que não alagam servem como abrigo para moradores que tiveram suas casas alagadas, cancelando as aulas no período. Com base nas principais ameaças climáticas estima-se que 92% das escolas estão sob pelo menos um risco em nível alto e muito alto, com cerca de 25% das escolas sob quatro ameaças e em sete escolas estão previstas cinco ameaças diferentes com os níveis mais altos (Tabela 1). Tabela 1: Quantidade de escolas do Recife que estão sob risco alto e muito alto até 2040. Fonte: Elaborado pelo autor adaptado de CAF (2021) e dados do INEP. 4.1.3. Comunidade Segundo o Atlas das Infraestruturas Públicas das CIS do Recife (2016), a cidade possui atualmente 545 comunidades de interesse social mapeadas que ocupam 32% da área urbanizada do município, principalmente morros, encostas e áreas alagáveis (RECIFE, 2024b), com 57% das escolas municipais de ensino fundamental. Nessas áreas, assim como em todo o Brasil, as crianças e adolescentes são os mais vulneráveis às consequências do clima, em sua maioria, pertencem a famílias monoparentais chefiadas por mulheres negras (UNICEF 2022). Em 23 CIS estão 11 escolas em que a seca meteorológica atingirá severamente as fontes de abastecimento desta população, principalmente nos bairros de Macaxeira, Alto José Bonifácio, Campina do Barreto e Mustardinha, o que ressalta a precariedade social desses bairros. O presente estudo corrobora, as evidências de maior desigualdade social em infraestrutura pública das populações vulnerabilizadas, nas quais as CIS estão sujeitas, como a pequena quantidade de áreas verdes e de coleta seletiva, que são equipamentos públicos importantes para a adaptação da
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.18000945 ISSN 2317-5419 587 sociedade às mudanças climáticas e a abordagens em EBN. Essas comunidades possuem a menor quantidade de praças e parques públicos e ao mesmo tempo, é onde encontram-se a maioria das escolas municipais e apenas 4% dos pontos de coleta seletiva da cidade. Os desafios na gestão destas áreas também são evidentes nas ocupações em áreas de proteção ambiental. Cerca de 33 CIS estão localizadas integralmente ou com limites sobrepostos a alguma UCN, com a presença de seis escolas municipais. Ao sobrepor os dados populacionais das CIS com os riscos previstos em CAF (2021) foi possível estimar o contingente populacional vulnerabilizado sob as ameaças climáticas, o que representa mais da metade da população do Recife, em três dos seis riscos analisados que são o calor extremo, arboviroses e seca meteorológica (Tabela 2). Tabela 2: Estimativa do número de Comunidades de Interesse Social (CIS) e da população vulnerabilizada atingida pelas consequências das mudanças climáticas na cidade do Recife. Fonte: Elaborado pelo autor adaptado de CAF (2021) e Dados Abertos da Prefeitura do Recife. As ondas de calor estão aumentando em frequência, duração e intensidade e já são uma ameaça substancial à saúde humana. Este risco representa o maior e o mais grave dentre os analisados, responsável pela maior mortandade de pessoas no Brasil (Moreira; Duarte; Matzarakis, 2023). Os riscos à saúde causados pelo calor estão mais propícios a populações vulnerabilizadas, especialmente mulheres, crianças e idosos (Son et al., 2016) que podem sofrer complicações cardiovasculares, respiratórias, renais, resultados adversos na gravidez, aumento da ansiedade, depressão, aumento da probabilidade de suicídio e comportamento agressivo (Bell; Gasparrini; Benjamin, 2024). Além disso, o calor extremo causa a redução da função cognitiva em crianças e adolescentes, afetando o desempenho educacional e reduzindo a resiliência na adaptação da sociedade às mudanças climáticas (Ahdoot et al., 2024; Muttarak; Lutz, 2014; UNICEF, 2022). 4.1.4. Cidade O Primeiro Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa da cidade do Recife foi realizado em 2014 e as projeções das emissões de GEE da cidade do Recife de 2020 a 2040 indicaram, caso o mesmo modo de vida da cidade continue, que irá quase quadruplicar, passando de 4.662.930 (2020)
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.18000945 ISSN 2317-5419 594 Os custos per capita da infraestrutura são também mais baixos neste tipo de cidades, tornando os investimentos mais viáveis, principalmente no transporte que possui a maior emissão (CAF, 2021; RECIFE, 2015). Estes aspectos físicos se somam à trajetória de debates e ações, haja vista, que Recife foi a pioneira no mundo ao elaborar o Primeiro Inventário de Emissão de Gases de Efeito Estufa, em 2014. Somado a isto, a cidade é a terceira capital do Brasil com maior área remanescente de Mata Atlântica, 20,6% da mata original (SOS MATA ATLÂNTICA, 2024), possui ainda 1004 áreas e/ou elementos naturais legalmente protegidos e incluídos nas diretrizes do Plano Diretor da cidade. Aliado a isso, as secretarias estadual e municipal possuem experiências exitosas que podem servir como exemplo em EBN nas redes de ensino: o Programa Educar para um Cidade Sustentável da SMAS (inativo), a Escola Flutuante - Águas do Capibaribe da Secretaria da Educação Municipal (Ativo) e o Programa Ambiente + da CPRH em parceria com a Secretaria de Educação Estadual (Ativo). 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS A educação do Recife está sob impacto climático, em especial suas escolas, porém, ainda não entrou diretamente no radar da gestão pública. Além disso, o potencial da educação no enfrentamento às mudanças climáticas é subestimado, mesmo observando, que a cidade possui uma importante construção histórica de discussões, debates, elaboração e implementação de políticas públicas voltadas à conservação e enfrentamento aos efeitos das mudanças climáticas, conservação e proteção de áreas verdes, ainda assim, apresentam pouca ou nenhuma relação intersetorial das ações, planos e projetos, o que aumenta a fragmentação da estrutura de gestão com maiores custos, e pouca eficiência nos resultados. A formação continuada dos professores proporciona em curto prazo a implementação de novas práticas pedagógicas em EBN e, as parcerias com iniciativas públicas e da sociedade civil, é capaz de gerar transformações, adaptações e inovação na infraestrutura dos espaços escolares e das comunidades. A criação de um arcabouço pedagógico específico em EBN e a formação de professores preparados para a nova prática começará a reaproximar a sociedade da natureza com consequências significativas ao desenvolvimento de crianças e adolescentes. O processo de educação de crianças e adolescentes em contato direto com a natureza tornam o aprendizado mais significativo e eficaz, mas isso não quer dizer que a responsabilidade seja só do professor. O professor não pode estar sozinho, deverá ter uma rede de apoio, na escola e fora dela, para viabilizar o processo de EBN. É nesse momento que a atuação intersetorial do poder público e as iniciativas da sociedade civil com práticas educativas em EBN, praças/parques, UCNs e outros
Revista Territorium Terram, v. 08, n. 16, 2025 DOI: 10.5281/zenodo.18000945 ISSN 2317-5419 595 elementos naturais na cidade podem integrar os projetos pedagógicos escolares agregando conhecimento e práticas especializadas sobre cada ambiente natural disponível na cidade. Para isso, a rede precisa ser bem estruturada com informações sistematizadas sobre as instituições, e suas iniciativas asseguradas por mecanismos e instrumentos legais formalizados capazes de manter a rede de apoio com seus projetos e programas integrados ao ensino municipal. REFERÊNCIAS AHDOOT S, BAUM CR, CATALETTO MB, HOGAN P, WU CB, BERNSTEIN A. Climate Change and Children's Health: Building a Healthy Future for Every Child. Pediatrics, Bethesda, v. 153, n. 3, 2024. BARRETO, R. D. O.; CARRIERI, A. D. P.; ROMAGNOLI, R. C. O rizoma deleuze-guattariano nas pesquisas em Estudos Organizacionais. Cadernos EBAPE.BR, v. 18, p. 47–60, 17 abr. 2020. BARROS, M. I. A. Desemparedamento da infância: A escola como lugar de encontro com a natureza. Rio de Janeiro: Instituto Alana, 2018. 59p. BELL, M. L.; GASPARRINI, A.; BENJAMIN, G. C. Climate Change, Extreme Heat, and Health. New England Journal of Medicine, v. 390, n. 19, p. 1793–1801, 2024. BENEVOLENZA, M. A.; AND DERIGNE, L. The impact of climate change and natural disasters on vulnerable populations: A systematic review of literature. Journal of Human Behavior in the Social Environment, v. 29, n. 2, p. 266–281, 2019. BRASIL. INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA (INEP). Catálogo de Escolas. Brasília, DF: Inep, [2020?]. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/acesso-a-informacao/dados-abertos/inep-data/catalogo-de-escolas. Acesso em: 6 de junho de 2024. CAF. Índice de risco climático e estratégia de adaptação para a cidade de Recife. [s.l.] CAF - Banco de Desenvolvimento da América Latina, 2021. GRÃO, ASSESSORIA EDUCACIONAL. Relatório da escuta de estudantes Recife - Pernambuco. Projeto Educacional Socioambiental: Educação Baseada na Natureza. Recife, PE, Alana, 2024b. GRÃO, ASSESSORIA EDUCACIONAL. Relatório da escuta de professores/as: Recife - Pernambuco. Projeto Educacional Socioambiental: Educação Baseada na Natureza. Recife, PE, Alana, 2024a. HOEGH-GULDBERG, O.; BRUNO, J. F. The Impact of Climate Change on the World’s Marine Ecosystems. Science, v. 328, n. 5985, p. 1523–1528, 18 jun. 2010. IBGE. Panorama do Censo 2022. Disponível em: https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/. Acesso em: 29 ago. 2024.
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